Cozinha que une

Cozinha que une

Oficinas de culinária na Uerj incentivam uma dieta mais sustentável 

Por: Alice Moraes

Laboratório de Técnica e Dietética. Foto: Karen Teixeira

Geladeiras, liquidificadores, microondas e grandes armários compõem o Laboratório de Técnica e Dietética do Instituto de Nutrição da Uerj.  A ampla cozinha, repleta de utensílios, talheres e panelas guardados nos compartimentos abaixo das cinco bancadas, é o lugar que une culinária e aprendizado. 

Também é possível avistar as balanças de cozinha e, dentro dos armários, jarras, bandejas, diferentes tipos de pratos e tigelas para servir refeições. Tudo isso está disponível para ser utilizado pelos participantes das oficinas de culinária promovidas pelo projeto Habilidades Culinárias. 

As oficinas, que contemplam o público interno e externo da Uerj, são abertas semestralmente e propõem uma cozinha coletiva de aprendizado sobre grãos. A última edição do Cozinhando com Grãos ocorreu no último semestre e a previsão de abertura de inscrições para o segundo semestre de 2025 é em meados de setembro. 

Interior do armário do Laboratório. Foto: Karen Teixeira

Nas oficinas, os participantes têm contato maior com os grãos, especificamente as leguminosas como feijões, grão-de-bico, lentilha e ervilha. 

“Para os alunos de Nutrição, por meio das oficinas eles desenvolvem capacidade de organização e planejamento, das compras e da elaboração das fichas técnicas”, disse Ana Cláudia Mazzonetto, nutricionista, professora do Instituto de Nutrição e coordenadora do projeto. A especialista afirma que poucas receitas são divulgadas e testadas com o uso das leguminosas, apesar do alto teor de nutrientes nelas. Por isso, as oficinas incentivam o estudante a ter a prática da culinária com grãos para seu futuro profissional e pessoal”, acrescenta a professora.

Não apenas para os estudantes de Nutrição, mas também para alunos de outros cursos e para o público externo da Uerj, as oficinas de culinária incentivam uma dieta mais sustentável, oferecem aprendizado sobre os grãos na cozinha e incentivam a produção de refeições de qualidade, com menos uso de ultraprocessados. “As oficinas facilitam o uso das leguminosas na culinária, despertam esse conhecimento e curiosidade. Observamos também os participantes perdendo o medo da panela de pressão”, comentou Ana Mazzonetto sobre o resultado positivo contemplado por meio das oficinas. 

A nutricionista também compartilha que, ao final das oficinas, são realizadas rodas de conversa sobre a experiência obtida na cozinha. De acordo com ela, participantes costumam comentar sobre como a culinária proporcionou criatividade, aumento do repertório e abertura para conhecer novos alimentos, que muitas vezes os participantes tinham resistência em provar. 

“A comida aproxima demais”, diz ela sobre a união que a cozinha proporciona entre os participantes, “quando cozinhamos juntos, vemos como as pessoas se aproximam e abrem um espaço de conversa, de conhecer umas às outras e quem sabe até fazer novas amizades”.

Estudante participando da oficina. Foto: Nathalia Nunes

Para acompanhar o projeto e as próximas inscrições para oficinas, siga o Instagram @hcuerj.

Os desafios da nova adolescência sob a perspectiva dos educadores

Os desafios da nova adolescência sob a perspectiva dos educadores

Com a exposição dos jovens alunos a uma rede de conexões, o processo educacional enfrenta algumas adversidades 

Por: Luana Maciel

Criança interagindo com o celular. Foto: Freepik

A série “Adolescência”, que conta a história de Jamie Miller, um menino de treze anos acusado de assassinar uma colega de classe, estreou na Netflix em março deste ano e atraiu a atenção -e a preocupação- de muitos pais, responsáveis e educadores. Essa preocupação se manifestou porque a série aborda os perigos aos quais os adolescentes estão expostos na internet e nas redes sociais, muitas vezes sem que os adultos nem ao menos estejam cientes desses perigos. 

Um detalhe que se destacou na produção foi um episódio que se passa na escola do suspeito do crime, e que mostra uma falta de conhecimento e um despreparo por parte dos professores para lidar com essa nova geração de jovens que são expostos constantemente a esse mundo digital. Eles têm acesso a celulares, tablets e computadores, que oferecem a eles um mundo inteiro de possibilidades. O problema é que esse mundo também apresenta uma série de prejuízos para as crianças e os adolescentes, afetando seus níveis de irritabilidade e concentração, por exemplo, e podendo prejudicar, no ambiente escolar, o aprendizado desses indivíduos. Assim, com a veloz ascensão tecnológica, surgem também muitos desafios a serem encarados na prática educacional.

Pessoas interagindo com computadores. Foto: Freepik

Segundo Carlos Henrique Fonseca, coordenador do Núcleo de extensão, pesquisa e editoração e professor de língua portuguesa do CAp-UERJ (Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira), um dos principais dilemas que surgem nesse contexto é o de adaptar a didática escolar ao tempo cada vez mais imediatista das crianças e dos adolescentes. Ele destaca que “a escola tem um tempo, que não é o tempo do imediatismo da rede social e por isso esses tempos se confrontam”. Existe uma pressa constante que atrapalha a habilidade de concentração dos jovens, e muitas vezes eles não conseguem dedicar tempo para leituras, raciocínios ou exercícios mais demorados. 

Outra problemática que o uso exacerbado dessas tecnologias pode provocar é o afastamento entre os indivíduos, prejudicando as relações sociais. Carlos Henrique afirma que esse uso sem equilíbrio deixa as pessoas muito individualistas. “A gente não consegue falar com o outro, a gente não consegue olhar o outro”, ressalta o coordenador. Esses cenários acabam promovendo um afastamento dos jovens em relação aos educadores e à própria instituição escolar em si. 

Jean Felipe de Assis, coordenador da secretaria de estágio e graduação do Cap-UERJ, explica que esse distanciamento entre adultos e jovens ocorre porque as gerações estão se sucedendo de maneira muito rápida, o que faz com que contatos e referenciais sejam perdidos e a falta de uma convivência mais profunda leva a um descompasso geracional.

