Lixo jogado ao mar atrai espécies invasoras, mostra pesquisa

Lixo jogado ao mar atrai espécies invasoras, mostra pesquisa

Resíduos acabam arrastando espécies estranhas e prejudicam seres vivos e meio ambiente 

Por: Sofia Inerelli

Tampinhas de plástico na faixa de areia da praia – Foto: Fernando Frazão (Agência Brasil)

 
                                      

O mexilhão-verde é uma espécie típica da região oceânica do Indo-pacífico. No entanto, arrastado pelo lixo jogado ao mar, pode chegar a ambientes novos, como o litoral de São Paulo e ocupar o lugar dos mexilhões marrons que vivem ali, causando um desequilíbrio no local. O impacto do lixo na vida das espécies marinhas é uma das descobertas de um estudo realizado por pesquisadores da UFF em praias do município de Niterói, inseridas na Baía de Guanabara e na Região Oceânica do município. 


Os pesquisadores Alain Póvoa, doutor em dinâmica dos oceanos, e Abilio Soares Gomes, doutor em oceanografia biológica, monitoraram ao todo 22 espécies incrustadas ao lixo. Entre elas, há crustáceos, vermes, moluscos e esponjas. Em sua maioria, tais espécies se alimentam pelo processo de filtração, ou seja, de presas ou de material orgânico que se encontram em suspensão na água do mar. O plástico, cuja densidade é menor do que a da água, flutua e atrai esses organismos, que o confundem com alimento.  


A pesquisa também observou que cerca de 36,4% das espécies eram classificadas como invasoras. Quando esses organismos são introduzidos em ambientes diferentes dos seus naturais, podem causar impactos significativos no local, especialmente pela ausência de predadores. Esse desequilíbrio pode resultar em superpopulação, competição por recursos e, em casos extremos, na eliminação de espécies nativas.


A dimensão do problema pode ser melhor compreendida quando associada à teoria do efeito borboleta: a partir de uma ação inicialmente pequena, como o bater das asas de uma borboleta, desdobramentos gigantes podem acontecer. Nesse caso, um gesto aparentemente simples — o uso de uma garrafa plástica e seu descarte no mar — é capaz de comprometer toda a cadeia alimentar de uma região quando a espécie mexilhão-verde se fixa nesse resíduo. 


Independentemente de seu formato ou de estar muito ou pouco deteriorado, o lixo jogado ao mar sempre traz consequências para a vida dos seres vivos. Polui as águas e pode interferir na cadeia alimentar de uma região; pode também afetar os seres humanos. É o que acontece com os microplásticos, que são partículas minúsculas de plástico mas que ainda não foram completamente degradadas. Elas são facilmente ingeridas pelos peixes até por fim chegarem aos seres humanos.


Lixo ‘internacional’, ou seja, que atravessa de um país é outro, é algo comum – mas resolver esse problema não é tão simples. Quando a origem dos resíduos é identificada, os países tendem a não assumir responsabilidade. Acordos internacionais, como a Convenção Internacional para a Prevenção da Poluição por Navios (MARPOL) e a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), estabelecem de forma ampla a responsabilidade de empresas e Estados pelo manejo adequado de resíduos, especialmente no ambiente marinho. No entanto, tais instrumentos ainda são insuficientes para garantir uma solução eficaz para o problema do lixo que circula entre fronteiras.


A presidente do Sea Shepherd Brasil, Nathalie Gil, durante a palestra “Lixo Internacional chega a nossa costa”, ocorrida na Rio Ocean Week, afirmou que não se pode pensar apenas no lixo que já está presente no mundo. Disse que é preciso reduzir e parar a produção de lixo. Segundo ela, eliminar todo o lixo das praias seria necessário fazer um mutirão com um bilhão de pessoas, e mesmo assim no dia seguinte o lixo continuará sendo despejado no oceano. A ação seria pouco eficiente, se for considerado o trabalho exigido, e nunca teria fim. Para ela, mais eficaz seria não produzir mais plástico, algo que exige unir ação social com políticas efetivas dos governos.










Conheça o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, projeto encabeçado pelo Brasil que ganhou espaço na COP 30

Conheça o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, projeto encabeçado pelo Brasil que ganhou espaço na COP 30

Programa foi anunciado na Cúpula dos Líderes em Belém e vai reunir recursos doados pelos países mais ricos para financiar ações de conservação das florestas

Por: Maria Eduarda Galdino

 
                                      

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF na sigla em inglês), programa criado pelo governo brasileiro, propõe oferecer financiamento para países que se comprometeram a conservar suas florestas tropicais. É uma forma de estimular esses países a continuar essa proteção. As florestas colaboram para a estabilidade da temperatura global, a preservação da vida humana e animal.A ideia é que, para cada dólar investido pelos países apoiadores, a iniciativa privada entre com 4 dólares. Através de empresas, fundações, governos e outras fontes, as florestas tropicais podem adquirir um financiamento estável por muitos anos.


