Como um veículo hiperlocal aproxima o jornalismo de dados de moradores do Complexo da Maré

Como um veículo hiperlocal aproxima o jornalismo de dados de moradores do Complexo da Maré

Associado da Ajor, Projeto do Data Labe utiliza informações fornecidas pelos próprios moradores para falar de problemas como saneamento básico e inundações

Por Everton Victor

Integrantes do Data Labe, projeto que une jornalismo e dados no território da Maré, no Rio. (Acervo Pessoal)

Quando o jornalismo de dados está inserido dentro do território, a perspectiva e o alcance das informações mudam e se aproximam de quem vive essa realidade. É esse compromisso do projeto que o Data Labe desenvolve no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio. A iniciativa mapeia denúncias, falta de saneamento básico, inundações e outros problemas enfrentados pelos moradores, transformando tudo isso em dados. Durante o Festival 3i, realizado entre os dias 29 e 31 de maio no Rio, uma das integrantes do Data Labe contou à Agenc os efeitos de investigar dados no território onde essas informações foram produzidas.

Maria Ribeiro, cearense e moradora do Complexo da Maré desde os dois anos de idade, vê na atuação no Data Labe uma forma de transformar experiências do cotidiano do seu território em informação. “A  falta de saneamento básico é muito presente na minha vida, tenho lembranças do meu irmão me carregando para que eu não tivesse contato com a água do alagamento, minha mãe tirando a água de dentro de casa, porque encheu. Quando eu entro no Data Labe, eu começo a problematizar isso”, conta. 

Maria Ribeiro, integrante do Data Labe. (Acervo Pessoal)

Voltado para direitos digitais, o Data Labe nasceu em 2018 no Complexo da Maré e usa a comunicação no território como base para democratizar o acesso aos dados. “A gente trabalha com o que chama de Geração Cidadã de Dados, que surge com o objetivo de que os próprios territórios e as comunidades em vulnerabilidade possam gerar seus próprios dados”, explica. O conceito Geração Cidadã citado por Maria busca envolver os moradores na produção de diagnósticos referentes à sua própria localidade. 

A atuação do Data Labe dialoga com um movimento mais amplo de crescimento de iniciativas de comunicação territorial no Brasil. Organizações que nascem nos territórios refletem uma tendência observada em todo país. O Atlas da Notícia de 2025 identificou 14.809 veículos jornalísticos independentes em atividade no Brasil, um aumento de 7% em relação ao  último levantamento, divulgado em 2023. 

No próprio Complexo da Maré, iniciativas como a Redes da Maré usam os dados do próprio território para se conectar com a comunidade. Em parceria com o Observatório das Favelas, o veículo jornalístico Redes da Maré produziu um  Censo com diferentes dados sobre essa região da cidade. O conglomerado de 16 favelas que compõem o Complexo da Maré  tem 129 mil moradores, e  25% deles são imigrantes nordestinos, enquanto 51,9% de todos habitantes da região são menores de 30 anos. Para Maria, do Data Labe, quando os dados produzidos passam a ser construídos de forma mais próxima de quem está neles, muda a perspectiva. “O morador da comunidade está sendo inserido em todo esse processo”, afirma.

No Data Labe, a equipe multidisciplinar utiliza o jornalismo de dados não só para combater a desinformação, mas também como uma ferramenta de propagação da informação. Maria reforça que o papel Data Labe não é substituir organizações governamentais que produzem dados, mas ser mais um braço de mapeamento em áreas que por vezes não conseguem ser mapeadas.

Para Maria, aproximar a produção de dados dos moradores também contribui para fortalecer a relação entre comunidades e veículos de comunicação. Hoje, cerca de 48% dos usuários de internet desconfiam sempre ou na maioria das vezes de informações produzidas por veículos de jornalismo profissional. O número é maior que a desconfiança em conteúdos de amigos ou familiares em redes sociais (39%), de acordo com o Núcleo de Informação Ponto Brasil.

Verônica Lima, coordenadora de Comunicação da Associação de Jornalismo Digital, a Ajor, destacou a importância de espaços de encontro entre jornalistas para discutir os desafios da profissão e pensar caminhos para fortalecer a relação com o público. “É cruzar potencialidades, a gente tem muitos desafios para o jornalismo e todos os caminhos de soluções possíveis estão na construção coletiva”, afirma.

Durante o Festival 3i, diferentes mesas abordaram esses desafios. E todas reforçaram que o caminho para um jornalismo forte é ele estar cada vez mais presente no território.

No Data Labe, uma das iniciativas utilizadas para se aproximar e criar uma relação com a comunidade é o “Cocozap”, ferramenta de caráter popular e que transforma em dados a plataforma de denúncias dos moradores. Em colaboração com organizações como a Casa Fluminense e a Redes de Desenvolvimento da Maré, o projeto mapeia o saneamento básico da Maré, através de um número de Whatsapp. 

Por lá, o morador envia a foto de sua queixa, como um esgoto a céu aberto, acúmulos de lixo e entulho, sempre com a sinalização indicando em qual parte da Maré o problema está acontecendo. A partir dessas informações, o veículo verifica as denúncias, realiza o georreferenciamento e sistematiza em sua própria base de dados. “Quando vemos dados sobre inundações, alagamentos, eles são construídos e mapeados a partir de queixas, então se os moradores não conhecem esses mecanismos, eles não conseguem enviar sua denúncia”, afirma Maria.

Alvo de críticas dos Estados Unidos, Pix é elogiado como ferramenta inovadora no Web Summit Rio

Alvo de críticas dos Estados Unidos, o Pix é elogiado como ferramenta inovadora no Web Summit Rio

Especialistas apontam qualidades do sistema de pagamento direto e sem presença de intermediários

Por Everton Victor e Murilo Santos

 
Web Summit Rio 2026. Paul Devlin/Web Summit

Alvo de ataques do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o  PIX foi celebrado durante o Web Summit, evento de inovação e tecnologia que acontece no Rio. Nesta semana o governo brasileiro registrou a marca PIX no Instituto Nacional de Propriedade Indústrial (INPI). A ação ocorre após críticas do governo estadunidense sobre um possível favorecimento do Banco Central do Brasil ao mecanismo, em detrimento de empresas norte-americanas que atuam no setor.

