A Faculdade de Comunicação Social (FCS) da UERJ é reconhecida pela excelência em seus cursos e pela formação de profissionais críticos e éticos. Destaca-se como a única universidade pública do Rio a oferecer Relações Públicas e tem um prestigiado curso de Jornalismo, com egressos amplamente recomendados no mercado.
Lula encerra Brics pedindo Sul Global mais forte e ONU mais representativa
Em entrevista coletiva, presidente destacou relevância de ação conjunta para conter mudança climática
Por Everton Victor e Leticia Santana
Presidente da República ao lado do ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira, durante entrevista coletiva. Foto: Everton Victor
Com críticas à atuação da ONU, a defesa de organizações internacionais mais representativas e respostas às ameaças de Donald Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um balanço positivo do encontro do BRICS e o papel do grupo no mundo contemporâneo. Durante o segundo e último dia (6) da Cúpula do grupo, Lula destacou a importância da atuação conjunta das economias emergentes na construção de um mundo multipolar. O evento foi realizado nos dias 6 e 7 de junho, no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro.
Na Declaração de Líderes assinada em consenso pelos 11 países-membros, os integrantes do BRICS apoiam uma mudança da estrutura de governança global. Durante a entrevista, Lula criticou o papel que a ONU tem desempenhado na resolução de conflitos no mundo. Para o presidente, adiar a reforma da ONU “torna o mundo mais perigoso”. A demanda por uma reestruturação de conselhos internacionais é antiga no BRICS. O principal argumento é que a mudança traria uma maior representatividade das nações emergentes em um mundo multipolar. “Não queremos mais um mundo tutelado”, disse Lula.
China e Rússia, membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas e integrantes do BRICS, defenderam um protagonismo maior das economias emergentes na ONU. Na Declaração, os dois países defendem um papel “mais relevante dessas nações [Brasil e Rússia] nas Nações Unidas, incluindo o Conselho de Segurança”.
O Conselho de Segurança foi estabelecido em 1945, após a Segunda Guerra. Inicialmente com onze membros, hoje o grupo conta com 15 quinze – desses, 5 são permanentes. Estes cinco (China, Estados Unidos, França, China e Reino Unidos) podem vetar qualquer resolução tomada pelo grupo. No conflito na Ucrânia, por exemplo, propostas relacionadas ao confronto foram vetadas por países como Estados Unidos e Rússia.
A maior representatividade do Fundo Monetário Internacional (FMI), pauta antiga do BRICS, também foi colocada como essencial para um multilateralismo forte. Para a professora Fernanda Nanci, do Departamento de Relações Internacionais da Uerj, além das propostas, a implementação, depende de muitos países e da capacidade do Brasil e países do BRICS pressionarem para que avance. A diferença, desta vez, é que com a expansão do BRICS mais nações – que algumas já faziam fora do agrupamento – passem a reivindicar maior participação no FMI. “No momento, há um ponto favorável que é o Brics ampliando, com mais economias emergentes e capacidade de articulação”.
A expansão de países no BRICS, um dos temas centrais desta Cúpula, o presidente exaltou a liderança brasileira. “O Brasil realizou a mais importante reunião que o BRICS já fez, porque convidamos novas pessoas para que a gente os convença que o BRICS é um novo jeito de fazer o multilateralismo sobreviver no mundo”.
Um dos consensos da Declaração final do BRICS é o apoio dos 11 países membros à realização da Conferência do Clima, a COP30, no Brasil. Na carta, os países emergentes endossaram o papel que o evento terá para impulsionar as metas climáticas, como as que estão presentes no Acordo de Paris. O evento acontecerá em novembro em Belém, no Pará.
O presidente também respondeu às postagens de ameaças de taxação feitas por Trump. De acordo com Lula, não é responsável um presidente ameaçar o mundo através das redes. No dia 6 de junho, o presidente Donald Trump publicou em sua conta na rede social Truth Social, que “qualquer país que se alinha com as políticas antiamericanas do BRICS, terá uma tarifa adicional de 10%. Não haverá exceções para essa política”. As ameaças foram repercutidas nas redes sociais e em jornais por todo o mundo.
Um dia após este post, na mesma rede, Trump voltou a fazer postagens que se relacionavam com o Brasil, desta vez, em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A postagem dizia que “o Brasil está fazendo um terrível trabalho no seu tratamento com o ex -presidente Jair Bolsonaro. Eu tenho assistido, assim como todo o mundo, eles fazerem nada mais do que persegui-lo dia após dia, noite após noite, mês após mês e ano após ano. Ele não é culpado de nada exceto ter lutado pelo povo”. Lula preferiu não comentar a declaração do presidente dos Estados Unidos.
Países do BRICS se comprometem a cumprir metas de saúde fixadas nos ODS
Declaração reunindo os consensos da Cúpula dos países emergentes foi divulgada no primeiro dia de encontro (6)
Por Everton Victor
Cúpula de Líderes dos países BRICS. Isabela Castilho | BRICS Brasil
A Declaração de Líderes do BRICS, divulgada neste domingo, se compromete a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pela ONU (Organização das Nações Unidas) relacionados à saúde. O documento foi divulgado no primeiro dia de reunião da Cúpula de Líderes realizada entre os dias 6 e 7 no Museu de Arte Moderna do Rio, na Zona Sul da cidade. O documento também reforçou o compromisso com o desenvolvimento sustentável das nações BRICS.
A carta reitera que as metas a serem previstas nos ODS devem ser alcançadas “garantindo que nenhum país seja deixado para trás”. Dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, mais de dez se relacionam direta ou indiretamente com a saúde. Para Fernanda Nanci, professora do Departamento de Relações Internacionais da Uerj, o Brasil pautar este tema na Cúpula se relaciona com a estratégia do país buscar se projetar internacionalmente como uma potência ambiental. “Tem relação com o fato do Brasil estar buscando assumir posição de protagonista na COP30 e liderar esse debate”, explica.
Os ODS representam metas sociais e econômicas a serem alcançadas até 2030 pelos 193 países integrantes da ONU. Mas essas metas estão longe de serem alcançadas, apontou o relatório da ONU em julho de 2024, e só 17% delas estão indo na direção correta.
