“Berro!”: Evento discute identidade e gênero na universidade e no mercado de trabalho

“Berro!”: Evento discute identidade e gênero na universidade e no mercado de trabalho

Confira os depoimentos, palestras e todos os detalhes do que aconteceu no primeiro dia do “Berro!”

Por: Luana Maciel

Na última semana, dos dias 4 a 6 de novembro, aconteceu na Uerj o “Berro!”, evento organizado pelo Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon) da Faculdade de Comunicação Social (FCS). O evento reuniu convidados ilustres e promoveu importantes debates sobre a expressão e comunicação LGBTQIAPN+ em múltiplas áreas. 

O primeiro dia de debates teve início com a apresentação de trabalhos pela manhã. Os trabalhos faziam parte da Jornada “Identidades, gêneros e sexualidades” e os temas abordados foram os mais diversos, mas todos com uma meta em comum: pensar a cultura, a arte, o esporte e as demais áreas a partir da perspectiva LGBTQIAPN+. As apresentações se estenderam até o período da tarde, reunindo alunos e acadêmicos interessados e finalizando cada sessão com um momento de perguntas e comentários.

Às 17h, a mesa de abertura, composta por Vania Oliveira Fortuna, subcoordenadora do Lacon; Elizabeth Macedo, Pró-Reitora da Pós-graduação; e Fátima Regis, vice-diretora da FCS , declarou oficialmente aberto o evento.

Mesa de abertura, no auditório 93 da UERJ.  Foto: Hyndra Lopes

Logo em seguida da cerimônia oficial de abertura, teve início, no auditório 93 da Uerj, a primeira mesa do evento, que colocava em pauta os principais desafios e avanços das pessoas LGBTQIAPN+ entre a comunidade acadêmica e no mercado de trabalho. A mesa reuniu o professor de direito da Unifesp, Renan Quinalha; a professora do Programa de Pós-Graduação e Comunicação da UFRGS, Alê Primo; e o professor da FCS e fundador do Lacon, Ricardo Ferreira Freitas.

Renan Quinalha foi quem deu início à palestra. Formado em direito pela USP, o professor comentou sobre sua própria experiência universitária, em um momento e local onde não haviam pessoas abertamente LGBTQIAPN+ nesse espaço. Renan relata que tanto o ambiente acadêmico como os primeiros locais onde trabalhou eram extremamente opressores em relação à identidade de gênero e à sexualidade. Renan se assumiu como homem gay já na vida adulta e, após se reconhecer como tal, passou a pesquisar e estudar experiências LGBTQIAPN+, inclusive trazendo essa temática para o seu doutorado.

O professor enfatiza a importância da expansão e legitimação do campo de estudos de gênero e sexualidade, e diz que a universidade tem que ser um espaço para se discutir esse tema, acompanhando os avanços sociais. Até porque, como ele explica, ter referências de professores e acadêmicos da comunidade ocupando lugares de destaque e prestígio inspira pessoas LGBTQIAPN+ a se imaginarem também nesse lugar, percebendo ser possível trilhar caminhos semelhantes.

Outra questão levantada por Renan é a crise enfrentada pelo mercado de trabalho como um todo. Em um cenário de dissolução das redes de proteção, e crescente vulnerabilidade do trabalhador, não basta, segundo o professor, que se contrate pessoas LGBTQIAPN+ sob a pretensão de inclusão. As empresas e os empregadores devem garantir à comunidade dignidade no ambiente de trabalho, possibilidade de descanso e outros direitos trabalhistas fundamentais. Não basta trazer essas pessoas para a universidade ou para o mercado de trabalho, é preciso pensar como elas vão permanecer nessas posições. Afinal, como o professor Renan pontua em seu discurso, representatividade não é sobre figuração, é sobre transformar estruturas de poder.

Mesa “LGBTQIAPN+ na academia e no mercado de trabalho”, no auditório 93 da UERJ. Foto: Luana Maciel

Em seguida, foi a vez de Alê Primo falar. Mulher trans que transicionou aos 51 anos, professora e Miss Universo trans Brasil, Alê começa contando que sua transição ocorreu durante a pandemia, e comenta os desafios enfrentados nesse processo, principalmente por ter ocorrido em uma fase mais avançada de sua vida. Mas apesar dos desafios, ela vê a transição aos 51 anos de forma positiva e afirma que pensa que não transicionou para uma menina, mas sim para uma mulher madura.

A professora relata que, antes de transicionar, tinha uma ideia de travestis como pessoas sujas e vulgares, pensamento perpetuado pelos preconceitos da sociedade. Por isso mesmo, agora que se assumiu como uma mulher trans, Alê quer ser vista e falar sobre sua experiência, pois entende que é fundamental que as pessoas trans sejam representadas e visualizadas para além desse estereótipo de indivíduos que ocupam a posição à margem da sociedade.

Nesse sentido, a professora não deixa de ressaltar o papel crucial da educação em romper com esses preconceitos e dar voz às pessoas trans. Segundo ela, a educação é transformadora para as minorias. Todos nós somos diferentes. Não existe ninguém igual ao outro”, afirma Alê Primo. E, segundo Alê, tanto a universidade, quanto o local de trabalho devem abraçar e celebrar essas diferenças. “A vida é a diferença. A homogeneidade é pobre. O não movimento é a morte. Tudo que está estático está morto. A vida é movimento”, complementa ela.

Alê Primo defende a adoção da medida de cotas trans. Imagem: Luana Maciel

Por fim, Alê Primo não deixa de fazer uma reivindicação, também colocada em destaque por Renan anteriormente: a necessidade de adesão da Uerj às cotas trans. Ambos enfatizam o papel da universidade como lugar de inclusão, como espaço que precisa ser ocupado por pessoas LGBTQIAPN+ . E, ainda, como  o local onde devem ser produzidas pesquisas e realizados estudos sobre o tema de identidade e gênero. E, para ambos, a adoção da medida de cotas trans é mais um passo, pendente e fundamental, para que se caminhe nessa direção.