O TFFF é diferente dos projetos de investimentos a favor da justiça climática já estabelecidos anteriormente. Como por exemplo, os mercados de carbono, que recompensam os países por poluírem menos com as emissões de CO2. O TFFF valoriza as florestas de pé, preservada e cuidada.Antes da COP 30 em Belém do Pará, apenas cinco países faziam parte do lado investidor do fundo: Colômbia, República do Congo, Indonésia, Gana e Malásia. No total, mais de 74 países que possuem florestas poderão receber partes do TFFF, para que o dinheiro possa ser investido em proteção aos biomas. 

 

Com as negociações da COP 30, mais países se comprometeram a financiar o projeto e o montante total já soma US$6,5 bilhões de dólares. A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, anunciou nesta quarta-feira (19), que o governo da Alemanha anunciou um investimento de 1 bilhão de euros. Além disso, durante a Cúpula do Clima em Belém, dias antes da COP 30, Noruega, França e Portugal anunciaram que vão participar.



O Brasil mantém o seu compromisso como criador e investidor do Fundo com US$1 bilhão de dólares. O presidente Lula afirmou que a iniciativa, liderada por um dos países do Sul Global, é inédita e focada nas florestas. Segundo o governo federal, o monitoramento de conservação será feito via satélite, com padronização internacional e dados públicos. O financiamento também pretende designar 20% do valor dos pagamentos aos povos indígenas e outros povos nativos. Um dos desafios é assegurar que o dinheiro do TFFF chegue de fato às comunidades tradicionais – a promessa é que pelo menos 20% dos investimentos vá para os povos indígenas, mas eles reivindicam um percentual maior. 



 

Brasil aprova exploração de petróleo na Foz do Amazonas às vésperas da COP30

Brasil aprova exploração de petróleo na Foz do Amazonas às vésperas da COP30

Pesquisadores e cientistas alertam para riscos ambientais e necessidade de investir em fontes energéticas renováveis 

Por: Sofia Inerelli 

 
                                      Embarcação petrolífera em mar aberto – Foto: César Fernandes – Agência Brasil

Após quase 40 anos desde o início da exploração de petróleo na Província Petrolífera de Urucu, a maior reserva terrestre de petróleo e gás natural do país, o Ibama autorizou a perfuração na bacia da Foz do Amazonas, localizada na Margem Equatorial, região estratégica para reposição de reservas. A decisão foi tomada 21 dias antes da COP 30, Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, o que provocou muitas críticas ao Brasil.

Explorações como a de Urucu e a da Foz do Amazonas são arriscadas, pois podem gerar grandes estragos no meio ambiente e as comunidades que dependem dele para sobreviver. Segundo o Instituto Internacional Arayara, a decisão do Ibama põe em risco 78% da biodiversidade amazônica, 2,7 milhões de indígenas e 10 milhões de hectares de floresta. O Arayara aponta ainda, entre os prejuízos, a poluição das águas, prejudicando a vida marinha, incluindo por poluição sonora e vazamentos de navios-tanques. Trata-se de uma região com correntes marítimas muito fortes, o que aumenta o risco de acidentes tanto durante a perfuração quanto na fase de produção.

 

Essa região concentra cerca de 80% de todos os manguezais do Brasil, incluindo o maior cinturão contínuo de manguezais do mundo, entre os litorais do Pará e do Maranhão. Esses ecossistemas desempenham um papel fundamental na captura e armazenamento de carbono, contribuindo diretamente para o enfrentamento das mudanças climáticas.

Além disso, a área possui grande relevância ecológica por ser uma zona de reprodução de diversas espécies marinhas e terrestres. Qualquer perturbação causada por atividades de perfuração pode comprometer esses processos naturais, tornando a exploração de petróleo na região ainda mais delicada e arriscada. Com a volta de um novo projeto para explorar petróleo na Amazônia, o Brasil demonstra que ainda não está disposto a romper completamente com fontes energéticas não renováveis. 

Luis Pazos administrador no BNDES alerta para os impactos que o projeto de exploração de petróleo pode causar sobre a população que habita aquele território: “O que acontece no entorno desse porto, que vai trazer mais carros, que vai trazer mais caminhões, que vai trazer mais gente? Como é que fica isso, quando a gente tem uma construção nova, que naturalmente atrai mais mão de obra, e essa mão de obra atraída tem um reflexo imediato naquele território?”, indaga.

Como solução, ele propõe uma agenda de desenvolvimento junto com indígenas, quilombolas e pescadores que vivem e sobrevivem da região. 

Durante a palestra “Foz do Amazonas: redução de danos”, ocorrida durante a Rio Ocean Week, o pesquisador Flavio Torres, do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás, afirmou que o Brasil não pode deixar de ter autonomia sobre sua produção energética, pois pode acabar sendo controlado por outros países. Na avaliação dele, esse seria um dos argumentos em defesa da exploração de petróleo na região. Torres disse que a dependência de fontes de energia externas compromete a soberania dos países e impacta diretamente a vida da população, sobretudo devido ao aumento dos preços dos combustíveis.

A Petrobras já afirmou que a produção nacional deve atingir seu pico em 2029 ou 2030 e depois começar a declinar. Mesmo que amenize o problema envolvendo a independência energética, o petróleo não é um recurso renovável, o que significa que em algum momento terminará. Pesquisadores e cientistas têm estimulado a busca de soluções energéticas com menos riscos e renováveis. 

