O verão acabou, mas o risco de dengue não

O verão acabou, mas o risco de dengue não

Relatório da ONU mostra que mudança climática, com temperaturas mais altas e alterações no regime de chuvas, aumenta os casos da doenças climáticas

Por: Júlia Martins

                     Mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

O Relatório do Clima de 2025 publicado pelas Nações Unidas mostra que o aumento da temperatura global eleva o risco de dengue, o que contribui para ampliar a ocorrência de casos ao longo de todo o ano – e não só nos meses de verão. Mesmo com medidas para conter o mosquito Aedes aegypti,  transmissor da dengue, o estudo destaca que o número de casos em todo o mundo é o maior já registrado na história, com o vírus se expandindo para novos territórios. 

 

O relatório deste ano incluiu um estudo de caso sobre o impacto das mudanças climáticas na saúde humana. Um dos destaques foi a preocupação com o aumento das arboviroses, doenças virais transmitidas por mosquitos, como a dengue. Embora a doença também seja influenciada por fatores sociais, ela é sensível à temperatura e ao regime de chuvas. Por isso há mais casos durante as épocas mais quentes do ano, caracterizando a dengue como uma doença sazonal. Entretanto, o aumento das temperaturas e alterações nos padrões de chuvas favorecem um desenvolvimento mais acelerado do mosquito Aedes aegypti. Na prática, o número de picadas aumenta, e o tempo de incubação do vírus – período entre a contaminação e o surgimento dos sintomas – diminui. Com o aumento das temperaturas, as épocas mais frias do ano também se tornam favoráveis para a proliferação da doença.

 

No Rio de Janeiro, onde a dengue é endêmica, não é diferente: segundo o EpiRio, observatório epidemiológico do estado, mais de 1.400 casos da doença foram registrados em 2026 apenas na capital. A cidade do Rio de Janeiro registrou mais de 9 mil casos de dengue apenas em 2025, e o ápice foi nos primeiros três meses do ano. Em 2024, o Brasil enfrentou a maior epidemia de dengue já registrada, com mais de 6 milhões de casos prováveis.

 

De acordo com o Alerta Rio, sistema de alerta da prefeitura, o outono está sendo mais quente do que o esperado, com temperaturas acima da média e chuvas irregulares. Isso cria um cenário benéfico para o crescimento dos casos de dengue em épocas além do verão, e mostra como a doença tende a se tornar cada vez mais presente no cotidiano. 

 

Para Cleonice Santos, agente de saúde comunitária no Catiri, zona oeste do Rio, essas alterações de temperatura têm impactado o número de casos. “A gente percebe que a mistura dos fatores calor e chuva é um grande baque para os casos, e o mosquito está ficando ainda mais resistente. Quando estamos no pós calor é quando precisamos ter maior cuidado na observação e na orientação para as famílias”, afirmou. Ela também destaca o papel do saneamento básico no combate à doença: “A falta de saneamento, a vulnerabilidade social e falta de orientação torna uma pessoa mais suscetível”.

 

A crise climática atinge o mundo inteiro, o que reforça ainda mais esse perigo. O mosquito se expande para territórios em que antes não havia casos de dengue. A Organização Mundial da Saúde estima que metade da população global esteja sob o risco de contaminação, com aproximadamente 100 até 400 milhões de casos registrados por ano. Segundo o Relatório da ONU, no Brasil, o R0 – número que indica quantas pessoas podem ser infectadas em média – passou de 1,4 para 2,9 no ano passado.

 

Em 2021,  um artigo publicado pelos professores Antonio Carlos Oscar Junior, do Instituto de Geografia da UERJ (Igeog), e Francisco de Assis Mendonça, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), já investigava o desenvolvimento da doença com base nas mudanças climáticas. O estudo aponta a intensificação da dengue em épocas de tempo mais ameno, como o inverno, devido ao aumento da temperatura mínima ao longo dos anos. Além disso, eles buscam entender como a doença vai se comportar no futuro, com modelos de estudo para os períodos entre 2011 – 2040 e 2040 – 2070.

 

O artigo também destaca como a dengue está deixando de ser algo sazonal e como isso afeta estratégias de saúde pública. Visto que essas são feitas, em maioria, para o verão e o outono, é necessário elaborar medidas também para o inverno e a primavera. Além disso, as diferenças no espaço urbano, como a falta de saneamento e estrutura urbana chamam a atenção e intensificam esse cenário. Com isso, a população mais carente se torna a mais atingida. 

 

A vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan é um exemplo de medida para combater a doença. É o primeiro imunizante em dose única para a doença no mundo e será distribuído pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Por enquanto, no Rio de Janeiro, a vacina está sendo aplicada apenas em profissionais da saúde das unidades de Atenção Primária. No entanto, o Relatório da ONU e a Pesquisa de Oscar e Mendonça alertam a necessidade de discutir sobre mudanças climáticas e seus impactos na sociedade para além do óbvio, como na saúde pública, buscando amenizar as consequências como um todo. 

 

Como os museus do Rio de Janeiro estão mudando a forma de falar de ciência

Como os museus do Rio de Janeiro estão mudando a forma de falar de ciência

Exposições variadas e democratização do acesso atraem público a instituições como o Museu do Amanhã, Museu Nacional e Museu do Jardim Botânico

Por: Sofia Lang

                                  Exposição ‘Oceano’ do Museu do Amanhã . Foto: Mixel Selva/ Museu do Amanhã

 

Num país onde o acesso ao conhecimento científico é desigual, três museus do Rio de Janeiro fazem da ciência seu principal atrativo. O Museu do Amanhã, no Centro da cidade, o Museu do Jardim Botânico, na zona sul, e o Museu Nacional, na zona norte, são espaços vivos de aprendizado e conexão com o mundo natural e as culturas humanas. Ao abordar temas como ecologia, preservação ambiental e antropologia por meio de uma linguagem acessível, atividades interativas e visitas guiadas, esses museus democratizam o contato de diversos grupos sociais com o universo científico.

