FCS/Uerj completa 40 Anos

FCS/Uerj completa 40 Anos

Há quatro décadas, a Faculdade de Comunicação Social transforma a percepção de mundo dos estudantes

Por: Ana Beatriz Carvalhido

Foto: Agência Brasil (Fernando Frazão)

Campus Uerj Maracanã

Ao longo de seus 40 anos, a Faculdade de Comunicação Social da Uerj consolidou-se como referência na formação de profissionais de Jornalismo e Relações Públicas, além de oferecer especialização de excelência em nível de mestrado e doutorado. 

           Marcada pela resistência e pelo ensino público de qualidade, a FCS oferece um diferencial único: a visão da comunicação como ferramenta de impacto social. Da graduação ao doutorado, o estudante da faculdade aprende que, além da excelência técnica, é fundamental atuar de forma consciente e lutar pela garantia de direitos.   

            A Uerj foi pioneira na instauração das cotas, operando plenamente desde o ano de 2003, o que a torna uma instituição extremamente engajada socialmente. Contudo, como toda mudança gera questionamentos e alterações, esse processo ocasionou um cenário acadêmico ainda mais plural e diverso. A professora Denise da Costa, docente da FCS desde 1997, ressalta sua percepção ao visualizar o processo e suas contribuições para a Universidade:

​“A questão da implantação das cotas na Uerj, como qualquer mudança dentro de um ambiente institucional, ainda mais no nível em que ocorreu, gerou dúvidas e incertezas inicialmente. Não se sabia ao certo o que aconteceria ou quais seriam os resultados. Foi interessante participar desse momento desde a implantação, pois eu já era professora antes de o sistema ser aberto; passei pelo momento da implementação e depois pela sua consolidação, como está hoje. Foi realmente um período de dúvidas, mas, na faculdade de comunicação, isso nunca chegou a ser um obstáculo para as nossas atividades. Acho que a transição foi tranquila e os resultados, muito interessantes, que continuam positivos até hoje.”.

            ​A FCS forma estudantes capacitados todos os anos e contribui para que a Comunicação mantenha-se ativa com uma formação pública de qualidade. Denise reforça esse auxílio à sociedade:

​“A meu ver, a maior contribuição que a faculdade de comunicação dá à sociedade é a formação que a gente dá para uma série de estudantes, da graduação, de especialização e os de mestrado e doutorado. Uma educação pública de qualidade é uma educação que gera profissionais de qualidade tanto para o mercado quanto para a academia. E ajudar e trabalhar para criar cidadãos que sejam conscientes, e tenham uma visão de mundo mais ampla, diversa e coletiva. Eu penso que é essa a contribuição que podemos dar”.

Movimento estudantil da Uerj promove conscientização sobre a Luta Antimanicomial

Movimento estudantil da Uerj promove conscientização sobre a Luta Antimanicomial

 Cofundadora da Frente de Luta Antimanicolonial explica a importância das causas defendidas pelo grupo de alunos de psicologia da Uerj

Por: Victória de Araújo

A Frente Estudantil de Luta Antimanicolonial Esther Morgannah (FLAEM) é um movimento estudantil fundado por universitários do Instituto de Psicologia da Uerj, que associa a luta antimanicomial  pelos direitos das pessoas com sofrimento psíquico e o processo de colonização, que, de acordo com o que é defendido pela Frente, usou da lógica manicomial para cercar, torturar e controlar os corpos de grupos mais vulneráveis. 

 

   A estudante de psicologia da Uerj e co-fundadora da Frente Antimanicolonial”, Rebeca Freitas (25),  explica a importância e a atuação da luta:Quando a gente estuda um pouco mais o movimento antimanicomial, a gente entende que os corpos que foram sequestrados e colocados no manicômio há anos foram majoritariamente mulheres, pessoas pretas, pessoas indígenas, pessoas LGBTQAPN+, enfim, minorias. E isso tá completamente atrelado ao processo colonizador que a gente teve aqui”. 

 Rebeca Freitas

        (Foto: Victória de Araújo)

A Frente é ativa desde 2025, mas foi idealizada em 2023 após um ato no dia nacional da luta antimanicomial. Rebeca conta que a motivação para a fundação do movimento surgiu em uma reflexão com Daniel Vasconcellos, também aluno da Uerj, sobre a importância de ampliar o conhecimento dessa área da psicologia, que transcende o formato da clínica, para as comunidades externas e internas à área da saúde. 

“Apesar de o curso de psicologia ser colocado como esse ‘protagonista’ na área de saúde mental, os cursos de psicologia não têm uma introdução sobre o que é o SUS, sobre o que é a luta antimanicomial, e quando têm é muito rasa. Então a gente decidiu criar um movimento de estudantes para estudantes, para a gente conseguir fazer um letramento sobre SUS, Luta Antimanicolonial, Rede Psicossocial e o tratamento dentro do CAPS. E mudar a perspectiva de com que público a gente vai trabalhar”, relata Rebeca. 

  A Frente Estudantil de Luta Antimanicolonial Esther Morgannah faz reuniões presenciais, divulgadas pelas redes sociais, para quem se interessar em contribuir com a causa, alternadamente segundas e quartas às 16h, em salas do bloco D, no décimo andar do Campus Maracanã. E também  organiza eventos contando com a participação ativa de usuários da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), provando a potência do atendimento humanizado e a relevância da reinserção. 

Roda de Partilha sobre a RAPS (Foto registrada por membro da FLAEM)

Visita ao Instituto Municipal Nise da Silveira, guiada por artistas e usuários do instituto 

(Foto registrada por membro da FLAEM)

Mesa da Segunda Semana da Luta “Antimanicolonial” 

(Foto registrada por membro da FLAEM)

Rebeca reitera que em todos os eventos é mantido um zelo em relação ao protagonismo das pessoas que são o motivo da luta existir. Um exemplo disso é Esther Morgannah, artista e usuária do Instituto Nise da Silveira, que dá nome a Frente. Seu nome foi escolhido porque ela representa o efeito positivo que o cuidado adequado tem na vida das pessoas em sofrimento mental grave, por ver o instituto como um local para sua expansão e expressão pessoal. Rebeca relata também que Esther afirma que estar na Uerj como participante do movimento a incentivou a voltar a estudar — hoje, é aluna de museologia na UNIRIO.

“A gente vem muito no sentido de sensibilizar, mostrar que é possível estar no meio social e ser louco, estar em sofrimento. É muito mais uma preparação da sociedade do que dos usuários e do serviço de saúde mental. A luta tenta ressignificar para a sociedade o sentido da loucura, que ainda é um estigma muito grande”, explica a estudante.