O Brasil já tem produzido biocombustíveis para cada vez menos precisar dos combustíveis fósseis. De acordo com a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), 93% da energia gerada em 2023 foi de fontes renováveis. 

 

Mitigação e adaptação climática: entenda dois dos principais conceitos da COP30

Mitigação e adaptação climática: entenda dois dos principais conceitos da COP30

Conceitos têm sentidos diferentes e expressam necessidades distintas diante da crise climática

Por: Sofia Inerelli e Maria Luísa Fontes

 
                                Fonte: Ralf Vetterle/Pixabay – reprodução Agência Brasil
 

 

“Mudo uma planta de lugar.” O gesto eternizado na voz de Cássia Eller nos anos 90 como símbolo de mudança e ajustes ganha um sentido atual no contexto da crise climática. Já não se trata apenas de mudar a planta de lugar – é preciso reconfigurar todo o sistema em que ela cresce. Adaptação climática é um dos conceitos centrais da 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, a COP 30, que acontece em novembro em Belém do Pará. 

A Meta Global de Adaptação às Mudanças Climáticas foi um dos tópicos do Acordo de Paris criado em 2015 na COP 21. A proposta é fortalecer a adaptação para diminuir a vulnerabilidade dos seres vivos diante das mudanças no clima que já estão em andamento. É uma forma de buscar soluções diante de um mundo cada vez mais quente. Significa ajustar a vida humana, animal e vegetal de acordo com as mudanças climáticas atuais ou que ainda irão acontecer. Ela tem a finalidade de reduzir a exposição e a vulnerabilidade dos seres vivos frente aos efeitos do clima intensificados pelos próprios humanos. 

 

Já a mitigação é uma estratégia cujo foco é limitar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) para reduzir o aquecimento global. Ou seja, é o trabalho para reduzir problemas já em andamento. 

Para o professor de Ecologia da UFRJ Rodrigo Tardin, nesse momento a mitigação é mais urgente. “Mas, ao mesmo tempo que a gente está fazendo estratégias, unindo esforços para mitigar, a gente também pode ir adaptando”. O pesquisador considera que uma das melhores maneiras de mitigar é através dos manguezais, vegetação comum no Hemisfério Sul, nos quais captam cinco a seis vezes mais carbono que florestas tropicais. Ele ainda aponta que há muito preconceito por parte da sociedade, que enxerga o organismo como poluído – devido ao seu cheiro forte -, o que dificulta a mobilização para proteger esse ecossistema.

 

Tardin destaca três cenários possíveis para os resultados das estratégias de mitigação climática. O primeiro cenário é descrito como otimista, pois conseguiria de fato reduzir o aumento da temperatura média global a 1,5°C. O cenário intermediário é uma previsão de que, até 2050, a produção dos gases GEE irá crescer mas, a partir desse momento, a sociedade vai mudar seu rumo e começar a reduzir as emissões. E o terceiro cenário apresentado pelo professor é pessimista: “Apesar de todos os esforços que existem, ninguém se mudou, ninguém se tocou para mitigar”. É o mundo em que a sociedade permaneceria em total dependência dos combustíveis fósseis.

 

Nesse cenário, criar um plano de adaptação climática torna-se extremamente essencial. Segundo o relatório de 2025 da Transparência Internacional-Brasil, apenas um em cada oito municípios brasileiros conta com um plano de adaptação climática. Tardim destaca que na última década, o país enfrentou diversos desequilíbrios ambientais como a invasão do mar na orla da Zona Sul carioca e as enchentes que deixaram dezenas de mortos no Rio Grande do Sul.

As estratégias de adaptação climática devem ocorrer tanto na esfera federal, quanto na estadual e municipal. O programa do governo federal Novo Brasil, que é um Plano de Transformação Ecológicas, divulgou 150 resultados dos 250 propostos desde sua criação em 2023. Dentre eles, destaca-se a construção de usinas eólicas; o Programa Cidades Verdes e Resilientes, que procura aumentar a resiliência e a qualidade ambiental das cidades no combate às mudanças climáticas; o Plano Nacional da Defesa Civil, que apresenta diretrizes para redução de riscos na gestão de desastres naturais; e o Plano Clima, que envolve a redução das emissões de GEE e a adaptação aos impactos das mudanças climáticas.  

Entretanto, não cabe somente ao governo pensar nas estratégias de mitigação e adaptação climática. A sociedade também precisa se mobilizar no combate às mudanças no clima. O site do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima criou uma consulta participativa sobre o tema. “O governo tem que estabelecer as diretrizes, ao mesmo tempo que as pessoas têm que dar as opiniões e fazer as ações também”, afirma Tardin. 

Adaptação e mitigação são estratégias cruciais rumo a uma mudança sistêmica. Isso vale para tudo: infraestrutura pública, decisões econômicas, políticas sociais. Só assim será possível enfrentar de fato os desafios da emergência climática: transformando o próprio sistema em que ela está inserida. 

