Hospital Universitário Pedro Ernesto precisa de doação de sangue tipo O

Hospital Universitário Pedro Ernesto precisa de doação de sangue tipo O

Saiba quais são os critérios para ser um doador e a importância de doar sangue regularmente  

Por: Sofia Inerelli

Foto: Pessoa doando sangue – Empresa de Brasileira de Comunicação (Agência Brasil)

 

O Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), ligado à Uerj,  está com o estoque de sangue tipo O muito abaixo do ideal, e pede à população mais doações. Todos os outros tipos sanguíneos serão aceitos pela instituição, mas, como apontou a hemoterapeuta e professora associada da Faculdade de Ciências Médicas da Uerj, Flávia Bandeira, o sangue tipo O é o mais necessário no momento. As doações podem ser feitas no próprio hemocentro do HUPE, que fica aberto de segunda a sexta-feira das 9h às 15h. 

 

Há um apelo também para que as doações sejam mais regulares, assim os hemocentros não correm risco de ficarem zerados e sem conseguir socorrer os pacientes. A demanda é alta pois a transfusão sanguínea atende muita gente e não se restringe apenas a quem perdeu grandes quantidades de sangue em acidentes ou cirurgias. Pessoas com anemia falciforme, talassemia, câncer hematológico e problemas renais crônicos são outras que necessitam de transfusões, uma vez que estas fazem parte do tratamento. 

 

Como o sangue demora a ser liberado ao paciente, é imprescindível ter em bancos sanguíneos um estoque mínimo. São necessárias de 24 a 36 horas para que o sangue doado passe por todos os testes capazes de verificar a presença de doenças como hepatite B, hepatite C, doença de Chagas, sífilis, AIDS e HTLV I/II. A depender da gravidade do paciente, mesmo que chegue um doador, esperar todo esse tempo pode não ser possível. Por isso a importância de ter nos hospitais uma reserva, com sangue que já foi testado e que está pronto para ser doado.

 

De acordo com a médica, para ter uma reserva de sangue é preciso tornar as doações um hábito. Essa ainda não é uma realidade no Brasil, pois cerca de 98% da população não doa regularmente, segundo o Ministério da Saúde.

 

Doar sangue não é complicado, em 15 minutos você doa uma bolsa de sangue que pode chegar a salvar até 4 vidas. 

 

Para que o processo ocorra com segurança é preciso seguir algumas orientações:

 

  • Ter idade entre 16 e 69 anos (menores de 18 anos devem apresentar consentimento formal do responsável legal).
  • Pessoas com idade entre 60 e 69 anos só poderão doar sangue se já o tiverem feito antes dos 60 anos.
  • Apresentar documento de identificação com foto emitido por órgão oficial (carteira de identidade, carteira nacional de habilitação, carteira de trabalho, passaporte, registro nacional de estrangeiro, certificado de reservista e carteira profissional emitida por classe). São aceitos documentos digitais com foto.
  • Pesar no mínimo 50 kg.
  • Ter dormido pelo menos 6 horas nas últimas 24 horas.
  • Estar alimentado. Evitar alimentos gordurosos nas 3 horas que antecedem a doação de sangue. Caso seja após o almoço, aguardar 2 horas.

Fique atento também para o  que pode te impedir temporariamente de doar sangue: 

  • Caso a pessoa apresente sintomas gripais, de resfriado ou tenha sido  diagnosticada com covid-19, recomenda-se aguardar até 15 dias após o fim dos sintomas;
  • Não é recomendado doar sangue durante o período gravidez; é preciso aguardar por até três meses após o parto normal, seis meses em casos de cesariana e até 12 meses se a mulher estiver amamentando (contados a partir da data do parto);
  • Ter feito tatuagem, piercing ou procedimentos estéticos mais invasivos (como a micropigmentação) nos últimos 12 meses. O prazo pode diminuir para seis meses se o candidato à doação apresentar foto do registro do estúdio no órgão de vigilância sanitária e nota fiscal do estabelecimento. O piercing em cavidade oral ou região genital impede a doação;
  • A extração de um dente também impossibilita a doação em até 72 horas após o procedimento;
  • Caso a pessoa tenha feito transfusão sanguínea, deverá aguardar até um ano para doar sangue;
  • A vacinação também pode ser um impeditivo, e o tempo pode variar de acordo com o tipo de vacina aplicada;
  • Ter sido exposto(a) a alguma situação de risco para infecções sexualmente transmissíveis; Nesses casos, deve-se aguardar até 12 meses após a exposição.

Serviço

  • Boulevard 28 de setembro, 109, ao lado do Hupe 
  • Das 9h às 15h, de segunda à sexta-feira

Projetos de extensão encurtam distância entre ensino médio e universidade pública

Projetos de extensão encurtam distância entre ensino médio e universidade pública

Rede de iniciativas da Uerj Campus Zona Oeste organiza visitas a colégios da região para mostrar que ensino superior é para todos 

por: Murilo Santos

Universitários apresentam projeto de biologia a estudante do ensino médio. Foto: Fernanda Marinho/Biodialogando

 

A Uerj Campus Zona Oeste fica a alguns minutos de caminhada do Colégio Estadual Albert Sabin, mas para muitos secundaristas a possibilidade de estar em contato com a universidade pública ainda é distante como outro país pela surrealidade de se entrar na universidade. A Rede Solidária de Projetos de Extensão, idealizada em 2022, leva a universidade às entidades que desejam essa proximidade com a academia, em especial às escolas públicas que querem mostrar que o ensino superior é para todos.

 

A iniciativa nasceu de três professoras do curso de Farmácia da Uerj: Carmelinda Afonso, Sabrina Dias e Bárbara Lorca. O ponto de partida foi a escola da filha de uma delas. Os alunos receberam bem e a partir daí a rede foi se expandindo para outras escolas, processo facilitado pelo fato de a professora Sabrina ser natural de Campo Grande e conhecer muitos professores e coordenadores da região, tanto de escolas públicas quanto particulares.

 

Com o tempo, a rede foi além do curso de Farmácia e passou a reunir projetos de todos os cursos da Faculdade de Ciências Biológicas e Saúde do campus da Zona Oeste. Um deles é o Biodialogando, do curso de Biologia, com ênfase em biotecnologia, idealizado pela professora Eidy Santos junto a alunos que sentiam a falta de projetos na área. Hoje a rede conta com 10 projetos de extensão filiados à rede.

 

O projeto Biodialogando, por exemplo, se utiliza de atividades visuais e experimentos ao vivo para captar a atenção dos visitantes;  já o Recado Farmacêutico da professora Barbara usa jogos e atividades lúdicas para ensinar sobre medicamentos. Todos captaram a atenção dos alunos, mas de longe o que mais recebeu olhares foi o Uerj ecológico, que levou répteis conservados para os jovens tocarem e verem ao vivo. A professora Vanderlane Menezes, que coordena o projeto, busca demonstrar que a sociedade e a natureza estão interligadas. 