A praticidade da  transferência imediata de dinheiro sem um longo tempo de espera e sem um intermediador são fatores que constituem o PIX. Junto a isso, sua aceitabilidade varia desde o comércio local até grandes marketplaces que chegam a oferecer descontos em compras em PIX. 

Uma das razões é que esse modelo de transação não conta com uma empresa intermediadora dessa transação financeira, o que barateia os custos. Desde o lançamento do PIX, em 2020, até o primeiro semestre de 2025,  o sistema brasileiro PIX representou uma economia de 106,8 bilhões de reais para os usuários da ferramenta,  segundo pesquisa da PUC-MG.

Paddy Cosgrave, CEO do Web Summit. Divulgação: Web Summit Rio 2026

Paddy Cosgrave, CEO e fundador do Web Summit, classificou o PIX como uma das maiores inovações financeiras dos últimos tempos. De acordo com ele, o mercado brasileiro é historicamente dominado por duas empresas de transações financeiras, a Visa e a Mastercard, oriundas dos Estados Unidos. O CEO do Web Summit definiu o PIX como “assassino de monopólios”. As duas empresas estadunidenses têm atuação em mais de 200 países.

Utilizado por 170 milhões de usuários, o PIX está no cotidiano de diferentes brasileiros. Só em janeiro de 2026, essa ferramenta foi responsável por 7 bilhões das transações financeiras, de acordo com o Banco Central do Brasil. Através de um cadastro rápido, é possível com o CPF realizar um PIX por aproximação, agendar uma transferência sem a necessidade de ter uma empresa mediadora, por exemplo.

A crítica do governo Trump é que a iniciativa brasileira está prejudicando as finanças de grandes empresas financeiras com sede nos Estados Unidos. Recentemente, o governo norte-americano anunciou uma taxação de 25% sobre as mercadorias brasileiras após investigações do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) acusarem o Brasil de práticas comerciais “irrazoáveis”. 

O relatório afirma que o Pix cria uma competição desleal entre os provedores de pagamento eletrônico estrangeiros que atuam no Brasil. No documento de 107 páginas, os Estados Unidos citam a palavra PIX 20 vezes. 

O CEO e fundador da stratup Jeeves, Dileep Thazhmon, comentou o papel de novas iniciativas financeiras para facilitar a vida dos usuários. Sua empresa, através de cripto moedas lastreadas a moedas reais, se tornou uma intermediária de transações que ao invés de durar dias são concluídas em minutos. De acordo com o CEO, a iniciativa se inspira no PIX e a atuação da startup representa uma redução de 80% dos custos envolvidos em transferências internacionais.

Rio terá polo de data centers de IA

Rio terá polo de data centers de IA

Prefeito Eduardo Cavaliere anunciou investimentos privados na primeira fase do projeto Rio IA City 

Por Everton Victor e Murilo Santos

Eduardo Cavaliere, Mayor, prefeito do Rio, ado lado de Alessandro Lombardi, presidente da Elea Data Centres,  Divulgação/Web Summit Rio 2026

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Cavalieri, anunciou no Web Summit Rio 2026 um investimento de US$ 550 milhões a ser feito na cidade pela plataforma Elea Data Centers. Os recursos fazem parte da primeira fase do projeto Rio IA City, que prevê um polo de data centers no Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste da cidade. Cavalieri afirmou que a cada 100 megabytes serão gerados milhares de empregos em especial para os jovens universitários da cidade. A capital fluminense recebe entre os dias 8 e 11 de junho, pelo quarto ano consecutivo, o Web Summit Rio, um dos principais festivais de tecnologia do mundo.

Cavaliere fez o anúncio numa entrevista coletiva concedida em conjunto com Paddy Cosgrave, CEO e cofundador do Web Summit. A Agenc perguntou ao prefeito sobre os ganhos para os cariocas resultantes de eventos sobre tecnologia.  De acordo com o prefeito da cidade, os jovens do Rio, em especial, os universitários, serão os principais beneficiados de uma economia diversificada e baseada em IA. “Se a nossa cidade continuar se preparando para ser a capital da inovação e se a gente investir em datacenters, nós vamos atingir mais empregos, mais investidores e mais oportunidades para os jovens”, afirma.

Cavalieri também comentou  a iniciativa Rio IA City, um hub de inovação e tecnologia de data centers no Parque Olímpico, na Barra. O plano estratégico do município visa transformar o Rio em um dos 10 maiores polos globais de inovação e tecnologia até 2032. Ao todo, está previsto um investimento final de 65 bilhões de dólares ao longo da próxima década. 

O anúncio do avanço do Rio IA City vem no cenário de crescimento dos debates sobre os efeitos de grandes Data Centers para os territórios em que eles estão instaurados e o debate sobre o impacto ambiental dessas estruturas. Data Centers reúnem conjuntos de computadores de grande porte que processam um descomunal número de dados e informações, como ferramentas de IA de chatbots, como o CHAT GPT. 

Apesar de otimizar tarefas do cotidiano, os data centers consomem uma grande quantidade de água. De acordo  com as Nações Unidas, o consumo anual de água necessário para manter Data Centers seria de 9,3 trilhões de litros, uma quantidade que supriria as necessidades domésticas básicas de água de 1,3 bilhão de habitantes da África Subsaariana durante um ano. Estima-se que apenas o treinamento do ChatGPT-5 consumiu cerca de 1 bilhão de litros de água.

A expansão tecnológica desses centros de dados demanda estrutura física, de terras para ser instalado, mas também  fatores como geração de eletricidade, sistemas de refrigeração e captação de água voltados para essas máquinas. Defensores da criação de mais Data Centers reforçam benefícios de um grande processamento de dados e ferramentas para países desenvolverem seus sistemas digitais interno.