Ele acrescenta ainda que esse distanciamento pode levar ao aumento da precarização da profissão docente, uma vez que alguns adolescentes alegam que tudo que se aprende na escola estaria disponível na internet e que ferramentas como o Google e a inteligência artificial fornecem resoluções de forma mais rápida. “Mas a educação não se reduz a algo preparatório, não se reduz ao resultado obtido num teste”, ele aponta, e acrescenta que ao se tratar de um cálculo matemático, por exemplo, a máquina vai fornecer um resultado mais rapidamente do que a mente humana, mas isso excluiria o processo educativo de realizar o cálculo em si. 

Para Jean, o principal propósito dos educadores brasileiros deve ser estabelecer uma rede de diálogo segura entre os professores e alunos. Ele salienta a importância desse convívio no âmbito escolar como meio de tentar amenizar e eventualmente resolver esse afastamento entre educadores e estudantes. “Estar presente é muito importante (…), o que nós temos é uma ausência de convívio”. Carlos Henrique concorda com a relevância da comunicação enquanto ponte, mas complementa dizendo que alguns limites também devem ser impostos: “certos pactos não são quebrados, certos combinados não são quebrados”. E, para o coordenador, esses pactos também se instituem por meio do diálogo. 

Foi pensando nesses desafios educacionais em relação à interação com os novos aparelhos tecnológicos, que em janeiro de 2025 foi sancionada a Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celulares nas escolas. De acordo com a lei, é vedado o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais durante aulas, recreios e intervalos, em todas as etapas da educação básica.

No entanto, também não se trata de isolar por completo o âmbito escolar. Carlos Henrique explica que a conexão com conteúdos que fazem parte da vivência dos alunos nas redes pode aproximá-los do material a ser ensinado. Além disso, salas equipadas com tecnologias que visem ampliar o acesso a instrumentos didáticos podem ser muito úteis. “A presença da tecnologia em sala de aula tem que ser ligada primeiro a uma certeza metodológica, como que você vai aproveitá-la”, ressalta o coordenador.

O que precisa acontecer, portanto, é o uso consciente e equilibrado das ferramentas tecnológicas no ambiente escolar. As crianças e os adolescentes, assim como toda a sociedade, estão imersos nesse mundo digital e inevitavelmente vão ter que lidar com as novas tecnologias. O papel do educador aqui é então mediar esse uso e instruir os alunos sobre a maneira correta de fazer uso desses instrumentos. “É tarefa do educador, é tarefa da escola, é tarefa da sociedade, corretamente nos ensinar e nos proporcionar ambientes que nos ajudem e nos auxiliem a pensar a tecnologia”, enfatiza Jean de Assis.

Não adianta lutar contra o avanço da tecnologia e do meio virtual, é um processo inevitável, conclui Jean. “A tecnologia tem que ser um instrumento, ela não pode ser um fim”, defende Carlos Henrique. O que pode ser feito, considerando a perspectiva dos dois membros do CAp-UERJ, é estimular o convívio e o diálogo entre os educadores

modernos e as crianças e adolescentes. Trata-se de construir uma educação mais aberta e comunicativa que privilegia o aspecto humano mesmo em meio a um mundo tão mecanizado.

Drag queens na Uerj: Coart promove evento exaltando a arte drag na universidade

Drag queens na Uerj: Coart promove evento exaltando a arte drag na universidade

Por: Hyndra Lopes

Iniciativa do projeto “Esquenta na Coart”, o “Drag Friday” contou com apresentações de cinco drag queens cariocas, carregadas de bom humor e lip syncs que animaram o público no pré-fim de semana da Uerj. Além dos fins diversionais, o evento, realizado no mês do orgulho LGBTQIAPN+, também contribuiu para dar visibilidade à arte drag e afirmar a existência dessa forma de expressão e das suas artistas no ambiente universitário.

Drag queens convidadas do “Drag Friday” no salão 2 da Coart. Da esquerda para a direita: Carla Freitas, Zaya, Tamara Taylor, Shanna Adoo e Akyza Queen. Foto: Hyndra Lopes
 
 

O “Drag Friday”, promovido pela Coordenadoria de Artes e Oficinas de Criação (Coart) e organizado pelo produtor de eventos Marcelo Carpenttiere, objetivou promover uma mostra artística descontraída e de curta duração para animar o pré-fim de semana da comunidade universitária e das pessoas da região. Pioneiro na Universidade em focar exclusivamente em performances de drag queens, o evento uniu os anseios das comunidades artística e LGBTQIAPN+ da Uerj e o destaque que a performance drag ganhou na mídia com o mês do orgulho.


A dinâmica do evento consistiu em apresentações de “lip sync” (dublagem sincronizada) de cinco drag queens locais, mediadas por Marcelo Carpenttiere, que exerceu a função de host da noite, introduzindo as artistas para a plateia. 

A primeira a performar foi Akyza Queen, com as músicas “The Best” e “Proud Mary”, de Tina Turner. Carla Freitas deu continuidade ao show com repertório musical exclusivamente de MPB, com “Preconceito” (Maria Bethânia), “Para uso exclusivo da casa” (Dhi Ribeiro), “Como nossos pais” (Elis Regina) e “Resposta ao tempo” (Nana Caymmi). Zaya, a terceira queen a subir ao palco, performou “No Pain, (No Gain)”, de Betty Wright, e surpreendeu ao voltar para uma segunda apresentação homenageando Ney Matogrosso, com “Sangue Latino” e “O Vira”. Tamara Taylor veio em seguida com “I Will Survive” (Gloria Gaynor) – grande hino da comunidade LGBTQIAPN+ – e “And I Am Telling You I’m Not Going” (Jennifer Hudson). Ao final da sua performance, ela ainda fez uma dinâmica convidando algumas pessoas para dançarem ao seu lado. Fechando a noite, Shanna Adoo se apresentou como Alcione, animando a plateia com as músicas da cantora “O que eu faço amanhã”, “Pior é que eu gosto” e “A Loba”, além do seu cover de  “Evidências” (Chitãozinho e Xororó).