Segundo a ONU, os desafios da falta de investimentos e ações locais em escalas dificultam a concretização dessas metas. Água limpa e saneamento, combate às alterações climáticas, fome zero e redução das desigualdades são alguns dos temas dos ODS. Faltando 5 anos para alcançar os objetivos de desenvolvimento sustentável, o BRICS reforçou o compromisso com os ODS como um caminho para o futuro do Sul Global. A Declaração das economias emergentes teve apoio dos 11 países membros do grupo: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Bangladesh, Emirados Árabes Unidos, Egito e Argélia.
1° Dia da Cúpula de Líderes. Foto: Rafa Neddermeyer/BRICS Brasil/PR
O BRICS reforçou o apoio das nações emergentes ao papel da Organização Mundial da Saúde (OMS) como autoridade orientadora nas questões sobre Saúde global. A declaração final também enfatiza a necessidade de fortalecer a amplitude e os mecanismos de financiamento da OMS. A íntegra da Declaração de Líderes já está disponível no site oficial do agrupamento.
Rocinha é bairro do Rio mais vulnerável a deslizamentos, aponta projeto
Iniciativa Rio 60°C, do portal Ambiental Media, mapeia a cidade e mostra que regiões periféricas estão mais vulneráveis aos impactos da mudança do clima
Por Everton Victor
Comunidade da Rocinha, Zona Sul do Rio de Janeiro Fernando Frazão/Agência Brasil
Chuvas fortes com resultados extremos, como deslizamentos e inundações, estão cada vez mais frequentes. Recordes de temperaturas também são cada vez mais frequentes. Os efeitos da mudança do clima já são realidade, e, a depender da região da cidade do Rio de Janeiro em que você se encontra, o impacto é sentido de forma diferente. É o que apontou o projeto “Rio 60 °C”, um mapeamento digital realizado pela organização jornalística Ambiental Media em parceria com o RioNowcast+Green, da Universidade Federal Fluminense (UFF).
A Rocinha, na Zona Sul do Rio, é a maior favela do Brasil, com 72.021 moradores e 30.371 casas, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estática (IBGE). Desses, 11 mil domicílios estão em áreas de alta vulnerabilidade para deslizamentos e 1,4 mil classificados com um risco muito alto, segundo o Rio 60 °C. Ainda de acordo com o projeto, o bairro concentra o maior número de casas em risco de deslizamento da capital fluminense. O projeto Rio 60°C foi uma das iniciativas de jornalismo apresentadas no Festival 3i, realizado no Rio de Janeiro entre os dias 6 e 8 de junho na ESPM, com foco na exposição de projetos de jornalismo independentes e inovadores.
Bairros da cidade com mais domicílios vulneráveis a deslizamentos, de acordo com o projeto Rio °60 C Foto: Julia Lima
No complexo de favelas Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, também na Zona Sul do Rio, 3 mil moradias estão localizadas em áreas de alta vulnerabilidade a deslizamentos, enquanto 899 estão em área classificada como de muito alta vulnerabilidade. A exposição dos cariocas a riscos de deslizamentos não está restrita às comunidades da Zona Sul da cidade. Na Mangueira, Zona Norte do Rio, são 1,6 mil residências em alta vulnerabilidade e 765 em muito alta. Em Realengo, bairro da Zona Oeste, 517 moradias estão sujeitas a este risco e 12 classificadas em muito alta.
Condy Menezes, morador da Rocinha, na Zona Sul do Rio, há 48 anos e ativista social há mais de 20, é integrante da Associação de Moradores do bairro. À Agenc, ele contou a realidade de quem sofre com os eventos climáticos na comunidade. “Os moradores, depois dos dias de chuva, nos procuram para solicitar vistorias, principalmente da Defesa Civil, para avaliar riscos de desabamentos, deslizamentos de encostas e até para retirada de barro e terra que tenha adentrado casas”, explica.
Jornalista Thiago Medaglia em entrevista a nossa equipe de reportagem durante o festival 3i Foto: Julia Lima
Para o jornalista Thiago Medaglia, diretor-executivo da Ambiental Media, a análise de dados presente no projeto Rio 60 °C permite entender os desafios para enfrentar a mudança climática. Segundo ele, os eventos climáticos extremos são manifestações locais do aquecimento global que atingem todos, no entanto, impactam de maneira mais drástica populações socioeconomicamente vulneráveis. “Na iminência de um evento extremo, essas pessoas vão para onde?”, indaga.
De acordo com a pesquisa, a cidade do Rio de Janeiro concentra 70 mil domicílios em áreas de alta vulnerabilidade e 10 mil com risco muito alto de deslizamentos. Para inundações, os dados são ainda maiores: 530 mil casas estão suscetíveis e 132 mil estão categorizadas com risco muito alto. O projeto “Rio 60 °C” destaca como a urbanização desregulada em alguns bairros próximos aos três maciços da cidade – Tijuca, Pedra Branca e Gericinó-Mendanha, tornam essas casas mais expostas a perigos. A Rocinha, por exemplo, fica localizada na vertente sul do Maciço da Tijuca.
A urbanização desordenada acontece quando o crescimento de uma cidade não segue um planejamento – por exemplo, uma casa construída em uma área de proteção ambiental ou em uma região por onde passa um rio. São domicílios erguidos sem que se tenha uma análise prévia sobre a viabilidade e a segurança de ter uma moradia naquele local.
Este processo é acompanhado por políticas, ou a falta delas, no amparo ao cidadão. Muitas vezes, mesmo sem se sentir seguro na região em que reside, ele prefere permanecer numa área de risco, por não ter outra opção. “Quem mora em área de risco nunca se sente seguro, eles sabem que de alguma forma estão em risco iminente de que algo possa acontecer. Quanto maior a intensidade da chuva, maior o medo”, afirma Condy.