No Brasil, tramita no Senado Federal o Projeto de Lei 3018/24, de autoria do senador Styvenson Valentim (PODEMOS/RN), que estabelece regras para locais de armazenamento e processamento de dados em território nacional. Durante audiência pública da Comissão de Ciência e Tecnologia sobre o PL realizada na última terça (9), o representante do Ministério Ciência, Tecnologia e Inovação, Hamilton José Mendes da Silva, sugeriu no debate que a regulamentação incluísse a transparência sobre consumo de água e energia em data centers. 

O complexo na Barra da Tijuca terá capacidade energética inicial de 1,5 GW, com expansão prevista para até 3 GW em 2032. A expectativa é que o Rio IA City gere mais de 10 mil empregos qualificados para os cariocas e torne a cidade um atrativo para startups, centros de pesquisas e empresas de tecnologia de diferentes países. No anúncio desta primeira fase, não houve detalhamento sobre iniciativas de sustentabilidade no polo de data centers a ser instalado no Rio.

Aos cariocas, o prefeito ressaltou que a criação de ginásios tecnológicos, incentivos a iniciativas como Porto Maravalley, um hub para abrigar start-ups, e o novo prédio do Instituto de Matemática Pura e Aplicada no centro da cidade são algumas iniciativas da cidade direcionadas a posicionar o Rio como um polo de inovação. O Web Summit é um dos principais festivais de tecnologia do mundo. Nesta edição, a estimativa é reunir mais de 40 mil pessoas, além de ter o recorde de participação de 1.572 startups de diferentes países.

Pensar o presente e o futuro do jornalismo por quem faz e consome notícia

Pensar o presente e o futuro do jornalismo por quem faz e consome notícia

Cidade do Rio recebe sétima edição do Festival 3i, um dos principais eventos de jornalismo inovador e independente da América Latina

Por Everton Victor

Evento do Festival 3i. Foto: Everton Victor

Palco de trocas e reflexões sobre formas de consumir e produzir notícias, o Festival 3i, iniciativa voltada ao jornalismo independente, iniciou na última sexta (29) sua sétima edição no Rio de Janeiro. Com diferentes formatos de interação com o público, veículos jornalísticos de diferentes territórios do país se reúnem até este domingo no Porto Maravalley, na região Central da cidade. O uso de IA, o que estará em pauta nas próximas eleições no Brasil e no mundo, desafios dos canais de comunicação que cobrem a Amazônia são alguns dos temas  em discussão. Esta edição também marca os 5 anos da criação da Associação de Jornalismo Digital, a Ajor, realizadora do festival.

Para Sabrina Passos, diretora da Blue Engine Collaborative, a Inteligência Artificial pode ser um aliada cotidiana, mas exige  um olhar crítico.  “O que justifica o medo das pessoas com a Inteligência Artificial é ver tantos conteúdos equivocados, na pandemia, por exemplo. Se fosse hoje, a disseminação seria ainda maior“, afirma.

A utilização ou não da IA não está apenas em discussão nas redações jornalísticas nem é restrita  ao público do Festival. De acordo com pesquisa da Fundação Itaú em parceria com o DataFolha, 93% dos brasileiros utilizam ferramentas de IA no seu cotidiano, seja por meio de  perguntas  básicas em sites com respostas quase imediatas até chatbots que conseguem analisar inúmeros dados e informações em minutos.

Os debates do festival trouxeram exemplos sobre o uso jornalístico da IA. Um deles foi a “QuitérIA”, uma IA feminista lançada pelo Instituto AzMIna. A ferramenta monitora Projetos de Leis (PLs) do Congresso Nacional direcionados a questões de gênero e sexualidade. Ela coleta, analisa e traz contexto de como eventuais leis afetam essa população. O projeto foi tema de um dos Cases do 3i no primeiro dia de evento.

Outros exemplos em discussão no festival incluem o Lições da Amazônia, voltado ao jornalismo de iniciativas sustentáveis em territórios amazônicos, do veículo Amazônia VOX; e a Dandara Copilot, IA do Alma Preta.

A quatro meses das eleições gerais no Brasil, o  Festival 3i também é  um bom espaço para se manter atualizado sobre o que vai estar no centro da disputa eleitoral. A jornalista Cecília Oliveira, uma das fundadoras do Intercept Brasil, contará no próximo domingo os bastidores da reportagem investigativa que revelou uma ligação entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Outras mesas também abordaram e darão dicas de como cobrir e apurar as informações durante a corrida eleitoral. O espaço “Troca de Ideias” do Festival terá um dos debates sobre Estratégias de Jornalismo Territorial para as Eleições 2026 hoje às 15h.

A Agenc (Agência de Notícias Científicas da Uerj), por meio do programa Foca no 3i, estará acompanhando os três dias de evento. Acompanhe no nosso site,  nas redes do LED e do próprio Festival.

Lula encerra Brics pedindo Sul Global mais forte e ONU mais representativa

Lula encerra Brics pedindo Sul Global mais forte e ONU mais representativa

Em entrevista coletiva, presidente destacou relevância de ação conjunta para conter mudança climática

Por Everton Victor e Leticia Santana

Presidente da República ao lado do ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira, durante entrevista coletiva. Foto: Everton Victor

Com críticas à atuação da ONU, a defesa de organizações internacionais mais representativas e respostas às ameaças de Donald Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um balanço positivo do encontro do BRICS e o papel do grupo no mundo contemporâneo. Durante o segundo e último dia (6) da Cúpula do grupo, Lula destacou a importância da atuação conjunta das economias emergentes na construção de um mundo multipolar. O evento foi realizado nos dias 6 e 7 de junho, no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro. 

Na Declaração de Líderes assinada em consenso pelos 11 países-membros, os integrantes do BRICS apoiam uma mudança da estrutura de governança global.  Durante a entrevista, Lula criticou o papel que a ONU tem desempenhado na resolução de conflitos no mundo.  Para o presidente, adiar a reforma da ONU “torna o mundo mais perigoso”. A demanda por uma reestruturação de conselhos internacionais é antiga no BRICS. O principal argumento é que a mudança traria uma maior representatividade das nações emergentes em um mundo multipolar. “Não queremos mais um mundo tutelado”, disse Lula.

