Bioeconomia e energia sustentáveis têm potencial para gerar 28 milhões de novos empregos, diz estudo

Bioeconomia e energia sustentáveis têm potencial para gerar 28 milhões de novos empregos, diz estudo

Relatório foi discutido na Rio Nature and Climate Week, realizada em junho na cidade

 

Por: Maria Eduarda Galdino

 
Painel do Rio Nature and Climate Week. Foto: Maria Eduarda Galdino
 
 

Estratégias para o crescimento de empregos e renda através da bioeconomia foram discutidos no painel sobre investimentos e financiamento sustentável na primeira edição do Rio Nature and Climate Week.  Segundo Patrícia Ellen, ex-secretária de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do estado de São Paulo, a bioeconomia, bioenergia e economia circular podem transformar o setor econômico e empregatício do Brasil, resultando em 28 oportunidades de emprego. 

 

Esse dado faz parte do estudo da Plataforma Nova Economia, elaborado pela Systemic em parceria com o Instituto Aya e o Cedeplar-UFMG.  Por meio da combinação de bases de  dados econômicos, ocupacionais e educacionais em um sistema de inteligência territorial, é possível apontar com precisão como as profissões podem fazer parte de uma cadeia produtiva sustentável e as oportunidades de emprego que podem ser geradas. 

 

Essa pesquisa foi apresentada na COP 30, em Belém do Pará, e visa gerar apoio ao Plano de Transformação Ecológica do Ministério da Fazenda. Segundo Patricia Ellen, as oportunidades de emprego geradas pela cadeia produtiva sustentável podem também ser uma solução direta à crise da automação dos trabalhos devido ao avanço tecnológico que tem gerado desemprego. 



Para isso, afirmou Patrícia Ellen, é necessário centralizar e incluir pessoas e a natureza na agenda de transformação econômica e tecnológica do país, principalmente indivíduos que residem em regiões mais rurais. A ex-secretária ressaltou que o primeiro passo é o levantamento de dados para entender as oportunidades, territórios e desafios desse contexto.

 

A bioeconomia é o pilar da economia sustentável, que relaciona recursos naturais como plantas e resíduos biológicos à inovação e desenvolvimento tecnológico para criação de novos produtos, serviços e empregos. É uma alternativa para a redução da dependência na economia baseada em combustíveis fósseis.  O Brasil representa um território fértil para o desenvolvimento da bioeconomia. Devido à biodiversidade da Amazônia, é possível utilizar os recursos naturais como ativos estratégicos, criação de novos negócios e o fortalecimento de saberes tradicionais. 

 

Segundo o estudo do World Resources Institute (WRI Brasil), a bioeconomia e o investimento em restauração florestal podem adicionar até R$ 45 bilhões ao Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB) até 2050. Além disso, no estado do Pará, já existem 13 cadeias produtivas, isto é, os processos que produzem bens de consumo que já movimentam  R$ 9 bilhões de reais. 

 

A ex-secretária também apresentou um levantamento feito em conjunto com o governo federal sobre o Plano de Transformação Ecológica (PTE) e  projeto Novo Indústria Brasil (NIB). O trabalho tem como objetivo transformar o setor industrial brasileiro com tecnologias sustentáveis, digitalização industrial e apoio a micro e grandes empresas com créditos e capacitação para o novo cenário industrial. 

 

“A gente fez um extrato (NIB) para bioeconomia de florestas e mostra que somente a bioeconomia, que mantém a floresta em pé e alavanca a nossa biodiversidade, gera entre 40 e 75 milhões de dólares por ano a partir de 2030”, afirmou. 

 

Apesar das oportunidades, ainda existem os desafios que territórios como a Amazônia podem trazer aos planejamentos. Marcelo Thomé, vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), afirmou que a realidade e a maturidade empresarial da Amazônia é diferente dos setores presentes em São Paulo ou Rio de Janeiro. 

“É conhecer de fato o território e os desafios que aquele território oferece. Porque não é trivial operar em locais onde você não tem estrada, você não tem mão de obra qualificada, você muitas vezes não tem energia, mas você tem naquele território a oportunidade”, explicou. 

 

O vice-presidente disse que olhar para a Amazônia sem preconceito e como um verdadeiro centro econômico do país ajuda a entender alternativas que se encaixem na realidade do território. “A estrutura da facilidade que nós criamos tem por objetivo olhar para as oportunidades, organizar essas oportunidades em potenciais negócios que tenham capacidade de escalar e serem incluídos em cadeias de valor. E quem faz isso? A indústria”, disse Marcelo.

 

 

 
 
 
 

Apesar das iniciativas sustentáveis, a Copa 2026 é o torneio mais poluente da história

Apesar das iniciativas sustentáveis, a Copa 2026 é o torneio mais poluente da história

Apesar das iniciativas sustentáveis, a Copa 2026 é o torneio mais poluente da história

Por: Maria Eduarda Galdino

 
Cerimônia de recepção da Taça da Copa do Mundo. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil
 

A Copa do Mundo de 2026 é a maior da história, pelo menos em tamanho: 48 seleções confirmadas e 16 cidades-sede pela América do Norte (Estados Unidos, México e Canadá). Ao todo, 104 jogos no total. Mas esse formato considerado inovador criou tensões com a agenda climática sustentável. Estudos têm apontado que o torneio pode ser considerado o mais poluente da história das Copas, com até 9 milhões de toneladas de carbono geradas pelos voos. 

