Como um veículo hiperlocal aproxima o jornalismo de dados de moradores do Complexo da Maré

Como um veículo hiperlocal aproxima o jornalismo de dados de moradores do Complexo da Maré

Associado da Ajor, Projeto do Data Labe utiliza informações fornecidas pelos próprios moradores para falar de problemas como saneamento básico e inundações

Por Everton Victor

Integrantes do Data Labe, projeto que une jornalismo e dados no território da Maré, no Rio. (Acervo Pessoal)

Quando o jornalismo de dados está inserido dentro do território, a perspectiva e o alcance das informações mudam e se aproximam de quem vive essa realidade. É esse compromisso do projeto que o Data Labe desenvolve no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio. A iniciativa mapeia denúncias, falta de saneamento básico, inundações e outros problemas enfrentados pelos moradores, transformando tudo isso em dados. Durante o Festival 3i, realizado entre os dias 29 e 31 de maio no Rio, uma das integrantes do Data Labe contou à Agenc os efeitos de investigar dados no território onde essas informações foram produzidas.

Maria Ribeiro, cearense e moradora do Complexo da Maré desde os dois anos de idade, vê na atuação no Data Labe uma forma de transformar experiências do cotidiano do seu território em informação. “A  falta de saneamento básico é muito presente na minha vida, tenho lembranças do meu irmão me carregando para que eu não tivesse contato com a água do alagamento, minha mãe tirando a água de dentro de casa, porque encheu. Quando eu entro no Data Labe, eu começo a problematizar isso”, conta. 

Maria Ribeiro, integrante do Data Labe. (Acervo Pessoal)

Voltado para direitos digitais, o Data Labe nasceu em 2018 no Complexo da Maré e usa a comunicação no território como base para democratizar o acesso aos dados. “A gente trabalha com o que chama de Geração Cidadã de Dados, que surge com o objetivo de que os próprios territórios e as comunidades em vulnerabilidade possam gerar seus próprios dados”, explica. O conceito Geração Cidadã citado por Maria busca envolver os moradores na produção de diagnósticos referentes à sua própria localidade. 

A atuação do Data Labe dialoga com um movimento mais amplo de crescimento de iniciativas de comunicação territorial no Brasil. Organizações que nascem nos territórios refletem uma tendência observada em todo país. O Atlas da Notícia de 2025 identificou 14.809 veículos jornalísticos independentes em atividade no Brasil, um aumento de 7% em relação ao  último levantamento, divulgado em 2023. 

No próprio Complexo da Maré, iniciativas como a Redes da Maré usam os dados do próprio território para se conectar com a comunidade. Em parceria com o Observatório das Favelas, o veículo jornalístico Redes da Maré produziu um  Censo com diferentes dados sobre essa região da cidade. O conglomerado de 16 favelas que compõem o Complexo da Maré  tem 129 mil moradores, e  25% deles são imigrantes nordestinos, enquanto 51,9% de todos habitantes da região são menores de 30 anos. Para Maria, do Data Labe, quando os dados produzidos passam a ser construídos de forma mais próxima de quem está neles, muda a perspectiva. “O morador da comunidade está sendo inserido em todo esse processo”, afirma.

No Data Labe, a equipe multidisciplinar utiliza o jornalismo de dados não só para combater a desinformação, mas também como uma ferramenta de propagação da informação. Maria reforça que o papel Data Labe não é substituir organizações governamentais que produzem dados, mas ser mais um braço de mapeamento em áreas que por vezes não conseguem ser mapeadas.

Para Maria, aproximar a produção de dados dos moradores também contribui para fortalecer a relação entre comunidades e veículos de comunicação. Hoje, cerca de 48% dos usuários de internet desconfiam sempre ou na maioria das vezes de informações produzidas por veículos de jornalismo profissional. O número é maior que a desconfiança em conteúdos de amigos ou familiares em redes sociais (39%), de acordo com o Núcleo de Informação Ponto Brasil.

Verônica Lima, coordenadora de Comunicação da Associação de Jornalismo Digital, a Ajor, destacou a importância de espaços de encontro entre jornalistas para discutir os desafios da profissão e pensar caminhos para fortalecer a relação com o público. “É cruzar potencialidades, a gente tem muitos desafios para o jornalismo e todos os caminhos de soluções possíveis estão na construção coletiva”, afirma.

Durante o Festival 3i, diferentes mesas abordaram esses desafios. E todas reforçaram que o caminho para um jornalismo forte é ele estar cada vez mais presente no território.

No Data Labe, uma das iniciativas utilizadas para se aproximar e criar uma relação com a comunidade é o “Cocozap”, ferramenta de caráter popular e que transforma em dados a plataforma de denúncias dos moradores. Em colaboração com organizações como a Casa Fluminense e a Redes de Desenvolvimento da Maré, o projeto mapeia o saneamento básico da Maré, através de um número de Whatsapp. 

Por lá, o morador envia a foto de sua queixa, como um esgoto a céu aberto, acúmulos de lixo e entulho, sempre com a sinalização indicando em qual parte da Maré o problema está acontecendo. A partir dessas informações, o veículo verifica as denúncias, realiza o georreferenciamento e sistematiza em sua própria base de dados. “Quando vemos dados sobre inundações, alagamentos, eles são construídos e mapeados a partir de queixas, então se os moradores não conhecem esses mecanismos, eles não conseguem enviar sua denúncia”, afirma Maria.

Alvo de críticas dos Estados Unidos, Pix é elogiado como ferramenta inovadora no Web Summit Rio

Alvo de críticas dos Estados Unidos, o Pix é elogiado como ferramenta inovadora no Web Summit Rio

Especialistas apontam qualidades do sistema de pagamento direto e sem presença de intermediários

Por Everton Victor e Murilo Santos

 
Web Summit Rio 2026. Paul Devlin/Web Summit

Alvo de ataques do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o  PIX foi celebrado durante o Web Summit, evento de inovação e tecnologia que acontece no Rio. Nesta semana o governo brasileiro registrou a marca PIX no Instituto Nacional de Propriedade Indústrial (INPI). A ação ocorre após críticas do governo estadunidense sobre um possível favorecimento do Banco Central do Brasil ao mecanismo, em detrimento de empresas norte-americanas que atuam no setor.

A praticidade da  transferência imediata de dinheiro sem um longo tempo de espera e sem um intermediador são fatores que constituem o PIX. Junto a isso, sua aceitabilidade varia desde o comércio local até grandes marketplaces que chegam a oferecer descontos em compras em PIX. 

Uma das razões é que esse modelo de transação não conta com uma empresa intermediadora dessa transação financeira, o que barateia os custos. Desde o lançamento do PIX, em 2020, até o primeiro semestre de 2025,  o sistema brasileiro PIX representou uma economia de 106,8 bilhões de reais para os usuários da ferramenta,  segundo pesquisa da PUC-MG.

Paddy Cosgrave, CEO do Web Summit. Divulgação: Web Summit Rio 2026

Paddy Cosgrave, CEO e fundador do Web Summit, classificou o PIX como uma das maiores inovações financeiras dos últimos tempos. De acordo com ele, o mercado brasileiro é historicamente dominado por duas empresas de transações financeiras, a Visa e a Mastercard, oriundas dos Estados Unidos. O CEO do Web Summit definiu o PIX como “assassino de monopólios”. As duas empresas estadunidenses têm atuação em mais de 200 países.

