Como alunas do ensino médio lutam para salvar o Cerrado Mineiro

Como alunas do ensino médio lutam para salvar o Cerrado Mineiro

Projeto das estudantes, orientado por professora de Minas Gerais, usa cascas e polpa de café para revitalizar o solo

Por: Sofia Inerelli

Foto: Maysa Pereira, Maryane Pereira, Laura Rocha e Meirielly Maria Cardoso apresentando o projeto “Aplicação de polpa e casca do café para a restauração do solo no Cerrado Mineiro” no SBPC – Sofia Inerelli

 

Um grupo de estudantes do ensino médio chamou a atenção durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada de 26 de julho a 1º de agosto na UFF (Universidade Federal Fluminense), em Niterói. Maysa Pereira (16), Maryane Pereira (16), Laura Rocha (16) e Meirielly Maria Cardoso (27) apresentaram um projeto que utiliza a casca e a polpa do café, ricas em nutrientes, como forma de revitalizar o Cerrado Mineiro. As alunas e a professora da Escola Estadual Frei Egídio Parisi, em Uberlândia (MG), não se intimidaram pela dimensão do problema ao buscar salvar o solo do bioma. 

 

A ideia surgiu depois que elas leram sobre um projeto realizado na Costa Rica: um pasto abandonado no sul do país caribenho foi revitalizado pelos ecólogos Rebecca Cole e Rakan Zahawi, ligados à Universidade do Havaí em Māno, usando café. O experimento buscou regenerar uma região invadida por gramíneas, que impedia as sementes de se estabelecerem ao competir pelos alimentos e luz. Com a introdução da polpa do café e sua posterior degradação, o carbono, o nitrogênio e o fósforo aumentaram no solo, possibilitando o desenvolvimento das plantas. 

 

 

Foto: Imagem aérea que mostra a área onde foi colocada a polpa de café (esquerda) e o terreno de controle (direita) após dois anos – Rakan (Zak) Zahawi

O grupo se inspirou nessa ideia para fazer o mesmo no Cerrado, bioma brasileiro que já perdeu  40,5 milhões de hectares de vegetação nativa segundo a Coleção 10 do MapBiomas. A escolha do café como adubo também não foi aleatória, o Cerrado Mineiro, o “jardim” das pesquisadoras, responde por aproximadamente 6 milhões de sacas de café por safra, o equivalente a 25,4% da produção mineira e 12,7% da produção nacional do grão, segundo o portal de notícias do Sebrae. A proposta do experimento, como explicou Meirielly Maria Cardoso, professora de sustentabilidade das estudantes e coordenadora do projeto, é associar os interesses econômicos e ambientais ao fazer com que o café “pague” a sua própria conta, ou seja, restaure o solo que ele mesmo desgastou. 

 

A escolha de usar a casca e a polpa de café também serviu para afastar o uso de fertilizantes químicos. No Brasil a prática é recorrente, em 2025 tornou-se o maior importador mundial da matéria-prima, segundo um relatório da Cogo Inteligência em Agronegócios. Porém o fertilizante químico oferece os nutrientes que a planta mais precisa, não necessariamente aquilo que o solo necessita para recompor a sua microbiota natural. Isso significa que ao longo do tempo o solo irá se degradar pela falta de nutrientes impedindo que outras plantações ocorram nessa terra. Outra vantagem da adubação natural é que não há custo extra, pois a casca e a polpa são produtos agrícolas que seriam descartados.

 

O projeto já apresentou alguns resultados, ao utilizar a água de imersão, mistura da polpa do café com a água, as quantidades de fósforo, magnésio e enxofre aumentaram no solo. Agora pretendem introduzir o esterco bovino, um meio encontrado pelas pesquisadoras de não depender completamente do café. Mesmo que ainda estejam em processo de testes, Meirielly revelou sua vontade de expandir a técnica para outros biomas. “Assim que a gente obtiver resultados e tiver certeza da eficácia, a gente pensa em expandir, pois queremos que a sustentabilidade gire no mundo.” O diferencial do projeto é conseguir manter a produção agrícola e um possível  recondicionamento do solo sem que um seja comprometido.

Agenc vai participar do Atlas da Notícia 2026

Agenc vai participar do Atlas da Notícia 2026

Projeto de divulgação científica da universidade integra 8º edição do levantamento do Projor para mapear jornalismo local e identificar desertos de notícia em todo o país 

Por Murilo Santos

Crédito: intervenção de Murilo Santos sobre imagens do Pixabay

A Agência de Notícias Científicas da UERJ (Agenc) vai participar da 8º edição do Atlas da Notícia, relatório produzido pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor). A pesquisa mapeia os veículos locais de notícia em atuação no país, ou seja, que publicam regularmente informações sobre suas regiões. O projeto também identifica os chamados desertos de notícia, localidades sem cobertura jornalística, problema que afeta cerca de 26 milhões de pessoas em todo o Brasil, segundo o levantamento de 2025, o último realizado.

O conceito de deserto de notícias tem sido bastante debatido no meio jornalístico. O Atlas da Notícia  define como desertos de notícias as regiões e municípios que não têm veículos de jornalismo local. Foi criado em 2017 pelos jornalistas Angela Pimenta e Sérgio Spagnuolo, inspirados no projeto America’s Growing News Deserts, da revista Columbia Journalism Review, que mapeou os desertos de notícia nos Estados Unidos. Inicialmente, o Atlas não contava com base de dados própria e contou com a ajuda da Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), do Ministério da Ciência e Tecnologia e da apuração local dos próprios pesquisadores.

A classificação de um município como deserto da notícia,  segundo Dubes Sônego, coordenador da pesquisa na região Sudeste, ocorre a partir de critérios como:

  • o veículo precisa produzir as próprias notícias — não pode apenas republicar ou indicar conteúdo de terceiros;
  • não pode ser vinculado a entidades como sindicatos ou igrejas;
  • não pode ter sido apontado por agências de checagem como vetor de desinformação.

Outra questão pertinente ao que entra ou não como veículo jornalístico são as páginas muito comuns nas áreas periféricas do Rio de Janeiro, como os chamados “bairro news”, alimentadas por informações dos próprios moradores da localidade — essas páginas não se enquadram nos critérios do Atlas. O estado do Rio, de acordo com o último relatório, no relatório de 2025,o mais recente, por exemplo, é o que menos tem desertos de notícia: apenas quatro dos 92 municípios fluminenses 4 municípios são classificados dessa forma.

