Mamma Mia: lá vamos nós de novo para Grécia no Teatro Riachuelo

Mamma Mia: lá vamos nós de novo para Grécia no Teatro Riachuelo

Peça sobre o amor maternal de Sophie e Donna, ao som de ABBA, volta aos palcos do Rio no dia 20 de agosto

Por: Ana Beatriz Carvalhido

Foto: Ana Beatriz Carvalhido Encerramento do espetáculo em 2025

 

O espetáculo teatral narra a história de Sophie Sheridan (Giovanna Rangel), que vive em uma ilha na Grécia ao lado de sua mãe, Donna (Claudia Netto). Às vésperas de seu casamento com Sky (Eduardo Borelli), Sophie descobre que seu pai pode ser um dos três homens com quem Donna se envolveu na época de seu nascimento. 

 

A encenação conta também com o trio musical que marcou a juventude de Donna: as “Donna e as Dynamos”. Junto de suas inseparáveis amigas Tanya (Totia Meireles) e Rosie (Rosie), ela revive os tempos de palco ao som de “Super Trouper”, do ABBA, durante a festa de despedida de solteira de sua filha. Em meio à celebração, Sophie promete aos três possíveis pais, Sam Carmichael (Sérgio Menezes), Harry Bright (André Dias) e Bill Austin (Renato Rabelo), que descobriram que eram pais dela, embalada pela contagiante “Voulez-Vous”, também do grupo sueco.

 

“Mamma Mia”, adaptação de Charles Möeller & Claudio Botelho do texto dramático inglês que estreou nos palcos da Inglaterra em 1999, chegou ao Brasil em 2023 e rapidamente conquistou o público. A montagem encanta multidões com um enredo que, embora ambientado na Grécia, aproxima-se da cultura brasileira de forma magistral, repleta de humor, leveza e uma tradução impecável das músicas do ABBA, assinada por Claudio Möeller. 

 

Após uma temporada de sucesso em São Paulo, no BTG Pactual, o espetáculo retorna ao Rio de Janeiro para o Teatro Riachuelo, localizado na Rua do Passeio, 38 – Centro, Rio de Janeiro – RJ, CEP 20021-290. As apresentações acontecem de 20 de agosto a 13 de setembro de 2026, com sessões às quintas e sextas, às 20h; sábados, às 15h e 20h; e domingos, às 15h.

Foto: Ana Beatriz Carvalhido Entrada do teatro Riachuelo em dia de espetáculo

 

Os ingressos para “Mamma Mia” variam de R$50 (inteira) a R$250, com classificação indicativa de 12 anos. As entradas podem ser adquiridas pelo site ingressos.com. O espetáculo é uma experiência vibrante que certamente vale o investimento e a visita ao centro do Rio de Janeiro para assistir à peça.

Prepare-se para uma noite inesquecível: é impossível não querer levantar da cadeira e dançar ao som dos maiores sucessos da banda sueca ABBA. Com piadas inteligentes, momentos de emoção e uma narrativa leve e divertida, o público sai do teatro com o coração mais alegre e o sorriso garantido.

Hospital Universitário Pedro Ernesto precisa de doação de sangue tipo O

Hospital Universitário Pedro Ernesto precisa de doação de sangue tipo O

Saiba quais são os critérios para ser um doador e a importância de doar sangue regularmente  

Por: Sofia Inerelli

Foto: Pessoa doando sangue – Empresa de Brasileira de Comunicação (Agência Brasil)

 

O Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), ligado à Uerj,  está com o estoque de sangue tipo O muito abaixo do ideal, e pede à população mais doações. Todos os outros tipos sanguíneos serão aceitos pela instituição, mas, como apontou a hemoterapeuta e professora associada da Faculdade de Ciências Médicas da Uerj, Flávia Bandeira, o sangue tipo O é o mais necessário no momento. As doações podem ser feitas no próprio hemocentro do HUPE, que fica aberto de segunda a sexta-feira das 9h às 15h. 

 

Há um apelo também para que as doações sejam mais regulares, assim os hemocentros não correm risco de ficarem zerados e sem conseguir socorrer os pacientes. A demanda é alta pois a transfusão sanguínea atende muita gente e não se restringe apenas a quem perdeu grandes quantidades de sangue em acidentes ou cirurgias. Pessoas com anemia falciforme, talassemia, câncer hematológico e problemas renais crônicos são outras que necessitam de transfusões, uma vez que estas fazem parte do tratamento. 

 

Como o sangue demora a ser liberado ao paciente, é imprescindível ter em bancos sanguíneos um estoque mínimo. São necessárias de 24 a 36 horas para que o sangue doado passe por todos os testes capazes de verificar a presença de doenças como hepatite B, hepatite C, doença de Chagas, sífilis, AIDS e HTLV I/II. A depender da gravidade do paciente, mesmo que chegue um doador, esperar todo esse tempo pode não ser possível. Por isso a importância de ter nos hospitais uma reserva, com sangue que já foi testado e que está pronto para ser doado.

 

De acordo com a médica, para ter uma reserva de sangue é preciso tornar as doações um hábito. Essa ainda não é uma realidade no Brasil, pois cerca de 98% da população não doa regularmente, segundo o Ministério da Saúde.

 

Doar sangue não é complicado, em 15 minutos você doa uma bolsa de sangue que pode chegar a salvar até 4 vidas. 

 

Para que o processo ocorra com segurança é preciso seguir algumas orientações:

 

  • Ter idade entre 16 e 69 anos (menores de 18 anos devem apresentar consentimento formal do responsável legal).
  • Pessoas com idade entre 60 e 69 anos só poderão doar sangue se já o tiverem feito antes dos 60 anos.
  • Apresentar documento de identificação com foto emitido por órgão oficial (carteira de identidade, carteira nacional de habilitação, carteira de trabalho, passaporte, registro nacional de estrangeiro, certificado de reservista e carteira profissional emitida por classe). São aceitos documentos digitais com foto.
  • Pesar no mínimo 50 kg.
  • Ter dormido pelo menos 6 horas nas últimas 24 horas.
  • Estar alimentado. Evitar alimentos gordurosos nas 3 horas que antecedem a doação de sangue. Caso seja após o almoço, aguardar 2 horas.