Utilizado por 170 milhões de usuários, o PIX está no cotidiano de diferentes brasileiros. Só em janeiro de 2026, essa ferramenta foi responsável por 7 bilhões das transações financeiras, de acordo com o Banco Central do Brasil. Através de um cadastro rápido, é possível com o CPF realizar um PIX por aproximação, agendar uma transferência sem a necessidade de ter uma empresa mediadora, por exemplo.

A crítica do governo Trump é que a iniciativa brasileira está prejudicando as finanças de grandes empresas financeiras com sede nos Estados Unidos. Recentemente, o governo norte-americano anunciou uma taxação de 25% sobre as mercadorias brasileiras após investigações do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) acusarem o Brasil de práticas comerciais “irrazoáveis”. 

O relatório afirma que o Pix cria uma competição desleal entre os provedores de pagamento eletrônico estrangeiros que atuam no Brasil. No documento de 107 páginas, os Estados Unidos citam a palavra PIX 20 vezes. 

O CEO e fundador da stratup Jeeves, Dileep Thazhmon, comentou o papel de novas iniciativas financeiras para facilitar a vida dos usuários. Sua empresa, através de cripto moedas lastreadas a moedas reais, se tornou uma intermediária de transações que ao invés de durar dias são concluídas em minutos. De acordo com o CEO, a iniciativa se inspira no PIX e a atuação da startup representa uma redução de 80% dos custos envolvidos em transferências internacionais.

Rio terá polo de data centers de IA

Rio terá polo de data centers de IA

Prefeito Eduardo Cavaliere anunciou investimentos privados na primeira fase do projeto Rio IA City 

Por Everton Victor e Murilo Santos

Eduardo Cavaliere, Mayor, prefeito do Rio, ado lado de Alessandro Lombardi, presidente da Elea Data Centres,  Divulgação/Web Summit Rio 2026

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Cavalieri, anunciou no Web Summit Rio 2026 um investimento de US$ 550 milhões a ser feito na cidade pela plataforma Elea Data Centers. Os recursos fazem parte da primeira fase do projeto Rio IA City, que prevê um polo de data centers no Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste da cidade. Cavalieri afirmou que a cada 100 megabytes serão gerados milhares de empregos em especial para os jovens universitários da cidade. A capital fluminense recebe entre os dias 8 e 11 de junho, pelo quarto ano consecutivo, o Web Summit Rio, um dos principais festivais de tecnologia do mundo.

Cavaliere fez o anúncio numa entrevista coletiva concedida em conjunto com Paddy Cosgrave, CEO e cofundador do Web Summit. A Agenc perguntou ao prefeito sobre os ganhos para os cariocas resultantes de eventos sobre tecnologia.  De acordo com o prefeito da cidade, os jovens do Rio, em especial, os universitários, serão os principais beneficiados de uma economia diversificada e baseada em IA. “Se a nossa cidade continuar se preparando para ser a capital da inovação e se a gente investir em datacenters, nós vamos atingir mais empregos, mais investidores e mais oportunidades para os jovens”, afirma.

Cavalieri também comentou  a iniciativa Rio IA City, um hub de inovação e tecnologia de data centers no Parque Olímpico, na Barra. O plano estratégico do município visa transformar o Rio em um dos 10 maiores polos globais de inovação e tecnologia até 2032. Ao todo, está previsto um investimento final de 65 bilhões de dólares ao longo da próxima década. 

O anúncio do avanço do Rio IA City vem no cenário de crescimento dos debates sobre os efeitos de grandes Data Centers para os territórios em que eles estão instaurados e o debate sobre o impacto ambiental dessas estruturas. Data Centers reúnem conjuntos de computadores de grande porte que processam um descomunal número de dados e informações, como ferramentas de IA de chatbots, como o CHAT GPT. 

Apesar de otimizar tarefas do cotidiano, os data centers consomem uma grande quantidade de água. De acordo  com as Nações Unidas, o consumo anual de água necessário para manter Data Centers seria de 9,3 trilhões de litros, uma quantidade que supriria as necessidades domésticas básicas de água de 1,3 bilhão de habitantes da África Subsaariana durante um ano. Estima-se que apenas o treinamento do ChatGPT-5 consumiu cerca de 1 bilhão de litros de água.

A expansão tecnológica desses centros de dados demanda estrutura física, de terras para ser instalado, mas também  fatores como geração de eletricidade, sistemas de refrigeração e captação de água voltados para essas máquinas. Defensores da criação de mais Data Centers reforçam benefícios de um grande processamento de dados e ferramentas para países desenvolverem seus sistemas digitais interno.

No Brasil, tramita no Senado Federal o Projeto de Lei 3018/24, de autoria do senador Styvenson Valentim (PODEMOS/RN), que estabelece regras para locais de armazenamento e processamento de dados em território nacional. Durante audiência pública da Comissão de Ciência e Tecnologia sobre o PL realizada na última terça (9), o representante do Ministério Ciência, Tecnologia e Inovação, Hamilton José Mendes da Silva, sugeriu no debate que a regulamentação incluísse a transparência sobre consumo de água e energia em data centers. 

O complexo na Barra da Tijuca terá capacidade energética inicial de 1,5 GW, com expansão prevista para até 3 GW em 2032. A expectativa é que o Rio IA City gere mais de 10 mil empregos qualificados para os cariocas e torne a cidade um atrativo para startups, centros de pesquisas e empresas de tecnologia de diferentes países. No anúncio desta primeira fase, não houve detalhamento sobre iniciativas de sustentabilidade no polo de data centers a ser instalado no Rio.

Aos cariocas, o prefeito ressaltou que a criação de ginásios tecnológicos, incentivos a iniciativas como Porto Maravalley, um hub para abrigar start-ups, e o novo prédio do Instituto de Matemática Pura e Aplicada no centro da cidade são algumas iniciativas da cidade direcionadas a posicionar o Rio como um polo de inovação. O Web Summit é um dos principais festivais de tecnologia do mundo. Nesta edição, a estimativa é reunir mais de 40 mil pessoas, além de ter o recorde de participação de 1.572 startups de diferentes países.

Pensar o presente e o futuro do jornalismo por quem faz e consome notícia

Pensar o presente e o futuro do jornalismo por quem faz e consome notícia

Cidade do Rio recebe sétima edição do Festival 3i, um dos principais eventos de jornalismo inovador e independente da América Latina

Por Everton Victor

Evento do Festival 3i. Foto: Everton Victor

Palco de trocas e reflexões sobre formas de consumir e produzir notícias, o Festival 3i, iniciativa voltada ao jornalismo independente, iniciou na última sexta (29) sua sétima edição no Rio de Janeiro. Com diferentes formatos de interação com o público, veículos jornalísticos de diferentes territórios do país se reúnem até este domingo no Porto Maravalley, na região Central da cidade. O uso de IA, o que estará em pauta nas próximas eleições no Brasil e no mundo, desafios dos canais de comunicação que cobrem a Amazônia são alguns dos temas  em discussão. Esta edição também marca os 5 anos da criação da Associação de Jornalismo Digital, a Ajor, realizadora do festival.

Para Sabrina Passos, diretora da Blue Engine Collaborative, a Inteligência Artificial pode ser um aliada cotidiana, mas exige  um olhar crítico.  “O que justifica o medo das pessoas com a Inteligência Artificial é ver tantos conteúdos equivocados, na pandemia, por exemplo. Se fosse hoje, a disseminação seria ainda maior“, afirma.