Apesar do cenário favorável, o Rio tem o que a pesquisa chama de “quase desertos de notícia” bastante relevantes: cidades com mais de 100 mil habitantes, como Nilópolis e Queimados, ambas na Baixada Fluminense, têm, respectivamente, um e dois veículos. Os quase desertos são cidades com até dois veículos e são classificadas assim porque, para o Atlas, ficam à mercê de pressões políticas e empresariais. No Rio, esse desequilíbrio aparece de forma nítida: Italva, cidade de cerca de 15 mil habitantes do Noroeste Fluminense, tem quatro  veículos, mais do que cidades bem maiores da Baixada Fluminense. 

Para Dubes Sônego, no caso das cidades da Baixada Fluminense, os dados podem estar precisando de atualização no levantamento deste ano, ao contrário de Italva, cuja base de veículos está atualizada.

A UERJ participa do Atlas da Notícia pela terceira vez por meio da Agenc. O levantamento é feito pelos repórteres da agência, que, de forma voluntária, trabalham na pesquisa que mapeia a falta de cobertura no país. Para Dubes Sônego, a presença dos universitários é essencial, já que o Atlas é realizado, principalmente, com a ajuda de estudantes de jornalismo, que ganham experiência em apuração local. Também recebem certificado de participação e aproveitam a oportunidade para ampliar seus conhecimentos sobre os  os veículos jornalísticos do país.

A professora Fernanda da Escóssia, coordenadora da Agenc, destaca a relevância da parceria. “É uma forma de valorizar a conexão entre a pesquisa de dados, a formação universitária e o mercado jornalístico. Além do mais, permite que os estudantes  discutam e valorizem o jornalismo local, um aliado fundamental contra a desinformação”.

São voluntários da 8º edição do Atlas da Notícia os estudantes Julia Martins, Maria Luísa Fontes, Murilo Santos, Sofia Inerelli, Sofia Lang e Maria Eduarda Galdino.

Hospital Universitário Pedro Ernesto precisa de doação de sangue tipo O

Hospital Universitário Pedro Ernesto precisa de doação de sangue tipo O

Saiba quais são os critérios para ser um doador e a importância de doar sangue regularmente  

Por: Sofia Inerelli

O Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), ligado à Uerj,  está com o estoque de sangue tipo O muito abaixo do ideal, e pede à população mais doações. Todos os outros tipos sanguíneos serão aceitos pela instituição, mas, como apontou a hemoterapeuta e professora associada da Faculdade de Ciências Médicas da Uerj, Flávia Bandeira, o sangue tipo O é o mais necessário no momento. As doações podem ser feitas no próprio hemocentro do HUPE, que fica aberto de segunda a sexta-feira das 9h às 15h. 

Há um apelo também para que as doações sejam mais regulares, assim os hemocentros não correm risco de ficarem zerados e sem conseguir socorrer os pacientes. A demanda é alta pois a transfusão sanguínea atende muita gente e não se restringe apenas a quem perdeu grandes quantidades de sangue em acidentes ou cirurgias. Pessoas com anemia falciforme, talassemia, câncer hematológico e problemas renais crônicos são outras que necessitam de transfusões, uma vez que estas fazem parte do tratamento. 

Como o sangue demora a ser liberado ao paciente, é imprescindível ter em bancos sanguíneos um estoque mínimo. São necessárias de 24 a 36 horas para que o sangue doado passe por todos os testes capazes de verificar a presença de doenças como hepatite B, hepatite C, doença de Chagas, sífilis, AIDS e HTLV I/II. A depender da gravidade do paciente, mesmo que chegue um doador, esperar todo esse tempo pode não ser possível. Por isso a importância de ter nos hospitais uma reserva, com sangue que já foi testado e que está pronto para ser usado.

De acordo com a médica, para ter uma reserva de sangue é preciso tornar as doações um hábito. Essa ainda não é uma realidade no Brasil, pois menos de 2% da população não doa regularmente, segundo o Ministério da Saúde.Doar sangue não é complicado, em 15 minutos você doa uma bolsa de sangue que pode chegar a salvar até 4 vidas. 

Para que o processo ocorra com segurança é preciso seguir algumas orientações:

  • Ter idade entre 16 e 69 anos (menores de 18 anos devem apresentar consentimento formal do responsável legal).
  • Pessoas com idade entre 60 e 69 anos só poderão doar sangue se já o tiverem feito antes dos 60 anos.
  • Doadores voluntários regulares poderão continuar doando sangue após os 70 anos, desde que estejam saudáveis e sejam considerados aptos após avaliação médica pelo serviço de hemoterapia.
  • Apresentar documento de identificação com foto emitido por órgão oficial (carteira de identidade, carteira nacional de habilitação, carteira de trabalho, passaporte, registro nacional de estrangeiro, certificado de reservista e carteira profissional emitida por classe). São aceitos documentos digitais com foto.
  • Pesar no mínimo 50 kg.
  • Ter dormido pelo menos 6 horas nas últimas 24 horas.
  • Estar alimentado. Evitar alimentos gordurosos nas 3 horas que antecedem a doação de sangue. Caso seja após o almoço, aguardar 2 horas.

Fique atento também para o que pode te impedir de doar sangue, a seguir os principais critérios de inaptidão:

  • Pessoas com doenças transmissíveis pelo sangue, como hepatite B e C, HIV/Aids, HTLV e doença de Chagas;
  • Usuários de drogas ilícitas injetáveis;
  • Quem apresenta sintomas gripais, febre ou infecções ativas no momento da doação;
  • Gestantes, mulheres em período de amamentação ou até 12 meses após o parto;
  • Para quem passou por endoscopia ou utilizou anabolizantes sem prescrição médica, o prazo é de quatro meses;
  • No caso de tatuagem, maquiagem definitiva e procedimentos estéticos, como aplicação de botox, preenchimento e microagulhamento, a doação poderá ser realizada após sete dias, desde que realizado em local que cumpra as normas de segurança. Quando essa avaliação não for possível, o prazo será de quatro meses. Para piercing na boca ou na região genital, a doação poderá ser feita quatro meses após a retirada;
  • A ingestão de bebidas alcoólicas contraindica a doação por doze horas após o consumo;
  • A vacinação também pode ser um impeditivo, e o tempo pode variar de acordo com o tipo de vacina aplicada; 
  • Quem fez transfusão de sangue ou recebeu transplante de tecidos/órgãos;
  • O candidato submetido à cirurgia deve ser considerado inapto por tempo variável;
  • O candidato submetido a procedimento odontológico deve ser considerado inapto por tempo variável de acordo com o procedimento e a evolução clínica;
  • Pessoas em uso de alguns medicamentos que possam interferir na doação (avaliados caso a caso pela equipe de triagem).