Apesar da insegurança constante e do estado de alerta em que essas pessoas se encontram, a Associação de Moradores faz um suporte direto aos moradores na Rocinha. Através da orientação de pontos de apoio, mobilização comunitária para repor perdas e até ajuda psicológica. São tentativas de mitigar danos a moradores que por vezes já estão em situação de vulnerabilidade, segundo Condy. Perguntado se se sente amparado pelo poder público em sua comunidade, ele respondeu que, sempre que acionadas, a subprefeitura, a Defesa Civil e a Comlurb se fazem presentes.
A Fundação Geo-Rio, órgão vinculado à Secretaria Municipal de Infraestrutura, afirmou ter concluído 13 obras de contenção de encostas na Rocinha desde 2021, com um investimento de R$ 12,7 milhões. “As intervenções foram fundamentais para aumentar a segurança da população que vive em áreas com risco geológico, especialmente durante o período de chuvas”. Entre os serviços citados pela Geo-Rio estão a construção de cortinas atirantadas (sistema de contenção de encostas), muros de contenção em concreto armado, solo grampeado, instalação de canaletas de drenagem e de telas de aços.
Walmir Júnior, mestre em Sustentabilidade pela PUC-Rio e coordenador da horta popular “Maria Angu”, é morador da comunidade de Kelson, na Penha, Zona Norte do Rio. Para ele, existe uma dificuldade do poder público proteger esses cidadãos que vivem em áreas de risco. “Quando a gente tá falando de alagamento, inundação, estamos falando de casas que tão sendo perdidas, de vidas que estão sendo tiradas. O Estado é detentor desse cuidado da vida da população”, reforça.
Apesar dos efeitos das mudanças climáticas se concentrarem nas consequências nas cidades – como altas temperaturas, secas extremas, poluição do ar, o impacto também pode ser fatal para a saúde humana. No ano de 2024, o Brasil registrou 306 mortes em decorrência de eventos climáticos, segundo levantamento do Atlas Digital de Desastres do Brasil. Ainda de acordo com este levantamento, 299 mil brasileiros ficaram feridos ou adoeceram em decorrência de desastres climáticos no ano de 2024.
Para Walmir Júnior, é preciso enfrentar as mudanças climáticas com a inclusão da justiça climática nessas ações. O termo citado por Walmir já é praticado nos debates sobre a responsabilidade de cada nação para reverter o aquecimento global. Ele defende pautar esta justiça climática também nos territórios, através de políticas públicas voltadas para quem está mais suscetível a sentir os impactos das mudanças climáticas.
O racismo ambiental, mecanismo também agravado com a emergência climática, através de desigualdades raciais que se manifestam nos eventos climáticos, também é um ponto de discussão por Walmir. Ele participou de uma apresentação sobre a iniciativa Rio 60°C durante o Festival 3i.Confira um trecho da apresentação: https://www.youtube.com/watch?v=3emqiFYNsIM
O projeto Rio 60 °C analisa indicadores socioeconômicos, como renda, taxa de analfabetismo e quantidade de moradores por domicílio, a estrutura urbanística da capital fluminense e dados sobre o tema. “A ideia é utilizar esse material como fonte de informação para educação ambiental”, explica Thiago Medaglia.
Apresentação de próximo passos e a continuidade do Rio 60 °C Fonte: Julia Lima
No site, é possível visualizar a cidade do Rio através de mapas interativos que indicam regiões mais suscetíveis a deslizamentos e inundações. Medaglia contou que o número “60°C”, que faz parte do nome do projeto, inicialmente não era esse, mas com a sequência de temperaturas recordes que ultrapassaram sensações térmicas de 40°C, 50 °C, e, mais recentemente 60 °C, atualizou a numeração do projeto.
A cidade registrou o recorde de 62,3°C no dia 17 de março de 2023. É a maior sensação térmica registrada desde 2014, quando o Sistema Alerta Rio começou a fazer a medição.
Mecanismo de monitoramento de chuvas
No site da Defesa Civil do Rio de Janeiro há um manual explicativo sobre deslizamento e alguns sinais que podem identificar se o domicílio oferece algum risco. A prefeitura do Rio disponibiliza em seu site Alerta Rio o monitoramento em tempo real sobre a quantidade de chuva nos bairros da cidade.
Se você mora em um desses municípios – Angra dos Reis/RJ, Blumenau/SC; Cachoeiro de Itapemirim/ES; Gaspar/SC; Indianópolis/MG; Morretes/PR; Muçum/RS; Petrópolis/RJ; Roca Sales/RS; São Sebastião/SP; União da Vitória/PR -, a Anatel notifica por mensagem de texto quando há locais de risco com iminente de desastres sem precisar ter um cadastro prévio na plataforma. A escolha de cidades a ofertar o serviço foi realizada a partir do volume de alertas emitidos em 2023 pela Defesa Civil e desastres recentes de grande impacto.
SERVIÇO
199 – Número da Defesa Civil.
193 – Corpo de Bombeiros.
192 – Ambulância
Em casos de emergência, como solicitação de vistoria, acione esses órgãos.
Festival 3i discute desinformação e os interesses por trás dela
Evento de jornalismo promovido pela Ajor aconteceu neste fim de semana no Rio de Janeiro
Por Everton Victor e Julia Lima
Mesa sobre Desinformação no Festival 3i. Da esquerda para a direita: Ellen Guerra Cerqueira, Talita Bedinelli, Max Resnik, Erick Terena. Foto: Julia Lima
Aquela mensagem alarmista repassada pelo WhatsApp, o corte específico de uma fala e até a manipulação de vídeos feita por IA: a desinformação não surge “do nada” e costuma estar atrelada a interesses econômicos e políticos. Este foi um dos debates centrais da 6° edição do Festival 3i, promovido pela Ajor (Associação de Jornalismo Digital) entre os dias 6 e 8 de junho na Glória, Zona Sul do Rio de Janeiro.
As redes sociais muitas vezes funcionam como grandes potencializadores da desinformação, e a falta de uma regulamentação específica fortalece estes discursos. O movimento anticiência, por exemplo, nega estudos e notícias comprovadamente verdadeiras, manipula informações e chega a colocar em risco a vida das pessoas – impulsionado pelos algoritmos das plataformas. Foi o que apontou a mesa “Construindo vínculos entre jornalismo e comunidades como estratégia de combate à desinformação”, do Festival 3i.
