Rayssa Leal e popularização do skate no Brasil
Por: Lívia Martinho
A vitória de Rayssa Leal na etapa carioca da Street League Skateboarding (SLS), realizada no último domingo (9), no Maracanãzinho, voltou a colocar o skate brasileiro no centro das atenções. Diante da torcida, a skatista superou a japonesa Momiji Nishiya, campeã olímpica, e garantiu o título da terceira etapa da temporada. A competição também teve outros brasileiros em destaque como Giovanni Vianna, que terminou em segundo lugar, e Wallace Gabriel em terceiro na disputa masculina.
O resultado poderia ser apenas mais uma vitória importante para uma atleta que já acumula uma trajetória de destaque. Entretanto, a presença de Rayssa no Rio também levanta uma questão sobre a maneira como o público brasileiro se relaciona com o skate: afinal, o brasileiro gosta de skate ou gosta da Rayssa Leal?
Aos 18 anos, Rayssa é conhecida mesmo por pessoas que não acompanham regularmente o skate. A trajetória construída desde a infância, a medalha de prata conquistada nos Jogos Olímpicos de Tóquio, aos 13 anos, e o bronze em Paris ajudaram a transformar a skatista em uma personagem esportiva que ultrapassou os limites da própria modalidade. Em Tóquio, Rayssa se tornou a mais jovem medalhista olímpica da história do Brasil, enquanto em Paris voltou ao pódio no street feminino.
Reprodução: Instagram @sls
Essa popularidade tem um efeito evidente e positivo para o skate, já que uma grande estrela funciona como uma porta de entrada. Quem talvez não tivesse interesse em acompanhar uma competição pode parar para assistir porque Rayssa está competindo. Crianças e adolescentes podem conhecer a modalidade por meio dela, enquanto marcas e veículos de comunicação encontram um rosto para apresentar um esporte que, durante muito tempo, esteve distante do noticiário esportivo brasileiro.
Mas conhecer Rayssa não significa necessariamente conhecer o skate. É possível saber quem é a “Fadinha”, acompanhar suas medalhas e comemorar suas vitórias sem conhecer os outros atletas brasileiros, as principais competições ou mesmo as diferentes modalidades do skate. A popularidade de uma atleta e a popularidade de um esporte podem caminhar juntas, mas não são necessariamente a mesma coisa.
O próprio skate brasileiro mostra que não existe apenas uma estrela. Antes mesmo da ascensão de Rayssa, Letícia Bufoni já havia construído uma carreira internacional de destaque e se tornado uma das principais referências brasileiras do street. Pâmela Rosa também esteve entre os nomes de maior projeção da modalidade. No park, Pedro Barros conquistou a prata olímpica em Tóquio, enquanto Augusto Akio ganhou o bronze em Paris. No street masculino, Giovanni Vianna também já possui títulos internacionais e, no próprio SLS Rio Takeover, terminou em segundo lugar.
O país possui diferentes gerações de atletas, modalidades e trajetórias. A questão é outra: por que, entre tantos nomes, Rayssa conseguiu se tornar tão reconhecível para quem está fora do público tradicional do skate?
Rayssa ganhou projeção muito cedo, depois que um vídeo seu andando de skate fantasiada de fada viralizou quando ela tinha sete anos. Seis anos depois, apareceu nos Jogos de Tóquio e conquistou uma medalha olímpica aos 13. A narrativa de uma criança que se tornou medalhista e continuou vencendo competições internacionais é naturalmente atraente para o jornalismo e para o público. Ao longo dos anos, essa trajetória transformou a skatista, não apenas em uma competidora de alto nível, mas em uma personagem esportiva.
O desafio, portanto, não é tirar Rayssa do centro, mas aproveitar o espaço que ela conquistou para ampliar o espaço para o esporte. Se uma pessoa chega ao skate por causa de Rayssa e depois passa a conhecer Letícia Bufoni, Augusto Akio, Giovanni Vianna, Pâmela Rosa, Pedro Barros e tantos outros, a popularidade individual cumpriu uma função maior de apresentar uma modalidade inteira.



