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Os desafios da nova adolescência sob a perspectiva dos educadores
Com a exposição dos jovens alunos a uma rede de conexões, o processo educacional enfrenta algumas adversidades
Por: Luana Maciel

A série “Adolescência”, que conta a história de Jamie Miller, um menino de treze anos acusado de assassinar uma colega de classe, estreou na Netflix em março deste ano e atraiu a atenção -e a preocupação- de muitos pais, responsáveis e educadores. Essa preocupação se manifestou porque a série aborda os perigos aos quais os adolescentes estão expostos na internet e nas redes sociais, muitas vezes sem que os adultos nem ao menos estejam cientes desses perigos.
Um detalhe que se destacou na produção foi um episódio que se passa na escola do suspeito do crime, e que mostra uma falta de conhecimento e um despreparo por parte dos professores para lidar com essa nova geração de jovens que são expostos constantemente a esse mundo digital. Eles têm acesso a celulares, tablets e computadores, que oferecem a eles um mundo inteiro de possibilidades. O problema é que esse mundo também apresenta uma série de prejuízos para as crianças e os adolescentes, afetando seus níveis de irritabilidade e concentração, por exemplo, e podendo prejudicar, no ambiente escolar, o aprendizado desses indivíduos. Assim, com a veloz ascensão tecnológica, surgem também muitos desafios a serem encarados na prática educacional.
Pessoas interagindo com computadores. Foto: Freepik
Segundo Carlos Henrique Fonseca, coordenador do Núcleo de extensão, pesquisa e editoração e professor de língua portuguesa do CAp-UERJ (Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira), um dos principais dilemas que surgem nesse contexto é o de adaptar a didática escolar ao tempo cada vez mais imediatista das crianças e dos adolescentes. Ele destaca que “a escola tem um tempo, que não é o tempo do imediatismo da rede social e por isso esses tempos se confrontam”. Existe uma pressa constante que atrapalha a habilidade de concentração dos jovens, e muitas vezes eles não conseguem dedicar tempo para leituras, raciocínios ou exercícios mais demorados.
Outra problemática que o uso exacerbado dessas tecnologias pode provocar é o afastamento entre os indivíduos, prejudicando as relações sociais. Carlos Henrique afirma que esse uso sem equilíbrio deixa as pessoas muito individualistas. “A gente não consegue falar com o outro, a gente não consegue olhar o outro”, ressalta o coordenador. Esses cenários acabam promovendo um afastamento dos jovens em relação aos educadores e à própria instituição escolar em si.
Jean Felipe de Assis, coordenador da secretaria de estágio e graduação do Cap-UERJ, explica que esse distanciamento entre adultos e jovens ocorre porque as gerações estão se sucedendo de maneira muito rápida, o que faz com que contatos e referenciais sejam perdidos e a falta de uma convivência mais profunda leva a um descompasso geracional.
Ele acrescenta ainda que esse distanciamento pode levar ao aumento da precarização da profissão docente, uma vez que alguns adolescentes alegam que tudo que se aprende na escola estaria disponível na internet e que ferramentas como o Google e a inteligência artificial fornecem resoluções de forma mais rápida. “Mas a educação não se reduz a algo preparatório, não se reduz ao resultado obtido num teste”, ele aponta, e acrescenta que ao se tratar de um cálculo matemático, por exemplo, a máquina vai fornecer um resultado mais rapidamente do que a mente humana, mas isso excluiria o processo educativo de realizar o cálculo em si.
Para Jean, o principal propósito dos educadores brasileiros deve ser estabelecer uma rede de diálogo segura entre os professores e alunos. Ele salienta a importância desse convívio no âmbito escolar como meio de tentar amenizar e eventualmente resolver esse afastamento entre educadores e estudantes. “Estar presente é muito importante (…), o que nós temos é uma ausência de convívio”. Carlos Henrique concorda com a relevância da comunicação enquanto ponte, mas complementa dizendo que alguns limites também devem ser impostos: “certos pactos não são quebrados, certos combinados não são quebrados”. E, para o coordenador, esses pactos também se instituem por meio do diálogo.
Foi pensando nesses desafios educacionais em relação à interação com os novos aparelhos tecnológicos, que em janeiro de 2025 foi sancionada a Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celulares nas escolas. De acordo com a lei, é vedado o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais durante aulas, recreios e intervalos, em todas as etapas da educação básica.
No entanto, também não se trata de isolar por completo o âmbito escolar. Carlos Henrique explica que a conexão com conteúdos que fazem parte da vivência dos alunos nas redes pode aproximá-los do material a ser ensinado. Além disso, salas equipadas com tecnologias que visem ampliar o acesso a instrumentos didáticos podem ser muito úteis. “A presença da tecnologia em sala de aula tem que ser ligada primeiro a uma certeza metodológica, como que você vai aproveitá-la”, ressalta o coordenador.
O que precisa acontecer, portanto, é o uso consciente e equilibrado das ferramentas tecnológicas no ambiente escolar. As crianças e os adolescentes, assim como toda a sociedade, estão imersos nesse mundo digital e inevitavelmente vão ter que lidar com as novas tecnologias. O papel do educador aqui é então mediar esse uso e instruir os alunos sobre a maneira correta de fazer uso desses instrumentos. “É tarefa do educador, é tarefa da escola, é tarefa da sociedade, corretamente nos ensinar e nos proporcionar ambientes que nos ajudem e nos auxiliem a pensar a tecnologia”, enfatiza Jean de Assis.
Não adianta lutar contra o avanço da tecnologia e do meio virtual, é um processo inevitável, conclui Jean. “A tecnologia tem que ser um instrumento, ela não pode ser um fim”, defende Carlos Henrique. O que pode ser feito, considerando a perspectiva dos dois membros do CAp-UERJ, é estimular o convívio e o diálogo entre os educadores
modernos e as crianças e adolescentes. Trata-se de construir uma educação mais aberta e comunicativa que privilegia o aspecto humano mesmo em meio a um mundo tão mecanizado.