Jornalista fundador do portal “Mídia Indígena”, Erick Terena
Erick Terena, fundador do portal Mídia Indígena, afirma que o jornalismo de território é um mecanismo crucial para combater a desinformação. Para ele, existe uma necessidade de um jornalismo preocupado essencialmente com o espaço onde está localizado, e não restrito ao eixo Rio-São Paulo-Brasília. “A gente não trabalha o jornalismo, a gente vê a comunicação como sobrevivência. Se deixarmos de nos comunicar, pessoas e biomas vão ser impactadas”, afirma.
De acordo com o Instituto Locomotiva, 90% dos brasileiros afirmam ter acreditado em alguma fake news. Uma das ações recentes pelo Judiciário sobre o tema foi durante a eleição presidencial de 2024. O Artigo 9 da Resolução 23.732/24 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) veda a “divulgação ou compartilhamento de fatos notoriamente inverídicos ou gravemente descontextualizados que atinjam a integridade do processo eleitoral”. Apesar da iniciativa, o Brasil não tem uma tipificação para outros contextos de desinformação.
A promoção da desinformação ganha liberdade e espaço nas redes, e a sensação de impunidade fortalece esses fenômenos fora delas. Entre os limites entre ativismo e jornalismo, Erick Terena reforçou no evento o dever de informar e o papel do jornalismo de se contrapor a desinformação. A defesa do meio ambiente, principalmente por conta de sua origem indígena, e o combate às notícias falsas ou manipuladas são ferramentas em que, segundo ele, não existem lados a serem disputados. “Ativismo não é uma profissão, nós fazemos isso há milhares de anos”, afirma.
O Brasil não possui legislação sobre regulamentação das redes sociais, mas discute Projetos de Lei (PL) sobre o tema. Está em tramitação no Congresso Nacional o PL 2338/23, que institui um marco legal com mecanismos e orientações para regulamentar a inteligência artificial no Brasil. Em paralelo, também tramita no Congresso o PL 2.159/21, apelidado “PL da Devastação”. Entre as ações está a flexibilização do licenciamento ambiental, o que pode expandir o desmatamento, de acordo com Greenpeace e outras organizações ambientais.
Ferramentas de checagem cada vez mais necessárias
Com o aumento da desinformação, fez-se necessária a criação de ferramentas e até sites inteiros focados apenas em esclarecer se as mensagens que circulam na internet são verdadeiras ou falsas. O Aos Fatos, criado em julho de 2015, é um dos veículos nascidos com essa proposta, e apresentou um de seus resultados durante o Festival 3i: no projeto Check-Up, a equipe do Aos Fatos pesquisou nove portais de notícias, mapeou anúncios em formato de matérias jornalísticas e concluiu que 90% deles espalham desinformação sobre saúde.
Leonardo Cazes, editor-executivo de Aos Fatos. Foto: Julia Lima
Leonardo Cazes, editor-executivo do site, afirmou que o trabalho demorou cerca de 6 meses. Usando ferramentas específicas, a equipe coletou 242 mil dos chamados anúncios nativos relacionados à saúde – as matérias pagas por anunciantes. Segundo ele, o principal tema é a cura “milagrosa” de doenças como diabetes e dores crônicas – que não têm cura cientificamente comprovada, apenas meios de controle.
O jornalista aponta o uso do argumento de autoridade como o principal fator de convencimento nas desinformações, como falas inventadas do médico Drauzio Varella, e até a atribuição de funções falsas a instituições científicas: “Dizem que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) recomendou X remédios, quando na verdade ela só autoriza o uso das coisas”.
Chanceleres do BRICS reiteram necessidade de mudança da governança global
Com 11 países-membros e 9 convidados, a primeira reunião expandida dos BRICS discutiu reformas na gestão política e a reforçou apelo em defesa da paz
Por Everton Victor
Segundo dia de reunião de Ministros das Relações Exteriores no Palácio do Itamaraty. Foto: Isabela Castilho I BRICS Brasil
Em seu primeiro encontro, os chanceleres dos países integrantes dos BRICS defenderam a necessidade de que o bloco dos países emergentes não seja ideológico, mas multipolar. Foi a primeira reunião dos chanceleres após a expansão do agrupamento, agora com 11 países-membros e 9 parceiros. Os representantes se reuniram nos dias 28 e 29 de abril, no Palácio do Itamaraty, Centro do Rio.
Entre os consensos do encontro estavam o endosso à reforma da governança global e a mecanismos financeiros internacionais, além do rechaço a guerras e a defesa do compartilhamento de conhecimento nas áreas de saúde e tecnologia. Apesar de o documento oficial do encontro ainda não ter sido divulgado, as diferenças dos países não foram maiores do que o consenso em temas comuns, segundo Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil. A reorganização da governança global foi um desses consensos.
Na prática, os países do Sul Global pedem uma maior diversidade nas instituições internacionais da geopolítica, inclusive no Conselho de Segurança da ONU, composto desde 1945 por cinco membros permanentes com direito a veto e dez não permanentes sem direito a veto.
Segundo dia de reunião de Ministros. Foto: Isabela Castilho | BRICS Brasil
O movimento pela reforma do Conselho de Segurança não é recente. Cúpulas anteriores dos BRICS e outros foros de relevância internacional também pressionam pela reorganização da governança global. Durante o G20 no ano passado, por exemplo, o tema também apareceu na declaração final dos líderes. O consenso dos países integrantes do G20 – com China, Rússia, Estados Unidos, França e Reino Unido, os cinco membros permanentes do Conselho – já sugeriu a reforma do Conselho de Segurança e do secretariado da ONU, a fim de incluir mais mulheres e países da Ásia, África, América Latina e Caribe nesses colegiados.
De acordo com Pablo Saturnino, professor do Instituto de Relações Internacionais da Uerj, a ascensão do Sul Global em um contexto de crescimento econômico, aliada à crise dos países desenvolvidos, pode contribuir no avanço da reorganização da governança global.O protagonismo chinês no mundo é um exemplo disso, segundo Saturnino. No ano passado, o Produto Interno Bruto da China foi de 134.9 trilhões de yuans (em torno de 18,5 trilhões de dólares) , um crescimento de 5% em relação ao ano anterior, segundo o Departamento Nacional de Estatística da China (DNE).
