Aluna de Engenharia da Uerj cria grupo de apoio para colegas lidarem com a profissão vista como masculina
Apesar do crescimento da presença feminina, estudantes ainda enfrentam barreiras para se sentir pertencentes e conquistar espaço
Por: Alice Novaes e Thaísa de Souza
A experiência de ser mulher em um curso majoritariamente masculino é vivida no dia a dia de quem escolhe a Engenharia. Segundo o DataUERJ, em dezembro de 2022, a Faculdade de Engenharia tinha 2.305 estudantes, dos quais 596 eram mulheres, o equivalente a 25,9% do total.
Pensando nisso, Adriana Dias Carneiro, de 34 anos, aluna do sétimo período de Engenharia Elétrica, com ênfase em Telecomunicações, criou o grupo de mulheres da Engenharia da Uerj com o objetivo de promover integração e acolhimento. A ideia surgiu depois de sua participação em uma chapa para o Centro Acadêmico de Engenharia, que era majoritariamente feminina. Pouco tempo depois, ela criou o grupo e começou a divulgá-lo entre as estudantes. Atualmente, são cerca de 148 integrantes. “O grupo foi formado” com o objetivo de oferecer um espaço de comunicação, ajuda e acolhimento, explica.
Para Adriana, a união entre as estudantes é importante porque muitas situações vivenciadas dentro da faculdade acabam não sendo compartilhadas. No grupo, ela conta que já houve conversas para apoiar uma estudante que estava passando por um momento difícil e que também está sendo organizada uma roda de conversa entre as alunas. “A gente sabe que tem meninas que passam por coisas e elas não falam”, afirma. Para ela, ter um espaço em que essas experiências possam ser compartilhadas pode ajudar a criar uma rede de apoio entre as estudantes.
Desde o início da graduação, Adriana percebeu a diferença na quantidade de homens e mulheres. No ciclo básico, com turmas que podem chegar a 50 ou 60 alunos, Adriana relata que havia poucas mulheres. Com o avanço do curso, a proporção se torna ainda menor. “Em matérias do final, você vê que turmas de 15 alunos, às vezes, têm duas mulheres”, conta.
A estudante afirma que nem sempre percebe preconceito direto por parte dos colegas, mas observa que as mulheres podem acabar ficando de fora de grupos de trabalho quando os alunos têm liberdade para escolher seus integrantes. Em relação aos professores, entretanto, ela relata ter conhecimento de situações mais explícitas de preconceito vivenciadas por colegas. Ela conta que uma amiga percebeu diferenças no tratamento de um professor: quando ela fazia uma pergunta, recebia uma resposta ríspida; quando um homem fazia uma pergunta semelhante, o professor explicava com mais paciência.
A própria Adriana teve uma experiência relacionada à sua condição de mulher ainda durante o curso técnico. Um professor, ao parabenizá-la pela formatura, afirmou que não esperava que ela chegasse àquele ponto por ser bonita. A estudante conta que a situação a fez perceber pela primeira vez como sua capacidade poderia ser colocada em dúvida por causa de sua aparência. Para ela, situações como essa mostram a necessidade de incentivar meninas desde os primeiros anos de formação a desenvolverem sua curiosidade e interesse pelas áreas de exatas.
Mariana Spena, de 19 anos, está no terceiro período de Engenharia Elétrica na Uerj e já havia tido contato com a área durante o ensino médio, quando cursou Eletrotécnica na Faetec. Em sua turma, ela era uma das poucas meninas entre os alunos. A escolha pela engenharia aconteceu a partir desse contato com a área, mas também foi acompanhada pela preocupação da família. “Os meus próprios pais tinham medo dessa questão, de ‘caramba, você tem certeza? É um curso muito de menino’”, conta.
Quando chegou à universidade, Mariana percebeu de forma mais concreta a diferença entre homens e mulheres. Para ela, além da dificuldade própria de um curso considerado pesado, existe o desafio de se sentir pertencente ao lugar . “É um ambiente em que você sente que você não tá 100% no seu ambiente”, afirma. A estudante considera que o apoio emocional e as amizades são importantes para evitar que essa sensação de deslocamento faça com que mulheres percam a motivação e desistam do curso.
Segundo Mariana, essa diferença se torna ainda mais perceptível conforme a graduação avança e as turmas ficam menores. Ela observa que cursos como Engenharia Elétrica e Mecânica possuem menos mulheres, o que torna a convivência predominantemente masculina. “Muito homem junto, eles se sentem confortáveis, eles sentem como se eles estivessem em casa”, relata. Nesse universo, a estudante conta já ter ouvido diversas piadas e comentários machistas entre colegas. Para conseguir conviver com essas situações, ela diz ter desenvolvido a habilidade de ignorar algumas falas para não tornar a convivência ainda mais difícil.
Para Giovanna Rocha, de 22 anos, estudante do sexto período de Engenharia Civil, a dificuldade também aparece na convivência e na divisão de tarefas. Antes da universidade, ela cursou Estradas no Cefet e realizou um estágio que ajudou na decisão de seguir na engenharia. Na Uerj, porém, uma de suas principais dificuldades foi a socialização com os colegas. “Eu sempre me sentia um pouco mãe”, afirma ao lembrar dos trabalhos em grupo, nos quais sentia que precisava cobrar dos outros integrantes e assumir mais responsabilidades.
