Aluna de Engenharia da Uerj cria grupo de apoio para colegas lidarem com a profissão vista como masculina

Aluna de Engenharia da Uerj cria grupo de apoio para colegas lidarem com a profissão vista como masculina

Apesar do crescimento da presença feminina, estudantes ainda enfrentam barreiras para se sentir pertencentes e conquistar espaço

Por: Alice Novaes e Thaísa de Souza

Mulheres na engenharia civil. Foto: Freepik

A experiência de ser mulher em um curso majoritariamente masculino é vivida no dia a dia de quem escolhe a Engenharia.  Segundo o DataUERJ, em dezembro de 2022, a Faculdade de Engenharia tinha 2.305 estudantes, dos quais 596 eram mulheres, o equivalente a 25,9% do total. 

Pensando nisso, Adriana Dias Carneiro, de 34 anos, aluna do sétimo período de Engenharia Elétrica, com ênfase em Telecomunicações, criou o grupo de mulheres da Engenharia da Uerj com o objetivo de promover integração e acolhimento. A ideia surgiu depois de sua participação em uma chapa para o Centro Acadêmico de Engenharia, que era majoritariamente feminina. Pouco tempo depois, ela criou o grupo e começou a divulgá-lo entre as estudantes. Atualmente, são cerca de 148 integrantes. “O grupo foi formado” com o objetivo de oferecer um espaço de comunicação, ajuda e acolhimento, explica.

Para Adriana, a união entre as estudantes é importante porque muitas situações vivenciadas dentro da faculdade acabam não sendo compartilhadas. No grupo, ela conta que já houve conversas para apoiar uma estudante que estava passando por um momento difícil e que também está sendo organizada uma roda de conversa entre as alunas. “A gente sabe que tem meninas que passam por coisas e elas não falam”, afirma. Para ela, ter um espaço em que essas experiências possam ser compartilhadas pode ajudar a criar uma rede de apoio entre as estudantes.

Desde o início da graduação, Adriana percebeu a diferença na quantidade de homens e mulheres. No ciclo básico, com turmas que podem chegar a 50 ou 60 alunos, Adriana relata que havia poucas mulheres. Com o avanço do curso, a proporção se torna ainda menor. “Em matérias do final, você vê que turmas de 15 alunos, às vezes, têm duas mulheres”, conta.

A estudante afirma que nem sempre percebe preconceito direto por parte dos colegas, mas observa que as mulheres podem acabar ficando de fora de grupos de trabalho quando os alunos têm liberdade para escolher seus integrantes. Em relação aos professores, entretanto, ela relata ter conhecimento de situações mais explícitas de preconceito vivenciadas por colegas. Ela conta que uma amiga percebeu diferenças no tratamento de um professor: quando ela fazia uma pergunta, recebia uma resposta ríspida; quando um homem fazia uma pergunta semelhante, o professor explicava com mais paciência. 

A própria Adriana teve uma experiência relacionada à sua condição de mulher ainda durante o curso técnico. Um professor, ao parabenizá-la pela formatura, afirmou que não esperava que ela chegasse àquele ponto por ser bonita. A estudante conta que a situação a fez perceber pela primeira vez como sua capacidade poderia ser colocada em dúvida por causa de sua aparência. Para ela, situações como essa mostram a necessidade de incentivar meninas desde os primeiros anos de formação a desenvolverem sua curiosidade e interesse pelas áreas de exatas.

Mariana Spena, de 19 anos, está no terceiro período de Engenharia Elétrica na Uerj e já havia tido contato com a área durante o ensino médio, quando cursou Eletrotécnica na Faetec. Em sua turma, ela era uma das poucas meninas entre os alunos. A escolha pela engenharia aconteceu a partir desse contato com a área, mas também foi acompanhada pela preocupação da família. “Os meus próprios pais tinham medo dessa questão, de ‘caramba, você tem certeza? É um curso muito de menino’”, conta.

Quando chegou à universidade, Mariana percebeu de forma mais concreta a diferença entre homens e mulheres. Para ela, além da dificuldade própria de um curso considerado pesado, existe o desafio de se sentir pertencente ao lugar . “É um ambiente em que você sente que você não tá 100% no seu ambiente”, afirma. A estudante considera que o apoio emocional e as amizades são importantes para evitar que essa sensação de deslocamento faça com que mulheres percam a motivação e desistam do curso.

Segundo Mariana, essa diferença se torna ainda mais perceptível conforme a graduação avança e as turmas ficam menores. Ela observa que cursos como Engenharia Elétrica e Mecânica possuem menos mulheres, o que torna a convivência predominantemente masculina. “Muito homem junto, eles se sentem confortáveis, eles sentem como se eles estivessem em casa”, relata. Nesse universo, a estudante conta já ter ouvido diversas piadas e comentários machistas entre colegas. Para conseguir conviver com essas situações, ela diz ter desenvolvido a habilidade de  ignorar algumas falas para não tornar a convivência ainda mais difícil.

Para Giovanna Rocha, de 22 anos, estudante do sexto período de Engenharia Civil, a dificuldade também aparece na convivência e na divisão de tarefas. Antes da universidade, ela cursou Estradas no Cefet e realizou um estágio que ajudou na decisão de seguir na engenharia. Na Uerj, porém, uma de suas principais dificuldades foi a socialização com os colegas. “Eu sempre me sentia um pouco mãe”, afirma ao lembrar dos trabalhos em grupo, nos quais sentia que precisava cobrar dos outros integrantes e assumir mais responsabilidades.

Giovanna percebeu uma mudança quando passou a trabalhar mais com mulheres. Segundo ela, existe uma relação de empatia e cooperação diferente entre as estudantes. “Você não precisa ficar cobrando. Cada uma sabe o seu papel”, diz. A aproximação com outras mulheres também ajudou a tornar o ambiente universitário mais confortável. “Você, mulher, entrar numa sala cheia de homem é um pouco desconfortável”, relata.

A estudante conta que, durante o ensino médio, suas turmas eram mais equilibradas entre homens e mulheres e, por isso, não imaginava como seria encontrar um ambiente diferente na universidade. A percepção veio somente depois de ingressar na Uerj. Para enfrentar esse cenário, Giovanna considera importante que as alunas procurem atividades extracurriculares, capacitações e também se aproximem de professoras da área. Ela lembra das histórias contadas por suas professoras sobre as dificuldades enfrentadas durante a formação e o trabalho na engenharia, especialmente em obras.