Tanto o Museu do Amanhã quanto o Museu do Jardim Botânico e o Museu Nacional adotam a proposta de ‘conversação científica’: tentam ir além da divulgação tradicional para demonstrar que a ciência não é um saber isolado ou superior; ao contrário, ela caminha lado a lado com a cultura, a história, a arte e as crenças. Para o cientista ambiental Fábio Scarano, curador do Museu do Amanhã, o termo ‘divulgação científica’ é equivocado, pois sugere uma via de mão única. Segundo ele: ‘Não há conhecimento de que se possa abrir mão, e esses saberes devem ser democráticos e amorosos para que um museu seja um espaço de comunicação informal rico’.

No Museu do Jardim Botânico, o diálogo busca atrair o olhar para o reino vegetal, um tema frequentemente negligenciado. A instituição tem como propósito aproximar o público das plantas, despertando um interesse genuíno por elas. ‘Nossa intenção é que as pessoas saiam daqui com mais perguntas do que respostas’, afirma Grazielle Giacomo, bióloga e coordenadora de gestão e educação do museu. Ao estimular essas dúvidas, o museu combate a ‘impercepção botânica’ — fenômeno que se refere à incapacidade humana de notar as plantas no ambiente, o que as reduz a um mero plano de fundo da paisagem.

 

                        Parte da exposição principal do Museu do Jardim Botânico. Foto: Sofia Lang/ Agenc

 

O Museu do Amanhã investe na abordagem de questões urgentes, como as mudanças climáticas, a tecnologia e o impacto humano na Terra, enfatizando que o amanhã depende integralmente das escolhas feitas no presente. Ao evidenciar a fragilidade dos ecossistemas com exposições como ‘Água, Pantanal, Fogo’ — que em 2025 contrastou a beleza do Pantanal com a devastação das queimadas —, a instituição convida o público a refletir sobre sustentabilidade, responsabilidade coletiva e o futuro do planeta.

O Museu Nacional da UFRJ, que voltou a abrir suas portas em sss depois do incêndio de 2018, alia pesquisa arqueológica a uma linguagem acessível para despertar no público interesse científico e reflexão sobre identidade e diversidade cultural. A exposição “Os Primeiros Brasileiros” destaca os povos originários e os vestígios mais antigos da presença humana no país. As mostras refletem a trajetória da instituição,que antes do incêndio de 2018 abrigava mais de 20 milhões de itens, entre fósseis e artefatos. Após o desastre, cerca de 5 mil lotes foram recuperados. Esses materiais pertenciam a 14 das 25 coleções do palácio e, mesmo danificados, muitos poderão ser restaurados. Assim, o acervo segue como símbolo de resistência e preservação da memória coletiva.

A imersão é um dos principais recursos nas instituições da zona sul e do Centro do Rio de Janeiro. No Museu do Amanhã, a tecnologia compõe cenários interativos que envolvem o visitante em temas complexos, como a conexão entre o ser humano e o universo — ilustrando que somos feitos da mesma matéria das estrelas e provocando reflexões sobre nossa origem e destino. No Museu do Jardim Botânico, a imersão é empregada na experiência ‘Sumaúma: Copa, Casa, Cosmos, que mostra o processo da água dentro de uma árvore. Portanto, enquanto um utiliza a imersão para ampliar o olhar sobre o futuro do planeta, o outro a utiliza para aprofundar a relação com a flora e a biodiversidade.

Outro ponto de convergência entre essas instituições é o incentivo à participação ativa do visitante. O Museu do Amanhã busca constantemente gerar reflexões sobre o papel humano na construção do futuro. No Museu do Jardim Botânico, esse engajamento torna-se concreto: o público é convidado a plantar sementes durante a exposição, contribuindo diretamente para a restauração da Mata Atlântica. Em ambos os casos, o aprendizado ultrapassa as paredes do museu e ganha continuidade na vida prática.

Iniciativas de acessibilidade e programas educativos permitem que o Museu do Amanhã inclua grupos historicamente afastados desses espaços. A instituição conta, por exemplo, com uma sala de acomodação sensorial para pessoas neurodivergentes — recurso ainda raro em centros culturais. Somam-se a isso projetos educativos com ferramentas adaptadas para pessoas com deficiência e ações voltadas a comunidades externas, incluindo pessoas em situação de rua, o que amplia significativamente seu alcance e impacto social.

O Museu do Jardim Botânico também investe na inclusão de diversos públicos. Por meio de parcerias com escolas públicas do Rio de Janeiro, a instituição fortalece a educação não formal como complemento ao ensino tradicional. Além disso, promove atividades para todas as idades, incluindo projetos sensoriais para bebês e eventos como o ´Domingo Acessível`, que oferece visitas mediadas por intérpretes de Libras, materiais táteis e sensoriais. 

Como forma de inclusão, o Museu Nacional aposta em ações educativas, editais e projetos acadêmicos que incentivam a participação de diferentes grupos, incluindo estudantes de escolas públicas e jovens pesquisadores. Ao ampliar o acesso a oportunidades acadêmicas e culturais, a instituição contribui para reduzir desigualdades e formar novos profissionais nas áreas científicas. Tais iniciativas reforçam a premissa de que o conhecimento deve ser democrático e, acima de tudo, acessível a todos.