 

 Por fim, Rebeca ressalta que o grupo mantém uma postura aberta para qualquer um interessado em somar, que é só aparecer:“A gente precisa fazer um barulho muito grande para as coisas mudarem, sabe? É quase que uma nova reforma psiquiátrica para que a gente consiga realmente evoluir com essa causa. Só dá para fazer com gente, e gente diferente”.

Do sonho à realidade: Como é a graduação na visão dos veteranos

Do sonho à realidade: Como é a graduação na visão dos veteranos

Alunos que já estão perto da conclusão do curso expõem suas visões e experiências na Uerj

Por: Maria Clara Jardim e Tiago Alves

Entre expectativas e a vivência real, veteranos de diferentes cursos da Uerj  descrevem as suas experiências durante a graduação, analisam as mudanças de percepção no decorrer do curso e falam sobre as suas perspectivas para o futuro. 

Estrutura “Eu ♥ UERJ”, no campus Maracanã.  

 (Foto: Maria Clara Jardim)

A formação e a especialização proporcionadas pela graduação têm  impacto direto na entrada do estudante no mercado de trabalho. O que pode ser exemplificado por um estudo de 2024 do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/ FGV), divulgado pela CNN Brasil, que  mostra que “trabalhadores com ensino superior ganham, em média, 126% a mais do que aqueles com menor escolaridade”. Esse cenário pode contribuir para melhores oportunidades profissionais e impactar na qualidade de vida dos estudantes após a graduação.

Mesmo que as melhores oportunidades sejam oferecidas a quem possui graduação, é preciso esclarecer que o processo de formação no ensino superior pode ser desafiador, principalmente na reta final, fazendo com que os estudantes tenham que desempenhar maior esforço para se formar.  É o caso de Vinícius Martins, graduando de matemática, que contou sobre o momento mais desafiador que experimentou em sua trajetória na Uerj: “Quando eu vi, após muitas reprovações, que se eu não tivesse uma mudança radical de mentalidade, não seria possível completar a minha graduação”. 

 

O estudante explicou que para superar essa situação, foi importante ter tido contato com oportunidades dentro de sua área de formação, como por exemplo a Semana do Matemático que aconteceu na Uerj no ano de 2025. Mostrando uma parte essencial para o desenvolvimento de cada universitário: a vivência prática a partir da teoria que é apresentada em cada disciplina. 

 

Apesar das adversidades enfrentadas no decorrer do curso, existem fatores que influenciam positivamente a permanência dos estudantes na universidade. Para Cayo Nascimento, estudante de ciências sociais, o que o motiva nessa reta final é o seu desejo de alcançar uma posição de destaque em sua área, e consequentemente, construir uma carreira. “No início eu cogitei sair do curso por conta da baixa empregabilidade, visando uma melhoria de vida no futuro. Hoje, estou inserido no mercado dentro da minha área de estudos, e não penso mais em migrar de curso”, relatou Cayo.

 

Os dois jovens também destacam a importância de buscar ativamente oportunidades de aprendizado para além das aulas, comparecer a eventos acadêmicos da sua área e praticar o networking. Para Vinícius, é preciso “deixar a vergonha de lado” e procurar saber com professores sobre oportunidades de Iniciações Científicas, Projetos de Extensão, monitorias ou práticas que vão enriquecer o currículo. 

Como a greve na Uerj impacta a adaptação e as vivências dos estudantes no início da vida universitária

Como a greve na Uerj impacta a adaptação e as vivências dos estudantes no início da vida universitária

Por: Namíbia Machado

A Universidade  do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) teve suas atividades impactadas a partir do dia 25 de março, com o início da greve docente aprovada em assembleia na tarde de quinta-feira, 19 de março, registrando o primeiro movimento desse tipo em dez anos. A paralisação ocorreu após inúmeras tentativas falhas de negociações com o governo do Estado, em meio a reivindicações relacionadas a recomposição salarial,  restabelecimento do adicional por tempo de serviço e melhorias no orçamento da Universidade. A partir do dia 09 de abril, os funcionários técnicos-administrativos da Uerj também entram em greve, unificando a paralisação. 

Entrada 5 da Uerj.

   (Foto: Fernanda Rodrigues)

Nesse cenário, estudantes que estão iniciando suas trajetórias na Uerj encontram um início de semestre voltado para incertezas. Para a maioria dos calouros, o período que é vivido como uma adaptação à vida universitária passou a ser atravessado por dúvidas sobre o calendário acadêmico. 

Para entender como esse movimento está sendo vivido, alguns estudantes foram ouvidos. É o caso de Maria Eduarda Ramalho, aluna do primeiro período de Jornalismo que relata: ´´Eu estava com as expectativas muito altas, sempre foi um sonho entrar na Uerj e no curso de Jornalismo. E, quando soube da greve, foi meio chocante, ainda mais na segunda semana de aula. Não era o esperado, mas ao entender os motivos e as reivindicações, percebi a gravidade da situação dos professores e técnicos. A primeira semana foi muito intensa e quando eu estava começando a me acostumar, veio essa notícia. A rotina acaba sendo interrompida, e depois é preciso passar por todo o processo de adaptação de novo. Minha maior preocupação agora é a duração da greve. É tudo muito imprevisível, mas torço para que a situação se resolva de maneira mais justa e correta para que tudo volte ao normal´´.

Estudantes de diferentes trajetórias relatam  ter uma percepção diversa do movimento. Como por exemplo o caso de Barcelos, aluna do curso de Jornalismo, que já vivenciou outras paralisações na Universidade: ´´Já passei por uma greve na própria Uerj, entre 2015 e 2016, então não é algo totalmente novo pra mim. Mas a experiência muda muito quando a paralisação acontece logo no início do semestre”. 

Segundo os alunos, para quem nunca teve contato com o ensino superior, o impacto tende a ser maior, já que ainda estão no processo de entender a rotina acadêmica, o ritmo de estudos e os compromissos dentro da Universidade. Já para estudantes mais experientes, a mudança é percebida como mais um processo de readaptação. Para os calouros, a situação pode ser ainda mais difícil, pois existe uma frustração após todo o esforço para ingressar na universidade, interrompido logo no início.

As percepções dos estudantes revelam um cenário de incertezas que vai muito além de experiências individuais. Com a greve deflagrada, diversos aspectos são impactados: desde a organização do calendário, o cumprimento de prazos e projetos até a continuidade das aulas. Enquanto isso, membros da comunidade uerjiana acompanham com expectativas os desdobramentos das negociações e os impactos no calendário letivo.