O significado por trás de um evento como o “Drag Friday” na Universidade, para pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ e para estas artistas que performam como drag, é de reconhecimento. Essa arte, apesar de ser considerada por historiadores como uma prática existente desde a Grécia Antiga, posteriormente aperfeiçoada aos moldes atuais no século XX com os “drag balls” em Nova York, ainda é marginalizada e pouco estudada no meio acadêmico. Marcelo Carpenttiere denuncia a desvalorização da arte drag, sobretudo das artistas menores do Rio de Janeiro, e aponta a importância de apresentá-la na universidade, para construir um ambiente mais diverso e inclusivo, tanto nas suas representações artísticas quanto para os membros da comunidade.


Carpenttiere diz que, pela grande mídia e pelos estudiosos que a conhecem superficialmente, a cultura drag é tratada muitas vezes apenas como performance, devido aos preconceitos em relação à sua prática, invisibilizando a história de resistência atrelada a ela e as suas referências nos campos da moda, da cultura pop, do humor e da dublagem, por exemplo, que vão além do academicismo. 


Nesse sentido, a arte drag se torna algo nichado, de certa forma, dentro da comunidade LGBTQIAPN+, não recebendo a devida atenção pelo meio acadêmico e sendo pouco explorada pelo mercado, que não oferece grandes oportunidades para as artistas. Estas dificuldades de visibilidade se intensificam para as drag queens locais, já que os conteúdos midiáticos voltados para essa cultura são majoritariamente estrangeiros e o receio de apresentar uma arte, socialmente vista como marginal, em grandes teatros e espaços culturais tradicionais limita as suas oportunidades. Por isso é tão significativa a promoção de eventos como o “Drag Friday” na Uerj, como diz Carpenttiere: “São artistas muito subvalorizadas e que mereciam muito mais palco, e muitas vezes não tem pela falta de um espaço. Aí que a universidade entra como uma facilitadora desses espaços, como um lugar onde se tem a oportunidade de vivenciar o que no meio comercial é um pouco mais difícil. (…) A universidade é um lugar de pensar a cultura de um jeito diferente, de um jeito de pesquisa, fruição, institucionalização e fortalecimento”.


O evento também trouxe a reflexão sobre artistas marginalizadas e que representam minorias sociais se apresentarem, com a sua arte, em uma universidade de tamanha relevância no Rio de Janeiro. Historicamente, pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ enfrentam maiores dificuldades para adentrar espaços acadêmicos e, principalmente, para apresentarem neles a sua cultura e as suas formas de expressão. Fazer-se presente na universidade e mostrar a sua arte para um público universitário tem, para elas, um caráter simbólico especial, valorizando não só o seu trabalho artístico, mas também a si mesmas como artistas. ”Nós conseguimos sair do gueto e hoje entramos na faculdade para mostrar o nosso trabalho”, frisa Shanna Adoo, uma das queens convidadas do “Drag Friday”, ao final de sua apresentação.

Shanna Adoo durante apresentação no “Drag Friday”. Foto: Hyndra Lopes
Além de possibilitar mais visibilidade para as drag queens da região e um local no subúrbio da cidade para apreciação dessa arte, de acordo com Carpenttiere, a vinda dessas artistas de fora da Universidade para o espaço da Coart, trazendo uma proposta que foge dos padrões artísticos tradicionais academicistas, promove um intercâmbio cultural entre elas e os membros da comunidade da Uerj. A partir dessa troca de saberes, alunos, docentes e técnicos entram em contato com a arte drag e se sentem estimulados a praticarem ou pesquisarem mais a fundo sobre ela, o que contribui para atenuar os preconceitos e estereótipos. Por esses benefícios que eventos como o “Drag Friday” reforçam a importância da Coart para a Uerj e para a Zona Norte, pois ela promove um ambiente que preza pela diversidade e pela renovação do ambiente cultural, e mostram a relevância de se organizar mostras artísticas não convencionais com mais frequência.
 
 
 

 

 

 

 

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Quando o transporte vira barreira: a mobilidade urbana e o cotidiano dos  alunos da Uerj

Quando o transporte vira barreira: a mobilidade urbana e o cotidiano dos alunos da Uerj

Segundo especialista, os problemas recorrentes no transporte público afetam diferentes aspectos da vida acadêmica e pessoal dos estudantes

Por: Maria Clara Jardim

Vagão de trem lotado (Foto: Oleg Sergeichik / Unsplash)

Apesar do constante aumento das tarifas dos meios de transporte,  a elevação do preço das passagens não causa alteração na qualidade do serviço prestado ao cidadão do estado do Rio de Janeiro. O cenário se mantém o mesmo: a baixa circulação de linhas de trens e ônibus que são frequentemente utilizadas gera superlotação e demonstra o quanto o transporte instável necessita de melhorias em sua gestão. Para parte dos estudantes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a dificuldade para chegar ao campus é evidente e afeta diretamente o desempenho acadêmico, a saúde mental e até a permanência no ambiente universitário.

De acordo com especialistas, os desafios vividos pelos jovens estudantes dentro dos transportes públicos podem ocasionar diversas consequências negativas no ambiente acadêmico, como faltas por atrasos, dificuldade de concentração, acúmulo de trabalhos, excesso de sono e, por vezes, até a desistência de disciplinas. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) do IBGE, realizada em 2019, moradores do Rio de Janeiro gastam, em média, 7,4 horas por semana em deslocamentos entre casa e trabalho — dado que, embora não trate exclusivamente do acesso ao ensino superior, evidencia a precariedade da mobilidade urbana na região. Essa realidade impacta também os estudantes, que enfrentam longas jornadas até o campus e têm sua rotina acadêmica diretamente afetada.

 

Além de comprometer a performance acadêmica, a rotina de deslocamentos longos e instáveis também pode afetar a saúde de quem frequenta a universidade. A vice diretora do Instituto de Psicologia da Uerj, Laura Quadros, afirma: “Os impactos são relevantes e configuram uma situação de estresse prolongado com danos à saúde como um todo, visto que tais impactos atuam no organismo desdobrando-se em cansaço, dores musculares, irritação e insegurança”. Ela destaca também que os reflexos do desgaste provocado pelo transporte público são imediatos e afetam a concentração, agilidade cognitiva e emoções.

