‘Gato’ no futebol carioca: quando a idade vira uma arma dentro de campo
Por João Pedro Marins
No futebol, o termo “gato” tem um significado bem diferente do popular. Ele é usado para descrever o jogador que altera sua idade, geralmente para disputar categorias de base inferiores e se destacar entre atletas mais jovens. A prática, considerada fraude, é recorrente no futebol.
No futebol nacional, tivemos diversos casos famosos que vieram à tona. Como os casos Emerson Sheik, Sandro Hiroshi, Brendon e até o Vanderlei Luxemburgo.
CESAR GRECO/PALMEIRAS:
Luxemburgo em treino pelo Palmeiras
Em São Gonçalo, a história do jogador João Victor de Oliveira, conhecido como Romarinho, traz um olhar humano sobre esse dilema entre o sonho de ser jogador e o erro de falsificar a idade.
Romarinho atuou em clubes do futebol carioca e, em entrevista exclusiva à AJ, admitiu ter jogado como “gato” durante um período das categorias de base. Segundo ele, a decisão não partiu de uma ambição pessoal, mas de uma necessidade criada dentro do próprio ambiente esportivo.
Acervo pessoal de Romarinho:
Romarinho jogando pela base do Gonçalense
“O que me levou a tomar essa decisão foi a necessidade do treinador em ajudar a equipe inferior à minha idade. Ele acreditava que eu poderia fazer a diferença entre os meninos mais novos”, contou o jogador.
O processo, segundo ele, foi simples e silencioso. Com a ajuda do próprio treinador, Romarinho passou a integrar uma categoria abaixo da sua, sem que houvesse alteração formal de documentos. “Na maioria das vezes eu começava no banco para não chamar atenção. Entrava quando o time estava perdendo, e isso fazia diferença”, relembrou à AJ. Apesar de não ter chegado a usar uma identidade falsa, ele reconhece que a prática fere as regras e a ética esportiva.
A vantagem física e técnica sobre os colegas era evidente. Romarinho admite que, por estar mais desenvolvido, nunca se sentiu pressionado: “Eu tinha mais força, velocidade e consciência nas jogadas. Era natural o meu futebol se sobressair.”
Enquanto isso, a família e os amigos viam apenas os resultados dentro de campo. “Minha família só queria me ver feliz jogando e ajudando o clube. Meus colegas gostavam porque o time vencia mais quando eu estava em campo”, afirmou à AJ.
Com o tempo, as fiscalizações se tornaram mais rigorosas, e o atleta decidiu abandonar a prática. Ele não chegou a sofrer punições formais, mas reconhece que o episódio marcou sua trajetória: “Ser ‘gato’ só me ajudou no início, quando meu futebol foi mais visto. Mas hoje sei que isso não valeu a pena.”
Hoje, Romarinho olha para trás com maturidade e faz um alerta para os jovens que sonham em seguir no futebol: “Eu não me orgulho de ter passado por cima das autoridades por interesses do clube. Foi um erro, mesmo que tenha me ajudado. Digo aos garotos que se esforcem, que não trapaceiem. As fiscalizações estão muito mais rigorosas, e quem perde no fim é o jogador. Os clubes muitas vezes permitem quando é do interesse deles, mas o preço é alto.”
Acervo pessoal Romarinho
O caso de Romarinho não é isolado. A prática dos chamados “gatos” no futebol mostra o erro do sistema que muita das vezes incentiva e ignora problemas antiéticos, apenas para fins de favorecimento esportivo.