Serviço

  • Boulevard 28 de setembro, 109, ao lado do Hupe 
  • Das 9h às 15h, de segunda à sexta-feira

Projeto da Uerj é tema de livro vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico

Projeto da Uerj é tema de livro vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico

“A BioInvasão do Coral-Sol”, organizado por professores do Instituto de Biologia da Uerj (Ibrag), fala sobre a expansão do coral-sol e seus riscos para a vida marinha

Por: Júlia Martins

                        Beatriz Grosso, Joel Creed e Fernanda Casares com o livro e o Prêmio Jabuti Acadêmico

 

O livro “A BioInvasão do Coral-Sol”, organizado por três professores da Uerj, ganhou o  Prêmio Jabuti Acadêmico na categoria Ciências Biológicas, Biodiversidade e Biotecnologia. O trabalho, uma iniciativa do Departamento de Ecologia da Uerj, discute a expansão do coral-sol, uma espécie invasora de corais, e seu perigo para o ecossistema marinho. Em parceria com o Instituto Brasileiro de Biodiversidade (BrBio) e a Faperj, a obra é resultado de 25 anos de pesquisa sobre as espécies de coral – sol  no Brasil, a partir de um projeto da universidade. Três professores da Uerj estão entre os organizadores da obra.

 

Beatriz Grosso, Joel Creed e Fernanda Casares são editores do livro e professores do Departamento de Ecologia na Uerj. O livro surgiu como produto do “Projeto Coral-Sol”, criado em 2006 por Creed, e tem textos assinados por mais de 40 pesquisadores. O principal objetivo do projeto é monitorar o coral-sol e reduzir os seus impactos socioambientais e econômicos. De acordo com Creed, a criação do livro veio como resultado da parceria com a Faperj. O principal objetivo era consolidar o máximo de informação sobre o coral-sol de uma forma acessível, com embasamento científico mas sem uma linguagem difícil e altamente especializada: “Achamos que era o momento certo de juntar essas informações em um livro, depois de tanta produção científica. A gente também convidou vários pesquisadores para fazerem parte do livro, por isso temos tantos autores de diferentes instituições.” O texto também conta com um prólogo escrito pelo cantor e presidente do Conselho BrBio, Gilberto Gil, e pela presidente da BrBio, Simone Siag Oigman-Pszczol, que recebeu o prêmio em nome de todos os envolvidos. 

 

O Coral-sol é um tipo de coral invasor encontrado na costa brasileira nos anos 80 de forma acidental. Existem duas espécies no litoral brasileiro: a T. coccinea, na cor vermelho – alaranjado, e a T. tagusensis na cor amarela. A bioinvasão acontece quando uma espécie é transportada pelo ser humano de um ambiente para outro, podendo tanto morrer quanto se estabelecer e se reproduzir, como é o caso do coral-sol. Isso gera mudanças na biodiversidade marinha e prejudica as atividades econômicas como a pesca. Na apresentação do livro, é destacado que o coral-sol veio para o Brasil nos anos 80 por plataformas de petróleo e gás, sendo o caso de bioinvasão marinha de maior destaque no país. Atualmente, já foram registrados outros tipos de bioinvasão, como o Mexilhão-dourado em água doce. Embora tenha uma aparência inofensiva, o coral-sol possui estratégias peculiares para conseguir se expandir. Esse bioinvasor não possui muitos predadores, além de conseguir se reproduzir de forma rápida. O coral-sol compete com espécies nativas no litoral, como o coral-cérebro Mussismilia hispida, necrosando o tecido do coral. Ocupando mais de 3.500 km, pelo litoral brasileiro, os pontos mais atingidos no Rio de Janeiro são a Baía de Ilha Grande, Baía de Sepetiba, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Armação dos Búzios e o Arquipélago das Cagarras. 

 

 

                        Foto por Fernando Frazão / Agência Brasil  Cardume de peixes e coral-sol (T.coccinea)

 

O projeto envolve mais de 40 pessoas, entre estudantes da graduação e pesquisadores, e com trabalhos em diversas vertentes. Desde a pesquisa básica para entender o organismo do bioinvasor, até visitas em escolas, desenvolvendo trabalhos de educação ambiental, o grupo tem como foco o monitoramento e medidas para conter  sua expansão. Eles também trabalham na retirada do coral-sol, feita de forma manual por mergulhadores com ponteira e marreta. Além disso, a iniciativa envolve políticas públicas, como o Plano Nacional para controle do coral-sol, criado em 2018 e que surgiu graças ao projeto.

Fernanda também explicou sobre a criação da Plataforma Bioinvasão Brasil, feita a partir da Rede Coral-Sol, com mais de 32 instituições parceiras: “A plataforma serve como um portal,  com registros de espécies exóticas e espaço para registros de bioinvasões, o que nos ajuda a trazer mais informações sobre o assunto.”

 

O livro levou dois anos para ser lançado, e para Joel, representa o encerramento de uma etapa de pesquisa de 25 anos: “Tem tantas outras possibilidades interessantes para serem estudadas, como por exemplo os próprios corais nativos, gostaria de mudar um pouco.” Mas Beatriz destaca que o trabalho não chegou ao fim: “É uma sensação de muito orgulho e dever cumprido mas que não tem fim. O principal objetivo agora é conter a chegada no coral-sol, que ainda é um desafio, e retirar os que já estão no litoral.”

Como a ciência ajudou a recuperar o acervo do Museu Nacional

Como a ciência ajudou a recuperar o acervo do Museu Nacional

Das paredes do palácio às obras de arte, técnicas como uso de solventes e adesivos foram usadas para restaurar obras e recuperar ambientes atingidos pelo fogo em 2018

Por: Júlia Martins

Jardim terraço em frente ao Museu Nacional / Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil

 

A ciência e a tecnologia foram as principais aliadas para a recuperação da memória do Museu Nacional da UFRJ, depois de quemais de 85% do acervo original da instituição se perdeu no incêndio de 2018. Conhecido por sua importância para a ciência brasileira, o museu resiste e passa por um longo processo de restauração desde o incêndio em 2 de setembro de 2018. O edifício ainda está em reconstrução e tenta voltar à normalidade com exposições temporárias.