As três estudantes reconhecem que a presença feminina na engenharia tem aumentado, mas ainda percebem uma diferença significativa entre o número de homens e de mulheres, principalmente em determinadas áreas. Mariana lembra que, quando ingressou em Engenharia Elétrica, oito meninas entraram com ela, em um processo que oferecia cerca de 100 vagas. Giovanna, por outro lado, percebe atualmente uma divisão mais equilibrada na Engenharia Civil e relata que, em seu estágio, a maior parte de suas colegas são mulheres. As experiências mostram que, embora a presença feminina esteja crescendo, a sensação de pertencimento ainda é uma questão para quem escolhe seguir pela engenharia.

Mãos de mulheres simbolizando sororidade e união. Imagem: Freepik

Professora da Uerj pontua desafios enfrentados por mulheres na Engenharia 

Na área das exatas, muitas vezes a mulher é vista de forma não adequada a estar ali. O que é considerado “lugar de mulher” pesa nesse ambiente de trabalho. A pedagoga e advogada Adriana de Almeida, de 46 anos, é professora de Sociologia da Educação no curso de Pedagogia na Uerj e sua pesquisa envolve temas relacionados a mulheres, gêneros e território. Ela explica que, na engenharia, a mulher pode encontrar um cenário machista no qual ela precisa provar o tempo todo que ela é capaz.

“Há uma visão de que a área da engenharia não foi feita para as mulheres”,  descreve a professora. “Uma estudante pode acabar pensando sempre que não é a melhor, ainda que se forme. Ainda que tenha uma boa nota, não é a melhor. Ela ainda vai ter que conquistar seu lugar numa grande empresa de engenharia”. É como se essas alunas precisassem buscar constantemente um lugar para se ajustar, um lugar que as aceite.

A pesquisadora detalha que há uma tradição histórica e hegemônica masculina na área. A estudante de engenharia se depara com um histórico masculino durante as aulas: um professor homem que foi formado por outro homem, que foi formado por outro. Adriana explica o que pode acontecer nesse cenário: “Esse olhar desse professor para essa mulher que está se formando engenheira é discriminatório, no sentido de que ‘você não é igual a mim, ainda que você esteja aqui, você é desigual, você é menor que eu’”. 

Adriana destaca que a construção da hegemonia masculina na universidade pode levar uma estudante a desistir por achar que o curso “não serve para ela”. Contudo, todos os cursos servem para ela. A questão é como a sociedade constrói o que é e o que não é feito para a mulher. “Não se trata apenas do homem engenheiro nessa situação com essa estudante, mas o homem engenheiro e também professor. Então, junta a sua profissão de engenharia, mais a sua autoridade docente da forma mais tradicional ainda”, explica. 

É claro que a conversa a respeito do protagonismo feminino na engenharia tem sido mais pautada com o passar do tempo, porém, a pesquisadora ressalta que as questões trabalhistas envolvendo mulheres na área de exatas  é como um teto de vidro: “Ainda há essa barreira invisível que há muito ainda que conquistar para a gente deixar de ser apenas a mulher do cuidado, aquela mulher que dá conta só da casa, para enfim ficar claro que a gente dá conta de tudo.” 

“Nós precisamos romper com essas desigualdades estruturais”, declara a pesquisadora. Para que se possa dizer que essas mulheres vivem em um Estado democrático de direito, não basta levantar estatísticas que mostrem que elas adentraram o espaço profissional e da universidade. É necessário que elas também adentrem os espaços de poder dentro da engenharia. Adriana exemplifica com os cursos, as diretorias da faculdade de engenharia e os conselhos universitários da Uerj. Ou seja, os lugares onde se decide e se gerencia a área da profissão e do trabalho em que essas mulheres estão envolvidas. 

A quebra do preconceito com mulheres na engenharia atrairia mais meninas para os cursos dessa área, conforme detalha a pesquisadora. Mas, não basta apenas garantir o acesso dessas mulheres à universidade, também é necessário garantir as condições de permanência, de conclusão e de tomadas de decisões na sociedade. Ela diz: “Nesse sentido que eu vejo que é importante de se pensar, de se refletir e de mudar para que, de fato, a gente tenha um processo democrático e  vínculos entre educação e trabalho que sejam mais efetivos”. 

A professora finaliza com uma reflexão: as mulheres de outras áreas têm deixado as mulheres da engenharia lutando sozinhas ou essa é uma pauta de todas? 

União de mulheres. Imagem: Freepik

Uerj em todo lugar: Laboratório de Áudio promove oportunidades para estudantes nas transmissões esportivas

Uerj em todo lugar: Laboratório de Áudio promove oportunidades para estudantes nas transmissões esportivas

Projeto Escola de Narradores, do Audiolab, realiza transmissões esportivas e abre portas para alunos da graduação 

Por: Johann Marcelo

O Laboratório de Áudio da Faculdade de Comunicação Social (Audiolab/ FCS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)  dispõe de um portfólio bastante diversificado, variando de projetos com teor científico, como o A Gente da Ciência e o Audiolabgeo, a conteúdos audiovisuais que se destacam nas redes sociais, como o Ateliê do Podcast, que aborda diversas temáticas no mundo do entretenimento, o BadaUERJ, que cobre o Carnaval, e o Escola de Narradores, que realiza transmissões esportivas no canal do Audiolab no YouTube. Esse último, em especial, atravessou um momento de grande relevância ao cobrir a Copa do Mundo de futebol masculino de 2026 e foi um marco para a trajetória de dezenas de estudantes.

O Escola de Narradores tem recebido o apoio de jornalistas consagrados à iniciativa. Profissionais experientes do meio do jornalismo esportivo como Marcelo Barreto, Eric Faria, Milton Leite, Juca Kfouri e tantos outros, registraram, em vídeo, seu incentivo ao projeto, com muitos deles ressaltando a importância da aplicação dos conhecimentos jornalísticos na prática. Além dos profissionais, uma lenda do futebol brasileiro e mundial também registrou seu apoio. Trata-se de Zico, maior ídolo da história do Clube de Regatas do Flamengo e um dos mais célebres jogadores da história da seleção brasileira.

O projeto Escola de Narradores é coordenado pelo professor Filipe Mostaro, membro do corpo de docentes da graduação e da pós-graduação da FCS. Filipe conta que participou de um projeto parecido enquanto era aluno da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) durante a Copa do Mundo de 2002, fato que o motivou a estabelecer a iniciativa na Uerj quando se tornou professor da universidade em 2022. A primeira cobertura do Escola de Narradores foi a da Copa do Mundo de 2022, e com o sucesso do projeto, ele foi institucionalizado no ano seguinte e ganhou cada vez mais força a partir de então. “O projeto foi crescendo. Em 2023, ele se tornou um projeto institucional da Uerj, e a partir dali, a gente foi cobrindo vários outros eventos “, disse Filipe Mostaro.