A Fifa divulgou sua Estratégia de Sustentabilidade e Direitos Humanos no torneio. Mas, segundo a Scientists for Global Responsibility, o modelo inédito da Copa é insustentável para manter os objetivos da agenda climática global. A expansão territorial do maior torneio do mundo causa deslocamentos aéreos  significativos das seleções e do público. Cerca de 87% de todas as emissões durante a Copa serão originárias dos voos. O nível das emissões é equivalente a quase 6 milhões de carros britânicos médios durante um ano.

 

A Copa de 2026 superou a edição anterior no Catar (2022), duramente criticada pela construção de sete novos estádios. A Copa no Catar também contribuiu para a emissão de  aproximadamente 3,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono, contrariando as promessas de carbono zero anunciadas pela FIFA em 2022. 

 

A discussão sobre as emissões é recorrente devido ao alerta de autoridades científicas sobre a grave influência das emissões de carbono no aquecimento global. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças climáticas (IPCC) tem registrado o aumento da temperatura média global em 1,1Cº, e aponta as emissões de dióxido de carbono como principal elemento causador.

 

Além das emissões dos voos, a Copa do Mundo  acontece em meio às temporadas de calor extremo na América do Norte. Nesse contexto, o consumo de energia para resfriamento de espaços como estádios e demais estabelecimentos é maior que o normal, o que causa uma demanda energética significativa e mais uma fonte para emissão de gases. A FIFA publicou uma série de estratégias de sustentabilidade para as cidades que estão sediando os torneios. A campanha “Gol por El ambiente” em parceria com o governo mexicano é uma delas e promove a economia circular, na qual resíduos têxteis e plásticos serão redirecionados dos aterros sanitários para cadeias de valor produtivas. 

 

A ministra do Meio Ambiente e Recursos Naturais do México, Alicia Bárcena, apresentou o programa e afirmou que o governo quer se afastar da economia linear, modelo tradicional de produção, uso e descarte sem aproveitamento dos recursos e resíduos. Além do mais, as estratégias sustentáveis da FIFA incentivam o uso de transporte público, hospedagem em hotéis com políticas sustentáveis e a não construção de novos estádios para as partidas. Mas nenhuma dessas ações contribui para a principal causa da poluição da Copa: as emissões de dióxido de carbono pelos voos.

 

 

 
 
 
 

Plano Clima busca preparar cidades e populações para eventos extremos

Plano Clima busca preparar cidades e populações para eventos extremos

Obras de infraestrutura 100% adaptadas a mudanças climáticas estão entre as metas do documento lançado pelo governo federal

Por: Maria Eduarda Galdino

 
Lançamento do Plano Clima em Brasília (DF). Foto: Fernando Donasci/MMA
 
 

O governo brasileiro lançou no mês passado o Plano Nacional sobre Mudança no Clima (Plano Clima), com metas para combater a crise climática. A ideia é organizar ações que promovam equidade, proteção dos direitos humanos e inclusão social de grupos afetados pelas mudanças climáticas. O plano foi aprovado pelo Comitê Interministerial sobre Mudança no Clima (CIM), com a colaboração de 25 ministérios e consultas públicas a mais de 25 mil participantes. Deverá estar totalmente implementado até 2035. 

 

Entre as metas de adaptação climática, o Plano prevê que obras de infraestrutura financiadas pelo governo federal sejam projetadas para resistir a eventos extremos. Na prática, isso significa que construções como moradias, rodovias e sistemas de drenagem deverão considerar riscos como enchentes e deslizamentos, problemas recorrentes em cidades como Rio de Janeiro. 

 

Nesse contexto, um estudo do Ambiental Media e do Instituto de Computação da UFF, com base em dados disponibilizados pelo IBGE, confirmou que cerca de 142 mil domicílios correm alto risco de inundação ou deslizamento no Rio de Janeiro. O estudo apontou a Zona Norte como território com mais bairros com alta vulnerabilidade a eventos climáticos extremos. 

 

Além do Rio de Janeiro, o estado de Minas Gerais também sofreu com o impacto das fortes chuvas. As cidades de Juiz de Fora e Ubá registraram no total 29 mortos e 3 mil pessoas desabrigadas no mês de fevereiro por conta dos deslizamentos, enchentes e soterramentos. Diante do estado de calamidade decretado pelas autoridades, escolas e universidades também interromperam suas atividades. 

 

Diante desses acontecimentos, a proposta é que o plano de adaptação seja aplicado em todos os estados e ao menos 35% dos municípios, e até 2035, atender com obras de prevenção pelo menos 4 milhões de pessoas expostas ao risco de desastre geohidrológico

Além das estratégias de adaptação, o Plano Clima também inclui medidas de mitigação, ou seja, ações voltadas à redução de gases de efeito estufa (GEE) com mudanças no uso de energia e combate ao desmatamento. Para isso há uma Estratégia Nacional de Mitigação com base em projetos científicos que trabalham com energias renováveis, sociobiodiversidade e outros métodos para estabilizar uma economia de baixo carbono. 

 

O Plano Clima também inclui estratégias transversais para ação climática, que são o conjunto de ferramentas e políticas utilizadas para a execução de todos os objetivos. Isto é, como os setores de educação, pesquisa, políticas públicas e outros irão colaborar para soluções climáticas. Os investimentos e metas na primeira parte de elaboração do Plano Clima serão distribuídos ao longo dos anos,  em torno de R$25 a 30 bilhões por ano. 

