Berro! traz discussão sobre direito ao esporte e ao entretenimento para o público LGBTQIAPN+

Berro! traz discussão sobre direito ao esporte e ao entretenimento para o público LGBTQIAPN+

Por: Fernanda Rodrigues

O segundo dia de Berro! (05/11) contou com a apresentação de trabalhos pela manhã na II Jornada Identidades, Gêneros, Corpos e Sexualidades e as mesas LGBTQIAPN+ no Esporte, na Cultura e no Entretenimento.

As palestras aconteceram no auditório 93, no nono andar da Uerj. Foto por Hyndra Lopes

Pela manhã, às dez horas, os trabalhos apresentados na jornada discutiram as questões do esporte e da cultura. O dia contou com a sessão 5 da jornada, coordenada por Diego Cotta, Doutor e Mestre em Mídia e Cotidiano pela Universidade Federal Fluminense IACS/UFF e estagiário pós-doutoral em Comunicação no PPGCOM/Uerj e Marcelo Resende, jornalista, doutorando e mestre em Comunicação pela Uerj. Já a sessão 6 foi coordenada por Débora Gauziski, pesquisadora e professora adjunta da FCS Uerj e Julia Ourique, jornalista e doutoranda em comunicação pela Uerj

Os trabalhos trataram principalmente da representação da comunidade LGBTQIAPN+ nos campos do esporte e do entretenimento. No esporte, a comunidade  é oprimida e tem seus direitos negados – como em muitos outros setores. Nos estádios, por exemplo, pessoas que não se encaixam no padrão hétero normativo são excluídas e inibidas de frequentar esses espaços. Já no entretenimento, a representação desse grupo social é muitas vezes equivocada ou esteriotipada. 

A primeira mesa do dia contou com a presença de Leda Costa, professora da Uerj; Marcelo Resende, jornalista e Marcelo Silva, fundador da Aquatrans, projeto social voltado para pessoas trans. A presença e resistência LGBTQIAPN+ no esporte foi mais uma vez discutida.

A professora Leda Costa foi a primeira a falar, trazendo sua pesquisa sobre a relação do feminino com o futebol, como gênero excluído e violentado nesse campo. Leda revelou que, em dia de jogo de futebol, registros de violência doméstica aumentam em 26%.

A professora deixou uma reflexão sobre masculinidade tóxica e misoginia, passando pelos detalhes de sua pesquisa. No futebol, as mulheres são associadas a uma ameaça ao padrão de feminilidade imposto pela sociedade. A presença das mulheres nos primeiros Jogos Olímpicos (1896), por exemplo, foi proibida. As jornalistas esportivas, também, recebem muitos ataques de ódio, especialmente nas redes sociais. Ou seja, a presença da mulher nos esportes ameaça a figura do “macho”. 

Leda fala, ainda, sobre como se sente acolhida na Uerj, declarando que a Universidade a permitiu “sair do armário” e mencionando as amizades que o trabalho lhe rendeu.

Da esquerda para a direita: Leda Costa, Marcelo Resende e Marcelo Silva, palestrantes da mesa LGBTQIAPN+ no Esporte. Foto por Hyndra Lopes

Marcelo Resende palestrou sobre o corpo LGBTQIAPN+ nos estádios. Marcelo apresentou sua pesquisa, expondo como os “corpos dissidentes” ocupam o espaço em campo. Como já mencionado anteriormente, a área esportiva, principalmente o futebol, oprimem e escanteiam corpos que fogem do padrão heteronormativo. Ele ressalta, porém, que o futebol não é “coisa de macho” , e reivindica o direito universal ao esporte.

O jornalista traz o exemplo de Nando Gald, influenciador torcedor do Vasco que desafia os padrões de heteronormatividade impostos em campo. Performando sua sexualidade da forma que ele bem entende, Nando não se intimida com a homofobia no futebol e luta por um campo mais democrático. Resende traz ainda a relação entre as brigas de torcidas e o ideal de masculinidade imposto em campo.

Para encerrar a mesa, Marcelo Silva, professor de educação física e fundador da Aquatrans, levou à mesa a pauta das pessoas trans no esporte. Marcelo é também professor de natação no Vasco e ceo da 7etemares. 

O aquatrans é um projeto de aulas de natação em águas abertas para pessoas transsexuais e travestis. O projeto reúne mais de 150 alunes não só cariocas, como também de outros estados e estrangeiros. 

Marcelo ressalta que o corpo trans é muito negado ao esporte na nossa sociedade. A discussão sobre a competição de pessoas trans nos esportes continua sendo um tabu muito forte. O professor cita que, muitas vezes, pessoas trans nem mesmo consideram o esporte como uma possibilidade. 

O Aquatrans, para além da técnica esportiva, tem um papel social e político. Marcelo Silva ressalta o significado da praia para as pessoas trans, que, principalmente no início da transição, se sentem envergonhadas de frequentar esses espaços. O projeto ressignifica a praia para essas pessoas, além de introduzi-las no esporte.

Para encerrar o dia, a mesa LGBTQIAPN+ na Cultura e no Entretenimento ocupou o auditório 93. Thiago Soares, Bárbara Alves e Nilaisa Luciana debateram o papel da comunidade nesse âmbito da sociedade. 

Thiago Soares é professor e pesquisador de Comunicação e Cultura Pop e falou sobre sua pesquisa acerca do “Gagacabana” , fenômeno que se deu este ano por causa do show da Lady Gaga no Rio de Janeiro. 

Thiago enxerga os espetáculos de música pop como reorganizadores da dinâmica da cidade, que se mobiliza pelo evento. O pesquisador menciona as lojas do Saara, na região central do Rio, que se modificaram, vendendo adereços para o show da Lady Gaga. O show, ainda, é um espaço de performance e expressão LGBTQIAPN+. 

Em seguida, Bárbara Alves, que trabalha diretamente na presidência da FioCruz com enfoque nas questões LGBTQIAPN+ e de diversidade, discutiu sobre a posição da comunidade em questões de representatividade na mídia, principalmente.

Bárbara destaca: “Nós, travestis, ainda somos muito desumanizadas”. Na mídia, pessoas trans são muito mal representadas, reforçando estereótipos e preconceitos. Ela dá o exemplo do programa “Zorra Total”, exibido na Globo entre 1999 e 2015, que fazia chacota de pessoas trans e travestis.

Além disso, ela coloca a questão sobre o imaginário de um tipo ideal de corpo ou comportamento LGBTQIAPN+ e a questão da representatividade que, apesar de estar crescendo, ainda é insuficiente, seja na mídia, seja no mercado empresarial, por exemplo. 

Bárbara Alves, Thiago Soares, Nilaisa Luciana palestrando no segundo dia de Berro! Foto por Hyndra Lopes.

Para finalizar o dia, Nilaisa Luciana levou à mesa uma reflexão complexa sobre as relações de poder. Nilaisa trabalha com educação popular e é moradora da Maré, comunidade no Rio de Janeiro. A educadora colocou que a questão da representatividade e dos preconceitos envolve um conjunto de signos que formam um imaginário acerca da população LGBTQIAPN+. Esse imaginário é equivocado e preconceituoso, gerando violência. Para ela, as relações de poder estão presentes em todas as relações sociais que exercemos e impactam a comunidade LGBTQIAPN+ de forma violenta. 

Somos deixados com a reflexão acerca de como a comunidade é representada na sociedade – seja no esporte, seja no entretenimento. É importante ocupar espaços e resistir, transpondo o preconceito opressor que assola as pessoas LGBTQIAPN+.

Berro! traz discussão sobre direito ao esporte e ao entretenimento para o público LGBTQIAPN+

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