Fique atento também para o  que pode te impedir temporariamente de doar sangue: 

  • Caso a pessoa apresente sintomas gripais, de resfriado ou tenha sido  diagnosticada com covid-19, recomenda-se aguardar até 15 dias após o fim dos sintomas;
  • Não é recomendado doar sangue durante o período gravidez; é preciso aguardar por até três meses após o parto normal, seis meses em casos de cesariana e até 12 meses se a mulher estiver amamentando (contados a partir da data do parto);
  • Ter feito tatuagem, piercing ou procedimentos estéticos mais invasivos (como a micropigmentação) nos últimos 12 meses. O prazo pode diminuir para seis meses se o candidato à doação apresentar foto do registro do estúdio no órgão de vigilância sanitária e nota fiscal do estabelecimento. O piercing em cavidade oral ou região genital impede a doação;
  • A extração de um dente também impossibilita a doação em até 72 horas após o procedimento;
  • Caso a pessoa tenha feito transfusão sanguínea, deverá aguardar até um ano para doar sangue;
  • A vacinação também pode ser um impeditivo, e o tempo pode variar de acordo com o tipo de vacina aplicada;
  • Ter sido exposto(a) a alguma situação de risco para infecções sexualmente transmissíveis; Nesses casos, deve-se aguardar até 12 meses após a exposição.

Serviço

  • Boulevard 28 de setembro, 109, ao lado do Hupe 
  • Das 9h às 15h, de segunda à sexta-feira

Apesar das censuras, Haiti e Congo levam à Copa símbolos de resistência que ultrapassam o futebol

Apesar das censuras, Haiti e Congo levam à Copa símbolos de resistência que ultrapassam o futebol

Mesmo com as eliminações, símbolos e gestos presentes nas partidas mostram como os países manifestam suas lutas através do futebol

Por: Maria Eduarda Galdino

Montagem: Maria Eduarda Galdino Reprodução: Blackstyle Matters (via Instagram), Soybustero (via Instagram) e André Rizek (via X).

 

A diversidade das seleções marca mais um momento histórico para a maior edição da Copa do Mundo. Após 50 anos, o Haiti fez um retorno emblemático ao torneio participando do grupo C. Ao mesmo tempo, a seleção da República Democrática do Congo participou pela primeira vez com o novo nome após a ditadura de Mobutu Sese Seko. Anteriormente o país se chamava Zaire na última participação do time em 1974.

Essas seleções não trazem apenas as táticas para o campo, mas também suas histórias. A Federação Haitiana de futebol e o fabricante de camisas Saeta, elaboraram em conjunto o uniforme da seleção do Haiti, os elementos da camisa replicam a Batalha de Vertière, em 1803, o conflito que garantiu a independência do Haiti, que foi colônia da França por 122 anos.  

 

O canto inferior direito da camisa mostra os cidadãos haitianos no topo de uma montanha segurando uma bandeira do Haiti como um sinal de vitória após a guerra. As figuras representam a liberdade do povo haitiano e a conquista histórica da primeira república liderada por negros e o primeiro país das Américas a abolir a escravidão. O acontecimento está diretamente ligado a formação do Haiti como país. 

 

Depois de confeccionada, a FIFA exigiu mudanças no uniforme, alegando que a figura na camisa poderia passar uma mensagem política, e que “os elementos visuais poderiam ser interpretados de maneira diferente”. Segundo o pronunciamento da Saeta à imprensa, o uniforme simboliza o “orgulho e a resiliência do povo haitiano, não uma declaração política”. 

 

A AJ Esportes verificou a repercussão nas redes sociais, especificamente o Instagram, e a hashtag #Haitishirt (em português #camisadoHaiti) já tem mais de 100 publicações. Entre as postagens, a mudança no uniforme tem gerado uma discussão nos comentários, na qual os usuários do Instagram comentam que a FIFA só permite a política que quer, e que proibir a figura na camisa também representa um ato político. 

 

Foto: Maria Eduarda Galdino
Seção de comentários da publicação sobre o uniforme da seleção do Haiti perfil O_barista.

 

Mesmo com a repercussão negativa, a empresa Saeta acatou as exigências da FIFA e precisou refazer o uniforme da seleção do Haiti antes das próximas partidas. “Embora essa interpretação tenha sido diferente da nossa intenção, a Saeta respeitou o processo e implementou os requisitos finais comunicados pela FIFA”, afirmou a empresa nas redes.

 

Além da seleção do Haiti, a República Democrática do Congo também fez história na Copa do Mundo de 2026. Após as frustradas tentativas de classificação para as  Copas na Rússia em 2018 e o Catar 2022, a seleção congolesa se classificou para os 16 avos de final da Copa, mas perdeu para a Inglaterra.

 

Apesar da eliminação, a seleção congolesa trouxe símbolos que refletem o atual contexto social da República Democrática do Congo. Tanto os jogadores quanto os torcedores estão reproduzindo um gesto com as mãos, no qual uma simboliza uma arma na cabeça, e a outra, uma mão na boca. O gesto significa a violência armada e as mortes devido aos conflitos políticos no Leste do Congo. A mãos na boca também reflete o silêncio das lideranças mundiais em relação aos conflitos armados.

 

Entre a torcida está o congolês Michel Kuka Mbolandinga, torcedor que ficou conhecido nas redes sociais como o “torcedor estátua” após replicar o gesto de arma com as mãos e imitar a estátua de Patrice Lumumba, ex primeiro-ministro, líder da independência do país e representante da luta anticolonial. Vestindo um terno com as cores da bandeira nacional do Congo, Michel fica em pé na mesma posição durante os 90 minutos de jogo.

 

Esses gestos não são feitos sem propósito, a Copa é o evento mais assistido do mundo e que pode gerar atenção a causas urgentes. Segundo a FIFA, 3,6 milhões de torcedores foram alcançados somente no evento de abertura. Além disso, a FIFA afirma que aproximadamente 6 bilhões de pessoas devem estar envolvidas no torneio considerando transmissões em plataformas digitais. 