China e Rússia, membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas e integrantes do BRICS, defenderam um protagonismo maior das economias emergentes na ONU. Na Declaração, os dois países defendem um papel “mais relevante dessas nações [Brasil e Rússia] nas Nações Unidas, incluindo o Conselho de Segurança”. 

O Conselho de Segurança foi estabelecido em 1945, após a Segunda Guerra. Inicialmente com onze membros, hoje o grupo conta com 15 quinze – desses, 5 são permanentes.  Estes cinco (China, Estados Unidos, França, China e Reino Unidos) podem vetar qualquer resolução tomada pelo grupo. No conflito na Ucrânia, por exemplo, propostas relacionadas ao confronto foram vetadas por países como Estados Unidos e Rússia. 

A maior representatividade do Fundo Monetário Internacional (FMI), pauta antiga do BRICS, também foi colocada como essencial para um multilateralismo forte. Para a professora Fernanda Nanci, do Departamento de Relações Internacionais da Uerj, além das propostas,  a implementação, depende de muitos países e da capacidade do Brasil e países do BRICS pressionarem para que avance. A diferença, desta vez, é que com a expansão do BRICS mais nações – que algumas já faziam fora do agrupamento – passem a reivindicar maior participação no FMI. “No momento, há um ponto favorável que é o Brics ampliando, com mais economias emergentes e capacidade de articulação”.

A expansão de países no BRICS, um dos temas centrais desta Cúpula, o presidente  exaltou a liderança brasileira. “O Brasil realizou a mais importante reunião que o BRICS já fez, porque convidamos novas pessoas para que a gente os convença que o BRICS é um novo jeito de fazer o multilateralismo sobreviver no mundo”.

Um dos consensos da Declaração final do BRICS é o apoio dos 11 países membros à realização da Conferência do Clima, a COP30, no Brasil. Na carta, os  países emergentes endossaram o papel que o evento terá para impulsionar as metas climáticas, como as que estão presentes no Acordo de Paris. O evento acontecerá em novembro em Belém, no Pará. 

O presidente também respondeu às postagens de ameaças de taxação feitas por Trump. De acordo com Lula, não é responsável um presidente ameaçar o mundo através das redes. No dia 6 de junho, o presidente Donald Trump publicou em sua conta na rede social Truth Social, que “qualquer país que se alinha com as políticas antiamericanas do BRICS, terá uma tarifa adicional de 10%. Não haverá exceções para essa política”. As ameaças foram repercutidas nas redes sociais e em jornais por todo o mundo. 

Um dia após este post, na mesma rede, Trump voltou a fazer postagens que se relacionavam com o Brasil, desta vez, em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A postagem dizia que “o Brasil está fazendo um terrível trabalho no seu tratamento com o ex -presidente Jair Bolsonaro. Eu tenho assistido, assim como todo o mundo, eles fazerem nada mais do que persegui-lo dia após dia, noite após noite, mês após mês e ano após ano. Ele não é culpado de nada exceto ter lutado pelo povo”. Lula preferiu não comentar a declaração do presidente dos Estados Unidos. 

Países do BRICS se comprometem a cumprir metas de saúde fixadas nos ODS

Países do BRICS se comprometem a cumprir metas de saúde fixadas nos ODS

Declaração reunindo os consensos da Cúpula dos países emergentes foi divulgada no primeiro dia de encontro (6)

Por Everton Victor

Cúpula de Líderes dos países BRICS. Isabela Castilho | BRICS Brasil

A Declaração de Líderes do BRICS, divulgada neste domingo, se compromete a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pela ONU (Organização das Nações Unidas) relacionados à saúde. O documento foi divulgado no primeiro dia de reunião da Cúpula de Líderes realizada entre os dias 6 e 7 no Museu de Arte Moderna do Rio, na Zona Sul da cidade. O documento também reforçou o compromisso com o desenvolvimento sustentável das nações BRICS. 

A carta reitera que as metas a serem previstas nos ODS devem ser alcançadas “garantindo que nenhum país seja deixado para trás”. Dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, mais de dez se relacionam direta ou indiretamente com a saúde. Para Fernanda Nanci, professora do Departamento de Relações Internacionais da Uerj, o Brasil pautar este tema na Cúpula se relaciona com a estratégia do país buscar se projetar internacionalmente como uma potência ambiental. “Tem relação com o fato do Brasil estar buscando assumir posição de protagonista na COP30 e liderar esse debate”, explica.

Os ODS representam metas sociais e econômicas a serem alcançadas até 2030 pelos 193 países integrantes da ONU. Mas essas metas estão longe de serem alcançadas, apontou o relatório da ONU em julho de 2024, e só 17% delas estão indo na direção correta. 

Segundo a ONU, os desafios da falta de investimentos e ações locais em escalas dificultam a concretização dessas metas. Água limpa e saneamento, combate às alterações climáticas, fome zero e redução das desigualdades são alguns dos temas dos ODS. Faltando 5 anos para alcançar os objetivos de desenvolvimento sustentável, o BRICS reforçou o compromisso com os ODS como um caminho para o futuro do Sul Global. A Declaração das economias emergentes teve apoio dos 11 países membros do grupo: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Bangladesh, Emirados Árabes Unidos, Egito e Argélia.  

1° Dia da Cúpula de Líderes. Foto: Rafa Neddermeyer/BRICS Brasil/PR

O BRICS reforçou o apoio das nações emergentes ao papel da Organização Mundial da Saúde (OMS) como autoridade orientadora nas questões sobre Saúde global. A declaração final também enfatiza a necessidade de fortalecer a amplitude e os mecanismos de financiamento da OMS. A íntegra da Declaração de Líderes já está disponível no site oficial do agrupamento.