 

No trabalho de restauração, produtos químicos e técnicas como a fotogrametria 3D fazem parte do dia a dia de quem participa dessa evolução. O processo de restauração é longo e ainda está em andamento. Ronaldo Fernandes, diretor do Museu Nacional/ UFRJ, empossado em abril deste ano, contou um pouco sobre como foi localizar as peças depois do incêndio: “Logo após o incêndio, a professora Cláudia Carvalho, atual coordenadora do Programa de Pós-graduação em Arqueologia, montou uma equipe para coordenar os esforços de localizar as peças. Foi criado o Núcleo de Resgate de Acervos. Além dos arqueólogos, cada sala foi examinada pelas pessoas que ali trabalhavam e, portanto, com familiaridade para encontrar os objetos. Assim como qualquer sítio arqueológico, os artefatos foram fotografados e registrados.” 

 

Além disso, todas as salas de exposição do museu foram examinadas por quem já trabalhava nelas, o que facilitou o reconhecimento das peças, com todas sendo fotografadas e registradas. O diretor também explica que o museu não tem o número exato de peças recuperadas, mas que algumas estão presentes na mostra “Bastidores da Ciência”, especialmente na galeria que apresenta o trabalho do Laboratório Central de Conservação e Restauração. A mostra foi aberta em 21 de junho e fica em cartaz até 30 de agosto.

 

No Laboratório Central de Conservação e Restauração do Museu Nacional (LCCR/MN), a rotina é intensa. Com um fluxograma de atividades detalhado, as tarefas estão divididas em registro fotográfico de entrada da peça, diagnóstico e mapeamento dos danos, análises físico-químicas e imagéticas, definição e aplicação da metodologia de tratamento. Tudo isso faz parte do trabalho da equipe para restaurar as peças. Atualmente, o laboratório está trabalhando com o setor de arqueologia do museu nas peças resgatadas da Coleção Teresa Cristina, que possui peças greco-romanas de outras coleções, como a Coleção de Arqueologia Brasileira. Nesse mês de julho, o laboratório deve começar a trabalhar com peças do setor de etnologia e etnografia, com o foco em peças que estão previstas para compôr exposições futuras.

 

A rotina de trabalho envolve diversos processos científicos, como explicou a chefe do LCCR, Ana Luiza do Amaral. Cada peça é um caso diferente, e o uso de técnicas e ferramentas varia de acordo com o estado de conservação e composição do material: “Utilizamos uma gama de ferramentas e produtos químicos, principalmente adesivos e solventes, considerando critérios definidos pelo próprio campo da restauração como compatibilidade e reversibilidade dos materiais utilizados.[…] Sempre buscamos adotar práticas sustentáveis e baixa toxicidade para o uso e descarte dos materiais e químicos.” Os solventes atuam na retirada cuidadosa de sujeira e verniz antigo, enquanto os adesivos são usados para colar camadas de tinta que estão saindo ou reconstruir uma estrutura de cerâmica ou madeira. Os profissionais precisam buscar a estabilização do material da peça, sempre pensando e tomando cuidado com o grau de fragilidade e mudanças no artefato após o incêndio.

 

A tecnologia também está presente neste trabalho. O Laboratório de Processamento de Imagem Digital do Museu Nacional (LAPID) é pioneiro no Brasil na aplicação de tecnologias e imagens 3D. Pela fotogrametria 3D, o laboratório tem trabalhado na reconstituição do museu pela digitalização de artefatos e áreas do palácio. Basicamente, essa técnica é usada para transformar imagens bidimensionais em informações tridimensionais, produzindo imagens 3D de cada local. Sérgio Alex Kugland, coordenador do LAPID, explica como essa técnica é utilizada: “Os arquivos digitais tridimensionais produzidos a partir de exemplares do acervo do Museu Nacional são obtidos através de diferentes técnicas, entre elas a tomografia, o scanner de superfície e a fotogrametria (técnicas de aquisição). Posteriormente esses arquivos são editados através de modelagem 3D, utilizando diversos programas de modelagem tridimensional e, de acordo com a finalidade, prototipados, impressos a partir de impressoras 3D, em filamento ou resina.”

 

O acervo original do museu continha mais de 20 milhões de peças, divididas em áreas do conhecimento como antropologia, arqueologia, etnologia, geologia, paleontologia e zoologia. Organizadas em mais de 8 seções diferentes, as coleções continham desde artefatos greco-romanos até Luzia, o esqueleto mais antigo da América Latina. Com as chamas, itens icônicos como fósseis do dinossauro Maxakalisaurus topai e o trono do rei africano Adandozan foram perdidos. Ronaldo destaca a importância da resiliência das equipes do museu nesse momento e a necessidade de fortalecer instituições como essa: “Com o incêndio e, consequentemente, a perda do Palácio de São Cristóvão, cerca de 85% do acervo, todas as exposições, inúmeros gabinetes e laboratórios foram destruídos. Nesse ponto, o Museu estava fragilizado, e algumas pessoas ventilavam a possibilidade de ele ser fechado. Mostramos a capacidade de trabalhar na maior das adversidades. Em um país em que ciência, educação e cultura sistematicamente recebem recursos limitados, essa resistência é um símbolo da capacidade não só do Museu Nacional, mas de toda a comunidade científica brasileira.”

Hospital Universitário Pedro Ernesto precisa de doação de sangue tipo O

Hospital Universitário Pedro Ernesto precisa de doação de sangue tipo O

Saiba quais são os critérios para ser um doador e a importância de doar sangue regularmente  

Por: Sofia Inerelli

Foto: Pessoa doando sangue – Empresa de Brasileira de Comunicação (Agência Brasil)

 

O Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), ligado à Uerj,  está com o estoque de sangue tipo O muito abaixo do ideal, e pede à população mais doações. Todos os outros tipos sanguíneos serão aceitos pela instituição, mas, como apontou a hemoterapeuta e professora associada da Faculdade de Ciências Médicas da Uerj, Flávia Bandeira, o sangue tipo O é o mais necessário no momento. As doações podem ser feitas no próprio hemocentro do HUPE, que fica aberto de segunda a sexta-feira das 9h às 15h. 

