Caminho para vencer: 27 das 32 seleções que avançaram para o mata-mata contam com jogadores naturalizados
República Democrática do Congo e Marrocos mostram que a busca por atletas com dupla nacionalidade pode ser positiva
Por: Mariana Martins
Reprodução: Instagram (@awbissaka)
Cerca de 250 jogadores convocados para a Copa do Mundo de 2026 não representam o país em que nasceram. Entre os países que passaram pelo mata-mata, a República Democrática do Congo se destaca com 20 atletas naturalizados, resultado de um processo histórico e da busca das federações em aumentar o nível de competitividade internacional. A combinação desses fatores com a expansão do Mundial de 32 para 48 seleções levou a FIFA à criação de uma plataforma para registrar mudanças de nacionalidades de jogadores em fevereiro de 2025, permitindo flexibilidade e clareza para as convocações, o que beneficiou diversos futebolistas.
A República Democrática do Congo, que voltou a disputar a Copa do Mundo depois de 52 anos, lidera como seleção que mais possui atletas nascidos fora do país, seguida por Marrocos (19), Bósnia e Herzegovina (17), Argélia (16) e Cabo Verde (14) entre as equipes que avançaram da fase de grupos. Apenas África do Sul, Áustria, Brasil, Colômbia e Suécia são compostas inteiramente por jogadores nascidos no país que representam. Mas afinal, de onde vem esses jogadores e como eles afetam nos resultados internacionais?
No caso dos Leopardos, apelido da seleção da RD Congo, os atletas naturalizados nasceram na França, na Bélgica, na Inglaterra ou na Suíça. Ao voltar à história do país africano, é possível compreender o grande número de jogadores com heranças congolesas fora do país: até 1960, quando conquistaram sua independência, o território era colônia da Bélgica. Com o tempo, conflitos internos e a alta taxa de violência intensificou um fluxo migratório já existente no país desde a década de 1980, tendo como principais destinos a ex-metrópole e a França.
A classificação para a Copa do Mundo 2026 veio na repescagem mundial, depois de bater a Jamaica pelo placar de 1 a 0, com gol de Axel Tuanzebe, que jogou pela seleção de base da Inglaterra. Mesmo com uma equipe formada majoritariamente por jogadores que vieram de fora, como o lateral-direito Aaron Wan-Bissaka, figura de liderança da equipe que nasceu em Londres, a seleção congolesa é vista como símbolo de união nacional em meio a um cenário interno conturbado e dividido. O futebol desperta o orgulho e põe de lado as diferenças políticas, regionais ou étnicas na hora dos jogos. Durante sua campanha na Copa do Mundo de 2026, os Leopardos puderam contar com o apoio da torcida, que, em sua maioria, residia nos Estados Unidos, uma vez que a RD Congo foi uma das nações afetadas pelas restrições de visto impostas pelo governo de Donald Trump.
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Marrocos estreou na Copa do Mundo de 2026 com 10 atletas naturalizados escalados para enfrentar o Brasil. Isso é um resultado de quase duas décadas em que a Real Federação Marroquina de Futebol (FRMF) monitora jogadores com ascendência marroquina e oferece a jovens atletas a oportunidade de jogar o futebol internacional pela nação africana antes que atuem pelos países em que eles nasceram. Desde então, conseguiram obter bons resultados nas categorias de base além da melhor colocação de uma seleção africana em Mundiais, quando foram quarto colocados na Copa do Mundo de 2022. Além disso, atletas como o lateral-direito do Paris Saint-Germain Achraf Hakimi e o atacante do Real Madrid Brahim Díaz são destaques no futebol europeu.
O país do Norte da África também passou por um processo de diáspora. Por isso, a seleção marroquina representa os marroquinos que nasceram naquele território, e a comunidade de cerca de 5 milhões de pessoas que vivem em países como França, Espanha, Holanda e Bélgica. O sentimento da torcida é de orgulho e satisfação. Existe uma compreensão de que a identidade marroquina ultrapassa as fronteiras físicas e que os jogadores “filhos das colônias” fazem um movimento decolonial ao optarem por representar o país de origem familiar. Como exemplo, Ayyoub Bouaddi, revelação de Marrocos no Mundial de 18 anos, optou por defender a seleção principal marroquina depois do interesse da federação no atleta e das suas raízes familiares.
A França é o país que mais possui jogadores no Mundial. Além dos 23 convocados, outros 74 atletas nascidos no país defendem outras cores. Entre os jogadores selecionados por Didier Deschamps, técnico da seleção francesa, apenas Olise, Marcus Thuram e Brice Samba nasceram fora do território francês. Na partida válida pelas quartas de final da Copa do Mundo de 2026, Marrocos enfrentou a França com seis jogadores franceses de nascimento.



