Para além de Hogwarts: a luta do quadball por espaço e patrocínio
Entre busca por expansão e falta de incentivo, modalidade tenta se profissionalizar e romper estigma da ficção
Por : Ana Beatriz Carvalhido
Foto: Júlio César Cardosos/ CBQ
O antigo quadribol, hoje oficialmente conhecido como quadball, deixou as páginas do universo literário de Harry Potter surgindo em 2005, no Middlebury College, em Vermont, nos Estados Unidos, para se consolidar como uma modalidade de campo. No Brasil, a trajetória do esporte começou com Vinicius Mascarenhas, que descobriu a prática por meio de fóruns e redes sociais, fundando o Rio Ravens, em 2010, equipe pioneira na América Latina. Atualmente, a modalidade cresce com diversos times, entre eles a Minerva e o Grifos da Guanabara.
Ao longo dos anos, a modalidade passou por adaptações em suas regras, incluindo a mudança do antigo Pombo de Ouro para o termo Flag. As partidas duram, em média, de 35 a 40 minutos e são disputadas por sete jogadores de cada lado: três artilheiros, dois batedores, um goleiro e um apanhador. O jogo se encerra quando a Flag é capturada, sendo liberada para a captura aos 19 minutos de partida o que garante 30 pontos extras à equipe que realizar o feito, definindo muitas vezes o vencedor da disputa. A funcionalidade do bastão é determinante, porque caso ele saia no meio de uma jogada, pode ser bastante decisivo se o gol ou se a apanhada pomo foram válidos
Foto: Rozylene Borgens/ CCQ
Embora busque expansão, o quadball enfrenta a barreira do estranhamento e do preconceito. A prática ainda é frequentemente rotulada como infantil ou vista apenas como uma adaptação recreativa. Contudo, a modalidade vai além desse olhar limitado sendo um esporte misto e inclusivo, estabelecendo regras que garantem a diversidade de gênero em campo, ainda que o cenário atual apresente uma presença predominantemente masculina, mas que busca maior equilíbrio. “Se as pessoas olhassem com outros olhos, e dessem uma oportunidade de conhecer e jogar, saberiam que é maravilhoso” defende a atleta Pam Peixoto da equipe Minerva.
No país, a Associação Brasileira de Quadball (ABRQ) atua na organização da modalidade, provando que, apesar dos impasses iniciais, o esporte se consolidou de maneira profissional. Atualmente, os clubes brasileiros disputam competições oficiais de peso, como o Campeonato Brasileiro (CBQ), a Copa Sudeste (CCQ) e o Campeonato Paulista (CPQ). No calendário, destacam-se ainda a Copa São Paulo, a Copa Através dos Aros e a Copa Latam, esta realizada de dois em dois anos, torneios que denotam a profundidade competitiva e o alcance internacional de um esporte que luta para ser visto pela sociedade.
Apesar do avanço no país, o apoio financeiro continua a ser a maior barreira enfrentada pelo quadball, e os sinais de desgaste tornam-se cada vez mais visíveis. Durante o Campeonato Paulista de 2026, um desabafo foi comum entre os participantes: diversos atletas estão abandonando a modalidade por falta de apoio ou qualquer tipo de patrocínio. O histórico de incentivo é escasso, com raros momentos de alívio, como o ocorrido, em 2022, o apoio de um candidato a deputado viabilizou a competição, reduzindo o custo de inscrição para apenas R$ 7 por jogador.
“Eu vou competir este ano pela primeira vez com a seleção brasileira, e vou gastar em média de R$ 6 mil para poder viajar, se a seleção tivesse alguma forma de patrocínio, provavelmente seria mais barato,”, a jogadora Pam Peixoto.
Sem novas iniciativas de fomento, a sustentabilidade da modalidade permanece ameaçada. O quadball hoje depende exclusivamente da renda de atletas que precisam equilibrar jornadas de trabalho exaustivas com treinos para os campeonatos. Essa realidade sobrecarrega quem está em campo e transforma a permanência na modalidade em um ato de resistência.