Rocinha é bairro do Rio mais vulnerável a deslizamentos e inundações, aponta projeto

Rocinha é bairro do Rio mais vulnerável a deslizamentos, aponta projeto

Iniciativa Rio 60°C, do portal Ambiental Media, mapeia a cidade e mostra que regiões periféricas estão mais vulneráveis aos impactos da mudança do clima

Por Everton Victor

Comunidade da Rocinha, Zona Sul do Rio de Janeiro Fernando Frazão/Agência Brasil

Chuvas fortes com resultados extremos, como deslizamentos e inundações, estão cada vez mais frequentes. Recordes de temperaturas também são cada vez mais frequentes. Os efeitos da mudança do clima já são realidade, e, a depender da região da cidade do Rio de Janeiro em que você se encontra, o impacto é sentido de forma diferente. É o que apontou o projeto “Rio 60 °C”, um mapeamento digital realizado pela organização jornalística Ambiental Media em parceria com o RioNowcast+Green, da Universidade Federal Fluminense (UFF).

A Rocinha, na Zona Sul do Rio, é a maior favela do Brasil, com 72.021 moradores e 30.371 casas, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estática (IBGE). Desses, 11 mil domicílios estão em áreas de alta vulnerabilidade para deslizamentos e 1,4 mil classificados com um risco muito alto, segundo o Rio 60 °C. Ainda de acordo com o projeto, o bairro concentra o maior número de  casas em risco de deslizamento da capital fluminense. O projeto Rio 60°C foi uma das iniciativas de jornalismo apresentadas no Festival 3i, realizado no Rio de Janeiro entre os dias 6 e 8 de junho na ESPM, com foco na exposição de projetos de jornalismo independentes e inovadores.

Bairros da cidade com mais domicílios vulneráveis a deslizamentos, de acordo com o projeto Rio °60 C Foto: Julia Lima

No complexo de favelas Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, também na Zona Sul do Rio, 3 mil moradias estão localizadas em áreas de alta vulnerabilidade a deslizamentos, enquanto 899 estão em área classificada como de muito alta vulnerabilidade. A exposição dos cariocas a riscos de deslizamentos não está restrita às comunidades da Zona Sul da cidade. Na Mangueira, Zona Norte do Rio, são 1,6 mil residências em alta vulnerabilidade e 765 em muito alta. Em Realengo, bairro da Zona Oeste, 517 moradias estão sujeitas a este risco e 12 classificadas em muito alta.

Condy Menezes, morador da Rocinha, na Zona Sul do Rio, há 48 anos e ativista social há mais de 20, é integrante da Associação de Moradores do bairro. À Agenc, ele contou a realidade de quem sofre com os eventos climáticos na comunidade. “Os moradores, depois dos dias de chuva, nos procuram para solicitar vistorias, principalmente da Defesa Civil, para avaliar riscos de desabamentos, deslizamentos de encostas e até para retirada de barro e terra que tenha adentrado casas”, explica.

Jornalista Thiago Medaglia em entrevista a nossa equipe de reportagem durante o festival 3i Foto: Julia Lima

Para o jornalista Thiago Medaglia, diretor-executivo da Ambiental Media, a análise de dados presente no projeto Rio 60 °C permite entender os desafios para enfrentar a mudança climática. Segundo ele, os eventos climáticos extremos são manifestações locais do aquecimento global que atingem todos, no entanto, impactam de maneira mais drástica populações socioeconomicamente vulneráveis. “Na iminência de um evento extremo, essas pessoas vão para onde?”, indaga.

De acordo com a pesquisa, a cidade do Rio de Janeiro concentra 70 mil domicílios em áreas de alta vulnerabilidade e 10 mil com risco muito alto de deslizamentos. Para inundações, os dados são ainda maiores: 530 mil casas estão suscetíveis e 132 mil estão categorizadas com risco muito alto. O projeto “Rio 60 °C” destaca como a urbanização desregulada em alguns bairros próximos aos três maciços da cidade – Tijuca, Pedra Branca e Gericinó-Mendanha, tornam essas casas mais expostas a perigos. A Rocinha, por exemplo, fica localizada na vertente sul do Maciço da Tijuca.

A urbanização desordenada acontece quando o crescimento de uma cidade não segue um planejamento – por exemplo, uma casa construída em uma  área de proteção ambiental ou em uma região por onde passa um rio. São domicílios erguidos sem que se tenha uma análise prévia sobre a viabilidade e a segurança de ter uma moradia naquele local. 

Este processo é acompanhado por políticas, ou a falta delas, no amparo ao cidadão. Muitas vezes, mesmo sem se sentir seguro na região em que reside, ele prefere permanecer numa área de risco, por não ter outra opção. “Quem mora em área de risco nunca se sente seguro, eles sabem que de alguma forma estão em risco iminente de que algo possa acontecer. Quanto maior a intensidade da chuva, maior o medo”, afirma Condy.

Apesar da insegurança constante e do estado de alerta em que essas pessoas se encontram, a Associação de Moradores faz um suporte direto aos moradores na Rocinha. Através da orientação de pontos de apoio, mobilização comunitária para repor perdas e até ajuda psicológica. São tentativas de mitigar danos a moradores que por vezes já estão em situação de vulnerabilidade, segundo Condy. Perguntado se se sente amparado pelo poder público em sua comunidade, ele respondeu  que, sempre que acionadas, a subprefeitura, a Defesa Civil e a Comlurb se fazem presentes. 

A Fundação Geo-Rio, órgão vinculado à Secretaria Municipal de Infraestrutura, afirmou ter concluído 13 obras de contenção de encostas na Rocinha desde 2021, com um investimento de R$ 12,7 milhões. “As intervenções foram fundamentais para aumentar a segurança da população que vive em áreas com risco geológico, especialmente durante o período de chuvas”. Entre os serviços citados pela Geo-Rio estão a construção de cortinas atirantadas (sistema de contenção de encostas), muros de contenção em concreto armado, solo grampeado, instalação de canaletas de drenagem e de telas de aços.