 

A visita ao Colégio Estadual Albert Sabin ocorreu com a temática da semana do meio ambiente. O tema da visita varia de acordo com a necessidade de cada escola e, a partir dessa escolha, os universitários preparam suas apresentações para seguir os assuntos propostos 

 

A receptividade entre os jovens visitados tem sido boa. Enzo, 18 anos, aluno do Colégio Estadual Albert Sabin, resume o efeito da visita: “É bom para incentivar quem quer alguma coisa. Tem muita gente que não quer nada, mas quem quer, isso aqui faz diferença.” A professora Carmelinda Afonso, uma das fundadoras e coordenadora da rede, ressalta que um dos principais eixos é mostrar, pelo próprio perfil dos universitários que tocam os projetos, que ingressar numa universidade pública é possível. “Para essas crianças, estar na Uerj parece impossível. A gente mostra que não é, porque nossos alunos também são pobres. A rede tem essa missão: descortinar o mundo para eles e quebrar o elitismo que existe dentro da universidade.”

 

Os ganhos para quem participa como extensionista vão além do currículo. “A gente aprende a falar com o público, isso é muito importante pra faculdade, pra seminário, pra qualquer apresentação”, diz Frederico Maia, aluno de Biologia do oitavo período e integrante do Biodialogando. A rede de contatos e as horas complementares vêm junto, mas o que ele destaca é a desenvoltura que só se aprende na prática. Luana Araújo, bolsista do projeto Recado Farmacêutico, aponta outro ganho: a capacidade de improvisar conforme as necessidades de cada lugar, habilidade que, segundo ela, já a beneficia profissionalmente.

 

A Uerj da Zona Oeste ainda não tem sede própria. Hoje, a antiga Uezo funciona nos fundos de um colégio estadual que a abriga há mais de 20 anos em caráter temporário. Uma das principais reivindicações de servidores e estudantes em greve é a construção do campus no centro de Campo Grande. Os professores ressaltam a urgência da obra e o impacto que ela teria na ampliação dos laboratórios, no reconhecimento institucional da universidade e na capacidade de atrair novos alunos.

A Rede Solidária pode ser contactada através do Instagram @rspe.uer

“FeminIA”: como a tecnologia pode ajudar no combate à violência contra a mulher

“FeminIA”: como a tecnologia pode ajudar no combate à violência contra a mulher

Projetos de jornalistas brasileiras buscam promover  equidade de gênero diante do avanço da misoginia nas redes 

Por: Júlia Martins

Mulher digitando em um computador / Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil
 

Duas ferramentas de inteligência artificial criadas por veículos nativos digitais abrem novas frentes de luta diante da violência de gênero. O Radar Anti Gênero, criado pelo site Gênero e Número, e a QuitérIA, do Instituto AZMINA, vão monitorar e coletar dados sobre discussões e violência de gênero, de forma mais rápida e eficaz. Embora cada ferramenta atue em um meio diferente, ambas representam mais do que a automatização de um trabalho que antes era manual – mostram a importância de resistir e ocupar espaços que são usados como meio de propagar preconceitos. Com as grandes empresas de tecnologia e a IA sendo palco para fortalecer desigualdades, essas iniciativas têm como objetivo usar a inovação para produzir transparência, conhecimento público e fortalecer a democracia. 

 

A QuitérIA foi desenvolvida em 2025 pelo Instituto AZMINA em homenagem a Maria Quitéria, heroína da independência e a primeira mulher a integrar as Forças Armadas. A ferramenta faz parte do projeto “Elas no congresso”, que existe desde 2019 e monitora todo o poder legislativo levando em base as pautas de gênero e pessoas LGBTQIAPN+.  A QuitérIA foi treinada para monitorar, analisar e classificar Projetos de Lei (PLs) e seus impactos, positivos ou negativos, na vida de meninas, mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, com o objetivo de acelerar essa coleta de dados, visto que existe um grande número de projetos sendo discutidos. O programa classifica cada projeto em uma escala de 0 a 1, sendo 0 a avaliação mais desfavorável e 1 a mais favorável para esses grupos minoritários. Isso facilita o entendimento sobre cada Projeto de Lei na prática, além de conter o nome e partido do autor de cada proposta na Câmara. 

Todos os resultados da QuitérIA passam por validação humana, e atualmente a ferramenta está disponível para consulta por meio de uma planilha no site do Instituto AZMINA. A ideia é que ela esteja disponível em um dashboard para consulta pública em breve.  O Instituto AZMINA é uma organização sem fins lucrativos e atua desde 2015 na luta pela igualdade de gênero. Além do “Elas no congresso” e da QuitérIA, a organização possui uma revista digital e um aplicativo para enfrentamento à violência doméstica.

 

Reprodução do site “Elas no Congresso” / Foto: Elas no Congresso

 

O Radar AntiGênero foi criado em 2023 pela Gênero e Número para monitorar a circulação do discurso misógino no Youtube e encontrar padrões usados para disseminar esses conteúdos. A IA trabalha na organização e classificação dos dados, a fim de serem validados por um ser humano e chegar em evidências mais acessíveis. O objetivo final do Radar é que a sociedade consiga entender como esses discursos se difundem nas redes, como são organizados,  como o algoritmo funciona nesses casos, quais são os tipos de falas utilizadas e como isso influencia a opinião pública. Apenas durante o mês de maio deste ano, o Radar identificou mais de 500 conteúdos no Youtube com discurso antigênero, sendo os papéis de gênero, a moralidade e o antifeminismo os temas mais abordados.

A IA também organiza quem são os alvos mais frequentes desses conteúdos e criou um “Top 10” com os 10 canais que mais reproduzem esse tipo de discurso. Todos os dados coletados pela QuitérIA e pelo Radar Anti Gênero estão disponíveis para consulta, e podem ser usados por organizações públicas, jornalistas e para medidas de políticas públicas. A Gênero e Número é uma plataforma de jornalismo criada em 2016 com foco em transformar dados que atravessam gênero, raça e número na América Latina em narrativas, e contribuir para que esses dados se tornem parte do debate público.

Reprodução do site Radar Anti gênero / Foto: Radar Anti gênero

 

Apesar da Lei 13.642, criada em 2018 para punir a divulgação de conteúdos que propaguem o ódio às mulheres, as plataformas digitais se tornaram um palco seguro para esse tipo de discurso. Um exemplo disso é a “Grock”, inteligência artificial da rede social X, que foi alvo de diversas denúncias ao ser usada para modificar fotos publicadas na rede e gerar conteúdo pornográfico de mulheres e crianças sem o seu consentimento. Dados divulgados pelo Ministério das Mulheres em junho deste ano mostram que as denúncias de violência contra mulher no meio digital cresceram em mais de 180% em comparação com 2025, com mais de 16 mil ligações para a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 com denúncias desse tipo. Uma das explicações sobre casos de preconceito na IA é pensar em quem a desenvolveu – grande parte das big techs (grandes empresas que comandam o mercado de tecnologia e inovação) estão alinhadas aos interesses da extrema direita, fortalecendo relações de poder já existentes e ampliando preconceitos.

 

Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número, destaca como essas tecnologias podem reproduzir e amplificar desigualdades: “É preciso reconhecer que a tecnologia não é neutra, que suas aplicações dependem muito das perguntas que fazemos, dos dados utilizados e da visão de quem produz aquele projeto.” Para Marília Moreira, diretora institucional do Instituto AZMINA, é preciso pensar também em como ocupar esse espaço: “Não somos avessas à IA e achamos que ela pode nos ajudar na otimização do tempo […] É pensar que os sistemas das grandes big techs estão aí, mas que é preciso desenvolver os nossos próprios sistemas e pensar nas nossas lógicas, garantindo privacidade, segurança e confiabilidade dos dados.”