 

Aprender é um processo que integra mente, corpo, emoções, nutrição, ou seja, não depende exclusivamente da disponibilidade subjetiva, mas também de um corpo que experimente boas condições de deslocamento e organização social”, explica Quadros. A percepção da professora se confirma nos relatos de estudantes da Uerj, que enfrentam diariamente os efeitos da mobilidade urbana.

A estudante de jornalismo e moradora de Realengo, Lívia Martinho, utiliza o trem diariamente para se locomover até a Uerj e descreve sua rotina: “A experiência com o trem é extremamente negativa, o serviço é péssimo e marcado por inúmeros problemas. A superlotação é uma constante, os atrasos são frequentes e os veículos geralmente estão em más condições […] No trajeto até a universidade, enfrento diversas dificuldades que tornam o deslocamento cansativo e desgastante. O tempo excessivo gasto para chegar ao destino é um dos principais incômodos, agravado pela impossibilidade de sentar devido à lotação dos veículos. É comum fazer todo o percurso em pé, em um ambiente apertado e desconfortável. Os atrasos constantes  comprometem a pontualidade e a qualidade”, relata a estudante.

 

A baixa qualidade do serviço não afeta somente os usuários dos trens. A universitária e moradora de Bonsucesso, Vitória Perez, que utiliza diariamente a linha de ônibus para chegar à Uerj, relata uma experiência desgastante. “Terrível”, resume, ao avaliar o serviço. Entre as principais dificuldades, ela destaca a demora no trajeto, agravada pela irregularidade da frequência da linha. “Às vezes demora mais de 40 minutos para passar, principalmente para ir à Uerj, por isso está sempre lotado”, afirma. A superlotação e a imprevisibilidade no tempo de espera tornam a rotina ainda mais exaustiva.

 

Os dois relatos comprovam o quanto a rotina de deslocamento afeta o cotidiano acadêmico dos estudantes. Tanto Vitória Perez quanto Lívia Martinho relatam a necessidade de acordar mais cedo e chegar em casa muito tarde, o que reduz o tempo de descanso, lazer e realização de atividades da faculdade.

 

A realidade enfrentada pelos alunos revela um problema estrutural, que atravessa dimensões políticas, sociais e institucionais. Para a professora Laura Quadros, pensar alternativas como residências universitárias e formas de hospedagem estudantil é um passo possível dentro de políticas de permanência. Apesar dos limites orçamentários, ela defende que o engajamento coletivo é um caminho essencial para transformar o cotidiano de quem luta, todos os dias, apenas para chegar.

 

 

 

Quando o cinema vira ponte para acolhimento e resistência LGBT+ na Universidade

Quando o cinema vira ponte para acolhimento e resistência LGBT+ na Universidade

Feixes da História mostra que o orgulho também se constrói nos detalhes do cotidiano acadêmico

 

Por Samira Santos

 

Na tarde de uma segunda-feira fria de junho, o auditório 9028 da Uerj viu suas cadeiras se esgotarem. Estudantes de História, mas também de Engenharia, Jornalismo, Psicologia, Serviço Social, Ciências da Computação, entre outros, ocuparam o espaço para assistir a um filme de 1975: The Rocky Horror Picture Show. O que parecia um evento pontual transformou-se rapidamente em um espaço de acolhimento, pertencimento e afirmação da diversidade. Era o início de mais uma edição do “Feixes da História”, projeto que integra as ações do LPPE (Laboratório de Pesquisa e Práticas de Ensino, do curso de Licenciatura em História) e que, neste mês de junho, assumiu protagonismo dentro das celebrações do Orgulho LGBTQIAPN+.

 
Alunos de variados cursos assistindo Nunca fui Santa (Foto: Victoria de Freitas)

A proposta era simples, mas forte: exibir filmes com temática LGBTQIAPN+ e promover debates após as sessões. Mas o que se revelou foi algo maior. A sala, pensada para poucas pessoas, ficou pequena diante do desejo coletivo de compartilhar, ouvir e visibilizar vivências historicamente silenciadas.

 

A força da escuta

O projeto, coordenado pelo professor Flaviano Isolani e com apoio do professor Eduardo Ferraz, nasceu da inquietação: como ensinar História de forma crítica e acessível? A resposta veio por meio da linguagem audiovisual, aproximando cinema e ensino, especialmente voltado para o vestibular da Uerj.

As bolsistas Mariana Lemos e Victória de Freitas, duas das responsáveis pela idealização do ciclo de filmes do mês do Orgulho, contam que o projeto já existia com atividades voltadas para o Spotify e podcasts, mas ainda carecia de maior visibilidade no ambiente universitário.

Durante a sessão do filme Nunca fui santa (Foto: Samira Santos)

“Somos duas mulheres LGBTs dentro de um espaço onde os debates sobre vivências LGBT ainda são muito restritos. A gente percebeu que ninguém estava fazendo nada para o mês do Orgulho, nem o coletivo LGBT, então pensamos: por que não fazer a gente?”, conta Victória.

Em menos de uma semana, elas haviam escolhido os filmes, produzido as artes gráficas, definido os horários e organizado os debates. “Foi uma correria absurda, mas valeu cada segundo”, diz Mariana, com um sorriso que carrega alívio e orgulho.

 

A potência de se ver representado

A seleção de filmes foi estratégica. Começou com The Rocky Horror Picture Show (1975), passou por Nunca Fui Santa (1999), segue com Crush: Amor Colorido (2022), e se encerra com Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016). Cada obra traz em si uma camada da experiência LGBT em diferentes contextos históricos, culturais e geográficos.

“O cinema é uma forma de ensinar história pelas margens”, explica Mariana. “Com Rocky Horror, por exemplo, falamos sobre identidade de gênero nos anos 70; com Moonlight, discutimos raça, masculinidade e sexualidade na infância e juventude negra nos EUA”.