Nos dez anos do Acordo de Paris, Brasil estabelece novas metas, e Estados Unidos preparam retirada

Nos dez anos do Acordo de Paris, Brasil estabelece novas metas, e Estados Unidos preparam retirada

Assunto será tema de discussão na Cop 30 em Belém do Pará em novembro

Por: Maria Eduarda Galdino

                  Presidente Lula e António Guterres na reunião do G20 Brasil. Foto: Ricardo Stuckert/ Agência Brasil.
 

 

O Acordo de Paris, tratado internacional feito para combater as mudanças climáticas e o aquecimento global, completará dez anos de existência em dezembro deste ano. O acordo foi firmado na 21ª Conferência das Partes, a Cop 21, em Paris, França, em 2015, e foi assinado por 194 países. Um dos principais objetivos do acordo é manter o aquecimento global abaixo de 2ºC e limitar o crescimento em até 1,5ºC. 

Para combater o aquecimento global, os países signatários do acordo devem prestar contas das ações/metas para diminuir as emissões dos gases de efeito estufa. Essas ações são estabelecidas pela Contribuição Nacionalmente Determinada, também conhecida como NDC. Essas metas são apresentadas a cada cinco anos e devem progredir de forma mais ambiciosa acerca do relatório anterior.

Além das NDCs, existem as estratégias de desenvolvimento de longo prazo com baixas emissões de gases do efeito estufa (LT-LEDS). Segundo a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre o Clima (UNFCCC), as LT-LEDS estabelecem metas de longo alcance para as NDCs, a fim de que os países possam estipular metas de desenvolvimentos duradouras.  

O governo brasileiro apresentou sua nova NDC em novembro de 2024 chamada de Plano Clima. Entre os objetivos estão as ações para reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 53% até 2030 e zerar as emissões líquidas até 2050. Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, essas ações significam um equilíbrio entre as emissões e as remoções de gases da atmosfera por parte do Brasil.

O governo brasileiro pretende apresentar uma meta ainda mais ambiciosa antes da 30ª Conferência do Clima da ONU, a Cop30, que será em Belém do Pará em novembro.  As outras partes signatárias do acordo ainda precisam apresentar suas NDCs, mas até agora, apenas 54 países estão de acordo com o prazo combinado para a entrega das metas à ONU. Isso representa um atraso, já que 195 partes assinaram o Acordo de Paris.  

Em entrevista à Agenc,  Janaína Pinto, doutoranda em Ciência Política e integrante do Observatório interdisciplinar de mudanças climáticas, centro de pesquisas sobre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável, Janaína Pinto, afirmou que atualmente o maior problema ambiental que o Brasil enfrenta é o desmatamento. É o que a comunidade científica climática internacional chama de mudança no uso da terra, uma categoria que engloba. Além do desmatamento, existem outros fatores problemáticos como a devastação florestal. “Juntando o desmatamento com as emissões por agricultura e por agropecuária, nós temos mais de 2/3 das emissões brasileiras devidas a esse tipo de processo econômico”, disse. 

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento na Amazônia cresceu 8,4% entre agosto de 2024 e junho de 2025. A causa do aumento está nos episódios atípicos de incêndio florestal registrados pelo satélite no início do período seco. O estudo também registra uma queda de 22,51% de desmatamento no Cerrado em relação à pesquisa do ano anterior. Enquanto isso, o governo federal aprova  R$ 850 milhões de reais do Fundo Amazônia, para fortalecer as ações de fiscalização ambiental para o controle de desmatamento na Amazônia. 




Acordo de Paris sem os EUA 

Os Estados Unidos, um dos países com maior influência e financiamento climático do mundo, já saíram do Acordo de Paris pela segunda vez. Essa foi uma das primeiras medidas do atual presidente Donald Trump, anunciada no dia da sua posse, em janeiro de 2025. A saída deve se concretizar no ano que vem.  Essa não é a primeira vez que Trump afirma sua posição contra os pactos globais a favor do clima. No seu primeiro mandato em 2017, Trump também havia anunciado a saída dos EUA do Acordo de Paris, meses depois de assumir a presidência. Para Janaína Pinto, Trump utiliza o discurso de negacionismo para sustentar suas ações contra os pactos globais. “Ele afirma que, para que ele possa cuidar da economia nacional, ele precisa ser climaticamente irresponsável. Isso não é verdade. Ele precisa modificar a economia dos Estados Unidos”, disse.

Segundo a especialista, essas ações contra as políticas de combate às mudanças climáticas fazem parte da agenda de uma extrema direita que pretende acabar com o multilateralismo. Em sua avaliação, a instabilidade nos Estados Unidos ganha uma projeção internacional por conta da grande influência e financiamento que o país mantém sobre outros países. “Não apenas ele (Trump) se retira da mesa de negociação e coloca em risco os acordos financeiros necessários, ele tira a carteira dos Estados Unidos da mesa de negociação e compromete a carteira das outras partes”. 