A utilização ou não da IA não está apenas em discussão nas redações jornalísticas nem é restrita  ao público do Festival. De acordo com pesquisa da Fundação Itaú em parceria com o DataFolha, 93% dos brasileiros utilizam ferramentas de IA no seu cotidiano, seja por meio de  perguntas  básicas em sites com respostas quase imediatas até chatbots que conseguem analisar inúmeros dados e informações em minutos.

Os debates do festival trouxeram exemplos sobre o uso jornalístico da IA. Um deles foi a “QuitérIA”, uma IA feminista lançada pelo Instituto AzMIna. A ferramenta monitora Projetos de Leis (PLs) do Congresso Nacional direcionados a questões de gênero e sexualidade. Ela coleta, analisa e traz contexto de como eventuais leis afetam essa população. O projeto foi tema de um dos Cases do 3i no primeiro dia de evento.

Outros exemplos em discussão no festival incluem o Lições da Amazônia, voltado ao jornalismo de iniciativas sustentáveis em territórios amazônicos, do veículo Amazônia VOX; e a Dandara Copilot, IA do Alma Preta.

A quatro meses das eleições gerais no Brasil, o  Festival 3i também é  um bom espaço para se manter atualizado sobre o que vai estar no centro da disputa eleitoral. A jornalista Cecília Oliveira, uma das fundadoras do Intercept Brasil, contará no próximo domingo os bastidores da reportagem investigativa que revelou uma ligação entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Outras mesas também abordaram e darão dicas de como cobrir e apurar as informações durante a corrida eleitoral. O espaço “Troca de Ideias” do Festival terá um dos debates sobre Estratégias de Jornalismo Territorial para as Eleições 2026 hoje às 15h.

A Agenc (Agência de Notícias Científicas da Uerj), por meio do programa Foca no 3i, estará acompanhando os três dias de evento. Acompanhe no nosso site,  nas redes do LED e do próprio Festival.

Lula encerra Brics pedindo Sul Global mais forte e ONU mais representativa

Lula encerra Brics pedindo Sul Global mais forte e ONU mais representativa

Em entrevista coletiva, presidente destacou relevância de ação conjunta para conter mudança climática

Por Everton Victor e Leticia Santana

Presidente da República ao lado do ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira, durante entrevista coletiva. Foto: Everton Victor

Com críticas à atuação da ONU, a defesa de organizações internacionais mais representativas e respostas às ameaças de Donald Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um balanço positivo do encontro do BRICS e o papel do grupo no mundo contemporâneo. Durante o segundo e último dia (6) da Cúpula do grupo, Lula destacou a importância da atuação conjunta das economias emergentes na construção de um mundo multipolar. O evento foi realizado nos dias 6 e 7 de junho, no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro. 

Na Declaração de Líderes assinada em consenso pelos 11 países-membros, os integrantes do BRICS apoiam uma mudança da estrutura de governança global.  Durante a entrevista, Lula criticou o papel que a ONU tem desempenhado na resolução de conflitos no mundo.  Para o presidente, adiar a reforma da ONU “torna o mundo mais perigoso”. A demanda por uma reestruturação de conselhos internacionais é antiga no BRICS. O principal argumento é que a mudança traria uma maior representatividade das nações emergentes em um mundo multipolar. “Não queremos mais um mundo tutelado”, disse Lula.

China e Rússia, membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas e integrantes do BRICS, defenderam um protagonismo maior das economias emergentes na ONU. Na Declaração, os dois países defendem um papel “mais relevante dessas nações [Brasil e Rússia] nas Nações Unidas, incluindo o Conselho de Segurança”. 

O Conselho de Segurança foi estabelecido em 1945, após a Segunda Guerra. Inicialmente com onze membros, hoje o grupo conta com 15 quinze – desses, 5 são permanentes.  Estes cinco (China, Estados Unidos, França, China e Reino Unidos) podem vetar qualquer resolução tomada pelo grupo. No conflito na Ucrânia, por exemplo, propostas relacionadas ao confronto foram vetadas por países como Estados Unidos e Rússia. 

A maior representatividade do Fundo Monetário Internacional (FMI), pauta antiga do BRICS, também foi colocada como essencial para um multilateralismo forte. Para a professora Fernanda Nanci, do Departamento de Relações Internacionais da Uerj, além das propostas,  a implementação, depende de muitos países e da capacidade do Brasil e países do BRICS pressionarem para que avance. A diferença, desta vez, é que com a expansão do BRICS mais nações – que algumas já faziam fora do agrupamento – passem a reivindicar maior participação no FMI. “No momento, há um ponto favorável que é o Brics ampliando, com mais economias emergentes e capacidade de articulação”.

A expansão de países no BRICS, um dos temas centrais desta Cúpula, o presidente  exaltou a liderança brasileira. “O Brasil realizou a mais importante reunião que o BRICS já fez, porque convidamos novas pessoas para que a gente os convença que o BRICS é um novo jeito de fazer o multilateralismo sobreviver no mundo”.

Um dos consensos da Declaração final do BRICS é o apoio dos 11 países membros à realização da Conferência do Clima, a COP30, no Brasil. Na carta, os  países emergentes endossaram o papel que o evento terá para impulsionar as metas climáticas, como as que estão presentes no Acordo de Paris. O evento acontecerá em novembro em Belém, no Pará. 

O presidente também respondeu às postagens de ameaças de taxação feitas por Trump. De acordo com Lula, não é responsável um presidente ameaçar o mundo através das redes. No dia 6 de junho, o presidente Donald Trump publicou em sua conta na rede social Truth Social, que “qualquer país que se alinha com as políticas antiamericanas do BRICS, terá uma tarifa adicional de 10%. Não haverá exceções para essa política”. As ameaças foram repercutidas nas redes sociais e em jornais por todo o mundo. 

Um dia após este post, na mesma rede, Trump voltou a fazer postagens que se relacionavam com o Brasil, desta vez, em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A postagem dizia que “o Brasil está fazendo um terrível trabalho no seu tratamento com o ex -presidente Jair Bolsonaro. Eu tenho assistido, assim como todo o mundo, eles fazerem nada mais do que persegui-lo dia após dia, noite após noite, mês após mês e ano após ano. Ele não é culpado de nada exceto ter lutado pelo povo”. Lula preferiu não comentar a declaração do presidente dos Estados Unidos. 

Países do BRICS se comprometem a cumprir metas de saúde fixadas nos ODS

Países do BRICS se comprometem a cumprir metas de saúde fixadas nos ODS

Declaração reunindo os consensos da Cúpula dos países emergentes foi divulgada no primeiro dia de encontro (6)

Por Everton Victor

Cúpula de Líderes dos países BRICS. Isabela Castilho | BRICS Brasil

A Declaração de Líderes do BRICS, divulgada neste domingo, se compromete a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pela ONU (Organização das Nações Unidas) relacionados à saúde. O documento foi divulgado no primeiro dia de reunião da Cúpula de Líderes realizada entre os dias 6 e 7 no Museu de Arte Moderna do Rio, na Zona Sul da cidade. O documento também reforçou o compromisso com o desenvolvimento sustentável das nações BRICS. 

