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Cultura de arquibancada: conheça Igor dos Santos, um Guerreiro do Almirante
Entre trabalho e faculdade, Igor separa um tempo para se dedicar ao clube
Por Augusto Oliveira
Membro da barra Guerreiros do Almirante (GDA) desde 2020, Igor dos Santos Nicolau tem 25 anos e cursa o terceiro período da Faculdade de Serviço Social da Uerj. Além das obrigações nas salas de aula e nas arquibancadas, Igor trabalha de manhã até de tarde. Apesar da rotina pesada e do alto preço dos ingressos, ele consegue estar presente na maioria dos jogos do Vasco.
“É bem complicado [conciliar as atividades dentro da GDA com a rotina de estudos e trabalho] porque eu trabalho de manhã até às 14h e faço faculdade à noite. Geralmente os jogos são às quartas e aos domingos, dá pra conciliar um tempinho ali, porque a Uerj é perto do estádio, então dá para ir tranquilo. O problema é quando é jogo final de semana e você quer descansar mais um pouquinho. Tem que fazer um esforço, acho que a grande questão é essa, ter que separar um tempo pra poder aproveitar o seu time. Apoiar o seu time.”
“Consigo estar presente na maioria dos jogos; fazendo esforço. Tem a questão do ingresso, também, que é um ponto a ser falado, porque o ingresso está muito caro e às vezes dificulta também comparecer, mas, fazendo esforço, dá pra ir.
Foto: Igor dos Santos

Igor com a camisa da GDA
Igor contou sobre a relação com outras organizadas do Vasco e definiu a relação como de união por um único propósito maior: apoiar o clube.
“Com organizadas do Vasco, é união, porque atualmente a gente torce para um time e a gente tem que ir até o final. Claro que pessoas divergem opiniões, mas o maior intuito é apoiar o time. É isso que eu vejo. As maiores alianças que a gente tem mesmo são dentro da nossa torcida, a gente não tem que deixar de caminhar junto, porque é o mesmo propósito.”
Em 2022, a sintonia torcida-equipe do Vasco foi fundamental na campanha de acesso à Série A, com o time se impondo em São Januário em momentos importantes da competição. No entanto, nos anos seguintes, essa força foi se perdendo, ao que Igor atribui ao alto preço dos ingressos, o que teria mudado o perfil do torcedor do Vasco para um torcedor mais elitista e apático, mais preocupado em assistir à partida do que apoiar a equipe e inflamar o estádio.
“Naquele ano, foi um ano muito maneiro, a sintonia era forte com a torcida e o time, mas acho que isso se perdeu um pouquinho justamente por conta também justamente do que eu estava falando dos ingressos, mudou muito o perfil dos torcedores. É um torcedor mais elitista, que vai mesmo só para assistir ao jogo, não para torcer, às vezes você olha, ninguém está cantando, ninguém está se importando com o que está acontecendo no campo.”
“Mas acho que se o ingresso fosse mantido no preço que estava, o sócio fosse mais acessível para o perfil do torcedor vascaíno, eu acho que a gente conseguiria manter aquela relação que a gente tinha de clube e torcida.”
Igor também falou sobre a atual configuração de divisão entre as torcidas organizadas em São Januário, onde a GDA se une com a Ira Jovem Vasco, enquanto do outro lado ficam a Força Jovem Vasco e a Mancha Negra, classificando essa divisão como natural e rejeitou a ideia de que seria uma “batalha de egos”.
“Batalha de egos eu não diria, diria que é só a sua forma de se expressar perante a torcida, porque quando quer juntar, junta.”
A Guerreiros do Almirante é uma torcida com uma forte pegada ideológica, muito associada à esquerda política e às minorias sociais. Para Igor, isso tem a ver diretamente com a composição da GDA ser majoritariamente uma juventude que anseia em mudar o cenário atual das arquibancadas.
“ A GDA atualmente acho que é a torcida que mais se posiciona em relação a minorias, em relação à política, porque a GDA é uma torcida mais jovem, uma torcida que quer mudar as coisas, que quer mudar o cenário atual das torcidas. É uma torcida que faz a diferença em relação às minorias, em relação à mulher, tem componentes femininos na bateria, tem uma torcida feminina da GDA. Acho que é uma torcida que apoia as minorias, que vê a questão da mulher, é uma torcida boa de se fazer presente.”
Sobre a imagem das torcidas organizadas, hoje muito associada ao vandalismo e à violência, Igor admitiu a recorrência dessas práticas, mas destacou que é algo que deve ficar no passado.
“Isso é presente sim em torcidas organizadas, mas não deveria ser dessa forma. Isso ficou no passado, briga, morte, isso tem que acabar, é inadmissível uma pessoa sair para ver um jogo e morrer no meio do caminho, não voltar pra casa. A pessoa morrer porque está com camisa de organizada de outro time.”
Apesar de admitir a violência como uma realidade entre as torcidas organizadas, Igor foi enfático ao dizer que a mídia e os tribunais de justiça cumprem um papel de perseguição das torcidas organizadas, ressaltando que o torcedor organizado, visto como um marginal, muitas vezes só quer ter o direito de torcer.
“[O torcedor organizado] Só quer ter o direito de ir pro estádio e apoiar o seu time. E por conta de pessoas que vão para a rua, brigam, quebram coisas, as autoridades com certeza vão pensar que todos os torcedores organizados são marginais. Mas não é assim. Na torcida organizada tem pai de família, tem trabalhador sério, tem empresário, tem mãe de família, na torcida organizada tem todo tipo de pessoa, não é só marginal. Obviamente tem marginal, mas não é só isso. Como em todo lugar. Como todo ambiente.”
Igor reafirmou que há um processo de elitização do acesso aos estádios, que ocorre principalmente pelo já mencionado alto preço dos ingressos e que influencia diretamente no modo como o torcedor e a torcida organizada torcem.
“Com certeza ocorre uma elitização do acesso aos estádios, e isso ocorre devido à alta procura de ingressos, e nisso a diretoria se vê no momento de lucrar com isso, e sobe os valores dos ingressos. E isso influencia bastante no modo como torce o torcedor, como torce a organizada. Acho que isso influencia bastante, porque vou voltar a dizer, isso muda o perfil do torcedor vascaíno. Fica um torcedor mais elitista. E o torcedor vascaíno não é um torcedor elitista. Porém, tem uma minoria que é, e grande parte dela acessa os estádios mais do que as pessoas que não tem condições.”



