Véspera, de Carla Madeira, expõe a dor de viver o irreparável

Véspera, de Carla Madeira, expõe a dor de viver o irreparável

Carla Madeira não teve medo de demonstrar o lado sombrio da vida em Véspera

Por: Maria Eduarda Galdino

Capa do livro Vespera de Carla Madeira. Foto: Record/ Eduarda Galdino

O que fazer quando tudo o que resta é o arrependimento ? como é se contentar com a tristeza que se alastra sem previsão de ir embora ? Véspera, obra de Carla Madeira, envolve o leitor com essas reflexões. Sentimentos complexos, como o desespero, a incerteza e o incômodo na alma são latentes na escrita da autora. As palavras usadas por Carla para desenvolver cada capítulo, fazem com que a leitura seja demorada e intensa, mas também causa a ânsia de chegar ao próximo capítulo o mais rápido possível.

A autora conta uma história com duas linhas do tempo: presente e passado. No primeiro capítulo, Carla começa com Vedina, e conta como ela abandonou seu filho, Augusto, de 5 anos, na calçada de uma rua, em um momento de desespero e esgotamento. Em seguida, Carla conta a história dos gêmeos Caim e Abel, dois irmãos cuja vida se conecta com a trágica e real história bíblica: uma alma condenada ao fracasso e a morte , enquanto a outra, é condenada a continuar a vida remoendo a perda de um irmão.

Carla também detalha a vida dos pais de Caim e Abel, dona Custódia e Antunes Filho, duas pessoas machucadas pela vida, que transportaram seu caos interior aos seus filhos, ao começar pelo episódio onde Antunes, bêbado, decide nomear seus filhos com nomes considerados amaldiçoados. Esses dois personagens são fundamentais para entender o drama envolvendo os irmãos, pois os pais foram responsáveis pela crise de identidade, a competitividade e o desafeto que surgiu entre Caim e Abel.

No meio da trama, o caminho dos dois irmãos se cruza com a vida de Vedina, até chegada da véspera de um momento irreparável e trágico, resultado de muitas decisões erradas, sentimentos reprimidos e afetos esquecidos. Carla Madeira não teve medo de demonstrar o lado sombrio da vida em Véspera, a autenticidade da autora é explícita ao detalhar a subjetividade, os pensamentos mais sombrios de cada personagem. Até mesmo aqueles que tiveram pouca participação na história, são inesquecíveis e únicos, como Parede. Nome curioso, certo ? só lendo pra entender. 

“O tempo flutua invisível e em espesso presente. Nada apodrece sem ele. Nada floresce. Nada se torna amável. Nenhum ódio viceja Nenhuma umidade seca.Nenhuma sede cede. As tempestades não inquietam nele ventos, as avalanches não podem soterrá-lo, a perplexidade não o paralisa, o mal não o ameaça e o bem não faz com que se demore. Mas eis que um acontecimento, um único acontecimento, captura o tempo e o aprisiona.” MADEIRA, Carla. Véspera. 1. ed. São Paulo: Record, 2023.

Clube do livro: Clarice Lispector da voz e vida a realidades esquecidas em A hora da estrela

Clube do livro: Clarice Lispector dá voz e vida a realidades esquecidas em A hora da estrela

“A hora da estrela”, publicada em 1977, foi a ultima obra literária de Clarice Lispector  antes de sua morte naquele mesmo ano e aborda temas sensíveis e reais na sociedade brasileira 

Por: Maria Eduarda Galdino

Livro “A hora da estrela” de Clarice Lispector (foto: Maria Eduarda Galdino)

Clarice começa sua obra com Ricardo S.M., escritor que conta a história de Macabéa, uma jovem alagoana de 19 anos, que acompanhada por sua tia, se muda para um apartamento compartilhado com 4 mulheres estranhas no Rio de Janeiro. Após a morte da tia, Macabéa se vê  sozinha, com apenas seu trabalho como refúgio. Porém, por conta da pouca escolaridade, falta de suporte e dinheiro, Macabéa vive situações tortuosas e embaraçosas com seu novo trabalho mal remunerado e uma solidão constante embora imersa na grande capital carioca.

Já no Rio de Janeiro, Macabéa conseguiu o trabalho de datilógrafa porque sua tia tinha lhe ensinado como usar a máquina. Mesmo assim, o trabalho não garantia uma vida de qualidade, nem mesmo muitos amigos, e por não ganhar muito dinheiro, Macabéa dormia com fome ou comia pedaços de papel para aliviar seu estômago. 

“Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam” – (Lispector, A hora da estrela, p.12)

Certo dia, quando faltou ao trabalho, Macabéa encontrou a liberdade na solidão, pois ninguém a compreendia, e se sentiu viva pela primeira vez enquanto dançava sozinha em seu apartamento vazio, quando se olhou no espelho, não se sentiu como um pedaço de ferrugem como de costume. De alguma forma, Macabéa ainda sentia que possuía um valor apesar de toda tristeza que envolvia a sua vida, mas não conseguia manter esse vigor por muito tempo, voltou para o seu trabalho miserável e suas crises de existência, já que não sabia direito o que a definia como gente, como a protagonista de sua própria história.

“Se o leitor possui alguma riqueza e vida bem acomodada, sairá de si para ver como é às vezes o outro.” (Lispector, A hora da estrela, p.27)

Macabéa talvez seja a personagem mais melancólica que você já conheceu, mas a verdade é que existem milhares de pessoas com uma história semelhante a dela. Ao dar vida a Macabéa, Clarice aborda temas que fazem parte da realidade de inúmeros brasileiros, como a pobreza extrema, opressão e crises de existência. Clarice em A hora da estrela, dá voz e vida a muitas pessoas que vivem à margem da sociedade, e que carregam uma das lições mais difíceis que um ser humano pode ter consigo: a de que a vida em sua maioria pode ser extremamente árdua.

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