Além do conteúdo, o ambiente foi pensado para o acolhimento. Após cada exibição, o cine-debate é aberto. Alguns apenas assistem, outros desabafam, compartilham suas histórias e aprendizados. “É olhar para o outro e dizer: eu te vejo, e você não está sozinho”, afirma Victória.

A recepção foi surpreendente. Mais de 40 pessoas na primeira sessão. Pessoas no chão, em pé, estudantes de diferentes cursos e idades. “A gente achou que só ia ter a gente e nossos amigos”, brinca Mariana. “Ver a sala cheia foi emocionante. Mostrou a carência que existe desses espaços dentro da Universidade”.

 

Representatividade como ferramenta de resistência

Apesar da crescente presença de discursos de ódio na sociedade e do avanço de pautas conservadoras, projetos como o “Feixes da História” reafirmam a universidade como um lugar de resistência. “Quando a gente lota uma sala com 40 pessoas para falar sobre orgulho, sexualidade e identidade, estamos também dizendo: a gente está aqui. E vamos continuar aqui”, afirma Victória.

Mais do que eventos pontuais, o projeto pretende se consolidar. Já há planos para futuros ciclos de filmes, podcasts e novas temáticas, como musicais e filmes de terror, sempre com uma lente crítica sobre gênero, raça, política e afeto.

Porta do auditório 9028 com a divulgação dos filmes (Foto: Samira Santos)

O LPPE, que completa 20 anos, reafirma sua importância nesse processo. Criado em 2002 para ampliar as práticas de ensino em História, o laboratório já produziu CDs, podcasts, entrevistas e eventos com especialistas. Hoje, torna-se palco também para vozes LGBT dentro da universidade, unindo academia e subjetividade, teoria e vivência.

“Falar sobre cinema é falar sobre o mundo. Falar sobre diversidade no cinema é mostrar que a história não é feita só pelos vencedores, mas também por quem resistiu e resiste às margens”, resume Mariana.

A julgar pela repercussão dessa primeira edição, a sala cheia, os olhos marejados e os abraços trocados após os debates, fica claro que o “Feixes da História” já marcou seu lugar na trajetória de muitos estudantes.

E como toda boa história, essa também merece continuar sendo contada.

Primeira Mostra Uerj de Bandas (MUBA) tem estreia marcada para o mês de junho

Primeira Mostra Uerj de Bandas (MUBA) tem estreia marcada para o mês de junho

O evento é aberto ao público e acontecerá entre os dias 9 e 13 de junho no Teatro Odylo Costa, filho, contando com apresentações diárias de bandas formadas por alunos, servidores e funcionários terceirizados da Uerj. 

Por: Hyndra Lopes 

 

[caption id=”attachment_3252″ align=”alignnone Banda tocando (reprodução: internet)
 
 
A Mostra Uerj de Bandas terá a sua primeira edição em 2025 e irá contemplar 10 grupos de gêneros musicais variados, formados por membros da comunidade universitária. Ela acontecerá durante a segunda semana do mês de junho das 18h30 às 20h30, com apresentações diárias de duas bandas. A retirada de ingressos será por meio da plataforma Sympla, mas haverá possibilidade de entrada sem o QR code. 

O evento foi proposto pela Coordenadoria de Artes e Oficinas de Criação (Coart), em parceria com a Divisão de Teatro da Uerj, e organizado por Ilana Linhales – professora de música do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp-Uerj) e coordenadora da Coart – e Marcelo Carpenttiere – produtor cultural da Coart. O intuito dos idealizadores com o projeto é dar visibilidade para todos os talentos e práticas artísticas da comunidade, criando um espaço aberto para produção cultural e consumo desta no ambiente universitário. 

Em entrevista para o Aconteceh, Ilana Linhales e Marcelo Carpenttiere explicam como a ideia da Mostra surgiu e quais os seus objetivos com ela, além de ressaltar a inclusão dos

servidores e funcionários terceirizados e a importância da promoção de eventos como a MUBA e do incentivo cultural na Universidade. 

A MUBA, de acordo com Linhales, foi pensada desde 2024, mas a sua concretização se deu apenas este ano, quando o orientador de música da Coart, Rafael Camacho, fez o regulamento e a proposição do projeto. A ideia de fazer uma mostra surgiu como uma alternativa mais viável à do festival, já que não precisaria de premiação e jurados, e alinhava-se mais ao foco dos idealizadores, de promover a apreciação e a visibilidade dos grupos musicais com apresentações mais longas, que permitissem ao público curtir o ambiente do teatro. A professora diz que os Festivais da Canção – eventos musicais de MPB transmitidos pela TV no final dos anos 1960 – e os 60 anos de golpe militar, completados no ano passado, inspiraram a criação da Mostra. 

Carpenttiere aponta que o objetivo principal com a criação da MUBA é democratizar os equipamentos culturais da Uerj, ao fazer com que a sua comunidade saiba que eles existem e se aproprie deles, além de proporcionar a abertura para essas pessoas exporem os seus talentos. Em complemento, Linhales salienta para a troca de saberes entre as bandas, a partir do compartilhamento de instrumentos e do espaço físico, pois “tudo o que se propõe dentro de uma universidade é uma ação educativa”, diz a professora. Dessa forma, a Mostra contribui para a valorização da Universidade, já que o desenvolvimento do âmbito cultural é essencial para uma instituição educativa. 

Músicos tocando em conjunto (Reprodução:  internet)

 

A expansão da participação para além dos estudantes, com a inclusão de servidores e funcionários terceirizados, é algo que chama a atenção no projeto e Linhales justifica a decisão ao indicar que a comunidade universitária não é composta apenas de um grupo: “Somos um organismo vivo e, enquanto organismo vivo, estamos em uma troca de ações em que um depende do outro, por mais que em alguns momentos, um atue mais que os outros (…) A existência da Universidade, do campo de conhecimento, de ensino e de pesquisa e extensão depende de todos os sujeitos, que são os estudantes, os servidores (tanto docentes, quanto técnicos administrativos) e os terceirizados”. 