Quanto ao acesso, o Museu Nacional investe em uma abordagem diferente: ele amplia  sua presença digital de modo a  fortalecer iniciativas que buscam democratizar o acesso ao conhecimento, promover inclusão social e difundir temas científicos de forma acessível à população. A criação de uma central digital — reunida no Linktree oficial do museu — é um dos principais exemplos desse movimento. Por meio dela, qualquer um pode acessar exposições virtuais, publicações científicas, vídeos educativos e informações institucionais. Essa estratégia amplia o alcance do museu, permitindo que estudantes, pesquisadores e o público em geral tenham contato com conteúdos antes restritos ao espaço físico.

Enquanto o Museu do Jardim Botânico adota uma política de gratuidade total e o Museu do Amanhã mantém ingressos pagos em dias regulares, com gratuidade restrita a datas comemorativas e grupos específicos — como acompanhantes de pessoas com deficiência, idosos a partir de 60 anos, crianças de até 5 anos e pessoas em situação de vulnerabilidade social. Além disso, a instituição oferece meia-entrada para estudantes da rede privada, profissionais da rede pública de ensino e moradores ou naturais da cidade do Rio de Janeiro, por exemplo.

Questionado sobre o motivo de o Museu do Amanhã não oferecer entrada gratuita em ao menos um dia da semana — política adotada até 2024 —, Scarano afirmou que há interesse em retornar com a gratuidade total, mas isso exigiria mais patrocínio e maior  investimento da prefeitura. Segundo o cientista, a retomada dessa política no momento atual exigiria uma redução no tamanho das exposições; por isso, a instituição prioriza manter uma política inclusiva para grupos específicos e em dias determinados igualmente, evitando o sacrifício da qualidade e da extensão de seu acervo.

Ao transformar temas complexos de ciência em vivências práticas e inclusivas, o Museu do Amanhã, Museu do Jardim Botânico e o Museu Nacional se fortalecem como instituições que, mais que locais de visitação, são agentes de transformação social. Mais do que informar sobre ciência, esses espaços buscam o engajamento do público, priorizando o estímulo à dúvida e à curiosidade em vez de apenas entregar respostas prontas.

 

Plano Clima busca preparar cidades e populações para eventos extremos

Plano Clima busca preparar cidades e populações para eventos extremos

Obras de infraestrutura 100% adaptadas a mudanças climáticas estão entre as metas do documento lançado pelo governo federal

Por: Maria Eduarda Galdino

                                   Lançamento do Plano Clima em Brasília (DF). Foto: Fernando Donasci/MMA

 

O governo brasileiro lançou no mês passado o Plano Nacional sobre Mudança no Clima (Plano Clima), com metas para combater a crise climática. A ideia é organizar ações que promovam equidade, proteção dos direitos humanos e inclusão social de grupos afetados pelas mudanças climáticas. O plano foi aprovado pelo Comitê Interministerial sobre Mudança no Clima (CIM), com a colaboração de 25 ministérios e consultas públicas a mais de 25 mil participantes. Deverá estar totalmente implementado até 2035. 

 

Entre as metas de adaptação climática, o Plano prevê que obras de infraestrutura financiadas pelo governo federal sejam projetadas para resistir a eventos extremos. Na prática, isso significa que construções como moradias, rodovias e sistemas de drenagem deverão considerar riscos como enchentes e deslizamentos, problemas recorrentes em cidades como Rio de Janeiro. 

 

Nesse contexto, um estudo do Ambiental Media e do Instituto de Computação da UFF, com base em dados disponibilizados pelo IBGE, confirmou que cerca de 142 mil domicílios correm alto risco de inundação ou deslizamento no Rio de Janeiro. O estudo apontou a Zona Norte como território com mais bairros com alta vulnerabilidade a eventos climáticos extremos. 

 

Além do Rio de Janeiro, o estado de Minas Gerais também sofreu com o impacto das fortes chuvas. As cidades de Juiz de Fora e Ubá registraram no total 29 mortos e 3 mil pessoas desabrigadas no mês de fevereiro por conta dos deslizamentos, enchentes e soterramentos. Diante do estado de calamidade decretado pelas autoridades, escolas e universidades também interromperam suas atividades.  Diante desses acontecimentos, a proposta é que o plano de adaptação seja aplicado em todos os estados e ao menos 35% dos municípios, e até 2035, atender com obras de prevenção pelo menos 4 milhões de pessoas expostas ao risco de desastre geohidrológico. 



Além das estratégias de adaptação, o Plano Clima também inclui medidas de mitigação, ou seja, ações voltadas à redução de gases de efeito estufa (GEE) com mudanças no uso de energia e combate ao desmatamento. Para isso há uma Estratégia Nacional de Mitigação com base em projetos científicos que trabalham com energias renováveis, sociobiodiversidade e outros métodos para estabilizar uma economia de baixo carbono. 

 

O Plano Clima também inclui estratégias transversais para ação climática, que são o conjunto de ferramentas e políticas utilizadas para a execução de todos os objetivos. Isto é, como os setores de educação, pesquisa, políticas públicas e outros irão colaborar para soluções climáticas. Os investimentos e metas na primeira parte de elaboração do Plano Clima serão distribuídos ao longo dos anos,  em torno de R$25 a 30 bilhões por ano. 



As políticas de ação do Plano Clima também reforçam a importância da participação ativa dos povos no combate às crises climáticas. Segundo o documento, a colaboração da sociedade civil garante que haja equilíbrio de interesses e efetividade no planejamento de políticas públicas a favor da justiça climática. Para isso, as Câmaras de Participação Social e de Assessoramento Científico irão mediar a comunicação entre entidades governamentais, comunidades e o setor empresarial.



Plano Clima está alinhado ao Acordo de Paris 

 

A construção do Plano Clima também representa o compromisso do Brasil com o multilateralismo, que é a cooperação entre vários países para tomar decisões, resolver problemas e firmar acordos em conjunto. As estratégias de ações climáticas do Plano estão de acordo com a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês) em relação à meta de redução de 59% e 67% de suas emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035. O objetivo final seria a neutralidade climática até 2050, estado em que as emissões líquidas chegam a zero. 