 

Há um apelo também para que as doações sejam mais regulares, assim os hemocentros não correm risco de ficarem zerados e sem conseguir socorrer os pacientes. A demanda é alta pois a transfusão sanguínea atende muita gente e não se restringe apenas a quem perdeu grandes quantidades de sangue em acidentes ou cirurgias. Pessoas com anemia falciforme, talassemia, câncer hematológico e problemas renais crônicos são outras que necessitam de transfusões, uma vez que estas fazem parte do tratamento. 

 

Como o sangue demora a ser liberado ao paciente, é imprescindível ter em bancos sanguíneos um estoque mínimo. São necessárias de 24 a 36 horas para que o sangue doado passe por todos os testes capazes de verificar a presença de doenças como hepatite B, hepatite C, doença de Chagas, sífilis, AIDS e HTLV I/II. A depender da gravidade do paciente, mesmo que chegue um doador, esperar todo esse tempo pode não ser possível. Por isso a importância de ter nos hospitais uma reserva, com sangue que já foi testado e que está pronto para ser doado.

 

De acordo com a médica, para ter uma reserva de sangue é preciso tornar as doações um hábito. Essa ainda não é uma realidade no Brasil, pois cerca de 98% da população não doa regularmente, segundo o Ministério da Saúde.

 

Doar sangue não é complicado, em 15 minutos você doa uma bolsa de sangue que pode chegar a salvar até 4 vidas. 

 

Para que o processo ocorra com segurança é preciso seguir algumas orientações:

 

  • Ter idade entre 16 e 69 anos (menores de 18 anos devem apresentar consentimento formal do responsável legal).
  • Pessoas com idade entre 60 e 69 anos só poderão doar sangue se já o tiverem feito antes dos 60 anos.
  • Apresentar documento de identificação com foto emitido por órgão oficial (carteira de identidade, carteira nacional de habilitação, carteira de trabalho, passaporte, registro nacional de estrangeiro, certificado de reservista e carteira profissional emitida por classe). São aceitos documentos digitais com foto.
  • Pesar no mínimo 50 kg.
  • Ter dormido pelo menos 6 horas nas últimas 24 horas.
  • Estar alimentado. Evitar alimentos gordurosos nas 3 horas que antecedem a doação de sangue. Caso seja após o almoço, aguardar 2 horas.

Fique atento também para o  que pode te impedir temporariamente de doar sangue: 

  • Caso a pessoa apresente sintomas gripais, de resfriado ou tenha sido  diagnosticada com covid-19, recomenda-se aguardar até 15 dias após o fim dos sintomas;
  • Não é recomendado doar sangue durante o período gravidez; é preciso aguardar por até três meses após o parto normal, seis meses em casos de cesariana e até 12 meses se a mulher estiver amamentando (contados a partir da data do parto);
  • Ter feito tatuagem, piercing ou procedimentos estéticos mais invasivos (como a micropigmentação) nos últimos 12 meses. O prazo pode diminuir para seis meses se o candidato à doação apresentar foto do registro do estúdio no órgão de vigilância sanitária e nota fiscal do estabelecimento. O piercing em cavidade oral ou região genital impede a doação;
  • A extração de um dente também impossibilita a doação em até 72 horas após o procedimento;
  • Caso a pessoa tenha feito transfusão sanguínea, deverá aguardar até um ano para doar sangue;
  • A vacinação também pode ser um impeditivo, e o tempo pode variar de acordo com o tipo de vacina aplicada;
  • Ter sido exposto(a) a alguma situação de risco para infecções sexualmente transmissíveis; Nesses casos, deve-se aguardar até 12 meses após a exposição.

Serviço

  • Boulevard 28 de setembro, 109, ao lado do Hupe 
  • Das 9h às 15h, de segunda à sexta-feira

Projetos de extensão encurtam distância entre ensino médio e universidade pública

Projetos de extensão encurtam distância entre ensino médio e universidade pública

Rede de iniciativas da Uerj Campus Zona Oeste organiza visitas a colégios da região para mostrar que ensino superior é para todos 

por: Murilo Santos

Universitários apresentam projeto de biologia a estudante do ensino médio. Foto: Fernanda Marinho/Biodialogando

 

A Uerj Campus Zona Oeste fica a alguns minutos de caminhada do Colégio Estadual Albert Sabin, mas para muitos secundaristas a possibilidade de estar em contato com a universidade pública ainda é distante como outro país pela surrealidade de se entrar na universidade. A Rede Solidária de Projetos de Extensão, idealizada em 2022, leva a universidade às entidades que desejam essa proximidade com a academia, em especial às escolas públicas que querem mostrar que o ensino superior é para todos.

 

A iniciativa nasceu de três professoras do curso de Farmácia da Uerj: Carmelinda Afonso, Sabrina Dias e Bárbara Lorca. O ponto de partida foi a escola da filha de uma delas. Os alunos receberam bem e a partir daí a rede foi se expandindo para outras escolas, processo facilitado pelo fato de a professora Sabrina ser natural de Campo Grande e conhecer muitos professores e coordenadores da região, tanto de escolas públicas quanto particulares.

 

Com o tempo, a rede foi além do curso de Farmácia e passou a reunir projetos de todos os cursos da Faculdade de Ciências Biológicas e Saúde do campus da Zona Oeste. Um deles é o Biodialogando, do curso de Biologia, com ênfase em biotecnologia, idealizado pela professora Eidy Santos junto a alunos que sentiam a falta de projetos na área. Hoje a rede conta com 10 projetos de extensão filiados à rede.

 

O projeto Biodialogando, por exemplo, se utiliza de atividades visuais e experimentos ao vivo para captar a atenção dos visitantes;  já o Recado Farmacêutico da professora Barbara usa jogos e atividades lúdicas para ensinar sobre medicamentos. Todos captaram a atenção dos alunos, mas de longe o que mais recebeu olhares foi o Uerj ecológico, que levou répteis conservados para os jovens tocarem e verem ao vivo. A professora Vanderlane Menezes, que coordena o projeto, busca demonstrar que a sociedade e a natureza estão interligadas. 