 

Essa visibilidade atrai o reconhecimento de novas seleções e a cultura que o mundo ainda não conhece. O Haiti e o Congo trouxeram novos símbolos e gestos intrínsecos a sua história e liberdade. Essas ações refletem a conexão entre o esporte e a política, na qual o campo também se torna palco daquilo que acontece com as nações fora de campo.

Projetos de extensão encurtam distância entre ensino médio e universidade pública

Projetos de extensão encurtam distância entre ensino médio e universidade pública

Rede de iniciativas da Uerj Campus Zona Oeste organiza visitas a colégios da região para mostrar que ensino superior é para todos 

por: Murilo Santos

Universitários apresentam projeto de biologia a estudante do ensino médio. Foto: Fernanda Marinho/Biodialogando

 

A Uerj Campus Zona Oeste fica a alguns minutos de caminhada do Colégio Estadual Albert Sabin, mas para muitos secundaristas a possibilidade de estar em contato com a universidade pública ainda é distante como outro país pela surrealidade de se entrar na universidade. A Rede Solidária de Projetos de Extensão, idealizada em 2022, leva a universidade às entidades que desejam essa proximidade com a academia, em especial às escolas públicas que querem mostrar que o ensino superior é para todos.

 

A iniciativa nasceu de três professoras do curso de Farmácia da Uerj: Carmelinda Afonso, Sabrina Dias e Bárbara Lorca. O ponto de partida foi a escola da filha de uma delas. Os alunos receberam bem e a partir daí a rede foi se expandindo para outras escolas, processo facilitado pelo fato de a professora Sabrina ser natural de Campo Grande e conhecer muitos professores e coordenadores da região, tanto de escolas públicas quanto particulares.

 

Com o tempo, a rede foi além do curso de Farmácia e passou a reunir projetos de todos os cursos da Faculdade de Ciências Biológicas e Saúde do campus da Zona Oeste. Um deles é o Biodialogando, do curso de Biologia, com ênfase em biotecnologia, idealizado pela professora Eidy Santos junto a alunos que sentiam a falta de projetos na área. Hoje a rede conta com 10 projetos de extensão filiados à rede.

 

O projeto Biodialogando, por exemplo, se utiliza de atividades visuais e experimentos ao vivo para captar a atenção dos visitantes;  já o Recado Farmacêutico da professora Barbara usa jogos e atividades lúdicas para ensinar sobre medicamentos. Todos captaram a atenção dos alunos, mas de longe o que mais recebeu olhares foi o Uerj ecológico, que levou répteis conservados para os jovens tocarem e verem ao vivo. A professora Vanderlane Menezes, que coordena o projeto, busca demonstrar que a sociedade e a natureza estão interligadas. 

 

A visita ao Colégio Estadual Albert Sabin ocorreu com a temática da semana do meio ambiente. O tema da visita varia de acordo com a necessidade de cada escola e, a partir dessa escolha, os universitários preparam suas apresentações para seguir os assuntos propostos 

 

A receptividade entre os jovens visitados tem sido boa. Enzo, 18 anos, aluno do Colégio Estadual Albert Sabin, resume o efeito da visita: “É bom para incentivar quem quer alguma coisa. Tem muita gente que não quer nada, mas quem quer, isso aqui faz diferença.” A professora Carmelinda Afonso, uma das fundadoras e coordenadora da rede, ressalta que um dos principais eixos é mostrar, pelo próprio perfil dos universitários que tocam os projetos, que ingressar numa universidade pública é possível. “Para essas crianças, estar na Uerj parece impossível. A gente mostra que não é, porque nossos alunos também são pobres. A rede tem essa missão: descortinar o mundo para eles e quebrar o elitismo que existe dentro da universidade.”

 

Os ganhos para quem participa como extensionista vão além do currículo. “A gente aprende a falar com o público, isso é muito importante pra faculdade, pra seminário, pra qualquer apresentação”, diz Frederico Maia, aluno de Biologia do oitavo período e integrante do Biodialogando. A rede de contatos e as horas complementares vêm junto, mas o que ele destaca é a desenvoltura que só se aprende na prática. Luana Araújo, bolsista do projeto Recado Farmacêutico, aponta outro ganho: a capacidade de improvisar conforme as necessidades de cada lugar, habilidade que, segundo ela, já a beneficia profissionalmente.

 

A Uerj da Zona Oeste ainda não tem sede própria. Hoje, a antiga Uezo funciona nos fundos de um colégio estadual que a abriga há mais de 20 anos em caráter temporário. Uma das principais reivindicações de servidores e estudantes em greve é a construção do campus no centro de Campo Grande. Os professores ressaltam a urgência da obra e o impacto que ela teria na ampliação dos laboratórios, no reconhecimento institucional da universidade e na capacidade de atrair novos alunos.

A Rede Solidária pode ser contactada através do Instagram @rspe.uer

“FeminIA”: como a tecnologia pode ajudar no combate à violência contra a mulher

“FeminIA”: como a tecnologia pode ajudar no combate à violência contra a mulher

Projetos de jornalistas brasileiras buscam promover  equidade de gênero diante do avanço da misoginia nas redes 

Por: Júlia Martins

Mulher digitando em um computador / Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil
 

Duas ferramentas de inteligência artificial criadas por veículos nativos digitais abrem novas frentes de luta diante da violência de gênero. O Radar Anti Gênero, criado pelo site Gênero e Número, e a QuitérIA, do Instituto AZMINA, vão monitorar e coletar dados sobre discussões e violência de gênero, de forma mais rápida e eficaz. Embora cada ferramenta atue em um meio diferente, ambas representam mais do que a automatização de um trabalho que antes era manual – mostram a importância de resistir e ocupar espaços que são usados como meio de propagar preconceitos. Com as grandes empresas de tecnologia e a IA sendo palco para fortalecer desigualdades, essas iniciativas têm como objetivo usar a inovação para produzir transparência, conhecimento público e fortalecer a democracia. 