Além da cobertura dos mundiais de 2022 e 2026, o projeto tem atuado nas transmissões dos principais campeonatos de futebol do Brasil e do mundo. O Escola de Narradores também cobriu os Jogos Olímpicos de 2024 e fez transmissões de corridas da Fórmula 1, caracterizando seu espírito multiesportivo.

Certamente, o aspecto mais especial do projeto é a geração de oportunidades aos estudantes que desejam seguir carreira no jornalismo esportivo. Novas gerações de calouros têm se mostrado bastante engajadas com a iniciativa e buscado participar desde os primeiros dias na faculdade. Isso porque a repercussão  das transmissões nas redes sociais tem ultrapassado as fronteiras da Uerj e chegado aos vestibulandos, que, ao terem contato com o projeto, encaram com boas perspectivas a opção pela universidade. “Eu percebi como esse projeto estava não só impactando a vida dos alunos da Uerj, mas sendo motivo para alguém querer vir estudar aqui”, afirma Filipe Mostaro.

O alcance da iniciativa também chegou aos estudantes de outras universidades, como é o caso de Tadeu Giovanini, estudante do 2° período de Jornalismo na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Tadeu conta que soube da existência do projeto há cerca de três anos, enquanto cursava História pela mesma universidade. Em maio deste ano, após ter iniciado a graduação em Jornalismo, o estudante se deparou com a abertura das inscrições do Escola de Narradores para participação nas transmissões da Copa do Mundo de 2026, e não deixou a oportunidade passar.

Reprodução: Instagram (@uerjaudiolab)

Post de divulgação das inscrições para as transmissões da Copa do Mundo de 2026

Sobre a experiência de cobrir uma competição deste calibre, Tadeu ressalta o sentimento de gratidão ao projeto e caracteriza sua vivência como “surreal” e “incrível”. “Eu comecei a cursar Jornalismo, que sempre foi a profissão dos meus sonhos, em março, e em junho eu já estava tendo a oportunidade de fazer algo que eu me imaginaria fazendo só depois da metade da faculdade”, relata Tadeu, que mesmo após o fim do torneio, segue atuando como comentarista nas transmissões do Audiolab.

Eleições 2026 na Uerj: Audiolab lança programa “Política nas Rampas”

Eleições 2026 na Uerj: Audiolab lança programa “Política nas Rampas”

O programa Política nas Rampas vai cobrir a disputa eleitoral e promover debates sobre temas importantes com presença de convidados especiais

Por: Duda Ramalho

Reprodução: AudioLab Uerj

Nesta quinta-feira, 20 de agosto, estreia o programa Política nas Rampas, produzido por alunos de Jornalismo da Uerj e coordenado pelo professor Filipe Mostaro. A proposta é cobrir as eleições de 2026, analisando o cenário político atual e os perfis dos candidatos de um jeito único e simplificado para envolver o público e convidá-lo para a discussão de um assunto tão importante. A atração será transmitida pelo canal do Audiolab no Youtube.

Os alunos Sofia Lang, Maria Clara Combat, Duda Ramalho, Murilo Santos, Bia Carvalhido, Jhonny Chavão e Augusto Mendes estarão na bancada que participará do projeto. O programa terá sete episódios até o primeiro turno das Eleições, e mais dois adicionais em caso de um segundo turno. Cada episódio contará com uma editoria que abordará setores da sociedade:  economia, educação, saúde, segurança pública, meio ambiente e política externa. Cada semana terá um convidado que irá comentar a editoria do dia e as pautas quentes sobre a campanha eleitoral junto aos participantes da bancada do Política nas Rampas. Os convidados serão  professores da Uerj especialistas em política ou na área abordada pelo episódio, ou especialistas renomados de fora da Universidade, sendo jornalistas e pesquisadores.

O objetivo do programa é acompanhar a disputa eleitoral, analisando cada setor citado com as propostas dos candidatos, mas também abordar a pauta política de forma clara e didática para aproximar a comunidade uerjiana de um  assunto tão necessário, explicando como o sistema político brasileiro funciona e mostrando a importância do debate acerca desses temas e da participação cidadã para o fortalecimento da democracia.

O professor e coordenador Filipe Mostaro apresenta o projeto e  explicita a inovação que o programa traz para o laboratório Audiolab e a necessidade da abordagem do assunto com consciência e responsabilidade: “ A principal ideia momentânea é de cobrirmos as eleições. Teremos sete programas até chegar no primeiro turno, e tendo o segundo faremos mais dois. Uma vez que o Audiolab faz cobertura do Carnaval, das Olimpíadas, da Copa do Mundo, por que não cobrir um dos momentos mais importantes da democracia? A gente sabe da importância que esse tema tem, e do ‘jeito Audiolab’ de fazer, né? De uma forma reflexiva com uma linguagem muito acessível para que a política se torne realmente um assunto comum a todos”.

Mostaro ainda fala sobre o legado do projeto e do desejo de sua continuidade pós Eleições:

“O programa representa muito porque a Uerj tem muito conhecimento acadêmico sobre eleições, sobre o que é a política , sobre propostas do que uma nova política pode fazer, e, às vezes, fica muito presa dentro dos muros da Universidade. Então, a ideia da maioria dos nossos programas é de divulgação científica do conhecimento que fazemos aqui. A ideia é que o programa continue e que tenhamos um projeto específico aqui em nossa grade para falar sobre política o ano inteiro. O Política nas Rampas vai cumprir esse papel de levar algo tão importante para todas as pessoas por todo o ano e principalmente agora nessas eleições, que serão decisivas para o futuro e para a democracia brasileira”.

 O piloto do programa estreia nesta quinta-feira, dia 20, com a apresentação do projeto e discussão sobre as questões políticas que serão enfrentadas no ano de 2026. Os alunos produtores e o coordenador convidam toda a comunidade uerjiana, e de fora dos muros e das rampas também, para ter a sua companhia durante toda a disputa eleitoral.

FCS/Uerj completa 40 Anos

FCS/Uerj completa 40 Anos

Há quatro décadas, a Faculdade de Comunicação Social transforma a percepção de mundo dos estudantes

Por: Ana Beatriz Carvalhido

Foto: Agência Brasil (Fernando Frazão)

Campus Uerj Maracanã

Ao longo de seus 40 anos, a Faculdade de Comunicação Social da Uerj consolidou-se como referência na formação de profissionais de Jornalismo e Relações Públicas, além de oferecer especialização de excelência em nível de mestrado e doutorado. 

