O verão acabou, mas o risco de dengue não
Relatório da ONU mostra que mudança climática, com temperaturas mais altas e alterações no regime de chuvas, aumenta os casos da doenças climáticas
Por: Júlia Martins

O Relatório do Clima de 2025 publicado pelas Nações Unidas mostra que o aumento da temperatura global eleva o risco de dengue, o que contribui para ampliar a ocorrência de casos ao longo de todo o ano – e não só nos meses de verão. Mesmo com medidas para conter o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, o estudo destaca que o número de casos em todo o mundo é o maior já registrado na história, com o vírus se expandindo para novos territórios.
O relatório deste ano incluiu um estudo de caso sobre o impacto das mudanças climáticas na saúde humana. Um dos destaques foi a preocupação com o aumento das arboviroses, doenças virais transmitidas por mosquitos, como a dengue. Embora a doença também seja influenciada por fatores sociais, ela é sensível à temperatura e ao regime de chuvas. Por isso há mais casos durante as épocas mais quentes do ano, caracterizando a dengue como uma doença sazonal. Entretanto, o aumento das temperaturas e alterações nos padrões de chuvas favorecem um desenvolvimento mais acelerado do mosquito Aedes aegypti. Na prática, o número de picadas aumenta, e o tempo de incubação do vírus – período entre a contaminação e o surgimento dos sintomas – diminui. Com o aumento das temperaturas, as épocas mais frias do ano também se tornam favoráveis para a proliferação da doença.
No Rio de Janeiro, onde a dengue é endêmica, não é diferente: segundo o EpiRio, observatório epidemiológico do estado, mais de 1.400 casos da doença foram registrados em 2026 apenas na capital. A cidade do Rio de Janeiro registrou mais de 9 mil casos de dengue apenas em 2025, e o ápice foi nos primeiros três meses do ano. Em 2024, o Brasil enfrentou a maior epidemia de dengue já registrada, com mais de 6 milhões de casos prováveis.
De acordo com o Alerta Rio, sistema de alerta da prefeitura, o outono está sendo mais quente do que o esperado, com temperaturas acima da média e chuvas irregulares. Isso cria um cenário benéfico para o crescimento dos casos de dengue em épocas além do verão, e mostra como a doença tende a se tornar cada vez mais presente no cotidiano.
Para Cleonice Santos, agente de saúde comunitária no Catiri, zona oeste do Rio, essas alterações de temperatura têm impactado o número de casos. “A gente percebe que a mistura dos fatores calor e chuva é um grande baque para os casos, e o mosquito está ficando ainda mais resistente. Quando estamos no pós calor é quando precisamos ter maior cuidado na observação e na orientação para as famílias”, afirmou. Ela também destaca o papel do saneamento básico no combate à doença: “A falta de saneamento, a vulnerabilidade social e falta de orientação torna uma pessoa mais suscetível”.
A crise climática atinge o mundo inteiro, o que reforça ainda mais esse perigo. O mosquito se expande para territórios em que antes não havia casos de dengue. A Organização Mundial da Saúde estima que metade da população global esteja sob o risco de contaminação, com aproximadamente 100 até 400 milhões de casos registrados por ano. Segundo o Relatório da ONU, no Brasil, o R0 – número que indica quantas pessoas podem ser infectadas em média – passou de 1,4 para 2,9 no ano passado.
Em 2021, um artigo publicado pelos professores Antonio Carlos Oscar Junior, do Instituto de Geografia da UERJ (Igeog), e Francisco de Assis Mendonça, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), já investigava o desenvolvimento da doença com base nas mudanças climáticas. O estudo aponta a intensificação da dengue em épocas de tempo mais ameno, como o inverno, devido ao aumento da temperatura mínima ao longo dos anos. Além disso, eles buscam entender como a doença vai se comportar no futuro, com modelos de estudo para os períodos entre 2011 – 2040 e 2040 – 2070.
O artigo também destaca como a dengue está deixando de ser algo sazonal e como isso afeta estratégias de saúde pública. Visto que essas são feitas, em maioria, para o verão e o outono, é necessário elaborar medidas também para o inverno e a primavera. Além disso, as diferenças no espaço urbano, como a falta de saneamento e estrutura urbana chamam a atenção e intensificam esse cenário. Com isso, a população mais carente se torna a mais atingida.
A vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan é um exemplo de medida para combater a doença. É o primeiro imunizante em dose única para a doença no mundo e será distribuído pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Por enquanto, no Rio de Janeiro, a vacina está sendo aplicada apenas em profissionais da saúde das unidades de Atenção Primária. No entanto, o Relatório da ONU e a Pesquisa de Oscar e Mendonça alertam a necessidade de discutir sobre mudanças climáticas e seus impactos na sociedade para além do óbvio, como na saúde pública, buscando amenizar as consequências como um todo.


