Os desafios enfrentados pelo futuro do futebol brasileiro

Os desafios enfrentados pelo futuro do futebol brasileiro

Categorias de base do futebol brasileiro produzem talentos, mas as condições ainda não são ideais no país.

Por: Isabele Almeida

Após a derrota do Brasil na Copa do Mundo Masculina 2026, muitos foram os fatores apontados como motivos pelo qual o futebol brasileiro se afasta do passado marcado por conquistas. Entre essas razões, a baixa valorização do trabalho base do esporte no país foi um dos principais. De acordo com Ricardo Paul, vice-presidente da CBF, atualmente o Brasil possui 40 mil atletas atuando em categorias de base, mas apenas 3% chegam a atuar no futebol profissional e recebem mais de cinco salários mínimos ao atingir essa etapa.

O salário de jogadores profissionais, em raros casos, são justos. Na base, essa situação é ainda mais precária e é um dos fatores que auxilia a redução da porcentagem de atletas que chegam em clubes profissionais no país. Até os 16 anos, os jogadores não podem receber um salário de forma legal, apenas receber auxílio dos clubes pelos quais atuam. Após atingir a idade  de 16 anos os atletas já podem começar a receber salário, mas isso não é o que ocorre na maioria dos casos. Em entrevista para a AJ, o lateral Kauã Fioravante, de 19 anos, atualmente jogador do Grêmio Osasco Audax – da cidade de Osasco, em São Paulo – afirma que só começou a receber salário a partir do seu segundo ano de sub-20, quando saiu dos clubes do Rio de Janeiro, seu estado natal. Ele afirmou que, sem esse salário, não era capaz de se manter nos treinamentos sem uma ajuda externa – seja da família ou de um emprego extra -, o que é a realidade de muitos jovens brasileiros que desistem de atuar profissionalmente.

Além disso, a venda precoce de jogadores talentosos da base do futebol brasileiro é outro problema que o país enfrenta na conjuntura atual do esporte no país. A venda de jogador Endrick para o Real Madrid, em 2024, quando tinha 18 anos, apenas dois anos após sua estreia na equipe principal do Palmeiras, é um exemplo dessa situação. Com a sua ida precoce para o futebol europeu, o jogador tem pouco tempo de acesso ao chamado “jeitinho brasileiro” de jogar, há muito tempo sumido nas atuações de nossa seleção, e fica a mercê do modelo europeu. Sem construir uma base sólida em solo brasileiro, esse modelo de jogo se perde e, com ele, o modo de jogar do país que é considerado o “país do futebol”.

Foto: Site CBF

Endrick comemora título sub-20 do Palmeiras em 2022

Por último, a falta de recursos em clubes, principalmente de menor expressão, é outro fator que influência a desvalorização das categorias de base. Kauã afirmou que, principalmente no Rio de Janeiro, é muito comum não haver equipamentos, bolas e até mesmo água gelada para os atletas durante o treinamento, com exceção de clubes maiores. Essa falta de preparo estrutural para receber o jogador afeta a possibilidade de crescimento do atleta na modalidade, que, ao procurar alcançar um sonho, enfrenta desafios diários para conseguir evoluir e chegar ao tão sonhado futebol profissional.

Mas ainda há o que motiva esses atletas a continuarem. Se por um lado os clubes carecem de uma infraestrutura e suporte financeiro adequado para o atleta, por outro eles, em grande maioria, têm uma equipe técnica capacitada para auxiliar na formação do jogador. No período de 2 anos que atuou pela Portuguesa-RJ, o lateral afirma que a comissão técnica foi uma parte essencial para sua formação e continuação no esporte, fortificando sua técnica e percepção de jogo. Além disso, a oportunidade de jogar contra grandes equipes teve o mesmo efeito no atleta, e o motivou ainda mais a persistir no sonho de chegar ao profissional.

Foto: Acervo pessoal de jogador Kauã Fioravante

Lateral durante jogo da Portuguesa-RJ

Os problemas das categorias de base no Brasil estão longe de serem resolvidos, sejam eles estruturais ou financeiros, afetando as equipes principais de clubes de expressão no país, e até mesmo a seleção brasileira. Mas sabemos também que o país é capaz de construir atletas completos e que, como Kauã, sonham em fazer parte do futuro do futebol nacional nos grandes clubes. O que falta para a realização desse sonho é a busca em investir cada vez mais nas categorias iniciais do país, fundamentais para a história do futebol nacional e valorizar os talentos que temos aqui dentro.

Os desafios enfrentados pelo futuro do futebol brasileiro

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