As políticas de ação do Plano Clima também reforçam a importância da participação ativa dos povos no combate às crises climáticas. Segundo o documento, a colaboração da sociedade civil garante que haja equilíbrio de interesses e efetividade no planejamento de políticas públicas a favor da justiça climática. Para isso, as Câmaras de Participação Social e de Assessoramento Científico irão mediar a comunicação entre entidades governamentais, comunidades e o setor empresarial.



Plano Clima está alinhado ao Acordo de Paris 

 

A construção do Plano Clima também representa o compromisso do Brasil com o multilateralismo, que é a cooperação entre vários países para tomar decisões, resolver problemas e firmar acordos em conjunto. As estratégias de ações climáticas do Plano estão de acordo com a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês) em relação à meta de redução de 59% e 67% de suas emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035. O objetivo final seria a neutralidade climática até 2050, estado em que as emissões líquidas chegam a zero. 

Além do mais, o Plano Clima de Adaptação elaborou suas estratégias pautadas no ciclo interativo de adaptação feito pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC). Os projetos de adequação climática foram divididos em quatro etapas: avaliação, planejamento, implementação das ações e monitoramento de longo prazo com revisões periódicas e aprimoramentos contínuos.

 

 


No documento, o governo brasileiro afirmou que pretende estabelecer um sistema robusto de monitoramento, avaliação e aprendizado, que alimente relatórios nacionais, fortaleça a transparência para que os compromissos estabelecidos com a UNFCCC (a Conferência do Clima da ONU) e com o Acordo de Paris possam ser cumpridos.

 

 

 
 
 
 

Descomplicando a COP: saiba o que são as Blue e Green Zone 

Descomplicando a COP: saiba o que são as Blue e Green Zone

As zonas vão ser palco das principais discussões sobre clima, meio ambiente e demais acordos na COP 30

Por: Maria Eduarda Galdino

             Fachada do pavilhão da Cop 30 em Belém do Pará (PA). Foto: Agência Brasil/ Bruno Peres

 

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP, iniciou a cerimônia de abertura na última segunda-feira (10) em Belém do Pará- PA. O evento reúne mais de 200 lideranças de todo mundo para discutir sobre mudanças climáticas, financiamento climático, redução das emissões e implementação das NDCs por 12 dias. A estrutura do evento foi dividida em duas áreas: a Blue Zone e a Green Zone.

 

A Blue zone (zona azul) é o espaço mais restrito da COP, é onde ocorrem as negociações oficiais, grupos de trabalho (GT) e sessões plenárias. Nessa área, representantes oficiais dos países estão apresentando pautas em favor da justiça climática, financiamentos e acordos para a tomada de decisões que se transformarão em compromissos globais que irão surtir impacto direto na vida dos cidadãos. Os debates são assistidos por organizações observadoras.

 

Os negociadores, que estão representando os países, são divididos em grupos e participam de reuniões em salas temáticas para discutir os artigos do Acordo de Paris. As organizações observadoras também são divididas: agências especializadas da ONU, organizações intergovernamentais e organizações não-governamentais.  Ao final das reuniões, cada grupo deve entregar uma proposta que estará presente no documento final da COP 30.

 

Esses documentos possuem certas exigências, cada grupo deve elaborar um texto que analise os avanços de metas já estabelecidas em outros encontros. Além disso, também é obrigatória a discussão sobre a eliminação do uso de combustíveis fósseis, analisar a atual situação de áreas/ países mais vulneráveis afetados por mudanças climáticas e estratégias de adaptação às mudanças climáticas que atingem florestas e cidades. 



    Globo terrestre no pavilhão blue zone COP 30 Belém, Pará (PA). Foto: Agência Brasil

 

Já a Green Zone (zona verde), é um espaço mais acessível e destinado à sociedade civil, Organizações Não Governamentais (ONGs), movimentos sociais e instituições acadêmicas. A Green zone também possui workshops, palestras, feiras e debates sobre justiça climática e sustentabilidade, priorizando a democratização do acesso a discussões políticas.

 

Na Green Zone, o público também pode trazer ideias e pautas a favor da justiça climática e compartilhar conhecimento com outros grupos. O pavilhão terá temas fixos de debate como financiamento climático, inovação, biodiversidade, tecnologias limpas e juventude. As pautas fixas ajudam no fluxo dos debates e nas tomadas de decisões coletivas.

 

Na última terça-feira, grupos indígenas ocuparam a blue zone em protesto a organização da COP 30, o grupo alega a exclusão dos grupos indígenas de discussões primordiais e de áreas privilegiadas e restritas ao público geral, onde estariam acontecendo os principais debates para decidir o futuro das políticas ambientais. O protesto não foi bem recebido pelas autoridades presentes na blue zone, que entraram em combate corpo a corpo com os manifestantes. 

 

Em entrevista ao jornal independente Cuida Criatura, o Pajé Nato Tupinambá, do baixo Tapajós, afirmou que o protesto simboliza uma reivindicação pela exploração na Amazônia. “Querem falar por nós, o branco quer decidir coisa por nós, nós não queremos isso, precisamos ser escutados, nós indígenas somos a resposta”.

 

Todas as decisões acordadas no evento irão guiar as próximas ações em favor da justiça climática no mundo, que passa por um aquecimento global alarmante, e que tem provocado uma série de desastres climáticos nas florestas e cidades, principalmente em regiões mais vulneráveis. Então, a COP se consolida como um movimento de resgate climático e de ajuda humanitária regido por lideranças globais. 