           Marcada pela resistência e pelo ensino público de qualidade, a FCS oferece um diferencial único: a visão da comunicação como ferramenta de impacto social. Da graduação ao doutorado, o estudante da faculdade aprende que, além da excelência técnica, é fundamental atuar de forma consciente e lutar pela garantia de direitos.   

            A Uerj foi pioneira na instauração das cotas, operando plenamente desde o ano de 2003, o que a torna uma instituição extremamente engajada socialmente. Contudo, como toda mudança gera questionamentos e alterações, esse processo ocasionou um cenário acadêmico ainda mais plural e diverso. A professora Denise da Costa, docente da FCS desde 1997, ressalta sua percepção ao visualizar o processo e suas contribuições para a Universidade:

​“A questão da implantação das cotas na Uerj, como qualquer mudança dentro de um ambiente institucional, ainda mais no nível em que ocorreu, gerou dúvidas e incertezas inicialmente. Não se sabia ao certo o que aconteceria ou quais seriam os resultados. Foi interessante participar desse momento desde a implantação, pois eu já era professora antes de o sistema ser aberto; passei pelo momento da implementação e depois pela sua consolidação, como está hoje. Foi realmente um período de dúvidas, mas, na faculdade de comunicação, isso nunca chegou a ser um obstáculo para as nossas atividades. Acho que a transição foi tranquila e os resultados, muito interessantes, que continuam positivos até hoje.”.

            ​A FCS forma estudantes capacitados todos os anos e contribui para que a Comunicação mantenha-se ativa com uma formação pública de qualidade. Denise reforça esse auxílio à sociedade:

​“A meu ver, a maior contribuição que a faculdade de comunicação dá à sociedade é a formação que a gente dá para uma série de estudantes, da graduação, de especialização e os de mestrado e doutorado. Uma educação pública de qualidade é uma educação que gera profissionais de qualidade tanto para o mercado quanto para a academia. E ajudar e trabalhar para criar cidadãos que sejam conscientes, e tenham uma visão de mundo mais ampla, diversa e coletiva. Eu penso que é essa a contribuição que podemos dar”.

Movimento estudantil da Uerj promove conscientização sobre a Luta Antimanicomial

Movimento estudantil da Uerj promove conscientização sobre a Luta Antimanicomial

 Cofundadora da Frente de Luta “Antimanicolonial” explica a importância das causas defendidas pelo grupo de alunos de psicologia da Uerj

Por: Victória de Araújo

A Frente Estudantil de Luta “Antimanicolonial” Esther Morgannah (FLAEM) é um movimento estudantil fundado por universitários do Instituto de Psicologia da Uerj, que associa a luta antimanicomial  pelos direitos das pessoas com sofrimento psíquico e o processo de colonização, que, de acordo com o que é defendido pela Frente, usou da lógica manicomial para cercar, torturar e controlar os corpos de grupos mais vulneráveis. 

 

   A estudante de psicologia da Uerj e co-fundadora da Frente “Antimanicolonial”, Rebeca Freitas (25),  explica a importância e a atuação da luta: “Quando a gente estuda um pouco mais o movimento antimanicomial, a gente entende que os corpos que foram sequestrados e colocados no manicômio há anos foram majoritariamente mulheres, pessoas pretas, pessoas indígenas, pessoas LGBTQAPN+, enfim, minorias. E isso tá completamente atrelado ao processo colonizador que a gente teve aqui”. 

 Rebeca Freitas

        (Foto: Victória de Araújo)

A Frente é ativa desde 2025, mas foi idealizada em 2023 após um ato no dia nacional da luta antimanicomial. Rebeca conta que a motivação para a fundação do movimento surgiu em uma reflexão com Daniel Vasconcellos, também aluno da Uerj, sobre a importância de ampliar o conhecimento dessa área da psicologia, que transcende o formato da clínica, para as comunidades externas e internas à área da saúde. 

“Apesar de o curso de psicologia ser colocado como esse ‘protagonista’ na área de saúde mental, os cursos de psicologia não têm uma introdução sobre o que é o SUS, sobre o que é a luta antimanicomial, e quando têm é muito rasa. Então a gente decidiu criar um movimento de estudantes para estudantes, para a gente conseguir fazer um letramento sobre SUS, Luta ‘Antimanicolonial’, Rede Psicossocial e o tratamento dentro do CAPS. E mudar a perspectiva de com que público a gente vai trabalhar”, relata Rebeca. 

  A Frente Estudantil de Luta “Antimanicolonial” Esther Morgannah faz reuniões presenciais, divulgadas pelas redes sociais, para quem se interessar em contribuir com a causa, alternadamente segundas e quartas às 16h, em salas do bloco D, no décimo andar do Campus Maracanã. E também  organiza eventos contando com a participação ativa de usuários da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), provando a potência do atendimento humanizado e a relevância da reinserção. 

Roda de Partilha sobre a RAPS (Foto registrada por membro da FLAEM)

Visita ao Instituto Municipal Nise da Silveira, guiada por artistas e usuários do instituto 

(Foto registrada por membro da FLAEM)

Mesa da Segunda Semana da Luta “Antimanicolonial” 

(Foto registrada por membro da FLAEM)

Rebeca reitera que em todos os eventos é mantido um zelo em relação ao protagonismo das pessoas que são o motivo da luta existir. Um exemplo disso é Esther Morgannah, artista e usuária do Instituto Nise da Silveira, que dá nome a Frente. Seu nome foi escolhido porque ela representa o efeito positivo que o cuidado adequado tem na vida das pessoas em sofrimento mental grave, por ver o instituto como um local para sua expansão e expressão pessoal. Rebeca relata também que Esther afirma que estar na Uerj como participante do movimento a incentivou a voltar a estudar — hoje, é aluna de museologia na UNIRIO.

“A gente vem muito no sentido de sensibilizar, mostrar que é possível estar no meio social e ser louco, estar em sofrimento. É muito mais uma preparação da sociedade do que dos usuários e do serviço de saúde mental. A luta tenta ressignificar para a sociedade o sentido da loucura, que ainda é um estigma muito grande”, explica a estudante.

 

 Por fim, Rebeca ressalta que o grupo mantém uma postura aberta para qualquer um interessado em somar, que é só aparecer:“A gente precisa fazer um barulho muito grande para as coisas mudarem, sabe? É quase que uma nova reforma psiquiátrica para que a gente consiga realmente evoluir com essa causa. Só dá para fazer com gente, e gente diferente”.