O Primeiro dia do Berro! veio para mostrar a essência do evento: a reunião de pessoas renomadas, pessoas curiosas e pessoas determinadas para debater temas relevantes para a comunidade uerjiana e para a sociedade como um todo. Viajando pelas mais diferentes áreas e por variados assuntos, no final do dia o propósito do Berro! é um só: mostrar que a universidade pode e deve ser lugar de discutir identidade e gênero. É onde esse tema pode ganhar voz e levar à produção de conhecimento, para que o conhecimento leve à inclusão e ao respeito. Como bem colocado por Alê Primo em uma de suas falas finais: “Se eu puder resumir o que estamos Berrando é: respeite!”.

João Fonseca: o astro das raquetes

João Fonseca: o astro das raquetes

Brasileiro de 19 anos faz sucesso no tênis e já conquistou títulos contra os maiores do esporte

Por: Eduardo Campos

Há duas semanas, os brasileiros ligaram suas televisões para acompanhar uma final emocionante. No ATP 500 da Basileia, um dos torneios de tênis mais importantes do mundo, João Fonseca venceu o espanhol David Fokina e se sagrou campeão da competição. Para muitos que não conheciam o tenista, o título serviu como um cartão de visitas para mostrar o potencial que esse jovem possui e que surpreende nomes importantes da modalidade.

João nasceu no bairro de Ipanema, na cidade do Rio de Janeiro. Incentivado pelos pais Roberta e Christiano Fonseca, começou a jogar tênis aos 4 anos no Rio de Janeiro Country Club, que ficava ao lado de sua casa. Após alguns anos, entrou para a Yes Tennis, escolinha que dá aula para crianças e jovens tenistas. Aos 12, chamou a atenção de Guilherme Teixeira, seu atual treinador e que o preparou para disputar diversos torneios juvenis. Ele ganhou alguns títulos importantes, como o US Open Juvenil, o Next Gen ATP Finals e a Copa Davis Juvenil pelo Brasil, alcançando a primeira posição do ranking de juniores aos 17 anos, sendo o primeiro brasileiro a obter tal feito. Com o incrível currículo, resolveu subir para os profissionais.

Reprodução: Instagram (@joaoffonseca)

João Fonseca, após o título do Next Gen ATP Finals, posa com seus pais, grandes incentivadores de sua carreira

No profissional, mesmo com apenas 19 anos, Fonseca vem fazendo história no circuito. Além dos títulos no juvenil, ele já possui conquistas no profissional, como os Challengers de Lexington, Camberra e Phoenix, o ATP 250 de Buenos Aires, em que o brasileiro ganhou de quatro argentinos, inclusive na final, para ser campeão, e o já citado ATP 500 da Basileia, seu título mais recente. Para além dos títulos, seu estilo de jogo ofensivo é considerado impactante, com jogadas de velocidade e força em seus golpes com o braço direito. Sua garra e vontade de vencer mesmo com tão pouca idade também são destacadas, fatores que combinados já fizeram João vencer nomes relevantes da modalidade, como o próprio espanhol David Fokina, o russo top-10 do mundo Andrey Rublev e o ex-top 4 mundial o japonês Kei Nishikori.

Com esse grande currículo, o brasileiro chamou a atenção do Big Three, grupo seleto que reúne os três maiores tenistas da história: Novak Djokovic, Rafael Nadal e Roger Federer. Djokovic afirmou que não via um talento brasileiro desde Guga, declarando ser fã de seu jogo e ter como objetivo treinar o jovem no futuro. Já Nadal destacou que acompanha a carreira de Fonseca e elogiou tanto sua performance em quadra quanto seu comportamento fora dela. Enquanto isso, Federer, maior referência na carreira de Fonseca, se encontrou com o jovem na Laver Cup e projetou o torneio sendo realizado na América do Sul com o brasileiro sendo um dos destaques.

Reprodução: Instagram (@joaoffonseca)

João Fonseca e Roger Federer: futuro e passado do tênis lado a lado na Laver Cup

Com o sucesso obtido por João Fonseca, as comparações com Guga são inevitáveis. O ex-top 1 do mundo é considerado o maior nome da história do esporte no Brasil, e com as conquistas do carioca surge a expectativa que ele possa ser tão grande ou até maior do que seu compatriota. Os dois já trocaram elogios diversas vezes. O jovem comentou sobre a importância de representar o Brasil tão bem quanto Guga, enquanto o veterano afirmou que o início da carreira de Fonseca é comparável com a dos melhores da história do esporte. Embora exista uma grande euforia com o desempenho de João, uma questão permanece em aberto: é benéfico ser comparado a Guga ou o peso que tal comparação carrega pode ser um problema para ele durante sua carreira?

Reprodução: Instagram

As comparações inevitáveis entre João Fonseca, à direita, e Guga, à esquerda, podem fazer mal ao jovem?

Para além de seu sucesso individual, o crescimento de Fonseca possui importância crucial para a modalidade no país, pois incentiva outras crianças e jovens a praticarem o esporte. Dessa forma, o tênis brasileiro é potencializado e permite revelar novos talentos. Nomes como Naná Silva e Victoria Barros no feminino, e Rafael Padilha e Guto Miguel no masculino, são de uma geração posterior à de João, provando que mais promessas do tênis brasileiro estão surgindo e que podem se tornar figuras de destaque na modalidade.

A análise sobre João Fonseca deve ser muito maior do que falar apenas sobre seu desempenho. Ele representa a união do povo brasileiro de se reunir com a família para assistir às suas partidas, permitindo que todos vivam momentos inesquecíveis. Considerado um fenômeno dentro e fora das quadras, ele prova que para ser um grande atleta é preciso, além de muito talento, ter foco e determinação.

Promessas ou presente? Estrelas do futebol feminino traçam carreiras profissionais distintas

Promessas ou presente? Estrelas do futebol feminino traçam carreiras profissionais distintas

Enquanto Giovanna Waksman ainda não atua profissionalmente, Claudia Martínez já disputou uma Copa América pela seleção principal paraguaia

Por: Mariana Martins

Reprodução: Instagram (@giovannawaksman / @claudinha_11_ )

Giovanna Waksman e Claudia Martínez

As atletas Giovanna Waksman e Claudia Martínez integram sua respectivas seleções na Copa do Mundo Feminina Sub-17. Fora das categorias de base, a brasileira e a paraguaia traçam caminhos diferentes na carreira. Waksman atua pelo FC Florida e pela The Pine School, escola que frequenta nos Estados Unidos, e Martínez tem contrato profissional com o Club Olimpia no Paraguai, além de somar atuações pela seleção principal albirroja. Assim, enquanto a uma representa o futuro da equipe brasileira, outra já tem grande destaque, e é vista como uma jogadora essencial para levar seu país à Copa do Mundo de 2027. 