 

Alerta na Batcaverna: morcegos estão em risco, e não é só o Batman que tem que se preocupar com isso

Alerta na Batcaverna: morcegos estão em risco, e não é só o Batman que tem que se preocupar com isso

Falta de educação ambiental e precariedade das Unidades de Conservação ameaçam a vida desses mamíferos essenciais para a manutenção da biodiversidade

Por Maria Luísa Fontes

 
Fonte: Priscila Monteiro. Espécie Desmodus rotundus – hematófago.
 
 
 

Talvez você não saiba, mas morcegos não servem só para proteger o Batman: esses mamíferos voadores são essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas. No Brasil, os morcegos estão protegidos pela Lei Federal 9.605/98 (lei do Meio Ambiente). A caça, a perseguição e a destruição desses animais são consideradas crimes.

Por mais que os morcegos sejam constantemente envolvidos na cultura pop – desde romances adolescentes até filmes de horror – esses mamíferos não são somente fontes de histórias para Hollywood. Os morcegos frugívoros (que se alimentam de frutas) são responsáveis por dispersar as sementes e os nectarívoros polinizam as flores, ou seja, são fundamentais na regeneração de áreas devastadas. Além desses, espécies insetívoras se alimentam de milhares de insetos por hora, sendo grandes aliados no controle de pragas e vetores de doenças. Sem morcegos, a agricultura seria alvo de muito mais tipos de pragas.

 

A falta de manutenção das Unidades de Conservação (UCs) e a ausência de uma educação ambiental efetiva são os principais fatores que causam a morte de morcegos. Além disso, a poluição do solo, da água e do ar também compromete a proteção desses seres vivos. 

 

O município de Ilha Grande, no Rio de Janeiro, é um dos lugares do estado em que os morcegos ainda encontram algum tipo de proteção. O Laboratório de Ecologia de Mamíferos, ligado à Uerj, atua na região monitorando as espécies de morcegos. Os pesquisadores gravam os sons produzidos por esses mamíferos e monitoram as redes de neblina, usadas para capturar e identificar os animais. Esse projeto rendeu para o distrito o prêmio de Área de Importância para a Conservação dos Morcegos (AICOM), concedido pela Rede Latino-americana e do Caribe para Conservação dos Morcegos (Relcom) em 2025. 

O reconhecimento foi resultado da rica biodiversidade e do sucesso com a proteção destes animais. A Ilha abriga cerca de 37 espécies identificadas – 19,9% das espécies conhecidas no Brasil. Entretanto, é possível que esse cenário positivo mude nos próximos anos, caso não haja novas iniciativas para a preservação desses animais e a destruição do meio ambiente continue em avanço. 

Segundo a professora Elizabete Lourenço, do Laboratório de Ecologia de Mamíferos, existem quatro espécies de morcego ameaçadas de extinção no Brasil: Furipterus horrens, Natalus macrourus, Lonchophylla bokermanni e Lonchophylla dekeyserié. Para proteger esses animais, a pesquisadora afirma que é preciso melhorar a gestão das áreas de conservação, visto que a invasão de animais domésticos, a crescente especulação imobiliária e o turismo desordenado resultam não somente na morte de morcegos, mas também de outros seres e vegetações nativas. A professora destaca que, por mais que os morcegos se adaptem bem a áreas urbanas, a poluição, especialmente no solo e no ar, prejudica o modo de vida desses mamíferos.

 

Além disso, a perda de habitat natural dos morcegos para novas construções vem tornando mais frequente o encontro entre eles e os seres humanos. Por isso, Lourenço destaca a importância de investir na educação ambiental da população junto ao manejo eficiente da UCs. De acordo com ela, a falta de informação sobre como agir ao entrar em contato com esses animais ou como fazer a retirada deles de forma correta faz com que muitos desses seres sejam mortos precipitadamente por moradores assustados. 

 

A INVISA-RIO (Instituto Municipal de Vigilância Sanitária, Vigilância de Zoonoses e Inspeção Agropecuária), órgão da prefeitura do Rio responsável pela prevenção de problemas higiênico-sanitários, recomenda algumas precauções para quem se deparar com morcegos:

 

1) Nunca tentar tocar em morcegos que entrem em casa ou apareçam caídos no chão. Neste caso, imobilize o animal numa caixa virada para baixo e o mantenha preso. Em seguida, entre em contato com o Centro de Controle de Zoonoses Paulo Dacorso Filho – CCZ;

2) Em caso de ataque de morcegos que resultem em mordeduras ou arranhaduras, a pessoa deve procurar orientação médica imediata nas Unidades de Saúde que fazem tratamento antirrábico humano. No caso de agressão a animais domésticos ou mesmo contato do animal doméstico com morcegos, entrar em contato com a central 1746;

3) Usar sempre luvas e máscara se precisar umedecer, remover ou tocar as fezes desses animais;

4) Vedar juntas de dilatação dos prédios e fechar forros de sótãos e residências, ou qualquer abertura por onde os animais possam entrar e se abrigar.

5) Solicitar a poda de árvores em ruas muito arborizadas onde existam colônias de morcegos causando incômodos.

 

Se, apesar desses cuidados, você entrar em contato com algum morcego, é necessário avisar o Centro de Controle de Zoonoses Paulo Dacorso Filho (CCZ), por meio do telefone 1746.