 Segundo Janaína, os Estados Unidos têm criado instabilidades nos acordos internacionais desde 2024, na 29ª Conferência das partes no Azerbaijão. Trump já tinha vencido as eleições de 2024 antes da reunião do Acordo de Paris, o que causou incerteza sobre as promessas feitas pelos negociadores do governo Biden. “Não ficou estabelecido de onde sairia esse dinheiro, quem administraria o dinheiro. Justamente porque faltavam peças naquela mesa de negociação, porque o futuro estava incerto devido a essa oscilação de um ator tão importante como os Estados Unidos”.

Projeto da Uerj oferece acompanhamento em casos de transição de gênero

Projeto da Uerj oferece acompanhamento em casos de transição de gênero

Serviço de Identidade fornece atendimento gratuito multiprofissional, clínico e cirúrgico, para pessoas trans

Por: Maria Luísa

 

 

O Serviço de Identidade – Transdiversidade é um projeto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) voltado para pessoas que buscam realizar a transição de gênero. O serviço foi o primeiro do estado a atender apenas pessoas transgênero. Ele fornece atendimento interdisciplinar e multidisciplinar, contando com 13 especialidades de atuação. Dentre essas, enfermeiros, psicólogos, psiquiatras, nutricionistas, clínicos gerais e ginecologistas, entre outros profissionais.  Os atendimentos, todos gratuitos,  acontecem na Policlínica Piquet Carneiro, que oferece auxílio ambulatorial, e no Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), que acompanha os casos cirúrgicos.

 

O projeto tem seis vagas de atendimento por semana e em torno de mil pessoas na fila virtual em busca de assistência para o processo de transição. Para a primeira consulta, a espera é estimada em um ano. A coordenadora do ambulatório, Márcia Brasil, orienta que a pessoa interessada em entrar no programa procure inicialmente a Clínica da Família ou a Secretaria de Saúde do município onde mora para ser inserida no sistema de regulação ambulatorial do estado. 

A escolha de fazer tratamento hormonal, fonoaudiologia ou cirurgia é do paciente e não afeta a assistência oferecida pelos profissionais. Caso a pessoa queira realizar a cirurgia, permitida no mínimo dois anos após o início do processo, o profissional de saúde precisa solicitar sua inclusão no Sistema Estadual de Regulação. No pós-cirúrgico imediato, o paciente volta à policlínica para receber o cuidado da equipe do Serviço de Transdiversidade.

 

Segundo Márcia Brasil, o tamanho da fila mostra a relevância do serviço, bem como a necessidade de uma equipe adequada e uma rede qualificada de apoio fora da capital, para que não seja necessário o deslocamento intermunicipal dos usuários. A ideia é que os pacientes passem por diversos especialistas toda vez que retornam ao atendimento, reduzindo, assim, a quantidade de viagens.

 

O programa Transdiversidade surgiu em 2003 no HUPE, mas somente em 2008 a transição de gênero virou uma política pública do SUS. Antes disso, o paciente que desejasse realizar a “cirurgia de mudança de sexo”, como era chamada, não tinha acompanhamento médico e psicológico adequado, sendo diagnosticado com transtorno de transexualismo.

 

Pela nova Classificação Internacional de Doenças (CID), a transgeneridade deixou de ser considerada patologia e passou a ser tratada como “condições relacionadas à saúde” por “incongruência de gênero”, mas esse código ainda não entrou em vigor. Márcia Brasil afirma que, por mais que a pessoa entre no programa por meio do diagnóstico de uma patologia, ela não é tratada como doente na clínica.

 

Apesar do  Programa de Atenção à Saúde da População Trans (Paes Pop Trans), apresentado em 2024, propor o acompanhamento da comunidade trans, o projeto está paralisado, e a legislação brasileira não tem previsão de ser alterada. O novo programa prevê a ampliação dos centros especializados para que todos os estados do Brasil tenham espaços de referência ambulatorial e cirúrgica. A última atualização legislativa no assunto ocorreu em 2013, através da Portaria nº 2.803 do Ministério da Saúde que reformulou e expandiu o Processo Transexualizador no SUS.

 

A pesquisadora Márcia Brasil afirma que a Uerj, por meio do HUPE e da policlínica, é uma prestadora, mas deve haver “uma linha de cuidados desenhada pelo estado para que os prestadores possam fazer assistência dentro dessa linha de cuidados”. Na ausência da atuação do estado, como no Rio de Janeiro, a organização acaba sendo feita pelos próprios profissionais de assistência, numa sobreposição de responsabilidades que sobrecarrega o programa. Para Márcia, cabe à universidade  “fazer o papel de universidade, que é o ensino, a pesquisa e a extensão”. O desenho da assistência é, portanto, papel do gestor.

 

Márcia destaca outra razão que impede o avanço de programas de diversidade: o preconceito. “Eu acredito que ele está atravessado por perspectivas conservadoras que minam decisões que seriam importantes para que as pessoas tivessem mais acesso”, afirma. E diz que o estado não promove uma política pública de cuidado.