 

Giovanna Waksman, atacante de 16 anos, começou sua trajetória na base do Sogima FC, em Jacarepaguá. Em 2020, com 11 anos, ela chegou ao Botafogo para treinar com o time feminino sub-18, mas logo integrou as equipes masculinas do sub-12 e sub-13 para disputar campeonatos de acordo com sua idade. Waksman se destacou com a camisa 10 e a titularidade, atraindo a atenção de John Textor, dono da SAF do Botafogo.   

Em 2022, Textor fez um acordo com a atleta para que ela pudesse desenvolver sua carreira nos Estados Unidos. Waksman se transferiu para o FC Florida, clube de base administrado pelo empresário, e também integra o time da sua escola. Em 2025 ela recebeu o prêmio de “Melhor jogadora do país” pela The Pine School, além de ter marcado 87 gols na temporada. 

 

Pela seleção brasileira, Giovanna Waksman disputou o Sul-Americano sub-17 e integrou o time que chegou à semifinal da Copa do Mundo sub-17. Na fase de grupos do Mundial, ela marcou seis gols e deu cinco assistências em cinco jogos. O técnico da seleção principal Arthur Elias mantém Waksman no radar, e a convidou para treinar com o time antes da disputa da Copa América Feminina em julho de 2025. 

Foto: Reprodução Instagram (@giovannawaksman) 

Giovanna Waksman comemorando gol na Copa do Mundo sub-17

A carreira de Claudia Martínez, de 17 anos, segue por um caminho bem diferente. Natural de Capitán Bado, cidade que faz fronteira com o Brasil, ela começou no futebol há apenas três anos, em 2022, quando trocou o handebol pelo campo. Apesar do começo tardio, Martínez rapidamente se destacou e teve oportunidade de jogar no Sportivo Amelaino, na Primeira Divisão. Em 2024 foi contratada pelo Club Olimpia, para três temporadas na equipe principal. Desde então é um destaque no clube, nas categorias de base e na seleção principal, o que a levou a ser indicada ao prêmio Kopa, destinado à melhor jogadora sub-21. 

 

No Sul-Americano sub-17, Martínez marcou 10 gols em nove jogos, garantindo o topo da artilharia e um título inédito para o Paraguai, além de ajudar a classificar a seleção para o Mundial sub-17. Ela também ficou no topo das marcadoras na Copa América, empatando com a brasileira Amanda Gutierrez com seis gols em quatro partidas. Na Copa do Mundo sub-17, Martínez foi eleita “Melhor Jogadora da Partida” em dois jogos, com direito a um hat trick (três gols em um jogo) contra a Nova Zelândia. 

Foto: Reprodução Instagram (@claudinha_11_)

Claudia Martínez na cerimônia da Bola de Ouro, em Paris

Mesmo com carreiras tão diferentes, as jogadoras mostram que não há um único caminho para o sucesso e se destacaram na Copa do Mundo sub-17. Giovanna Waksman é uma promessa que a comissão técnica brasileira trata com cautela para que, quando estiver pronta, possa vestir a camisa verde e amarela com confiança e experiência. Por outro lado, Claudia Martínez é a principal atacante da seleção paraguaia, mesmo com apenas três anos de futebol. Ela representa o que a La Albirroja pode conquistar no futuro, mas também o que conquista hoje, seja nas seleções de base, seja na principal. 

Projeto da Uerj se especializa em serviços assistidos por cães para jovens com autismo

Projeto da Uerj se especializa em serviços assistidos por cães para jovens com autismo

A equipe desenvolveu a iniciativa “Ler é bom para cachorro

Por: Hyndra Lopes

O Grupo de Estudos e Pesquisas em Autismo e Serviços Assistidos por Cães (GEPAC), da Faculdade de Formação de Professores da Uerj (FFP), desenvolve programas de apoio e educação assistidos para crianças e adolescentes com autismo. Além de oferecer curso de qualificação para servidores públicos.

Atividade em escola com cão de assistência junto ao corpo docente. 

Foto disponibilizada por Vanessa Breia – coordenadora do GEPAC Uerj.

O GEPAC também promove um curso anual de formação e qualificação de profissionais habilitados a atuar em serviços assistidos, oferecido a servidores públicos da saúde, educação, assistência social e segurança pública. O programa, ao longo dos seus três anos de existência, já abrangeu os municípios de Arraial do Cabo, Barra Mansa, Itaboraí, Macaé, Niterói, Nova Friburgo, Rio de Janeiro, São Gonçalo e Maricá.

A relação entre intervenções assistidas e os cães que prestam serviços de apoio aos humanos gera certa confusão no público. Vanessa explica que serviços assistidos por cães consistem em ter um cachorro devidamente treinado como membro integrante de equipes de educação e saúde, por exemplo, ajudando em ações voltadas a um grupo ou a indivíduos. Já os cães de assistência são selecionados e treinados para acompanharem uma única pessoa com deficiência e auxiliá-la em atividades da vida diária, garantindo determinados suportes a partir da realização de tarefas específicas. Em ambos os casos, os cães devem ter o perfil e o treinamento baseados no público alvo que ele irá atender, desenvolvendo um repertório comportamental adequado ao ambiente e às necessidades das pessoas que serão atendidas. 

No GEPAC, que presta assistência a pessoas com TEA, trabalha-se com cachorros de médio a grande porte, resistentes a interações mais bruscas que podem acontecer devido às questões motoras e comportamentais de pessoas no espectro. Além disso, em seu treinamento, passam pelo processo de dessensibilização desses estímulos, para não se incomodarem caso a sua pele seja puxada ou se toque em qualquer parte do seu corpo, garantindo maior segurança aos atendidos.