Walmir Júnior, mestre em Sustentabilidade pela PUC-Rio e coordenador da horta popular “Maria Angu”, é morador da comunidade de Kelson, na Penha, Zona Norte do Rio. Para ele, existe uma dificuldade do poder público proteger esses cidadãos que vivem em áreas de risco. “Quando a gente tá falando de alagamento, inundação, estamos falando de casas que tão sendo perdidas, de vidas que estão sendo tiradas. O Estado é detentor desse cuidado da vida da população”, reforça.

Apesar dos efeitos das mudanças climáticas se concentrarem nas consequências nas cidades – como altas temperaturas, secas extremas, poluição do ar, o impacto também pode ser fatal para a saúde humana. No ano de 2024, o Brasil registrou 306 mortes em decorrência de eventos climáticos, segundo levantamento do Atlas Digital de Desastres do Brasil. Ainda de acordo com este levantamento, 299 mil brasileiros ficaram feridos ou adoeceram em decorrência de desastres climáticos no ano de 2024. 

Para Walmir Júnior, é preciso enfrentar as mudanças climáticas com a inclusão da justiça climática nessas ações. O termo citado por Walmir  já é praticado nos debates sobre a responsabilidade de cada nação para reverter o aquecimento global. Ele defende pautar esta justiça climática também nos territórios, através de políticas públicas voltadas para quem está mais suscetível a sentir os impactos das mudanças climáticas.

O racismo ambiental, mecanismo também agravado com a emergência climática, através de desigualdades raciais que  se manifestam nos eventos climáticos, também é um ponto de discussão por Walmir. Ele participou de uma apresentação sobre a iniciativa Rio 60°C durante o Festival 3i.Confira um trecho da apresentação: https://www.youtube.com/watch?v=3emqiFYNsIM

O projeto Rio 60 °C analisa indicadores socioeconômicos, como renda, taxa de analfabetismo e quantidade de moradores por domicílio, a estrutura urbanística da capital fluminense e dados sobre o tema. “A ideia é utilizar esse material como fonte de informação para educação ambiental”, explica Thiago Medaglia. 

Apresentação de próximo passos e a continuidade do Rio 60 °C Fonte: Julia Lima

No site, é possível visualizar a cidade do Rio através de mapas interativos que indicam regiões mais suscetíveis a deslizamentos e inundações. Medaglia contou que o número “60°C”, que faz parte do nome do projeto, inicialmente não era esse, mas com a sequência de temperaturas recordes que ultrapassaram sensações térmicas de 40°C, 50 °C, e, mais recentemente 60 °C, atualizou a numeração do projeto.

A cidade registrou o recorde de 62,3°C no dia 17 de março de 2023. É a maior sensação térmica registrada desde 2014, quando o Sistema Alerta Rio começou a fazer a medição.  

  • Mecanismo de monitoramento de chuvas

No site da Defesa Civil do Rio de Janeiro há um manual explicativo sobre deslizamento e alguns sinais que podem identificar se o domicílio oferece algum risco. A prefeitura do Rio disponibiliza em seu site Alerta Rio o monitoramento em tempo real sobre a quantidade de chuva nos bairros da cidade.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) realiza diariamente a divulgação de boletins diários sobre áreas que estão passando por algum risco geo-hidrológico no momento. Junto ao Painel de Alerta, também do Cemaden, que categoriza em número o nível de alerta por estado.

Se você mora em um desses municípios – Angra dos Reis/RJ,  Blumenau/SC; Cachoeiro de Itapemirim/ES; Gaspar/SC; Indianópolis/MG; Morretes/PR; Muçum/RS; Petrópolis/RJ;  Roca Sales/RS; São Sebastião/SP;  União da Vitória/PR -, a Anatel notifica por mensagem de texto quando há locais de risco com iminente de desastres sem precisar ter um cadastro prévio na plataforma. A escolha de cidades a ofertar o serviço foi realizada a partir do volume de alertas emitidos em 2023 pela Defesa Civil e desastres recentes de grande impacto.

SERVIÇO

199 – Número da Defesa Civil.

193 – Corpo de Bombeiros.

192 – Ambulância

Em casos de emergência, como solicitação de vistoria,  acione esses órgãos.

Festival 3i discute desinformação e os interesses por trás dela

Festival 3i discute desinformação e os interesses por trás dela

Evento de jornalismo promovido pela Ajor aconteceu neste fim de semana no Rio de Janeiro

Por Everton Victor e Julia Lima

Mesa sobre Desinformação no Festival 3i. Da esquerda para a direita: Ellen Guerra Cerqueira, Talita Bedinelli, Max Resnik, Erick Terena. Foto: Julia Lima

Aquela mensagem alarmista repassada pelo WhatsApp, o corte específico de uma fala e até a manipulação de vídeos feita por IA: a desinformação não surge “do nada” e costuma estar atrelada a interesses econômicos e políticos. Este foi um dos debates centrais da 6° edição do Festival 3i, promovido pela Ajor (Associação de Jornalismo Digital) entre os dias 6 e 8 de junho na Glória, Zona Sul do Rio de Janeiro.

As redes sociais muitas vezes funcionam como grandes potencializadores da desinformação, e a falta de uma regulamentação específica fortalece estes discursos. O movimento anticiência, por exemplo, nega estudos e notícias comprovadamente verdadeiras, manipula informações e chega a colocar em risco a vida das pessoas – impulsionado pelos algoritmos das plataformas. Foi o que apontou a mesa “Construindo vínculos entre jornalismo e comunidades como estratégia de combate à desinformação”, do Festival 3i. 

Jornalista fundador do portal “Mídia Indígena”, Erick Terena

Erick Terena, fundador do portal Mídia Indígena, afirma que o jornalismo de território é um mecanismo crucial para combater a desinformação. Para ele, existe uma necessidade de um jornalismo preocupado essencialmente com o espaço onde está localizado, e não restrito ao eixo Rio-São Paulo-Brasília. “A gente não trabalha o jornalismo, a gente vê a comunicação como sobrevivência. Se deixarmos de nos comunicar, pessoas e biomas vão ser impactadas”, afirma.