Saturnino afirma que a relevância do Brasil presidir o agrupamento desta vez com mais membros é entender a capacidade prática de diálogo em questões complexas que o país sempre levantou, como transição energética, direitos humanos e a paz mundial. O primeiro encontro dos chanceleres dos BRICS já mostrou alguns desses indícios da capacidade de mediação e liderança do Brasil.
Neste primeiro encontro, o grupo de chanceleres também endossou o “rechaço” ao protecionismo – em sinalização a um mundo cada vez mais multipolar, com maior participação do Sul Global nas organizações financeiras internacionais, como o Fundo Monetário Internacional e Organização Mundial do Comércio.
A primeira reunião sinaliza questões de consenso entre os integrantes dos BRICS quando seus líderes se reunirem entre os dias 6 e 7 de julho na cidade do Rio. “Os chanceleres representam um arranjo preparativo para o encontro dos chefes de Estado. É uma forma de produzir convergências e deixar o processo de negociação mais afinado”, explica o professor Saturnino.
Coletiva com o ministro das Relações Exteriores do Brasil Mauro Vieira. Foto:Leticia Santana I Agenc Uerj
O ministro Mauro Vieira afirmou que a primeira reunião construiu pontes. Temas comuns a todos ganharam mais espaço que as diferenças. Além dos fundadores Brasil, África do Sul, China, Índia e Rússia, outras nações passaram a integrar o bloco e participar das discussões. Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã agora também integram o foro. Belarus, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Malásia, Tailândia, Uganda, Uzbequistão, e, mais recentemente, Nigéria, irão participar de algumas reuniões como convidados.
Organizações da sociedade civil apresentam reivindicações a representantes do BRICS
Documento da iniciativa People To People inclui demandas como menor dependência do dólar e maior presença do banco de desenvolvimento em países do Sul Global
Por Everton Victor
Deputado Federal Fausto Pinato, senador Humberto Costa, presidente do MST João Paulo e o secretário nacional da Juventude Ronaldo Sorriso (da esquerda para a direita). Foto: Leticia Santana
Em meio a tarifaços de Trump e instabilidade global com a escalada da guerra comercial entre Estados Unidos e China, representantes da sociedade civil dos países emergentes elaboraram um documento com suas demandas, entregue na última quinta (24) aos representantes dos BRICS. Entre as reivindicações, estão a redução da dependência do dólar; atuação maior do NBD (Novo Banco de Desenvolvimento), o banco dos BRICS, nos países do Sul Global; aproximação dos povos dos países integrantes dos BRICS e o fim das guerras. Estes foram alguns dos temas presentes no documento final da iniciativa People to People (P2P) dos BRICS.
Participaram da formulação das demandas aos Líderes dos BRICS, sociedade civil dos países membros. O documento ainda não foi divulgado oficialmente, mas parte de seu conteúdo foi citado em entrevista coletiva realizada no Centro Cultural Light, no Centro do Rio. O People to People, em tradução literal, Pessoas para Pessoas, é um mecanismo dos BRICS para aproximar a sociedade civil e órgãos não governamentais dos países integrantes do bloco. A ideia é aproximar essas populações dos debates que seus líderes estão travando.
De acordo com Fernanda Nanci, professora do Departamento de Relações Internacionais da Uerj, a participação da sociedade civil no Foro People to People indica um encontro dos BRICS mais atento ao que suas populações querem. “Ainda é cedo para afirmar que a sociedade civil exerce protagonismo nas decisões do BRICS, mas há sinais de abertura. É importante destacar que a participação destes atores é filtrada por governos, o que limita a influência da sociedade no BRICS”, explica.
João Pedro Stédile, coordenador do Movimento dos Sem Terra Foto: Maria Eduarda Galdino
João Pedro Stédile, coordenador do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), afirmou que o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) é uma das sugestões do People To People. O grupo reforçou que o banco desenvolvimentista comandado pela ex-presidenta do Brasil Dilma Rousseff deve intensificar investimentos em industrialização do Sul Global e, para isso, seria necessário um maior aporte dos países-membros na instituição.
Frente aos tarifaços de Donald Trump em diversos países, em especial a China, que chegou a ser taxada em 245%, a sociedade civil, também segundo Stédile, propôs medidas para uma menor dependência de suas nações em relação ao dólar.
O People To People não está restrito apenas à sociedade civil. Think tanks, empresas privadas e outros entes não governamentais também podem participar. Ao todo 11 países são membros dos BRICS: Brasil, África do Sul, Arábia Saudita, China, Rússia, Egito, Índia, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã.
A paz do mundo e a inserção de outras sociedades como prioridades para as economias emergentes também ganharam espaço no documento. Os movimentos sociais brasileiros cobraram que o encontro dos BRICS seja cada vez mais internacionalista, com mais países integrando o agrupamento. Para isso se concretizar, além da nação convidada aceitar, os demais países membros precisam concordar.
O desafio de uma maior participação também está representado nos entraves, diálogos e debates de diferentes culturas e povos que compõem os BRICS. O agrupamento é responsável por mais de 40% da população mundial,segundo o Fórum Econômico Mundial. Parte desta população vive sob governos autoritários, como o Irã, investigado pela Organização das Nações Unidas (ONU) por violar os direitos humanos e cometer crimes contra a humanidade em 2022. O Irã estava sob uma onda de protestos após a jovem Mahsa Amini (22), presa por “não usar o hijab corretamente”, morrer sob custódia da polícia após sofrer uma parada cardíaca e entrar em coma, segundo as autoridades locais.
Apesar das diferenças, a professora acredita na viabilidade de que esses espaços tragam algum avanço nas questões de direitos humanos nos países-membros, através de trocas e demandas coletivas das sociedades integrantes dos países emergentes.