 

A visita ao Colégio Estadual Albert Sabin ocorreu com a temática da semana do meio ambiente. O tema da visita varia de acordo com a necessidade de cada escola e, a partir dessa escolha, os universitários preparam suas apresentações para seguir os assuntos propostos 

 

A receptividade entre os jovens visitados tem sido boa. Enzo, 18 anos, aluno do Colégio Estadual Albert Sabin, resume o efeito da visita: “É bom para incentivar quem quer alguma coisa. Tem muita gente que não quer nada, mas quem quer, isso aqui faz diferença.” A professora Carmelinda Afonso, uma das fundadoras e coordenadora da rede, ressalta que um dos principais eixos é mostrar, pelo próprio perfil dos universitários que tocam os projetos, que ingressar numa universidade pública é possível. “Para essas crianças, estar na Uerj parece impossível. A gente mostra que não é, porque nossos alunos também são pobres. A rede tem essa missão: descortinar o mundo para eles e quebrar o elitismo que existe dentro da universidade.”

 

Os ganhos para quem participa como extensionista vão além do currículo. “A gente aprende a falar com o público, isso é muito importante pra faculdade, pra seminário, pra qualquer apresentação”, diz Frederico Maia, aluno de Biologia do oitavo período e integrante do Biodialogando. A rede de contatos e as horas complementares vêm junto, mas o que ele destaca é a desenvoltura que só se aprende na prática. Luana Araújo, bolsista do projeto Recado Farmacêutico, aponta outro ganho: a capacidade de improvisar conforme as necessidades de cada lugar, habilidade que, segundo ela, já a beneficia profissionalmente.

 

A Uerj da Zona Oeste ainda não tem sede própria. Hoje, a antiga Uezo funciona nos fundos de um colégio estadual que a abriga há mais de 20 anos em caráter temporário. Uma das principais reivindicações de servidores e estudantes em greve é a construção do campus no centro de Campo Grande. Os professores ressaltam a urgência da obra e o impacto que ela teria na ampliação dos laboratórios, no reconhecimento institucional da universidade e na capacidade de atrair novos alunos.

A Rede Solidária pode ser contactada através do Instagram @rspe.uer

“FeminIA”: como a tecnologia pode ajudar no combate à violência contra a mulher

“FeminIA”: como a tecnologia pode ajudar no combate à violência contra a mulher

Projetos de jornalistas brasileiras buscam promover  equidade de gênero diante do avanço da misoginia nas redes 

Por: Júlia Martins

Mulher digitando em um computador / Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil
 

Duas ferramentas de inteligência artificial criadas por veículos nativos digitais abrem novas frentes de luta diante da violência de gênero. O Radar Anti Gênero, criado pelo site Gênero e Número, e a QuitérIA, do Instituto AZMINA, vão monitorar e coletar dados sobre discussões e violência de gênero, de forma mais rápida e eficaz. Embora cada ferramenta atue em um meio diferente, ambas representam mais do que a automatização de um trabalho que antes era manual – mostram a importância de resistir e ocupar espaços que são usados como meio de propagar preconceitos. Com as grandes empresas de tecnologia e a IA sendo palco para fortalecer desigualdades, essas iniciativas têm como objetivo usar a inovação para produzir transparência, conhecimento público e fortalecer a democracia. 

 

A QuitérIA foi desenvolvida em 2025 pelo Instituto AZMINA em homenagem a Maria Quitéria, heroína da independência e a primeira mulher a integrar as Forças Armadas. A ferramenta faz parte do projeto “Elas no congresso”, que existe desde 2019 e monitora todo o poder legislativo levando em base as pautas de gênero e pessoas LGBTQIAPN+.  A QuitérIA foi treinada para monitorar, analisar e classificar Projetos de Lei (PLs) e seus impactos, positivos ou negativos, na vida de meninas, mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, com o objetivo de acelerar essa coleta de dados, visto que existe um grande número de projetos sendo discutidos. O programa classifica cada projeto em uma escala de 0 a 1, sendo 0 a avaliação mais desfavorável e 1 a mais favorável para esses grupos minoritários. Isso facilita o entendimento sobre cada Projeto de Lei na prática, além de conter o nome e partido do autor de cada proposta na Câmara. 

Todos os resultados da QuitérIA passam por validação humana, e atualmente a ferramenta está disponível para consulta por meio de uma planilha no site do Instituto AZMINA. A ideia é que ela esteja disponível em um dashboard para consulta pública em breve.  O Instituto AZMINA é uma organização sem fins lucrativos e atua desde 2015 na luta pela igualdade de gênero. Além do “Elas no congresso” e da QuitérIA, a organização possui uma revista digital e um aplicativo para enfrentamento à violência doméstica.

 

Reprodução do site “Elas no Congresso” / Foto: Elas no Congresso

 

O Radar AntiGênero foi criado em 2023 pela Gênero e Número para monitorar a circulação do discurso misógino no Youtube e encontrar padrões usados para disseminar esses conteúdos. A IA trabalha na organização e classificação dos dados, a fim de serem validados por um ser humano e chegar em evidências mais acessíveis. O objetivo final do Radar é que a sociedade consiga entender como esses discursos se difundem nas redes, como são organizados,  como o algoritmo funciona nesses casos, quais são os tipos de falas utilizadas e como isso influencia a opinião pública. Apenas durante o mês de maio deste ano, o Radar identificou mais de 500 conteúdos no Youtube com discurso antigênero, sendo os papéis de gênero, a moralidade e o antifeminismo os temas mais abordados.

A IA também organiza quem são os alvos mais frequentes desses conteúdos e criou um “Top 10” com os 10 canais que mais reproduzem esse tipo de discurso. Todos os dados coletados pela QuitérIA e pelo Radar Anti Gênero estão disponíveis para consulta, e podem ser usados por organizações públicas, jornalistas e para medidas de políticas públicas. A Gênero e Número é uma plataforma de jornalismo criada em 2016 com foco em transformar dados que atravessam gênero, raça e número na América Latina em narrativas, e contribuir para que esses dados se tornem parte do debate público.