A carta reitera que as metas a serem previstas nos ODS devem ser alcançadas “garantindo que nenhum país seja deixado para trás”. Dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, mais de dez se relacionam direta ou indiretamente com a saúde. Para Fernanda Nanci, professora do Departamento de Relações Internacionais da Uerj, o Brasil pautar este tema na Cúpula se relaciona com a estratégia do país buscar se projetar internacionalmente como uma potência ambiental. “Tem relação com o fato do Brasil estar buscando assumir posição de protagonista na COP30 e liderar esse debate”, explica.

Os ODS representam metas sociais e econômicas a serem alcançadas até 2030 pelos 193 países integrantes da ONU. Mas essas metas estão longe de serem alcançadas, apontou o relatório da ONU em julho de 2024, e só 17% delas estão indo na direção correta. 

Segundo a ONU, os desafios da falta de investimentos e ações locais em escalas dificultam a concretização dessas metas. Água limpa e saneamento, combate às alterações climáticas, fome zero e redução das desigualdades são alguns dos temas dos ODS. Faltando 5 anos para alcançar os objetivos de desenvolvimento sustentável, o BRICS reforçou o compromisso com os ODS como um caminho para o futuro do Sul Global. A Declaração das economias emergentes teve apoio dos 11 países membros do grupo: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Bangladesh, Emirados Árabes Unidos, Egito e Argélia.  

1° Dia da Cúpula de Líderes. Foto: Rafa Neddermeyer/BRICS Brasil/PR

O BRICS reforçou o apoio das nações emergentes ao papel da Organização Mundial da Saúde (OMS) como autoridade orientadora nas questões sobre Saúde global. A declaração final também enfatiza a necessidade de fortalecer a amplitude e os mecanismos de financiamento da OMS. A íntegra da Declaração de Líderes já está disponível no site oficial do agrupamento.

Rocinha é bairro do Rio mais vulnerável a deslizamentos e inundações, aponta projeto

Rocinha é bairro do Rio mais vulnerável a deslizamentos, aponta projeto

Iniciativa Rio 60°C, do portal Ambiental Media, mapeia a cidade e mostra que regiões periféricas estão mais vulneráveis aos impactos da mudança do clima

Por Everton Victor

Comunidade da Rocinha, Zona Sul do Rio de Janeiro Fernando Frazão/Agência Brasil

Chuvas fortes com resultados extremos, como deslizamentos e inundações, estão cada vez mais frequentes. Recordes de temperaturas também são cada vez mais frequentes. Os efeitos da mudança do clima já são realidade, e, a depender da região da cidade do Rio de Janeiro em que você se encontra, o impacto é sentido de forma diferente. É o que apontou o projeto “Rio 60 °C”, um mapeamento digital realizado pela organização jornalística Ambiental Media em parceria com o RioNowcast+Green, da Universidade Federal Fluminense (UFF).

A Rocinha, na Zona Sul do Rio, é a maior favela do Brasil, com 72.021 moradores e 30.371 casas, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estática (IBGE). Desses, 11 mil domicílios estão em áreas de alta vulnerabilidade para deslizamentos e 1,4 mil classificados com um risco muito alto, segundo o Rio 60 °C. Ainda de acordo com o projeto, o bairro concentra o maior número de  casas em risco de deslizamento da capital fluminense. O projeto Rio 60°C foi uma das iniciativas de jornalismo apresentadas no Festival 3i, realizado no Rio de Janeiro entre os dias 6 e 8 de junho na ESPM, com foco na exposição de projetos de jornalismo independentes e inovadores.

Bairros da cidade com mais domicílios vulneráveis a deslizamentos, de acordo com o projeto Rio °60 C Foto: Julia Lima

No complexo de favelas Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, também na Zona Sul do Rio, 3 mil moradias estão localizadas em áreas de alta vulnerabilidade a deslizamentos, enquanto 899 estão em área classificada como de muito alta vulnerabilidade. A exposição dos cariocas a riscos de deslizamentos não está restrita às comunidades da Zona Sul da cidade. Na Mangueira, Zona Norte do Rio, são 1,6 mil residências em alta vulnerabilidade e 765 em muito alta. Em Realengo, bairro da Zona Oeste, 517 moradias estão sujeitas a este risco e 12 classificadas em muito alta.

Condy Menezes, morador da Rocinha, na Zona Sul do Rio, há 48 anos e ativista social há mais de 20, é integrante da Associação de Moradores do bairro. À Agenc, ele contou a realidade de quem sofre com os eventos climáticos na comunidade. “Os moradores, depois dos dias de chuva, nos procuram para solicitar vistorias, principalmente da Defesa Civil, para avaliar riscos de desabamentos, deslizamentos de encostas e até para retirada de barro e terra que tenha adentrado casas”, explica.

Jornalista Thiago Medaglia em entrevista a nossa equipe de reportagem durante o festival 3i Foto: Julia Lima

Para o jornalista Thiago Medaglia, diretor-executivo da Ambiental Media, a análise de dados presente no projeto Rio 60 °C permite entender os desafios para enfrentar a mudança climática. Segundo ele, os eventos climáticos extremos são manifestações locais do aquecimento global que atingem todos, no entanto, impactam de maneira mais drástica populações socioeconomicamente vulneráveis. “Na iminência de um evento extremo, essas pessoas vão para onde?”, indaga.

De acordo com a pesquisa, a cidade do Rio de Janeiro concentra 70 mil domicílios em áreas de alta vulnerabilidade e 10 mil com risco muito alto de deslizamentos. Para inundações, os dados são ainda maiores: 530 mil casas estão suscetíveis e 132 mil estão categorizadas com risco muito alto. O projeto “Rio 60 °C” destaca como a urbanização desregulada em alguns bairros próximos aos três maciços da cidade – Tijuca, Pedra Branca e Gericinó-Mendanha, tornam essas casas mais expostas a perigos. A Rocinha, por exemplo, fica localizada na vertente sul do Maciço da Tijuca.

A urbanização desordenada acontece quando o crescimento de uma cidade não segue um planejamento – por exemplo, uma casa construída em uma  área de proteção ambiental ou em uma região por onde passa um rio. São domicílios erguidos sem que se tenha uma análise prévia sobre a viabilidade e a segurança de ter uma moradia naquele local. 

Este processo é acompanhado por políticas, ou a falta delas, no amparo ao cidadão. Muitas vezes, mesmo sem se sentir seguro na região em que reside, ele prefere permanecer numa área de risco, por não ter outra opção. “Quem mora em área de risco nunca se sente seguro, eles sabem que de alguma forma estão em risco iminente de que algo possa acontecer. Quanto maior a intensidade da chuva, maior o medo”, afirma Condy.

Apesar da insegurança constante e do estado de alerta em que essas pessoas se encontram, a Associação de Moradores faz um suporte direto aos moradores na Rocinha. Através da orientação de pontos de apoio, mobilização comunitária para repor perdas e até ajuda psicológica. São tentativas de mitigar danos a moradores que por vezes já estão em situação de vulnerabilidade, segundo Condy. Perguntado se se sente amparado pelo poder público em sua comunidade, ele respondeu  que, sempre que acionadas, a subprefeitura, a Defesa Civil e a Comlurb se fazem presentes. 

