Vivência e permanência estudantil: o impacto das redes de apoio na universidade
Os vínculos criados na universidade ajudam o estudante a se manter e se desenvolver no ensino superior
Por: Maria Clara Jardim
Em meio ao aumento das discussões sobre saúde mental e permanência estudantil, alunos da Uerj têm encontrado nos laços de amizade um importante fator de estabilidade acadêmica. No campus Maracanã, grupos de convivência e trocas cotidianas em espaços como os centros acadêmicos e os halls ajudam a reduzir a sensação de isolamento e aliviar a pressão das demandas acadêmicas.
Grupo de amigos reunido em torno da estrutura “Eu ♥ UERJ”, no campus Maracanã.
(Foto: Maria Clara Jardim)
Durante o semestre letivo, os estudantes lidam com diferentes demandas enquanto tentam equilibrar todas elas. Esse contexto costuma impactar a saúde mental dos universitários, considerando as responsabilidades e pressões que os acompanham. A necessidade de cumprir prazos e ter um bom desempenho, além de fatores como a conciliação dos estudos e trabalho, tornam a rotina ainda mais exaustiva.
Esse cenário exemplifica um estudo da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), que revelou que cerca de 83% dos universitários já enfrentaram algum nível de sofrimento psicológico durante a vida acadêmica. Diante desse quadro, o suporte psicológico oferecido pelas instituições torna-se fundamental para a promoção de uma vida acadêmica mais saudável. Para além do apoio institucional, também é essencial que haja uma rede de apoio que funcione como amparo emocional dentro da universidade. A partir das trocas cotidianas entre amigos, os estudantes vivem momentos de lazer que ajudam a reduzir o estresse.
A professora do Departamento de Psicologia Clínica da Uerj, Laura Quadros, ressaltou a importância dos vínculos sociais para o aumento do desempenho dos estudantes: “O grupo pode ter essa função de fortalecer e colaborar para o enfrentamento dos desafios, pois no grupo você pode construir laços profundos e reconhecer suas qualidades através da relação com o outro”. A especialista entende que, quando o grupo compartilha de um objetivo em comum, como a busca pelo desenvolvimento acadêmico, ocorre um auxílio mútuo e amparo nas dificuldades.
As reflexões da professora são confirmadas no depoimento de uma estudante de jornalismo da Uerj. Sofia Inerelli está no processo de transição do segundo para o terceiro período do curso e, mesmo no início da graduação, já lida com muitas demandas da rotina acadêmica. Ela diz que ao criar vínculos no ambiente universitário, a sua rotina se tornou menos desgastante: “Eu tive sorte de encontrar um grupo muito legal e aberto no início da faculdade, que realmente abre espaço para que todos dividam suas ideias”. Segundo ela, ter um grupo que seja uma base de acolhimento e equilíbrio, com todas as demandas fortes da faculdade, impactou o seu emocional. “Não é um substituto da família ou de outros amigos, mas por ter um convívio diário por muitos dias, se torna o seu porto seguro de alguma forma”.
Para Sofia, a rotina semelhante do grupo gera a sensação de pertencimento: “Impacta o seu psicológico porque você sabe que eles estão no mesmo barco que você […], há uma confiabilidade muito grande para você trocar algumas informações”. Além disso, Sofia acrescenta que suas amizades incentivam o seu desenvolvimento acadêmico, pois “são um suporte que acalma e traz sempre leveza”, o que auxilia na busca pelo aprendizado e novas oportunidades sem que a pressão seja extrema. A estudante conclui mostrando o principal ensinamento que observou ao conviver com seu ciclo de amigos: “Ter esse equilíbrio das demandas de tarefas e da pressão profissional futura, mas com a importância e necessidade também de relaxar e descontrair”.
Grupo de amigos celebrando aniversário em espaço da UERJ.
(Foto: Vitória Perez)
Os alunos relatam que os laços de amizade exercem papel importante na estabilidade emocional e na permanência deles na Uerj. Nesse sentido, a existência de espaços sociais que estimulem a convivência no campus torna-se fundamental. Segundo Quadros, a Universidade pode contribuir ao promover espaços culturais, programações livres e incentivar momentos de leveza em meio às obrigações acadêmicas, favorecendo o bem-estar da comunidade universitária.
Para além das iniciativas institucionais, no entanto, o fortalecimento desses ciclos acontece de forma espontânea. Como conclui a professora, “nem tudo é da ordem institucional. Há uma frase política que diz que o afeto é revolucionário, pois o afeto humaniza, aproxima e promove o encontro com nossas potências”. Para Laura, apostar na espontaneidade é permitir que o jovem possa ser quem realmente é. “Um bom grupo de amigos nos traz essa possibilidade”, acrescenta a professora.