 

As vantagens que serviços assistidos por cães podem trazer para o tratamento de pessoas com TEA são cientificamente comprovadas. Vanessa concorda que existem benefícios, principalmente nas questões de interação, mas que variam para cada pessoa de acordo com o objetivo terapêutico e a adaptação ao cão, ressaltando que o uso dessas intervenções deve ser um complemento às outras terapias indicadas e que, em alguns casos, pode haver contraindicações.

 

A professora aponta que a comunicação é uma das melhoras mais imediatas decorrentes desses serviços assistidos para crianças e jovens com autismo. Ela diz que os cães são capazes de captar micro sinais sutis mais rápido e de maneira menos invasiva. O seu comportamento também é mais previsível que o de um ser humano, principalmente um neurotípico, que pode apresentar ironia ou sarcasmo nas interações, por exemplo. Dessa forma, pessoas com essa neurodivergência, que tendem a ter dificuldades de socialização, se sentem encorajadas a interagir com o cachorro, por ele não impor a pressão de uma interação social humana e compreender pequenos estímulos mais facilmente. “Se a pessoa que tem dificuldade de comunicação está se sentindo confortável, é muito mais fácil para ela investir em um ciclo de comunicação nessas condições do que quando ela está sendo pressionada”.



Atendimento em Terapia Assistida. Foto disponibilizada por Vanessa Breia – coordenadora do GEPAC Uerj.

O GEPAC também promove um curso anual de formação e qualificação de profissionais habilitados a atuar em serviços assistidos, oferecido a servidores públicos da saúde, educação, assistência social e segurança pública. O programa, ao longo dos seus três anos de existência, já abrangeu os municípios de Arraial do Cabo, Barra Mansa, Itaboraí, Macaé, Niterói, Nova Friburgo, Rio de Janeiro e São Gonçalo.

A relação entre intervenções assistidas e animais que prestam esses serviços gera certa confusão no público acerca das suas distinções. Vanessa explica que serviços assistidos por cães consistem em ter um cachorro devidamente treinado como membro integrante de equipes de educação e saúde, por exemplo, ajudando em ações voltadas a um grupo. Já os cães de assistência são selecionados e treinados para acompanharem uma única pessoa, que irá adquirir esse animal por meio da compra ou doação, exercendo um serviço individualizado e totalmente adaptado ao seu dono. Em ambos os casos, o cão de assistência escolhido deve ter o perfil e o treinamento baseados no público alvo que ele irá atender, desenvolvendo um repertório comportamental adequado ao ambiente e às necessidades das pessoas que serão atendidas. 

 

No GEPAC, que presta assistência a pessoas com TEA, trabalha-se com cachorros de médio a grande porte, resistentes a interações mais bruscas que podem acontecer devido às questões motoras e comportamentais de jovens com autismo. Além disso, em seu treinamento, passam pelo processo de dessensibilização desses estímulos, para não se incomodarem caso a sua pele seja puxada ou se toque em qualquer parte do seu corpo.

As vantagens que serviços assistidos por cães podem trazer para o tratamento de pessoas com TEA são cientificamente comprovadas. Vanessa concorda que existem benefícios, principalmente nas questões de interação, mas que variam para cada pessoa de acordo com o objetivo terapêutico e a adaptação ao cão, ressaltando que o uso dessas intervenções deve ser um complemento às outras terapias indicadas e que, em alguns casos, pode haver contraindicações.

A professora aponta que a comunicação é uma das melhoras mais imediatas decorrentes desses serviços assistidos para jovens com autismo. Ela diz que os cães são capazes de captar micro sinais sutis mais rápido e de maneira menos invasiva. O seu comportamento também é mais previsível que o de um ser humano, principalmente um neurotípico, que pode apresentar ironia ou sarcasmo nas interações, por exemplo. Dessa forma, pessoas com essa neurodivergência, que tendem a ter dificuldades de socialização, se sentem encorajadas a interagir com o cachorro, por ele não impor a pressão de uma interação social humana e compreender pequenos estímulos mais facilmente. “Se a pessoa que tem dificuldade de comunicação está se sentindo confortável, é muito mais fácil para ela investir em um ciclo de comunicação nessas condições do que quando ela está sendo pressionada”.

Criança interagindo com cão de assistência no evento Pupanique – piquenique para famílias atípicas em celebração ao mês de abril. Foto disponibilizada por Vanessa Breia – coordenadora do GEPAC Uerj.

Os serviços assistidos por cães podem contribuir também no desenvolvimento motor, prejudicado em um número significativo de pessoas com autismo devido a hipotonia – baixo tônus muscular. A promoção de circuitos juntamente com o cão é uma maneira de motivar o jovem a desenvolver a parte física. Além disso, essas intervenções podem ajudar em questões táteis e sensoriais, comuns entre jovens com autismo, que apresentam restrições alimentares por conta da textura, do cheiro e da cor de determinados alimentos. “Muitas vezes o cachorro vai ser o modelo que topa provar e comer aquelas coisas. A criança pode não começar comendo a cenoura ou o morango, mas, se ela já aceitar tocar para dar ao cachorro, eu já ganhei um ponto nesse processo”, afirma Vanessa. 

 

Apesar de todos os fatores positivos que a divulgação desse trabalho trazem para a causa, a professora aponta que a mídia se aproveita do apelo que as pessoas com autismo e os próprios animais geram no público para propagar uma visão romantizada desses serviços. “A gente entende que, infelizmente, os serviços assistidos se tornaram muito divulgados, mas sem uma fundamentação técnica e teórica e sem uma dimensão ética”, declara Vanessa. O trabalho dos treinadores e especialistas e as questões acerca do bem-estar animal, controle sanitário e riscos de acidente são deixados de lado para focar no carinho, não julgamento e conforto que esses animais trazem aos humanos. Além de propagação da ideia dos serviços assistidos por cães como solução para todas as questões relacionadas ao transtorno. Ela defende que é necessário fazer uma divulgação consciente, para que a população não caia em mitos milagrosos acerca dos cães de assistência e entenda que esses serviços devem seguir parâmetros técnicos internacionais.