De acordo com o Instituto Locomotiva, 90% dos brasileiros afirmam ter acreditado em alguma fake news. Uma das ações recentes pelo Judiciário sobre o tema foi durante a eleição presidencial de 2024. O Artigo 9 da Resolução 23.732/24 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) veda a “divulgação ou compartilhamento de fatos notoriamente inverídicos ou gravemente descontextualizados que atinjam a integridade do processo eleitoral”. Apesar da iniciativa, o Brasil não tem uma tipificação para outros contextos de desinformação.

A promoção da desinformação ganha liberdade e espaço nas redes, e a sensação de impunidade fortalece esses fenômenos fora delas. Entre os limites entre ativismo e jornalismo, Erick Terena reforçou no evento o dever de informar e o papel do jornalismo de se contrapor a desinformação. A defesa do meio ambiente, principalmente por conta de sua origem indígena, e o combate às notícias falsas ou manipuladas são ferramentas em que, segundo ele, não existem lados a serem disputados. “Ativismo não é uma profissão, nós fazemos isso há milhares de anos”, afirma. 

O Brasil não possui legislação sobre regulamentação das redes sociais, mas discute Projetos de Lei (PL) sobre o tema. Está em tramitação no Congresso Nacional o PL 2338/23, que institui um marco legal com mecanismos e orientações para regulamentar a inteligência artificial no Brasil. Em paralelo, também tramita no Congresso o PL 2.159/21, apelidado “PL da Devastação”. Entre as ações está a flexibilização do licenciamento ambiental, o que pode expandir o desmatamento, de acordo com Greenpeace e outras organizações ambientais.

Ferramentas de checagem cada vez mais necessárias

Com o aumento da desinformação, fez-se necessária a criação de ferramentas e até sites inteiros focados apenas em esclarecer se as mensagens que circulam na internet são verdadeiras ou falsas. O Aos Fatos, criado em julho de 2015, é um dos veículos nascidos com essa proposta, e apresentou um de seus resultados durante o Festival 3i: no projeto Check-Up, a equipe do Aos Fatos pesquisou nove portais de notícias, mapeou anúncios em formato de matérias jornalísticas e concluiu que 90% deles espalham desinformação sobre saúde.

Leonardo Cazes, editor-executivo de Aos Fatos. Foto: Julia Lima

Leonardo Cazes, editor-executivo do site, afirmou que o trabalho demorou cerca de 6 meses. Usando ferramentas específicas, a equipe coletou 242 mil dos chamados anúncios nativos relacionados à saúde – as matérias pagas por anunciantes. Segundo ele, o principal tema é a cura “milagrosa” de doenças como diabetes e dores crônicas – que não têm cura cientificamente comprovada, apenas meios de controle. 

O jornalista aponta o uso do argumento de autoridade como o principal fator de convencimento nas desinformações, como falas inventadas do médico Drauzio Varella, e até a atribuição de funções falsas a instituições científicas: “Dizem que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) recomendou X remédios, quando na verdade ela só autoriza o uso das coisas”.

Chanceleres do BRICS reiteram necessidade de mudança da governança global

Chanceleres do BRICS reiteram necessidade de mudança da governança global

Com 11 países-membros e 9 convidados, a primeira reunião expandida dos BRICS discutiu reformas na gestão política e a reforçou apelo em defesa da paz

Por Everton Victor

Segundo dia de reunião de Ministros das Relações Exteriores no Palácio do Itamaraty. Foto: Isabela Castilho I BRICS Brasil

Em seu primeiro encontro, os chanceleres dos países integrantes dos BRICS defenderam a necessidade de que o bloco dos países emergentes não seja ideológico, mas multipolar. Foi a primeira reunião dos chanceleres após a expansão do agrupamento, agora com 11 países-membros e 9 parceiros. Os representantes se reuniram nos dias 28 e 29 de abril, no Palácio do Itamaraty, Centro do Rio. 

Entre os consensos do encontro estavam o endosso à reforma da governança global e a mecanismos financeiros internacionais, além do rechaço a guerras e a defesa do compartilhamento de conhecimento nas áreas de saúde e tecnologia. Apesar de o documento oficial do encontro ainda não ter sido divulgado, as diferenças dos países não foram maiores do que o consenso em temas comuns, segundo Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil. A reorganização da governança global foi um desses consensos. 

Na prática, os países do Sul Global pedem uma maior diversidade nas instituições internacionais da geopolítica, inclusive no Conselho de Segurança da ONU, composto desde 1945 por cinco membros permanentes com direito a veto  e dez não permanentes sem direito a veto.

Segundo dia de reunião de Ministros. Foto: Isabela Castilho | BRICS Brasil

O movimento pela reforma do Conselho de Segurança não é recente. Cúpulas anteriores dos BRICS e outros foros de relevância internacional também pressionam pela reorganização da governança global. Durante o G20 no ano passado, por exemplo, o tema também apareceu na declaração final dos líderes. O consenso dos países integrantes do G20 – com China, Rússia, Estados Unidos, França e Reino Unido, os cinco membros permanentes do Conselho – já sugeriu a reforma do Conselho de Segurança e do secretariado da ONU, a fim de incluir mais mulheres e países da Ásia, África, América Latina e Caribe nesses colegiados.

De acordo com Pablo Saturnino, professor do Instituto de Relações Internacionais da Uerj, a ascensão do Sul Global em um contexto de crescimento econômico, aliada à crise dos países desenvolvidos, pode contribuir no avanço da reorganização da governança global. O protagonismo chinês no mundo é um exemplo disso, segundo Saturnino. No ano passado, o Produto Interno Bruto da China foi de 134.9 trilhões de yuans (em torno de 18,5 trilhões de dólares) , um crescimento de 5% em relação ao ano anterior,  segundo o Departamento Nacional de Estatística da China (DNE).