Vivência e permanência estudantil: o impacto das redes de apoio na universidade

Vivência e permanência estudantil: o impacto das redes de apoio na universidade

Os vínculos criados na universidade ajudam o estudante a se manter e se desenvolver no ensino superior

Por: Maria Clara Jardim

Em meio ao aumento das discussões sobre saúde mental e permanência estudantil, alunos da Uerj têm encontrado nos laços de amizade um importante fator de estabilidade acadêmica. No campus Maracanã, grupos de convivência e trocas cotidianas em espaços como os centros acadêmicos e os halls ajudam a reduzir a sensação de isolamento e aliviar a pressão das demandas acadêmicas.

Grupo de amigos reunido em torno da estrutura “Eu ♥ UERJ”, no campus Maracanã.

   (Foto: Maria Clara Jardim)

Durante o semestre letivo, os estudantes lidam com diferentes demandas enquanto tentam equilibrar todas elas. Esse contexto costuma impactar a saúde mental dos universitários, considerando as responsabilidades e pressões que os acompanham. A necessidade de cumprir prazos e ter um bom desempenho, além de fatores como a conciliação dos estudos e trabalho, tornam a rotina ainda mais exaustiva. 

 

Esse cenário exemplifica um estudo da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), que revelou que cerca de 83% dos universitários já enfrentaram algum nível de sofrimento psicológico durante a vida acadêmica. Diante desse quadro, o suporte psicológico oferecido pelas instituições torna-se fundamental para a promoção de uma vida acadêmica mais saudável. Para além do apoio institucional, também é essencial que haja uma rede de apoio que funcione como amparo emocional dentro da universidade. A partir das trocas cotidianas entre amigos, os estudantes vivem momentos de lazer que ajudam a reduzir o estresse.

 

A professora do Departamento de Psicologia Clínica da Uerj, Laura Quadros, ressaltou a importância dos vínculos sociais para o aumento do desempenho dos estudantes: “O grupo pode ter essa função de fortalecer e colaborar para o enfrentamento dos desafios, pois no grupo você pode construir laços profundos e reconhecer suas qualidades através da relação com o outro”. A especialista entende que, quando o grupo compartilha de um objetivo em comum, como a busca pelo desenvolvimento acadêmico, ocorre um auxílio mútuo e amparo nas dificuldades. 

 

As reflexões da professora são confirmadas no depoimento de uma estudante de jornalismo da Uerj. Sofia Inerelli está no processo de transição do segundo para o terceiro período do curso e, mesmo no início da graduação, já lida com muitas demandas da rotina acadêmica. Ela diz que ao criar vínculos no ambiente universitário, a sua rotina se tornou menos desgastante:  “Eu tive sorte de encontrar um grupo muito legal e aberto no início da faculdade, que realmente abre espaço para que todos dividam suas ideias”. Segundo ela, ter um grupo que seja uma base de acolhimento e equilíbrio, com todas as demandas fortes da faculdade, impactou o seu emocional. “Não é um substituto da família ou de outros amigos, mas por ter um convívio diário por muitos dias, se torna o seu porto seguro de alguma forma”. 

 

Para Sofia, a rotina semelhante do grupo gera a sensação de pertencimento: “Impacta o seu psicológico porque você sabe que eles estão no mesmo barco que você […], há uma confiabilidade muito grande para você trocar algumas informações”. Além disso, Sofia acrescenta que suas amizades incentivam o seu desenvolvimento acadêmico, pois “são um suporte que acalma e traz sempre leveza”, o que auxilia na busca pelo aprendizado e novas oportunidades sem que a pressão seja extrema. A estudante conclui mostrando o principal ensinamento que observou ao conviver com seu ciclo de amigos: “Ter esse equilíbrio das demandas de tarefas e da pressão profissional futura, mas com a importância e necessidade também de relaxar e descontrair”.

Grupo de amigos celebrando aniversário em espaço da UERJ.

(Foto: Vitória Perez)

Os alunos relatam que os laços de amizade exercem papel importante na estabilidade emocional e na permanência deles na Uerj. Nesse sentido, a existência de espaços sociais que estimulem a convivência no campus torna-se fundamental. Segundo Quadros, a Universidade pode contribuir ao promover espaços culturais, programações livres e incentivar momentos de leveza em meio às obrigações acadêmicas, favorecendo o bem-estar da comunidade universitária.

Para além das iniciativas institucionais, no entanto, o fortalecimento desses ciclos acontece de forma espontânea. Como conclui a professora, “nem tudo é da ordem institucional. Há uma frase política que diz que o afeto é revolucionário, pois o afeto humaniza, aproxima e promove o encontro com nossas potências”. Para Laura, apostar na espontaneidade é permitir que o jovem possa ser quem realmente é. “Um bom grupo de amigos nos traz essa possibilidade”, acrescenta a professora.

Perspectiva LGBTQIAPN+ na saúde mental e na política: confira as discussões do terceiro dia do Berro!

Perspectiva LGBTQIAPN+ na saúde mental e na política: confira as discussões do terceiro dia do Berro!

Por: Hyndra Lopes

O último dia do evento (06/11) promoveu mesas sobre os desafios enfrentados pela população LGBTQIAPN+ nos âmbitos da saúde mental e da política. Além de encerrar as sessões da II Jornada Identidades, Gêneros, Corpos e Sexualidades.

Da esquerda para a direita: Bruna Benevides, Dani Balbi, Ricardo Ferreira Freitas e Benny Briolli na mesa “LGBTQIAPN+ na política”, no auditório 93 (9° andar da Uerj Maracanã). Foto de Luana Maciel.

O Berro!, evento promovido pelo Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon) da Faculdade de Comunicação Social (FCS Uerj), encerrou na última quinta-feira e trouxe a saúde mental e a política como pautas para as palestras. As mesas promoveram discussões acerca das demandas LGBTQIAPN+ e da sua representatividade nestes campos, com a presença de figuras relevantes na cena, como Benny Briolli e Dani Balbi. A II Jornada Identidades, Gêneros, Corpos e Sexualidades também finalizou no mesmo dia, contando com trabalhos que trouxeram a visão LGBTQIAPN+ em diversos âmbitos da sociedade.

 

O terceiro dia de evento iniciou, pela manhã, com as últimas apresentações de trabalho da II Jornada Identidades, Gêneros, Corpos e Sexualidades. A sessão 7 foi coordenada por Débora Gauziski, pesquisadora e professora adjunta da FCS Uerj, e Julia Ourique, jornalista e doutoranda em Comunicação pela Uerj. Já a sessão 8 foi coordenada por Diego Cotta, doutor e mestre em Mídia e Cotidiano pela Universidade Federal Fluminense  (IACS/UFF), e Fran Pimentel, jornalista e doutoranda do PPGCOM Uerj. Os trabalhos abordaram diversos temas acerca da diversidade e pluralidade, com foco na perspectiva LGBTQIAPN+ nos diferentes campos culturais e sociais.