 

A inexistência de regulamentação legal para os diferentes tipos de cães de assistência no Brasil, inclusive os destinados a pessoas com autismo, é outro problema enfrentado pelos serviços assistidos. A garantia dos direitos destes animais está restrita aos cães guia pela Lei nº 11.126/2005, que acaba sendo aplicada aos outros cães de assistência e, com a comprovação de que eles foram treinados adequadamente, o judiciário reconhece o seu direito de atuar. Vanessa aponta que isto representa um atraso na legislação brasileira e defende os avanços dos projetos de lei que preveem a expansão dos direitos para os outros cães de assistência.

‘Gato’ no futebol carioca: quando a idade vira uma arma dentro de campo

‘Gato’ no futebol carioca: quando a idade vira uma arma dentro de campo

Por João Pedro Marins

No futebol, o termo “gato” tem um significado bem diferente do popular. Ele é usado para descrever o jogador que altera sua idade, geralmente para disputar categorias de base inferiores e se destacar entre atletas mais jovens. A prática, considerada fraude, é recorrente no futebol.

 

No futebol nacional, tivemos diversos casos famosos que vieram à tona. Como os casos Emerson Sheik, Sandro Hiroshi, Brendon e até o Vanderlei Luxemburgo.

CESAR GRECO/PALMEIRAS:

Luxemburgo em treino pelo Palmeiras

Em São Gonçalo, a história do jogador João Victor de Oliveira, conhecido como Romarinho, traz um olhar humano sobre esse dilema entre o sonho de ser jogador e o erro de falsificar a idade.

 

Romarinho atuou em clubes do futebol carioca e, em entrevista exclusiva à AJ, admitiu ter jogado como “gato” durante um período das categorias de base. Segundo ele, a decisão não partiu de uma ambição pessoal, mas de uma necessidade criada dentro do próprio ambiente esportivo.

Acervo pessoal de Romarinho:

Romarinho jogando pela base do Gonçalense

“O que me levou a tomar essa decisão foi a necessidade do treinador em ajudar a equipe inferior à minha idade. Ele acreditava que eu poderia fazer a diferença entre os meninos mais novos”, contou o jogador.

 

O processo, segundo ele, foi simples e silencioso. Com a ajuda do próprio treinador, Romarinho passou a integrar uma categoria abaixo da sua, sem que houvesse alteração formal de documentos. “Na maioria das vezes eu começava no banco para não chamar atenção. Entrava quando o time estava perdendo, e isso fazia diferença”, relembrou à AJ. Apesar de não ter chegado a usar uma identidade falsa, ele reconhece que a prática fere as regras e a ética esportiva.

 

A vantagem física e técnica sobre os colegas era evidente. Romarinho admite que, por estar mais desenvolvido, nunca se sentiu pressionado: “Eu tinha mais força, velocidade e consciência nas jogadas. Era natural o meu futebol se sobressair.”

Enquanto isso, a família e os amigos viam apenas os resultados dentro de campo. “Minha família só queria me ver feliz jogando e ajudando o clube. Meus colegas gostavam porque o time vencia mais quando eu estava em campo”, afirmou à AJ. 

 

Com o tempo, as fiscalizações se tornaram mais rigorosas, e o atleta decidiu abandonar a prática. Ele não chegou a sofrer punições formais, mas reconhece que o episódio marcou sua trajetória: “Ser ‘gato’ só me ajudou no início, quando meu futebol foi mais visto. Mas hoje sei que isso não valeu a pena.”

 

Hoje, Romarinho olha para trás com maturidade e faz um alerta para os jovens que sonham em seguir no futebol: “Eu não me orgulho de ter passado por cima das autoridades por interesses do clube. Foi um erro, mesmo que tenha me ajudado. Digo aos garotos que se esforcem, que não trapaceiem. As fiscalizações estão muito mais rigorosas, e quem perde no fim é o jogador. Os clubes muitas vezes permitem quando é do interesse deles, mas o preço é alto.” 

Acervo pessoal Romarinho

O caso de Romarinho não é isolado. A prática dos chamados “gatos” no futebol mostra o erro do sistema que muita das vezes incentiva e ignora problemas antiéticos, apenas para fins de favorecimento esportivo.

Casas de apostas dominam patrocínios másteres e desafiam integridade do futebol

Casas de apostas dominam patrocínios másteres e desafiam integridade do futebol

Em 2025, 18 dos 20 clubes da Série A têm bets como patrocinadoras principais exibindo suas marcas nos uniformes 

Por: Lívia Martinho

Das 20 equipes da Série A do Brasileirão 2025, são 18 que têm casas de apostas como patrocinadoras principais, e todas contam com parcerias com essas empresas, evidenciando a força das apostas esportivas no país. O crescimento do setor gera preocupação entre as autoridades, e ao longo deste ano o Ministério do Esporte tem buscado medidas para conter um problema que ameaça a credibilidade dos jogos.

 

O Ministério da Fazenda divulgou que no primeiro semestre de 2025 a renda bruta das empresas foi de R$ 17,4 bilhões e informou também que a média de gasto por apostador ativo é de R$ 983 por semestre ou R$ 164 por mês. Além disso, revela que dos 17,7 milhões de brasileiros que realizaram apostas neste período, 71%  são homens e 28,9% são mulheres. Sobre as faixas etárias, a de 31 a 40 anos registra 27,8% do total. A de 18 a 25 anos é 22,4%; 22,2% tem de 25 a 30 anos; 16,9% tem entre 41 e 50 anos; 7,8% tem de 51 a 60 anos e 2,1% tem de 61 a 70 anos.

Foto: Ronaldo Caldas/MEsp

Diante do avanço das apostas esportivas e das investigações sobre fraudes em competições, o Ministério do Esporte firmou Acordos de Cooperação (ACs) com a Sport Integrity Global Alliance (SIGA), a International Betting Integrity Association (IBIA), a Sportradar, a Associação de Bets e Fantasy Sport (ABFS) e a Genius Sports. Essas plataformas monitoram dados de apostas em tempo real e ajudam a detectar padrões suspeitos. O objetivo é criar um sistema nacional que possa alertar as autoridades diante de sinais de manipulação de resultados para proteger a integridade das competições e garantir um ambiente mais seguro e transparente para atletas, clubes e torcedores.