Reprodução do site Radar Anti gênero / Foto: Radar Anti gênero

 

Apesar da Lei 13.642, criada em 2018 para punir a divulgação de conteúdos que propaguem o ódio às mulheres, as plataformas digitais se tornaram um palco seguro para esse tipo de discurso. Um exemplo disso é a “Grock”, inteligência artificial da rede social X, que foi alvo de diversas denúncias ao ser usada para modificar fotos publicadas na rede e gerar conteúdo pornográfico de mulheres e crianças sem o seu consentimento. Dados divulgados pelo Ministério das Mulheres em junho deste ano mostram que as denúncias de violência contra mulher no meio digital cresceram em mais de 180% em comparação com 2025, com mais de 16 mil ligações para a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 com denúncias desse tipo. Uma das explicações sobre casos de preconceito na IA é pensar em quem a desenvolveu – grande parte das big techs (grandes empresas que comandam o mercado de tecnologia e inovação) estão alinhadas aos interesses da extrema direita, fortalecendo relações de poder já existentes e ampliando preconceitos.

 

Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número, destaca como essas tecnologias podem reproduzir e amplificar desigualdades: “É preciso reconhecer que a tecnologia não é neutra, que suas aplicações dependem muito das perguntas que fazemos, dos dados utilizados e da visão de quem produz aquele projeto.” Para Marília Moreira, diretora institucional do Instituto AZMINA, é preciso pensar também em como ocupar esse espaço: “Não somos avessas à IA e achamos que ela pode nos ajudar na otimização do tempo […] É pensar que os sistemas das grandes big techs estão aí, mas que é preciso desenvolver os nossos próprios sistemas e pensar nas nossas lógicas, garantindo privacidade, segurança e confiabilidade dos dados.”

 

No cenário das eleições, a pauta de gênero é muito usada para atacar candidatas e contestar direitos já existentes. O Radar Anti Gênero e a QuitérIA buscam contribuir de forma positiva nesse contexto ao oferecer informações qualificadas e monitoramento contínuo. Marília destaca a importância da QuitérIA e ferramentas similares nesse período: “A gente quer contribuir de forma positiva nesse cenário que vai ser de muita desinformação, trazendo informação qualificada e com essa perspectiva feminista. Não apenas classificar se o projeto (de lei) é favorável ou não mas explicar nessa perspectiva feminista, pensando nos direitos das mulheres, e queremos deixar o projeto ainda mais público.” Vitória reforça como a IA, caso usada sem reforçar esses preconceitos, pode ser útil para combatê-los: “Nesse momento, em que a inteligência artificial é muita associada à ampliação de desigualdades e reprodução de opressões, a aposta da Gênero e Número foi mostrar que a inteligência artificial também pode ser usada para algo positivo.”

Cérebro podre: como o celular está destruindo a geração que ainda não terminou de se formar

Cérebro podre: como o celular está destruindo a geração que ainda não terminou de se formar

Do “Tralalero Tralala” à incapacidade de escrever uma redação, o uso excessivo de telas está moldando uma geração inteira – para pior

Por: Murilo Santos

Criança com perfil aberto em redes sociais.Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
 

De um lado, uma professora tenta atrair a atenção dos alunos. Mas, sentados nas carteiras escolares, os estudantes estão fixados em vídeos de três segundos, projetados para viciar crianças cada vez mais incapazes de sustentar atenção por tempo suficiente para aprender. Há um nome para isso: brainrot, “cérebro podre”, em tradução livre. E o principal suspeito é o celular na mão de quem ainda não terminou de se desenvolver.

O brainrot é um termo que se popularizou devido a uma série de conteúdos sem nenhum sentido que têm viralizado. O último foi o “six seven”, que teve origem num vídeo feito nos Estados Unidos, no qual um adolescente mexe os braços e fala 6-7, numa suposta referência à altura de um jogador de basquete de seu time. O vídeo se espalhou e, por todo o mudo, as pessoas repetem o 6-7 sem saber o que ele quer dizer – e sem que isso tenha a menor importância. Outros vídeos da leva brainrot foram os criados por IA, como o “Tralalero Tralala”, que mostra um tubarão com pernas usando tênis da Nike. Os vídeos se espalharam, viraram febre principalmente entre crianças, e preocupam pela falta de lógica e pela facilidade com que foram “viciando” os usuários.vicia.

Para o ativista pela infância e pediatra Daniel Becker, esse fenômeno compromete diretamente a formação da personalidade. É no tédio, diz ele, que o sujeito se constrói. Quando a criança fica sem estímulo, pensa, inventa, observa o mundo e desenvolve sua subjetividade e racionalidade. Com as redes sociais entregando conteúdo novo a cada segundo, esse espaço desaparece. O brainrot, diz Becker, é o oposto disso.

Quem está na linha de frente sente no cotidiano. A professora Danielle Viana leciona na Escola Municipal Roberto Coelho, na zona oeste do Rio, que registrou o melhor resultado do IDEB entre as escolas municipais da capital no último exame. A escola atende crianças do primeiro ao quinto ano. Danielle descreve uma geração cada vez mais imediatista, ansiosa, com dificuldade de concentração e incapaz de lidar com a frustração. Os memes brainrot estão na sala de aula: as crianças reproduzem falas e bordões sem compreender o que significam e, mais grave, sem nunca terem exercitado a própria criatividade para criar algo. Importam tudo da tela. “O cérebro começa a não conseguir mais funcionar no mundo”, alerta Becker. “E aí você vai ter um problema muito sério na vida.”

 

No ensino fundamental 1, o problema se concentra, segundo os professores entrevistados pela Agenc, nas danças repetitivas, falas desconexas e apatia pelo conhecimento. A coordenadora pedagógica  da escola Roberto Coelho, Rachel Moraes, é direta: “O problema tem aparecido com danças excessivas, baixo estímulo diante do aprendizado. Posso dizer que a escola não faz mais sentido para os alunos.”

Segundo um levantamento da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o DataFolha de 2025, 78% das crianças de 0 a 3 anos têm contato com tela, com média diária de 2 horas por dia, muito mais do que o recomendado. A situação é pior entre crianças de 4 a 6 anos, faixa em que a média diária sobe para 3 horas, com 94% das crianças expostas. O saudável, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, no pior dos casos, é de uma hora de exposição a telas na faixa etária de  0 a 2 anos e 2 horas para quem tem de 2 a 5 anos.

Na avaliação do médico Daniel Becker, pela primeira vez na história uma geração não avançou no índice de Qi – que, para ele, sequer é o melhor parâmetro para medir inteligência, mas aponta a gravidade da situação.