 

Na parte da tarde, ocorreu a palestra “LGBTQIAPN+ e saúde mental”. A mesa contou com Marcelle Esteves, psicóloga clínica e ativista, Mario Carvalho, Psicólogo e Pesquisador do Instituto de Psicologia da Uerj, e Céu Cavalcanti, Professora adjunta da UFRJ e secretária de saúde mental da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). Os palestrantes trouxeram como pauta principal a falta de amparo familiar e do Estado para pessoas LGBTQIAPN+ e os impactos negativos provocados na sua saúde mental. 

Da esquerda para a direita: Céu Cavalcanti, Marcelle Esteves e Mario Carvalho, com projeção ao fundo: “Não se trata de uma fragilidade intrínseca, mas sim do resultado direto de um ambiente social hostil.”. Foto de Luana Maciel.

Homossexuais, pessoas trans e travestis são alvos constantes de diversos tipos de violência por conta do preconceito. De acordo com Marcelle, essa situação gera o chamado “estresse de minoria”, carga emocional acumulativa que afeta pessoas oprimidas socialmente e pode desencadear depressão e ansiedade. O quadro é mais latente entre pessoas LGBTQIAPN+, considerando que metade desta população no Brasil já apresentou esses transtornos. Mario complementa a questão posta pela psicóloga ao apontar que grupos socialmente minorizados tem maior índice de comportamentos suicidas, motivados pela violência sofrida, e jovens LGBTQIAPN+ estão mais suscetíveis a cometerem suicídio. 

 

Os prejuízos à saúde mental desse grupo tem raízes sociais, devido à carência de uma rede de apoio por parte da família, dos amigos e do Estado para proverem, além da base emocional, auxílio psicológico, econômico e educacional, por exemplo. Céu Cavalcanti frisa essa ideia ao apontar que o tratamento psicológico não pode ser encarado como algo individual da pessoa e destaca a importância do termo “psicossocial”, que sai da lógica individualizada do adoecimento para entender que a questão engloba outros problemas sociais, como a fome, a pobreza e o preconceito. “Não queremos sobreviver, queremos viver bem”, declara Céu.

 

O último dia de Berro! finalizou com a palestra “LGBTQIAPN+ na política” e contou com presenças ilustres como Ricardo Ferreira Freitas, coordenador do Lacon, Bruna Benevides, presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), Dani Balbi, deputada estadual do Rio de Janeiro e primeira mulher trans eleita pela Alerj, e Benny Briolly, vereadora de Niterói e primeira mulher trans eleita para  cargo no município. As discussões envolveram a luta da comunidade LGBTQIAPN+ na política, para alcançar cargos de poder e reivindicar os seus direitos, com destaque para as cotas trans na universidade. Como apontou Ricardo, enfatizar essa questão na Uerj é necessário para incentivar a reitoria em prol da aprovação dessa medida.

Bruna Benevides falando durante a mesa “LGBTQIAPN+ na política”, ao lado de Dani Balbi, Ricardo Ferreira Freitas e Benny Briolli, no auditório 93 (9° andar da Uerj Maracanã). Foto de Luana Maciel.

Dani Balbi, em sua fala, afirma que ser transsexual, por si só, já é um ato político e defende a importância das cotas trans na universidade para além do impacto individual na trajetória dessas pessoas. A universidade é uma instituição de direcionamento de pesquisa e é responsável por promover novas visões de mundo. Logo, a implementação das cotas trans contribui também para produzir políticas públicas voltadas à comunidade, adensar o debate social acerca de questões LGBTQIAPN+ e modificar o curso da história, com a inserção de pessoas historicamente marginalizadas em locais de grande prestígio social.

 

A perseguição da população LGBTQIAPN+ retardou a sua participação política efetiva e a conquista dos seus direitos, como denuncia Bruna Benevides:  “Essas perseguições, essas mobilizações, não são recentes, elas sempre tiveram esse papel de manter no poder o que é hegemônico”. Mesmo assim, a comunidade nunca deixou de lutar pela sua inclusão e de se mobilizar na disputa por um espaço na política institucional. Em 2020, foram eleitos mais de 30 vereadores e vereadoras trans, representando um grande avanço no cenário político brasileiro. Ela diz que estamos vivendo o sonho das travestis mais velhas, que visavam e gestaram esse poder político.

 

Finalizando a noite, Benny Briolli fala sobre a continuidade da luta política LGBTQIAPN+, e denuncia a predominância da heteronormatividade nas instituições brasileiras, que não foram pensadas e nem pensam na multiplicidade de corpos, sobretudo nos corpos trans. A naturalização desses indivíduos em espaços de amplo reconhecimento nacional deveria ser óbvia, mas, como não é o que acontece, torna-se ainda mais imprescindível. Além da inclusão, é importante que as questões e os direitos da população LGBTQIAPN+ sejam postas em pauta por seus membros integrantes. “Quando a gente traz esse debate, a gente traz o nosso corpo para o centro da discussão”, declara a vereadora.

 

Dessa forma se encerra o Berro!, evento que levantou diversas reflexões acerca das perspectivas da população LGBTQIAPN+ nos mais variados âmbitos sociais. A promoção desses encontros na universidade possibilitam a visibilidade e a construção de conhecimento acerca da luta dessa comunidade, constituindo um ato político. Como Bruna Benevides aponta em sua fala, uma política “transversal, interseccional e diversa”.

Berro! traz discussão sobre direito ao esporte e ao entretenimento para o público LGBTQIAPN+

Berro! traz discussão sobre direito ao esporte e ao entretenimento para o público LGBTQIAPN+

Por: Fernanda Rodrigues

O segundo dia de Berro! (05/11) contou com a apresentação de trabalhos pela manhã na II Jornada Identidades, Gêneros, Corpos e Sexualidades e as mesas LGBTQIAPN+ no Esporte, na Cultura e no Entretenimento.

