
Um casal perde a filha no Cairo e ela reaparece 8 anos depois de forma bizarra: petrificada, com aparência de zumbi. A família a leva para casa e a cuida como se nada tivesse acontecido, até que, no mesmo dia em que a menina se acomoda no lar dos Cannon, ela ataca a matriarca da família, que rezava junto ao corpo. Essa é a premissa e os primeiros minutos de A Maldição da Múmia, do diretor irlandês Lee Cronin, lançado em 2026, uma abertura que prende a atenção e promete mais do que o filme consegue entregar.
O filme é estrelado por Jack Reynor, que interpreta o jornalista Charlie Cannon, Laia Costa, que vive Larissa Cannon, esposa de Charlie e mãe de Katie, interpretada por Natalie Gracie. O elenco funciona bem no geral, mas é May Calamawy, na pele da policial Dalia Zaki, quem rouba a cena, entregando uma das atuações mais consistentes do filme, e as crianças da família Cannon surpreendem pela naturalidade com que carregam cenas de tensão que os adultos, por vezes, deixam escapar.
A trama se passa majoritariamente em dois ambientes: a casa dos Cannon e o departamento de polícia do Cairo, onde Dalia Zaki investiga o desaparecimento de Katie. Após o despertar da múmia, a menina é raptada por uma feiticeira para um ritual misterioso. Um acidente de avião leva à descoberta de que ela está “viva” dentro de um sarcófago milenário. A família recebe a notícia com euforia, até perceber que aquela Katie pode não ser a mesma que desapareceu.
A forma como a família, em especial Larissa Cannon, vai descobrindo e lidando com a situação é muito bem construída por Cronin, que sabe criar tensão e sustos divertidos a cada ação da múmia. A primeira metade do filme tem aquele clima de desconforto crescente que faz o espectador se mexer na cadeira sem saber exatamente por quê, uma atmosfera que Cronin constrói com paciência e competência. Outro ponto alto são as atuações dos filhos da família: tanto Seb quanto a caçula chamam atenção pela maneira com que encaram o que está acontecendo e, por muitos momentos, parecem ser os únicos a tratar a situação com a devida preocupação.
O filme, com pouco mais de 2 horas e 10 minutos, vai bem até a metade. Conforme surge a necessidade de resolver os nós criados, a narrativa é inundada por sangue, lutas inúteis e mal executadas, além de diversas falhas e simplificações de roteiro, problemas que, na verdade, já se faziam presentes desde o início. Como, por exemplo, a questão de como a família levou a menina petrificada para casa sem que ninguém notasse: afinal, estamos falando de uma criança com aparência de morta, sem cheiro agradável e com unhas enormes, detalhe este último repetido à exaustão pelo diretor ao longo do filme. Cronin acerta bastante na direção, mas erra de forma contundente no roteiro, entregando um encerramento fraco, recheado de piadas fora de lugar durante confrontos com um demônio milenar. O abuso de violência não seria necessariamente um problema, se não resultasse em cenas que beiram o bizarro, incluindo uma sequência gore com coiotes dilacerando um corpo.
No mais, se você quiser se divertir e levar alguns sustos, A Maldição da Múmia serve. Mas como história redonda e com lógica interna consistente, é o tipo de filme que diverte enquanto dura, mas que desmorona quando você começa a pensar nele de volta para casa. Se eu fosse dar uma nota de 0 a 5, seria 2,5: metade do caminho entre o bom entretenimento que poderia ser e o grande filme de terror que nunca chega a se tornar.