 

Pesquisadores da Uerj apresentam projetos de transição energética no Rio Innovation Week 2025

Pesquisadores da Uerj apresentam projetos de transição energética e energias renováveis no Rio Innovation Week 2025

Temas como indústria química ecológica e economia circular também foram discutidos

Por: Maria Eduarda de Souza Galdino

 

 
Equipe multidisciplinar de pesquisadores da Uerj no painel Kobra. Foto: Maria Eduarda Galdino
 
 
 

Soluções para um mundo mais sustentável se transformaram em um dos temas da quinta edição do Rio Innovation Week. Pesquisadores da Uerj discutiram transição energética, economia circular e indústria química ecológica no painel Kobra, na última quarta-feira (13). 

O professor de química André Luiz Helermy Costa, pesquisador de processos químicos na Uerj, lembrou que a maioria dos processos envolve o uso de combustíveis fósseis e um alto gasto de energia não renovável. Helermy ressaltou que esse modelo de produção precisa ser reformado.  Segundo o IEMA (Instituto de Energia e Meio Ambiente), organização sem fins lucrativos que pesquisa ottema, o setor de processos industriais e uso de produtos, do qual a indústria química faz parte, é responsável por 110 milhões de toneladas de C0² equivalente no Brasil.

Como solução possível, o professor Helermy apresentou ecoparques industriais, que são empresas/ fábricas que operam de forma sustentável. O objetivo é transformar resíduos de uma instalação química em insumos para outras empresas. A transição energética também foi citada pelo professor como  alternativa sustentável para  instalações industriais onde a energia renovável se transforme em principal fonte energética. Como exemplos, ele citou o biodiesel, o biogás e o hidrogênio verde. O professor usou como exemplo funcional as pesquisas feitas no Centro Green Fusion, laboratório que investiga modelos de produção química alternativos e ecológica.

A bioeconomia também foi debatida no painel. A professora da Uerj Mariana Erthal Rocha, pesquisadora líder do laboratório biotech da UTD  de Estudos ambientais e Reservatórios Gesar, apresentou o projeto que transforma estações de tratamento de esgoto, também conhecidas como ETEs, em biofábricas.  Isso significa que os resíduos resultados do tratamento de esgoto podem ser transformados em insumos úteis, como plásticos biodegradáveis e  produção de biogás para geração de energia.

Professora Maria Erthal Rocha apresentando o projeto de pesquisa da Gesar. Fofo: Maria Eduarda Galdino

Segundo a professora, o Brasil é um dos maiores produtores de resíduos orgânicos do mundo, produzindo cerca de 800 milhões de toneladas anualmente. E pouco desses resíduos são descartados ou reaproveitados de forma correta. Apesar disso, a professora reconhece que o Brasil vem progredindo no planejamento para tratar desses resíduos. 

Como solução, apresentou as arqueias metanogênicas, microrganismos que têm como uma das características é a capacidade de auxiliar na decomposição de matéria orgânica, ou seja, podem ser utilizados no tratamento de resíduos orgânicos em ETEs. Além disso, a arqueia tem um potencial uso em bioenergia como fonte renovável. Segundo a professora, esse processo está ligado ao conceito de economia circular, com o reaproveitamento ecológico dos resíduos.

Parque Nacional da Tijuca tem fauna ameaçada por matilhas de cães

Parque Nacional da Tijuca tem fauna ameaçada por matilhas de cães

Espécies invasoras são a segunda maior causa de extinção de faunas em escala global 

Por: Maria Eduarda Galdino

 
Cão caramelo no Parque Natural da Tijuca (Foto/Fonte: Acervo Refauna)
 
 
 
 

Ataques de espécies invasoras em florestas e parques naturais já se tornaram a segunda maior causa de extinção de espécies no planeta. segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). E entre esses invasores estão inclusive plantas e animais domésticos  – que, ao circular em ambientes naturais, acabam ameaçando espécies nativas. No Parque Nacional da Tijuca, por exemplo, uma ameaça frequente são os cachorros.

 O Ecos Urbanos conversou com o pesquisador e biólogo Matheus de Souza Louzada, que estuda a atividade de cães na Floresta da Tijuca. Ele afirma que os ataques têm aumentado. “A gente consegue perceber que a presença dos cães tem sido muito frequente no parque, isso vem aumentando justamente pela pressão urbana que vem apertando o parque cada vez mais”, disse.

 Além disso, o biólogo explicou que os seres humanos também possuem influência no aumento dos ataques, pois os cães podem entrar em contato com o parque tanto por situações de abandono ou soltura dos donos. A falta de educação ambiental dos visitantes também é um fator que contribui para o aumento da circulação e violência dos animais por conta da alimentação não autorizada.

 Matheus acrescenta que as espécies nativas mais afetadas por ataques no parque até agora são animais de pequeno porte, como cutias e jabutis. “A gente tem visto casca de jabutis com marcas de unha de cachorro, isso tem sido bem registrado nos monitoramentos”. 

Setores de conservação do Parque Nacional da Tijuca. Foto: Imagem © Google. Mapa elaborado por Matheus Louzada (2025)

Existe solução ?