As palestras aconteceram no auditório 93, no nono andar da Uerj. Foto por Hyndra Lopes

Pela manhã, às dez horas, os trabalhos apresentados na jornada discutiram as questões do esporte e da cultura. O dia contou com a sessão 5 da jornada, coordenada por Diego Cotta, Doutor e Mestre em Mídia e Cotidiano pela Universidade Federal Fluminense IACS/UFF e estagiário pós-doutoral em Comunicação no PPGCOM/Uerj e Marcelo Resende, jornalista, doutorando e mestre em Comunicação pela Uerj. Já a sessão 6 foi coordenada por Débora Gauziski, pesquisadora e professora adjunta da FCS Uerj e Julia Ourique, jornalista e doutoranda em comunicação pela Uerj

Os trabalhos trataram principalmente da representação da comunidade LGBTQIAPN+ nos campos do esporte e do entretenimento. No esporte, a comunidade  é oprimida e tem seus direitos negados – como em muitos outros setores. Nos estádios, por exemplo, pessoas que não se encaixam no padrão hétero normativo são excluídas e inibidas de frequentar esses espaços. Já no entretenimento, a representação desse grupo social é muitas vezes equivocada ou esteriotipada. 

A primeira mesa do dia contou com a presença de Leda Costa, professora da Uerj; Marcelo Resende, jornalista e Marcelo Silva, fundador da Aquatrans, projeto social voltado para pessoas trans. A presença e resistência LGBTQIAPN+ no esporte foi mais uma vez discutida.

A professora Leda Costa foi a primeira a falar, trazendo sua pesquisa sobre a relação do feminino com o futebol, como gênero excluído e violentado nesse campo. Leda revelou que, em dia de jogo de futebol, registros de violência doméstica aumentam em 26%.

A professora deixou uma reflexão sobre masculinidade tóxica e misoginia, passando pelos detalhes de sua pesquisa. No futebol, as mulheres são associadas a uma ameaça ao padrão de feminilidade imposto pela sociedade. A presença das mulheres nos primeiros Jogos Olímpicos (1896), por exemplo, foi proibida. As jornalistas esportivas, também, recebem muitos ataques de ódio, especialmente nas redes sociais. Ou seja, a presença da mulher nos esportes ameaça a figura do “macho”. 

Leda fala, ainda, sobre como se sente acolhida na Uerj, declarando que a Universidade a permitiu “sair do armário” e mencionando as amizades que o trabalho lhe rendeu.

Da esquerda para a direita: Leda Costa, Marcelo Resende e Marcelo Silva, palestrantes da mesa LGBTQIAPN+ no Esporte. Foto por Hyndra Lopes

Marcelo Resende palestrou sobre o corpo LGBTQIAPN+ nos estádios. Marcelo apresentou sua pesquisa, expondo como os “corpos dissidentes” ocupam o espaço em campo. Como já mencionado anteriormente, a área esportiva, principalmente o futebol, oprimem e escanteiam corpos que fogem do padrão heteronormativo. Ele ressalta, porém, que o futebol não é “coisa de macho” , e reivindica o direito universal ao esporte.

O jornalista traz o exemplo de Nando Gald, influenciador torcedor do Vasco que desafia os padrões de heteronormatividade impostos em campo. Performando sua sexualidade da forma que ele bem entende, Nando não se intimida com a homofobia no futebol e luta por um campo mais democrático. Resende traz ainda a relação entre as brigas de torcidas e o ideal de masculinidade imposto em campo.

Para encerrar a mesa, Marcelo Silva, professor de educação física e fundador da Aquatrans, levou à mesa a pauta das pessoas trans no esporte. Marcelo é também professor de natação no Vasco e ceo da 7etemares. 

O aquatrans é um projeto de aulas de natação em águas abertas para pessoas transsexuais e travestis. O projeto reúne mais de 150 alunes não só cariocas, como também de outros estados e estrangeiros. 

Marcelo ressalta que o corpo trans é muito negado ao esporte na nossa sociedade. A discussão sobre a competição de pessoas trans nos esportes continua sendo um tabu muito forte. O professor cita que, muitas vezes, pessoas trans nem mesmo consideram o esporte como uma possibilidade. 

O Aquatrans, para além da técnica esportiva, tem um papel social e político. Marcelo Silva ressalta o significado da praia para as pessoas trans, que, principalmente no início da transição, se sentem envergonhadas de frequentar esses espaços. O projeto ressignifica a praia para essas pessoas, além de introduzi-las no esporte.

Para encerrar o dia, a mesa LGBTQIAPN+ na Cultura e no Entretenimento ocupou o auditório 93. Thiago Soares, Bárbara Alves e Nilaisa Luciana debateram o papel da comunidade nesse âmbito da sociedade. 

Thiago Soares é professor e pesquisador de Comunicação e Cultura Pop e falou sobre sua pesquisa acerca do “Gagacabana” , fenômeno que se deu este ano por causa do show da Lady Gaga no Rio de Janeiro. 

Thiago enxerga os espetáculos de música pop como reorganizadores da dinâmica da cidade, que se mobiliza pelo evento. O pesquisador menciona as lojas do Saara, na região central do Rio, que se modificaram, vendendo adereços para o show da Lady Gaga. O show, ainda, é um espaço de performance e expressão LGBTQIAPN+. 

Em seguida, Bárbara Alves, que trabalha diretamente na presidência da FioCruz com enfoque nas questões LGBTQIAPN+ e de diversidade, discutiu sobre a posição da comunidade em questões de representatividade na mídia, principalmente.

Bárbara destaca: “Nós, travestis, ainda somos muito desumanizadas”. Na mídia, pessoas trans são muito mal representadas, reforçando estereótipos e preconceitos. Ela dá o exemplo do programa “Zorra Total”, exibido na Globo entre 1999 e 2015, que fazia chacota de pessoas trans e travestis.

Além disso, ela coloca a questão sobre o imaginário de um tipo ideal de corpo ou comportamento LGBTQIAPN+ e a questão da representatividade que, apesar de estar crescendo, ainda é insuficiente, seja na mídia, seja no mercado empresarial, por exemplo. 

Bárbara Alves, Thiago Soares, Nilaisa Luciana palestrando no segundo dia de Berro! Foto por Hyndra Lopes.

Para finalizar o dia, Nilaisa Luciana levou à mesa uma reflexão complexa sobre as relações de poder. Nilaisa trabalha com educação popular e é moradora da Maré, comunidade no Rio de Janeiro. A educadora colocou que a questão da representatividade e dos preconceitos envolve um conjunto de signos que formam um imaginário acerca da população LGBTQIAPN+. Esse imaginário é equivocado e preconceituoso, gerando violência. Para ela, as relações de poder estão presentes em todas as relações sociais que exercemos e impactam a comunidade LGBTQIAPN+ de forma violenta. 

Somos deixados com a reflexão acerca de como a comunidade é representada na sociedade – seja no esporte, seja no entretenimento. É importante ocupar espaços e resistir, transpondo o preconceito opressor que assola as pessoas LGBTQIAPN+.