“A participação da sociedade é muito importante para inclusive questionar os regimes autoritários que integram o grupo BRICS, onde não há espaço para uma ampla participação social em decisões e onde existem denúncias de violações de direitos humanos, espaços sociais do BRICS podem gerar pressões para estes Estados terem mais atenção aos temas de direitos humanos e diálogo com a sociedade”.
Programa investe mais de R$ 3 milhões em negócios comandados por mulheres; na Web Summit Rio, ministra defende diversidade para ampliar excelência da produção científica brasileira
Por Letícia Santana
Ministra Luciana Santos, na cerimônia de abertura do Web Summit. Foto: Letícia Santana
O Web Summit Rio é um dos maiores eventos de tecnologia do mundo. Na edição de 2024, 47,5% do público era formado por mulheres, e 45% das startups participantes tinham fundadoras à frente dos negócios. Sede do encontro pelo terceiro ano seguido, o Rio de Janeiro é destaque global na inclusão de mulheres no ecossistema tech. Ficou à frente até mesmo de Lisboa, onde a média de liderança feminina em startups presentes na edição portuguesa, em 2024, foi de 33%.
A ministra da Ciência, Tecnologia e Informação, Luciana Santos, falou na noite de abertura do evento ao lado do prefeito do Rio, Eduardo Paes, e do CEO do Web Summit, Paddy Cosgrove, sobre a participação feminina na produção científica. A ministra anunciou a continuidade do Programa Mulheres Inovadoras, que vai investir mais de R$ 3 milhões para incentivar a participação de mulheres em start-ups.
Nesta edição serão selecionadas dez empresas de cada região do país. As 50 startups, que serão divididas em dois grupos de 25, um de empresas iniciantes e outro de avançadas. A primeira colocada de cada região receberá um investimento de 100 mil reais, e as demais, 51 mil reais. Segundo a ministra, o foco do programa é a capacitação e o reconhecimento dessas profissionais no país.
De acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), no Brasil as mulheres correspondem a 20% dos profissionais de tecnologia, e de acordo com o Fórum Econômico Mundial somente 22% dos profissionais que trabalham com inteligência artificial são mulheres. Os dados refletem a constante desigualdade de gênero na área da tecnologia. Por isso a Rio Web Summit retornou com o programa Women in tech, com a proposta que mulheres compartilhem suas histórias, façam networking e colaborem umas com as outras. Por meio dessa iniciativa, ingressos foram disponibilizados com 90% de desconto para mulheres atuantes na área, promovendo um maior acesso ao evento.
A Agenc conversou com algumas mulheres que apresentaram paineis durante o evento. Marina Godoi (32), ex-advogada que mudou de carreira para trabalhar com tech, atualmente está na Inspira, um legaltech de pesquisa de jurisprudência e recursos de inteligência artificial para facilitar a rotina da advogada. Marina contou sobre o dia a dia e participação feminina na área de tecnologia. “Eu achava que teriam até bem menos mulheres, mas lá, pelo menos na Inspira, tem bastante mudança. Comemoramos no ano passado quando o número de mulheres ultrapassou o dos homens na empresa, inclusive no time de tecnologia, não só no comercial e pós-vendas”, afirmou.
Debora Oliveira no painel expositivo da Ximple durante o evento. Foto: Letícia Santana
Já Débora Oliveira (26) é líder técnica na Ximple, startup mexicana focada em conceder acesso ao crédito a pessoas sem acesso a banco, principalmente pessoas que vendem por catálogos. Ela falou sobre a sua visão sobre o impacto da empresa em que ela trabalha na vida das mulheres: “A maioria das pessoas que vendem por catálogo são mulheres. Então, o que a gente está investindo é justamente no empreendedorismo feminino. Porque quando a gente investe numa mulher que é mãe, tem ali todo um ambiente que ela tem que tomar conta, a gente está trazendo o bem. O empreendedorismo dela vai crescer, mas a gente também está impactando várias outras pessoas que estão ao redor delas.”
O evento ainda não divulgou a porcentagem de participações divididas por gênero, porém uma das metas para esse ano é o aumento significativo na participação das mulheres no mundo da tecnologia.
Web Summit Rio começa sob o desafio de transformar tecnologia em legado permanente para a cidade
Abertura do evento neste domingo (27) foi marcada por anúncios do prefeito do Rio com metas para a cidade
Por Everton Victor e Letícia Santana
Prefeito Eduardo Paes discursa na noite de abertura do evento. Foto: Letícia Santana
O Web Rio Summit 2025 acontece esta semana no Rio de Janeiro com uma vitória e um desafio. A vitória é o anúncio de que o evento ficará no Rio por mais cinco anos, e não apenas três. O desafio é transformar a repetição das exposições em um legado permanente para a cidade, reduzindo a desigualdade no acesso a projetos de tecnologia e inovação. Entre os dias 27 a 30 de abril estes debates ocorrerão no Centro de Convenções Riocentro, Zona Oeste do Rio.
De olho em soluções inovadoras vindas de diversos países e com enfoque para a ampliação do acesso à tecnologia, o Web Summit Rio reunirá milhares de projetos na capital fluminense. Espera-se um público de 30 mil pessoas de 102 países durante os quatro dias de evento, mais de mil startups e 100 palestrantes do mundo todo se reunirão no Riocentro.
Inteligência Artificial treinada para gerar inclusão de pessoas portadoras de deficiência ou mesmo para descomplicar termos financeiros e dar apoio jurídico são algumas das soluções inteligentes presente no evento. Para o prefeito do Rio, Eduardo Paes, a ideia não é somente que o Rio veja as apresentações de projetos inovadores, mas que eles permaneçam aqui.
Apesar da promessa, cariocas que já empreendem e usam inovação como fonte de renda sofrem com a informalidade. Cerca de 40% dos moradores de favela no Rio tem seu próprio empreendimento, mas deste grupo 51% vivem na informalidade, de acordo com levantamento do Data Favela realizado em 2023. Um empreendimento é considerado informal quando o empreendedor não possui um CNPJ para formalizar seu negócio. O prefeito do Rio reiterou a meta de tornar a cidade do Rio capital da inovação na América Latina, mas não estipulou data.