No ensino fundamental 2, o antigo ginásio, momento em que as crianças se tornam pré-adolescentes, o quadro se agrava. Os problemas de socialização aparecem com mais vigor, e o ambiente virtual começa a invadir o espaço escolar com consequências concretas. Os crescentes casos de cyberbullying confirmam isso: segundo a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE) do IBGE, 27,2% dos estudantes já sofreram cyberbullying, contra 23% em 2019, um aumento de 18% em apenas alguns anos.

 

O mais preocupante é que os casos virtuais de bullying estão virando situações reais. Segundo os professores Rafael Leal e Karine Kopp, diretor e coordenadora pedagógica da Escola Municipal Joaquim da Silva Gomes, na zona oeste do Rio, que atende muitos adolescentes vítimas de bullying virtual, é cotidiano lidar com situações do ambiente virtual que saltam para dentro da escola: “Muitas das vezes com nomes de alunos, com nomes de funcionários, com a intenção de prejudicar. Há a criação de perfis falsos. E isso vem para a escola, porque são pessoas que têm uma relação social dentro da escola e levam ao ambiente virtual, já que está tudo ligado atualmente”, diz Rafael.

Outro problema comum nas salas de aula tem sido a dificuldade dos alunos em prestar atenção. O desafio, comum a todas as gerações, se agravou com o fato de que crianças e adolescentes estão sendo  bombardeados com conteúdos que produzem uma pequena e breve satisfação e liberam dopamina,que é a substância liberada pelo cérebro em momentos de prazer e, Consequentemente, eles se viciam naqueles conteúdos.

Os professores entrevistados pela reportagem têm tempo de sala de aula variado, porém é consenso que o desafio é muito maior: a irritabilidade, a dificuldade de criatividade e a dispersão que se inicia entre 6 e 10 anos se tornam, na adolescência, a dificuldade de escrever uma redação de mais de 15 linhas, como relata a professora Karine Kopp, que além de coordenadora é professora de língua portuguesa. “Para os alunos de hoje, escrever é quase uma tortura: eles se expressam bem oralmente, mas travar o pensamento no papel é um bloqueio real. Uma redação de 15 linhas, que antes era considerada mínima, hoje parece uma bíblia para quem já luta para completar três. Isso torna o trabalho do professor de português cada vez mais árduo, especialmente diante da pressão pela redação do Enem.”

 

Todos esses problemas são consequência do uso excessivo de telas, que nem as escolas nem a sociedade estão preparadas para enfrentar. O que era ameaça se tornou realidade. Segundo Becker, as bigtechs operam usando o vício das pessoas, tal qual a indústria do tabaco, e o algoritmo não poupa as crianças. O psicólogo social Jonathan Haidt, professor da Universidade de Nova York e autor de A Geração Ansiosa, demonstrou que as redes sociais entregam conteúdo direcionado que corrói a autoestima das meninas e empurra conteúdo misógino para os meninos. A solução, diz Becker, passa por todos. Regulação das redes, parceria entre família e escola, e uma sociedade disposta a encarar o problema de frente. O diretor Rafael Leal concorda e vai além: a tecnologia, se bem usada, também pode ser parte da resposta. Mas para isso é preciso, primeiro, admitir o tamanho do estrago. Uma geração está crescendo com o cérebro disputado por algoritmos projetados para viciá-la, e o tempo de reagir está acabando.

Pesquisa afirma que ferramentas de IA criam rankings aleatórios de candidatos e pouco usam fontes oficiais

Pesquisa afirma que ferramentas de IA criam rankings aleatórios de candidatos e pouco usam fontes oficiais

Estudo “Boca de IA” monitora como os sete chatbots mais populares no Brasil tratam informações eleitorais e identifica alucinações em 4% dos casos, incluindo menção a candidatos inexistentes

Por: Murilo Santos| Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia

Karina Santos, coordenadora do ITSRio, apresentando resultados da pesquisa ‘Boca de IA’. Foto:Maria Eduarda Galdino.
 

Seis das sete ferramentas de inteligência artificial avaliadas por uma pesquisa do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro apresentaram algum grau de ranqueamento de candidatos em respostas sobre as eleições de 2026 — prática proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral. O estudo, chamado Boca de IA, foi apresentado no Festival 3i de Jornalismo, realizado em maio no Rio.

Um dos pontos centrais da pesquisa é o ranqueamento, ou seja, a ordem em que os candidatos são listados em uma consulta à ferramenta. Parte das plataformas utiliza pesquisas eleitorais como critério para ordenar os nomes, enquanto outras sequer explicam o motivo pela qual eles foram listados naquela ordem. No entanto, mesmo antes da proibição, nenhum chatbot indicava para votar no candidato x ou y, mas oferecia informações preliminares ao usuário.

O estudo, realizado em parceria com o Ministério Público Federal, busca entender melhor como as IAs e as big techs irão influenciar as eleições brasileiras. O TSE já proibiu os programas de recomendarem ou influenciarem direta ou indiretamente os eleitores, vedando práticas de ranqueamento, recomendação, sugestão ou priorização de candidaturas, ou qualquer forma de favorecimento político-eleitoral. A pesquisa utilizou como base as sete IAs mais utilizadas pelo público brasileiro: Grok, DeepSeek, Claude, Perplexity, ChatGPT, Meta IA e Gemini.

A pesquisa também analisou as fontes utilizadas como referência. Das respostas dadas pelas sete IAs, fontes oficiais como TSE, TREs e partidos são referenciadas em apenas 12% dos casos. Quando se observa o uso de fontes informacionais, como a imprensa, em 55% dos casos elas são citadas como referência. O dado mais intrigante é que em 4% dos casos as IAs entraram em alucinação, termo que descreve a produção de informações factualmente incorretas apresentadas pela ferramenta com aparência de veracidade. 

As alucinações também ficam evidentes no caso do Perplexity, ferramenta com o pior desempenho neste critério. Ao ser questionada sobre o melhor candidato para a área da saúde, a plataforma afirmou que não haveria eleições presidenciais no Brasil em 2026, negando a existência do próprio pleito sobre o qual estava sendo questionada. Já o DeepSeek respondeu à mesma pergunta citando uma ONG como se fosse candidato à presidência.

O estudo seguirá publicando relatórios mensais, segundo a coordenadora de democracia do instituto ITS Rio, Karina Santos, que esteve presente no Festival 3i. Conforme a proximidade das eleições aumentar, os relatórios passarão a ser quinzenais.