Os organizadores também ressaltam a importância da promoção de eventos como a MUBA na Uerj, pois eles proporcionam o encontro e a difusão de saberes a partir de manifestações artísticas e culturais, além de motivarem outras instituições de ensino a organizarem seus próprios festivais, valorizando a cultura no país. “Cultura é tudo, então falar de cultura é falar da nossa própria existência”, diz Linhales. A professora finaliza declarando que o incentivo cultural é essencial para se promover iniciativas como esta, mas que a busca por ele se torna uma luta mundial devido à falta de interesse na cultura e na arte, elementos que, justamente, fazem de um povo seres sensíveis e pensantes. 

Nesse sentido, a Coart, com os eventos e atividades semanais culturais que promove, teria capacidade de se expandir para além do Centro Cultural da Uerj, tornando-se o Centro Cultural da Zona Norte. Mas, para isso, exige um grande trabalho de divulgação dentro e fora da Universidade e a MUBA é uma oportunidade de pessoas desses dois meios conhecerem essas iniciativas e darem maior visibilidade para o âmbito cultural da Uerj.

 

 

Projeto da Uerj oferece exercício físico gratuito para gestantes

Projeto da Uerj oferece exercício físico gratuito para gestantes

Profissional de educação física destaca a importância da atividade física durante a gravidez e como o projeto pode ajudar

Por Alice Moraes

                          Imagem: Freepik

O Programa de Extensão Práticas Corporais de Saúde (Pracorsau)  agrega cinco projetos de atividade física específica para diferentes pacientes. Dentre eles, há o projeto que oferece exercícios físicos adaptados para gestação e pós-parto. Todos os projetos disponibilizados pelo Pracorsau são gratuitos e abertos para a comunidade interna e externa. 

A reportagem conversou com a servidora do programa, Camila Pereira, de 37 anos,  formada em Educação Física pela Uerj e ex-estagiária do Pracorsau. Ela ressaltou: “A gestante ser liberada para fazer exercício é ainda uma coisa nova. Alguns médicos ainda são bem conservadores e não se sentem seguros em liberar uma gestante para academia”. Camila explica que não há problema a grávida realizar exercícios, desde que não haja ou exista nenhuma contraindicação. O Ministério da Saúde, por meio do Guia de Atividade Física para a População Brasileira, assegura que ter um dia a dia fisicamente ativo é bastante seguro para a maioria das gestantes e mulheres que estão no período pós-parto. O guia afirma, também, que a preocupação com lesões ou problemas de saúde não devem impedir a mulher de praticar exercício físico. 

Os benefícios do exercício físico adaptado para gestantes são: menor risco do feto desenvolver doenças metabólicas, menor risco de complicações no parto, mais chances do parto vaginal – mais saudável para o bebê –, prevenir diabetes gestacional e doenças de hipertensão arterial. De acordo com Camila, o Pracorsau oferece um espaço para as gestantes realizarem atividade física com uma pista de caminhada, bicicleta para exercício aeróbico, fortalecimento muscular por meio de aparelhos de musculação, exercícios de agachamento e elevação de calcanhares, elásticos para fortalecer os membros superiores. Camila reforça: “Nós não ficamos tão dependentes de aparelhos. O exercício sem aparelho é importante para ajudar a gestante na postura. Com os elásticos, por exemplo, ela está sempre fortalecendo o corpo todo”. 

O projeto também oferece às gestantes, exercícios de respiração para aliviar o estresse. A respeito de outras atividades fornecidas, Camila complementa: “A gente faz exercício de fortalecimento abdominal. A gente alonga um pouquinho,  alguns grupamentos que ficam mais rígidos por causa do crescimento do abdômen. Não alongamos o abdômen da gestante, mas a parte da coluna lombar, que fica tensa ali, por causa da barriga”. 

O guia montado pelo Ministério da Saúde assegura que a prática de atividade física durante a gravidez não aumenta o risco de malformação no bebê, não aumenta o risco de ruptura da bolsa, não induz ao trabalho de parto, não aumenta o risco de aborto e não altera o leite materno. 

Os exercícios físicos para gestantes também contribuem de forma positiva na autoestima delas. Camila conta a experiência de uma gestante que se sentiu mais confiante ao retornar aos exercícios algum tempo após ter engravidado. Ela afirma: “Melhora muito a autoestima, a postura. Os hormônios do bem-estar, como a serotonina e a endorfina, são liberados durante o exercício”. A profissional diz que as gestantes se sentem mais acolhidas pelo projeto porque em uma academia nem todas têm condições de pagar por um professor particular. Por meio do projeto, ela pode atender cada uma de forma mais individualizada. 

O Pracorsau tem um perfil no Instagram, @pracorsau, no qual as gestantes podem entrar em contato caso tenham interesse em participar das aulas de atividade física, que são oferecidas às quartas e sextas, de 10h40 às 11h30, no Instituto de Educação Física da Uerj. De acordo com Camila, o projeto tem intenção de oferecer bolsas para estudantes, a fim de montar mais turmas e, assim, atender maior número de gestantes. 

Performance: como a dança liberta as pessoas 60+

Performance: como a dança liberta as pessoas 60+

Aulas gratuitas de dança cigana ministradas na Uerj para pessoas 60+ motivam a inclusão e melhoram a autoestima

 

Por Fernanda Rodrigues

Alunas e alunos da turma de dança cigana Uneceh (Foto: Fernanda Rodrigues)

Toda terça-feira, na Uerj, há mais de dez anos, pessoas idosas aprendem dança cigana  com a professora Marta Coelho Pinto. A atividade é um momento de diversão, desenvolvimento corporal e exercício mental.

As aulas proporcionam também um ambiente de intergeracionalidade. Ou seja, a universidade, muitas vezes vista e tratada como um ambiente exclusivo para jovens, acolhe também as pessoas 60+, promovendo a diversidade e produzindo para a sociedade. Com isso, o Etarismo, uma das maiores dificuldades enfrentadas por pessoas idosas no convívio social, é combatido.