“Berro!”: Evento discute identidade e gênero na universidade e no mercado de trabalho

“Berro!”: Evento discute identidade e gênero na universidade e no mercado de trabalho

Confira os depoimentos, palestras e todos os detalhes do que aconteceu no primeiro dia do “Berro!”

Por: Luana Maciel

Na última semana, dos dias 4 a 6 de novembro, aconteceu na Uerj o “Berro!”, evento organizado pelo Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon) da Faculdade de Comunicação Social (FCS). O evento reuniu convidados ilustres e promoveu importantes debates sobre a expressão e comunicação LGBTQIAPN+ em múltiplas áreas. 

O primeiro dia de debates teve início com a apresentação de trabalhos pela manhã. Os trabalhos faziam parte da Jornada “Identidades, gêneros e sexualidades” e os temas abordados foram os mais diversos, mas todos com uma meta em comum: pensar a cultura, a arte, o esporte e as demais áreas a partir da perspectiva LGBTQIAPN+. As apresentações se estenderam até o período da tarde, reunindo alunos e acadêmicos interessados e finalizando cada sessão com um momento de perguntas e comentários.

Às 17h, a mesa de abertura, composta por Vania Oliveira Fortuna, subcoordenadora do Lacon; Elizabeth Macedo, Pró-Reitora da Pós-graduação; e Fátima Regis, vice-diretora da FCS , declarou oficialmente aberto o evento.

Mesa de abertura, no auditório 93 da UERJ.  Foto: Hyndra Lopes

Logo em seguida da cerimônia oficial de abertura, teve início, no auditório 93 da Uerj, a primeira mesa do evento, que colocava em pauta os principais desafios e avanços das pessoas LGBTQIAPN+ entre a comunidade acadêmica e no mercado de trabalho. A mesa reuniu o professor de direito da Unifesp, Renan Quinalha; a professora do Programa de Pós-Graduação e Comunicação da UFRGS, Alê Primo; e o professor da FCS e fundador do Lacon, Ricardo Ferreira Freitas.

Renan Quinalha foi quem deu início à palestra. Formado em direito pela USP, o professor comentou sobre sua própria experiência universitária, em um momento e local onde não haviam pessoas abertamente LGBTQIAPN+ nesse espaço. Renan relata que tanto o ambiente acadêmico como os primeiros locais onde trabalhou eram extremamente opressores em relação à identidade de gênero e à sexualidade. Renan se assumiu como homem gay já na vida adulta e, após se reconhecer como tal, passou a pesquisar e estudar experiências LGBTQIAPN+, inclusive trazendo essa temática para o seu doutorado.

O professor enfatiza a importância da expansão e legitimação do campo de estudos de gênero e sexualidade, e diz que a universidade tem que ser um espaço para se discutir esse tema, acompanhando os avanços sociais. Até porque, como ele explica, ter referências de professores e acadêmicos da comunidade ocupando lugares de destaque e prestígio inspira pessoas LGBTQIAPN+ a se imaginarem também nesse lugar, percebendo ser possível trilhar caminhos semelhantes.

Outra questão levantada por Renan é a crise enfrentada pelo mercado de trabalho como um todo. Em um cenário de dissolução das redes de proteção, e crescente vulnerabilidade do trabalhador, não basta, segundo o professor, que se contrate pessoas LGBTQIAPN+ sob a pretensão de inclusão. As empresas e os empregadores devem garantir à comunidade dignidade no ambiente de trabalho, possibilidade de descanso e outros direitos trabalhistas fundamentais. Não basta trazer essas pessoas para a universidade ou para o mercado de trabalho, é preciso pensar como elas vão permanecer nessas posições. Afinal, como o professor Renan pontua em seu discurso, representatividade não é sobre figuração, é sobre transformar estruturas de poder.

Mesa “LGBTQIAPN+ na academia e no mercado de trabalho”, no auditório 93 da UERJ. Foto: Luana Maciel

Em seguida, foi a vez de Alê Primo falar. Mulher trans que transicionou aos 51 anos, professora e Miss Universo trans Brasil, Alê começa contando que sua transição ocorreu durante a pandemia, e comenta os desafios enfrentados nesse processo, principalmente por ter ocorrido em uma fase mais avançada de sua vida. Mas apesar dos desafios, ela vê a transição aos 51 anos de forma positiva e afirma que pensa que não transicionou para uma menina, mas sim para uma mulher madura.

A professora relata que, antes de transicionar, tinha uma ideia de travestis como pessoas sujas e vulgares, pensamento perpetuado pelos preconceitos da sociedade. Por isso mesmo, agora que se assumiu como uma mulher trans, Alê quer ser vista e falar sobre sua experiência, pois entende que é fundamental que as pessoas trans sejam representadas e visualizadas para além desse estereótipo de indivíduos que ocupam a posição à margem da sociedade.

Nesse sentido, a professora não deixa de ressaltar o papel crucial da educação em romper com esses preconceitos e dar voz às pessoas trans. Segundo ela, a educação é transformadora para as minorias. Todos nós somos diferentes. Não existe ninguém igual ao outro”, afirma Alê Primo. E, segundo Alê, tanto a universidade, quanto o local de trabalho devem abraçar e celebrar essas diferenças. “A vida é a diferença. A homogeneidade é pobre. O não movimento é a morte. Tudo que está estático está morto. A vida é movimento”, complementa ela.

Alê Primo defende a adoção da medida de cotas trans. Imagem: Luana Maciel

Por fim, Alê Primo não deixa de fazer uma reivindicação, também colocada em destaque por Renan anteriormente: a necessidade de adesão da Uerj às cotas trans. Ambos enfatizam o papel da universidade como lugar de inclusão, como espaço que precisa ser ocupado por pessoas LGBTQIAPN+ . E, ainda, como  o local onde devem ser produzidas pesquisas e realizados estudos sobre o tema de identidade e gênero. E, para ambos, a adoção da medida de cotas trans é mais um passo, pendente e fundamental, para que se caminhe nessa direção.

O Primeiro dia do Berro! veio para mostrar a essência do evento: a reunião de pessoas renomadas, pessoas curiosas e pessoas determinadas para debater temas relevantes para a comunidade uerjiana e para a sociedade como um todo. Viajando pelas mais diferentes áreas e por variados assuntos, no final do dia o propósito do Berro! é um só: mostrar que a universidade pode e deve ser lugar de discutir identidade e gênero. É onde esse tema pode ganhar voz e levar à produção de conhecimento, para que o conhecimento leve à inclusão e ao respeito. Como bem colocado por Alê Primo em uma de suas falas finais: “Se eu puder resumir o que estamos Berrando é: respeite!”.