 

No cenário das eleições, a pauta de gênero é muito usada para atacar candidatas e contestar direitos já existentes. O Radar Anti Gênero e a QuitérIA buscam contribuir de forma positiva nesse contexto ao oferecer informações qualificadas e monitoramento contínuo. Marília destaca a importância da QuitérIA e ferramentas similares nesse período: “A gente quer contribuir de forma positiva nesse cenário que vai ser de muita desinformação, trazendo informação qualificada e com essa perspectiva feminista. Não apenas classificar se o projeto (de lei) é favorável ou não mas explicar nessa perspectiva feminista, pensando nos direitos das mulheres, e queremos deixar o projeto ainda mais público.” Vitória reforça como a IA, caso usada sem reforçar esses preconceitos, pode ser útil para combatê-los: “Nesse momento, em que a inteligência artificial é muita associada à ampliação de desigualdades e reprodução de opressões, a aposta da Gênero e Número foi mostrar que a inteligência artificial também pode ser usada para algo positivo.”

Cérebro podre: como o celular está destruindo a geração que ainda não terminou de se formar

Cérebro podre: como o celular está destruindo a geração que ainda não terminou de se formar

Do “Tralalero Tralala” à incapacidade de escrever uma redação, o uso excessivo de telas está moldando uma geração inteira – para pior

Por: Murilo Santos

Criança com perfil aberto em redes sociais.Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
 

De um lado, uma professora tenta atrair a atenção dos alunos. Mas, sentados nas carteiras escolares, os estudantes estão fixados em vídeos de três segundos, projetados para viciar crianças cada vez mais incapazes de sustentar atenção por tempo suficiente para aprender. Há um nome para isso: brainrot, “cérebro podre”, em tradução livre. E o principal suspeito é o celular na mão de quem ainda não terminou de se desenvolver.

O brainrot é um termo que se popularizou devido a uma série de conteúdos sem nenhum sentido que têm viralizado. O último foi o “six seven”, que teve origem num vídeo feito nos Estados Unidos, no qual um adolescente mexe os braços e fala 6-7, numa suposta referência à altura de um jogador de basquete de seu time. O vídeo se espalhou e, por todo o mudo, as pessoas repetem o 6-7 sem saber o que ele quer dizer – e sem que isso tenha a menor importância. Outros vídeos da leva brainrot foram os criados por IA, como o “Tralalero Tralala”, que mostra um tubarão com pernas usando tênis da Nike. Os vídeos se espalharam, viraram febre principalmente entre crianças, e preocupam pela falta de lógica e pela facilidade com que foram “viciando” os usuários.vicia.

Para o ativista pela infância e pediatra Daniel Becker, esse fenômeno compromete diretamente a formação da personalidade. É no tédio, diz ele, que o sujeito se constrói. Quando a criança fica sem estímulo, pensa, inventa, observa o mundo e desenvolve sua subjetividade e racionalidade. Com as redes sociais entregando conteúdo novo a cada segundo, esse espaço desaparece. O brainrot, diz Becker, é o oposto disso.

Quem está na linha de frente sente no cotidiano. A professora Danielle Viana leciona na Escola Municipal Roberto Coelho, na zona oeste do Rio, que registrou o melhor resultado do IDEB entre as escolas municipais da capital no último exame. A escola atende crianças do primeiro ao quinto ano. Danielle descreve uma geração cada vez mais imediatista, ansiosa, com dificuldade de concentração e incapaz de lidar com a frustração. Os memes brainrot estão na sala de aula: as crianças reproduzem falas e bordões sem compreender o que significam e, mais grave, sem nunca terem exercitado a própria criatividade para criar algo. Importam tudo da tela. “O cérebro começa a não conseguir mais funcionar no mundo”, alerta Becker. “E aí você vai ter um problema muito sério na vida.”

 

No ensino fundamental 1, o problema se concentra, segundo os professores entrevistados pela Agenc, nas danças repetitivas, falas desconexas e apatia pelo conhecimento. A coordenadora pedagógica  da escola Roberto Coelho, Rachel Moraes, é direta: “O problema tem aparecido com danças excessivas, baixo estímulo diante do aprendizado. Posso dizer que a escola não faz mais sentido para os alunos.”

Segundo um levantamento da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o DataFolha de 2025, 78% das crianças de 0 a 3 anos têm contato com tela, com média diária de 2 horas por dia, muito mais do que o recomendado. A situação é pior entre crianças de 4 a 6 anos, faixa em que a média diária sobe para 3 horas, com 94% das crianças expostas. O saudável, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, no pior dos casos, é de uma hora de exposição a telas na faixa etária de  0 a 2 anos e 2 horas para quem tem de 2 a 5 anos.

Na avaliação do médico Daniel Becker, pela primeira vez na história uma geração não avançou no índice de Qi – que, para ele, sequer é o melhor parâmetro para medir inteligência, mas aponta a gravidade da situação.

No ensino fundamental 2, o antigo ginásio, momento em que as crianças se tornam pré-adolescentes, o quadro se agrava. Os problemas de socialização aparecem com mais vigor, e o ambiente virtual começa a invadir o espaço escolar com consequências concretas. Os crescentes casos de cyberbullying confirmam isso: segundo a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE) do IBGE, 27,2% dos estudantes já sofreram cyberbullying, contra 23% em 2019, um aumento de 18% em apenas alguns anos.

 

O mais preocupante é que os casos virtuais de bullying estão virando situações reais. Segundo os professores Rafael Leal e Karine Kopp, diretor e coordenadora pedagógica da Escola Municipal Joaquim da Silva Gomes, na zona oeste do Rio, que atende muitos adolescentes vítimas de bullying virtual, é cotidiano lidar com situações do ambiente virtual que saltam para dentro da escola: “Muitas das vezes com nomes de alunos, com nomes de funcionários, com a intenção de prejudicar. Há a criação de perfis falsos. E isso vem para a escola, porque são pessoas que têm uma relação social dentro da escola e levam ao ambiente virtual, já que está tudo ligado atualmente”, diz Rafael.

Outro problema comum nas salas de aula tem sido a dificuldade dos alunos em prestar atenção. O desafio, comum a todas as gerações, se agravou com o fato de que crianças e adolescentes estão sendo  bombardeados com conteúdos que produzem uma pequena e breve satisfação e liberam dopamina,que é a substância liberada pelo cérebro em momentos de prazer e, Consequentemente, eles se viciam naqueles conteúdos.

Os professores entrevistados pela reportagem têm tempo de sala de aula variado, porém é consenso que o desafio é muito maior: a irritabilidade, a dificuldade de criatividade e a dispersão que se inicia entre 6 e 10 anos se tornam, na adolescência, a dificuldade de escrever uma redação de mais de 15 linhas, como relata a professora Karine Kopp, que além de coordenadora é professora de língua portuguesa. “Para os alunos de hoje, escrever é quase uma tortura: eles se expressam bem oralmente, mas travar o pensamento no papel é um bloqueio real. Uma redação de 15 linhas, que antes era considerada mínima, hoje parece uma bíblia para quem já luta para completar três. Isso torna o trabalho do professor de português cada vez mais árduo, especialmente diante da pressão pela redação do Enem.”

