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Rio de Janeiro sedia seu primeiro festival de cinema indígena
Evento abordou as principais lutas indígenas, como a demarcação das terras
Por: Sofia Inerelli

O Rio de Janeiro sediou entre os dias 22 e 26 de abril o Festival Tendy Koatiara, o primeiro festival de cinema indígena do estado. O evento contou com exibições de longas e curtas-metragens, oficinas e debates sobre as principais lutas indígenas. A realização foi da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, com a produção da Verama Produções e da Escola de Cinema Tendy Koatiara Nhembo’esaba.
O festival trouxe para as telonas o que por anos foi invisibilizado, como a luta pelo direito à terra aos indígenas, exposta no documentário “Levante pela Terra”. O filme aborda a luta pela demarcação a partir do protesto, ocorrido em julho de 2021, contra o Projeto de Lei 490/2007 que previa mudanças no reconhecimento da demarcação das terras e no acesso a povos isolados e propunha o chamado Marco Temporal – uma regra pela qual povos indígenas só teriam direito às terras que já ocupavam ou já disputavam em 5 de outubro de 1988. Após longa mobilização dos povos indígenas, projeto e o marco temporal foi considerado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Protesto Levante pela Terra ocorrido em Brasília no ano de 2021 – Foto: Joédson Alves (Agência Brasil)
O embate pela terra persiste até hoje. Existem no Brasil pelo menos 160 terras indígenas cujas demarcações permanecem estagnadas na fase de estudo, algumas aguardando a aprovação há mais de 30 anos, segundo relatórios da Funai. De um lado há o interesse econômico, que busca petróleo e minerais, enquanto o outro se preocupa com os direitos dos povos indígenas, com o combate ao desmatamento e com a mitigação da crise climática. De acordo com dados do Mapbiomas, terras indígenas conservam 99% da vegetação nativa desde 1985.
No Festival Tendy Koatiara a perspectiva indígena foi exaltada. Todas as produções precisavam ter ao menos um diretor, um roteirista ou um ator indígena. Ao final, todos tiveram pelo menos dois desses três critérios atendidos. O intuito, como apresentou Silvio de Andrade, um dos organizadores do evento, era dar visibilidade e voz aos povos originários, não apenas através de filmes etnográficos feitos por pessoas brancas.

Luisa Mamede, atriz e estudante do quinto período de história da arte na Uerj no Primeiro Festival de Cinema Indígena Tendy Koatiara – Foto: Sofia Inerelli
A busca pela representatividade no festival rompe com um apagamento de séculos do ser indígena, que como relata Luisa Mamede, estudante do quinto período de história da arte na Uerj e atriz no curta “Cócoras”, apresentado no festival, traz sofrimento, quando não se sabe sobre sua identidade. “Desde muito cedo, eu ficava me perguntando a que lugar eu pertencia, pois a história foi apagada. A minha família foi embranquecida muitas vezes. Só mais velha eu soube que meu avó paterna era uma pessoa indígena e que minha bisavó materna, e toda a sua família, também eram indígenas. Mas isso foi se perdendo, a história foi se apagando. Então, eu não tive esse contato desde muito cedo com essa ancestralidade.”
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