Além do mais, o Plano Clima de Adaptação elaborou suas estratégias pautadas no ciclo interativo de adaptação feito pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC). Os projetos de adequação climática foram divididos em quatro etapas: avaliação, planejamento, implementação das ações e monitoramento de longo prazo com revisões periódicas e aprimoramentos contínuos. 



 

Representação do ciclo interativo de adaptação citado no Plano Clima. Fonte: Ministério do Meio ambiente/ UNFCCC

 

 

No documento, o governo brasileiro afirmou que pretende estabelecer um sistema robusto de monitoramento, avaliação e aprendizado, que alimente relatórios nacionais, fortaleça a transparência para que os compromissos estabelecidos com a UNFCCC (a Conferência do Clima da ONU) e com o Acordo de Paris possam ser cumpridos.

O que é transição energética e o que você tem a ver com isso

O que é transição energética e o que você tem a ver com isso

Entre a urgência climática e as barreiras econômicas, mudar a forma de produzir energia é algo que desafia países ricos e pobres

Por: Murilo Santos

                          Engarrafamento com carros movidos a combustíveis fósseis. Foto: aled7/Pixabay

 

A transição energética deixou de ser apenas um conceito técnico para se tornar um eixo da economia e da política global. A necessidade de trocar de combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia mobiliza governos e movimentos sociais, redefine mercados e começa a impactar o cotidiano da população. O que está por trás dessa mudança e por que ela também passa por você?

 

O  que é transição  energética?

 

A transição energética é trocar uma forma de produzir energia por outra. Hoje as principais fontes de energia são combustíveis fósseis, gás natural, petróleo e carvão mineral, ou seja, fontes não renováveis de energia e que liberam muito carbono na atmosfera. Cerca de 80,9% da energia produzida no mundo tem origem poluidora, segundo dados da Agência Internacional de Energia, organização ligada à OCDE que orienta as políticas energéticas dos países associados. O objetivo da transição energética é substituir essas fontes que contribuem para o aquecimento global por fontes renováveis de energia, como a hidrelétrica, a solar e a biomassa. O Brasil já tem em sua matriz energética o predomínio do uso de fontes renováveis, que respondem por metade da produção nacional, segundo dados do Balanço Energético Nacional referente ao ano de 2024.

 

Por que é preciso fazer essa mudança?

Com a emergência climática, fica cada vez mais urgente a necessidade de o mundo se tornar menos dependente das energias fósseis, que usam fontes como o petróleo e o carvão mineral. Essas formas de energia são extremamente danosas ao meio ambiente, emitem carbono na atmosfera e aumentam o aquecimento do planeta. No entanto, há inúmeras dificuldades políticas e econômicas para alcançarmos isso. O professor Ronaldo Serôa da Motta, do curso de Economia da UERJ, ressalta que, diferentemente do que aconteceu em outras eras, a transição energética vem da necessidade de combater o aquecimento global, não da busca por uma energia mais barata: “Quando a gente fala hoje em dia em transição energética, a gente está muito relacionado com a questão climática. Que a principal fonte de emissão é a queima de petróleo e derivados de petróleo. É uma questão de energia fóssil, como também pode incluir o carvão, o gás, etc.”, explica Motta, que é doutor pela University College London, ex-dirigente do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) e ex-diretor do Ministério do Meio Ambiente. 



A transição energética é economicamente viável?

Outra questão muito debatida é a viabilidade econômica para que os países aos poucos saiam do petróleo e de outras fontes poluidoras para as renováveis Apenas a energia eólica e a solar não são suficientes para abastecer em larga escala os países ricos, que consomem muita energia, nem os países pobres, pela sua baixa capacidade de renda para bancar o custo de instalação dessas matrizes. “Essa transição tem um custo muito alto, seja para os países ricos pela escala que eles consomem, seja para os países pobres pela sua capacidade de renda. E havia dentro das expectativas do Acordo de Paris que houvesse um financiamento internacional e uma disposição de gastos dos países que levaria a essa transição energética que colocaria de novo a trajetória de temperatura do planeta em níveis mais estáveis e mais seguros. Mas isso não acontece justamente porque não é economicamente viável na dimensão que você está no ar”, afirma o economista.

 

A transição energética, porém, não é isenta de dilemas. Como aponta Ronaldo Serôa da Motta: “Nesse contexto de mudança do clima, a motivação principal da transição energética é reduzir a queima de combustível fóssil para reduzir as emissões de CO2 e, com isso, combater o aquecimento global para evitar mudanças climáticas drásticas. É tudo muito calcado em se mover para distante da energia fóssil. Há uma grande discussão se esse movimento poderia ser primeiro pelo gás, por transição sim, mas a transição já deveria ter sido feita, né? Outra questão muito discutida atualmente, se a energia nuclear deveria participar porque ela é limpa do ponto de vista de CO2, mas tem riscos muito grandes”.

 

Como a transição energética pode ser sentida na vida do cidadão comum? 

A transição energética não afeta apenas países e governos, a geopolítica e o comércio global, mas também os cidadãos comuns. Quando se diminuem as emissões de gás carbono, a qualidade do ar e dos recursos hídricos melhora na mesma medida. Um exemplo da mudança na vida do cidadão seria a maior utilização de carros elétricos, que não poluem e dispensam gastos com idas ao posto de gasolina. A transição energética não é apenas uma questão de política internacional ou de metas climáticas assinadas em acordos distantes: é uma transformação que começa na rua, no transporte, na conta de luz e no ar que se respira. O desafio é garantir que essa mudança chegue a todos, e não apenas a quem pode pagar por ela.