 

Em novembro do ano passado, o programa de Transdiversidade foi oficializado como serviço pela Uerj. Com isso, ganhou, dentro da estrutura da universidade, um lugar institucional. O Serviço de Identidade é um projeto submetido à direção médica da Policlínica. Márcia afirma que o serviço desempenha um papel fundamental de luta contra o conservadorismo, promovendo a esperança para pacientes e desconstruindo pensamentos discriminatórios. A médica Carolina Cunha, do Identidade, alerta sobre a importância de furar a bolha, trazendo a discussão da diversidade para outras esferas sociais. Ela defende o debate aberto sobre orientação sexual e identidade de gênero com a população: “Quando a gente fala, a gente tá prevenindo o suicídio, a gente tá dizendo: ‘a sua existência é possível’”.

 

Cartilhas para o público LGBTQIAP+ 

(saúde, denúncias de violência, políticas públicas outros temas)

Desigualdade social e extremos climáticos são gatilhos para sofrimento mental, alerta especialista

Desigualdade social e extremos climáticos são gatilhos para sofrimento mental, alerta especialista

Em palestra na UERJ, psiquiatra Flávio Kapczinski explicou que pessoas em estado de maior vulnerabilidade social estão mais propensas a traumas psicológicos

Por: Sofia Inerelli

                            Flávio Kapczinski em palestra sobre saúde mental na UERJ – Foto: Letícia Santana

 

A inteligência artificial no jornalismo foi tema da plenária do Rio Innovation Week, a maior conferência global de tecnologia, inovação e empreendedorismo da América Latina. As jornalistas da Rede Globo Renata Lo Prete e Andréia Sadi analisaram os impactos da IA no jornalismo e questões éticas envolvendo a tecnologia.

Renata Lo Prete afirmou que é necessário abraçar as mudanças tecnológicas e praticar um letramento para melhor uso da inteligência artificial, que segundo ela, não é uma ferramenta, mas sim, um agente. Além disso, a jornalista acrescentou que é preciso reinventar a forma de lidar com a informação e sua confiabilidade. “Eu acredito que o jornalismo pode ter um papel essencial, a questão da confiança sempre foi essencial para o jornalismo”, disse. 

Segundo a International Business Machines Corporation (IBM), empresa estadunidense do setor de informação, a inteligência artificial é uma tecnologia que permite que máquinas simulem o aprendizado, a compreensão, a resolução de problemas, a tomada de decisões, a criatividade e a autonomia dos seres humanos. 

A IA chegou ao Brasil por volta de 1970 com pesquisadores do Laboratório Nacional de Informação Aplicada (LNIA), mas se popularizou no mundo corporativo e na internet em 2020. Com isso, o Brasil se tornou o terceiro maior usuário do ChatGPT no mundo, segundo a OpenAI. 

Apesar do grande número de usuários de IA no Brasil, apenas 54% dos brasileiros compreendem realmente o que é uma inteligência artificial. Esse dado faz parte da pesquisa “Consumo e uso da Inteligência Artificial no Brasil”, realizada pelo  Observatório Fundação Itaú em parceria com o Datafolha. Além disso, 76% dos entrevistados acreditam que IA pode facilitar a disseminação da desinformação, as fake news, ainda mais quando usada sem regulamentação. 

Um estudo da Columbia Journalism Review analisou oito chatbots, que são programas de computador que funcionam como assistente virtuais, projetados para simular conversas humanas. Ao final da pesquisa, concluiu-se que mais de 60% das respostas estavam incorretas quando os bots foram testados com consultas baseadas em notícias. Além disso, a pesquisa mostra que às vezes o chat respondia com links errados ou quebrados, que não tinham conexão com o comando feito. 

Renata Lo Prete apresentou um estudo da Harvard Business School sobre os pilares da confiabilidade. Entre os tópicos fundamentais estavam a capacidade de desenvolver apuração, checar, apresentar e transmitir de forma clara. “A confiança é construída com as pequenas decisões do dia dia, da forma como você procura suas fontes. A confiança é um ativo simbólico, que você pode ganhar e perder”, disse.

Na plenária, Andréia Sadi falou sobre a suposta ameaça da inteligência artificial ao jornalismo, mas afirmou que a tecnologia não pode substituir o jornalista por completo. Andréia explica que os jornalistas são necessários para manusear a inteligência artificial, pois a tecnologia funciona a partir de comandos, perguntas e instruções. “No jogo da inteligência artificial, ganha quem faz as perguntas certas, e isso, para os jornalistas, é gol”, disse

A pesquisa “Confiança, atitudes e Uso de Inteligência Artificial: um estudo global 2025“, feita pela Universidade de Melbourne, afirma que no Brasil, 71% dos entrevistados reconheceram um aumento na agilidade no trabalho e potencial da IA, mas que a confiança na ferramenta ainda se apresenta como um desafio. Metade dos entrevistados ainda tem preocupações com a segurança das informações e impacto social.

Uerj abre novo serviço de acolhimento gratuito em saúde mental

UERJ abre novo serviço de acolhimento gratuito em saúde mental

Novo projeto, que coincide com programação do setembro amarelo, vai atender estudantes, docentes e técnicos

Por: Sofia Inerelli

                                                 Serviço de Acolhimento à Saúde universitária – Foto: Sofia Inerelli

 

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro abriu neste mês de setembro um novo programa de acolhimento gratuito, com foco na saúde mental. O Sasu (Serviço de Acolhimento à Saúde Universitária) vai atender tanto estudantes como professores e técnicos, tanto concursados como terceirizados. Funcionará das oito da manhã às seis da tarde, de segunda a sexta-feira, no subsolo da universidade. 