 

Todos esses problemas são consequência do uso excessivo de telas, que nem as escolas nem a sociedade estão preparadas para enfrentar. O que era ameaça se tornou realidade. Segundo Becker, as bigtechs operam usando o vício das pessoas, tal qual a indústria do tabaco, e o algoritmo não poupa as crianças. O psicólogo social Jonathan Haidt, professor da Universidade de Nova York e autor de A Geração Ansiosa, demonstrou que as redes sociais entregam conteúdo direcionado que corrói a autoestima das meninas e empurra conteúdo misógino para os meninos. A solução, diz Becker, passa por todos. Regulação das redes, parceria entre família e escola, e uma sociedade disposta a encarar o problema de frente. O diretor Rafael Leal concorda e vai além: a tecnologia, se bem usada, também pode ser parte da resposta. Mas para isso é preciso, primeiro, admitir o tamanho do estrago. Uma geração está crescendo com o cérebro disputado por algoritmos projetados para viciá-la, e o tempo de reagir está acabando.

Pesquisa afirma que ferramentas de IA criam rankings aleatórios de candidatos e pouco usam fontes oficiais

Pesquisa afirma que ferramentas de IA criam rankings aleatórios de candidatos e pouco usam fontes oficiais

Estudo “Boca de IA” monitora como os sete chatbots mais populares no Brasil tratam informações eleitorais e identifica alucinações em 4% dos casos, incluindo menção a candidatos inexistentes

Por: Murilo Santos| Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia

Karina Santos, coordenadora do ITSRio, apresentando resultados da pesquisa ‘Boca de IA’. Foto:Maria Eduarda Galdino.
 

Seis das sete ferramentas de inteligência artificial avaliadas por uma pesquisa do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro apresentaram algum grau de ranqueamento de candidatos em respostas sobre as eleições de 2026 — prática proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral. O estudo, chamado Boca de IA, foi apresentado no Festival 3i de Jornalismo, realizado em maio no Rio.

Um dos pontos centrais da pesquisa é o ranqueamento, ou seja, a ordem em que os candidatos são listados em uma consulta à ferramenta. Parte das plataformas utiliza pesquisas eleitorais como critério para ordenar os nomes, enquanto outras sequer explicam o motivo pela qual eles foram listados naquela ordem. No entanto, mesmo antes da proibição, nenhum chatbot indicava para votar no candidato x ou y, mas oferecia informações preliminares ao usuário.

O estudo, realizado em parceria com o Ministério Público Federal, busca entender melhor como as IAs e as big techs irão influenciar as eleições brasileiras. O TSE já proibiu os programas de recomendarem ou influenciarem direta ou indiretamente os eleitores, vedando práticas de ranqueamento, recomendação, sugestão ou priorização de candidaturas, ou qualquer forma de favorecimento político-eleitoral. A pesquisa utilizou como base as sete IAs mais utilizadas pelo público brasileiro: Grok, DeepSeek, Claude, Perplexity, ChatGPT, Meta IA e Gemini.

A pesquisa também analisou as fontes utilizadas como referência. Das respostas dadas pelas sete IAs, fontes oficiais como TSE, TREs e partidos são referenciadas em apenas 12% dos casos. Quando se observa o uso de fontes informacionais, como a imprensa, em 55% dos casos elas são citadas como referência. O dado mais intrigante é que em 4% dos casos as IAs entraram em alucinação, termo que descreve a produção de informações factualmente incorretas apresentadas pela ferramenta com aparência de veracidade. 

As alucinações também ficam evidentes no caso do Perplexity, ferramenta com o pior desempenho neste critério. Ao ser questionada sobre o melhor candidato para a área da saúde, a plataforma afirmou que não haveria eleições presidenciais no Brasil em 2026, negando a existência do próprio pleito sobre o qual estava sendo questionada. Já o DeepSeek respondeu à mesma pergunta citando uma ONG como se fosse candidato à presidência.

O estudo seguirá publicando relatórios mensais, segundo a coordenadora de democracia do instituto ITS Rio, Karina Santos, que esteve presente no Festival 3i. Conforme a proximidade das eleições aumentar, os relatórios passarão a ser quinzenais.

Festival 3i 2026: Para combater o Voldemort da IA, um jornalismo inspirado em Harry Potter

Festival 3i 2026: Para combater o Voldemort da IA, um jornalismo inspirado em Harry Potter

Mesa debateu estratégias para garantir sobrevivência financeira do jornalismo independente sem perder a credibilidade dos conteúdos Maria Luísa Fontes, da Agenc/Uerj| Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia

               Mesa “Presente e futuro da sustentabilidade financeira no jornalismo” durante o Festival 3i 2026. Foto: divulgação/Festival 3i
 

A cada dia que passa, jornais independentes tentam competir com as big techs; a cada dia, são superados pela discrepância de quantidade de conteúdo produzido. Diante dessa questão inevitável, a mesa  “Presente e futuro da sustentabilidade financeira no jornalismo”, realizada no último dia do Festival 3i 2026, apontou algumas possibilidades, entre eles que o caminho não é disputar leitores com grandes empresas, mas sim estabelecer uma relação de confiança e fidelidade com o público que consome seu produto.

 

O painel foi composto por José María León Cabrera (GK Ecuador), Madison Karas (Gazzetta), Guilherme Ravache (Valor Econômico), Shereen Daver (ClimateXChange) e mediado pela jornalista Vitória Régia da Silva, diretora do site Gênero e Número e presidente interina da Ajor (Associação de Jornalismo Digital), organizadora do festival. Logo no início do debate, os palestrantes afirmaram que a forma clássica de praticar o jornalismo, orientada por volume de notícias e rapidez de publicação, foi superada por grandes empresas de tecnologia, como Meta e Amazon, que estão dominando esses eixos. O Google, por exemplo, citado pelos convidados, começou como uma plataforma de busca que levava os leitores aos sites jornalísticos recomendados. Hoje em dia, a própria IA da empresa produz a notícia a partir da síntese que ela mesma faz das informações publicadas nos veículos jornalísticos.

 

Madison Karas afirmou que a palavra “sustentabilidade’’ é uma palavra muito vaga que pode ter vários significados, servindo tanto para descrever um estado que não está mais em modo de sobrevivência como para descrever um estado de lucro, com muito dinheiro sobrando. No entanto, a especialista disse que, mesmo que o dinheiro esteja crescendo, as operações estejam estabilizadas e a balança  favorável, ainda existe trabalho a ser feito, e as organizações devem estar “ativamente aprendendo o que as pessoas precisam e qual informação precisa ser divulgada”. 

 

“Se você é pautado na lógica do volume, você sempre vai estar na média, você nunca vai ter um conteúdo acima da média ou bom o suficiente para atrair as pessoas”, afirmou Ravache. Nesse sentido, o jornalismo independente, ao contrário de tentar alcançar o modelo de produção das IAs, precisa distribuir suas reportagens orientado pelo interesse do leitor sobre determinada informação. Para isso, é necessário que essas pequenas empresas conversem com seus públicos para identificar sobre qual  assunto eles estão buscando se informar. 

 

Os palestrantes ressaltaram que não se deve ficar preso a análises digitais que envolvam apenas números e gráficos, mas que as organizações jornalísticas devem perguntar o que seus leitores estão interessados em descobrir. Segundo Ravache, as pessoas não podem ser tratadas como “planilhas de Excel”, sendo necessário explorar convicções e valores dos consumidores. Para Daver, é preciso entender a audiência não apenas como usuários, mas como humanos que têm necessidades e condições que precisam ser atendidas pelos produtos jornalísticos.