Projeto da Uerj se especializa em serviços assistidos por cães para jovens com autismo

Projeto da Uerj se especializa em serviços assistidos por cães para jovens com autismo

A equipe desenvolveu a iniciativa “Ler é bom para cachorro

Por: Hyndra Lopes

O Grupo de Estudos e Pesquisas em Autismo e Serviços Assistidos por Cães (GEPAC), da Faculdade de Formação de Professores da Uerj (FFP), desenvolve programas de apoio e educação assistidos para crianças e adolescentes com autismo. Além de oferecer curso de qualificação para servidores públicos.

Atividade em escola com cão de assistência junto ao corpo docente. 

Foto disponibilizada por Vanessa Breia – coordenadora do GEPAC Uerj.

O GEPAC também promove um curso anual de formação e qualificação de profissionais habilitados a atuar em serviços assistidos, oferecido a servidores públicos da saúde, educação, assistência social e segurança pública. O programa, ao longo dos seus três anos de existência, já abrangeu os municípios de Arraial do Cabo, Barra Mansa, Itaboraí, Macaé, Niterói, Nova Friburgo, Rio de Janeiro, São Gonçalo e Maricá.

A relação entre intervenções assistidas e os cães que prestam serviços de apoio aos humanos gera certa confusão no público. Vanessa explica que serviços assistidos por cães consistem em ter um cachorro devidamente treinado como membro integrante de equipes de educação e saúde, por exemplo, ajudando em ações voltadas a um grupo ou a indivíduos. Já os cães de assistência são selecionados e treinados para acompanharem uma única pessoa com deficiência e auxiliá-la em atividades da vida diária, garantindo determinados suportes a partir da realização de tarefas específicas. Em ambos os casos, os cães devem ter o perfil e o treinamento baseados no público alvo que ele irá atender, desenvolvendo um repertório comportamental adequado ao ambiente e às necessidades das pessoas que serão atendidas. 

No GEPAC, que presta assistência a pessoas com TEA, trabalha-se com cachorros de médio a grande porte, resistentes a interações mais bruscas que podem acontecer devido às questões motoras e comportamentais de pessoas no espectro. Além disso, em seu treinamento, passam pelo processo de dessensibilização desses estímulos, para não se incomodarem caso a sua pele seja puxada ou se toque em qualquer parte do seu corpo, garantindo maior segurança aos atendidos.

 

As vantagens que serviços assistidos por cães podem trazer para o tratamento de pessoas com TEA são cientificamente comprovadas. Vanessa concorda que existem benefícios, principalmente nas questões de interação, mas que variam para cada pessoa de acordo com o objetivo terapêutico e a adaptação ao cão, ressaltando que o uso dessas intervenções deve ser um complemento às outras terapias indicadas e que, em alguns casos, pode haver contraindicações.

 

A professora aponta que a comunicação é uma das melhoras mais imediatas decorrentes desses serviços assistidos para crianças e jovens com autismo. Ela diz que os cães são capazes de captar micro sinais sutis mais rápido e de maneira menos invasiva. O seu comportamento também é mais previsível que o de um ser humano, principalmente um neurotípico, que pode apresentar ironia ou sarcasmo nas interações, por exemplo. Dessa forma, pessoas com essa neurodivergência, que tendem a ter dificuldades de socialização, se sentem encorajadas a interagir com o cachorro, por ele não impor a pressão de uma interação social humana e compreender pequenos estímulos mais facilmente. “Se a pessoa que tem dificuldade de comunicação está se sentindo confortável, é muito mais fácil para ela investir em um ciclo de comunicação nessas condições do que quando ela está sendo pressionada”.



Atendimento em Terapia Assistida. Foto disponibilizada por Vanessa Breia – coordenadora do GEPAC Uerj.

O GEPAC também promove um curso anual de formação e qualificação de profissionais habilitados a atuar em serviços assistidos, oferecido a servidores públicos da saúde, educação, assistência social e segurança pública. O programa, ao longo dos seus três anos de existência, já abrangeu os municípios de Arraial do Cabo, Barra Mansa, Itaboraí, Macaé, Niterói, Nova Friburgo, Rio de Janeiro e São Gonçalo.

A relação entre intervenções assistidas e animais que prestam esses serviços gera certa confusão no público acerca das suas distinções. Vanessa explica que serviços assistidos por cães consistem em ter um cachorro devidamente treinado como membro integrante de equipes de educação e saúde, por exemplo, ajudando em ações voltadas a um grupo. Já os cães de assistência são selecionados e treinados para acompanharem uma única pessoa, que irá adquirir esse animal por meio da compra ou doação, exercendo um serviço individualizado e totalmente adaptado ao seu dono. Em ambos os casos, o cão de assistência escolhido deve ter o perfil e o treinamento baseados no público alvo que ele irá atender, desenvolvendo um repertório comportamental adequado ao ambiente e às necessidades das pessoas que serão atendidas. 

 

No GEPAC, que presta assistência a pessoas com TEA, trabalha-se com cachorros de médio a grande porte, resistentes a interações mais bruscas que podem acontecer devido às questões motoras e comportamentais de jovens com autismo. Além disso, em seu treinamento, passam pelo processo de dessensibilização desses estímulos, para não se incomodarem caso a sua pele seja puxada ou se toque em qualquer parte do seu corpo.

As vantagens que serviços assistidos por cães podem trazer para o tratamento de pessoas com TEA são cientificamente comprovadas. Vanessa concorda que existem benefícios, principalmente nas questões de interação, mas que variam para cada pessoa de acordo com o objetivo terapêutico e a adaptação ao cão, ressaltando que o uso dessas intervenções deve ser um complemento às outras terapias indicadas e que, em alguns casos, pode haver contraindicações.

A professora aponta que a comunicação é uma das melhoras mais imediatas decorrentes desses serviços assistidos para jovens com autismo. Ela diz que os cães são capazes de captar micro sinais sutis mais rápido e de maneira menos invasiva. O seu comportamento também é mais previsível que o de um ser humano, principalmente um neurotípico, que pode apresentar ironia ou sarcasmo nas interações, por exemplo. Dessa forma, pessoas com essa neurodivergência, que tendem a ter dificuldades de socialização, se sentem encorajadas a interagir com o cachorro, por ele não impor a pressão de uma interação social humana e compreender pequenos estímulos mais facilmente. “Se a pessoa que tem dificuldade de comunicação está se sentindo confortável, é muito mais fácil para ela investir em um ciclo de comunicação nessas condições do que quando ela está sendo pressionada”.

