O verão acabou, mas o risco de dengue não

O verão acabou, mas o risco de dengue não

Relatório da ONU mostra que mudança climática, com temperaturas mais altas e alterações no regime de chuvas, aumenta os casos da doenças climáticas

Por: Júlia Martins

                     Mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

O Relatório do Clima de 2025 publicado pelas Nações Unidas mostra que o aumento da temperatura global eleva o risco de dengue, o que contribui para ampliar a ocorrência de casos ao longo de todo o ano – e não só nos meses de verão. Mesmo com medidas para conter o mosquito Aedes aegypti,  transmissor da dengue, o estudo destaca que o número de casos em todo o mundo é o maior já registrado na história, com o vírus se expandindo para novos territórios. 

 

O relatório deste ano incluiu um estudo de caso sobre o impacto das mudanças climáticas na saúde humana. Um dos destaques foi a preocupação com o aumento das arboviroses, doenças virais transmitidas por mosquitos, como a dengue. Embora a doença também seja influenciada por fatores sociais, ela é sensível à temperatura e ao regime de chuvas. Por isso há mais casos durante as épocas mais quentes do ano, caracterizando a dengue como uma doença sazonal. Entretanto, o aumento das temperaturas e alterações nos padrões de chuvas favorecem um desenvolvimento mais acelerado do mosquito Aedes aegypti. Na prática, o número de picadas aumenta, e o tempo de incubação do vírus – período entre a contaminação e o surgimento dos sintomas – diminui. Com o aumento das temperaturas, as épocas mais frias do ano também se tornam favoráveis para a proliferação da doença.

 

No Rio de Janeiro, onde a dengue é endêmica, não é diferente: segundo o EpiRio, observatório epidemiológico do estado, mais de 1.400 casos da doença foram registrados em 2026 apenas na capital. A cidade do Rio de Janeiro registrou mais de 9 mil casos de dengue apenas em 2025, e o ápice foi nos primeiros três meses do ano. Em 2024, o Brasil enfrentou a maior epidemia de dengue já registrada, com mais de 6 milhões de casos prováveis.

 

De acordo com o Alerta Rio, sistema de alerta da prefeitura, o outono está sendo mais quente do que o esperado, com temperaturas acima da média e chuvas irregulares. Isso cria um cenário benéfico para o crescimento dos casos de dengue em épocas além do verão, e mostra como a doença tende a se tornar cada vez mais presente no cotidiano. 

 

Para Cleonice Santos, agente de saúde comunitária no Catiri, zona oeste do Rio, essas alterações de temperatura têm impactado o número de casos. “A gente percebe que a mistura dos fatores calor e chuva é um grande baque para os casos, e o mosquito está ficando ainda mais resistente. Quando estamos no pós calor é quando precisamos ter maior cuidado na observação e na orientação para as famílias”, afirmou. Ela também destaca o papel do saneamento básico no combate à doença: “A falta de saneamento, a vulnerabilidade social e falta de orientação torna uma pessoa mais suscetível”.

 

A crise climática atinge o mundo inteiro, o que reforça ainda mais esse perigo. O mosquito se expande para territórios em que antes não havia casos de dengue. A Organização Mundial da Saúde estima que metade da população global esteja sob o risco de contaminação, com aproximadamente 100 até 400 milhões de casos registrados por ano. Segundo o Relatório da ONU, no Brasil, o R0 – número que indica quantas pessoas podem ser infectadas em média – passou de 1,4 para 2,9 no ano passado.

 

Em 2021,  um artigo publicado pelos professores Antonio Carlos Oscar Junior, do Instituto de Geografia da UERJ (Igeog), e Francisco de Assis Mendonça, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), já investigava o desenvolvimento da doença com base nas mudanças climáticas. O estudo aponta a intensificação da dengue em épocas de tempo mais ameno, como o inverno, devido ao aumento da temperatura mínima ao longo dos anos. Além disso, eles buscam entender como a doença vai se comportar no futuro, com modelos de estudo para os períodos entre 2011 – 2040 e 2040 – 2070.

 

O artigo também destaca como a dengue está deixando de ser algo sazonal e como isso afeta estratégias de saúde pública. Visto que essas são feitas, em maioria, para o verão e o outono, é necessário elaborar medidas também para o inverno e a primavera. Além disso, as diferenças no espaço urbano, como a falta de saneamento e estrutura urbana chamam a atenção e intensificam esse cenário. Com isso, a população mais carente se torna a mais atingida. 

 

A vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan é um exemplo de medida para combater a doença. É o primeiro imunizante em dose única para a doença no mundo e será distribuído pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Por enquanto, no Rio de Janeiro, a vacina está sendo aplicada apenas em profissionais da saúde das unidades de Atenção Primária. No entanto, o Relatório da ONU e a Pesquisa de Oscar e Mendonça alertam a necessidade de discutir sobre mudanças climáticas e seus impactos na sociedade para além do óbvio, como na saúde pública, buscando amenizar as consequências como um todo. 

 

Pré-vestibular social na Tijuca impulsiona sonhos dos alunos

Pré-vestibular social na Tijuca impulsiona sonhos dos alunos

Projeto oferece apoio e acolhimento na fase de preparação para vestibular e evidencia a importância de promover estudos gratuitos para estudantes de baixa renda

Por: Alice Moraes

Alunos durante aula no curso./ Foto: Pablo Barbosa. 