A Fundação Geo-Rio, órgão vinculado à Secretaria Municipal de Infraestrutura, afirmou ter concluído 13 obras de contenção de encostas na Rocinha desde 2021, com um investimento de R$ 12,7 milhões. “As intervenções foram fundamentais para aumentar a segurança da população que vive em áreas com risco geológico, especialmente durante o período de chuvas”. Entre os serviços citados pela Geo-Rio estão a construção de cortinas atirantadas (sistema de contenção de encostas), muros de contenção em concreto armado, solo grampeado, instalação de canaletas de drenagem e de telas de aços.

Walmir Júnior, mestre em Sustentabilidade pela PUC-Rio e coordenador da horta popular “Maria Angu”, é morador da comunidade de Kelson, na Penha, Zona Norte do Rio. Para ele, existe uma dificuldade do poder público proteger esses cidadãos que vivem em áreas de risco. “Quando a gente tá falando de alagamento, inundação, estamos falando de casas que tão sendo perdidas, de vidas que estão sendo tiradas. O Estado é detentor desse cuidado da vida da população”, reforça.

Apesar dos efeitos das mudanças climáticas se concentrarem nas consequências nas cidades – como altas temperaturas, secas extremas, poluição do ar, o impacto também pode ser fatal para a saúde humana. No ano de 2024, o Brasil registrou 306 mortes em decorrência de eventos climáticos, segundo levantamento do Atlas Digital de Desastres do Brasil. Ainda de acordo com este levantamento, 299 mil brasileiros ficaram feridos ou adoeceram em decorrência de desastres climáticos no ano de 2024. 

Para Walmir Júnior, é preciso enfrentar as mudanças climáticas com a inclusão da justiça climática nessas ações. O termo citado por Walmir  já é praticado nos debates sobre a responsabilidade de cada nação para reverter o aquecimento global. Ele defende pautar esta justiça climática também nos territórios, através de políticas públicas voltadas para quem está mais suscetível a sentir os impactos das mudanças climáticas.

O racismo ambiental, mecanismo também agravado com a emergência climática, através de desigualdades raciais que  se manifestam nos eventos climáticos, também é um ponto de discussão por Walmir. Ele participou de uma apresentação sobre a iniciativa Rio 60°C durante o Festival 3i.Confira um trecho da apresentação: https://www.youtube.com/watch?v=3emqiFYNsIM

O projeto Rio 60 °C analisa indicadores socioeconômicos, como renda, taxa de analfabetismo e quantidade de moradores por domicílio, a estrutura urbanística da capital fluminense e dados sobre o tema. “A ideia é utilizar esse material como fonte de informação para educação ambiental”, explica Thiago Medaglia. 

Apresentação de próximo passos e a continuidade do Rio 60 °C Fonte: Julia Lima

No site, é possível visualizar a cidade do Rio através de mapas interativos que indicam regiões mais suscetíveis a deslizamentos e inundações. Medaglia contou que o número “60°C”, que faz parte do nome do projeto, inicialmente não era esse, mas com a sequência de temperaturas recordes que ultrapassaram sensações térmicas de 40°C, 50 °C, e, mais recentemente 60 °C, atualizou a numeração do projeto.

A cidade registrou o recorde de 62,3°C no dia 17 de março de 2023. É a maior sensação térmica registrada desde 2014, quando o Sistema Alerta Rio começou a fazer a medição.  

  • Mecanismo de monitoramento de chuvas

No site da Defesa Civil do Rio de Janeiro há um manual explicativo sobre deslizamento e alguns sinais que podem identificar se o domicílio oferece algum risco. A prefeitura do Rio disponibiliza em seu site Alerta Rio o monitoramento em tempo real sobre a quantidade de chuva nos bairros da cidade.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) realiza diariamente a divulgação de boletins diários sobre áreas que estão passando por algum risco geo-hidrológico no momento. Junto ao Painel de Alerta, também do Cemaden, que categoriza em número o nível de alerta por estado.

Se você mora em um desses municípios – Angra dos Reis/RJ,  Blumenau/SC; Cachoeiro de Itapemirim/ES; Gaspar/SC; Indianópolis/MG; Morretes/PR; Muçum/RS; Petrópolis/RJ;  Roca Sales/RS; São Sebastião/SP;  União da Vitória/PR -, a Anatel notifica por mensagem de texto quando há locais de risco com iminente de desastres sem precisar ter um cadastro prévio na plataforma. A escolha de cidades a ofertar o serviço foi realizada a partir do volume de alertas emitidos em 2023 pela Defesa Civil e desastres recentes de grande impacto.

SERVIÇO

199 – Número da Defesa Civil.

193 – Corpo de Bombeiros.

192 – Ambulância

Em casos de emergência, como solicitação de vistoria,  acione esses órgãos.

Projetos transformam o lixo em apoio à comunidade na Zona Oeste do Rio de Janeiro

Projetos transformam o lixo em apoio à comunidade na Zona Oeste do Rio de Janeiro

Instituições trocam materiais recicláveis por alimentos, cadeiras de rodas e itens escolares

Por: Manoela Oliveira

Mural de tampinhas de plástico feitos pelos alunos da Escola Municipal Medalhista Olímpico Diego Hypólito / Reprodução: Manoela Oliveira

A falta de reciclagem contribui para o aumento da poluição, liberando substâncias tóxicas prejudiciais à saúde humana e ao meio ambiente, além de acelerar a degradação ambiental e aumentar a emissão de gases de efeito estufa. Embora 98% dos brasileiros reconheçam a importância da reciclagem para o planeta, apenas 25% separam o lixo adequadamente, aponta uma pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Na Zona Oeste do Rio de Janeiro, organizações como o Núcleo Especial de Atenção à Criança (NEAC) e a One By One são responsáveis por transformar o lixo e preservar o meio ambiente.

O NEAC, com o projeto do ECO Mercado, possibilita moradores de Campo Grande trocarem materiais recicláveis por alimentos, itens pedagógicos e de limpeza. A conversão de materiais é realizada através do EcoReal, a primeira moeda ecológica criada no Brasil, que substitui um material reciclável em um EcoReal. O plástico duro é a exceção devido ao baixo valor comercial, necessitando de três itens desse material para conseguir um EcoReal.

Os EcoReais disponíveis para troca / Reprodução: Colagem de Manoela Oliveira com fotos do NEAC

A One By One, localizada na Barra da Tijuca, transforma lacres e tampinhas plásticas em cadeiras de rodas e em outros itens como andadores e aspiradores, por meio da Campanha Recicla. A ação conta com cerca de 50 pontos de coleta espalhados no Rio de Janeiro, além de dois pontos situados em Minas Gerais e São Paulo. Para fazer uma cadeira de rodas, é necessário 600 kg de lacres ou 2500 kg de tampinhas de plásticos. Segundo a One By One, em 2023, foram produzidas 13 cadeiras de rodas sob medidas, dois aspiradores e dois andadores.  

Impacto da reciclagem na comunidade 

Selma Pacheco fundou o NEAC há 30 anos após uma forte chuva elevar o rio Cabuçu, afetando as famílias que moravam perto da margem, na Comunidade Comari II, em Campo Grande. Depois de uma investigação do Núcleo, foi descoberto que o rio encheu devido ao excesso de lixo nas águas, porque, naquela época, a Companhia Municipal de Limpeza Urbana (COMLURB) não atuava na região, então os moradores jogavam o lixo no rio. Selma explicou que o NEAC conseguiu reduzir a poluição hídrica e promover a educação em uma área onde a taxa de evasão escolar entre as crianças era de aproximadamente 93%.

