O lado oculto das trocas na NBA: Lucas Bebê revela a tensão dos bastidores na principal liga de basquete do mundo
Em entrevista exclusiva à AJ, Lucas Bebê fala sobre como funciona esse mercado de trocas e as incertezas dos jogadores sobre seu próprio destino.
Por: João Pedro Marins
Créditos: LNB
O mercado de trocas da NBA pode ser, em muitos momentos, cruel. Enquanto muitos estão acostumados com o futebol, em que a negociação depende do aval de três partes: o clube que vende, o clube que compra e o próprio jogador, na maior liga de basquete do mundo, é completamente diferente.
Ao assinar um contrato, o jogador concede à franquia o direito de transferir seus direitos trabalhistas para qualquer outro time da liga a qualquer momento. Fazendo com que assim, ‘o jogador possa acordar em Los Angeles, onde tem casa e os filhos estudam, e ir dormir em Minnesota ou Detroit com poucas horas para arrumar as malas.’, como disse Blake Griffin, ex-pivô dos Clippers, após ser enviado para Detroit.
Um dos que vivenciaram essa imposição de perto foi o brasileiro Lucas Bebê. Draftado (escolhido) na primeira rodada em 2013 pelo Boston Celtics, mas que foi envolvido em trocas na mesma noite do draft. Ficando assim sem saber seu destino na liga.
O jogador relatou à AJ que a frase de Blake Griffin vai além das quadras, retrata também a própria cultura norte-americana. Para o ex-pivô brasileiro, os Estados Unidos funcionam sob uma lógica puramente comercial, em que a busca constante por lucro e hipercompetitividade se sobrepõe a sentimentos, história ou qualquer tipo de lealdade. Na visão de Bebê, com raríssimas exceções de superestrelas que possuem o poder de escolha, a grande maioria dos atletas da NBA precisa assimilar desde cedo que é tratada pelas franquias como engrenagem descartável e moeda de troca em um mercado implacável.
Por serem acostumados desde jovem a essa cultura, os atletas não sentem tensão nessas situações, pois sabem que “faz parte do jogo”. “Em um elenco de 15 ou 16 pessoas, nem todo mundo está ‘pra jogo’ ou correndo risco de sair. Na minha época de Toronto, o Raptors era um time que historicamente mexia pouco. E mesmo quando um time vai se movimentar, não vão sair 4 ou 5 caras de uma vez. Geralmente sai aquele jogador que a franquia não quer mais e serve como boa peça de reposição para outro lugar, ou um atleta valorizado que o mercado está de olho e pode render boas escolhas de draft (picks). Quem vive lá dentro entende que todos estão sujeitos a isso. O jogador compreende que pode virar moeda de troca a qualquer momento por ‘n’ motivos, seja porque o clube quer mudar os rumos ou porque ele se valorizou e o time quer extrair o valor máximo dele em uma negociação. Nem todo mundo no elenco fica nessa posição de vulnerabilidade” disse à AJ.
Entretanto, tem jogadores que constroem uma ligação com a cidade, torcida, clube, e se sentem desvalorizado nessas situações. Um caso que Lucas vivenciou de perto foi a troca do DeRozan por Kawhi Leonard. DeRozan era um dos principais jogadores e ídolos da história recente do Toronto. O jogador falava abertamente em entrevistas e vídeos sobre o sonho de encerrar a carreira na franquia canadense. Porém, da noite para o dia, o jogador foi trocado sem ao menos ser avisado para aonde iria.
Lucas relatou que todos do elenco foram pegos de surpresa e ficaram impactados com a troca: “O caso do DeMar DeRozan é muito triste. Eu acho que ele era um cara que merecia ter sido campeão, principalmente pelo time que ele construiu. Ele passou oito anos e meio na franquia, foi o cara que colocou Toronto no mapa e construiu uma cultura vitoriosa ali. Ver um cara do calibre dele ser mandado de uma hora para a outra para San Antonio (na troca pelo Kawhi Leonard) foi um choque. Você nunca imaginava que ele seria negociado, achava que ele encerraria a carreira em um só time.” O próprio DeMar disse em entrevistas recentemente que se sentiu traído pela franquia que tanto amava.
Lucas disse também sobre como o jogador se sente ao ser ‘rebaixado’ para G-League (Liga de desenvolvimento da NBA). Enquanto para ele era uma forma de aprendizado, treino e ritmo de jogo, para muitos era uma “desvalorização” do jogador. “Muitos caras da NBA ficam revoltados porque pensam: ‘Pô, eu ganho milhões de dólares e vou jogar numa liga onde o salário do cara mais bem pago é de US$70 mil por ano?’. O jogador se sente desprestigiado.”
Créditos: Rafael Arantes
Essa forma de tratar o atleta está presente em diversas ligas americanas, e na sociedade daquele país. Por conta desse mercado, tivemos alguns casos recentes que ficaram famosos, como:
DeMarcus Cousins: O jogador acabou descobrindo ao vivo no All-Star Game (2017). O pivô estava dando uma entrevista, quando os próprios jornalistas lhe deram a notícia de que havia sido trocado.
Harrison Barnes: Talvez um dos casos mais absurdos, o jogador foi trocado no meio do jogo em 2019. Em fevereiro de 2019, jogando pelo Dallas Mavericks contra o Charlotte Hornets, Harrison Barnes estava em quadra no 3º quarto, quando ele foi posto no banco de reservas, a notícia vazou na imprensa e ele descobriu ali mesmo no banco que havia sido enviado para os Kings.
Chris Paul: Para muitos um dos maiores armadores da história, ‘CP3’ havia voltado para casa, ou para onde deveria ser sua casa, os Clippers. Enquanto a torcida comemorava sua volta, para se aposentar em seu clube de coração, a direção dos Clipps o trocou enquanto dormia. Para piorar sua situação, na mesma madrugada o clube que o recebeu (Raptors), o dispensou. Fazendo assim a carreira de um dos maiores armadores da história do basquete acabar de forma melancólica em fevereiro de 2026.