O biólogo Louzada afirma que os programas de castração, vacinação e dispositivos de contenção ajudam a combater o aumento de superpopulação de cães e o surgimento de patologias no parque. Porém, diz que os ataques de matilha são um problema complexo e difícil de controlar de forma imediata por conta do tamanho do parque. “A gente precisa integrar diferentes estratégias de manejo para lugares de conservação, como a instalação de barreiras físicas de microchipagem para cachorros e gatos”, destaca.

A organização do parque também é fundamental para o combate à circulação de cães e gatos. Segundo o biólogo, é necessário que a infraestrutura do parque seja monitorada frequentemente para conter o rompimento de grades e entradas irregulares de visitantes com seus animais. “O parque é enorme, é fácil falar na teoria, mas na prática é complexo, precisamos de ajuda de todos os lados”.

E o poder público ? 

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO)  reconhece o Parque Nacional da Tijuca como área ameaçada na Lista de Espécies Exóticas Invasoras em Unidades de Conservação Federais. Caso a administração do parque deseje fazer a retirada de espécies invasoras no local, é possível solicitar autorização de manejo de espécie exótica, desde que a prática esteja enquadrada no Roteiro de manejo do ICMBIO. Ao fazer o pedido, a unidade precisa listar as as espécies invasoras e os impactos que elas causam na unidade de conservação ou sobre as espécies nativas do local.

No site da instituição, também é possível encontrar cartilhas de conscientização para profissionais de turismo, turistas e moradores que habitam em locais próximos a parques naturais. 

A Prefeitura do Rio de Janeiro aprovou o Decreto Municipal n° 33,814 em maio de 2011 que institui o Programa Municipal de Controle de Espécies Exóticas Invasoras com objetivo de controlar as invasões, restaurar e manter ecossistemas de áreas naturais através do reconhecimento das espécies invasoras e protocolos operacionais de remoção dos animais não nativos. Louzada afirma que algumas ações feitas pelo poder público poderiam ser mais divulgadas, como as campanhas de vacinação e microchipagem animal.

 

Quer ser voluntário da COP30?

Quer ser voluntário da COP30?

Edital oferece novas vagas para quem quiser ajudar na realização da Conferência do Clima,  que será realizada em em novembro deste ano em Belém 

Por: Maria Luísa Moura

 

Belém (PA), 06/06/2025 – Rio Guamá e a cidade de Belém ao fundo. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) liberou dia 26/06 o segundo edital para selecionar interessados no programa de voluntariado do evento. As inscrições começaram dia 1° de julho e terminam dia 11 do mesmo mês. 

Os voluntários selecionados serão responsáveis pela recepção dos convidados, pelo auxílio no credenciamento, pelo suporte logístico, dentre outras atribuições gerais. Os selecionados no primeiro edital já estão em fase  de capacitação. Ao todo, serão escolhidos 3.946 voluntários.

 Eles não recebem pagamento, mas terão alguns benefícios:

  • Alimentação e espaço próprio para se alimentar;
  • Livre circulação em transporte coletivo ou próprio do evento;
  • Uniforme completo e acessórios de identificação da Conferência;
  • Seguro de vida, ao serem contratados pela SECTET (Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia, Educação Superior, Profissional e Tecnológica do Pará) .

Veja os pré-requisitos para quem quiser se candidatar:

  • Residir na região metropolitana de Belém (PA);
  • Boa comunicação, habilidade para trabalhar em equipe, proatividade, organização e capacidade de resolver problemas;
  • Experiência prévia em atendimento público ou organização de eventos;
  • Conhecimento da língua inglesa, com comprovação de teste de proficiência;
  • Disponibilidade para atuar nos horários específicos da COP 30;
  • Ter, no mínimo, 16 anos (menores de idade precisam ser formalmente autorizados a participar através de um Termo de Adesão assinado pelos responsáveis legais);
  • Nível de escolaridade: ao menos Ensino Médio completo ou em andamento.

Além desses requisitos, o candidato deverá passar por duas etapas antes de ser escolhido: o recrutamento e a seleção. A primeira parte envolve uma análise de currículo e das conexões dos candidatos com temas e das atividades abordados à COP 30, como mudanças climáticas, desenvolvimento sustentável, a ONU, a Conferência das Partes para a Mudança do Clima e turismo. Em seguida, os voluntários em melhor classificação passam pelo cadastro de checagem do governo federal e, caso sejam aprovados, são contratados e direcionados de acordo ao seu perfil de atuação. 

Segundo o edital, 400 vagas estão reservadas a candidatos de 16 e 17 anos, sempre para atuação no período diurno; 5% das vagas irão para pessoas com deficiência e 20% para integrantes de povos originários.

As inscrições são feitas apenas pelo link da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia, Educação Superior, Profissional e Tecnológica do Pará: www.sectet.pa.gov.br. O candidato deverá preparar os seguintes documentos:

  • RG;
  • CPF;
  • Comprovante de residência;
  • Título de Eleitor e declaração de quitação da Justiça Eleitoral;
  • Certificado de reservista ou Dispensa de Incorporação, para candidatos do sexo masculino;
  • Documento(s) de comprovação de escolaridade:
  1. Nível Médio: Certificado ou comprovante de matrícula;
  2. Graduação em andamento: comprovante de matrícula válido;
  3. Graduação: Diploma.
  • Currículo Lattes/Vitae do candidato;
  • Certidão Negativa de Antecedentes Criminais.