Saturnino afirma que a relevância do Brasil presidir o agrupamento desta vez com mais membros é entender a capacidade prática de diálogo em questões complexas que o país sempre levantou, como transição energética, direitos humanos e a paz mundial. O primeiro encontro dos chanceleres dos BRICS já mostrou alguns desses indícios da capacidade de mediação e liderança do Brasil. 

Neste primeiro encontro, o grupo de chanceleres também endossou o “rechaço” ao protecionismo – em sinalização a um mundo cada vez mais multipolar, com maior participação do Sul Global nas organizações financeiras internacionais, como o Fundo Monetário Internacional e Organização Mundial do Comércio. 

A primeira reunião sinaliza questões de consenso entre os integrantes dos BRICS quando seus líderes se reunirem entre os dias 6 e 7 de julho na cidade do Rio. “Os chanceleres representam um arranjo preparativo para o encontro dos chefes de Estado. É uma forma de produzir convergências e deixar o processo de negociação mais afinado”, explica o professor Saturnino.

Coletiva com o ministro das Relações Exteriores do Brasil Mauro Vieira. Foto:Leticia Santana I Agenc Uerj

O ministro Mauro Vieira afirmou que a primeira reunião construiu pontes. Temas comuns a todos ganharam mais espaço que as diferenças. Além dos fundadores Brasil, África do Sul, China, Índia e Rússia, outras nações passaram a integrar o bloco e participar das discussões. Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã agora também integram o foro. Belarus, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Malásia, Tailândia, Uganda, Uzbequistão, e, mais recentemente, Nigéria,  irão participar de algumas reuniões como convidados.

Organizações da sociedade civil apresentam reivindicações a representantes do BRICS

Organizações da sociedade civil apresentam reivindicações a representantes do BRICS

Documento da iniciativa People To People inclui demandas como menor dependência do dólar e maior presença do banco de desenvolvimento em países do Sul Global

Por Everton Victor

Deputado Federal Fausto Pinato, senador Humberto Costa, presidente do MST João Paulo e o secretário nacional da Juventude Ronaldo Sorriso (da esquerda para a direita). Foto: Leticia Santana

Em meio a tarifaços de Trump e instabilidade global com a escalada da guerra comercial entre Estados Unidos e China, representantes da sociedade civil dos países emergentes elaboraram um documento com suas demandas, entregue na última quinta (24) aos representantes dos BRICS. Entre as reivindicações, estão a  redução da dependência do dólar; atuação maior do NBD (Novo Banco de Desenvolvimento), o banco dos BRICS, nos países do Sul Global; aproximação dos povos dos países integrantes dos BRICS e o fim das guerras. Estes foram alguns dos temas presentes no documento final da iniciativa People to People (P2P) dos BRICS.

Participaram da formulação das demandas aos Líderes dos BRICS, sociedade civil dos países membros. O documento ainda não foi divulgado oficialmente, mas parte de seu conteúdo foi citado em entrevista coletiva realizada no Centro Cultural Light, no Centro do Rio. O People to People, em tradução literal, Pessoas para Pessoas, é um mecanismo dos BRICS para aproximar a sociedade civil e órgãos não governamentais dos países integrantes do bloco. A ideia é aproximar essas populações dos debates que seus líderes estão travando.

De acordo com Fernanda Nanci, professora do Departamento de Relações Internacionais da Uerj, a participação da sociedade civil no Foro People to People indica um encontro dos BRICS mais atento ao que suas populações querem. “Ainda é cedo para afirmar que a sociedade civil exerce protagonismo nas decisões do BRICS, mas há sinais de abertura. É importante destacar que a participação destes atores é filtrada por governos, o que limita a influência da sociedade no BRICS”, explica.

João Pedro Stédile, coordenador do Movimento dos Sem Terra Foto: Maria Eduarda Galdino

João Pedro Stédile, coordenador do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), afirmou que o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) é uma das sugestões do People To People. O grupo reforçou que o banco desenvolvimentista comandado pela ex-presidenta do Brasil Dilma Rousseff deve intensificar investimentos em industrialização do Sul Global e, para isso, seria necessário um maior aporte dos países-membros na instituição.

Frente aos tarifaços de Donald Trump em diversos países, em especial a China, que chegou a ser taxada em 245%, a sociedade civil, também segundo Stédile, propôs medidas para uma menor dependência de suas nações em relação ao dólar. 

O  People To People não está restrito apenas à sociedade civil. Think tanks, empresas privadas e outros entes não governamentais também podem participar. Ao todo 11 países são membros dos BRICS: Brasil, África do Sul, Arábia Saudita,  China, Rússia, Egito, Índia, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã.

A paz do mundo e a inserção de outras sociedades como prioridades para as economias emergentes também ganharam espaço no documento. Os movimentos sociais brasileiros cobraram que o encontro dos BRICS seja cada vez mais internacionalista, com mais países integrando o agrupamento. Para isso se concretizar, além da nação convidada aceitar, os demais países membros precisam concordar.

O desafio de uma maior participação também está representado nos entraves, diálogos e debates de diferentes culturas e povos que compõem os BRICS. O agrupamento é responsável por mais de 40% da população mundial, segundo o Fórum Econômico Mundial. Parte desta população vive sob governos autoritários, como o Irã, investigado pela Organização das Nações Unidas (ONU) por violar os direitos humanos e cometer crimes contra a humanidade em 2022. O Irã estava sob  uma onda de protestos após a jovem Mahsa Amini (22), presa por “não usar o hijab corretamente”, morrer sob custódia da polícia após sofrer uma parada cardíaca e entrar em coma, segundo as autoridades locais. 

Apesar das diferenças, a professora acredita na viabilidade de que esses espaços tragam algum avanço nas questões de direitos humanos nos países-membros, através de trocas e demandas coletivas das sociedades integrantes dos países emergentes.

“A participação da sociedade é muito importante para inclusive questionar os regimes autoritários que integram o grupo BRICS, onde não há espaço para uma ampla participação social em decisões e onde existem denúncias de violações de direitos humanos, espaços sociais do BRICS podem gerar pressões para estes Estados terem mais atenção aos temas de direitos humanos e diálogo com a sociedade”.