Giovanna percebeu uma mudança quando passou a trabalhar mais com mulheres. Segundo ela, existe uma relação de empatia e cooperação diferente entre as estudantes. “Você não precisa ficar cobrando. Cada uma sabe o seu papel”, diz. A aproximação com outras mulheres também ajudou a tornar o ambiente universitário mais confortável. “Você, mulher, entrar numa sala cheia de homem é um pouco desconfortável”, relata.
A estudante conta que, durante o ensino médio, suas turmas eram mais equilibradas entre homens e mulheres e, por isso, não imaginava como seria encontrar um ambiente diferente na universidade. A percepção veio somente depois de ingressar na Uerj. Para enfrentar esse cenário, Giovanna considera importante que as alunas procurem atividades extracurriculares, capacitações e também se aproximem de professoras da área. Ela lembra das histórias contadas por suas professoras sobre as dificuldades enfrentadas durante a formação e o trabalho na engenharia, especialmente em obras.
As três estudantes reconhecem que a presença feminina na engenharia tem aumentado, mas ainda percebem uma diferença significativa entre o número de homens e de mulheres, principalmente em determinadas áreas. Mariana lembra que, quando ingressou em Engenharia Elétrica, oito meninas entraram com ela, em um processo que oferecia cerca de 100 vagas. Giovanna, por outro lado, percebe atualmente uma divisão mais equilibrada na Engenharia Civil e relata que, em seu estágio, a maior parte de suas colegas são mulheres. As experiências mostram que, embora a presença feminina esteja crescendo, a sensação de pertencimento ainda é uma questão para quem escolhe seguir pela engenharia.
Professora da Uerj pontua desafios enfrentados por mulheres na Engenharia
Na área das exatas, muitas vezes a mulher é vista de forma não adequada a estar ali. O que é considerado “lugar de mulher” pesa nesse ambiente de trabalho. A pedagoga e advogada Adriana de Almeida, de 46 anos, é professora de Sociologia da Educação no curso de Pedagogia na Uerj e sua pesquisa envolve temas relacionados a mulheres, gêneros e território. Ela explica que, na engenharia, a mulher pode encontrar um cenário machista no qual ela precisa provar o tempo todo que ela é capaz.
“Há uma visão de que a área da engenharia não foi feita para as mulheres”, descreve a professora. “Uma estudante pode acabar pensando sempre que não é a melhor, ainda que se forme. Ainda que tenha uma boa nota, não é a melhor. Ela ainda vai ter que conquistar seu lugar numa grande empresa de engenharia”. É como se essas alunas precisassem buscar constantemente um lugar para se ajustar, um lugar que as aceite.
A pesquisadora detalha que há uma tradição histórica e hegemônica masculina na área. A estudante de engenharia se depara com um histórico masculino durante as aulas: um professor homem que foi formado por outro homem, que foi formado por outro. Adriana explica o que pode acontecer nesse cenário: “Esse olhar desse professor para essa mulher que está se formando engenheira é discriminatório, no sentido de que ‘você não é igual a mim, ainda que você esteja aqui, você é desigual, você é menor que eu’”.
Adriana destaca que a construção da hegemonia masculina na universidade pode levar uma estudante a desistir por achar que o curso “não serve para ela”. Contudo, todos os cursos servem para ela. A questão é como a sociedade constrói o que é e o que não é feito para a mulher. “Não se trata apenas do homem engenheiro nessa situação com essa estudante, mas o homem engenheiro e também professor. Então, junta a sua profissão de engenharia, mais a sua autoridade docente da forma mais tradicional ainda”, explica.
É claro que a conversa a respeito do protagonismo feminino na engenharia tem sido mais pautada com o passar do tempo, porém, a pesquisadora ressalta que as questões trabalhistas envolvendo mulheres na área de exatas é como um teto de vidro: “Ainda há essa barreira invisível que há muito ainda que conquistar para a gente deixar de ser apenas a mulher do cuidado, aquela mulher que dá conta só da casa, para enfim ficar claro que a gente dá conta de tudo.”
“Nós precisamos romper com essas desigualdades estruturais”, declara a pesquisadora. Para que se possa dizer que essas mulheres vivem em um Estado democrático de direito, não basta levantar estatísticas que mostrem que elas adentraram o espaço profissional e da universidade. É necessário que elas também adentrem os espaços de poder dentro da engenharia. Adriana exemplifica com os cursos, as diretorias da faculdade de engenharia e os conselhos universitários da Uerj. Ou seja, os lugares onde se decide e se gerencia a área da profissão e do trabalho em que essas mulheres estão envolvidas.
A quebra do preconceito com mulheres na engenharia atrairia mais meninas para os cursos dessa área, conforme detalha a pesquisadora. Mas, não basta apenas garantir o acesso dessas mulheres à universidade, também é necessário garantir as condições de permanência, de conclusão e de tomadas de decisões na sociedade. Ela diz: “Nesse sentido que eu vejo que é importante de se pensar, de se refletir e de mudar para que, de fato, a gente tenha um processo democrático e vínculos entre educação e trabalho que sejam mais efetivos”.
A professora finaliza com uma reflexão: as mulheres de outras áreas têm deixado as mulheres da engenharia lutando sozinhas ou essa é uma pauta de todas?