 

Para Cabrera, é importante entender a diferença entre os conceitos de produto e serviço: produto é o conteúdo em si, ou seja, o que foi apurado, escrito e publicado, enquanto serviço significa a forma com que esse conteúdo atingiu o público e o que as pessoas entenderam sobre o que foi lançado.  Em suas palavras, a discussão principal para o jornalismo hoje gira em torno de como conservar “a humanidade e o sentido de serviço para a sociedade, contando o que acontece no mundo”. 

 

Para conseguir aplicar essas estratégias, Daver defendeu que o jornalista independente precisa, para além de ser empreendedor, ter uma mente empreendedora, disposta a inovar e se adaptar às mudanças tecnológicas e comerciais. Por isso, ter um plano de negócios é fundamental para uma pequena empresa crescer. Ela afirmou que é necessário saber o porquê de o produto existir, entender qual o público-alvo desse produto e pensar um pouco “fora da caixa”, pois existem vários tipos de audiências que podem se encaixar com seu produto.  

 

Daver, ao ser perguntada sobre como ser inovador no jornalismo sem cair numa lógica completamente tecnológica e desconectada do propósito de servir ao público, refletiu sobre a mentalidade dos investidores. “Eles (investidores) buscam valor e a razão dos produtos existirem, e eles olham para as pessoas que estão por trás dos produtos e dos fundadores. Eles querem olhar nos olhos dos fundadores e saber quem eles são”, comentou a estrategista de inovação

 

Ainda nessa linha do planejamento financeiro, é preciso compreender que o jornalismo independente funciona como qualquer outra empresa e depende do lucro para se sustentar. Mas como alcançar isso sendo parte  de uma imprensa independente que não funciona de acordo com a lógica das big techs? O pequeno empreendedor precisa buscar o diferencial que o distingue de outras empresas, estudando metodologias que incentivem o leitor a preferir o seu jornal. 

 

Fazendo alusão à fantasia literária, Cabrera afirmou que “a inteligência artificial (IA) é como Voldemort [o vilão da saga Harry Potter]. É poderosa, mas não tem corpo. Então, nesse momento da saga, esses monstros não têm corporalidade”. E, para enfrentar Voldemort, completa, “temos que ser ainda como Harry Potter: pensar que a humanidade, com estratégia, com disciplina, com talento, com estrutura financeira, sim, vai levar a gente a um lugar melhor do que a produção por uma coisa que a gente não sabe o que que é”. 

 

Ainda que Cabrera não descarte a utilidade ou importância das IAs, ele argumenta que a grande satisfação não é ver a quantidade de visualizações que um conteúdo atinge, e sim perceber “que uma pequena comunidade saiba e sinta que a notícia é dita”. Ele valoriza a necessidade de se conectar com o ser humano, se conectar com as pessoas e aprender o valor do sorriso, da reação de uma pessoa ao ler uma matéria. O equatoriano completou o raciocínio dizendo: “Temos que conservar o coração da nossa tarefa e não ter medo do futuro”.

 

Ao encerrar a mesa, Vitória Régia da Silva destacou que pensar no jornalismo sustentável é pensar num jornalismo “plural, diverso, de diferentes escalas, que trata de diferentes temas”, seja esse jornalismo investigativo, de dados ou local. De acordo com a jornalista, as lições retiradas da mesa foram as diversas formas de fazer jornalismo sustentável, e para isso é preciso construir organizações capazes de experimentar, de inovar e de testar novas alternativas de sustentabilidade – tudo isso sem perder de foco seu propósito e o porquê de elas terem sido inicialmente criadas.

Jazmín Acuña: “O jornalismo de mudança busca melhorar a vida das pessoas”

Jazmín Acuña: “O jornalismo de mudança busca melhorar a vida das pessoas”

Criadora do veículo El Surtidor e premiada internacionalmente, a paraguaia afirma que, mesmo em tempos de  inteligência artificial, jornalismo nunca foi tão relevante como agora

Samira Santos, da Agenc/Uerj | Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia

                            Jazmín Acuña entrevistando Tomás Vizzón (Foto: Divulgação/ Festival 3i)
 

A jornalista paraguaia Jazmín Acuña é cofundadora e diretora editorial do El Surti, veículo referência em jornalismo visual na América Latina, e vê na transformação constante o caminho para o jornalismo estar sempre conectado com o público. Consolidada como uma das vozes mais inovadoras da região, há quase 15 anos ela se dedica aos temas  de acesso à informação e aos direitos humanos. 

 

Integrante da Rede Global de Jornalismo Investigativo, Jazmín levou sua experiência ao Reuters Institute da Universidade de Oxford, onde desenvolveu o conceito de Jornalismo de Mudança – a ideia segundo a qual o jornalismo, mais do que produzir conteúdo, meça seu sucesso pela qualidade da transformação social que promove, conectando e inspirando o público a agir diante de crises como a climática e a de desinformação. A trajetória de Jazmín acumula prêmios prestigiados, como Gabriel García Márquez (2018) e o Ortega y Gasset (2020), por investigações sobre desmatamento e o avanço do fundamentalismo. Em entrevista ao Foca no 3i, a jornalista analisou o papel do jornalismo digital como instrumento de mudança.

 

Foca no 3i: O que é jornalismo de mudança?

É uma proposta para abordarmos o nosso ofício de forma mais intencional. É um jornalismo que busca, de forma explícita, que a vida das pessoas, de suas comunidades e das sociedades melhore. Nele, a publicação não é o ponto final do nosso trabalho; às vezes, é apenas o início. Buscamos um impacto tangível na vida das pessoas, que vá além dos números, das métricas de alcance ou das impressões nas redes sociais. Queremos mudanças concretas para que as pessoas digam: “O jornalismo ajudou a melhorar a minha vida”. Além disso, construímos relações muito mais horizontais com o público, propondo experiências coletivas para processar a informação.




Quem é você? Se você fosse se definir em uma palavra, qual seria?

Eu sou Jazmín Acuña, cofundadora do El Surtidor, um veículo nativo digital que nasceu no Paraguai e agora está se expandindo pela região. Se eu tivesse que escolher uma palavra, seria otimista. Sou muito otimista. Uma amiga costumava dizer que na análise eu sou pessimista, mas na prática sou muito otimista. Estou sempre tentando pensar em como podemos superar os nossos desafios mais urgentes.

 

Por que escolheu o jornalismo?

Porque quero mudar as coisas. Existem coisas com as quais eu não estava e continuo não estando de acordo, coisas que me deixam muito inconformada, e o jornalismo para mim é um veículo, uma ferramenta para a mudança.

 

Qual a sua visão para o futuro do jornalismo?

Para mim, o futuro do jornalismo vai ser um futuro muito mais próximo das pessoas. Essa é a minha visão.

 

Quais as suas referências? Quem ou o que te inspira?

Muitas pessoas me inspiram. Os veículos nativos digitais da América Latina continuam me inspirando muito. Na verdade, fundamos o El Surtidor porque vimos que outros estavam fazendo isso, aproveitando a internet para canalizar histórias que estavam sendo invisibilizadas. Dez anos depois, continuo olhando para muitos deles como inspiração, como o Mutante, da Colômbia. Também me inspiram muito as rádios comunitárias da América Latina, principalmente as que servem para denunciar injustiças e que estão muito imersas em suas comunidades.