Para mais informações, acesse o edital do Processo Seletivo: https://www.sectet.pa.gov.br/sites/default/files/EDITAL%20COMPLEMENTAR%20N%C2%B0%20007.2025_SELE%C3%87%C3%83O%20DE%20VOLUNT%C3%81RIOS%20PARA%20ATUAR%20NA%20COP30_26.06.2025%20%281%29_0.pdf 

 
 
 

 

 
 
 
 

Em ano de COP30, projetos de tecnologia apostam em inovação e sustentabilidade

Em ano de COP30, projetos de tecnologia apostam em inovação e sustentabilidade

Empresas voltadas para ações ambientais marcaram a terceira edição do Web Summit Rio 

Por: Maria Eduarda Galdino

 

Tarciana Medeiros, Bianca Andrade e Adiana Barbosa no palco principal Web Summit Rio Foto: Maria Eduarda Galdino

Diversos empreendimentos ambientados no Brasil usam a tecnologia para combater a crise climática, e a aliança entre inovação e sustentabilidade foi um dos temas do Web Summit Rio, encerrado no último dia 30 de maio. O último painel do evento reuniu três referências do empreendedorismo feminino: Tarciana Medeiros, CEO do Banco do Brasil, Bianca Andrade, CEO da Boca Rosa Beauty, e a diretora executiva da Feira Preta, Adriana Barbosa, conversaram sobre tendências no empreendedorismo brasileiro e sustentabilidade.

Tarciana Medeiros disse que o Norte do Brasil é referência em negócios que priorizam a sustentabilidade no modelo de produção. Segundo ela, o fortalecimento de propósitos entre organizações desse ramo é essencial. “Junta empreendedores principalmente de agroecologia, agroeconomia,  de biotecnologia e diversos empreendimentos que a gente entende o potencial na rede como um todo”, disse. 

Diversas empresas com foco na sustentabilidade participaram do encontro. O Ecos Urbanos conversou com representantes de algumas dessas empresas. Breno Veiga, CEO da Ekonavi, uma plataforma gratuita que potencializa soluções baseadas na natureza, explicou que sua empresa desenvolveu um aplicativo que conecta grupos de trabalho rural com investidores globais, tornando ações ecológicas comunitárias possíveis em escala global. É uma espécie de Linkedin para grupos que querem manter seus projetos sustentáveis visíveis no meio digital. “A nossa motivação é produzir alimentos de qualidade, gerar mais sustentabilidade no planeta e fortalecer as redes de produtores que estão produzindo de maneira orgânica e agroflorestal”, disse.

 
 
Bruno Veiga, CEO da Ekonavi, e Veber Alvez, advogado na  Ekonavi no Stand Beta 3  (Foto: Maria Eduarda Galdino)
 
Os grupos de campo que podem utilizar a plataforma são diversos. A Ekonavi abriga projetos ecológicos na agricultura,  propostas de reciclagem, sistemas agroflorestais e outras propostas ecológicas no campo.  “É um projeto gratuito  para esse grupos que atuam no campo e funciona de forma similar ao Linkedin, então você profissionaliza o seu projeto de campo tornando ele mais visível para investidores.”

Já Ângelo Coelho é diretor da Brinquedo Livre, uma empresa que promove a sustentabilidade no universo infantil. A empresa funciona como um marketplace colaborativo, conectando vendedores que querem descartar brinquedos usados e compradores, com uma curadoria sustentável. “Unimos sustentabilidade com economia circular e tecnologia para criar uma plataforma onde brinquedos usados, seminovos e colecionáveis ganham uma nova vida.”

O diretor afirma que a empresa foi criada devido a pesquisas em relação ao impacto ambiental que os brinquedos fazem na natureza. “Um dos dados que mais nos impactou foi do Instituto Akatu, que aponta que 60% dos brinquedos descartados no Brasil ainda poderiam ser reutilizados”, disse. A Brinquedo Livre possui um núcleo de pesquisas voltado para a economia circular no mercado infantil. Além disso, a empresa se encontra em um processo de desenvolvimento de selos que identificam produtos com maior potencial de reutilização e durabilidade. 

                                                                                        Logo da empresa Brinquedo Livre. Foto: brinquedolivre.com.br
 
 
 
A pesquisa Panorama de Sustentabilidade Corporativa 2025, feita pela Câmara Americana de Comércio (Amcham) e a Humanizadas, concluiu que 76% das empresas brasileiras adotam práticas sustentáveis nos negócios, um aumento de 5% em relação ao ano de 2024. Entre os que responderam à pesquisa, 77% acham que incluir a sustentabilidade nos negócios aumenta as vantagens competitivas e que existe uma relação positiva na demanda de novos grupos e mercados.
 
O estudo também afirma que acrescentar a sustentabilidade a performance financeira, que é uma avaliação ampla de métricas da empresa, pode acelerar ganhos significativos. O estudo evidenciou que medidas como a implementação da IFRS S1/ S2, que são padrões internacionais relacionados a transparência das informações sobre sustentabilidade das empresas oferecem alto retorno financeiro. 
 

 

 
 
 
 

Calor intenso e turismo desordenado ameaçam corais na costa brasileira

Calor intenso e turismo desordenado ameaçam corais na costa brasileira

Pesquisadores destacam que 90% desses organismos estão em risco; projetos de conservação investem em educação ambiental 

Por: Maria Luísa Moura Fontes 

 

 

Coral branqueado. Foto: Thales Vidal/PELDTAMS/Via Agência Brasil

O aumento da temperatura dos oceanos, resultado das ondas de calor em todo o mundo, tem provocado o branqueamento de diversos corais na costa brasileira. Esses organismos são extremamente sensíveis às mudanças climáticas e, com temperaturas mais altas, acabam expulsando as zooxantelas – microalgas com as quais vivem em simbiose. Sem algas, os corais ficam brancos. 