 

A QuitérIA foi desenvolvida em 2025 pelo Instituto AZMINA em homenagem a Maria Quitéria, heroína da independência e a primeira mulher a integrar as Forças Armadas. A ferramenta faz parte do projeto “Elas no congresso”, que existe desde 2019 e monitora todo o poder legislativo levando em base as pautas de gênero e pessoas LGBTQIAPN+.  A QuitérIA foi treinada para monitorar, analisar e classificar Projetos de Lei (PLs) e seus impactos, positivos ou negativos, na vida de meninas, mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, com o objetivo de acelerar essa coleta de dados, visto que existe um grande número de projetos sendo discutidos. O programa classifica cada projeto em uma escala de 0 a 1, sendo 0 a avaliação mais desfavorável e 1 a mais favorável para esses grupos minoritários. Isso facilita o entendimento sobre cada Projeto de Lei na prática, além de conter o nome e partido do autor de cada proposta na Câmara. 

Todos os resultados da QuitérIA passam por validação humana, e atualmente a ferramenta está disponível para consulta por meio de uma planilha no site do Instituto AZMINA. A ideia é que ela esteja disponível em um dashboard para consulta pública em breve.  O Instituto AZMINA é uma organização sem fins lucrativos e atua desde 2015 na luta pela igualdade de gênero. Além do “Elas no congresso” e da QuitérIA, a organização possui uma revista digital e um aplicativo para enfrentamento à violência doméstica.

 

Reprodução do site “Elas no Congresso” / Foto: Elas no Congresso

 

O Radar AntiGênero foi criado em 2023 pela Gênero e Número para monitorar a circulação do discurso misógino no Youtube e encontrar padrões usados para disseminar esses conteúdos. A IA trabalha na organização e classificação dos dados, a fim de serem validados por um ser humano e chegar em evidências mais acessíveis. O objetivo final do Radar é que a sociedade consiga entender como esses discursos se difundem nas redes, como são organizados,  como o algoritmo funciona nesses casos, quais são os tipos de falas utilizadas e como isso influencia a opinião pública. Apenas durante o mês de maio deste ano, o Radar identificou mais de 500 conteúdos no Youtube com discurso antigênero, sendo os papéis de gênero, a moralidade e o antifeminismo os temas mais abordados.

A IA também organiza quem são os alvos mais frequentes desses conteúdos e criou um “Top 10” com os 10 canais que mais reproduzem esse tipo de discurso. Todos os dados coletados pela QuitérIA e pelo Radar Anti Gênero estão disponíveis para consulta, e podem ser usados por organizações públicas, jornalistas e para medidas de políticas públicas. A Gênero e Número é uma plataforma de jornalismo criada em 2016 com foco em transformar dados que atravessam gênero, raça e número na América Latina em narrativas, e contribuir para que esses dados se tornem parte do debate público.

Reprodução do site Radar Anti gênero / Foto: Radar Anti gênero

 

Apesar da Lei 13.642, criada em 2018 para punir a divulgação de conteúdos que propaguem o ódio às mulheres, as plataformas digitais se tornaram um palco seguro para esse tipo de discurso. Um exemplo disso é a “Grock”, inteligência artificial da rede social X, que foi alvo de diversas denúncias ao ser usada para modificar fotos publicadas na rede e gerar conteúdo pornográfico de mulheres e crianças sem o seu consentimento. Dados divulgados pelo Ministério das Mulheres em junho deste ano mostram que as denúncias de violência contra mulher no meio digital cresceram em mais de 180% em comparação com 2025, com mais de 16 mil ligações para a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 com denúncias desse tipo. Uma das explicações sobre casos de preconceito na IA é pensar em quem a desenvolveu – grande parte das big techs (grandes empresas que comandam o mercado de tecnologia e inovação) estão alinhadas aos interesses da extrema direita, fortalecendo relações de poder já existentes e ampliando preconceitos.

 

Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número, destaca como essas tecnologias podem reproduzir e amplificar desigualdades: “É preciso reconhecer que a tecnologia não é neutra, que suas aplicações dependem muito das perguntas que fazemos, dos dados utilizados e da visão de quem produz aquele projeto.” Para Marília Moreira, diretora institucional do Instituto AZMINA, é preciso pensar também em como ocupar esse espaço: “Não somos avessas à IA e achamos que ela pode nos ajudar na otimização do tempo […] É pensar que os sistemas das grandes big techs estão aí, mas que é preciso desenvolver os nossos próprios sistemas e pensar nas nossas lógicas, garantindo privacidade, segurança e confiabilidade dos dados.”

 

No cenário das eleições, a pauta de gênero é muito usada para atacar candidatas e contestar direitos já existentes. O Radar Anti Gênero e a QuitérIA buscam contribuir de forma positiva nesse contexto ao oferecer informações qualificadas e monitoramento contínuo. Marília destaca a importância da QuitérIA e ferramentas similares nesse período: “A gente quer contribuir de forma positiva nesse cenário que vai ser de muita desinformação, trazendo informação qualificada e com essa perspectiva feminista. Não apenas classificar se o projeto (de lei) é favorável ou não mas explicar nessa perspectiva feminista, pensando nos direitos das mulheres, e queremos deixar o projeto ainda mais público.” Vitória reforça como a IA, caso usada sem reforçar esses preconceitos, pode ser útil para combatê-los: “Nesse momento, em que a inteligência artificial é muita associada à ampliação de desigualdades e reprodução de opressões, a aposta da Gênero e Número foi mostrar que a inteligência artificial também pode ser usada para algo positivo.”

Bioeconomia e energia sustentáveis têm potencial para gerar 28 milhões de novos empregos, diz estudo

Bioeconomia e energia sustentáveis têm potencial para gerar 28 milhões de novos empregos, diz estudo

Relatório foi discutido na Rio Nature and Climate Week, realizada em junho na cidade

 

Por: Maria Eduarda Galdino

 
Painel do Rio Nature and Climate Week. Foto: Maria Eduarda Galdino
 
 

Estratégias para o crescimento de empregos e renda através da bioeconomia foram discutidos no painel sobre investimentos e financiamento sustentável na primeira edição do Rio Nature and Climate Week.  Segundo Patrícia Ellen, ex-secretária de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do estado de São Paulo, a bioeconomia, bioenergia e economia circular podem transformar o setor econômico e empregatício do Brasil, resultando em 28 oportunidades de emprego. 