UERJ apresenta projetos que buscam atrair mais meninas e mulheres para a ciência

UERJ apresenta projetos que buscam atrair mais meninas e mulheres para a ciência

Cerca de 460 alunas da rede pública do estado do Rio de Janeiro compareceram ao evento 

Por: Sofia Inerelli

                     Apresentação do Projeto de inclusão de Mulheres e Meninas nas Ciências Exatas – Sofia Inerelli

 

Cerca de 460 alunas da rede pública do estado do Rio de Janeiro acompanharam na quarta-feira, dia 18, o Primeiro Simpósio de Meninas e Mulheres nas Ciências da UERJ. O evento coordenado por Luana Pinho, professora de oceanografia da universidade, contou com apresentações de nove projetos, todos com o intuito de estimular a presença de meninas nas áreas de ciência exatas e da terra, engenharia e computação.  

 

A importância da perspectiva feminina na ciência foi exaltada por Renata Maciel, enfermeira de pediatria e de neonatologia. “Ampliar a presença de mulheres na ciência não é apenas uma questão de equidade, é também uma forma de fortalecer a própria ciência; quanto mais diversos forem os olhares que produzem conhecimento mais completas serão as respostas que a ciência pode oferecer à comunidade”, afirmou. 

 

No entanto, essa diversidade nas ciências está longe de ser atingida. Segundo a Unesco, apenas 30% dos cientistas são mulheres, sendo o número ainda menor em cargos de liderança. Mesmo que a mulher conquiste uma posição de destaque há uma desigualdade salarial entre os homens e mulheres de 21%, segundo pesquisa da FGV. 

 

Com dificuldades de conseguir empregos, recebendo salários menores, mulheres ainda são alvos de ódio simplesmente por serem mulheres. Na última terça-feira (24/03), o Senado aprovou um projeto de lei que criminaliza a prática da misoginia e a torna crime equivalente ao de racismo, um marco na luta contra a violência sofrida pelas mulheres. Mesmo com avanços na lei, no dia a dia meninas e mulheres ainda não estão seguras: só no ano de 2025, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil. Este é o quarto ano seguido de crescimento de casos, segundo o Relatório dos Feminicídios no Brasil

 

Eventos como esse se tornam ainda mais necessários para que meninas saibam que a ciência também está ao seu alcance. Nicolle Beatriz Albornoz (17) uma das alunas presentes na palestra, disse que o simpósio a incentivou a buscar e a participar de mais projetos, acrescentado que caso não haja algum dentro da sua área ela seria uma das primeiras a criar ou a ajudar no seu desenvolvimento. A estudante sonha em fazer letras ou ciências sociais e tem como inspiração Clarice Lispector. 




Museu do Amanhã celebra dez anos com exposição sobre oceanos

Museu do Amanhã celebra dez anos com exposição sobre oceanos

Após a Pandemia, a instituição busca incentivar a esperança ativa no público

Por: Maria Luisa e Sofia Inerelli 

         Foto: Abertura da exposição “Oceano – o mundo é um arquipélago” do Museu do Amanhã – Sofia Inerelli

 

O Museu do Amanhã abriga até maio deste ano uma megaexposição sobre o oceano. A exposição é parte das comemorações pelo décimo aniversário do museu inaurado em 2016 no centro do Rio. Denominada “Oceano – o mundo é um arquipélago”, a mostra explorar arelação humana com o mar, revelando mistérios, conexões e surpresas.  A exposição, inaugurada em 17 de dezembro, fica em cartaz até 19 de maio de 2026, como parte da primeira etapa da renovação da exposição permanente do museu. 


O projeto faz parte de um plano maior de mudança do Museu do Amanhã que se estenderá pelos  próximos cinco anos. Camila Oliveira, gerente geral de conteúdo da instituição, disse que até 2030 o museu irá abrir a cada aniversário uma nova apresentação inspirada nos quatro elementos –  água, fogo, terra e ar. O objetivo é encerrar o  ciclo com o amor, o laço que une todos os outros. A proposta tem como intuito acompanhar os futuros acordos internacionais que combatem a crise climática, tornando-se um símbolo de união em meio à luta a favor do ambiente. 


Para iniciar esse ciclo, o museu escolheu o oceano, espaço no qual os primeiros sinais de vida como conhecemos foram encontrados. O oxigênio, gás essencial para sobrevivência dos seres vivos, só foi possível ser produzido a partir da fotossíntese realizada pelas algas. De acordo com o Instituto Brasileiro de Florestas, as algas produzem mais de 50% do gás oxigênio presente no mundo, o que faz do oceano o verdadeiro pulmão do mundo. 


As mudanças estruturais do museu também estão associadas ao novo período vivido após a pandemia. A instituição notou que mesmo com a suposta tentativa de volta à normalidade, o público saía do museu preocupado e ansioso com o futuro ambiental do planeta. Dessa forma, essa nova exposição busca estimular a esperança ativa nas pessoas com atividades criativas e imersivas que possibilitem a diminuição das telas e a compreensão e engajamento de todas as idades. 


Ainda que o tema central do Museu do Amanhã seja a ciência, ele se diferencia de outros museus que procuram a mesma abordagem. A instituição tem cada vez mais trabalhado com o aspecto mais social e artístico, para atingir um ponto sensível no visitante. Na apresentação comemorativa, o intuito é, segundo Camila, mostrar que “a gente é oceano”. Somos interligados por um elemento que nos conecta, independentemente de fronteiras geopolíticas: o oceano é um só. A obra também estimula a imaginação acerca dos mistérios que habitam esse lugar, tendo em vista que apenas 20% é conhecido pelos humanos. 


