Futebol e política: a controversa diplomacia marroquina em meio ao sucesso esportivo

Futebol e política: a controversa diplomacia marroquina em meio ao sucesso esportivo

Adversário do Brasil tem posicionamentos controversos na política externa

Por: Johann Marcelo

Reprodução: Agência Brasil

Protesto feito no Brasil contra a ocupação marroquina no Saara Ocidental

A seleção do Marrocos é a primeira adversária do Brasil na Copa do Mundo 2026. Enquanto a seleção canarinho sonha com o hexacampeonato e com o fim do jejum de 24 anos sem título, a equipe marroquina busca repetir o bom desempenho alcançado no Mundial anterior, no Catar, quando foi a quarta colocada e se tornou a primeira seleção africana a chegar às semifinais do torneio. O sucesso da campanha de 2022 despertou a simpatia de muitos amantes do futebol pelo Marrocos, que foi a grande surpresa da competição ao derrotar fortes seleções europeias e desafiar a elite do futebol mundial. No entanto, parte do continente africano observa o país com ressalvas por conta de sua política externa, que ao longo das últimas décadas tem gerado controvérsias e tensões na região. 

O principal rival dos marroquinos no continente é a Argélia. Em 1975, a Espanha transferiu a administração do território conhecido à época como Saara Espanhol ao Marrocos e à Mauritânia – que deixou a ocupação em 1979 – por meio do Acordo de Madrid, contrariando a autodeterminação do povo saarauí e ocasionando a criação da República Árabe Saarauí Democrática (RASD) pelo grupo separatista Frente Polisário, em 1976. Desde então, o governo argelino tem atuado como principal aliado financeiro, logístico e militar do movimento que visa à independência do atual Saara Ocidental, ocupado em cerca de dois terços pelo Marrocos. Vizinhos e postulantes à hegemonia no Magrebe, Marrocos e Argélia travam uma guerra fria na disputa pelo poder no Noroeste africano, e o envolvimento de ambos na questão do Saara Ocidental mostra como os fatores humanitário e cultural são atravessados por esse embate. Vale ressaltar que a ONU considera ilegal a administração marroquina na região ocupada.

O impasse na região ocasionou um momento de ruptura em 1984, quando o Marrocos deixou de ser membro da Organização da Unidade Africana – futura União Africana – por conta do reconhecimento da entidade à autonomia do Saara Ocidental. Apenas em 2016, o governo marroquino manifestou o desejo de readmissão à organização, fato que foi consumado em janeiro de 2017. O afastamento de mais de 30 anos do país da principal entidade de integração continental é um fator que causa inevitável estranhamento com as demais nações africanas. 

Outra questão a ser notada é a aproximação diplomática entre o Marrocos e o governo de Israel. O alinhamento com os interesses israelenses se tornou possível com a assinatura dos Acordos de Abraão, tratados mediados pelos Estados Unidos, durante o primeiro mandato de Donald Trump, que buscavam a normalização das relações internacionais entre países árabes e Israel. Em retorno, estadunidenses e israelenses passaram a reconhecer a soberania do Marrocos sobre o Saara Ocidental. A aliança com o regime de Benjamin Netanyahu é tida como controversa, já que ela ocorre em meio à expansão militar israelense pelo Oriente Médio e ao massacre contra a população palestina na Faixa de Gaza, fato que tem despertado comoção na comunidade internacional. Além do mais, o poder marroquino sobre o Saara Ocidental também é apoiado pela França e pelo Reino Unido, mostrando que o país magrebino está posicionado harmonicamente com o Ocidente.

Em contrapartida, o Marrocos busca consolidar sua rede de apoio na região, tendo feito movimentos estratégicos de aliança com países do Sahel, faixa semiárida que percorre os extremos leste e oeste do continente. Em 2025, líderes diplomáticos de Burkina Faso, Mali e Níger, que compõem a Aliança dos Estados do Sahel (AES), foram recebidos pelo rei marroquino Mohammed VI para discutir a Iniciativa Atlântica, proposta que busca promover o acesso desses e de outros países sahelianos ao Oceano Atlântico. Além do possível crescimento econômico a ser alcançado, tal plano pode ser visto como uma tentativa do Marrocos de se aproveitar da crescente tensão entre o Mali e a Argélia, ocasionada pela ação de grupos separatistas no Norte maliano e pelas acusações de acobertamento argelino, para se solidificar como a grande potência do Magreb e expandir sua influência para além da região.

Voltando ao futebol, é possível que o bom desempenho da seleção marroquina faça com que o país tenha uma imagem positiva para o exterior, consolidando um clássico exemplo do que o cientista político estadunidense Joseph Nye Jr. definiu como soft power (poder suave). Nesse aspecto, é interessante lembrar que o Marrocos sediará a Copa do Mundo de 2030 em conjunto com Espanha e Portugal. O sucesso da seleção nacional e a organização de um megaevento global são possibilidades promissoras para a exportação de uma propaganda sólida. Portanto, enquanto a diplomacia do país estiver atuando, o futebol poderá servir como uma relação pública eficiente para os pormenores da geopolítica.

Futebol e política: a controversa diplomacia marroquina em meio ao sucesso esportivo

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