Do sonho à realidade: Como é a graduação na visão dos veteranos

Do sonho à realidade: Como é a graduação na visão dos veteranos

Alunos que já estão perto da conclusão do curso expõem suas visões e experiências na Uerj

Por: Maria Clara Jardim e Tiago Alves

Entre expectativas e a vivência real, veteranos de diferentes cursos da Uerj  descrevem as suas experiências durante a graduação, analisam as mudanças de percepção no decorrer do curso e falam sobre as suas perspectivas para o futuro. 

Estrutura “Eu ♥ UERJ”, no campus Maracanã.  

 (Foto: Maria Clara Jardim)

A formação e a especialização proporcionadas pela graduação têm  impacto direto na entrada do estudante no mercado de trabalho. O que pode ser exemplificado por um estudo de 2024 do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/ FGV), divulgado pela CNN Brasil, que  mostra que “trabalhadores com ensino superior ganham, em média, 126% a mais do que aqueles com menor escolaridade”. Esse cenário pode contribuir para melhores oportunidades profissionais e impactar na qualidade de vida dos estudantes após a graduação.

Mesmo que as melhores oportunidades sejam oferecidas a quem possui graduação, é preciso esclarecer que o processo de formação no ensino superior pode ser desafiador, principalmente na reta final, fazendo com que os estudantes tenham que desempenhar maior esforço para se formar.  É o caso de Vinícius Martins, graduando de matemática, que contou sobre o momento mais desafiador que experimentou em sua trajetória na Uerj: “Quando eu vi, após muitas reprovações, que se eu não tivesse uma mudança radical de mentalidade, não seria possível completar a minha graduação”. 

 

O estudante explicou que para superar essa situação, foi importante ter tido contato com oportunidades dentro de sua área de formação, como por exemplo a Semana do Matemático que aconteceu na Uerj no ano de 2025. Mostrando uma parte essencial para o desenvolvimento de cada universitário: a vivência prática a partir da teoria que é apresentada em cada disciplina. 

 

Apesar das adversidades enfrentadas no decorrer do curso, existem fatores que influenciam positivamente a permanência dos estudantes na universidade. Para Cayo Nascimento, estudante de ciências sociais, o que o motiva nessa reta final é o seu desejo de alcançar uma posição de destaque em sua área, e consequentemente, construir uma carreira. “No início eu cogitei sair do curso por conta da baixa empregabilidade, visando uma melhoria de vida no futuro. Hoje, estou inserido no mercado dentro da minha área de estudos, e não penso mais em migrar de curso”, relatou Cayo.

 

Os dois jovens também destacam a importância de buscar ativamente oportunidades de aprendizado para além das aulas, comparecer a eventos acadêmicos da sua área e praticar o networking. Para Vinícius, é preciso “deixar a vergonha de lado” e procurar saber com professores sobre oportunidades de Iniciações Científicas, Projetos de Extensão, monitorias ou práticas que vão enriquecer o currículo. 

Como a greve na Uerj impacta a adaptação e as vivências dos estudantes no início da vida universitária

Como a greve na Uerj impacta a adaptação e as vivências dos estudantes no início da vida universitária

Por: Namíbia Machado

A Universidade  do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) teve suas atividades impactadas a partir do dia 25 de março, com o início da greve docente aprovada em assembleia na tarde de quinta-feira, 19 de março, registrando o primeiro movimento desse tipo em dez anos. A paralisação ocorreu após inúmeras tentativas falhas de negociações com o governo do Estado, em meio a reivindicações relacionadas a recomposição salarial,  restabelecimento do adicional por tempo de serviço e melhorias no orçamento da Universidade. A partir do dia 09 de abril, os funcionários técnicos-administrativos da Uerj também entram em greve, unificando a paralisação. 

Entrada 5 da Uerj.

   (Foto: Fernanda Rodrigues)

Nesse cenário, estudantes que estão iniciando suas trajetórias na Uerj encontram um início de semestre voltado para incertezas. Para a maioria dos calouros, o período que é vivido como uma adaptação à vida universitária passou a ser atravessado por dúvidas sobre o calendário acadêmico. 

Para entender como esse movimento está sendo vivido, alguns estudantes foram ouvidos. É o caso de Maria Eduarda Ramalho, aluna do primeiro período de Jornalismo que relata: ´´Eu estava com as expectativas muito altas, sempre foi um sonho entrar na Uerj e no curso de Jornalismo. E, quando soube da greve, foi meio chocante, ainda mais na segunda semana de aula. Não era o esperado, mas ao entender os motivos e as reivindicações, percebi a gravidade da situação dos professores e técnicos. A primeira semana foi muito intensa e quando eu estava começando a me acostumar, veio essa notícia. A rotina acaba sendo interrompida, e depois é preciso passar por todo o processo de adaptação de novo. Minha maior preocupação agora é a duração da greve. É tudo muito imprevisível, mas torço para que a situação se resolva de maneira mais justa e correta para que tudo volte ao normal´´.

Estudantes de diferentes trajetórias relatam  ter uma percepção diversa do movimento. Como por exemplo o caso de Barcelos, aluna do curso de Jornalismo, que já vivenciou outras paralisações na Universidade: ´´Já passei por uma greve na própria Uerj, entre 2015 e 2016, então não é algo totalmente novo pra mim. Mas a experiência muda muito quando a paralisação acontece logo no início do semestre”. 

Segundo os alunos, para quem nunca teve contato com o ensino superior, o impacto tende a ser maior, já que ainda estão no processo de entender a rotina acadêmica, o ritmo de estudos e os compromissos dentro da Universidade. Já para estudantes mais experientes, a mudança é percebida como mais um processo de readaptação. Para os calouros, a situação pode ser ainda mais difícil, pois existe uma frustração após todo o esforço para ingressar na universidade, interrompido logo no início.

As percepções dos estudantes revelam um cenário de incertezas que vai muito além de experiências individuais. Com a greve deflagrada, diversos aspectos são impactados: desde a organização do calendário, o cumprimento de prazos e projetos até a continuidade das aulas. Enquanto isso, membros da comunidade uerjiana acompanham com expectativas os desdobramentos das negociações e os impactos no calendário letivo.