Em ano de COP no Brasil, o evento também se voltou para ideias relacionadas à adaptação climática. O empreendimento de alerta via SMS fundado por Filipe Rimes é uma dessas iniciativas. O ComuREDE une Inteligência Artificial com Redes Comunitárias para notificar moradores por SMS quando está chovendo, falta água ou luz. O ComuREDE, além de alertar moradores que podem estar se deslocando do trabalho para a casa, também cria um histórico dessa falta de abastecimento de água nas regiões monitoradas.
Noite de abertura do Web Summit. Foto: Letícia Santana
A capital fluminense é espaço de diversos eventos de inovação de relevância mundial como o Rio Innovation Week e o próprio Web Summit. De acordo com Global Startup Ecosystem Report de 2024, o Rio é a terceira melhor cidade para o crescimento de startups no país, ficando atrás apenas de São Paulo e Curitiba. No ranking global, é a 146°, segundo o mesmo estudo.
Com a abordagem do papel da inovação no presente e no futuro, o palco do Web Summit também foi marcado por mais uma promessa do prefeito Eduardo Paes: o investimento cada vez maior na educação para forjar jovens cientistas cariocas. A sinalização faz parte do projeto da Prefeitura de transformar algumas escolas municipais do Rio em Ginásios Experimentais Tecnológicos, os chamados GETs. Ao todo já são mais de 200 neste modelo espalhados pela cidade.
Este é o terceiro ano consecutivo que a cidade recebe o Rio Web Summit, evento que já acontece desde 2009 na Europa e hoje também está presente no Qatar, na Ásia.
Conheça os BRICS - o encontro das economias emergentes do Sul Global
Encontro de líderes acontecerá no Rio de Janeiro nos dias 6 e 7 de julho
Por Everton Victor e Julia Lima
Símbolo dos BRICS em 2025, inspirado na árvore amazônica Sumaúma Reprodução: BRICS
O Brasil irá presidir neste ano o encontro dos BRICS – o grupo de países do Sul Global integrantes da chamada economia emergente. Os BRICS surgiram em 2006, inicialmente por Brasil, China, Índia e Rússia, e, na III Cúpula do bloco em 2011, a África do Sul também passou a compor o bloco econômico.
A reunião dos líderes dos BRICS acontecerá na cidade do Rio durante os dias 6 e 7 de julho, mas antes disso, já estão previstas mais de 100 reuniões em diferentes estados brasileiros.
O surgimento dos Brics está relacionado com o estudo “Building Better Global Economic BRICs”, publicado em 2001 pelo britânico Jim O’Neil, economista-chefe do banco multinacional Goldman Sachs. O estudo reunia dados que mostravam o rápido crescimento dessas economias emergentes no início dos anos 2000, especialmente da China. Ao longo do estudo, o economista aponta como isso representa o surgimento de novas potências e poderia representar a necessidade da reforma da governança global para incluir essas nações.
Além dos fundadores, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã também integram o foro. Belarus, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Malásia, Tailândia, Uganda, Uzbequistão, e, mais recentemente, Nigéria, irão participar de algumas reuniões como convidados, após consulta aos países membros e decisão por consenso.
Inicialmente, o BRICS surge com a aproximação dessas nações sem um caráter formal de acordos unificados entre os países, decisões em nome do bloco, nem mecanismos que representem o grupo. Ao longo das Cúpulas, realizadas anualmente, as nações integrantes firmaram acordos e diferentes meios cooperativos que se intensificaram ao longo dos anos. Hoje, o fórum dos Brics é um dos principais encontros de articulação político-diplomática do Sul Global.
De acordo com a professora Fernanda Nanci, do Departamento de Relações Internacionais da Uerj, a liderança do Brasil no agrupamento este ano será estratégica, colocando-o como porta-voz do Sul Global. “A presidência pode ajudar a reforçar uma agenda de cooperação entre os países do BRICS, em um momento de expansão do agrupamento, como facilitação do comércio e investimentos entre os países, financiamento para enfrentar as mudanças climáticas e projetos de cooperação entre países do Sul Global, com foco em saúde pública”.
Meses antes de sediar a Cúpula, o Brasil trouxe algumas novidades para os BRICS, como é o caso da plataforma BRICS P2P, destinada a sociedade civil e órgãos não governamentais dos países membros. O objetivo é trazer para o público os diferentes temas que serão discutidos este ano e disponibilizar fóruns, conselhos e reuniões. O modelo é parecido com o G20 Social Participativo, plataforma criada pelo Brasil durante sua gestão do G20 em 2024.
Sobre a posição esperada do Brasil na condução do agrupamento, a professora destaca a possibilidade de um ativismo diplomático com foco em retomar um papel de protagonismo do Brasil entre os países em desenvolvimento. Com o lema: Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável, a presidência brasileira pretende pautar uma série de temas de interesses comuns das nações integrantes com acordos sobre financiamento climático, maior integração comercial e cooperação em diferentes setores da saúde. Discussões sobre inteligência artificial e desenvolvimento institucional do grupo também são algumas das prioridades brasileiras a serem discutidas durante as mais de 100 reuniões previstas do grupo em 2025.
Os olhos do mundo este ano não estarão voltados apenas para os BRICS. O Brasil também presidirá a COP30, a conferência mundial do clima, encontro que acontecerá entre 10 e 21 de novembro em Belém, capital paraense. Mas a capacidade do país em pautar ações concretas sobre a temática ambiental será testada antes mesmo da Cúpula da COP. O que for firmado nos BRICS no âmbito ambiental poderá ser termômetro da capacidade do Brasil liderar a temática ambiental. “Certamente se o Brasil falha ao engajar suas contrapartes dos BRICS em uma discussão mais engajada sobre meio ambiente, sua liderança perde força na temática ambiental. Isso prejudica a projeção internacional do país em um ano que é central, com Belém sendo sede da COP30”, explica Nanci.