Trabalhar com os sonhos dos alunos pode ser um desafio, mas também é gratificante. Pablo Barbosa é professor de redação em um pré-vestibular social na Tijuca e, para ele, cada aula oferecida gratuitamente é uma forma de acreditar no potencial de cada estudante que se candidata a entrar em uma universidade.

 

“Ao ensinar, estamos ajudando a construir um mundo mais justo e igualitário, no qual todos têm a oportunidade de alcançar seus sonhos”, diz Pablo. 

 

O professor é voluntário e coordenador do pré-vestibular comunitário oferecido na Paróquia Nossa Senhora da Conceição, localizada na rua Conde de Bonfim, 987, na Tijuca. As aulas, disponibilizadas semanalmente – exceto às terças-feiras – de 18h às 21h, preparam os alunos para realizar as provas do Enem e da Uerj. É cobrado o valor simbólico de R$20 por mês. 

 

O pré-vestibular social na Paróquia se iniciou antes de 2019 com outra equipe e coordenação até o professor Pablo tomar a frente do projeto. Ele relata que essa ideia ficava cravada na cabeça dele, porque ele tinha sede de ajudar os jovens do entorno onde a igreja está localizada. Ele, que morou em uma comunidade por muito tempo, notava as comunidades da região da Tijuca e sabia que o pré-vestibular ia auxiliar muitos alunos que moram por ali. Majoritariamente, os alunos que chegam ao pré-vestibular são oriundos da rede pública de ensino e moradores das favelas da região. 

 

“É uma responsabilidade grande conduzir os sonhos dos jovens. Coordenar um pré-vestibular social é acreditar, é mais do que transmitir conhecimento, é semear esperança e transformar vidas”, descreve o professor Pablo, enfatizando que a educação é uma ferramenta poderosa para a justiça social. Ele relata que tanto ele como toda a equipe de professores do curso são comprometidos com o auxilío na construção de um mundo mais justo e igualitário. Por meio do curso, eles ajudam a combater a desigualdade, oferecendo oportunidade de aprendizado para alunos que não teriam condições financeiras de arcar com um pré-vestibular particular. “Estamos vivendo a missão de educar e de oferecer igualdade de oportunidades, para que cada aluno tenha acesso a um futuro melhor”, Pablo diz. 

 

Atualmente, o curso gratuito tem 36 alunos inscritos e ajuda cada estudante a descobrir o potencial que tem. A fase de estudar para os vestibulares pode ser um momento de ansiedade e nervosismo para muitos jovens, que acabam se sentindo pressionados e comparados uns com os outros. Mas, no pré-vestibular oferecido na Paróquia da Conceição, a equipe do projeto se esforça para acolher e motivar cada aluno. “O que recebemos em troca é ver a perseverança e força dos alunos”, comenta o coordenador com orgulho. “No pré, vemos as diferentes realidades vivenciadas por cada aluno, realidades até difíceis que eles compartilham conosco. E, ainda assim, eles persistem para ir em frente”, acrescenta Pablo. 

 

A equipe do projeto sempre se reúne para pensar em ideias e propostas para se dedicarem mais aos alunos sem esperar nada em troca. Pablo relata: “Nosso trabalho é voluntário, mas o nosso maior pagamento é a satisfação dos alunos e ver eles sendo aprovados. Mesmo que eles não sejam, há alunos que chegam e falam: ‘professor, sei que eu não vou passar, mas quero continuar estudando’. Então essa é a nossa alegria, quando o aluno não desiste, mesmo com dificuldade”. Para ele, esse é o combustível que auxilia a equipe do projeto a seguir em frente: motivar e incentivar os alunos. 

 

O pré-vestibular da Conceição possui um perfil no Instagram, @conceicaoprevest, e um número para contato: 2238-2108. Na rede social, o curso compartilha experiências dos estudantes que foram aprovados nas universidades. 

 

Essas aprovações são motivos de orgulho para o coordenador, que comenta: “De 2020 para cá, tivemos aprovações na Uerj, UFRJ, UFF, Unirio, em universidades particulares também… é muito gratificante. Ainda que  não tenha aprovações, vemos a melhora na nota dos alunos, a evolução do desempenho, isso nos deixa muito feliz. É importante a gente considerar qualquer tipo de evolução que o aluno tenha, porque já é um passo para ele continuar tentando”. 

Uma das aulas do curso/ Foto: Pablo Barbosa. 

Movimento estudantil da Uerj promove conscientização sobre a Luta Antimanicomial

Movimento estudantil da Uerj promove conscientização sobre a Luta Antimanicomial

 Cofundadora da Frente de Luta Antimanicolonial explica a importância das causas defendidas pelo grupo de alunos de psicologia da Uerj

Por: Victória de Araújo

A Frente Estudantil de Luta Antimanicolonial Esther Morgannah (FLAEM) é um movimento estudantil fundado por universitários do Instituto de Psicologia da Uerj, que associa a luta antimanicomial  pelos direitos das pessoas com sofrimento psíquico e o processo de colonização, que, de acordo com o que é defendido pela Frente, usou da lógica manicomial para cercar, torturar e controlar os corpos de grupos mais vulneráveis. 

 

   A estudante de psicologia da Uerj e co-fundadora da Frente Antimanicolonial”, Rebeca Freitas (25),  explica a importância e a atuação da luta:Quando a gente estuda um pouco mais o movimento antimanicomial, a gente entende que os corpos que foram sequestrados e colocados no manicômio há anos foram majoritariamente mulheres, pessoas pretas, pessoas indígenas, pessoas LGBTQAPN+, enfim, minorias. E isso tá completamente atrelado ao processo colonizador que a gente teve aqui”. 