O ECO Mercado, criado pelo NEAC, impacta positivamente as famílias da comunidade, especialmente aquelas que não têm dinheiro, mas possuem lixo, reforça Selma. De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o Brasil produz cerca de 27 milhões de toneladas de resíduos recicláveis anualmente, porém o índice de reciclagem desses materiais é de apenas 4%, considerado abaixo da média global de 19%. Pensando nisso, segundo Selma, todos os materiais coletados no mercado são vendidos para empresas recicladoras da região.

ECO Mercado por dentro e por fora / Reprodução: Colagem de Manoela Oliveira com fotos de arquivo pessoal e da Clara Lessa

Carlos Eduardo Santos, conhecido como Cadu,  trabalha no  ECO Mercado faz dois anos e acredita que o projeto ajuda famílias a terem acesso à alimentação, além de incentivar a sustentabilidade. “Um litro de óleo aqui equivale a 25 EcoReais”. Ele explicou ser possível comprar as mercadorias com dinheiro real ou complementar a quantia que falta com o EcoReal. 

Lucinete Bastos disse que usa o mercado frequentemente para fazer suas compras, por vender cloro e desinfetante, ela consegue trocar a embalagem desses materiais por itens essenciais para a casa. “Com o ECO Mercado, consigo fazer as compras do mês e ajuda para caramba”, ressalta. De acordo com o NEAC, 1200 famílias da comunidade são impactadas pelo projeto e, no primeiro semestre de 2024, 1,6 tonelada de plásticos PEAD e PET foram reciclados, sendo o último o tipo de plástico mais produzido no mundo. 

Materiais reciclados no primeiro semestre de 2024 pelo NEAC / Reprodução: NEAC

Reciclagem como ferramenta de inclusão 

A reciclagem também está inserida na luta pela inclusão social para pessoas com deficiências (PDCs) físicas, motoras ou neurológicas. Nessa iniciativa, a One By One produziu mais 2025 cadeiras de rodas por meio da coleta de plástico e de alumínio, impactando cerca de 8 mil famílias, segundo a organização.  “No ano passado, reciclamos 30 mil toneladas de tampinhas”, disse Maria Antônia Araújo, assistente de comunicação da One By One. 

A Campanha Recicla, ligada à organização, oferece cadeiras de rodas para aqueles que estão em situação de vulnerabilidade social (tem uma renda familiar abaixo de 1,5 salários mínimos), são portadores de alguma deficiência e possuem idade máxima de 22 anos, entretanto, quem recebia ajuda da instituição antes de completar a idade limite, pode continuar sendo um beneficiário do programa. Maria Antônia acrescenta que é necessário enviar o laudo médico e a prescrição da cadeira de rodas com as medidas após entrar em contato com a organização para conseguir ser atendido pelo programa. 

A Escola Municipal Medalhista Olímpico Diego Hypólito, localizada em Campo Grande, funciona como um dos pontos de coleta da Campanha Recicla. João Marcos Pucinho, diretor da escola, disse que o incentivo à reciclagem pelos alunos ocorre por meio de gincanas de sustentabilidade promovidas pela instituição. “Cada turma fica responsável pelo recolhimento de uma quantidade de materiais recicláveis, quem tiver feito um recolhimento maior é o vitorioso da gincana”, completa. O diretor explicou que eles recebem pontos extras nas disciplinas como uma forma de estimular a participação dos estudantes.  

Estação de sustentabilidade na Escola Municipal Medalhista Olímpico Diego Hypólito/ Reprodução: Manoela Oliveira

As tampinhas de garrafas e os lacres de latinha recolhidos são destinados a One By One, porém o óleo de cozinha e o lixo eletrônico são vendidos para outras empresas, de acordo com João Marcos. Ele ressalta que é importante trabalhar com as crianças, não somente as matérias do currículo escolar, mas também essas experiências que contribuem para uma educação integral. 

Serviço: 

ECO Mercado

Local: R. Cantor Emílio Santiago, 117-119 – Campo Grande, Rio de Janeiro.

Horário: Segunda a sexta-feira – 09:00 às 17:00

Sábado – 10:00 às 15:00 

One By One (Solicitar a cadeira de rodas) 

E-mail: contato@onebyone.org.br

Telefone: 21 99563-4001

Confira os pontos de coleta 

Fazendeiros atacam com armas grupos indígenas no MS

Fazendeiros atacam com armas grupos indígenas no MS

Povo Kaiowá-Guarani foram alvo de tiros e vigilância de drones e caminhonetes 

Por: Beatriz Araujo e Manoela Oliveira

Chamada de apoio do povo Kaiowá-Guarani / Fonte: Instagram da Aty Guasu

Centenas de famílias indígenas Guarani Kaiowá têm sofrido ataques armados por fazendeiros e latifundiários após iniciarem a autodemarcação de seu tekoha (“lugar onde se é”, em guarani) no dia 13 de julho. O território, localizado em Douradina, Mato Grosso do Sul (MS), ocupa mais de 9 mil hectares, o equivalente a aproximadamente 35,3% da área total do município. A Assembleia Geral dos Povos Indígenas Guarani e Kaiowá, a Aty Guasu, tem denunciado a situação da comunidade nas redes sociais. Em imagens divulgadas por eles, fazendeiros aparecem ateando fogo no campo, atirando com foguetes e armas de fogo nos indígenas. Além da reivindicação pelo território ancestral, a retomada também visa cessar o despejo de agrotóxicos nas proximidades das residências e das nascentes utilizadas para o consumo de água pelos produtores rurais. 

A retomada denominada Pyaru Yvyajere reinvindica a Terra Indígena Panambi Lagoa Rica, reconhecida em 2011 pelo Governo Federal, mas aguarda desde então a homologação do processo demarcatório. “A gente esperou demais e nada de resposta, então, como comunidade, nós conversamos e chegamos à conclusão de fazer a autodemarcação geral”, conta a indígena Daniela Jorge João. 

Terra Indígena Panambi Lagoa Rica / Fonte: Terras Indígenas no Brasil

Os produtores rurais, no entanto, alegam serem proprietários legais da área e reagiram à situação organizando acampamentos e um cerco de caminhonetes a poucos metros do local da retomada. Em um vídeo gravado por eles, frases em tom de ameaça como “o bambu vai envergar” e “a tropa de choque está chegando” foram veiculadas como forma de ataque à resistência. 

O conflito já deixou mais de 10 indígenas feridos por ataques e disparos de arma de fogo, entre eles um levou um tiro na cabeça e outro no pescoço. Kisa Aquino, indígena também presente na retomada, relata que helicópteros e drones rodam o local para identificar e perseguir os envolvidos na retomada. “A gente sabe que eles soltam os drones em cima da gente porque eles querem ver quantas pessoas, crianças e idosos estão aqui e planejar o ataque. É um terror saber que estamos sendo vigiados e não podemos fazer nada”, completa. 

Agentes do Departamento de Operações de Fronteira (DOF) controlam o acesso à comunidade, fotografando documentos e placas dos veículos, além de coletar informações sobre a retomada, a quantidade de pessoas e as lideranças, segundo o Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Para Mônica Cristina Lima, professora da Universidade Indígena Pluriétnica Aldeia Marakanã, a presença do Departamento reprime os indígenas e pessoas de outros movimentos sociais que vão ao local apoiar a retomada. Ela destaca também que o DOF, apesar de ser uma entidade policial da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (SEJUSP), tem muita ligação com os latifundiários e isso gera uma desconfiança dos Guarani-Kaiowá com o departamento. “Todas às vezes em que eles retomam uma área, os policiais e os sargentos aposentados que estão presentes nesses grupos de pessoas que os atacam, também estão nas empresas de segurança”.