 

O que é mudança para você e qual conselho você daria para os jornalistas mais jovens?

A mudança realmente depende muito do contexto e da história com a qual você está trabalhando, não é uma coisa só, pode ser muitas coisas. Mas ela sempre aponta para um lugar melhor. A mudança, para mim, é sempre um lugar melhor. O meu conselho é que somos mais valiosos, mais importantes e relevantes do que nunca neste momento. A forma de manter essa relevância e ser ainda mais importante neste contexto de disrupção da inteligência artificial e de múltiplos desafios, para que o jornalismo volte a ganhar protagonismo,  é não continuar repetindo as mesmas fórmulas, não continuar fazendo as coisas da mesma maneira. 

 

A inteligência artificial é uma ameaça maior para a verdade ou para o emprego dos jornalistas?

Ela vem para aprofundar uma crise que já vínhamos arrastando sobre os consensos e sobre a verdade. Sem dúvida é uma ameaça, e eu a vejo como uma ameaça principalmente para a construção do sentido comum. Há muito poder e muito dinheiro por trás dessas novas ferramentas que moldam o ecossistema informativo. Por outro lado, o meu conselho para os profissionais é entender que somos mais valiosos, importantes e relevantes do que nunca neste momento. A forma de manter essa relevância no contexto de disrupção da IA é não continuar repetindo as mesmas fórmulas, não continuar fazendo as coisas da mesma maneira.

 

Você acredita ainda na mudança?

Sim. Acredito que nós podemos, sim, ao menos propor alternativas e que podemos ter protagonismo e voz nesses assuntos. O livro recente que lançamos no El Surti sobre a corrida pela inteligência artificial a partir do Sul Global é, no final das contas, um resultado desse otimismo.

 

Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio. UERJ e UFRJ.

Como um veículo hiperlocal aproxima o jornalismo de dados de moradores do Complexo da Maré

Como um veículo hiperlocal aproxima o jornalismo de dados de moradores do Complexo da Maré

Associado da Ajor, Projeto do Data Labe utiliza informações fornecidas pelos próprios moradores para falar de problemas como saneamento básico e inundações

Por Everton Victor

Integrantes do Data Labe, projeto que une jornalismo e dados no território da Maré, no Rio. (Acervo Pessoal)

Quando o jornalismo de dados está inserido dentro do território, a perspectiva e o alcance das informações mudam e se aproximam de quem vive essa realidade. É esse compromisso do projeto que o Data Labe desenvolve no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio. A iniciativa mapeia denúncias, falta de saneamento básico, inundações e outros problemas enfrentados pelos moradores, transformando tudo isso em dados. Durante o Festival 3i, realizado entre os dias 29 e 31 de maio no Rio, uma das integrantes do Data Labe contou à Agenc os efeitos de investigar dados no território onde essas informações foram produzidas.

Maria Ribeiro, cearense e moradora do Complexo da Maré desde os dois anos de idade, vê na atuação no Data Labe uma forma de transformar experiências do cotidiano do seu território em informação. “A  falta de saneamento básico é muito presente na minha vida, tenho lembranças do meu irmão me carregando para que eu não tivesse contato com a água do alagamento, minha mãe tirando a água de dentro de casa, porque encheu. Quando eu entro no Data Labe, eu começo a problematizar isso”, conta. 

Maria Ribeiro, integrante do Data Labe. (Acervo Pessoal)

Voltado para direitos digitais, o Data Labe nasceu em 2018 no Complexo da Maré e usa a comunicação no território como base para democratizar o acesso aos dados. “A gente trabalha com o que chama de Geração Cidadã de Dados, que surge com o objetivo de que os próprios territórios e as comunidades em vulnerabilidade possam gerar seus próprios dados”, explica. O conceito Geração Cidadã citado por Maria busca envolver os moradores na produção de diagnósticos referentes à sua própria localidade. 

A atuação do Data Labe dialoga com um movimento mais amplo de crescimento de iniciativas de comunicação territorial no Brasil. Organizações que nascem nos territórios refletem uma tendência observada em todo país. O Atlas da Notícia de 2025 identificou 14.809 veículos jornalísticos independentes em atividade no Brasil, um aumento de 7% em relação ao  último levantamento, divulgado em 2023. 

No próprio Complexo da Maré, iniciativas como a Redes da Maré usam os dados do próprio território para se conectar com a comunidade. Em parceria com o Observatório das Favelas, o veículo jornalístico Redes da Maré produziu um  Censo com diferentes dados sobre essa região da cidade. O conglomerado de 16 favelas que compõem o Complexo da Maré  tem 129 mil moradores, e  25% deles são imigrantes nordestinos, enquanto 51,9% de todos habitantes da região são menores de 30 anos. Para Maria, do Data Labe, quando os dados produzidos passam a ser construídos de forma mais próxima de quem está neles, muda a perspectiva. “O morador da comunidade está sendo inserido em todo esse processo”, afirma.

No Data Labe, a equipe multidisciplinar utiliza o jornalismo de dados não só para combater a desinformação, mas também como uma ferramenta de propagação da informação. Maria reforça que o papel Data Labe não é substituir organizações governamentais que produzem dados, mas ser mais um braço de mapeamento em áreas que por vezes não conseguem ser mapeadas.

Para Maria, aproximar a produção de dados dos moradores também contribui para fortalecer a relação entre comunidades e veículos de comunicação. Hoje, cerca de 48% dos usuários de internet desconfiam sempre ou na maioria das vezes de informações produzidas por veículos de jornalismo profissional. O número é maior que a desconfiança em conteúdos de amigos ou familiares em redes sociais (39%), de acordo com o Núcleo de Informação Ponto Brasil.

Verônica Lima, coordenadora de Comunicação da Associação de Jornalismo Digital, a Ajor, destacou a importância de espaços de encontro entre jornalistas para discutir os desafios da profissão e pensar caminhos para fortalecer a relação com o público. “É cruzar potencialidades, a gente tem muitos desafios para o jornalismo e todos os caminhos de soluções possíveis estão na construção coletiva”, afirma.

Durante o Festival 3i, diferentes mesas abordaram esses desafios. E todas reforçaram que o caminho para um jornalismo forte é ele estar cada vez mais presente no território.

No Data Labe, uma das iniciativas utilizadas para se aproximar e criar uma relação com a comunidade é o “Cocozap”, ferramenta de caráter popular e que transforma em dados a plataforma de denúncias dos moradores. Em colaboração com organizações como a Casa Fluminense e a Redes de Desenvolvimento da Maré, o projeto mapeia o saneamento básico da Maré, através de um número de Whatsapp. 

Por lá, o morador envia a foto de sua queixa, como um esgoto a céu aberto, acúmulos de lixo e entulho, sempre com a sinalização indicando em qual parte da Maré o problema está acontecendo. A partir dessas informações, o veículo verifica as denúncias, realiza o georreferenciamento e sistematiza em sua própria base de dados. “Quando vemos dados sobre inundações, alagamentos, eles são construídos e mapeados a partir de queixas, então se os moradores não conhecem esses mecanismos, eles não conseguem enviar sua denúncia”, afirma Maria.