Vivência e permanência estudantil: o impacto das redes de apoio na universidade

Vivência e permanência estudantil: o impacto das redes de apoio na universidade

Os vínculos criados na universidade ajudam o estudante a se manter e se desenvolver no ensino superior

Por: Maria Clara Jardim

Em meio ao aumento das discussões sobre saúde mental e permanência estudantil, alunos da Uerj têm encontrado nos laços de amizade um importante fator de estabilidade acadêmica. No campus Maracanã, grupos de convivência e trocas cotidianas em espaços como os centros acadêmicos e os halls ajudam a reduzir a sensação de isolamento e aliviar a pressão das demandas acadêmicas.

Grupo de amigos reunido em torno da estrutura “Eu ♥ UERJ”, no campus Maracanã.

   (Foto: Maria Clara Jardim)

Durante o semestre letivo, os estudantes lidam com diferentes demandas enquanto tentam equilibrar todas elas. Esse contexto costuma impactar a saúde mental dos universitários, considerando as responsabilidades e pressões que os acompanham. A necessidade de cumprir prazos e ter um bom desempenho, além de fatores como a conciliação dos estudos e trabalho, tornam a rotina ainda mais exaustiva. 

 

Esse cenário exemplifica um estudo da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), que revelou que cerca de 83% dos universitários já enfrentaram algum nível de sofrimento psicológico durante a vida acadêmica. Diante desse quadro, o suporte psicológico oferecido pelas instituições torna-se fundamental para a promoção de uma vida acadêmica mais saudável. Para além do apoio institucional, também é essencial que haja uma rede de apoio que funcione como amparo emocional dentro da universidade. A partir das trocas cotidianas entre amigos, os estudantes vivem momentos de lazer que ajudam a reduzir o estresse.

 

A professora do Departamento de Psicologia Clínica da Uerj, Laura Quadros, ressaltou a importância dos vínculos sociais para o aumento do desempenho dos estudantes: “O grupo pode ter essa função de fortalecer e colaborar para o enfrentamento dos desafios, pois no grupo você pode construir laços profundos e reconhecer suas qualidades através da relação com o outro”. A especialista entende que, quando o grupo compartilha de um objetivo em comum, como a busca pelo desenvolvimento acadêmico, ocorre um auxílio mútuo e amparo nas dificuldades. 

 

As reflexões da professora são confirmadas no depoimento de uma estudante de jornalismo da Uerj. Sofia Inerelli está no processo de transição do segundo para o terceiro período do curso e, mesmo no início da graduação, já lida com muitas demandas da rotina acadêmica. Ela diz que ao criar vínculos no ambiente universitário, a sua rotina se tornou menos desgastante:  “Eu tive sorte de encontrar um grupo muito legal e aberto no início da faculdade, que realmente abre espaço para que todos dividam suas ideias”. Segundo ela, ter um grupo que seja uma base de acolhimento e equilíbrio, com todas as demandas fortes da faculdade, impactou o seu emocional. “Não é um substituto da família ou de outros amigos, mas por ter um convívio diário por muitos dias, se torna o seu porto seguro de alguma forma”. 

 

Para Sofia, a rotina semelhante do grupo gera a sensação de pertencimento: “Impacta o seu psicológico porque você sabe que eles estão no mesmo barco que você […], há uma confiabilidade muito grande para você trocar algumas informações”. Além disso, Sofia acrescenta que suas amizades incentivam o seu desenvolvimento acadêmico, pois “são um suporte que acalma e traz sempre leveza”, o que auxilia na busca pelo aprendizado e novas oportunidades sem que a pressão seja extrema. A estudante conclui mostrando o principal ensinamento que observou ao conviver com seu ciclo de amigos: “Ter esse equilíbrio das demandas de tarefas e da pressão profissional futura, mas com a importância e necessidade também de relaxar e descontrair”.

Grupo de amigos celebrando aniversário em espaço da UERJ.

(Foto: Vitória Perez)

Os alunos relatam que os laços de amizade exercem papel importante na estabilidade emocional e na permanência deles na Uerj. Nesse sentido, a existência de espaços sociais que estimulem a convivência no campus torna-se fundamental. Segundo Quadros, a Universidade pode contribuir ao promover espaços culturais, programações livres e incentivar momentos de leveza em meio às obrigações acadêmicas, favorecendo o bem-estar da comunidade universitária.

Para além das iniciativas institucionais, no entanto, o fortalecimento desses ciclos acontece de forma espontânea. Como conclui a professora, “nem tudo é da ordem institucional. Há uma frase política que diz que o afeto é revolucionário, pois o afeto humaniza, aproxima e promove o encontro com nossas potências”. Para Laura, apostar na espontaneidade é permitir que o jovem possa ser quem realmente é. “Um bom grupo de amigos nos traz essa possibilidade”, acrescenta a professora.

Perspectiva LGBTQIAPN+ na saúde mental e na política: confira as discussões do terceiro dia do Berro!

Perspectiva LGBTQIAPN+ na saúde mental e na política: confira as discussões do terceiro dia do Berro!

Por: Hyndra Lopes

O último dia do evento (06/11) promoveu mesas sobre os desafios enfrentados pela população LGBTQIAPN+ nos âmbitos da saúde mental e da política. Além de encerrar as sessões da II Jornada Identidades, Gêneros, Corpos e Sexualidades.

Da esquerda para a direita: Bruna Benevides, Dani Balbi, Ricardo Ferreira Freitas e Benny Briolli na mesa “LGBTQIAPN+ na política”, no auditório 93 (9° andar da Uerj Maracanã). Foto de Luana Maciel.

O Berro!, evento promovido pelo Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon) da Faculdade de Comunicação Social (FCS Uerj), encerrou na última quinta-feira e trouxe a saúde mental e a política como pautas para as palestras. As mesas promoveram discussões acerca das demandas LGBTQIAPN+ e da sua representatividade nestes campos, com a presença de figuras relevantes na cena, como Benny Briolli e Dani Balbi. A II Jornada Identidades, Gêneros, Corpos e Sexualidades também finalizou no mesmo dia, contando com trabalhos que trouxeram a visão LGBTQIAPN+ em diversos âmbitos da sociedade.

 

O terceiro dia de evento iniciou, pela manhã, com as últimas apresentações de trabalho da II Jornada Identidades, Gêneros, Corpos e Sexualidades. A sessão 7 foi coordenada por Débora Gauziski, pesquisadora e professora adjunta da FCS Uerj, e Julia Ourique, jornalista e doutoranda em Comunicação pela Uerj. Já a sessão 8 foi coordenada por Diego Cotta, doutor e mestre em Mídia e Cotidiano pela Universidade Federal Fluminense  (IACS/UFF), e Fran Pimentel, jornalista e doutoranda do PPGCOM Uerj. Os trabalhos abordaram diversos temas acerca da diversidade e pluralidade, com foco na perspectiva LGBTQIAPN+ nos diferentes campos culturais e sociais.