 Rebeca Freitas

        (Foto: Victória de Araújo)

A Frente é ativa desde 2025, mas foi idealizada em 2023 após um ato no dia nacional da luta antimanicomial. Rebeca conta que a motivação para a fundação do movimento surgiu em uma reflexão com Daniel Vasconcellos, também aluno da Uerj, sobre a importância de ampliar o conhecimento dessa área da psicologia, que transcende o formato da clínica, para as comunidades externas e internas à área da saúde. 

“Apesar de o curso de psicologia ser colocado como esse ‘protagonista’ na área de saúde mental, os cursos de psicologia não têm uma introdução sobre o que é o SUS, sobre o que é a luta antimanicomial, e quando têm é muito rasa. Então a gente decidiu criar um movimento de estudantes para estudantes, para a gente conseguir fazer um letramento sobre SUS, Luta Antimanicolonial, Rede Psicossocial e o tratamento dentro do CAPS. E mudar a perspectiva de com que público a gente vai trabalhar”, relata Rebeca. 

  A Frente Estudantil de Luta Antimanicolonial Esther Morgannah faz reuniões presenciais, divulgadas pelas redes sociais, para quem se interessar em contribuir com a causa, alternadamente segundas e quartas às 16h, em salas do bloco D, no décimo andar do Campus Maracanã. E também  organiza eventos contando com a participação ativa de usuários da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), provando a potência do atendimento humanizado e a relevância da reinserção. 

Roda de Partilha sobre a RAPS (Foto registrada por membro da FLAEM)

Visita ao Instituto Municipal Nise da Silveira, guiada por artistas e usuários do instituto 

(Foto registrada por membro da FLAEM)

Mesa da Segunda Semana da Luta “Antimanicolonial” 

(Foto registrada por membro da FLAEM)

Rebeca reitera que em todos os eventos é mantido um zelo em relação ao protagonismo das pessoas que são o motivo da luta existir. Um exemplo disso é Esther Morgannah, artista e usuária do Instituto Nise da Silveira, que dá nome a Frente. Seu nome foi escolhido porque ela representa o efeito positivo que o cuidado adequado tem na vida das pessoas em sofrimento mental grave, por ver o instituto como um local para sua expansão e expressão pessoal. Rebeca relata também que Esther afirma que estar na Uerj como participante do movimento a incentivou a voltar a estudar — hoje, é aluna de museologia na UNIRIO.

“A gente vem muito no sentido de sensibilizar, mostrar que é possível estar no meio social e ser louco, estar em sofrimento. É muito mais uma preparação da sociedade do que dos usuários e do serviço de saúde mental. A luta tenta ressignificar para a sociedade o sentido da loucura, que ainda é um estigma muito grande”, explica a estudante.

 

 Por fim, Rebeca ressalta que o grupo mantém uma postura aberta para qualquer um interessado em somar, que é só aparecer:“A gente precisa fazer um barulho muito grande para as coisas mudarem, sabe? É quase que uma nova reforma psiquiátrica para que a gente consiga realmente evoluir com essa causa. Só dá para fazer com gente, e gente diferente”.

Como os museus do Rio de Janeiro estão mudando a forma de falar de ciência

Como os museus do Rio de Janeiro estão mudando a forma de falar de ciência

Exposições variadas e democratização do acesso atraem público a instituições como o Museu do Amanhã, Museu Nacional e Museu do Jardim Botânico

Por: Sofia Lang

                                  Exposição ‘Oceano’ do Museu do Amanhã . Foto: Mixel Selva/ Museu do Amanhã

 

Num país onde o acesso ao conhecimento científico é desigual, três museus do Rio de Janeiro fazem da ciência seu principal atrativo. O Museu do Amanhã, no Centro da cidade, o Museu do Jardim Botânico, na zona sul, e o Museu Nacional, na zona norte, são espaços vivos de aprendizado e conexão com o mundo natural e as culturas humanas. Ao abordar temas como ecologia, preservação ambiental e antropologia por meio de uma linguagem acessível, atividades interativas e visitas guiadas, esses museus democratizam o contato de diversos grupos sociais com o universo científico.

Tanto o Museu do Amanhã quanto o Museu do Jardim Botânico e o Museu Nacional adotam a proposta de ‘conversação científica’: tentam ir além da divulgação tradicional para demonstrar que a ciência não é um saber isolado ou superior; ao contrário, ela caminha lado a lado com a cultura, a história, a arte e as crenças. Para o cientista ambiental Fábio Scarano, curador do Museu do Amanhã, o termo ‘divulgação científica’ é equivocado, pois sugere uma via de mão única. Segundo ele: ‘Não há conhecimento de que se possa abrir mão, e esses saberes devem ser democráticos e amorosos para que um museu seja um espaço de comunicação informal rico’.

No Museu do Jardim Botânico, o diálogo busca atrair o olhar para o reino vegetal, um tema frequentemente negligenciado. A instituição tem como propósito aproximar o público das plantas, despertando um interesse genuíno por elas. ‘Nossa intenção é que as pessoas saiam daqui com mais perguntas do que respostas’, afirma Grazielle Giacomo, bióloga e coordenadora de gestão e educação do museu. Ao estimular essas dúvidas, o museu combate a ‘impercepção botânica’ — fenômeno que se refere à incapacidade humana de notar as plantas no ambiente, o que as reduz a um mero plano de fundo da paisagem.