O BRICS tem ganhado cada vez mais relevância no cenário mundial. Um dos principais mecanismos é o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), criado na IV Cúpula do bloco, em julho de 2014, em Fortaleza, e que entrou em vigor anos depois. Seu foco é a representatividade do desenvolvimento sustentável do Sul Global. O banco é responsável por financiar projetos de infraestrutura em diferentes países. Paralelamente, o Arranjo Contingente de Reservas (CRA), é um dos principais mecanismos de proteção do grupo que, através de uma reserva financeira, ajuda as nações integrantes a protegerem suas economias, como um instrumento de liquidez frente a eventuais pressões financeiras que surjam.
Apesar da responsabilidade, não é a primeira que o Brasil pautará em um bloco internacional a questão ambiental. Durante o último, o país presidiu o G20 e a formulação da Declaração dos Líderes do bloco. Entre os consensos presentes na Carta, o compromisso de limitar o aumento da temperatura média global para menos de 2°C. As nações também sinalizaram um esforço para uma outra meta, ainda mais ousada, de limitar o aumento a 1,5°C – o que, segundo o documento, teria efeitos “significativamente melhores”.
Além do modelo tradicional de participar dos BRICS (como nação integrante ou convidada), um país pode ser convidado para o encontro por meio do modelo “BRICS Outreach” – para nações próximas regionalmente do país que está presidindo o foro. O BRICS plus destinado ao país que preside convida qualquer país independente da proximidade regional. México, Colômbia e Uruguai foram convidados pelo presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, para participar dos BRICS neste ano.
Oceanos, o pulmão azul do mundo, precisam de ajuda
Voz dos Oceanos velejou pelo litoral brasileiro em parceria com o G20 para colher relatos da sociedade civil sobre a necessidade da preservação dos oceanos; grupo organiza Manifesto Popular a ser apresentado na COP 30
Por Everton Victor, Julia Lima e Leticia Santana
Vilfredo Schurmann no veleiro Vitória Régia. Foto: Leticia Santana
A Amazônia é chamada de pulmão do mundo, mas você sabia que ela só produz 12% do oxigênio que respiramos? Os oceanos, muitas vezes esquecidos, são responsáveis por 34% dessa produção e estão cada vez mais poluídos. A Voz dos Oceanos, organização liderada pelo economista e velejador Vilfredo Schurmann, se uniu ao G20 para levar aos governantes as preocupações da população sobre o que pode ser feito para salvar e preservar esses espaços.
O convite surgiu da própria organização do G20. Desde então Thamys Trindade (36), André Calonnis Souza (27), Tatiana Aguiar (27), Jessyca Lopes (32) e o capitão Vilfredo Schurmann (75) estão há mais de dois meses percorrendo parte do litoral brasileiro para colher manifestações da sociedade civil em defesa dos mares. Segundo Vilfredo, o documento tem mais de 50 metros e será digitalizado para que possa ser levado à COP 30, em Belém do Pará, e para a próxima reunião do G20, na África do Sul, ambos no ano que vem. O texto serviria para apoiar e indicar ações dos líderes para a causa.
Manifesto Popular com mais de 50 metros com manifestações da sociedade civil em defesa dos mares. Foto: Leticia Santana
Nessa viagem, a tripulação utiliza o veleiro Vitória Régia, construído há 30 anos em Belém. Ele é equipado com gerador de energia solar, dessalinizador de água e tratamento de esgoto. O Voz dos Oceanos conta ainda com outra embarcação (Kat), que está na Nova Zelândia com Wilhelm Schurmann. Os dois seguirão viajando e se encontrarão em Belém, em novembro de 2025, para participarem da COP 30.
À Agenc, o capitão da expedição adiantou em primeira mão que pretende instalar 5 containers na capital do Pará. Esses espaços serviriam para ajudar na compactação do lixo produzido pela cidade. Já estão ocorrendo conversas com o governo federal e estadual para possibilitar a iniciativa.
Participação popular é grande, mas falta incentivo
Segundo Vilfredo, a consciência ecológica e a vontade de participar na preservação dos oceanos por parte da população é enorme. Tendo passado por 13 cidades, ele e Tatiana afirmam que viram projetos locais excelentes, que poderiam ser ainda mais significativos caso houvesse investimento público e privado.
Um exemplo de como o financiamento pode ajudar os mares ocorreu em São Paulo. De acordo com o capitão, ele se encontrou com uma moradora da cidade, que trabalha catando lixo há 18 anos – 12 pessoas da família trabalham com ela – e perguntou o que aconteceria caso ela possuísse uma compactadora de lixo. A máquina custa cerca de R$30 mil reais, mas segundo a catadora ela seria de grande ajuda e traria uma economia considerável em diesel e pneus. Vilfredo entrou em contato com a vereadora Cris Monteiro (NOVO-SP), que conseguiu o investimento para o grupo. Com isso, mais lixo é recolhido e compactado, evitando que vá para os mares.
O tema tem estado cada vez mais presente no debate público, mas de acordo com ele ainda não é o suficiente. “A iniciativa pública tem que ajudar nisso, hoje o plástico reciclável paga mais imposto que o plástico in natura, como que você vai concorrer vendendo o plástico reciclável se ele paga mais impostos”. No Brasil, paga-se o mesmo valor de imposto no material reciclado e o in natura, e por isso, em 2023, surgiu o debate a respeito de incluir o plástico de uso único no imposto seletivo, criado na Reforma Tributária, que visa desestimular o consumo de bens e serviços prejudiciais à saúde ou meio ambiente.
Veleiro Vitória Régia. Foto: Leticia Santana.
A participação civil é parte fundamental do projeto, que busca ampliar as vozes da população com o intuito de levar as propostas daqueles que são mais influenciados pelas decisões tomadas em eventos como o G20. “Essa é nossa bandeira, a Voz dos Oceanos é isso, você é a voz, não é só a família Schurmann. Nós somos só o suporte, estamos há 40 anos no mar e estamos presenciando essas mudanças”.
Vilfredo sonha que iniciativas como essa se repitam no próximo G20, que será presidido pela África do Sul. Para ele, o projeto não deve se limitar só a esta edição do evento. Com essa parceria, o Brasil amplifica essas vozes e leva ao mundo uma mensagem sobre a preservação dos oceanos – bandeira a ser replicada no G20 do ano que vem, na África do Sul.