 

Com essa iniciativa, o Brasil busca alinhar-se às práticas internacionais de regulamentação das bets, adotando medidas semelhantes às de países com regras avançadas. No Reino Unido, por exemplo, o controle é um dos mais rigorosos e a partir da temporada 2026/27, os clubes da Premier League decidiram não estampar marcas de casas de apostas na parte frontal de seus uniformes, visando a  reduzir a publicidade e reforçar o compromisso ético do futebol. Na França, o monitoramento é feito pela Autoridade Nacional dos Jogos (ANJ), que busca atuar na prevenção do vício e combater fraudes.

 

A tributação das casas de apostas varia bastante pelo mundo: Reino Unido (21%), França (33%), Itália e Espanha (20%), México (30%), Quênia (15%) e Estados Unidos (20% a 50%, chegando a 51% em Nova York). No Brasil, com a Lei 14.790/2023, as operadoras pagam 12% sobre o rendimento bruto das apostas que totalizaram R$ 2,14 bilhões no primeiro semestre deste ano.

Conheça a Cariogalo: torcida do Atlético Mineiro que se reúne no Rio de Janeiro

Conheça a Cariogalo: torcida do Atlético Mineiro que se reúne no Rio de Janeiro

Como torcedores mantêm viva paixão pelo time mesmo em outro estado?

Por: Mariana Martins

Foto: Arquivo pessoal/Taís Vieira

Cariogalo reunida na Lapa em 2021

O Rio de Janeiro é uma cidade que vive intensamente o futebol. Torcidas lotam os estádios e o amor pelo clube está por todo lado: nas camisas, nas bandeiras penduradas nas janelas, na festa quando o time sai vencedor. Mas o que fazer quando sua equipe do coração está a 441 quilômetros? É possível manter viva a paixão por um escudo mesmo tão longe? A Cariogalo,  mostra que sim. Ao reunir torcedores do Clube Atlético Mineiro na capital carioca, o consulado transforma o bar em um pedaço de Minas Gerais.  

A Cariogalo, ou Consulado da Bola dos Atleticanos no Rio de Janeiro, foi fundada em 2006, pelo mineiro Custodio Pereira Neto, com o objetivo de unir amigos, família e torcedores que passam pela cidade para assistir aos jogos do Galo na Lapa. A torcida não possui membros, associados ou vínculo comercial com o bar, mas fornece um ponto de encontro para mineiros e cariocas atleticanos e até torcedores de outros times acompanharem as partidas. Taís Vieira, presidente do consulado, diz à AJ que a Cariogalo representa conexões: “É um cantinho de Minas Gerais no Rio, é a essência mineira. É incrível.” 

Foto: Arquivo pessoal/Taís Vieira

Cariogalo presente no Estádio Nilton Santos para partida contra o Botafogo

A torcida atleticana se junta para acompanhar os jogos, organiza eventos e recebe torcedores que visitam a cidade. Quando não estão reunidos, utilizam os grupos de WhatsApp e as redes sociais para se manterem em contato e chegar até aos adeptos que residem ou estão de passagem pelo Rio de Janeiro. Além disso, a Cariogalo está presente nos estádios quando o Galo joga contra times cariocas.  Nessas ocasiões, a festa começa na recepção aos jogadores no hotel e segue ao levarem as crianças para entrar em campo junto com os atletas, como mascotes: “Sim! Nós temos crianças nascidas no Rio e apaixonadas pelo Galo!”, diz Vieira.

Taís Vieira recorda que os jogos mais marcantes que viveram juntos foram a final da Libertadores em 2013 e a final da Copa do Brasil em 2014. Em ambas situações, o Atlético foi campeão e a Cariogalo celebrou esses momentos mesmo longe de Belo Horizonte: “O Galo sempre vai estar vivo em nossos corações, não importa a distância”, afirma Vieira.

Foto: Arquivo pessoal/Taís Vieira

Consulado da Bola reunidos para torcer pelo Clube Atlético Mineiro 

A Cariogalo também recebe companhias especiais, como o ídolo do clube mineiro Reinaldo. Ele acompanhou o clássico entre Galo e Cruzeiro pela Série A do Campeonato Brasileiro no bar da Lapa com a massa no dia 15 de outubro. O jornalista Chico Pinheiro, que é atleticano, está constantemente com a Cariogalo, esteve no consulado na celebração de 13 anos de sua fundação e é o presidente de honra da torcida.

Foto: Arquivo pessoal/Taís Vieira

Chico Pinheiro na celebração de 13 anos da Cariogalo

A torcida representa muito mais do que um jogo, como diz Vieira:  “Ser ‘Cariogalo’ é um estado de espírito. O Atlético une pessoas e histórias, não é só futebol, são pessoas que se levam pela vida que se conhecem pelo Consulado, e se tornam amigos, se encontram além dos jogos.” Assim, a Cariogalo mantém viva a paixão pelo Clube Atlético Mineiro no Rio de Janeiro.  

A decadência da pentacampeã do mundo?

A decadência da pentacampeã do mundo?

Seleção brasileira decepciona em amistosos, mas frustração já é rotina faz tempo

Por: Eduardo Campos

Após os amistosos realizados na última data Fifa, a seleção brasileira decepcionou mais uma vez. Embora a goleada aplicada contra a Coreia do Sul tenha animado os torcedores, a derrota inédita para o Japão acabou com o clima de otimismo. A situação do Brasil é preocupante: somado aos fracos desempenhos apresentados, a equipe caiu para a sétima posição no ranking de seleções da Fifa após as duas partidas. Faltando cerca de oito meses para a Copa do Mundo de 2026, é possível dizer que a seleção está em uma grave crise.

Esse cenário não era tão recorrente antes do início das últimas Copas. Sempre cercado de expectativa, o Brasil chegou para as Copas de 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022 como um dos favoritos ao título. Mesmo assim, acabou decepcionando em todas as edições, sendo eliminado nas quartas de final em quatro oportunidades. A única vez em que passou para as semifinais foi na Copa de 2014, resultando em um dos maiores vexames da história do futebol, o 7 a 1 contra a Alemanha.