Localizado na zona portuária do Rio de Janeiro, o Museu do Amanhã também é um marco do processo de revitalização da cidade. O museu trouxe, desde sua abertura, mais de 8 milhões de pessoas e se tornou o museu mais visitado no Brasil. Neste ano, além de  turistas, representantes do mudo todo vieram até a instituição, que abrigou também o G20 social e o Earthshot Prize, evento organizado pela fundação do Príncipe William. 


Para a próxima década, o secretário de Cultura do município do Rio de Janeiro, Lucas Padilha, revelou que já há planos que focam na modernização e ocupação do centro da cidade. Alguns projetos, como a  Livraria Café, já estão em andamento; outros,  como o parque flutuante, ainda estão sendo formulados. Padilha explicou que é fundamental fortalecer a organização entre os mais de quarenta museus localizados no centro da cidade, estabelecendo uma programação conjunta e um mesmo horário de funcionamento. Isso facilitaria a vida dos visitantes e aumentaria o retorno financeiro dos museus.


Mais do que um museu futurista, a instituição carioca vem se tornando um museu de “amanhãs”, que alerta, informa e inspira a união popular em prol da preservação da vida. Ao final da exposição comemorativa, a mensagem é de que, às vezes, é necessário abandonar velhos hábitos para recomeçar e construir um novo amanhã.

 

Serviço: Museu do Amanhã

Endereço: Praça Mauá, 1, Centro, Rio de Janeiro Horário de funcionamento: quinta a terça 10h às 18h (última entrada 17h) 

Valor: 20 reais (meia entrada) e 40 reais (inteira)

Florestas marinhas correm risco de desaparecer com aumento das mudanças climáticas

Florestas marinhas correm risco de desaparecer com aumento das mudanças climáticas

Aquecimento das águas pode levar à destruição de mais de 80% das regiões onde são encontradas espécies de sargaço

Por: Maria Luísa Fontes

                          Algas de sargaço em uma costa rochosa na Ilha Grande. Foto: Ivan Carneiro

 

Nas florestas marinhas de sargaço, a espécie que predomina é a Sargassum, alga parda comum em regiões tropicais e subtropicais. A maioria delas cresce sobre rochas na região litorânea, formando extensas florestas com alto grau de diversidade, que funcionam como berçário para peixes e invertebrados nas regiões costeiras.

O sargaço também é essencial para o processo do ciclo do carbono, pois acumula grande quantidade de biomassa, o que aumenta o estoque do carbono azul – dióxido de carbono capturado e armazenado nos ecossistemas costeiros e marinhos. Essas algas, quando depositadas nas profundezas do oceano, auxiliam no sequestro de carbono a longo prazo. As espécies de sargaço são, com isso, fundamentais na luta contra o excesso de CO2 no ambiente, um dos responsáveis pelo agravamento da crise climática.

O estudo sobre as ameaças a esses ecossistemas era somente destinado às florestas marinhas de águas frias, como as formadas por kelps, enquanto as florestas tropicais ainda eram pouco pesquisadas e praticamente ausentes das discussões globais sobre o clima. De acordo com O Relatório sobre as Ciências Oceânicas Globais, publicado pela UNESCO, em 2020, cerca de apenas 1,7% dos orçamentos nacionais de pesquisa são destinados às ciências do oceano. No Brasil, essa fração é inferior a 0,5%, expondo a falta de prioridade que as pesquisas marinhas recebem. 

Um estudo inédito de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a Universidade de Pisa, publicado na revista científica internacional Limnology and Oceanography, apresenta os efeitos do aquecimento dos oceanos sobre as espécies de sargaço. A pesquisa combinou experimentos em laboratório, observações externas e projeções sobre o futuro desses seres. Ivan Carneiro, pesquisador do programa de pós-graduação em Ecologia da UFRJ, afirma: “Embora estudos locais já indicassem sinais de declínio, faltava uma síntese global que evidenciasse a dimensão e a urgência desse problema.”

A extinção das florestas formadas por espécies de sargaço pode acarretar na perda das interações entre os elementos de um ecossistema, como a transferência de energia e a regulação de gases. Caso não sejam feitas ações mais drásticas para frear o aquecimento global, esse biossistema corre sério risco de desaparecer, o que impacta diretamente a pesca, a biodiversidade e a regulação do clima. 

Carneiro ainda destaca que enquanto as florestas marinhas de regiões frias já contam com programas de monitoramento e medidas de conservação, as tropicais continuam praticamente negligenciadas. A previsão a longo prazo é que as florestas de sargaço vivenciem quedas expressivas da sua cobertura nas costas tropicais.

A professora Maria Teresa M. de Széchy, do Departamento de Botânica da UFRJ e coautora do estudo, ressalta que o desaparecimento das florestas de sargaço pode intensificar os desafios ambientais e sociais trazidos pelas mudanças climáticas. Esse cenário piora quando somado aos impactos causados pela ação humana sobre as zonas costeiras, o que dificulta ainda mais a conservação e o uso sustentável dos recursos naturais marinhos.

Desde 2011, as espécies flutuantes Sargassum natans e Sargassum fluitans têm proliferado de forma expressiva, sendo encontradas em novas regiões, como a costa norte do Brasil. O “Grande Cinturão de Sargaço do Atlântico”, refere-se à maior quantidade já encontrada dessas algas, com volume recorde de 37,5 milhões de toneladas e mais de 8.850 km de extensão. Tendo em vista que esse evento é resultado dos impactos das mudanças climáticas, ele é prejudicial ao ambiente e gera consequências negativas para a humanidade.

Quando alcançam o litoral, as algas flutuantes morrem e, ao apodrecerem, liberam elementos sulfurados e carbônicos. Esses compostos estimulam a proliferação de bactérias,  que diminuem o oxigênio da água e causam a morte de animais marinhos, prejudicando a pesca e até mesmo a indústria do turismo. A liberação desses gases também pode gerar irritação nos olhos, no nariz e na garganta. 

