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Oficina de forró da Uerj inova com método de condução compartilhada
Método criado por Ian Pacheco redefine a relação entre os bailarinos
Por Julia Lima e Samira Santos

Na sala de dança, Ian Pacheco não dita os passos como a maioria dos professores, ele os escuta. Em suas aulas, o silêncio entre dois corpos vale tanto quanto a melodia do forró. Há mais de uma década mergulhado na dança, Ian encontrou no forró contemporâneo não só um espaço artístico, mas um território de transformação social. Entre passos, pausas e movimentos, ele vem redesenhando a maneira como se dança e se vive o forró no Brasil e no mundo.
Com passagens pelo Canadá, Europa, Estados Unidos e diversas regiões do Brasil, Ian atua hoje como professor da oficina de forró na COART, onde leva uma proposta nova: dança como comunicação, não como imposição. Condução compartilhada, desconstrução de papéis de gênero e consentimento são as palavras de ordem de seu método.
“Eu comecei a dançar num momento muito difícil da minha vida. Estava afastado da minha família, dos amigos, e começando a faculdade de cinema, me aventurando no teatro. Um amigo da faculdade falou que gostava de forró. Entrei numa escola e, desde a primeira dança, eu me senti parte”, relembra o dançarino. A partir dali, ele não parou mais. Passou por diferentes estilos de dança, ensinou forró tradicional durante anos, abriu sua própria escola e até fundou uma companhia. Mas a paixão inicial começou a se desgastar quando Ian se deu conta dos limites do modelo tradicional: o homem conduz, a mulher obedece. “Chegou um momento em que eu comecei a desgostar da dança. Era um controle excessivo. Isso me incomodava”, conta.
A frustração foi tão grande que ele fechou a escola, desfez a companhia e mergulhou num ano de crise criativa e pessoal. Dali, emergiu uma nova proposta: o forró contemporâneo. Essa prática, que começou de forma experimental, se consolidou com o tempo. Ian passou a produzir eventos, aulas, imersões e retiros. Desde 2016 na UFF. Em 2024, chegou à Uerj, por meio de um convite de Caio Neves, orientador de cinema da COART. Ele acredita que oferecer seu trabalho em locais de acesso público aumenta ainda mais a proporção de pessoas que podem ser atingidas por ele, algumas que talvez nunca buscassem aulas de dança.
A dança como escuta
O diferencial de Ian está justamente aí: na intenção. Em suas aulas, dançar não é repetir movimentos ou decorar coreografias. É criar, comunicar e, principalmente, escutar a si mesmo e ao outro. Essa lógica redefine não apenas a dança, mas a relação entre os dançarinos. “Muita gente acha que condução compartilhada é só inverter os papéis tipo, agora a mulher também pode conduzir. Mas vai além. A ideia é quebrar a lógica de que precisa haver alguém no controle. Às vezes, nenhum dos dois conduz. Eles apenas dançam”, afirma. Para chegar a esse ponto, Ian trabalha com dinâmicas de improvisação, exercícios de escuta não verbal e debates sobre consentimento. A proposta tem conquistado alunos de diferentes perfis, desde iniciantes até dançarinos experientes que buscam algo novo.
Entre o palco e as redes
A popularização do trabalho de Ian nas redes sociais tem sido, ao mesmo tempo, uma vitrine e uma batalha. Desde 2023, seus vídeos sobre forró contemporâneo têm viralizado no Instagram e TikTok, alcançando milhões de visualizações e reações extremas. O dançarino recebeu dezenas de reações negativas e mensagens de ódio em seus perfis, que chegaram a deixá-lo doente. Com o tempo, ele diz ter desenvolvido um escudo emocional: “tem um lado meu racional que entende: essas pessoas não me conhecem. Elas estão reagindo a uma ideia, a uma quebra de expectativa. Mas o lado emocional sente”.
Por outro lado, Ian também recebe manifestações de apoio que o ajudam a seguir. “Tem gente que me para no baile, diz que não curte muito meu estilo, mas reconhece o valor do que eu faço. Tem quem venha agradecer, contar que se sentiu mais livre depois da aula”, relembra.
Forró do futuro
O forró contemporâneo de Ian Pacheco não é apenas uma proposta pedagógica. É um gesto político. Ao recusar a lógica da condução masculina, ao dar voz ao corpo, ao valorizar o não tanto quanto o sim, Ian está ensinando mais do que dança. Na COART, esse desejo encontra terreno fértil. Ian espera continuar por muitos anos: “Eu gosto de estar perto de gente. De ouvir histórias. De ver como a dança transforma as pessoas. Porque ela transformou a mim. E ainda transforma, todo dia”
Para mais informações acesse suas redes sociais @auladoian
Serviço
Datas: Terças
Horário: 14h – 16h e 18h – 20h
Local: COART/ Uerj
Endereço: Rua São Francisco Xavier, 524 – Maracanã Prédio anexo – Campus Maracanã
Inscrições das oficinas da COART feitas durante o início dos períodos letivos.