Anália Barbosa, coordenadora de acolhimento de saúde mental do Sasu, disse que o projeto começará atendendo situações de crise e de maior vulnerabilidade, mas tem a intenção também de ser um local onde as pessoas poderão vir simplesmente para serem ouvidas, tomar uma água, respirar e serem acolhidas. O encaminhamento para a rede SUS é outra funcionalidade do projeto.

Segundo Anália Barbosa, muitas vezes as  pessoas desconhecem onde buscar ajuda e ficam perdidas em sofrimento, e o programa atuará nesse sentido. Outra preocupação é oferecer continuidade no acompanhamento, com seus profissionais sempre atentos a cada passo do paciente.

O estilo de atendimento não será clínico ou fisioterápico. A coordenadora do projeto explica: “Você não vai sair com uma receita, com um laudo, mas você vai ter um acolhimento de profissionais e ter acesso a um risco de avaliação. Vamos poder pensar em que riscos você vai estar e que caminhos vamos seguir”. Anália complementa dizendo que a saúde mental coloca o desafio da construção coletiva. Os atendimentos serão organizados junto com as pessoas. A depender do caso, vai ser definido se será um acolhimento na hora, algo a ser agendado ou apenas uma orientação. O programa conta com uma equipe multiprofissional, o que inclui um psicólogo, assistente social, médico de família e equipe de enfermagem.

 

Anália Barbosa destacou que a UERJ já tem a característica de envolver atividades acadêmicas, de formação e de apoio em saúde mental para a comunidade universitária e a sociedade. Outros serviços oferecidos pela universidade.

 

SASU – Serviço de Acolhimento à Saúde Universitária 

  • Email: sasu@uerj.br
  • Local: Subsolo do campus Maracanã, próximo à Gráfica Uerj.

 

CAPs – Centro de Assistência Psicossocial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

  • Telefone: (21) 2566-7371 ou (21) 2566-7372

 

SPA – Serviço de Psicologia Aplicada da UERJ 

  • Telefone: (21) 2334-0033 ou (21) 2334-0108
  • E-mail: spa@uerj.br.

 

Local: Sala 10.006, Bloco D, 10º andar, Rua São Francisco Xavier, 524, Maracanã, Rio de Janeiro.

Entre o protagonismo global e o complexo de vira-lata

Entre o protagonismo global e o complexo de vira-lata

Pesquisa  mostra opinião de brasileiros sobre o Brasil e aponta desafios para não reforçar estereótipos

Por: Sofia Inerelli

Manaus (AM), 29/11/2024 – Reserva florestal Adolpho Ducke, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA), onde se localiza o Museu da Amazônia (MUSA). Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

 

De um lado, um Brasil em que se destacam a hospitalidade, o turismo e a natureza; de outro, um país onde há racismo, desigualdade, violência e exploração ilegal de sua biodiversidade. É essa a imagem do Brasil que aparece numa pesquisa realizada pela Comissão Temática de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, órgão integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS) da Presidência da República do Brasil. Os resultados foram apresentados no Rio Innovation Week (RIW), em agosto de 2025, no Rio de Janeiro.

A pesquisa foi encomendada em 2023, como parte do investimento em imagem e reputação do Brasil no ano em que vai sediar a COP30, a Conferência do Clima das Nações Unidas. Foram ouvidas 3.357 pessoas em todo o país. Entre os entrevistados estavam os integrantes do CDESS, especialistas em Brasil, lideranças de vários setores e cidadãos comuns. Algumas figuras de destaque presentes na pesquisa foram o cantor e compositor Gilberto Gil, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o escritor Ailton Krenak, primeiro indígena a integrar a Academia Brasileira de Letras.

Os autores do trabalho são Jeanine Pires, Lourenço Bustani, Marcel Fukayama, Victor Cremasco, Fabio Issao, Debora Emm e Túlio Custódio. O grupo apresentou os resultados e destacou que buscou escutar diferentes públicos estratégicos para garantir uma abordagem ampla e representativa do Brasil. Segundo os autores do trabalho, a ideia da pesquisa era “levantar um espelho” com o intuito de provocar reflexões nas lideranças e na população brasileira, em relação a como se enxergam e aos caminhos possíveis e promissores para recompor sua identidade.

 

Ao ser questionado sobre a possibilidade de o estudo se tornar uma propaganda do Brasil, Túlio Custódio, colaborador da pesquisa, afirmou que essa era uma preocupação real de seus idealizadores. Mas diz que o trabalho não é um marketing para higienizar a imagem do Brasil e sim propor caminhos para que o país construa uma imagem alinhada aos desafios internos e também globais. E para que a sociedade brasileira e entidades internacionais possam compreender melhor a identidade da nação e o que pode vir a se tornar. 