Reprodução: Site da FIFA

David Luiz, capitão do Brasil na semifinal contra a Alemanha, incrédulo com o resultado

Uma das edições em que o Brasil chegou mais desacreditado para o maior torneio de seleções foi em 2002, ano em que a seleção brasileira foi campeã. Inclusive, a vitória na final contra a Alemanha foi a última vez em que a seleção canarinho ganhou de europeus em mata-mata. De lá para cá, foram seis jogos contra as equipes do Velho Continente, com cinco derrotas (França 1 x 0 Brasil em 2006, Holanda 2 x 1 Brasil em 2010, Alemanha 7 x 1 Brasil e Holanda 3 x 0 Brasil em 2014, e Bélgica 2 x 1 Brasil em 2018) e um empate (Croácia 1 x 1 Brasil em 2022, vitória croata nos pênaltis).

Contudo, a realidade atual e a de 23 anos atrás são muito diferentes. Com jogadores estrelados e vindo de um vice-campeonato mundial, o time de 2002 tinha experiência para lidar com situações de pressão. Já a equipe que disputará a Copa de 2026 possui um nível técnico bastante inferior em comparação com suas antecessoras, além de vir pressionada por igualar o maior período de jejum sem Copas do Mundo para o Brasil: 24 anos, assim como entre 1970 e 1994.

O ciclo para a próxima Copa ficou marcado pelos inúmeros recordes negativos atingidos, sendo o principal deles a maior quantidade de técnicos no período de preparação (quatro: Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti). Outros recordes são: as derrotas inéditas para Marrocos, Senegal e Japão (adversários sem tradição no cenário de seleções), a pior campanha brasileira nas eliminatórias (5° lugar, com 28 pontos, “superando” o 3° lugar e os 30 pontos de 2002) e as derrotas para a Argentina na classificatória para a Copa, resultando na primeira derrota em casa da história das eliminatórias e na pior derrota do Brasil nas eliminatórias (0 x 1 e 4 x 1, respectivamente). Além das eliminatórias e dos amistosos, a campanha na Copa América de 2024 também foi desastrosa. Com um futebol pobre e sem inspiração, a seleção foi eliminada nas quartas de final para o Uruguai nos pênaltis.

Reprodução: X/Conmebol

Argentina 4 x 1 Brasil: a maior derrota sofrida pelo Brasil na história das eliminatórias

Para além dos problemas futebolísticos, muitas questões extracampo estão atrapalhando o ambiente da seleção. As trocas de comando na presidência da CBF, órgão máximo de poder responsável pelo futebol brasileiro, também impactaram o trabalho. Após o afastamento do então presidente, Rodrigo Caboclo, por denúncias de assédio sexual em 2022, seu vice Ednaldo Rodrigues assumiu. Extremamente criticado pela falta de mudanças estruturais no futebol do país, também acabou sendo afastado em maio deste ano por suspeita de falsificação de uma assinatura em um documento para se manter no poder. Em seu lugar, entrou Samir Xaud, presidente da Federação Roraimense de Futebol, um estado sem influência no cenário do futebol nacional. Até agora, ele trouxe inovações, como um novo calendário para o futebol brasileiro no ano que vem.

Reprodução: Federação Roraimense de Futebol/FRF

Ednaldo Rodrigues, ex-presidente da CBF, à esquerda, e Samir Xaud, atual presidente da entidade, à direita

Outro fator fundamental para as polêmicas envolvendo a seleção brasileira é a imprensa e sua maneira de cobrir o tema. Para os jornalistas, a necessidade de alcançar a modernidade europeia deveria ser o grande objetivo do futebol nacional, ignorando o passado vencedor que o Brasil havia construído. O sensacionalismo e o desdém com que a mídia tratava e ainda trata a Seleção fez com que os torcedores se afastassem e perdessem a identificação de torcer por nossos compatriotas, transformando a dor da derrota em chacota.

Com todos esses problemas, percebe-se que a busca pelo hexacampeonato será uma missão muito difícil. Sem perspectiva de melhora, a seleção brasileira tende a passar mais uma Copa em branco e chegar a vinte e oito anos sem ganhar o torneio. Esse seria um recorde para o Brasil, que nunca ficou tanto tempo sem levantar o troféu após a primeira conquista. Porém, mesmo com as dificuldades apresentadas, ainda é possível conquistar a sexta estrela. A camisa verde e amarela da Seleção impõe respeito em qualquer outro país, pois sua história e tradição nunca serão apagadas. Para ser campeão do mundo, basta acreditar.

De Memphis Depay a Braithwaite, brasileirão vira refúgio de estrelas internacionais em busca de espaço

De Memphis Depay a Braithwaite, Brasileirão vira refúgio de estrelas internacionais em busca de espaço.

Em 2024, 90 jogadores estrangeiros foram contratados por clubes da Série A, maior número da história.

Por: Isaque Ramos

Esse fenômeno, porém, não é isolado. Ele acompanha uma mudança tanto estrutural quanto financeira que vem acontecendo no futebol brasileiro, mudança essa que é impulsionada pelo modelo de clube empresa (SAF), cada vez mais comum entre os clubes do país. Além da lei das SAFs, a valorização do real frente a outras moedas na América Latina, destaca o Brasileirão cada vez mais como a principal liga do continente, impulsionando a imagem da liga globalmente. Isso tudo colocou o Brasileirão em um patamar de competitividade e atratividade que pouco tempo atrás parecia restrito a ligas do Oriente Médio (isso, é claro, excluindo as europeias).

 Reprodução: Instagram (@memphisdepay)

Para esses jogadores, o Brasileirão se tornou um destino interessante principalmente por oferecer algo que eles não encontrariam nas principais ligas europeias: protagonismo. Basta olhar para o dinamarquês Martin Braithwaite, que, após seguidas temporadas sendo coadjuvante em times europeus, chegou no Grêmio e imediatamente foi alçado ao patamar de protagonista do time, e não é qualquer time, e sim um dos clubes mais populares de um dos países mais populosos do mundo. O mesmo ocorreu com Memphis Depay que, apesar que ser um jogador mais conhecido do que o dinamarquês, também vinha de seguidas temporadas em baixa na Europa. Fato é, Ambos os jogadores chegaram ao país e imediatamente foram alçados a um patamar de referência técnica e midiática que eles dificilmente encontrariam no Velho Continente. No caso do holandês, o salto foi muito maior, já que ele passou de um jogador descartável da Europa para referência no clube de segunda maior torcida do país.