 

Esse dado faz parte do estudo da Plataforma Nova Economia, elaborado pela Systemic em parceria com o Instituto Aya e o Cedeplar-UFMG.  Por meio da combinação de bases de  dados econômicos, ocupacionais e educacionais em um sistema de inteligência territorial, é possível apontar com precisão como as profissões podem fazer parte de uma cadeia produtiva sustentável e as oportunidades de emprego que podem ser geradas. 

 

Essa pesquisa foi apresentada na COP 30, em Belém do Pará, e visa gerar apoio ao Plano de Transformação Ecológica do Ministério da Fazenda. Segundo Patricia Ellen, as oportunidades de emprego geradas pela cadeia produtiva sustentável podem também ser uma solução direta à crise da automação dos trabalhos devido ao avanço tecnológico que tem gerado desemprego. 



Para isso, afirmou Patrícia Ellen, é necessário centralizar e incluir pessoas e a natureza na agenda de transformação econômica e tecnológica do país, principalmente indivíduos que residem em regiões mais rurais. A ex-secretária ressaltou que o primeiro passo é o levantamento de dados para entender as oportunidades, territórios e desafios desse contexto.

 

A bioeconomia é o pilar da economia sustentável, que relaciona recursos naturais como plantas e resíduos biológicos à inovação e desenvolvimento tecnológico para criação de novos produtos, serviços e empregos. É uma alternativa para a redução da dependência na economia baseada em combustíveis fósseis.  O Brasil representa um território fértil para o desenvolvimento da bioeconomia. Devido à biodiversidade da Amazônia, é possível utilizar os recursos naturais como ativos estratégicos, criação de novos negócios e o fortalecimento de saberes tradicionais. 

 

Segundo o estudo do World Resources Institute (WRI Brasil), a bioeconomia e o investimento em restauração florestal podem adicionar até R$ 45 bilhões ao Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB) até 2050. Além disso, no estado do Pará, já existem 13 cadeias produtivas, isto é, os processos que produzem bens de consumo que já movimentam  R$ 9 bilhões de reais. 

 

A ex-secretária também apresentou um levantamento feito em conjunto com o governo federal sobre o Plano de Transformação Ecológica (PTE) e  projeto Novo Indústria Brasil (NIB). O trabalho tem como objetivo transformar o setor industrial brasileiro com tecnologias sustentáveis, digitalização industrial e apoio a micro e grandes empresas com créditos e capacitação para o novo cenário industrial. 

 

“A gente fez um extrato (NIB) para bioeconomia de florestas e mostra que somente a bioeconomia, que mantém a floresta em pé e alavanca a nossa biodiversidade, gera entre 40 e 75 milhões de dólares por ano a partir de 2030”, afirmou. 

 

Apesar das oportunidades, ainda existem os desafios que territórios como a Amazônia podem trazer aos planejamentos. Marcelo Thomé, vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), afirmou que a realidade e a maturidade empresarial da Amazônia é diferente dos setores presentes em São Paulo ou Rio de Janeiro. 

“É conhecer de fato o território e os desafios que aquele território oferece. Porque não é trivial operar em locais onde você não tem estrada, você não tem mão de obra qualificada, você muitas vezes não tem energia, mas você tem naquele território a oportunidade”, explicou. 

 

O vice-presidente disse que olhar para a Amazônia sem preconceito e como um verdadeiro centro econômico do país ajuda a entender alternativas que se encaixem na realidade do território. “A estrutura da facilidade que nós criamos tem por objetivo olhar para as oportunidades, organizar essas oportunidades em potenciais negócios que tenham capacidade de escalar e serem incluídos em cadeias de valor. E quem faz isso? A indústria”, disse Marcelo.

 

 

 
 
 
 

Cérebro podre: como o celular está destruindo a geração que ainda não terminou de se formar

Cérebro podre: como o celular está destruindo a geração que ainda não terminou de se formar

Do “Tralalero Tralala” à incapacidade de escrever uma redação, o uso excessivo de telas está moldando uma geração inteira – para pior

Por: Murilo Santos

Criança com perfil aberto em redes sociais.Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
 

De um lado, uma professora tenta atrair a atenção dos alunos. Mas, sentados nas carteiras escolares, os estudantes estão fixados em vídeos de três segundos, projetados para viciar crianças cada vez mais incapazes de sustentar atenção por tempo suficiente para aprender. Há um nome para isso: brainrot, “cérebro podre”, em tradução livre. E o principal suspeito é o celular na mão de quem ainda não terminou de se desenvolver.

O brainrot é um termo que se popularizou devido a uma série de conteúdos sem nenhum sentido que têm viralizado. O último foi o “six seven”, que teve origem num vídeo feito nos Estados Unidos, no qual um adolescente mexe os braços e fala 6-7, numa suposta referência à altura de um jogador de basquete de seu time. O vídeo se espalhou e, por todo o mudo, as pessoas repetem o 6-7 sem saber o que ele quer dizer – e sem que isso tenha a menor importância. Outros vídeos da leva brainrot foram os criados por IA, como o “Tralalero Tralala”, que mostra um tubarão com pernas usando tênis da Nike. Os vídeos se espalharam, viraram febre principalmente entre crianças, e preocupam pela falta de lógica e pela facilidade com que foram “viciando” os usuários.vicia.

Para o ativista pela infância e pediatra Daniel Becker, esse fenômeno compromete diretamente a formação da personalidade. É no tédio, diz ele, que o sujeito se constrói. Quando a criança fica sem estímulo, pensa, inventa, observa o mundo e desenvolve sua subjetividade e racionalidade. Com as redes sociais entregando conteúdo novo a cada segundo, esse espaço desaparece. O brainrot, diz Becker, é o oposto disso.

Quem está na linha de frente sente no cotidiano. A professora Danielle Viana leciona na Escola Municipal Roberto Coelho, na zona oeste do Rio, que registrou o melhor resultado do IDEB entre as escolas municipais da capital no último exame. A escola atende crianças do primeiro ao quinto ano. Danielle descreve uma geração cada vez mais imediatista, ansiosa, com dificuldade de concentração e incapaz de lidar com a frustração. Os memes brainrot estão na sala de aula: as crianças reproduzem falas e bordões sem compreender o que significam e, mais grave, sem nunca terem exercitado a própria criatividade para criar algo. Importam tudo da tela. “O cérebro começa a não conseguir mais funcionar no mundo”, alerta Becker. “E aí você vai ter um problema muito sério na vida.”

 

No ensino fundamental 1, o problema se concentra, segundo os professores entrevistados pela Agenc, nas danças repetitivas, falas desconexas e apatia pelo conhecimento. A coordenadora pedagógica  da escola Roberto Coelho, Rachel Moraes, é direta: “O problema tem aparecido com danças excessivas, baixo estímulo diante do aprendizado. Posso dizer que a escola não faz mais sentido para os alunos.”

Segundo um levantamento da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o DataFolha de 2025, 78% das crianças de 0 a 3 anos têm contato com tela, com média diária de 2 horas por dia, muito mais do que o recomendado. A situação é pior entre crianças de 4 a 6 anos, faixa em que a média diária sobe para 3 horas, com 94% das crianças expostas. O saudável, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, no pior dos casos, é de uma hora de exposição a telas na faixa etária de  0 a 2 anos e 2 horas para quem tem de 2 a 5 anos.

Na avaliação do médico Daniel Becker, pela primeira vez na história uma geração não avançou no índice de Qi – que, para ele, sequer é o melhor parâmetro para medir inteligência, mas aponta a gravidade da situação.

No ensino fundamental 2, o antigo ginásio, momento em que as crianças se tornam pré-adolescentes, o quadro se agrava. Os problemas de socialização aparecem com mais vigor, e o ambiente virtual começa a invadir o espaço escolar com consequências concretas. Os crescentes casos de cyberbullying confirmam isso: segundo a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE) do IBGE, 27,2% dos estudantes já sofreram cyberbullying, contra 23% em 2019, um aumento de 18% em apenas alguns anos.

 

O mais preocupante é que os casos virtuais de bullying estão virando situações reais. Segundo os professores Rafael Leal e Karine Kopp, diretor e coordenadora pedagógica da Escola Municipal Joaquim da Silva Gomes, na zona oeste do Rio, que atende muitos adolescentes vítimas de bullying virtual, é cotidiano lidar com situações do ambiente virtual que saltam para dentro da escola: “Muitas das vezes com nomes de alunos, com nomes de funcionários, com a intenção de prejudicar. Há a criação de perfis falsos. E isso vem para a escola, porque são pessoas que têm uma relação social dentro da escola e levam ao ambiente virtual, já que está tudo ligado atualmente”, diz Rafael.

Outro problema comum nas salas de aula tem sido a dificuldade dos alunos em prestar atenção. O desafio, comum a todas as gerações, se agravou com o fato de que crianças e adolescentes estão sendo  bombardeados com conteúdos que produzem uma pequena e breve satisfação e liberam dopamina,que é a substância liberada pelo cérebro em momentos de prazer e, Consequentemente, eles se viciam naqueles conteúdos.

Os professores entrevistados pela reportagem têm tempo de sala de aula variado, porém é consenso que o desafio é muito maior: a irritabilidade, a dificuldade de criatividade e a dispersão que se inicia entre 6 e 10 anos se tornam, na adolescência, a dificuldade de escrever uma redação de mais de 15 linhas, como relata a professora Karine Kopp, que além de coordenadora é professora de língua portuguesa. “Para os alunos de hoje, escrever é quase uma tortura: eles se expressam bem oralmente, mas travar o pensamento no papel é um bloqueio real. Uma redação de 15 linhas, que antes era considerada mínima, hoje parece uma bíblia para quem já luta para completar três. Isso torna o trabalho do professor de português cada vez mais árduo, especialmente diante da pressão pela redação do Enem.”

 

Todos esses problemas são consequência do uso excessivo de telas, que nem as escolas nem a sociedade estão preparadas para enfrentar. O que era ameaça se tornou realidade. Segundo Becker, as bigtechs operam usando o vício das pessoas, tal qual a indústria do tabaco, e o algoritmo não poupa as crianças. O psicólogo social Jonathan Haidt, professor da Universidade de Nova York e autor de A Geração Ansiosa, demonstrou que as redes sociais entregam conteúdo direcionado que corrói a autoestima das meninas e empurra conteúdo misógino para os meninos. A solução, diz Becker, passa por todos. Regulação das redes, parceria entre família e escola, e uma sociedade disposta a encarar o problema de frente. O diretor Rafael Leal concorda e vai além: a tecnologia, se bem usada, também pode ser parte da resposta. Mas para isso é preciso, primeiro, admitir o tamanho do estrago. Uma geração está crescendo com o cérebro disputado por algoritmos projetados para viciá-la, e o tempo de reagir está acabando.

Apesar das iniciativas sustentáveis, a Copa 2026 é o torneio mais poluente da história

Apesar das iniciativas sustentáveis, a Copa 2026 é o torneio mais poluente da história

Apesar das iniciativas sustentáveis, a Copa 2026 é o torneio mais poluente da história

Por: Maria Eduarda Galdino

 
Cerimônia de recepção da Taça da Copa do Mundo. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil
 

A Copa do Mundo de 2026 é a maior da história, pelo menos em tamanho: 48 seleções confirmadas e 16 cidades-sede pela América do Norte (Estados Unidos, México e Canadá). Ao todo, 104 jogos no total. Mas esse formato considerado inovador criou tensões com a agenda climática sustentável. Estudos têm apontado que o torneio pode ser considerado o mais poluente da história das Copas, com até 9 milhões de toneladas de carbono geradas pelos voos. 

A Fifa divulgou sua Estratégia de Sustentabilidade e Direitos Humanos no torneio. Mas, segundo a Scientists for Global Responsibility, o modelo inédito da Copa é insustentável para manter os objetivos da agenda climática global. A expansão territorial do maior torneio do mundo causa deslocamentos aéreos  significativos das seleções e do público. Cerca de 87% de todas as emissões durante a Copa serão originárias dos voos. O nível das emissões é equivalente a quase 6 milhões de carros britânicos médios durante um ano.