Resistência dos Guarani-Kaiowá no tekoha 

Cerca de 10 dias após o avanço da autodemarcação, os povos Guarani e Kaiowá receberam uma ordem de despejo dos latifundiários e dos fazendeiros para se retirarem do local em um prazo de cinco dias. Xaky Jovito, indígena presente na retomada, conta que, apesar da ameaça para sair do local, não está com medo, por ter certeza que a comunidade irá lutar pela resistência. “Se isso for acontecer mesmo, a gente vai enfrentar, morrer e se sacrificar pelas nossas terras”. Ela manifesta a preocupação da comunidade de que os ataques dos ruralistas se intensifiquem após o prazo da retirada. “Houve 4 feridos aqui no dia dos ataques, se houver esse despejo, vai ter mais pessoas se ferindo”, completa Xaky. 

Os responsáveis pelos ataques ao povo Guarani-Kaiowá divulgaram informações falsas nas redes sociais, alegando que a comunidade não é indígena e veio do Paraguai. Essas acusações foram feitas por uma fonte anônima em um vídeo publicado na página do Instagram do deputado federal Marcos Pollon. “Os latifundiários falam que a gente é do povo paraguaio, que estamos se fazendo de indígenas, negativo, eu nasci e cresci aqui”, diz Daniela. De acordo com ela, para evitar futuras invasões e violências é necessária a demarcação do tekoha Lagoa Rica, processo em andamento por 20 anos.

Em nota publicada em 20 de julho, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) afirmaram estar monitorando de perto os povos Guarani e Kaiowá a partir de uma equipe responsável por avaliar a situação e dialogar com as comunidades envolvidas. Após disparos de armas de fogo que resultaram em um indígena baleado e outros machucados com balas de borracha, a Funai busca apoio do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). 

A Fundação também recebeu relatos de incêndios de grande escala e de monitoramento da área pelos fazendeiros e latifundiários com drones e caminhonetes. A Funai ressaltou seu objetivo em garantir segurança para os povos originários e em encontrar uma resolução para a retomada com todos os grupos envolvidos. 

Com a retirada das Forças Nacionais do local, em 3 de agosto, os ataques se intensificaram e cinco indígenas foram levados para emergência depois de disparos por armas de fogo. Na tarde da última segunda-feira (05), após mais de três semanas de conflitos entre latifundiários e povos indígenas no MS, o Tribunal Regional Federal da 3° Região (TRF3) suspendeu a ordem reintegração de posse, responsável por ordenar o despejo das comunidades Guarani e Kaiowá na região de Douradina. A suspensão da ordem, porém, não garante a segurança dos indígenas na retomada. “É preciso avançar nas demarcações como nos garante a Constituição Federal”, destaca Mônica Cristina. 

Segundo dados da Funai, até o momento, apenas 424 terras indígenas foram oficialmente demarcadas, representando menos de 14% do território brasileiro. No Brasil, embora o processo demarcatório tenha um número máximo de dias estipulado para cada etapa, a realidade está distante do previsto em lei. Um exemplo disso é o caso dos Guarani-Kaiowá, que aguardam desde 2011 a aprovação da demarcação de seu território.

Etapas no processo de demarcação / Fonte: Instituto Socioambiental

Mesmo com a criação do MPI pelo presidente Lula em 2023 e a nomeação de lideranças indígenas em cargos importantes, como Joênia Wapichana na presidência da Funai, a lentidão nos processos demarcatórios dificultam o avanço na garantia direitos indígenas previstos na constituição. “É uma questão preocupante porque na luta pela terra, 70% dos que estão debaixo de uma lona são crianças e mulheres. Elas estão na linha de frente correndo todo tipo de violações e risco.”, destaca a professora Mônica Cristina.

Em 2023, foram registrados 309 casos de invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e outros conflitos relacionados à terra, conforme dados do CIMI. “O problema maior não é a legislação, pois a Constituição nos garante os direitos, mas como garantir e fazer valer esses direitos?”, questiona Mônica. Ela destaca que os interesses e a pressão da bancada ruralista, formada por parlamentares que são, em sua maioria, proprietários de terras e empresários rurais, possuem relação direta com o atraso nos processos de demarcação de terras indígenas. 

O relatório do CIMI mostra que houve um aumento crescente contra os povos originários entre os anos de 2019 e 2022. Durante esses quatro anos, foram registrados 795 indígenas mortos, 407 disputas por conflitos territoriais e cerca de 1133 casos de invasões possessórias, danos ao patrimônio e exploração ilegal de recursos naturais em terras indígenas. No Brasil, não ocorre punição para crimes contra as comunidades originárias, porque há uma conveniência do Estado, afirma Mônica. A professora apontou a organização “Invasão Zero” como um exemplo da impunibilidade desses criminosos, esse movimento é liderado por fazendeiros e proprietários de terra. O grupo é responsável por se organizar ilegalmente para ocupar áreas de trabalhadores de terras e de comunidades indígenas, com características semelhantes às milícias armadas. 

Desafios na demarcação de terras indígenas 

O Marco Temporal é uma tese jurídica criada com objetivo de restringir o direito de posse dos indígenas apenas às terras ocupadas ou disputadas antes de 5 de outubro de 1988, a data de publicação da Constituição vigente no Brasil. A proposta cria barreiras adicionais de demarcação de terras indígenas e aumenta os casos de violência contra essas comunidades, segundo Mônica Cristina. Para ela, o Marco Temporal, que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) desde 2007, pode intensificar os conflitos entre povos originários e grupos dedicados à mineração e ao agronegócio. 

Entre os principais defensores do Marco estão parlamentares que compõem a bancada ruralista, afirmando que o projeto é necessário para dar “segurança jurídica” aos fazendeiros. Nunes Marques, ministro do STF, declara que a soberania do Brasil estaria em risco sem a aprovação do Marco Temporal, além de prejudicar o mercado imobiliário. De acordo com a professora, a tese jurídica é uma “ameaça significativa aos direitos e à integridade territorial das comunidades indígenas”, não reconhecendo terras ocupadas e protegidas por esses povos após 1988. 

O STF considerou o Marco Temporal inconstitucional em setembro de 2023, por validar ameaças e violências ocorridas contra os indígenas antes da proclamação da Constituição. Porém, o Congresso Nacional restabeleceu a proposta com a criação da lei 14.701/2023, negando o pedido de veto feito pelo presidente Lula.  

Para a professora Mônica, a sociedade civil, as comunidades internacionais e os órgãos públicos são responsáveis por determinar o futuro dos povos indígenas na promoção de inclusão social e de visibilidade. Ela conta que as invasões de terras e os casos de violência vão aumentar ou persistir nos próximos anos, sendo as mudanças climáticas e o desmatamento fatores de riscos contra essas comunidades. “Os modos de vida e cosmovisões dos povos originários e seu respeito e conexão com a Mãe Terra, a Grande Criadora, são a alternativa para solucionarmos os desafios climáticos que estamos sofrendo”, conclui a professora.  