O trabalho chama atenção para percepções muitas vezes limitadas sobre o Brasil. Destaca, por exemplo, que enxergar o país como um lugar voltado à diversão acaba fazendo com que seja associado à falta de seriedade — e, consequentemente, à incapacidade de discutir e resolver questões mais complexas. A pesquisa também mostra que, embora seja legítima a necessidade de mudanças em diversos aspectos estruturais, parte da população brasileira tende a não valorizar as conquistas já alcançadas no país, passando a enaltecer tudo o que é considerado superior em outras nações. Essa postura acaba por reforçar o chamado “complexo de vira-lata”, alerta estudo.

 

A esperança do brasileiro foi outro ponto destacado pelo projeto. Apesar dos persistentes desafios históricos, os brasileiros ainda têm expectativa de que um dia, o Brasil será melhor. A pesquisa revelou também uma tendência de mudança no significado dessa esperança, saindo da ideia de promessa de transformação para a de um país protagonista no cenário mundial.

Entre os atributos positivos do país, os entrevistados apontaram a potência socioambiental; a  simbiose entre o território, as pessoas e as culturas; a habilidade na diplomacia, a capacidade de diálogo e força da ação coletiva, demonstrada em momentos de tragédia ou na organização de trabalho cooperativo.

Outros exemplos que reforçam a compreensão de que o país “já é”, em vez de “um dia será”, são os alguns projetos e espaços de excelência, como o SUS, tecnologias financeiras como o PIX, os biocombustíveis e o uso de matrizes energéticas sustentáveis. 

A pesquisa também apresentou recomendações estratégicas para a COP 30. Os especialistas destacaram que a COP 29 gerou um sentimento generalizado de decepção e falta de compromisso por parte da comunidade internacional. Nesse contexto, o Brasil terá em 2025 uma oportunidade decisiva de liderar uma “COP da virada”, capaz de responder de forma concreta e urgente à crise climática. 

O desafio de conquistar vozes da juventude em defesa do clima

O desafio de conquistar vozes da juventude em defesa do clima

Amanda Costa, jovem embaixadora da ONU, diz que, em um cenário de crise climática, aprender a comunicar é desenvolver estratégias para criar futuros sustentáveis

Por: Sofia Inerelli

Amanda Costa – Foto: Mapa Fotografia/Rogério von Krüger

Chamada para o evento Central da Cop (Foto: instagram)

Combater a mudança climática e desinformação é um desafio que cada jovem pode encarar, usando seu celular como instrumento. Em síntese, foi esse o recado de Amanda Costa, jovem embaixadora do clima junto à ONU,  durante o evento Vozes pelo Clima: Mídia, Ciência e Educação no Combate à Desinformação, realizado no último dia 11 de agosto. Amanda convocou a juventude a atacar as fake news, um problema mencionado por especialistas presentes ao evento como algo muito prejudicial diante da atual crise climática.

 

O evento, organizado pelo Programa de Pós Graduação em Mídias Criativas (PPGMC) da UFRJ em parceria com o projeto “Climate Talks” da Embaixada da Alemanha e o DAAD (Serviço de Intercâmbio Acadêmico Alemão), contou com palestras feitas por jornalistas, cientistas, professores e ativistas que eexplicaram o que significa desinformação, quais são os tipos de negacionismo e em quais sites conferir a veracidade da informação. 


Em consenso, comunicadores e líderes ambientais falaram da importância de questionar a desinformação. Mostraram que ela muitas vezes é utilizada por grupos com interesses econômicos e políticos para obter influência, dinheiro e poder. Destacaram que, no momento de crise climática, a desinformação atrapalha ações concretas e reais de apoio a vítimas de desastres, por exemplo, e atrapalha a compreensão real do problema.

Amanda Costa reiterou o papel dos jovens como aliados para combater fake news. “Hoje cada um de vocês tem um celular, cada um de vocês podem promover informações. É nossa responsabilidade verificar notícias e criar novas narrativas. Entender que a gente tem a possibilidade de contribuir para o desenvolvimento sustentável, que não é parte apenas de determinado grupo que está na política, economia ou universidade o dever de pensar estrategicamente sobre o nosso mundo sustentável”. 

Ao ser questionada sobre o motivo pelo qual a juventude não se mostra tão engajada nas discussões a respeito da defesa do meio ambiente, Amanda disse que muitos jovens se sentem cansados ao ter que conciliar trabalho, escola ou faculdade, com tempos longos de percursos entre um e outro. Lembrou que, historicamente, a juventude sempre se associou a revoluções, passeatas, greves e manifestações, mas hoje sofre com uma espécie de apatia. A mudança nesse comportamento, para Amanda, está relacionada ao sistema capitalista. “Nesse projeto, lutas coletivas cada vez passam a ser estruturalmente invisibilizadas, prevalecendo lutas individuais que alcançam menos visibilidade e possuem menos força para alterar o sistema.”

A ativista exibiu vídeos e destacou a necessidade de inovar a linguagem para se aproximar  desta geração que vem crescendo desde cedo na internet. Um deles, em tom irônico, mostrou como seria viver em Marte, apresentado como a “nova Terra”. Os jovens riram diante da sátira e discutiram a mensagem proposta: não há outro planeta, então a saída é lutar e se engajar para salvar o planeta em que vivemos.