 

A Copa de 2026 superou a edição anterior no Catar (2022), duramente criticada pela construção de sete novos estádios. A Copa no Catar também contribuiu para a emissão de  aproximadamente 3,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono, contrariando as promessas de carbono zero anunciadas pela FIFA em 2022. 

 

A discussão sobre as emissões é recorrente devido ao alerta de autoridades científicas sobre a grave influência das emissões de carbono no aquecimento global. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças climáticas (IPCC) tem registrado o aumento da temperatura média global em 1,1Cº, e aponta as emissões de dióxido de carbono como principal elemento causador.

 

Além das emissões dos voos, a Copa do Mundo  acontece em meio às temporadas de calor extremo na América do Norte. Nesse contexto, o consumo de energia para resfriamento de espaços como estádios e demais estabelecimentos é maior que o normal, o que causa uma demanda energética significativa e mais uma fonte para emissão de gases. A FIFA publicou uma série de estratégias de sustentabilidade para as cidades que estão sediando os torneios. A campanha “Gol por El ambiente” em parceria com o governo mexicano é uma delas e promove a economia circular, na qual resíduos têxteis e plásticos serão redirecionados dos aterros sanitários para cadeias de valor produtivas. 

 

A ministra do Meio Ambiente e Recursos Naturais do México, Alicia Bárcena, apresentou o programa e afirmou que o governo quer se afastar da economia linear, modelo tradicional de produção, uso e descarte sem aproveitamento dos recursos e resíduos. Além do mais, as estratégias sustentáveis da FIFA incentivam o uso de transporte público, hospedagem em hotéis com políticas sustentáveis e a não construção de novos estádios para as partidas. Mas nenhuma dessas ações contribui para a principal causa da poluição da Copa: as emissões de dióxido de carbono pelos voos.

 

 

 
 
 
 

Pesquisa afirma que ferramentas de IA criam rankings aleatórios de candidatos e pouco usam fontes oficiais

Pesquisa afirma que ferramentas de IA criam rankings aleatórios de candidatos e pouco usam fontes oficiais

Estudo “Boca de IA” monitora como os sete chatbots mais populares no Brasil tratam informações eleitorais e identifica alucinações em 4% dos casos, incluindo menção a candidatos inexistentes

Por: Murilo Santos| Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia

Karina Santos, coordenadora do ITSRio, apresentando resultados da pesquisa ‘Boca de IA’. Foto:Maria Eduarda Galdino.
 

Seis das sete ferramentas de inteligência artificial avaliadas por uma pesquisa do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro apresentaram algum grau de ranqueamento de candidatos em respostas sobre as eleições de 2026 — prática proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral. O estudo, chamado Boca de IA, foi apresentado no Festival 3i de Jornalismo, realizado em maio no Rio.

Um dos pontos centrais da pesquisa é o ranqueamento, ou seja, a ordem em que os candidatos são listados em uma consulta à ferramenta. Parte das plataformas utiliza pesquisas eleitorais como critério para ordenar os nomes, enquanto outras sequer explicam o motivo pela qual eles foram listados naquela ordem. No entanto, mesmo antes da proibição, nenhum chatbot indicava para votar no candidato x ou y, mas oferecia informações preliminares ao usuário.

O estudo, realizado em parceria com o Ministério Público Federal, busca entender melhor como as IAs e as big techs irão influenciar as eleições brasileiras. O TSE já proibiu os programas de recomendarem ou influenciarem direta ou indiretamente os eleitores, vedando práticas de ranqueamento, recomendação, sugestão ou priorização de candidaturas, ou qualquer forma de favorecimento político-eleitoral. A pesquisa utilizou como base as sete IAs mais utilizadas pelo público brasileiro: Grok, DeepSeek, Claude, Perplexity, ChatGPT, Meta IA e Gemini.

A pesquisa também analisou as fontes utilizadas como referência. Das respostas dadas pelas sete IAs, fontes oficiais como TSE, TREs e partidos são referenciadas em apenas 12% dos casos. Quando se observa o uso de fontes informacionais, como a imprensa, em 55% dos casos elas são citadas como referência. O dado mais intrigante é que em 4% dos casos as IAs entraram em alucinação, termo que descreve a produção de informações factualmente incorretas apresentadas pela ferramenta com aparência de veracidade. 

As alucinações também ficam evidentes no caso do Perplexity, ferramenta com o pior desempenho neste critério. Ao ser questionada sobre o melhor candidato para a área da saúde, a plataforma afirmou que não haveria eleições presidenciais no Brasil em 2026, negando a existência do próprio pleito sobre o qual estava sendo questionada. Já o DeepSeek respondeu à mesma pergunta citando uma ONG como se fosse candidato à presidência.

O estudo seguirá publicando relatórios mensais, segundo a coordenadora de democracia do instituto ITS Rio, Karina Santos, que esteve presente no Festival 3i. Conforme a proximidade das eleições aumentar, os relatórios passarão a ser quinzenais.

Festival 3i 2026: Para combater o Voldemort da IA, um jornalismo inspirado em Harry Potter

Festival 3i 2026: Para combater o Voldemort da IA, um jornalismo inspirado em Harry Potter

Mesa debateu estratégias para garantir sobrevivência financeira do jornalismo independente sem perder a credibilidade dos conteúdos Maria Luísa Fontes, da Agenc/Uerj| Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia

               Mesa “Presente e futuro da sustentabilidade financeira no jornalismo” durante o Festival 3i 2026. Foto: divulgação/Festival 3i
 

A cada dia que passa, jornais independentes tentam competir com as big techs; a cada dia, são superados pela discrepância de quantidade de conteúdo produzido. Diante dessa questão inevitável, a mesa  “Presente e futuro da sustentabilidade financeira no jornalismo”, realizada no último dia do Festival 3i 2026, apontou algumas possibilidades, entre eles que o caminho não é disputar leitores com grandes empresas, mas sim estabelecer uma relação de confiança e fidelidade com o público que consome seu produto.

