Pesquisadores das principais universidades do Rio se unem para disputar o debate sobre segurança pública
Rede lançada em março reúne UFRJ, UFF, PUC-Rio, Fiocruz e UERJ e nasce em resposta à chacina da Operação Contenção, no Complexo do Alemão
Por: Murilo Santos

Homicídios em alta e uma polícia que mata muito. Essas são apenas duas das características do quadro atual da segurança pública no Rio de Janeiro – e motivaram a criação de uma rede de pesquisa voltada para estudar o assunto no Rio. Criada em março deste ano, a Rede Universitária Segurança para Todos – Art. 5° reúne pesquisadores da UFRJ, UFF, PUC-Rio, Fiocruz e UERJ, esta última representada pelo Laboratório de Análise da Violência, o LAV-UERJ. Artigo 5º é uma referência ao artigo de mesmo número da Constituição brasileira referente aos direitos fundamentais, como a vida, a liberdade, a segurança e a propriedade.
A rede pretende coletar e divulgar informações sobre as dinâmicas da violência no Rio, produzir análises críticas com base científica e fornecer insumos para a formulação de políticas de segurança compatíveis com a Constituição. O grupo aposta na transparência e no acesso à informação, comprometendo-se a produzir materiais acessíveis à população fluminense e a promover fóruns de debate com movimentos sociais e demais atores comprometidos com uma segurança pública democrática.
A iniciativa surgiu após a megaoperação ocorrida no Complexo do Alemão em outubro de 2025. O professor Ignacio Cano, pesquisador e coordenador do LAV-UERJ, conta que a rede tem como objetivo recuperar o espaço dos pesquisadores no debate sobre segurança pública para que se tenha, de fato, a ciência — e não o achismo que, na visão do professor, tomou conta do debate. “A ideia é que pesquisadores e cientistas estão se juntando para pensar como incidir na política pública e no debate sobre segurança no Rio, a partir da constatação de que a gente vem matando pessoas a rodo há décadas e nunca resolveu o problema. É preciso um enfoque diferente.”
Não por acaso, a violência policial é um dos principais eixos de estudo da rede, que nasceu justamente após a chacina no Complexo do Alemão, cometida por agentes do Estado em outubro de 2025. Dados do Ministério da Justiça publicados este ano apontam que o Rio de Janeiro é o terceiro estado com mais mortes causadas por policiais no país, atrás apenas da Bahia e de São Paulo. Para Cano, especialista no tema, o alto número resulta da disputa armada por território entre o aparato legal e as forças criminosas, fruto de como a política fluminense adotou o lema “bandido bom é bandido morto” como solução para combater o crime. Há razões históricas para isso, como a “premiação faroeste”, que recompensava policiais que matassem suspeitos, nos anos 1990. “A política do ‘bandido bom é bandido morto’ se tornou uma referência histórica no Rio. A polícia acha que segurança pública é troca de tiro; os políticos acham que mostrar a morte de pessoas é um capital político.”
O contexto fluminense é tão complexo que uma das polícias que mais mata no país é também a que mais perde agentes. Para Cano, a relação é clara, mas exige uma ressalva importante: os policiais são mortos nas folgas, não em serviço. “Há uma relação entre letalidade policial e vitimização policial, e os estados onde há maior letalidade costumam ser também aqueles onde os policiais morrem muito, como é o caso do Rio. Só que os policiais matam durante o serviço e morrem durante a folga, quando são reconhecidos como policiais e executados.”
Os homicídios no Rio de Janeiro foram na contramão da tendência nacional: em 2023, enquanto a média brasileira recuou 2,3%, o estado registrou alta de 13,6%, segundo o Atlas da Violência de 2025. Os especialistas, no entanto, atribuem parte desse aumento à redução da subnotificação, ou seja, casos que em 2022 não foram contabilizados passaram a ser registrados. Outro dado preocupante coloca o estado entre os que apresentam os maiores índices de mortes violentas por causa indeterminada, estatística que levanta dúvidas sobre a capacidade, ou a disposição, das forças de segurança de investigar e esclarecer esses óbitos.
Nesse sentido, reconstruir a confiança nas forças de segurança é um tema que a rede se propõe a debater e que é, na análise de Cano, o principal desafio do governo estadual. Segundo ele, a política de segurança não é concebida para resolver o problema, mas apenas para contê-lo nas áreas periféricas: “A reconstrução da confiança entre a polícia e a população das áreas periféricas é o maior desafio da segurança pública fluminense, e eu diria que brasileira. Uma coisa que a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) se propôs a fazer, mas não conseguiu, e que a gente não consegue até hoje, porque a política de segurança é pensada não para diminuir a violência nas áreas periféricas, mas para contê-la lá e não deixar que ela se espalhe para o resto da cidade.”
Diante desse cenário, a Rede Universitária Segurança para Todos se coloca como uma tentativa de romper com décadas de política que, nas palavras do próprio Cano, nunca resolveu o problema. O desafio é transformar pesquisa em incidência real e fazer com que o debate acadêmico alcance quem formula e quem sofre as consequências da política de segurança no Rio.



