Como alunas do ensino médio lutam para salvar o Cerrado Mineiro
Projeto das estudantes, orientado por professora de Minas Gerais, usa cascas e polpa de café para revitalizar o solo
Por: Sofia Inerelli

Um grupo de estudantes do ensino médio chamou a atenção durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada de 26 de julho a 1º de agosto na UFF (Universidade Federal Fluminense), em Niterói. Maysa Pereira (16), Maryane Pereira (16), Laura Rocha (16) e Meirielly Maria Cardoso (27) apresentaram um projeto que utiliza a casca e a polpa do café, ricas em nutrientes, como forma de revitalizar o Cerrado Mineiro. As alunas e a professora da Escola Estadual Frei Egídio Parisi, em Uberlândia (MG), não se intimidaram pela dimensão do problema ao buscar salvar o solo do bioma.
A ideia surgiu depois que elas leram sobre um projeto realizado na Costa Rica: um pasto abandonado no sul do país caribenho foi revitalizado pelos ecólogos Rebecca Cole e Rakan Zahawi, ligados à Universidade do Havaí em Māno, usando café. O experimento buscou regenerar uma região invadida por gramíneas, que impedia as sementes de se estabelecerem ao competir pelos alimentos e luz. Com a introdução da polpa do café e sua posterior degradação, o carbono, o nitrogênio e o fósforo aumentaram no solo, possibilitando o desenvolvimento das plantas.

O grupo se inspirou nessa ideia para fazer o mesmo no Cerrado, bioma brasileiro que já perdeu 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa segundo a Coleção 10 do MapBiomas. A escolha do café como adubo também não foi aleatória, o Cerrado Mineiro, o “jardim” das pesquisadoras, responde por aproximadamente 6 milhões de sacas de café por safra, o equivalente a 25,4% da produção mineira e 12,7% da produção nacional do grão, segundo o portal de notícias do Sebrae. A proposta do experimento, como explicou Meirielly Maria Cardoso, professora de sustentabilidade das estudantes e coordenadora do projeto, é associar os interesses econômicos e ambientais ao fazer com que o café “pague” a sua própria conta, ou seja, restaure o solo que ele mesmo desgastou.
A escolha de usar a casca e a polpa de café também serviu para afastar o uso de fertilizantes químicos. No Brasil a prática é recorrente, em 2025 tornou-se o maior importador mundial da matéria-prima, segundo um relatório da Cogo Inteligência em Agronegócios. Porém o fertilizante químico oferece os nutrientes que a planta mais precisa, não necessariamente aquilo que o solo necessita para recompor a sua microbiota natural. Isso significa que ao longo do tempo o solo irá se degradar pela falta de nutrientes impedindo que outras plantações ocorram nessa terra. Outra vantagem da adubação natural é que não há custo extra, pois a casca e a polpa são produtos agrícolas que seriam descartados.
O projeto já apresentou alguns resultados, ao utilizar a água de imersão, mistura da polpa do café com a água, as quantidades de fósforo, magnésio e enxofre aumentaram no solo. Agora pretendem introduzir o esterco bovino, um meio encontrado pelas pesquisadoras de não depender completamente do café. Mesmo que ainda estejam em processo de testes, Meirielly revelou sua vontade de expandir a técnica para outros biomas. “Assim que a gente obtiver resultados e tiver certeza da eficácia, a gente pensa em expandir, pois queremos que a sustentabilidade gire no mundo.” O diferencial do projeto é conseguir manter a produção agrícola e um possível recondicionamento do solo sem que um seja comprometido.