A esperança dos pesquisadores era que na COP 30 fosse expandida a discussão acerca das florestas marinhas tropicais, a fim de atrair recursos e políticas voltadas à conservação desses ambientes. Esse tema foi discutido na Green Zone, levantando a questão do sargaço flutuante: “Das Marés Marrons a um Futuro Azul: Um Esforço Multilateral para Mitigar os Impactos do Grande Cinturão de Sargaço do Atlântico”.

No Pacote Azul, iniciativa que lançou propostas para a proteção e restauração dos oceanos em meio à crise climática, foram incluídas as proteções de recifes de corais, manguezais e florestas de kelps, por exemplo. No entanto, o debate acerca da proteção das florestas marinhas de sargaço não foi contemplado no documento.  A cúpula representou um avanço inegável na luta pela conservação marinha, mas que ainda não soluciona a crescente problemática do desaparecimento das regiões de sargaço.
                                      

 

Lixo jogado ao mar atrai espécies invasoras, mostra pesquisa

Lixo jogado ao mar atrai espécies invasoras, mostra pesquisa

Resíduos acabam arrastando espécies estranhas e prejudicam seres vivos e meio ambiente 

Por: Sofia Inerelli

Tampinhas de plástico na faixa de areia da praia – Foto: Fernando Frazão (Agência Brasil)

 
                                      

O mexilhão-verde é uma espécie típica da região oceânica do Indo-pacífico. No entanto, arrastado pelo lixo jogado ao mar, pode chegar a ambientes novos, como o litoral de São Paulo e ocupar o lugar dos mexilhões marrons que vivem ali, causando um desequilíbrio no local. O impacto do lixo na vida das espécies marinhas é uma das descobertas de um estudo realizado por pesquisadores da UFF em praias do município de Niterói, inseridas na Baía de Guanabara e na Região Oceânica do município. 


Os pesquisadores Alain Póvoa, doutor em dinâmica dos oceanos, e Abilio Soares Gomes, doutor em oceanografia biológica, monitoraram ao todo 22 espécies incrustadas ao lixo. Entre elas, há crustáceos, vermes, moluscos e esponjas. Em sua maioria, tais espécies se alimentam pelo processo de filtração, ou seja, de presas ou de material orgânico que se encontram em suspensão na água do mar. O plástico, cuja densidade é menor do que a da água, flutua e atrai esses organismos, que o confundem com alimento.  


A pesquisa também observou que cerca de 36,4% das espécies eram classificadas como invasoras. Quando esses organismos são introduzidos em ambientes diferentes dos seus naturais, podem causar impactos significativos no local, especialmente pela ausência de predadores. Esse desequilíbrio pode resultar em superpopulação, competição por recursos e, em casos extremos, na eliminação de espécies nativas.


A dimensão do problema pode ser melhor compreendida quando associada à teoria do efeito borboleta: a partir de uma ação inicialmente pequena, como o bater das asas de uma borboleta, desdobramentos gigantes podem acontecer. Nesse caso, um gesto aparentemente simples — o uso de uma garrafa plástica e seu descarte no mar — é capaz de comprometer toda a cadeia alimentar de uma região quando a espécie mexilhão-verde se fixa nesse resíduo. 


Independentemente de seu formato ou de estar muito ou pouco deteriorado, o lixo jogado ao mar sempre traz consequências para a vida dos seres vivos. Polui as águas e pode interferir na cadeia alimentar de uma região; pode também afetar os seres humanos. É o que acontece com os microplásticos, que são partículas minúsculas de plástico mas que ainda não foram completamente degradadas. Elas são facilmente ingeridas pelos peixes até por fim chegarem aos seres humanos.


Lixo ‘internacional’, ou seja, que atravessa de um país é outro, é algo comum – mas resolver esse problema não é tão simples. Quando a origem dos resíduos é identificada, os países tendem a não assumir responsabilidade. Acordos internacionais, como a Convenção Internacional para a Prevenção da Poluição por Navios (MARPOL) e a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), estabelecem de forma ampla a responsabilidade de empresas e Estados pelo manejo adequado de resíduos, especialmente no ambiente marinho. No entanto, tais instrumentos ainda são insuficientes para garantir uma solução eficaz para o problema do lixo que circula entre fronteiras.


A presidente do Sea Shepherd Brasil, Nathalie Gil, durante a palestra “Lixo Internacional chega a nossa costa”, ocorrida na Rio Ocean Week, afirmou que não se pode pensar apenas no lixo que já está presente no mundo. Disse que é preciso reduzir e parar a produção de lixo. Segundo ela, eliminar todo o lixo das praias seria necessário fazer um mutirão com um bilhão de pessoas, e mesmo assim no dia seguinte o lixo continuará sendo despejado no oceano. A ação seria pouco eficiente, se for considerado o trabalho exigido, e nunca teria fim. Para ela, mais eficaz seria não produzir mais plástico, algo que exige unir ação social com políticas efetivas dos governos.










Conheça o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, projeto encabeçado pelo Brasil que ganhou espaço na COP 30

Conheça o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, projeto encabeçado pelo Brasil que ganhou espaço na COP 30

Programa foi anunciado na Cúpula dos Líderes em Belém e vai reunir recursos doados pelos países mais ricos para financiar ações de conservação das florestas

Por: Maria Eduarda Galdino

 
                                      

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF na sigla em inglês), programa criado pelo governo brasileiro, propõe oferecer financiamento para países que se comprometeram a conservar suas florestas tropicais. É uma forma de estimular esses países a continuar essa proteção. As florestas colaboram para a estabilidade da temperatura global, a preservação da vida humana e animal.A ideia é que, para cada dólar investido pelos países apoiadores, a iniciativa privada entre com 4 dólares. Através de empresas, fundações, governos e outras fontes, as florestas tropicais podem adquirir um financiamento estável por muitos anos.


