Superação de adversários e preconceitos na Copa do Mundo de futebol de cegos
Por: Gustavo Freitas
Foto: Alessandra Cabral – Comitê Paralímpico Brasileiro
Em julho de 2027, será realizada em São Paulo, a 9° edição da Copa do Mundo de futebol de cegos. A seleção brasileira, maior potência da modalidade, irá em busca do hexacampeonato, enfrentando além dos adversários, dificuldades estruturais como a falta de exposição, estigmas e pouco investimento.
As partidas de Futebol de 5, como também é chamado esse esporte,(referência ao número de atletas titulares em cada equipe) são jogadas em quadras de dimensões muito parecidas com as de futsal, mas o piso é de gramado sintético. As laterais são cercadas por placas que impedem a saída da bola por essas zonas. Em faltas, pênaltis e escanteios, um integrante da comissão técnica, conhecido como “chamador” , toca nas traves com um objeto de metal, sinalizando a posição exata do gol.
Todos os esportistas devem atuar com vendas especiais que cubram toda a entrada de luz, uma vez que existem diferentes graus de deficiência entre os atletas, de modo que alguns conseguem enxergar mais do que os outros. A bola possui um guizo, que ajuda a orientar os jogadores quanto à sua posição. O goleiro é o único dentro de campo que possui visão normal, funcionando também como um guia para sua equipe, organizando seus companheiros e as jogadas.
Antes de irem para uma disputa de bola, os jogadores devem gritar voy (vou, em espanho,l devido às origens do jogo serem atribuídas a Espanha ) para evitar colisões violentas. Apesar desse cuidado, é comum a ocorrência de choques contundentes, demonstrando também a intensidade com que o jogo é disputado. Mesmo com tantas emoções envolvendo as partidas, as torcidas são instruídas a não emitir qualquer tipo de barulho durante as jogadas, somente em momentos de gols, quando a bola já está fora de jogo. Essa medida visa a garantir que os atletas possam ouvir com clareza os ruídos da bola e de seus oponentes.
Apesar de já ser praticado em algumas regiões do mundo, com pioneirismo para Brasil e Espanha, o esporte só foi inserido nas paralimpíadas no ano de 2004, em Atenas. Já a primeira competição oficial organizada pela IBSA (Federação Internacional de Esportes para Cegos) foi em 1998, cuja sede escolhida foi o Brasil, em Paulínia-SP.
Inicialmente a copa do mundo se daria a cada 2 anos, tendo ocorrido posteriormente em 2000 e 2002. A partir daí, ela passou a se suceder a cada 4 anos, com edições em 2006, 2010, 2014 e 2018. Para coincidir com os jogos mundiais da IBSA, a edição de 2022 foi realocada para o ano seguinte.
Desse modo, a próxima edição ocorrerá em 2027, e retornará 25 anos depois ao território brasileiro. Na última ocasião, em 2002, o Rio de Janeiro sediou o título da seleção argentina, atualmente a segunda equipe com mais conquistas (3). A primeira posição é ocupada pelo Brasil com 5 títulos, nos anos de 1998, 2000, 2010, 2014 e 2018.
Além dos mundiais, o Brasil tem 5 medalhas de ouro em Jogos Paralímpicos, ficando em primeiro em todas as edições que ocorreram, com exceção da mais recente, em que foi eliminado pela Argentina na disputa de pênaltis. Justamente pelo posto de maior potência do futebol de 5, nossa seleção chega como uma das favoritas para o título de campeão do mundo, apesar da conquista do último ouro ter sido dos franceses, e a última copa ganha pelos argentinos.
Mesmo com os principais craques da seleção atuando em times nacionais (Jefinho, Nonato e Ricardinho) e o país tendo toda essa grandeza na modalidade, o cenário ainda é de instabilidade no nosso território. A pouca exposição do esporte, influenciada pela estigmatização dos deficientes e pela falta de cobertura midiática, ocasiona a ausência de patrocinadores e investimentos, fundamentais para o crescimento do futebol de 5. Esse cenário dificulta um eficiente trabalho de base com foco no desenvolvimento de novos jogadores, bem como na profissionalização dos atletas.
Assim, a Copa do Mundo ocorrendo mais uma vez no Brasil simboliza uma nova possibilidade de popularizar o futebol de cegos no país, contribuindo para a melhora na infraestrutura dos clubes e dos jogos, o que corrobora para a elevação do nível da modalidade. Nossos jogadores, para além de defender nossa hegemomia no esporte vencendo o campeonato, buscam difundir o esporte que ressignificou suas vidas, e que pode alterar tantas outras, pela inserção social e pelo combate a discriminação.



