
O que fazer quando tudo o que resta é o arrependimento ? como é se contentar com a tristeza que se alastra sem previsão de ir embora ? Véspera, obra de Carla Madeira, envolve o leitor com essas reflexões. Sentimentos complexos, como o desespero, a incerteza e o incômodo na alma são latentes na escrita da autora. As palavras usadas por Carla para desenvolver cada capítulo, fazem com que a leitura seja demorada e intensa, mas também causa a ânsia de chegar ao próximo capítulo o mais rápido possível.
A autora conta uma história com duas linhas do tempo: presente e passado. No primeiro capítulo, Carla começa com Vedina, e conta como ela abandonou seu filho, Augusto, de 5 anos, na calçada de uma rua, em um momento de desespero e esgotamento. Em seguida, Carla conta a história dos gêmeos Caim e Abel, dois irmãos cuja vida se conecta com a trágica e real história bíblica: uma alma condenada ao fracasso e a morte , enquanto a outra, é condenada a continuar a vida remoendo a perda de um irmão.
Carla também detalha a vida dos pais de Caim e Abel, dona Custódia e Antunes Filho, duas pessoas machucadas pela vida, que transportaram seu caos interior aos seus filhos, ao começar pelo episódio onde Antunes, bêbado, decide nomear seus filhos com nomes considerados amaldiçoados. Esses dois personagens são fundamentais para entender o drama envolvendo os irmãos, pois os pais foram responsáveis pela crise de identidade, a competitividade e o desafeto que surgiu entre Caim e Abel.
No meio da trama, o caminho dos dois irmãos se cruza com a vida de Vedina, até chegada da véspera de um momento irreparável e trágico, resultado de muitas decisões erradas, sentimentos reprimidos e afetos esquecidos. Carla Madeira não teve medo de demonstrar o lado sombrio da vida em Véspera, a autenticidade da autora é explícita ao detalhar a subjetividade, os pensamentos mais sombrios de cada personagem. Até mesmo aqueles que tiveram pouca participação na história, são inesquecíveis e únicos, como Parede. Nome curioso, certo ? só lendo pra entender.
“O tempo flutua invisível e em espesso presente. Nada apodrece sem ele. Nada floresce. Nada se torna amável. Nenhum ódio viceja Nenhuma umidade seca.Nenhuma sede cede. As tempestades não inquietam nele ventos, as avalanches não podem soterrá-lo, a perplexidade não o paralisa, o mal não o ameaça e o bem não faz com que se demore. Mas eis que um acontecimento, um único acontecimento, captura o tempo e o aprisiona.” MADEIRA, Carla. Véspera. 1. ed. São Paulo: Record, 2023.