O ato de torcer: cultura, paixão e resistência nas arquibancadas da Copa
Seja um dos anfitriões do torneio, o México, ou uma equipe apenas na sua segunda participação em Copas, como o Congo, as torcidas refletem décadas de luta e tradição
Por: Isabele Almeida
A Copa do Mundo 2026 já avança para as oitavas de final – que se iniciará amanhã (4/7) com o jogo entre Canadá e Marrocos – e até o momento muitas surpresas ocorreram, como o empate da Espanha com Cabo Verde e a eliminação da Alemanha ainda nos 16 avos de final. Mas algo que não é novidade alguma é a recepção dos torcedores mexicanos, bem como a animação que eles possuem para apoiar a seleção, que até o momento segue invicta na competição.
Desde os protocolos iniciais, no momento de cantar o hino, já é possível ver a paixão dos torcedores. Esse sentimento é transmitido para campo aos jogadores que retribuem esse amor com desempenhos que encantam a nação mexicana.
Mas a paixão mexicana em 2026 não é a única bela contribuição que eles fazem na arquibancada para o torneio da FIFA. O México, que já foi sede da Copa em 1970 – quando o Brasil conquistou o tricampeonato – e em 1986, foi o principal responsável por introduzir ao futebol mundial um movimento de torcida presente até hoje nas arquibancadas, a “ola”.
Reprodução: Fifa
A “ola”, que significa onda em espanhol, é uma organização voluntária dos torcedores na arquibancada para criar a ilusão de uma “onda” passando por todo o estádio. A beleza desse movimento está na ideia de que um grupo de pessoas compartilha de uma mesma paixão, ao mesmo tempo, e mesmo sem uma figura específica para exercer o papel de liderança, elas se organizam em prol desse amor. Existe algo que traduza melhor o que é uma torcida do que isso?
O que muitos não sabem é que a “ola” foi introduzida pelos torcedores mexicanos na Copa de 1986. Esse que já era um movimento utilizado por torcidas de clubes no México e em campeonatos nos EUA como hóquei, beisebol e futebol americano, mas só foi introduzido mundialmente na Copa de 86, tornando-se um fenômeno entre torcedores de todo o mundo. Com a “ola”, entende-se o ato de torcer como uma representação da cultura misturada principalmente com a paixão e a tradição existente naquela nação e, consequentemente, em sua seleção.
Do lado da torcida da República Democrática do Congo, contudo, observa-se outra forma de torcer: uma demonstração da cultura de resistência de uma nação, através do torcedor Michel Nkuka Mboladinga, que faz uma homenagem ao símbolo de libertação colonial do país, Patrice Lumumba.
Reprodução: Instagram (@bleacherreport)
O torcedor Michel, conhecido como “torcedor estátua” esteve com a seleção do Congo no jogo contra a Colômbia nesta copa histórica para o país. A equipe da República Democrática do Congo foi eliminada nos 16 avos de final pela equipe inglesa, no dia 1/7, mas teve a melhor campanha de sua história em copas do mundo, campeonato de que já havia participado uma vez em 1974, quando ainda era uma ditadura e levava o nome de Zaire. Naquela ocasião, o país estava sob o comando do ditador Mobutu Sese Seko, o mesmo que, com o financiamento dos EUA, deu um golpe de estado em Lumumba em 1961, o sequestrando e o assassinando.
Patrice Lumumba, após o fim da colonização no Congo, foi eleito o primeiro-ministro do país, lutando pela independência total do país. Após seu homicídio, sua história da luta tentou ser apagada da memória da população, mas Michel Mboladinga a relembra em todos os jogos da seleção congolesa.
Parado da mesma forma que a estátua de Lumumba, durante os 90 minutos do jogo Michel é símbolo de algo muito maior para aquela nação. Todavia, durante esta copa do mundo, só pôde estar presente no jogo contra a Colômbia, no qual o Congo perdeu de 1 x 0, pois teve seu visto negado para a entrada nos Estados Unidos. Mesmo assim, Mboladinga demonstra, através da sua torcida, a resistência de um país livre da colonização.
A Copa do Mundo 2026 ainda terá muitos jogos até o dia 19/7, quando ocorrerá a final nos EUA, e ainda haverá muitos momentos para as torcidas transmitirem suas culturas, paixões e resistências no maior palco do futebol mundial.