 

                        Parte da exposição principal do Museu do Jardim Botânico. Foto: Sofia Lang/ Agenc

 

O Museu do Amanhã investe na abordagem de questões urgentes, como as mudanças climáticas, a tecnologia e o impacto humano na Terra, enfatizando que o amanhã depende integralmente das escolhas feitas no presente. Ao evidenciar a fragilidade dos ecossistemas com exposições como ‘Água, Pantanal, Fogo’ — que em 2025 contrastou a beleza do Pantanal com a devastação das queimadas —, a instituição convida o público a refletir sobre sustentabilidade, responsabilidade coletiva e o futuro do planeta.

O Museu Nacional da UFRJ, que voltou a abrir suas portas em sss depois do incêndio de 2018, alia pesquisa arqueológica a uma linguagem acessível para despertar no público interesse científico e reflexão sobre identidade e diversidade cultural. A exposição “Os Primeiros Brasileiros” destaca os povos originários e os vestígios mais antigos da presença humana no país. As mostras refletem a trajetória da instituição,que antes do incêndio de 2018 abrigava mais de 20 milhões de itens, entre fósseis e artefatos. Após o desastre, cerca de 5 mil lotes foram recuperados. Esses materiais pertenciam a 14 das 25 coleções do palácio e, mesmo danificados, muitos poderão ser restaurados. Assim, o acervo segue como símbolo de resistência e preservação da memória coletiva.

A imersão é um dos principais recursos nas instituições da zona sul e do Centro do Rio de Janeiro. No Museu do Amanhã, a tecnologia compõe cenários interativos que envolvem o visitante em temas complexos, como a conexão entre o ser humano e o universo — ilustrando que somos feitos da mesma matéria das estrelas e provocando reflexões sobre nossa origem e destino. No Museu do Jardim Botânico, a imersão é empregada na experiência ‘Sumaúma: Copa, Casa, Cosmos, que mostra o processo da água dentro de uma árvore. Portanto, enquanto um utiliza a imersão para ampliar o olhar sobre o futuro do planeta, o outro a utiliza para aprofundar a relação com a flora e a biodiversidade.

Outro ponto de convergência entre essas instituições é o incentivo à participação ativa do visitante. O Museu do Amanhã busca constantemente gerar reflexões sobre o papel humano na construção do futuro. No Museu do Jardim Botânico, esse engajamento torna-se concreto: o público é convidado a plantar sementes durante a exposição, contribuindo diretamente para a restauração da Mata Atlântica. Em ambos os casos, o aprendizado ultrapassa as paredes do museu e ganha continuidade na vida prática.

Iniciativas de acessibilidade e programas educativos permitem que o Museu do Amanhã inclua grupos historicamente afastados desses espaços. A instituição conta, por exemplo, com uma sala de acomodação sensorial para pessoas neurodivergentes — recurso ainda raro em centros culturais. Somam-se a isso projetos educativos com ferramentas adaptadas para pessoas com deficiência e ações voltadas a comunidades externas, incluindo pessoas em situação de rua, o que amplia significativamente seu alcance e impacto social.

O Museu do Jardim Botânico também investe na inclusão de diversos públicos. Por meio de parcerias com escolas públicas do Rio de Janeiro, a instituição fortalece a educação não formal como complemento ao ensino tradicional. Além disso, promove atividades para todas as idades, incluindo projetos sensoriais para bebês e eventos como o ´Domingo Acessível`, que oferece visitas mediadas por intérpretes de Libras, materiais táteis e sensoriais. 

Como forma de inclusão, o Museu Nacional aposta em ações educativas, editais e projetos acadêmicos que incentivam a participação de diferentes grupos, incluindo estudantes de escolas públicas e jovens pesquisadores. Ao ampliar o acesso a oportunidades acadêmicas e culturais, a instituição contribui para reduzir desigualdades e formar novos profissionais nas áreas científicas. Tais iniciativas reforçam a premissa de que o conhecimento deve ser democrático e, acima de tudo, acessível a todos.

Quanto ao acesso, o Museu Nacional investe em uma abordagem diferente: ele amplia  sua presença digital de modo a  fortalecer iniciativas que buscam democratizar o acesso ao conhecimento, promover inclusão social e difundir temas científicos de forma acessível à população. A criação de uma central digital — reunida no Linktree oficial do museu — é um dos principais exemplos desse movimento. Por meio dela, qualquer um pode acessar exposições virtuais, publicações científicas, vídeos educativos e informações institucionais. Essa estratégia amplia o alcance do museu, permitindo que estudantes, pesquisadores e o público em geral tenham contato com conteúdos antes restritos ao espaço físico.

Enquanto o Museu do Jardim Botânico adota uma política de gratuidade total e o Museu do Amanhã mantém ingressos pagos em dias regulares, com gratuidade restrita a datas comemorativas e grupos específicos — como acompanhantes de pessoas com deficiência, idosos a partir de 60 anos, crianças de até 5 anos e pessoas em situação de vulnerabilidade social. Além disso, a instituição oferece meia-entrada para estudantes da rede privada, profissionais da rede pública de ensino e moradores ou naturais da cidade do Rio de Janeiro, por exemplo.

Questionado sobre o motivo de o Museu do Amanhã não oferecer entrada gratuita em ao menos um dia da semana — política adotada até 2024 —, Scarano afirmou que há interesse em retornar com a gratuidade total, mas isso exigiria mais patrocínio e maior  investimento da prefeitura. Segundo o cientista, a retomada dessa política no momento atual exigiria uma redução no tamanho das exposições; por isso, a instituição prioriza manter uma política inclusiva para grupos específicos e em dias determinados igualmente, evitando o sacrifício da qualidade e da extensão de seu acervo.