 

O painel foi composto por José María León Cabrera (GK Ecuador), Madison Karas (Gazzetta), Guilherme Ravache (Valor Econômico), Shereen Daver (ClimateXChange) e mediado pela jornalista Vitória Régia da Silva, diretora do site Gênero e Número e presidente interina da Ajor (Associação de Jornalismo Digital), organizadora do festival. Logo no início do debate, os palestrantes afirmaram que a forma clássica de praticar o jornalismo, orientada por volume de notícias e rapidez de publicação, foi superada por grandes empresas de tecnologia, como Meta e Amazon, que estão dominando esses eixos. O Google, por exemplo, citado pelos convidados, começou como uma plataforma de busca que levava os leitores aos sites jornalísticos recomendados. Hoje em dia, a própria IA da empresa produz a notícia a partir da síntese que ela mesma faz das informações publicadas nos veículos jornalísticos.

 

Madison Karas afirmou que a palavra “sustentabilidade’’ é uma palavra muito vaga que pode ter vários significados, servindo tanto para descrever um estado que não está mais em modo de sobrevivência como para descrever um estado de lucro, com muito dinheiro sobrando. No entanto, a especialista disse que, mesmo que o dinheiro esteja crescendo, as operações estejam estabilizadas e a balança  favorável, ainda existe trabalho a ser feito, e as organizações devem estar “ativamente aprendendo o que as pessoas precisam e qual informação precisa ser divulgada”. 

 

“Se você é pautado na lógica do volume, você sempre vai estar na média, você nunca vai ter um conteúdo acima da média ou bom o suficiente para atrair as pessoas”, afirmou Ravache. Nesse sentido, o jornalismo independente, ao contrário de tentar alcançar o modelo de produção das IAs, precisa distribuir suas reportagens orientado pelo interesse do leitor sobre determinada informação. Para isso, é necessário que essas pequenas empresas conversem com seus públicos para identificar sobre qual  assunto eles estão buscando se informar. 

 

Os palestrantes ressaltaram que não se deve ficar preso a análises digitais que envolvam apenas números e gráficos, mas que as organizações jornalísticas devem perguntar o que seus leitores estão interessados em descobrir. Segundo Ravache, as pessoas não podem ser tratadas como “planilhas de Excel”, sendo necessário explorar convicções e valores dos consumidores. Para Daver, é preciso entender a audiência não apenas como usuários, mas como humanos que têm necessidades e condições que precisam ser atendidas pelos produtos jornalísticos.

 

Para Cabrera, é importante entender a diferença entre os conceitos de produto e serviço: produto é o conteúdo em si, ou seja, o que foi apurado, escrito e publicado, enquanto serviço significa a forma com que esse conteúdo atingiu o público e o que as pessoas entenderam sobre o que foi lançado.  Em suas palavras, a discussão principal para o jornalismo hoje gira em torno de como conservar “a humanidade e o sentido de serviço para a sociedade, contando o que acontece no mundo”. 

 

Para conseguir aplicar essas estratégias, Daver defendeu que o jornalista independente precisa, para além de ser empreendedor, ter uma mente empreendedora, disposta a inovar e se adaptar às mudanças tecnológicas e comerciais. Por isso, ter um plano de negócios é fundamental para uma pequena empresa crescer. Ela afirmou que é necessário saber o porquê de o produto existir, entender qual o público-alvo desse produto e pensar um pouco “fora da caixa”, pois existem vários tipos de audiências que podem se encaixar com seu produto.  

 

Daver, ao ser perguntada sobre como ser inovador no jornalismo sem cair numa lógica completamente tecnológica e desconectada do propósito de servir ao público, refletiu sobre a mentalidade dos investidores. “Eles (investidores) buscam valor e a razão dos produtos existirem, e eles olham para as pessoas que estão por trás dos produtos e dos fundadores. Eles querem olhar nos olhos dos fundadores e saber quem eles são”, comentou a estrategista de inovação

 

Ainda nessa linha do planejamento financeiro, é preciso compreender que o jornalismo independente funciona como qualquer outra empresa e depende do lucro para se sustentar. Mas como alcançar isso sendo parte  de uma imprensa independente que não funciona de acordo com a lógica das big techs? O pequeno empreendedor precisa buscar o diferencial que o distingue de outras empresas, estudando metodologias que incentivem o leitor a preferir o seu jornal. 

 

Fazendo alusão à fantasia literária, Cabrera afirmou que “a inteligência artificial (IA) é como Voldemort [o vilão da saga Harry Potter]. É poderosa, mas não tem corpo. Então, nesse momento da saga, esses monstros não têm corporalidade”. E, para enfrentar Voldemort, completa, “temos que ser ainda como Harry Potter: pensar que a humanidade, com estratégia, com disciplina, com talento, com estrutura financeira, sim, vai levar a gente a um lugar melhor do que a produção por uma coisa que a gente não sabe o que que é”. 

 

Ainda que Cabrera não descarte a utilidade ou importância das IAs, ele argumenta que a grande satisfação não é ver a quantidade de visualizações que um conteúdo atinge, e sim perceber “que uma pequena comunidade saiba e sinta que a notícia é dita”. Ele valoriza a necessidade de se conectar com o ser humano, se conectar com as pessoas e aprender o valor do sorriso, da reação de uma pessoa ao ler uma matéria. O equatoriano completou o raciocínio dizendo: “Temos que conservar o coração da nossa tarefa e não ter medo do futuro”.

 

Ao encerrar a mesa, Vitória Régia da Silva destacou que pensar no jornalismo sustentável é pensar num jornalismo “plural, diverso, de diferentes escalas, que trata de diferentes temas”, seja esse jornalismo investigativo, de dados ou local. De acordo com a jornalista, as lições retiradas da mesa foram as diversas formas de fazer jornalismo sustentável, e para isso é preciso construir organizações capazes de experimentar, de inovar e de testar novas alternativas de sustentabilidade – tudo isso sem perder de foco seu propósito e o porquê de elas terem sido inicialmente criadas.