Pablito Aguiar: “O quadrinho facilita a entrada em temas difíceis, mas não é menos complexo”

Pablito Aguiar: “O quadrinho facilita a entrada em temas difíceis, mas não é menos complexo”

lRepórter-quadrinista do site  Sumaúma defende a escuta paciente para abordar realidades delicadas e afirma que o formato é uma ferramenta democrática para romper preconceitos

Por Richard Gabriel | Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia

 

Dia 03 do Festival 3i com Pablito Aguiar. Foto: Natália Cesar

O jornalista e ilustrador Pablito Aguiar é um dos nomes mais originais do jornalismo visual brasileiro contemporâneo. Conhecido por dar traço, voz e sensibilidade a histórias que costumam ficar à margem da grande mídia, ele começou sua trajetória registrando o cotidiano dos moradores de Alvorada (RS), sua terra natal. Além do livro “Alvorada em Quadrinhos”, obra que reúne relatos de 23 moradores de sua cidade natal, também publicou “Almoço: uma conversa com Eliane Brum” (2022), “Conversas em Porto Alegre” (2024) e o recente “Água até aqui” (2025). Hoje, vivendo e trabalhando diretamente de Altamira, no Pará, Pablito atua como repórter-quadrinista no site Sumaúma – Jornalismo do Centro do Mundo, veículo de referência que desafia a lógica geográfica tradicional ao colocar a Amazônia no centro do debate global.

Convidado para a mesa “Criação, Emoção e Arte no engajamento da audiência” no segundo dia do Festival 3i 2026 — onde defendeu o uso dos quadrinhos para garantir o didatismo diante de dados técnicos, a imersão na realidade amazônica e a proteção de fontes vulneráveis —, Pablito concedeu esta entrevista exclusiva à Agenc/Uerj, integrante da cobertura do festival pelo projeto Foca no 3i. Nela, o ilustrador reflete sobre o poder lúdico e carismático dos quadrinhos para aproximar o público de narrativas áridas, detalha seu método de entrevista baseado na entrega e na paciência e deixa um conselho valioso para os jovens profissionais que desejam desbravar formatos alternativos na profissão.

Confira a entrevista na íntegra:

 

Festival 3i: Na mesa do festival, você pontuou que, apesar de usar ilustrações, suas histórias seguem o mesmo fluxo e rigor de uma matéria escrita. Para você, como essa linguagem visual ajuda a contar narrativas tão complexas e pesadas de um jeito que o texto tradicional não consegue?

Pablito Aguiar: Eu faço quadrinhos não porque é uma linguagem que vai facilitar que eu conte histórias, mas porque é a única linguagem em que eu sei me comunicar. Para mim é até difícil falar sobre isso, porque começo a partir desse lugar: meu único jeito de me comunicar são os quadrinhos. Mas, no caminho, fui entendendo que eles possuem um carisma muito forte. Acho que isso está ligado à infância de certa forma. Não que o quadrinho seja para crianças, mas o traço, o desenho, carrega uma coisa lúdica que remete a essa fase. O leitor entra no quadrinho atraído pelo desenho, mas, uma vez dentro dele, pode entrar em contato com histórias bem duras. O quadrinho facilita a entrada em temas difíceis por ser desenho, mas não que ele seja simples ou algo menos complexo.

 

Festival 3i: Quais dicas você pode dar para conduzir uma entrevista com tanta sensibilidade e respeito pelo entrevistado na hora de abordar assuntos mais delicados?

Pablito Aguiar: Acho que o primeiro passo, em qualquer contexto, é não interromper a pessoa. Você está conversando com ela, faz uma pergunta e precisa esperar ela terminar de falar, sem tentar completar. Às vezes, a palavra não sai e você coloca a sua palavra em cima da palavra dela. Isso interrompe o pensamento que a pessoa está tendo e você também perde aquela palavra específica. E as palavras têm personalidade própria. Quando vou fazer o meu quadrinho, coloco exatamente como a pessoa falou, porque a forma que ela escolheu falar tal coisa diz muito sobre quem ela é e sobre a sua história. O segredo é escutar a pessoa sem pressa, com calma e ter essa escuta paciente. E se caso se emocione durante a entrevista também não tem problema, acho que tem que ter uma entrega.

 

Festival 3i: A proposta da Sumaúma é justamente inverter a lógica tradicional da grande mídia de que o olhar dominante se concentra no Sudeste. Como fazer jornalismo direto do “centro do mundo”, fora do eixo Rio-São Paulo, enriquece a visão dos brasileiros sobre os problemas do país?

Pablito Aguiar: Meu trabalho, desde o começo em Alvorada, tem esse sentido de quebra de preconceitos. Quando faço o meu quadrinho e entrevisto uma pessoa que está longe da minha realidade, eu quero que outras pessoas também se movam até aquela história, como se fosse uma viagem mesmo para outro país. Eu acho que aprendemos muito sobre a vida conhecendo outras realidades, e aprendemos inclusive sobre nós mesmos. É muito importante conhecer a realidade de pessoas que às vezes precisam que a gente olhe para elas, porque estão passando por situações de risco. São histórias ainda mais importantes para observarmos, entendermos e conhecermos. Escutar já é uma forma de ajuda. 

 

Festival 3i: Durante o debate, você listou que os quadrinhos ajudam na imersão e na acessibilidade da informação. Como esse formato alternativo ajuda a furar as bolhas da internet e aproximar o público urbano dessas realidades distantes?

Pablito Aguiar: Os quadrinhos são uma forma muito democrática de leitura. Eu escuto comentários e gosto muito disso, do tipo: “Ah, gostei muito desse quadrinho, vou ler com o meu filho”. Eles são democráticos porque podem chegar tanto nas crianças quanto nos adultos e nas pessoas mais velhas. Além disso, podem ser muito bem trabalhados nas escolas de uma forma mais lúdica. Vejo muitos professores imprimindo os quadrinhos e fazendo atividades com os alunos. Há uma facilidade didática no desenho e na coisa gráfica. O formato tem essa capacidade incrível de conseguir desenhar coisas que não estão registradas com fotos e vídeos.

 

Festival 3i: Viver de projetos autorais e jornalismo independente no Brasil é um grande desafio financeiro. Que conselhos você daria a um jovem jornalista que deseja seguir por esse caminho de formatos alternativos?

Pablito Aguiar: No geral, é muito difícil viver de quadrinhos. Nossa, é muito difícil! Geralmente quem faz quadrinhos precisa fazer milhões de outras coisas para se manter. E o jornalismo em quadrinhos, como ainda é um campo novo, é mais difícil ainda. Para mim, foi muito importante não desistir no começo. Tenho muita paixão pelo que faço e sempre tive uma necessidade de criar na minha vida para me sentir vivo. Então, por muito tempo, fiz esse trabalho somente por paixão. Quando fiz as entrevistas em Alvorada, eu não recebia nada por elas; meu dinheiro vinha porque eu diagramava o jornal. Mas eu pensei: “Preciso que mais pessoas conheçam esse trabalho, porque talvez aí eu comece a ganhar dinheiro”. Depois disso eu comecei a me divulgar e a publicar no Instagram. As pessoas passaram a me conhecer, mais leitores chegaram e aí surgiu a oportunidade de trabalhar profissionalmente com isso. No início eu ganhava muito pouco, não dava para viver disso, mas continuei caminhando. Se você ama muito isso, não pare. Continue caminhando que coisas que você nem imagina vão acontecer no percurso. Mas não caminhe escondido. Deixe que as pessoas vejam que você está caminhando. Essa comunicação de mostrar o processo faz as pessoas se interessarem, e alguma porta vai se abrir no caminho.

Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio. UERJ e UFRJ.

Emilio Laszlo: “O humor expressa o que as instituições e a política tradicional não conseguem”

Emilio Laszlo: “O humor expressa o que as instituições e a política tradicional não conseguem”

Coordenador de conteúdo da plataforma argentina Gelatina defende a mistura entre jornalismo e entretenimento no streaming e analisa como o ecossistema digital virou o principal campo de disputa pública

Por Richard Gabriel |Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia

 

                                                  Festival 3i de jornalismo 2026 Dia 2. Foto: Natália Cesar

O produtor e comunicador argentino Emilio Laszlo é um dos nomes por trás do sucesso da Gelatina, canal de streaming multiplataforma que se tornou referência ao renovar a cobertura política na Argentina. Com passagens marcantes como repórter e colunista nas ruas de Buenos Aires, Emilio comandou o El Program, projeto autoral em formato vertical para Instagram e TikTok que registrou os principais acontecimentos sociais do país. Hoje, como coordenador de conteúdos e programação da Gelatina, ele lidera uma equipe que prova diariamente ser possível unir o rigor da informação à leveza do entretenimento.

Logo após participar da mesa “Quando o influenciador vira repórter, o que muda?” no Festival 3i 2026 — onde debateu o crescimento dos criadores digitais e a descentralização do monopólio da notícia —, Emilio concedeu esta entrevista exclusiva à Agenc/Uerj, parceira na cobertura do festival por meio do projeto Foca no 3i. No bate-papo, ele analisa o papel do humor e dos famosos “jingles” para aproximar uma audiência cansada da polarização, detalha os critérios éticos de um canal nativo digital que dispensa manuais de estilo tradicionais e projeta o futuro da plataforma como um espaço de intervenção política no Sul Global.

Confira a entrevista na íntegra:

Festival 3i: A política argentina e de outros países latinos está muito polarizada. Por que você acha que os formatos de humor adotados pela Gelatina funcionaram tão bem para explicar esse cenário para o público?

Emilio Laszlo: O humor sempre funcionou muito bem na Argentina. No nosso caso, com o fenômeno dos jingles. Nós não inventamos a roda ao mudar a letra das músicas para fazer paródias; isso já vinha de antes. Mas o nosso sucesso aconteceu em um momento em que a política tradicional e a representatividade dos políticos estão em crise, um cenário que atinge não só a Argentina, mas quase todo o Ocidente. Uma parte expressiva da audiência e dos eleitores passou a se conectar muito mais com influenciadores, jornalistas ou comunicadores do que com os próprios políticos. Conseguimos expressar através do humor coisas que as instituições ou a política tradicional simplesmente não conseguem. O contexto socioeconômico já é muito duro e complicado. As pessoas querem saber as notícias e estar informadas, mas também querem um momento alegre. Ninguém quer ligar uma transmissão para se deprimir ainda mais.

Festival 3i: Parte do público se sente distante do jornalismo tradicional. Você se enxerga como jornalista ou acredita que a Gelatina está construindo uma linguagem totalmente nova e distante do jornalismo clássico?

Emilio Laszlo: Acredito que há um componente inovador no que fazemos que vai além do jornalismo puro, mas os jornalistas estão muito presentes ali. Na Gelatina, trabalhamos misturando os dois mundos: temos jornalistas, comunicadores, militantes, influenciadores e humoristas. Convivendo com essas duas realidades, percebo as diferenças de linguagem, mas vejo que elas se misturam o tempo todo. O público continua confiando em certos meios sérios e em profissionais tradicionais, mas hoje a porta está aberta para que novas pessoas, com novos estilos e formatos, construam sua própria audiência. Antigamente, o mercado era fechado: você precisava obrigatoriamente passar pelo crivo de um produtor de TV, rádio ou jornal impresso para conseguir um espaço e ter um trabalho. Hoje, as redes e o streaming provam que essa não é mais a única via.

Festival 3i: Como vocês lidam com a liberdade de falar por estarem em um veículo próprio, criado por vocês, equilibrando essa autonomia com a imensa responsabilidade de transmitir informações corretas?

Emilio Laszlo: Nós não temos um manual de estilo rígido ou uma lista de regras corporativas a seguir. Nosso pilar fundamental é a honestidade intelectual. Isso parece o básico, o mínimo, mas no cenário atual sabemos que nem todos têm. Por exemplo: nós não saímos espalhando boatos ou repercutindo fake news sabendo que são falsas. Outro ponto crucial é que nós não dizemos sempre o que o nosso público quer escutar — e esse é um dos grandes problemas da comunicação atual, especialmente na internet, onde as bolhas se alimentam do que conforta seus nichos. Nós abrimos o debate. Se cometermos um erro, o que acontece de fato porque trabalhamos minuto a minuto com o factual, nós assumimos o erro no dia seguinte, pedimos desculpas no ar e seguimos em frente. Para além desse compromisso ético básico, também acompanhamos o trabalho dos veículos tradicionais de investigação, pois sabemos que eles fazem um processo de apuração mais profundo que nós não fazemos no dia a dia da nossa programação de estúdio.

Festival 3i: Como você avalia o papel e o posicionamento da Gelatina na Argentina hoje?

Emilio Laszlo: A Gelatina nasceu com uma certeza clara: o ecossistema digital é um território a ser disputado, faz parte do debate público. A internet não é só um lugar onde as pessoas se informam, é onde as pessoas vivem hoje. Para nós, tanto o terreno digital quanto a rua e as instituições são importantes. Não nascemos apenas para contar o que acontece, mas para intervir na realidade. Felizmente, alcançamos um patamar onde o mundo político nos presta muita atenção. Nos primeiros anos, se eu ligasse para um deputado nacional convidando-o para o programa, ele me perguntava: “O que é Gelatina e por que eu iria a um canal de YouTube?”. Tudo mudou quando Javier Milei venceu as eleições, justamente agindo primeiro como um influenciador digital e depois como político. Hoje ninguém mais discute a centralidade do YouTube, do TikTok ou do Instagram. Os dirigentes políticos que querem dialogar com a sociedade ou intervir no discurso público pensam na Gelatina.

Festival 3i: O que vocês buscam construir daqui para frente com a Gelatina?

Emilio Laszlo: Daqui para frente, nosso plano é continuar crescendo, estruturar melhor a nossa organização interna e fazer um bom trabalho. No ano que vem teremos um período eleitoral forte na Argentina e queremos que a Gelatina seja uma voz ativa. E não se trata apenas de fazer campanha para que um candidato ganhe ou perca, mas de pautar assuntos que realmente interessam à sociedade. Estamos discutindo inteligência artificial, geopolítica e história argentina. São temas profundos, que muitos consideram pouco atraentes ou sem potencial de clickbait para a massa na internet, mas a nossa comunidade nos prova o contrário: as pessoas se interessam, escutam com atenção e participam ativamente da construção desse espaço coletivo.

Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio. UERJ e UFRJ.