 

Na parte da tarde, ocorreu a palestra “LGBTQIAPN+ e saúde mental”. A mesa contou com Marcelle Esteves, psicóloga clínica e ativista, Mario Carvalho, Psicólogo e Pesquisador do Instituto de Psicologia da Uerj, e Céu Cavalcanti, Professora adjunta da UFRJ e secretária de saúde mental da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). Os palestrantes trouxeram como pauta principal a falta de amparo familiar e do Estado para pessoas LGBTQIAPN+ e os impactos negativos provocados na sua saúde mental. 

Da esquerda para a direita: Céu Cavalcanti, Marcelle Esteves e Mario Carvalho, com projeção ao fundo: “Não se trata de uma fragilidade intrínseca, mas sim do resultado direto de um ambiente social hostil.”. Foto de Luana Maciel.

Homossexuais, pessoas trans e travestis são alvos constantes de diversos tipos de violência por conta do preconceito. De acordo com Marcelle, essa situação gera o chamado “estresse de minoria”, carga emocional acumulativa que afeta pessoas oprimidas socialmente e pode desencadear depressão e ansiedade. O quadro é mais latente entre pessoas LGBTQIAPN+, considerando que metade desta população no Brasil já apresentou esses transtornos. Mario complementa a questão posta pela psicóloga ao apontar que grupos socialmente minorizados tem maior índice de comportamentos suicidas, motivados pela violência sofrida, e jovens LGBTQIAPN+ estão mais suscetíveis a cometerem suicídio. 

 

Os prejuízos à saúde mental desse grupo tem raízes sociais, devido à carência de uma rede de apoio por parte da família, dos amigos e do Estado para proverem, além da base emocional, auxílio psicológico, econômico e educacional, por exemplo. Céu Cavalcanti frisa essa ideia ao apontar que o tratamento psicológico não pode ser encarado como algo individual da pessoa e destaca a importância do termo “psicossocial”, que sai da lógica individualizada do adoecimento para entender que a questão engloba outros problemas sociais, como a fome, a pobreza e o preconceito. “Não queremos sobreviver, queremos viver bem”, declara Céu.

 

O último dia de Berro! finalizou com a palestra “LGBTQIAPN+ na política” e contou com presenças ilustres como Ricardo Ferreira Freitas, coordenador do Lacon, Bruna Benevides, presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), Dani Balbi, deputada estadual do Rio de Janeiro e primeira mulher trans eleita pela Alerj, e Benny Briolly, vereadora de Niterói e primeira mulher trans eleita para  cargo no município. As discussões envolveram a luta da comunidade LGBTQIAPN+ na política, para alcançar cargos de poder e reivindicar os seus direitos, com destaque para as cotas trans na universidade. Como apontou Ricardo, enfatizar essa questão na Uerj é necessário para incentivar a reitoria em prol da aprovação dessa medida.

Bruna Benevides falando durante a mesa “LGBTQIAPN+ na política”, ao lado de Dani Balbi, Ricardo Ferreira Freitas e Benny Briolli, no auditório 93 (9° andar da Uerj Maracanã). Foto de Luana Maciel.

Dani Balbi, em sua fala, afirma que ser transsexual, por si só, já é um ato político e defende a importância das cotas trans na universidade para além do impacto individual na trajetória dessas pessoas. A universidade é uma instituição de direcionamento de pesquisa e é responsável por promover novas visões de mundo. Logo, a implementação das cotas trans contribui também para produzir políticas públicas voltadas à comunidade, adensar o debate social acerca de questões LGBTQIAPN+ e modificar o curso da história, com a inserção de pessoas historicamente marginalizadas em locais de grande prestígio social.

 

A perseguição da população LGBTQIAPN+ retardou a sua participação política efetiva e a conquista dos seus direitos, como denuncia Bruna Benevides:  “Essas perseguições, essas mobilizações, não são recentes, elas sempre tiveram esse papel de manter no poder o que é hegemônico”. Mesmo assim, a comunidade nunca deixou de lutar pela sua inclusão e de se mobilizar na disputa por um espaço na política institucional. Em 2020, foram eleitos mais de 30 vereadores e vereadoras trans, representando um grande avanço no cenário político brasileiro. Ela diz que estamos vivendo o sonho das travestis mais velhas, que visavam e gestaram esse poder político.

 

Finalizando a noite, Benny Briolli fala sobre a continuidade da luta política LGBTQIAPN+, e denuncia a predominância da heteronormatividade nas instituições brasileiras, que não foram pensadas e nem pensam na multiplicidade de corpos, sobretudo nos corpos trans. A naturalização desses indivíduos em espaços de amplo reconhecimento nacional deveria ser óbvia, mas, como não é o que acontece, torna-se ainda mais imprescindível. Além da inclusão, é importante que as questões e os direitos da população LGBTQIAPN+ sejam postas em pauta por seus membros integrantes. “Quando a gente traz esse debate, a gente traz o nosso corpo para o centro da discussão”, declara a vereadora.

 

Dessa forma se encerra o Berro!, evento que levantou diversas reflexões acerca das perspectivas da população LGBTQIAPN+ nos mais variados âmbitos sociais. A promoção desses encontros na universidade possibilitam a visibilidade e a construção de conhecimento acerca da luta dessa comunidade, constituindo um ato político. Como Bruna Benevides aponta em sua fala, uma política “transversal, interseccional e diversa”.

Berro! traz discussão sobre direito ao esporte e ao entretenimento para o público LGBTQIAPN+

Berro! traz discussão sobre direito ao esporte e ao entretenimento para o público LGBTQIAPN+

Por: Fernanda Rodrigues

O segundo dia de Berro! (05/11) contou com a apresentação de trabalhos pela manhã na II Jornada Identidades, Gêneros, Corpos e Sexualidades e as mesas LGBTQIAPN+ no Esporte, na Cultura e no Entretenimento.

As palestras aconteceram no auditório 93, no nono andar da Uerj. Foto por Hyndra Lopes

Pela manhã, às dez horas, os trabalhos apresentados na jornada discutiram as questões do esporte e da cultura. O dia contou com a sessão 5 da jornada, coordenada por Diego Cotta, Doutor e Mestre em Mídia e Cotidiano pela Universidade Federal Fluminense IACS/UFF e estagiário pós-doutoral em Comunicação no PPGCOM/Uerj e Marcelo Resende, jornalista, doutorando e mestre em Comunicação pela Uerj. Já a sessão 6 foi coordenada por Débora Gauziski, pesquisadora e professora adjunta da FCS Uerj e Julia Ourique, jornalista e doutoranda em comunicação pela Uerj. 