Ao transformar temas complexos de ciência em vivências práticas e inclusivas, o Museu do Amanhã, Museu do Jardim Botânico e o Museu Nacional se fortalecem como instituições que, mais que locais de visitação, são agentes de transformação social. Mais do que informar sobre ciência, esses espaços buscam o engajamento do público, priorizando o estímulo à dúvida e à curiosidade em vez de apenas entregar respostas prontas.

 

Juventude x experiência: contraste de idades na Fórmula 1

Juventude x experiência: contraste de idades na Fórmula 1

Temporada atual é marcada pela presença de pilotos de diferentes gerações

Por: Murilo Soares

Reprodução: X/Twitter (@F1)

Grid da temporada de 2026

A temporada de 2026 da Fórmula 1 apresenta um grid com média de idade de 28 anos, o que demonstra um equilíbrio entre juventude e experiência entre os competidores. As equipes são formadas por uma combinação de pilotos jovens, talentos em ascensão e nomes já consolidados na categoria.

A Fórmula 1 tem registrado, ano após ano, o surgimento de “rookies”, termo usado para designar os estreantes em cada temporada. Único novato em 2026, o piloto da Racing Bulls, Arvid Lindblad, de 18 anos, é o mais novo do grid. Além dele, outros pilotos da nova geração ganham espaço na categoria, como o italiano Andrea Kimi Antonelli, de 19 anos, o britânico Oliver Bearman (20), o brasileiro Gabriel Bortoleto (21), o franco-argelino Isack Hadjar (21) e o argentino Franco Colapinto (22). Esses jovens, que ocupam de forma crescente os cockpits, costumam passar pelas academias das equipes, como foi o caso de Lindblad, na Red Bull, e de Antonelli, na Mercedes, e evidenciam a estratégia das construtoras em apostar em talentos cada vez mais precoces.

Reprodução: Instagram (@mercedesamgf1)

Após vencer GP do Japão, Kimi Antonelli se tornou o líder mais jovem da história da F1

Por outro lado, a categoria ainda conta com a presença de pilotos mais experientes e consagrados, entre eles, os campeões mundiais Fernando Alonso, de 44 anos, e Lewis Hamilton, com 41. Além deles, destacam-se também Nico Hülkenberg (38), Valtteri Bottas (36) e Sergio Pérez (36).

Reprodução: Instagram (@scuderiaferrari)

No GP da China, Hamilton esteve no pódio pela primeira vez como piloto da Ferrari

Uma análise das temporadas entre 2000 e 2025 revela um padrão interessante: a maioria dos campeões mundiais conquistou o título com menos de 30 anos. Nesse período, apenas dois pilotos acima dessa faixa etária foram campeões: Michael Schumacher e Lewis Hamilton; coincidentemente, ambos venceram cinco dos seus sete títulos com 30 anos ou mais. 

A temporada de 2026 marca o início de uma nova era técnica na Fórmula 1, com mudança profunda nos motores e no regulamento técnico, de forma a priorizar cada vez mais o gerenciamento de energia durante as corridas. Enquanto veteranos como Alonso e Hamilton trazem uma visão mais estratégica, refinada e de maior desenvolvimento técnico aos carros, pilotos mais jovens como Antonelli e Lindblad oferecem mais agressividade, ambição e rápida adaptação às tecnologias. 

Diante desse cenário, a convivência entre gerações pode se tornar um fator determinante na disputa pelo título. O equilíbrio entre experiência e juventude, aliado às exigências da nova regulamentação, pode definir o campeão mundial ao final da temporada.

Flag football: a nova modalidade olímpica que oferece mais uma alternativa à juventude brasileira

Flag football: a nova modalidade olímpica que oferece mais uma alternativa à juventude brasileira

Esporte abre novas oportunidades para quem sempre sonhou em participar de uma olimpíada

Por: Isabele Almeida

Reprodução: Instagram (@cbfaoficial)

Crianças treinando a modalidade Flag Football

O flag football é uma das novas modalidades das Olimpíadas de Los Angeles 2028. Sua partida consiste em dois times de 5 jogadores, cujo objetivo final, para a equipe de ataque, é marcar um touchdown (uma espécie de gol) ao chegar na endzone (zona final do campo), enquanto, para a defesa, a meta é impedir que qualquer ponto seja concluído. Conhecido também como uma variação do futebol americano, os atletas dessa modalidade utilizam menos equipamentos de proteção, se comparados com jogadores da NFL, pois, para parar a jogada, basta um defensor puxar a bandeira que fica no cinto do atacante, sem que haja um contato com força excessiva. 

Um esporte que teve sua origem nos Estados Unidos, coincidentemente o país sede das Olimpíadas de 2028, é mundialmente praticado, mas segue tendo nos países do continente americano – como o México, Canadá e o Panamá – suas seleções mais fortes no panorama atual. 

No Brasil,a prática do flag football está se popularizando, principalmente entre os mais jovens, que encontram nessa modalidade a oportunidade de desenvolverem, desde novos, valores morais presentes no mundo esportivo, como aprender a lidar com uma derrota e conviver de forma harmônica com a diversidade. Para o jogador do sub-17 do Rio Football Academy Bernardo Keler, a prática dessa modalidade auxiliou também na construção de um espírito de liderança, mas o maior ponto de interesse em começar a atuar nesse esporte se deu pela possibilidade de disputar uma olimpíada, sonho de muitos atletas no Brasil. 

Em entrevista para a AJ, a embaixadora global de flag football pela NFL e pela Federação Internacional de Futebol Americano (IFAF), Gabriela Bankhardt, jogadora do Desterro Atlantis e da seleção brasileira, comentou: “A entrada da modalidade nas Olimpíadas de 2028 cria uma perspectiva de futuro muito diferente para a geração que está começando agora no esporte, tendo em vista que chegar a esse evento é o sonho de qualquer atleta e agora se torna um objetivo possível. Esse marco aumentou ainda mais o interesse pelo esporte e furou bolhas na área de comunicação, isso traz ainda mais expectativas sobre o futuro do flag football no país.”

Reprodução: Instagram (@gabibank)

Jogadora Gabriela Bankhardt comemorando com a seleção brasileira.

Ainda para Gabriela, o esporte se tornar uma modalidade olímpica foi uma nova virada de chave para a comunidade, pois auxiliou ainda mais os atletas, bem como as comissões a melhorarem a estruturação e a organização em eventos esportivos, principalmente os internacionais. De acordo com ela, esse suporte auxilia o foco integral no esporte, principalmente em competições com a seleção, sem que haja a necessidade de preocupação com distrações externas, como acomodações e alimentação.

A partir da próxima sexta-feira (17/4), as seleções sub-17 feminina e masculina estreiam nos Jogos Sul-Americanos da Juventude, no Panamá, convivendo pela primeira vez com as novas mudanças estruturais influenciadas pela entrada do flag football no Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Com essa oportunidade, tende-se a compreender ainda mais os efeitos dessas alterações para a profissionalização e a valorização do esporte no Brasil desde as categorias de base. 

Tendo em vista a transformação do flag football em modalidade olímpica, espera-se que o esporte no país se desenvolva ainda mais, com o auxílio de patrocínios e do COB. Para pessoas da comunidade interna, como Gabi Bankhardt, também seria muito importante se o calendário interno de competições fizesse jus ao tamanho continental do Brasil e ao esforço diário feito pelos atletas dessa modalidade, tendo um período mais extenso e organizado de jogos, o que contribuiria de forma significativa para a evolução interna do esporte. Por fim, é crucial entender que o flag football é uma modalidade que acolhe qualquer pessoa que tenha interesse em praticá-la e se coloca como mais uma oportunidade para os jovens brasileiros fazerem parte do legado esportivo que é tão forte no país.  

Fios furtados, prejuízos acumulados: Vila Isabel vive onda de roubos de cabos de energia e internet

Fios furtados, prejuízos acumulados: Vila Isabel vive onda de roubos de cabos de energia e internet

Moradores e comerciantes do Boulevard 28 de Setembro relatam invasões repetidas e criticam ineficácia do policiamento noturno

Por: Murilo Santos e Maria Eduarda Ramalho

O furto de cabos de energia e internet tem assolado os moradores da Grande Tijuca, em especial aqueles que percorrem  o tradicional  Boulevard 28 de Setembro, coração de Vila Isabel. Esse tipo de delito tem sido frequente na região, causando prejuízos financeiros e materiais segundo relatos de moradores e comerciantes. A incidência de casos ocasiona no aumento da insegurança e dos transtornos causados em seus estabelecimentos e residências.

Cláudio Mendes mora há 40 anos em Vila Isabel e conversou com a reportagem na associação de moradores onde trabalha, localizada no bairro. Ele conta que a associação foi invadida duas vezes pelo mesmo criminoso: na primeira madrugada, o homem levou o cabo de internet; na noite seguinte, furtou três ventiladores do espaço,o qual oferece atividades a preço popular para crianças da região.

Cabo cortado após o furto na Associação de Moradores ( Vila Isabel ) | Foto: Maria Eduarda Ramalho

Não apenas Cláudio, mas também Ana Paula, sócia de uma clínica de fisioterapia ao lado da Associação, relata ter sofrido grandes prejuízos causados pelo mesmo meliante. Ela conta que, em março deste ano, a clínica foi alvo de sucessivas invasões: “Quatro invasões em uma semana. Conseguimos pegar, a polícia pegou, fomos à delegacia e ele foi solto no mesmo dia. Aí ele voltou aqui na associação de moradores e roubou também. Aqui ele deu um prejuízo imenso pra gente — roubou fios, cabos e aparelhos de ar-condicionado”.

A Grande Tijuca, área da qual Vila Isabel faz parte, é contemplada pelo programa Segurança Presente, que se propõe a oferecer um policiamento comunitário e extensivo para melhorar a sensação de segurança dos moradores. No entanto, é consenso entre os entrevistados que o programa não tem sido eficaz na prevenção dos crimes. Segundo Ana Paula, os policiais encerram o patrulhamento às 20h, o que os torna incapazes de coibir as invasões e furtos que ocorrem durante a madrugada.

Questionada sobre possíveis soluções, Larissa Lopes, funcionária de um curso de idiomas na região e que convive diariamente com o problema, defende que, além de um policiamento mais ativo, a fiação elétrica deveria ser subterrânea — solução que já existe no estabelecimento onde trabalha e que, segundo ela, faz diferença: “A ideia de tornar tudo subterrâneo é bem válida, porque evita muita coisa. Mas, em relação à segurança, acho que poderia aumentar — mais pessoas, maior fiscalização, com eles passando, circulando pela 28 (Boulevard 28 de Setembro), pelos locais, pelos estabelecimentos, para saber se está tudo certo”.

A PMERJ e sua assessoria foram procuradas pelos repórteres sobre o depoimento dos entrevistados para transmitir sua versão e atuação na área, porém não emitiram resposta até a data de produção da reportagem.

Dados da Light de 2023, publicados em matéria do G1, apontam que a região da Tijuca lidera o ranking de furtos de fiação elétrica no Rio, com 91 casos registrados — à frente de Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes, bairros geograficamente maiores.

A proposta apresentada por Larissa converge com medidas defendidas pelo pesquisador Ignacio Cano, coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, que aponta a substituição do cobre por materiais menos valiosos como uma política eficaz no combate ao furto de cabos e na redução de seus impactos. Enquanto soluções estruturais não chegam, moradores e comerciantes de Vila Isabel seguem arcando com os prejuízos — e aguardando uma resposta do poder público.

Do sonho à realidade: Como é a graduação na visão dos veteranos

Do sonho à realidade: Como é a graduação na visão dos veteranos

Alunos que já estão perto da conclusão do curso expõem suas visões e experiências na Uerj

Por: Maria Clara Jardim e Tiago Alves

Entre expectativas e a vivência real, veteranos de diferentes cursos da Uerj  descrevem as suas experiências durante a graduação, analisam as mudanças de percepção no decorrer do curso e falam sobre as suas perspectivas para o futuro. 

Estrutura “Eu ♥ UERJ”, no campus Maracanã.  

 (Foto: Maria Clara Jardim)

A formação e a especialização proporcionadas pela graduação têm  impacto direto na entrada do estudante no mercado de trabalho. O que pode ser exemplificado por um estudo de 2024 do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/ FGV), divulgado pela CNN Brasil, que  mostra que “trabalhadores com ensino superior ganham, em média, 126% a mais do que aqueles com menor escolaridade”. Esse cenário pode contribuir para melhores oportunidades profissionais e impactar na qualidade de vida dos estudantes após a graduação.

Mesmo que as melhores oportunidades sejam oferecidas a quem possui graduação, é preciso esclarecer que o processo de formação no ensino superior pode ser desafiador, principalmente na reta final, fazendo com que os estudantes tenham que desempenhar maior esforço para se formar.  É o caso de Vinícius Martins, graduando de matemática, que contou sobre o momento mais desafiador que experimentou em sua trajetória na Uerj: “Quando eu vi, após muitas reprovações, que se eu não tivesse uma mudança radical de mentalidade, não seria possível completar a minha graduação”. 

 

O estudante explicou que para superar essa situação, foi importante ter tido contato com oportunidades dentro de sua área de formação, como por exemplo a Semana do Matemático que aconteceu na Uerj no ano de 2025. Mostrando uma parte essencial para o desenvolvimento de cada universitário: a vivência prática a partir da teoria que é apresentada em cada disciplina. 

 

Apesar das adversidades enfrentadas no decorrer do curso, existem fatores que influenciam positivamente a permanência dos estudantes na universidade. Para Cayo Nascimento, estudante de ciências sociais, o que o motiva nessa reta final é o seu desejo de alcançar uma posição de destaque em sua área, e consequentemente, construir uma carreira. “No início eu cogitei sair do curso por conta da baixa empregabilidade, visando uma melhoria de vida no futuro. Hoje, estou inserido no mercado dentro da minha área de estudos, e não penso mais em migrar de curso”, relatou Cayo.

 

Os dois jovens também destacam a importância de buscar ativamente oportunidades de aprendizado para além das aulas, comparecer a eventos acadêmicos da sua área e praticar o networking. Para Vinícius, é preciso “deixar a vergonha de lado” e procurar saber com professores sobre oportunidades de Iniciações Científicas, Projetos de Extensão, monitorias ou práticas que vão enriquecer o currículo. 

Cinco Tipos de Medo: filme dá vida a realidades moldadas pelo crime e a violência no Brasil

Cinco Tipos de Medo: filme dá vida a realidades moldadas pelo crime

Montagem do diretor Bruno Bini ganhou quatro categorias principais no Festival de Gramado 2025

Por: Maria Eduarda Galdino

Divulgação do filme Cinco Tipos de Medo. Montagem: Maria Eduarda Galdino

 

Dirigido e pensado por Bruno Bini, Cinco Tipos de Medo é um filme inspirado em acontecimentos reais na periferia mato-grossense. A história conta a vida de cinco personagens: Marlene (Bella Campos), Murilo (João Victor Silva, de O Agente Secreto), Luciana (Bárbara Colen), Ivan ( Rui Ricardo Diaz) e Sapinho (Xamã), e como suas trajetórias foram atravessadas pela realidade do crime e da violência no Brasil. 

 

O longa-metragem destaca a figura de sapinho (Xamã), chefe do tráfico do bairro Jardim Novo Colorado, como peça fundamental para o desenrolar da trama. As atitudes do criminoso se conectam com momentos específicos da vida dos outros personagens, mudando-as para sempre. Primeiro, Sapinho força um relacionamento amoroso com Marlene, enfermeira e  moradora da periferia de Cuiabá, mas que é apaixonada por Murilo, um jovem violinista que foi seu paciente enquanto trabalhava no hospital na pandemia de Covid-19. Ao descobrir o relacionamento dos dois, Sapinho planeja assassinar Murilo, porém, na mesma noite em que o plano vai ser executado, Luciana, que é uma policial, e Ivan, um advogado, estão próximos ao local. 

 

O decorrer dos acontecimentos não é linear, a direção de Bruno Bini pensa e expõe a narrativa de cada personagem com habilidade, fazendo com que todas as peças se encaixem ao longo do filme. A fotografia elaborada por Ulisses Malta Jr. também trouxe à obra enquadramentos e cores específicas que deram vida às cenas de tensão e violência. Mas é possível perceber alguns desencontros no relacionamento de alguns personagens, Marlene (Bella Campos), por exemplo, não possui desfechos adequados em relação as suas interações com a sua avó e irmão.  Além disso, a trama abre espaços para temáticas como a ausência do Estado no enfrentamento ao crime nas comunidades, crises familiares, dilemas da pandemia de Covid-19, assédio, luto e religião. 

 

Cada personagem está imerso nas suas próprias dificuldades e traumas que são muito comuns na trajetória de diversos brasileiros. Bruno Bini traz a realidade brusca do que é ser atravessado por uma fatalidade, seguido de medo, raiva e incertezas que configuram uma nova perspectiva aos cinco protagonistas, que agora são pessoas totalmente diferentes do início no filme. Agora, sentimentos como vingança e raiva se fazem presentes na formação dos personagens, que vivem em constante estado de sobrevivência e sob um contexto de violência. 


O filme Cinco Tipos de Medo trabalha com uma realidade latente na vida de milhares de brasileiros. Segundo a pesquisa da Genial/Quest, a violência é a maior preocupação dos brasileiros. Além disso, segundo o relatório Atlas da Violência de 2025 afirma que 45.757 brasileiros perderam suas vidas devido ao homicídio em 2023. Portanto, o Filme traz a questão da violência e dos atos criminosos em cada personagem: o traficante abusivo que faz ameaças de morte constantes, o medo do jovem violinista que cruzou com o terror da violência somente por querer amar e a rotina exaustiva de uma policial que se coloca em situações de confrontos bélicos traumatizantes que podem custar sua vida e daqueles que ama.

 

A montagem de Bruno Bini venceu quatro prêmios no Festival de Gramado em 2025, um dos maiores festivais de cinema do Brasil. Cinco Tipos de Medo ganhou nas categorias de melhor filme, melhor roteiro, melhor montagem e o ator Xamã ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante. O filme estará em todos os cinemas do Brasil no dia 9 de abril, com indicação classificativa de 16 anos.




 

Como a greve na Uerj impacta a adaptação e as vivências dos estudantes no início da vida universitária

Como a greve na Uerj impacta a adaptação e as vivências dos estudantes no início da vida universitária

Por: Namíbia Machado

A Universidade  do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) teve suas atividades impactadas a partir do dia 25 de março, com o início da greve docente aprovada em assembleia na tarde de quinta-feira, 19 de março, registrando o primeiro movimento desse tipo em dez anos. A paralisação ocorreu após inúmeras tentativas falhas de negociações com o governo do Estado, em meio a reivindicações relacionadas a recomposição salarial,  restabelecimento do adicional por tempo de serviço e melhorias no orçamento da Universidade. A partir do dia 09 de abril, os funcionários técnicos-administrativos da Uerj também entram em greve, unificando a paralisação. 

Entrada 5 da Uerj.

   (Foto: Fernanda Rodrigues)

Nesse cenário, estudantes que estão iniciando suas trajetórias na Uerj encontram um início de semestre voltado para incertezas. Para a maioria dos calouros, o período que é vivido como uma adaptação à vida universitária passou a ser atravessado por dúvidas sobre o calendário acadêmico. 

Para entender como esse movimento está sendo vivido, alguns estudantes foram ouvidos. É o caso de Maria Eduarda Ramalho, aluna do primeiro período de Jornalismo que relata: ´´Eu estava com as expectativas muito altas, sempre foi um sonho entrar na Uerj e no curso de Jornalismo. E, quando soube da greve, foi meio chocante, ainda mais na segunda semana de aula. Não era o esperado, mas ao entender os motivos e as reivindicações, percebi a gravidade da situação dos professores e técnicos. A primeira semana foi muito intensa e quando eu estava começando a me acostumar, veio essa notícia. A rotina acaba sendo interrompida, e depois é preciso passar por todo o processo de adaptação de novo. Minha maior preocupação agora é a duração da greve. É tudo muito imprevisível, mas torço para que a situação se resolva de maneira mais justa e correta para que tudo volte ao normal´´.

Estudantes de diferentes trajetórias relatam  ter uma percepção diversa do movimento. Como por exemplo o caso de Barcelos, aluna do curso de Jornalismo, que já vivenciou outras paralisações na Universidade: ´´Já passei por uma greve na própria Uerj, entre 2015 e 2016, então não é algo totalmente novo pra mim. Mas a experiência muda muito quando a paralisação acontece logo no início do semestre”. 

Segundo os alunos, para quem nunca teve contato com o ensino superior, o impacto tende a ser maior, já que ainda estão no processo de entender a rotina acadêmica, o ritmo de estudos e os compromissos dentro da Universidade. Já para estudantes mais experientes, a mudança é percebida como mais um processo de readaptação. Para os calouros, a situação pode ser ainda mais difícil, pois existe uma frustração após todo o esforço para ingressar na universidade, interrompido logo no início.

As percepções dos estudantes revelam um cenário de incertezas que vai muito além de experiências individuais. Com a greve deflagrada, diversos aspectos são impactados: desde a organização do calendário, o cumprimento de prazos e projetos até a continuidade das aulas. Enquanto isso, membros da comunidade uerjiana acompanham com expectativas os desdobramentos das negociações e os impactos no calendário letivo.