Criança interagindo com cão de assistência no evento Pupanique – piquenique para famílias atípicas em celebração ao mês de abril. Foto disponibilizada por Vanessa Breia – coordenadora do GEPAC Uerj.

Os serviços assistidos por cães podem contribuir também no desenvolvimento motor, prejudicado em um número significativo de pessoas com autismo devido a hipotonia – baixo tônus muscular. A promoção de circuitos juntamente com o cão é uma maneira de motivar o jovem a desenvolver a parte física. Além disso, essas intervenções podem ajudar em questões táteis e sensoriais, comuns entre jovens com autismo, que apresentam restrições alimentares por conta da textura, do cheiro e da cor de determinados alimentos. “Muitas vezes o cachorro vai ser o modelo que topa provar e comer aquelas coisas. A criança pode não começar comendo a cenoura ou o morango, mas, se ela já aceitar tocar para dar ao cachorro, eu já ganhei um ponto nesse processo”, afirma Vanessa. 

 

Apesar de todos os fatores positivos que a divulgação desse trabalho trazem para a causa, a professora aponta que a mídia se aproveita do apelo que as pessoas com autismo e os próprios animais geram no público para propagar uma visão romantizada desses serviços. “A gente entende que, infelizmente, os serviços assistidos se tornaram muito divulgados, mas sem uma fundamentação técnica e teórica e sem uma dimensão ética”, declara Vanessa. O trabalho dos treinadores e especialistas e as questões acerca do bem-estar animal, controle sanitário e riscos de acidente são deixados de lado para focar no carinho, não julgamento e conforto que esses animais trazem aos humanos. Além de propagação da ideia dos serviços assistidos por cães como solução para todas as questões relacionadas ao transtorno. Ela defende que é necessário fazer uma divulgação consciente, para que a população não caia em mitos milagrosos acerca dos cães de assistência e entenda que esses serviços devem seguir parâmetros técnicos internacionais.

 

A inexistência de regulamentação legal para os diferentes tipos de cães de assistência no Brasil, inclusive os destinados a pessoas com autismo, é outro problema enfrentado pelos serviços assistidos. A garantia dos direitos destes animais está restrita aos cães guia pela Lei nº 11.126/2005, que acaba sendo aplicada aos outros cães de assistência e, com a comprovação de que eles foram treinados adequadamente, o judiciário reconhece o seu direito de atuar. Vanessa aponta que isto representa um atraso na legislação brasileira e defende os avanços dos projetos de lei que preveem a expansão dos direitos para os outros cães de assistência.

Falta de treinos de futsal preocupa atletas universitários e expõe desafios internos da Atlética de Comunicação Social e Artes

Falta de treinos de futsal preocupa atletas universitários e expõe desafios internos da Atlética de Comunicação Social e Artes

A irregularidade das atividades preocupa os atletas e pode afetar diretamente o desempenho da Atlética nas competições universitárias

Por: Henrique Pereira

 

Quadra interna da Uerj. Foto: Manuela Weissman

A rotina de treinamentos da Atlética da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) segue comprometida em 2025. A equipe de futsal masculino, por exemplo, conseguiu realizar apenas uma atividade no segundo semestre, situação que repete os transtornos do ano anterior. Segundo o treinador da modalidade, Gustavo Franco, os problemas já são antigos. “Ano passado foi igual”, afirmou.

Ao ser perguntado sobre os fatores que impossibilitam a prática frequente de treinos, ele apontou a disponibilidade de espaço e dos horários dos estudantes. Além desses, destacou a ausência de comprometimento dos próprios jogadores como o principal obstáculo enfrentado. “A tentativa de organizar os encontros semanais esbarra justamente na adesão dos atletas. Agora é aguardar o compromisso deles”, comentou.
A Uerj possui dois locais para treinos do futsal, a quadra externa e a do ginásio. Sobre a participação da Universidade em uma possível solução, Gustavo, formado em Educação Física pela própria UERJ, não demonstrou otimismo: “A construção de mais quadras seria uma medida, mas a faculdade não vai ajudar. A demanda é muito grande e o processo é muito burocrático”, disse. 

Para os jogadores, a falta de treinos pesa tanto no rendimento quanto na vida acadêmica. Pedro Athayde, estudante de jornalismo do 5º período e atleta da equipe, disse que a escassez de atividades semanais o tem incomodado bastante: “Tenho sentido bastante, por mais que meu horário de aula esteja mais apertado, era sempre bom desestressar um pouco nos treinos. Sem contar que eu amo competir e sinto muita falta disso no meu dia a dia”, relatou.

Ainda de acordo com ele, tal problemática afeta o grupo inteiro: “Acho que todo mundo lida mais ou menos da mesma forma, como uma válvula de escape do estresse da semana de trabalho e estudo. Então acredito que eles tenham muita pena de como as coisas estão, da nossa preparação para os campeonatos estar parada e todo mundo ficar sem ter o que fazer, já que não depende só da gente”, ressaltou.

Ao ser questionado sobre a ausência de comprometimento do time, o referido atleta reconheceu tal questão, porém alertou: “Acho que rola sim uma falta de comprometimento, mas por agora vai além disso. As quadras não estão sendo liberadas, os horários estão mais apertados e, querendo ou não, ainda não rolou uma renovação 100% do time. Até o ano passado, a maior parte do time era formada ou estava para se formar, então não aconteceu um ciclo natural dos mais novos assumirem o papel dos mais velhos”.

Entre as possíveis soluções, Athayde propõe mais flexibilidade e suporte da Universidade: “Acho que poderia rolar uma flexibilização melhor na questão das quadras, com um número maior de horários disponíveis para as atléticas. Com certeza a Uerj deveria oferecer mais apoio. As atléticas, além do esporte, servem como integração entre os estudantes, e isso fortalece o pertencimento dos alunos”, destacou.

Por fim, ele explicou a importância e o valor da Atlética em sua vida pessoal: “Pra mim, participar da Atlética é uma questão de pertencimento, chegar mais perto do que um dia foi meu sonho de virar jogador e defender algo que faço parte. A mensagem que eu deixo aos novos calouros é para que sigam nesse processo, porque as amizades são boas, o dia a dia é maravilhoso, a competição nos treinos e nos campeonatos é algo incrível. Então, não deixem de ir e curtam bastante o que a atlética tem pra oferecer”, concluiu.

Com treinos escassos e o futuro incerto, a Atlética de Comunicação Social da Uerj vive um momento de indefinição. As falas do treinador e do atleta evidenciam que os problemas vão além da quadra: passam pela necessidade de adesão estudantil, apoio institucional e um esforço coletivo para manter viva a tradição do esporte universitário.