O Etarismo é o preconceito contra pessoas idosas, que está presente na sociedade de diversas formas: estereótipos equivocados, violências e exclusão da vida social. A visão de grande parte da população em relação às pessoas 60+ é, geralmente, de invalidação. E isso pode levar as pessoas idosas a abdicarem do convívio social, que, para elas, transforma-se num espaço hostil e intimidador.

A oficina “Dança Cigana: Homens e Mulheres, suas Trovas e Poesias” busca justamente romper com esses estereótipos e convocar as pessoas idosas para a interação e o convívio em sociedade. Segundo a professora Marta Coelho Pinto, responsável pela turma há três anos, a aula é um momento de libertação. Os alunos podem se enfeitar, socializar, exercitar o corpo e a mente e se divertir. A professora ressalta que, além da atividade motora que é a dança, a memória e o raciocínio também são muito trabalhados nos ensaios e nas coreografias.

 

Prática do “Volare”, técnica da dança cigana (Foto: Fernanda Rodrigues)

Não só a dança é trabalhada nas aulas: o canto e a poesia também são incentivados. No início de cada aula, os alunos e a professora se colocam em roda e recitam uma pequena trova de sua preferência, autoral ou não. Enquanto dançam, também cantam as músicas.

O roteiro da aula conta com um alongamento, que trabalha a flexibilidade e acorda os músculos. Em seguida, uma coreografia é desenvolvida e ensaiada, deixando espaço para improvisos ao final.

Além disso, a turma se apresenta com frequência em festas, festivais e clubes. Essas apresentações fazem com que as alunas e os alunos percam a timidez e o medo, tornando-os mais comunicativos no dia a dia. A performance é levada para a vida, pois reafirma que a autoestima é para todos. Antes, durante e depois das aulas, as mulheres se arrumam com saias, adereços e flores. Enquanto os homens se arrumam com chapéus ciganos e roupas típicas. Suas criatividades e suas veias artísticas são exploradas ao máximo.

Marta Coelho Pinto nota claramente uma mudança no comportamento: melhoria na postura, na fala, na disposição e no humor. A dança é uma atividade física que contribui na coordenação motora, na flexibilidade, na resistência e no equilíbrio. Se não estimulados e exercitados por pessoas idosas, esses atributos são muito reduzidos com o tempo, por isso praticá-los com frequência é essencial na qualidade de vida depois dos 60 anos. 

As inscrições para a próxima turma podem ser realizadas no site do Núcleo de Envelhecimento Humano (Uneceh) a partir de janeiro de 2026.

Assim, a oficina combate a segregação das pessoas 60+, promovendo a intergeracionalidade e aumentando a qualidade de vida dos alunos. 

 

Bate papo com o ator Gilson Barros ( Foto: Lafepe)

Viver é perigoso: a psicologia e a palavra em Guimarães Rosa

Viver é perigoso: a psicologia e a palavra em Guimarães Rosa

Lafepe é onde pensamento encontra a dor e a palavra cura

Por Samira Santos

No coração do Instituto de Psicologia da Uerj, no campus Maracanã, um grupo de pesquisadores, estudantes e professores se reúne semanalmente com um objetivo que transcende a técnica: compreender o ser humano em sua profundidade. Trata-se do Laboratório de Fenomenologia e Estudos em Psicologia Existencial (Lafepe), coordenado pela professora e pesquisadora Ana Maria Feijoo. Vinculado ao programa de extensão Uerj Pela Vida, o Lafepe tem se consolidado como um espaço de referência nacional no estudo da fenomenologia e das filosofias da existência, com uma atuação que vai do campo teórico ao atendimento clínico especializado.

Formado por integrantes da graduação ao pós-doutorado, o laboratório é mais do que um ambiente acadêmico: é um território de escuta, reflexão e cuidado. Por meio do Núcleo de Atendimento Clínico (NAC), o Lafepe oferece psicoterapia com foco especial em pessoas em risco de suicídio e enlutadas, ampliando suas ações especialmente durante a pandemia de Covid-19, quando criou também um núcleo de apoio voltado para enlutados por perdas associadas à doença.

Além da prática clínica, o Lafepe promove grupos de estudo, discussões de casos, supervisões e eventos interdisciplinares que conectam psicologia, filosofia e arte. Um dos exemplos dessa atuação foi o evento realizado em abril, “Viver é muito perigoso: lições de Guimarães Rosa para um modo de pensar não colonizado”, que reuniu mais de 200 pessoas para refletir sobre o impacto da literatura no pensamento clínico e existencial.

Dia do evento com auditório lotado (Foto: Lafepe)
Dia do evento com auditório lotado (Foto: Lafepe)

Segundo a professora Ana Maria Feijoo, o laboratório busca, através da fenomenologia, compreender o sofrimento psíquico sem reduzi-lo a diagnósticos simplistas. Em suas palavras: “A fenomenologia nos ensina a escutar antes de interpretar. É nesse espaço de abertura que encontramos a singularidade do outro”.

Essa escuta também atravessa a literatura. Feijoo, que há anos estuda autores como Clarice Lispector, Lima Barreto e Manoel de Barros, atualmente se dedica à obra de Guimarães Rosa, especialmente ao romance Grande Sertão: Veredas. Em sua leitura, Riobaldo, protagonista do livro, traz à tona questões existenciais profundas — como o conflito interno entre o bem e o mal — que ressoam diretamente com os dilemas vividos na clínica. “A questão do ‘diabo existe ou não existe?’ que atravessa toda a narrativa de Riobaldo é, para mim, uma pergunta fundamental da psicologia clínica. Trata-se de uma busca por sentido, por compreensão da própria experiência, que culmina em uma resolução epifânica: o diabo não existe, o que existe é o homem humano”, afirma Feijoo.

Essa intersecção entre literatura e psicologia existencial é a marca registrada do Lafepe. Para a professora, os autores brasileiros oferecem uma chave de leitura do sofrimento humano que foge às classificações rígidas da psicologia tradicional, e por isso são fundamentais na construção de um pensamento não colonizado — ou seja, enraizado na realidade e na cultura brasileira.