Os trabalhos trataram principalmente da representação da comunidade LGBTQIAPN+ nos campos do esporte e do entretenimento. No esporte, a comunidade  é oprimida e tem seus direitos negados – como em muitos outros setores. Nos estádios, por exemplo, pessoas que não se encaixam no padrão hétero normativo são excluídas e inibidas de frequentar esses espaços. Já no entretenimento, a representação desse grupo social é muitas vezes equivocada ou esteriotipada. 

A primeira mesa do dia contou com a presença de Leda Costa, professora da Uerj; Marcelo Resende, jornalista e Marcelo Silva, fundador da Aquatrans, projeto social voltado para pessoas trans. A presença e resistência LGBTQIAPN+ no esporte foi mais uma vez discutida.

A professora Leda Costa foi a primeira a falar, trazendo sua pesquisa sobre a relação do feminino com o futebol, como gênero excluído e violentado nesse campo. Leda revelou que, em dia de jogo de futebol, registros de violência doméstica aumentam em 26%.

A professora deixou uma reflexão sobre masculinidade tóxica e misoginia, passando pelos detalhes de sua pesquisa. No futebol, as mulheres são associadas a uma ameaça ao padrão de feminilidade imposto pela sociedade. A presença das mulheres nos primeiros Jogos Olímpicos (1896), por exemplo, foi proibida. As jornalistas esportivas, também, recebem muitos ataques de ódio, especialmente nas redes sociais. Ou seja, a presença da mulher nos esportes ameaça a figura do “macho”. 

Leda fala, ainda, sobre como se sente acolhida na Uerj, declarando que a Universidade a permitiu “sair do armário” e mencionando as amizades que o trabalho lhe rendeu.

Da esquerda para a direita: Leda Costa, Marcelo Resende e Marcelo Silva, palestrantes da mesa LGBTQIAPN+ no Esporte. Foto por Hyndra Lopes

Marcelo Resende palestrou sobre o corpo LGBTQIAPN+ nos estádios. Marcelo apresentou sua pesquisa, expondo como os “corpos dissidentes” ocupam o espaço em campo. Como já mencionado anteriormente, a área esportiva, principalmente o futebol, oprimem e escanteiam corpos que fogem do padrão heteronormativo. Ele ressalta, porém, que o futebol não é “coisa de macho” , e reivindica o direito universal ao esporte.

O jornalista traz o exemplo de Nando Gald, influenciador torcedor do Vasco que desafia os padrões de heteronormatividade impostos em campo. Performando sua sexualidade da forma que ele bem entende, Nando não se intimida com a homofobia no futebol e luta por um campo mais democrático. Resende traz ainda a relação entre as brigas de torcidas e o ideal de masculinidade imposto em campo.

Para encerrar a mesa, Marcelo Silva, professor de educação física e fundador da Aquatrans, levou à mesa a pauta das pessoas trans no esporte. Marcelo é também professor de natação no Vasco e ceo da 7etemares. 

O aquatrans é um projeto de aulas de natação em águas abertas para pessoas transsexuais e travestis. O projeto reúne mais de 150 alunes não só cariocas, como também de outros estados e estrangeiros. 

Marcelo ressalta que o corpo trans é muito negado ao esporte na nossa sociedade. A discussão sobre a competição de pessoas trans nos esportes continua sendo um tabu muito forte. O professor cita que, muitas vezes, pessoas trans nem mesmo consideram o esporte como uma possibilidade. 

O Aquatrans, para além da técnica esportiva, tem um papel social e político. Marcelo Silva ressalta o significado da praia para as pessoas trans, que, principalmente no início da transição, se sentem envergonhadas de frequentar esses espaços. O projeto ressignifica a praia para essas pessoas, além de introduzi-las no esporte.

Para encerrar o dia, a mesa LGBTQIAPN+ na Cultura e no Entretenimento ocupou o auditório 93. Thiago Soares, Bárbara Alves e Nilaisa Luciana debateram o papel da comunidade nesse âmbito da sociedade. 

Thiago Soares é professor e pesquisador de Comunicação e Cultura Pop e falou sobre sua pesquisa acerca do “Gagacabana” , fenômeno que se deu este ano por causa do show da Lady Gaga no Rio de Janeiro. 

Thiago enxerga os espetáculos de música pop como reorganizadores da dinâmica da cidade, que se mobiliza pelo evento. O pesquisador menciona as lojas do Saara, na região central do Rio, que se modificaram, vendendo adereços para o show da Lady Gaga. O show, ainda, é um espaço de performance e expressão LGBTQIAPN+. 

Em seguida, Bárbara Alves, que trabalha diretamente na presidência da FioCruz com enfoque nas questões LGBTQIAPN+ e de diversidade, discutiu sobre a posição da comunidade em questões de representatividade na mídia, principalmente.

Bárbara destaca: “Nós, travestis, ainda somos muito desumanizadas”. Na mídia, pessoas trans são muito mal representadas, reforçando estereótipos e preconceitos. Ela dá o exemplo do programa “Zorra Total”, exibido na Globo entre 1999 e 2015, que fazia chacota de pessoas trans e travestis.

Além disso, ela coloca a questão sobre o imaginário de um tipo ideal de corpo ou comportamento LGBTQIAPN+ e a questão da representatividade que, apesar de estar crescendo, ainda é insuficiente, seja na mídia, seja no mercado empresarial, por exemplo. 

Bárbara Alves, Thiago Soares, Nilaisa Luciana palestrando no segundo dia de Berro! Foto por Hyndra Lopes.

Para finalizar o dia, Nilaisa Luciana levou à mesa uma reflexão complexa sobre as relações de poder. Nilaisa trabalha com educação popular e é moradora da Maré, comunidade no Rio de Janeiro. A educadora colocou que a questão da representatividade e dos preconceitos envolve um conjunto de signos que formam um imaginário acerca da população LGBTQIAPN+. Esse imaginário é equivocado e preconceituoso, gerando violência. Para ela, as relações de poder estão presentes em todas as relações sociais que exercemos e impactam a comunidade LGBTQIAPN+ de forma violenta. 

Somos deixados com a reflexão acerca de como a comunidade é representada na sociedade – seja no esporte, seja no entretenimento. É importante ocupar espaços e resistir, transpondo o preconceito opressor que assola as pessoas LGBTQIAPN+.