O TFFF é diferente dos projetos de investimentos a favor da justiça climática já estabelecidos anteriormente. Como por exemplo, os mercados de carbono, que recompensam os países por poluírem menos com as emissões de CO2. O TFFF valoriza as florestas de pé, preservada e cuidada.Antes da COP 30 em Belém do Pará, apenas cinco países faziam parte do lado investidor do fundo: Colômbia, República do Congo, Indonésia, Gana e Malásia. No total, mais de 74 países que possuem florestas poderão receber partes do TFFF, para que o dinheiro possa ser investido em proteção aos biomas. 

 

Com as negociações da COP 30, mais países se comprometeram a financiar o projeto e o montante total já soma US$6,5 bilhões de dólares. A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, anunciou nesta quarta-feira (19), que o governo da Alemanha anunciou um investimento de 1 bilhão de euros. Além disso, durante a Cúpula do Clima em Belém, dias antes da COP 30, Noruega, França e Portugal anunciaram que vão participar.



O Brasil mantém o seu compromisso como criador e investidor do Fundo com US$1 bilhão de dólares. O presidente Lula afirmou que a iniciativa, liderada por um dos países do Sul Global, é inédita e focada nas florestas. Segundo o governo federal, o monitoramento de conservação será feito via satélite, com padronização internacional e dados públicos. O financiamento também pretende designar 20% do valor dos pagamentos aos povos indígenas e outros povos nativos. Um dos desafios é assegurar que o dinheiro do TFFF chegue de fato às comunidades tradicionais – a promessa é que pelo menos 20% dos investimentos vá para os povos indígenas, mas eles reivindicam um percentual maior. 



 

Brasil aprova exploração de petróleo na Foz do Amazonas às vésperas da COP30

Brasil aprova exploração de petróleo na Foz do Amazonas às vésperas da COP30

Pesquisadores e cientistas alertam para riscos ambientais e necessidade de investir em fontes energéticas renováveis 

Por: Sofia Inerelli 

 
                                      Embarcação petrolífera em mar aberto – Foto: César Fernandes – Agência Brasil

Após quase 40 anos desde o início da exploração de petróleo na Província Petrolífera de Urucu, a maior reserva terrestre de petróleo e gás natural do país, o Ibama autorizou a perfuração na bacia da Foz do Amazonas, localizada na Margem Equatorial, região estratégica para reposição de reservas. A decisão foi tomada 21 dias antes da COP 30, Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, o que provocou muitas críticas ao Brasil.

Explorações como a de Urucu e a da Foz do Amazonas são arriscadas, pois podem gerar grandes estragos no meio ambiente e as comunidades que dependem dele para sobreviver. Segundo o Instituto Internacional Arayara, a decisão do Ibama põe em risco 78% da biodiversidade amazônica, 2,7 milhões de indígenas e 10 milhões de hectares de floresta. O Arayara aponta ainda, entre os prejuízos, a poluição das águas, prejudicando a vida marinha, incluindo por poluição sonora e vazamentos de navios-tanques. Trata-se de uma região com correntes marítimas muito fortes, o que aumenta o risco de acidentes tanto durante a perfuração quanto na fase de produção.

 

Essa região concentra cerca de 80% de todos os manguezais do Brasil, incluindo o maior cinturão contínuo de manguezais do mundo, entre os litorais do Pará e do Maranhão. Esses ecossistemas desempenham um papel fundamental na captura e armazenamento de carbono, contribuindo diretamente para o enfrentamento das mudanças climáticas.

Além disso, a área possui grande relevância ecológica por ser uma zona de reprodução de diversas espécies marinhas e terrestres. Qualquer perturbação causada por atividades de perfuração pode comprometer esses processos naturais, tornando a exploração de petróleo na região ainda mais delicada e arriscada. Com a volta de um novo projeto para explorar petróleo na Amazônia, o Brasil demonstra que ainda não está disposto a romper completamente com fontes energéticas não renováveis. 

Luis Pazos administrador no BNDES alerta para os impactos que o projeto de exploração de petróleo pode causar sobre a população que habita aquele território: “O que acontece no entorno desse porto, que vai trazer mais carros, que vai trazer mais caminhões, que vai trazer mais gente? Como é que fica isso, quando a gente tem uma construção nova, que naturalmente atrai mais mão de obra, e essa mão de obra atraída tem um reflexo imediato naquele território?”, indaga.

Como solução, ele propõe uma agenda de desenvolvimento junto com indígenas, quilombolas e pescadores que vivem e sobrevivem da região. 

Durante a palestra “Foz do Amazonas: redução de danos”, ocorrida durante a Rio Ocean Week, o pesquisador Flavio Torres, do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás, afirmou que o Brasil não pode deixar de ter autonomia sobre sua produção energética, pois pode acabar sendo controlado por outros países. Na avaliação dele, esse seria um dos argumentos em defesa da exploração de petróleo na região. Torres disse que a dependência de fontes de energia externas compromete a soberania dos países e impacta diretamente a vida da população, sobretudo devido ao aumento dos preços dos combustíveis.

A Petrobras já afirmou que a produção nacional deve atingir seu pico em 2029 ou 2030 e depois começar a declinar. Mesmo que amenize o problema envolvendo a independência energética, o petróleo não é um recurso renovável, o que significa que em algum momento terminará. Pesquisadores e cientistas têm estimulado a busca de soluções energéticas com menos riscos e renováveis. 

O Brasil já tem produzido biocombustíveis para cada vez menos precisar dos combustíveis fósseis. De acordo com a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), 93% da energia gerada em 2023 foi de fontes renováveis.