 

É interessante observar que o Brasileirão já foi o destino de algumas estrelas, ou pelo menos jogadores de renome no passado, como por exemplo do holandês Seedorf no Botafogo, em 2012, e que fez sucesso por aqui, ou ainda falando do alvinegro carioca, o japonês Keisuke Honda em 2020, que nunca correspondeu às expectativas. A grande diferença é que esses movimentos pareciam ser algo muito mais isolado, ou buscando apenas o retorno midiático, diferentemente de hoje, em que os jogadores, como no caso do próprio Depay, ainda estão no auge técnico, diferentemente do modelo desse tipo de contratação adotado no passado. 

 

O Brasileirão tem cada vez mais se consolidado como uma liga atrativa e extremamente competitiva e, somado ao momento de internacionalização sem precedentes, tem tudo para se tornar uma liga que cada vez mais importa estrelas dispostas a dar tudo de si em campo, e que não visam o país apenas como um último passo antes da aposentadoria.

Reprodução: Instagram (@braithwaiteofficial)

Categorias de base: o futuro do futebol feminino

Categorias de base: o futuro do futebol feminino

Formação de jovens atletas garante oportunidades e sustenta o crescimento da modalidade no Brasil

 

Por: Amanda Souza

Reprodução: Instagram – CBF/Foto: Conmebol

Nos últimos anos, o futebol feminino viveu um processo de expansão no Brasil. A maior presença na mídia, o crescimento do público nos estádios e o aumento dos investimentos dos clubes marcam uma nova fase para a modalidade. Com a Copa do Mundo Feminina de 2027 a caminho, a expectativa é de um crescimento ainda maior. Mas, por trás das jogadoras que brilham nas seleções e nos campeonatos profissionais, há um caminho essencial: as categorias de base.

As categorias de base são divisões em que jovens atletas são treinadas e preparadas para se tornarem jogadoras profissionais. No futebol feminino, as principais categorias são Sub-15, Sub-17 e Sub-20. Diferentemente do masculino, que possui divisões bem definidas desde o Sub-11, no feminino essa estrutura ainda é recente.

Um dos marcos para a expansão dessas divisões ocorreu em 2019, quando a Conmebol passou a exigir que os clubes participantes da Libertadores masculina mantivessem equipes femininas — medida que foi acompanhada pela CBF. A decisão impulsionou a criação de departamentos específicos e abriu espaço para o desenvolvimento da base. Mais recentemente, em 2025, a Confederação Brasileira de Futebol reforçou esse processo ao destinar quase R$ 10 milhões ao Brasileirão Feminino A1, aumentando em 20% as cotas de participação dos clubes e reforçando a obrigatoriedade de manter equipes de formação.

Mais do que formar atletas tecnicamente, as categorias de base cumprem um papel social e estratégico. É nelas que meninas têm acesso a treinos regulares, acompanhamento físico e psicológico, além de uma rotina que as aproxima da realidade profissional. Sem essa estrutura, muitas jovens acabam desistindo do esporte por falta de oportunidades.

Entre as jovens que cresceram sonhando com o futebol, Rayane Maia, atleta da base do Corinthians, é uma das representantes dessa nova geração que vem se formando dentro dessa estrutura. Em conversa com a AJ, ela contou que começou a jogar ainda criança, quando via o irmão e os amigos jogando na rua e decidiu tentar também. Desde então, sempre quis seguir essa carreira.

Na época em que começou, o futebol feminino não possuía tanta visibilidade. Rayane lembra que, no início, suas referências eram Marta e Neymar. Com o tempo, passou a admirar Cristiano Ronaldo, mas, entre as jogadoras, quem mais a inspirava era a zagueira Rafaelle Souza, da seleção brasileira.

A trajetória até chegar ao Corinthians exigiu sacrifícios e amadurecimento. “Foi um processo longo e doloroso, principalmente por ter que ficar longe da minha família para correr atrás do meu sonho. Precisei de muita dedicação e disciplina”, relembra. O esforço foi recompensado quando a jogadora teve a oportunidade de estrear no time profissional. Ela considera esse momento um dos mais marcantes de sua carreira, já que sempre sonhou com a chance de subir da base, embora não imaginasse que aconteceria tão cedo.

Apesar dos avanços, Rayane reconhece que os desafios ainda são grandes. Para ela, ser mulher no futebol significa enfrentar barreiras que vão além do campo. Ela destaca que as dificuldades são constantes e que a desigualdade se manifesta de diferentes formas, desde os salários mais baixos até a falta de estrutura e de espaços adequados para os treinos.

Mesmo assim, acredita que as categorias de base têm um papel essencial para mudar esse cenário. “As categorias de base femininas são fundamentais, porque muitas atletas desistem no meio do caminho por não terem oportunidade. Os clubes que investem nessa formação abrem portas para meninas que sonham em jogar profissionalmente.”

Rayane também percebe mudanças trazidas pelo aumento da visibilidade do futebol feminino. Ela observa que, atualmente, a situação está bem melhor, já que meninas mais novas conseguem se inspirar em diversas jogadoras além das mais conhecidas. Ainda assim, reconhece que há espaço para avanços.

Com o olhar voltado para o futuro, a atleta sonha alto e quer ser parte desse novo capítulo do futebol feminino no país. “Meu sonho é representar a seleção brasileira, disputar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada, e inspirar outras meninas a seguirem no esporte.” Para ela, o futuro é promissor. Rayane acredita que o futebol feminino ainda crescerá bastante e que muitas meninas terão a chance de perseguir esse sonho desde a infância. Com isso, a visibilidade e o apoio tendem a aumentar, o que deve gerar mais oportunidades e fortalecer a modalidade no Brasil.