Pontos de acolhimentos de alimentos e mantimentos / Fonte: Instagram da Aty Guasu

Desde o início da invasão, os fazendeiros estabeleceram acampamentos nas terras dos Guarani-Kaiowá, impedindo o acesso à comida e água para esses povos. As comunidades indígenas estão instalando pontos de coleta de alimentos e de itens de higiene, como papéis higiênicos e absorventes, para os residentes de Mato Grosso do Sul. Qualquer quantia pode ser doada através do endereço Pix: ms.unidadepopular@gmail.com

Corrida pelo ESG estimula fraude entre as empresas

Corrida pelo ESG estimula fraude entre as empresas

Discursos de sustentabilidade socioambiental convive com denúncias da prática de greenwashing (lavagem verde) 

Por: Beatriz Araujo

A urgência do debate sobre mudanças climáticas e crises ambientais levou muitas empresas nos últimos anos a adotarem uma estratégia conhecida mundialmente pela sigla em inglês ESG (Meio Ambiente, Social e Governança). A ESG reúne um conjunto de princípios e ações focadas em promover boas práticas. Esforço para se apresentarem como instituições preocupadas com o desenvolvimento responsável, contudo, tem sido acompanhado de denúncias sobre discursos sustentáveis que não correspondem a ações efetivas de mudanças no modo de produção e circulação das empresas. Conhecido como greenwashing, ou seja, a ação de enganar investidores e consumidores, a prática pode ser considerada crime ambiental e ter consequências legais contra empresas, segundo especialistas.

O ESG surgiu em 2004, no relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) intitulado “Who Cares Wins” (“Ganha quem se importa”, em português). O documento foi criado para estabelecer diretrizes que buscam determinar se uma empresa é socialmente consciente, sustentável e possui uma gestão adequada. O professor Carlos Milani do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), explica que o ESG é uma maneira de avaliar o desempenho de sustentabilidade de um negócio, baseando-se em três pilares: Ambiental, Social e Governança. “Essa sigla é uma nova etiqueta para algo anterior, que é essa dinâmica das empresas voluntariamente afirmarem que respeitam os direitos climáticos, ambientais, sociais, e a transparência em suas práticas, gestão de fornecedores e modo de produção de seus produtos e serviços.”

ESG está relacionado às práticas ambientais, sociais e de governança / Foto: Freepik

O pilar Ambiental avalia quais impactos ambientais as organizações promovem, tanto positivamente quanto negativamente. O pilar compreende as ações da empresa voltadas para o meio ambiente, abrangendo comportamentos relacionados ao consumo de recursos naturais em sua cadeia de produção, emissões de gases poluentes e do efeito estufa, eficiência energética, gestão de resíduos, poluição da água, entre outros. O Ambiental considera também ações, projetos e políticas de promoção a preservação e melhoramento ambiental. 

No pilar Social, é avaliado o relacionamento de uma empresa com fatores sociais como a inclusão, a diversidade, relações de trabalho com seus fornecedores e clientes, respeito aos direitos humanos e às leis trabalhistas. Um exemplo são as  condições do local de trabalho que fornecem respeito pela saúde e segurança dos funcionários. O último pilar, de Governança, refere-se às esferas administrativas e de gestão da empresa como a política de remuneração dos cargos, transparência e ética da instituição.

O peso do ESG repercute nos negócios e na imagem das instituições. Os indicadores Ambiental, Social e Governança já são utilizados por empresas de investimento para ajudar a identificar corporações posicionadas para um forte desempenho a longo prazo. De acordo com a pesquisa “ESG Market Navigator”, conduzida pela Bloomberg Intelligence, 84% dos executivos entrevistados acreditam que os fatores ESG contribuem para uma estratégia corporativa mais sólida, melhoram a reputação da empresa e facilitam o acesso a capital e expressam interesse em investimentos sustentáveis. Além disso, à medida que a consciência ambiental e social cresce, os consumidores estão cada vez mais atentos às escolhas das marcas que irão consumir, preferindo produtos mais sustentáveis.

A certificação de ESG em empresas é realizada por certificadoras especializadas do próprio setor de mercado, baseando-se no princípio de que a maioria das práticas e soluções são adotadas voluntariamente, mas, para o professor Carlos Milani, é preciso atenção ao grau de autonomia e independência dos certificadores. “Existem inúmeras denúncias dentro do setor corporativo, sobretudo transnacional, de empresas e corporações que se dizem agentes de acordo com os critérios de ESG ou de responsabilidade socioambiental, mas é um agente que pratica violações de direitos humanos e uma série de práticas que são muito degradantes do ponto de vista socioambiental”, observa.

Algumas práticas não são tão sustentáveis quanto parecem

Além do problema da independência dos certificadores, muitas empresas passaram a praticar uma espécie de “lavagem verde” ou “maquiagem verde”, o greenwashing. Esse tipo de fraude corresponde em adotar uma série de estratégias para tentar construir uma imagem favorável de produtos e serviços que são vendidos como sustentáveis e socialmente responsáveis quando, na verdade, são fruto de um processo de práticas que não atende critérios de mitigação de impactos socioambientais.

“Lave o seu crime climático” / Foto: Istock

A lista dos “Sete Pecados do Greenwashing”, elaborada pela consultoria canadense TerraChoice em 2007, criou uma tipologia das principais práticas de greenwashing que ajuda a identificar melhor práticas problemáticas. Entre elas está a irrelevância. “Por exemplo, você fez um projeto socioambiental com uma comunidade no interior ou na costa do Rio de Janeiro para proteger uma comunidade de marisqueiras, que vivem de manguezal. Mas suas emissões de poluentes estão em uma escala estratosférica, então o que você faz em termos de prática de ESG torna-se irrelevante”, explica Milani. 

A imprecisão e o custo camuflado, como o caso da multinacional Walmart em 2015 onde toalhas e lençóis fabricados com rayon, material sintético foram comercializados como sendo feitos de bambu ecológico, são alguns dos outros fatores presentes na lista. “Existem práticas que correspondem a uma narrativa, a um discurso de ESG. Mas existem também muitas práticas que, infelizmente, dentro do sistema econômico que a gente está inserido não correspondem a esse discurso”, observa o professor.

Em alguns casos, o greenwashing pode ser considerado uma prática ilegal. De acordo com o Código de Defesa do Consumidor (CDC), publicidades enganosas que omitem ou passam informações falsas sobre um produto configuram uma infração. Quando as alegações afetam o meio ambiente, a empresa pode estar sujeita a sanções e multas caso configure descumprimento de leis previstas na legislação brasileira, como a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que estabelece diretrizes para a redução, reutilização, reciclagem e tratamento correto desses resíduos no país.

A pesquisa “Mentira Verde” realizada pelo Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), além de fornecer dados sobre práticas de greenwashing no mercado brasileiro, apresenta informações úteis para os consumidores que desejam entender e identificar essas práticas no seu consumo pessoal. O guia alerta para o uso de termos como “ecológico”, “sustentável” ou “amigo do meio ambiente”. Termos amplos e vagos como esses não podem ser usados nas embalagens dos produtos de acordo com a Norma ABNT ISO 14021. Outro fator destacado são os selos presentes em embalagens que, muitas vezes, são criados pela própria empresa para passar uma imagem equivocada de certificação. O ideal é que o  consumidor pesquise sobre o símbolo para confirmar sua autenticidade. Dicas como essas mostram a necessidade da cautela diante dos produtos que se encontram no mercado.

Fonte: Ideal Verde