Como um veículo hiperlocal aproxima o jornalismo de dados de moradores do Complexo da Maré
Associado da Ajor, Projeto do Data Labe utiliza informações fornecidas pelos próprios moradores para falar de problemas como saneamento básico e inundações
Por Everton Victor

Quando o jornalismo de dados está inserido dentro do território, a perspectiva e o alcance das informações mudam e se aproximam de quem vive essa realidade. É esse compromisso do projeto que o Data Labe desenvolve no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio. A iniciativa mapeia denúncias, falta de saneamento básico, inundações e outros problemas enfrentados pelos moradores, transformando tudo isso em dados. Durante o Festival 3i, realizado entre os dias 29 e 31 de maio no Rio, uma das integrantes do Data Labe contou à Agenc os efeitos de investigar dados no território onde essas informações foram produzidas.
Maria Ribeiro, cearense e moradora do Complexo da Maré desde os dois anos de idade, vê na atuação no Data Labe uma forma de transformar experiências do cotidiano do seu território em informação. “A falta de saneamento básico é muito presente na minha vida, tenho lembranças do meu irmão me carregando para que eu não tivesse contato com a água do alagamento, minha mãe tirando a água de dentro de casa, porque encheu. Quando eu entro no Data Labe, eu começo a problematizar isso”, conta.

Voltado para direitos digitais, o Data Labe nasceu em 2018 no Complexo da Maré e usa a comunicação no território como base para democratizar o acesso aos dados. “A gente trabalha com o que chama de Geração Cidadã de Dados, que surge com o objetivo de que os próprios territórios e as comunidades em vulnerabilidade possam gerar seus próprios dados”, explica. O conceito Geração Cidadã citado por Maria busca envolver os moradores na produção de diagnósticos referentes à sua própria localidade.
A atuação do Data Labe dialoga com um movimento mais amplo de crescimento de iniciativas de comunicação territorial no Brasil. Organizações que nascem nos territórios refletem uma tendência observada em todo país. O Atlas da Notícia de 2025 identificou 14.809 veículos jornalísticos independentes em atividade no Brasil, um aumento de 7% em relação ao último levantamento, divulgado em 2023.
No próprio Complexo da Maré, iniciativas como a Redes da Maré usam os dados do próprio território para se conectar com a comunidade. Em parceria com o Observatório das Favelas, o veículo jornalístico Redes da Maré produziu um Censo com diferentes dados sobre essa região da cidade. O conglomerado de 16 favelas que compõem o Complexo da Maré tem 129 mil moradores, e 25% deles são imigrantes nordestinos, enquanto 51,9% de todos habitantes da região são menores de 30 anos. Para Maria, do Data Labe, quando os dados produzidos passam a ser construídos de forma mais próxima de quem está neles, muda a perspectiva. “O morador da comunidade está sendo inserido em todo esse processo”, afirma.
No Data Labe, a equipe multidisciplinar utiliza o jornalismo de dados não só para combater a desinformação, mas também como uma ferramenta de propagação da informação. Maria reforça que o papel Data Labe não é substituir organizações governamentais que produzem dados, mas ser mais um braço de mapeamento em áreas que por vezes não conseguem ser mapeadas.
Para Maria, aproximar a produção de dados dos moradores também contribui para fortalecer a relação entre comunidades e veículos de comunicação. Hoje, cerca de 48% dos usuários de internet desconfiam sempre ou na maioria das vezes de informações produzidas por veículos de jornalismo profissional. O número é maior que a desconfiança em conteúdos de amigos ou familiares em redes sociais (39%), de acordo com o Núcleo de Informação Ponto Brasil.
Verônica Lima, coordenadora de Comunicação da Associação de Jornalismo Digital, a Ajor, destacou a importância de espaços de encontro entre jornalistas para discutir os desafios da profissão e pensar caminhos para fortalecer a relação com o público. “É cruzar potencialidades, a gente tem muitos desafios para o jornalismo e todos os caminhos de soluções possíveis estão na construção coletiva”, afirma.
Durante o Festival 3i, diferentes mesas abordaram esses desafios. E todas reforçaram que o caminho para um jornalismo forte é ele estar cada vez mais presente no território.
No Data Labe, uma das iniciativas utilizadas para se aproximar e criar uma relação com a comunidade é o “Cocozap”, ferramenta de caráter popular e que transforma em dados a plataforma de denúncias dos moradores. Em colaboração com organizações como a Casa Fluminense e a Redes de Desenvolvimento da Maré, o projeto mapeia o saneamento básico da Maré, através de um número de Whatsapp.
Por lá, o morador envia a foto de sua queixa, como um esgoto a céu aberto, acúmulos de lixo e entulho, sempre com a sinalização indicando em qual parte da Maré o problema está acontecendo. A partir dessas informações, o veículo verifica as denúncias, realiza o georreferenciamento e sistematiza em sua própria base de dados. “Quando vemos dados sobre inundações, alagamentos, eles são construídos e mapeados a partir de queixas, então se os moradores não conhecem esses mecanismos, eles não conseguem enviar sua denúncia”, afirma Maria.



















