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Literatura indígena na Universidade ressignifica visão sobre povos originários
Literatura indígena na Universidade ressignifica visão sobre povos originários
Por: Hyndra Lopes

A literatura indígena contemporânea encontra desafios para se estabelecer no meio acadêmico, refletindo os estereótipos e preconceitos acerca destes povos e da sua cultura. Em entrevista com a professora Lívia Jacob, é discutida a importância de se estudar textos produzidos por autores indígenas e saberes tradicionais, além dos desdobramentos e lacunas da Lei n°11.645/2008 na promoção de uma educação pluralista.
A literatura indígena refere-se às obras escritas por autores indígenas. Apesar das histórias desses povos serem milenares, transmitidas tradicionalmente por meio da oralidade, a sua literatura na forma escrita, publicada por editoras, se popularizou oficialmente no Brasil a partir dos anos 1980, como resultado da luta dos indígenas pelos seus direitos e reconhecimento da sua identidade. Durante as décadas de 1980 e 1990, surgiram obras como Antes o Mundo Não Existia, de Umusi Pãrõkumu e Tõrãmu Kehíri, Oré awé roiru’a ma: Todas as vezes que dissemos adeus, de Kaká Werá Jecupé, e Histórias de índio, de Daniel Munduruku, que buscavam quebrar o estereótipo colonizador acerca dos indígenas por meio de uma narrativa feita por eles. A literatura, então, passa a ser um instrumento de resistência para defender as suas terras, a sua cultura e os seus povos.
Nesse contexto de conquista dos direitos indígenas, foi implementada a Lei n°11.645/2008, que tornou obrigatório o estudo da história e da cultura afro-brasileira e indígena no ensino básico do país. A legislação, apesar de tardia, tentou pluralizar a educação e apresentar a literatura indígena nas escolas, porém a limitação aos ensinos fundamental e médio representam um atraso na desconstrução do imaginário estereotipado acerca destes povos.
Lívia Penedo Jacob, professora e doutora em Estudos Literários pela Uerj, diz que a lei é uma tentativa de humanizar os povos originários, considerando que, anteriormente, estas cosmovisões eram apresentadas como “folclore” e culturas ultrapassadas. Contudo, ela defende que, para combater os estereótipos e preconceitos, é necessário que a temática indígena se torne obrigatória também no ensino superior: “(…) Se a temática indígena não se tornar obrigatória nas licenciaturas, se os futuros educadores não receberem uma formação adequada nesse sentido, a lei se tornará uma aporia difícil de contornar”.
Além da carência desses estudos na universidade, Lívia aponta outra questão que contribui para a visão distorcida acerca dos povos originários: a desvalorização da literatura indígena contemporânea no meio acadêmico. Observa-se uma preferência por textos clássicos de autores consagrados perante os não canônicos, configurando o que seria verdadeiramente literatura para os moldes acadêmicos. Isso exclui as obras indígenas deste patamar, visto que a entrada de seus autores no mercado editorial é, de certa forma, recente e a tradição oral acaba sendo desconsiderada. “Se hoje os graduandos em Letras ignoram os nossos autores
indígenas, podemos concluir que estão se formando sem conhecer a própria cultura do país”, afirma Lívia.
A professora nota também um certo receio, por parte dos estudiosos de Letras, de que o estímulo da leitura de produções contemporâneas de base oral possa causar desinteresse nos alunos acerca dos clássicos. “ (…) Se esquecem que entre escolher Machado de Assis ou Daniel Munduruku, há uma outra via possível: ensinar os jovens a ler e a interpretar ambos. Esse tipo de preconceito nos mostra a permanência de uma fantasia antiga, segundo a qual a nossa literatura se fundaria nas “belas-letras” legadas por autores canônicos, consagrados”.

A literatura indígena também tem o papel de preservação de mitos e lendas originárias, que correm o risco de desaparecerem com as constantes ameaças à existência desses povos. A importância disto se evidencia ainda mais atualmente, considerando que os indígenas representam menos de 1% da população brasileira, de acordo com o último Censo Indígena do IBGE (2022). Lívia defende que as tradições orais fazem parte do patrimônio cultural brasileiro e o seu registro por meio dos livros é a forma mais acessível de se arquivar esses saberes.
A Uerj possui projetos que promovem essa preservação, como o Opierj – Observatório da Presença Indígena no Estado do Rio de Janeiro, desenvolvido pelo Proíndio – Programa de Estudos dos Povos Indígenas, da Faculdade de Educação (EDU), e o Nepiie – Núcleo de Estudos sobre Povos Indígenas, Interculturalidade e Educação, da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (Febef). As iniciativas visam registrar os aspectos socioculturais da população indígena presente no Rio de Janeiro, construindo bancos de dados com os saberes originários e produzindo materiais de auxílio para os educadores.
Lívia finaliza defendendo a importância do estudo dos saberes indígenas na atualidade. “Vivemos tempos bárbaros. O outro não existe. (…) O pensamento indígena defende uma ideia oposta, calcada na valorização da coletividade: o eu sem o outro é nada”, afirma a professora. A filosofia indígena inspira a humanização das práticas sociais e da relação do homem com os outros seres que habitam o planeta. A partir da leitura de obras de autores indígenas que tratem dos saberes tradicionais, aprende-se os valores destes povos e constrói-se uma nova visão de mundo, que condena os atos de genocídio e violência em curso e valoriza a diversidade e a preservação da fauna e da flora.



