Lixo jogado ao mar atrai espécies invasoras, mostra pesquisa
Resíduos acabam arrastando espécies estranhas e prejudicam seres vivos e meio ambiente
Por: Sofia Inerelli

O mexilhão-verde é uma espécie típica da região oceânica do Indo-pacífico. No entanto, arrastado pelo lixo jogado ao mar, pode chegar a ambientes novos, como o litoral de São Paulo e ocupar o lugar dos mexilhões marrons que vivem ali, causando um desequilíbrio no local. O impacto do lixo na vida das espécies marinhas é uma das descobertas de um estudo realizado por pesquisadores da UFF em praias do município de Niterói, inseridas na Baía de Guanabara e na Região Oceânica do município.
Os pesquisadores Alain Póvoa, doutor em dinâmica dos oceanos, e Abilio Soares Gomes, doutor em oceanografia biológica, monitoraram ao todo 22 espécies incrustadas ao lixo. Entre elas, há crustáceos, vermes, moluscos e esponjas. Em sua maioria, tais espécies se alimentam pelo processo de filtração, ou seja, de presas ou de material orgânico que se encontram em suspensão na água do mar. O plástico, cuja densidade é menor do que a da água, flutua e atrai esses organismos, que o confundem com alimento.
A pesquisa também observou que cerca de 36,4% das espécies eram classificadas como invasoras. Quando esses organismos são introduzidos em ambientes diferentes dos seus naturais, podem causar impactos significativos no local, especialmente pela ausência de predadores. Esse desequilíbrio pode resultar em superpopulação, competição por recursos e, em casos extremos, na eliminação de espécies nativas.
A dimensão do problema pode ser melhor compreendida quando associada à teoria do efeito borboleta: a partir de uma ação inicialmente pequena, como o bater das asas de uma borboleta, desdobramentos gigantes podem acontecer. Nesse caso, um gesto aparentemente simples — o uso de uma garrafa plástica e seu descarte no mar — é capaz de comprometer toda a cadeia alimentar de uma região quando a espécie mexilhão-verde se fixa nesse resíduo.
Independentemente de seu formato ou de estar muito ou pouco deteriorado, o lixo jogado ao mar sempre traz consequências para a vida dos seres vivos. Polui as águas e pode interferir na cadeia alimentar de uma região; pode também afetar os seres humanos. É o que acontece com os microplásticos, que são partículas minúsculas de plástico mas que ainda não foram completamente degradadas. Elas são facilmente ingeridas pelos peixes até por fim chegarem aos seres humanos.
Lixo ‘internacional’, ou seja, que atravessa de um país é outro, é algo comum – mas resolver esse problema não é tão simples. Quando a origem dos resíduos é identificada, os países tendem a não assumir responsabilidade. Acordos internacionais, como a Convenção Internacional para a Prevenção da Poluição por Navios (MARPOL) e a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), estabelecem de forma ampla a responsabilidade de empresas e Estados pelo manejo adequado de resíduos, especialmente no ambiente marinho. No entanto, tais instrumentos ainda são insuficientes para garantir uma solução eficaz para o problema do lixo que circula entre fronteiras.
A presidente do Sea Shepherd Brasil, Nathalie Gil, durante a palestra “Lixo Internacional chega a nossa costa”, ocorrida na Rio Ocean Week, afirmou que não se pode pensar apenas no lixo que já está presente no mundo. Disse que é preciso reduzir e parar a produção de lixo. Segundo ela, eliminar todo o lixo das praias seria necessário fazer um mutirão com um bilhão de pessoas, e mesmo assim no dia seguinte o lixo continuará sendo despejado no oceano. A ação seria pouco eficiente, se for considerado o trabalho exigido, e nunca teria fim. Para ela, mais eficaz seria não produzir mais plástico, algo que exige unir ação social com políticas efetivas dos governos.






