“Decisões judiciais estão aí para serem cumpridas”, afirma presidente do Google no Brasil

“Decisões judiciais estão aí para serem cumpridas”, afirma presidente do Google no Brasil

Em palestra na Web Summit Rio, Fábio Coelho alertou sobre desinformação

Por Everton Victor

Fábio Coelho, presidente do Google Brasil / (Reprodução: Web Summit)
 
 
 
 

Convidado da Web Summit Rio, o presidente do Google Brasil, Fábio Coelho, defendeu em sua palestra a obrigação inquestionável de empresas cumprirem decisões judiciais. Também falou da responsabilidade das bigtechs para combater a desinformação, ainda que, em seu entendimento, essa também seja uma responsabilidade estendida aos cidadãos. 

Na semana passada, o Google Brasil anunciou que não irá permitir anúncios políticos nas suas plataformas, decisão que está alinhada à resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O anúncio do Google prevê que a partir de maio todos os serviços da big tech estarão proibidos de impulsionar anúncios de propagandas de candidatos, partidos, coligações, e qualquer assunto veiculados à eleição municipal deste ano. Essa mudança na política interna da plataforma foi revelada pelo portal  Poder 360 e confirmada pelo Estadão.

A medida é uma tentativa de se adequar à resolução nº 23.732 do TSE de fevereiro deste ano sobre o uso da inteligência artificial na campanha eleitoral. O artigo 9-D da resolução afirma: “É dever do provedor de aplicação de internet, que permita a veiculação de conteúdo político-eleitoral, a adoção e a publicização de medidas para impedir ou diminuir a circulação de fatos notoriamente inverídicos ou gravemente descontextualizados que possam atingir a integridade do processo eleitoral”. Big techs, como a Meta, já anunciaram esforços para conter desinformação em suas plataformas.

Palco principal do Web Summit Rio / (Reprodução: Vaughn Ridley/Web Summit Rio)

Em um dos principais palcos de tecnologia do mundo, o presidente do Google Brasil reforçou o compromisso das empresas não se isentarem na luta contra a desinformação. “As decisões judiciais, especialmente da Suprema Corte, estão aí para serem cumpridas. As empresas têm um papel de valorizar o jornalismo de qualidade, apoiar a verdade e trabalhar com empresas que fazem checagem de fatos, para que o conteúdo de qualidade seja mais valorizado”, concluiu

Coelho destacou também a relevância do mecado brasileiro para as bigtechs. “O Brasil é um dos cinco maiores mercados do mundo, é um país que merece um status diferenciado (…) é um dos países foco dentro Google, a gente chama esses países de ‘Country of Focus’, que tá fazendo nos consiga trazer o segundo centro de engenharia do Google no Brasil”, explicou

O papel da inteligência artificial também foi um dos temas de sua palestra. Para Coelho, a obrigação de empresas como o Google é se engajar em políticas públicas para facilitar a difusão do conhecimento e de conteúdos.

Marcelo Eduardo, co-fundador da multinacional  Work & Co, empresa que desenvolve soluções para o Google, Apple e outras bigtechs, afirmou que a inteligência artificial vai cada vez mais ajudar nos processos, mas sem substituir a capacidade criativa e de interpretação das pessoas. O executivo afirmou que a tecnologia tem a capacidade de empoderar a sociedade através da disseminação de informação e citou como exemplo uma ferramenta criada pela empresa para que os professores possam dar aulas no Google Earth. Em sua opinião, não adianta uma empresa pensar em novas tecnologias, sem pensar em quem vai utilizá-la, “focando em usabilidade, acessibilidade, em prestar atenção a quem tá do outro lado”. 

 
 

Inovação no feminino: Web Summit Rio 2024 discute Inteligência Artificial e tem participação recorde de mulheres

‘A IA é uma ameaça existencial ao jornalismo’, afirma Renata Lo Prete

Em debate no Web Summit, jornalista diz que relevância da profissão cresce em meio ao aumento de manipulações feitas por IA

Por Julia Lima

Renata Lo Prete com Nuno Santos (CNN Portugal) e Laura Bonilla (AFP). (Reprodução: Everton Victor)

Quanto maior a desinformação em suas múltiplas facetas, inclusive com uso de inteligência artificial, mais importante é o papel do jornalista. Foi assim que Renata Lo Prete, apresentadora do Jornal da Globo, resumiu a importância do trabalho jornalístico nos dias atuais. Ela participou do segundo dia do Web Summit em duas mesas que discutiam o impacto dessa tecnologia na cobertura jornalística, principalmente quando o assunto é política. Para a jornalista, a maior preocupação para as eleições deste ano, que acontecem em 64 países, são os áudios modificados. É fácil achar na internet ferramentas gratuitas que consigam fazer modulação de voz e assim “colocar palavras na boca” de um adversário ou até mesmo de jornalistas.

Lo Prete destaca que o Brasil é a quarta maior população votante do mundo – 150 milhões – e o terceiro maior usuário de Whatsapp, sendo o primeiro na utilização de áudios para a comunicação. Dessa forma, o trabalho jornalístico de filtrar esses áudios e determinar se são verdadeiros ou não é ainda mais importante na realidade brasileira, ainda mais em ano de eleições. Ela resumiu afirmando: “Da mesma forma que fomos atacados como nunca antes, somos mais importantes que nunca.”

“A IA é uma ameaça existencial ao jornalismo”, disse Lo Prete. Em sua opinião, para enfrentar tal ameaça é necessário incentivar a formação de novos profissionais que entendam a importância desse serviço para a sociedade. Quanto à descredibilização da profissão pelo público, o antídoto, na avaliação da apresentadora, seria explicar de forma clara o porquê de os veículos fazerem esse ou aquele tipo de cobertura.

Renata Lo Prete, Greg Williams (Wired) e Vera Bergengruen (Time). (Reprodução: Julia Lima)

 

Contra fake news, a relevância da checagem de fatos

Para Lo Prete, “na política, o custo de mentir caiu muito.” E, para conter essas mentiras, ela destacou o trabalho de agências de checagem, principalmente o Fato ou Fake, da Rede Globo. A apresentadora destaca, no entanto, que fazer verificação excessiva de todas as mentiras que são publicadas é se render à agenda de quem as criou.

Por isso, finalizou a apresentadora, o jornalismo deve continuar fazendo seu trabalho de forma independente e imparcial, ainda que os profissionais possam sofrer algum tipo de retaliação. As empresas, por sua vez, devem fornecer segurança jurídica e física para seus funcionários a fim de buscar minimizar esses impactos e proteger os jornalistas.