Bate papo com o ator Gilson Barros ( Foto: Lafepe)
Bate papo com o ator Gilson Barros ( Foto: Lafepe)

O evento com o ator Gilson de Barros, que interpreta Riobaldo em uma trilogia teatral baseada no romance, exemplificou esse esforço. Na ocasião, Gilson trouxe trechos da peça à Uerj e participou de uma conversa com o público mediada por Feijoo, promovendo um encontro sensível entre arte e psicologia. Para a professora, iniciativas assim abrem espaço para uma formação clínica mais crítica e sensível à complexidade do ser humano.

O evento, ocorrido em abril, representa apenas uma das muitas ações realizadas pelo Lafepe. A rotina do laboratório segue intensa, com pesquisas em andamento, atendimentos à comunidade, supervisões clínicas e encontros interdisciplinares. O grupo também compartilha conteúdos e reflexões em seus canais virtuais, fortalecendo sua atuação como um centro de produção e disseminação de conhecimento sobre psicologia fenomenológica e existencial.

Oficina de voguing na Uerj traz visibilidade para a cena

Oficina de voguing na Uerj traz visibilidade para a cena ballroom

Demonstrações e ensinamentos acerca do vogue reuniram jovens no décimo andar da Universidade
para aprenderem mais sobre a cultura ballroom

Por: Hyndra Lopes 

Sensei Theuse Luz D’Pavuna na oficina de Voguing no hall do 10º andar do bloco F, Campus Maracanã 

A décima nona edição da Mostra de Artes e Carpintaria de Comunicação Social da Uerj (MACACOS) contou com a participação da Sensei Theuse Luz D’Pavuna, pesquisadora e fundadora da “Brazilian Kiki House of Bushido”, para ministrar a oficina de voguing. Pavuna criou uma experiência imersiva no vogue, ensinando e explicando a simbologia dos elementos da performance. Além disso, a artista concedeu uma entrevista ao Aconteceh, na qual comenta sobre o acolhimento de pessoas marginalizadas pela comunidade ballroom, o papel do vogue no empoderamento destas e a importância de se discutir sobre essa subcultura na universidade.

A cultura Ballroom, nos moldes conhecidos atualmente, surge no Harlem (bairro do subúrbio de Nova Iorque) durante a década de 1970, quando Crystal Labeija, drag queen e mulher trans negra, se revolta com o racismo nos desfiles e concursos de beleza voltados à comunidade. Ela se junta com Lottie Labeija, drag queen também negra, para fundar a primeira House (“House of Labeija”) e dar um baile exclusivo para as queens negras e latinas, consolidando a cena Ballroom como movimento de luta e resistência negro, periférico e LGBTQIAPN+. Já no Brasil, ela surge oficialmente apenas em 2015, quando é datado o primeiro baile em Brasília.

Oficina de Voguing no 10º andar do Bloco F, Campus Maracanã 

As Houses, pilares da cultura Ballroom, surgiram como um coletivo que se assemelha aconcepção familiar, reproduzindo as suas hierarquias, e foi continuado na cena brasileira, com“papis”, “mamas”, “filhos” e “baba” (fazendo referência ao orixá do candomblé). Este é umespaço de acolhimento para pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ que são expulsas de casa pelas suas famílias, como diz Pavuna: “Infelizmente ainda sofremos das mesmas máculas queas pessoas lá atrás sofriam, porque nem todo mundo é aceito pelos seus pais ou progenitores. Meu pai e minha mãe são pastores, então eles têm uma relação meio densa comigo. Hoje emdia eles compreendem mais e entendem que eu tenho uma família fora da minha família”.

Além das Houses, outro símbolo da cultura Ballroom é o vogue – categoria de dança inspirada nas poses de modelos das capas de revista – representando a expressividade e liberdade de corpos LGBTQIAPN+. O vogue é dividido em 5 elementos – o catwalk, o duckwalk, a hands performance, o floor performance e os spins and dips – e, a partir deles, uma história é contada, com a criação do movimento dos cabelos, seios, unhas etc. A Sensei Pavuna salienta a importância dessa performance para o empoderamento da comunidade: “O vogue, especificamente, fala sobre a autoestima, porque é sobre poses, é sobre se imaginar numa revista de moda. Então é muito interessante pensar o quanto você consegue se imaginar como uma pessoa potente, bonita, interessante… É muito louco, porque várias pessoas não se imaginam nesse lugar de “eu posso ser uma pessoa sensual”, “eu posso ser uma pessoa bonita” ou “eu posso ser uma artista” e na Ballroom elas se descobrem enquanto potência”.

Apesar de ter maior visibilidade atualmente, a Ballroom ainda é uma cultura marginalizada e pouco estudada. Pavuna explica que a cena chegou no Brasil por uma veia acadêmica, mas não academicista, pois foi por meio de estudantes universitários, na busca por reproduzir aqui o que viam do vogue e do lugar de comunidade do movimento, e não por intelectuais. A discussão sobre o assunto no ambiente universitário e ações para tornar a cena Ballroom ativamente presente nesses espaços mostram-se de suma importância, pois criam possibilidades de retirar essa cultura e a sua comunidade das margens da sociedade. “Se lá atrás a gente via as pessoas dessas categorias (negras e LGBTQIAPN+) pensando em se tornar executivas e estudantes de universidades é essa a possibilidade de pensar: “eu posso me imaginar nesse lugar, com esse poderio” (…) Então acessar isso (a universidade) e usar o nosso conhecimento (sobre a cultura ballroom), que não é assimilado totalmente nesses espaços, é muito importante”, declara Pavuna.

A Sansei também aponta para a luta da comunidade em tornar a cultura Ballroom Patrimônio Cultural Imaterial no Brasil – em janeiro deste ano, a deputada Erika Hilton (PSOL) apresentou este projeto de lei à Câmara (PL n°183/2025) – e para a necessidade de pensar políticas públicas através da cena, que, historicamente, contribuiu para salvar a vida desses jovens marginalizados. “Eu acredito que não estaria viva até aqui se não fosse por essa comunidade. Então é sobre como a gente consegue construir realidades e, graças a elas, outras possibilidades de existência. Eu tenho muito orgulho de ver o que a juventude negra, LGBT, periférica, originária e corpos travestis generis consegue construir”.