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) afirma que, se não houver redução significativa da emissão de carbono para frear o aquecimento global, todos os corais do planeta passarão pelo branqueamento até o final do século. A situação se torna mais preocupante porque – mesmo que os países consigam atingir a meta do Acordo de Paris, que limita o aumento da temperatura a 1,5°C – estima-se ainda que 70% a 90% dos recifes coralíneos morram.

Segundo o PNUMA, os corais fazem parte de 25% da vida marinha de todo planeta, mesmo ocupando apenas 1% do oceano. A construção rochosa dos recifes comporta até 800 espécies diferentes de corais, que dispõem da maior biodiversidade de todo ecossistema global. Além da importância biológica desses seres, os corais também são fundamentais para o turismo ecológico, sem danos ao meio ambiente. De acordo com a Fundação Grupo Boticário, organização sem fins lucrativos de proteção da natureza, o turismo em recifes de corais na costa do Nordeste arrecada cerca de 7 bilhões por ano, o equivalente a 5% do PIB turístico brasileiro.

O professor Rodrigo Leão Moura, pesquisador do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador do Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração em Abrolhos, estuda as causas e os desdobramentos do branqueamento de corais. Em Abrolhos foi criado o primeiro Parque Nacional Marinho do Brasil. Essa região possui a maior extensão de recifes mais biologicamente diversos de todo Atlântico Sul, e sua preservação é fundamental para a proteção de espécies endêmicas – encontradas apenas nesse local.

De acordo com Leão Moura, as últimas descobertas científicas invalidaram a teoria de que os corais brasileiros seriam mais resistentes ao calor. “Mesmo sendo mais resistentes ao branqueamento, os corais brasileiros têm morrido após as ondas de calor. Essa característica dificultou o entendimento do processo de declínio dos corais brasileiros, uma vez que os monitoramentos geralmente se concentram nos períodos anômalos e são descontinuados após esses eventos”, explica o especialista.

Diante das adversidades climáticas cada vez mais graves, o cenário atual em Abrolhos é de perda generalizada da qualidade ambiental dos recifes coralíneos. Segundo o professor da UFRJ, com a morte dos corais, os recifes passam a sustentar menos biodiversidade e, consequentemente, a armazenar menos biomassa de peixes para a produtividade local. 

Em 2003 foi criado no Brasil o Projeto Coral Vivo, para proteger os recifes de corais. Do projeto surgiu em 2013 o Instituto Coral Vivo, uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) que atua na conservação e sustentabilidade do ecossistema marinho. Vice-presidente do Instituto, o oceanógrafo Miguel Mies, professor da USP, ressalta que a perda da biodiversidade marinha, neste caso, afeta não só a costa brasileira, mas todos os ecossistemas do planeta, já que os recifes são interligados e se apoiam um no outro.

Segundo Mies, mais de 50% dos corais morreram nos últimos 30 anos. “É difícil você encontrar hoje um recife que a gente chama de prístino. Prístino é aquele que praticamente não sofreu nenhum impacto relevante, tá em uma condição de saúde excelente, é raríssimo encontrar isso”, reflete o pesquisador.

Além disso, ele alerta para o fato de não ser possível reverter completamente a degradação sofrida e de, no momento, não haver possibilidade de recuperação da cobertura coralínea original, pois não existem medidas efetivas para a redução das temperaturas globais, assim como pontua o professor Leão Moura, também especialista no tema.

Já na Ilha Grande, na costa carioca, o professor Luís Felipe Skinner, doutor em Biologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, acredita que é possível reverter alguns impactos ambientais com mudanças básicas de atitude, como a conscientização de turistas sobre contato indevido com os corais.

Skinner revela que a elevação da temperatura atmosférica no Brasil, nos últimos tempos, provocou alterações diferentes no litoral do Rio de Janeiro. Por exemplo, a Baía de Ilha Grande recebeu ondas de calor mais fortes por ter águas mais confinadas, chegando à temperatura de quase 30°C, enquanto na Região dos Lagos – em Cabo Frio, Búzios e Arraial do Cabo – o impacto foi aparentemente menor. 

Com relação ao processo de degradação das colônias coralíneas, os pesquisadores relatam um problema em comum: o turismo desorganizado que prejudica a qualidade da água e agride organismos marinhos como os corais. O que se observa frequentemente nos litorais mais procurados pelos turistas é a promoção de atividades que contribuem para a destruição de habitats marinhos, como lançamento de âncoras para atracar barcos, pisoteio de corais e descarte de lixos. Com a chegada das ondas de calor nessas costas, as consequências da degradação são intensificadas, especialmente em período de El Niño, quando a temperatura do mar é elevada por semanas ou meses. 

Nesse cenário, são necessários investimentos que viabilizem fiscalizações constantes e ações de preservação dos corais, descreve Skinner: “Há uma necessidade de monitoramento frequente, e, para isto, há uma demanda de equipe e logística muito grande. Estas demandas significam recursos financeiros aos quais não temos tido acesso, o que limita muito nossa atividade”. 

 
 
 

Coral Montastraea cavernosa no recife Pirambu, na APA Costa dos Corais. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil