“Berro!”: Evento discute identidade e gênero na universidade e no mercado de trabalho
Confira os depoimentos, palestras e todos os detalhes do que aconteceu no primeiro dia do “Berro!”
Por: Luana Maciel
Na última semana, dos dias 4 a 6 de novembro, aconteceu na Uerj o “Berro!”, evento organizado pelo Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon) da Faculdade de Comunicação Social (FCS). O evento reuniu convidados ilustres e promoveu importantes debates sobre a expressão e comunicação LGBTQIAPN+ em múltiplas áreas.
O primeiro dia de debates teve início com a apresentação de trabalhos pela manhã. Os trabalhos faziam parte da Jornada “Identidades, gêneros e sexualidades” e os temas abordados foram os mais diversos, mas todos com uma meta em comum: pensar a cultura, a arte, o esporte e as demais áreas a partir da perspectiva LGBTQIAPN+. As apresentações se estenderam até o período da tarde, reunindo alunos e acadêmicos interessados e finalizando cada sessão com um momento de perguntas e comentários.
Às 17h, a mesa de abertura, composta por Vania Oliveira Fortuna, subcoordenadora do Lacon; Elizabeth Macedo, Pró-Reitora da Pós-graduação; e Fátima Regis, vice-diretora da FCS , declarou oficialmente aberto o evento.
Mesa de abertura, no auditório 93 da UERJ. Foto: Hyndra Lopes
Logo em seguida da cerimônia oficial de abertura, teve início, no auditório 93 da Uerj, a primeira mesa do evento, que colocava em pauta os principais desafios e avanços das pessoas LGBTQIAPN+ entre a comunidade acadêmica e no mercado de trabalho. A mesa reuniu o professor de direito da Unifesp, Renan Quinalha; a professora do Programa de Pós-Graduação e Comunicação da UFRGS, Alê Primo; e o professor da FCS e fundador do Lacon, Ricardo Ferreira Freitas.
Renan Quinalha foi quem deu início à palestra. Formado em direito pela USP, o professor comentou sobre sua própria experiência universitária, em um momento e local onde não haviam pessoas abertamente LGBTQIAPN+ nesse espaço. Renan relata que tanto o ambiente acadêmico como os primeiros locais onde trabalhou eram extremamente opressores em relação à identidade de gênero e à sexualidade. Renan se assumiu como homem gay já na vida adulta e, após se reconhecer como tal, passou a pesquisar e estudar experiências LGBTQIAPN+, inclusive trazendo essa temática para o seu doutorado.
O professor enfatiza a importância da expansão e legitimação do campo de estudos de gênero e sexualidade, e diz que a universidade tem que ser um espaço para se discutir esse tema, acompanhando os avanços sociais. Até porque, como ele explica, ter referências de professores e acadêmicos da comunidade ocupando lugares de destaque e prestígio inspira pessoas LGBTQIAPN+ a se imaginarem também nesse lugar, percebendo ser possível trilhar caminhos semelhantes.
Outra questão levantada por Renan é a crise enfrentada pelo mercado de trabalho como um todo. Em um cenário de dissolução das redes de proteção, e crescente vulnerabilidade do trabalhador, não basta, segundo o professor, que se contrate pessoas LGBTQIAPN+ sob a pretensão de inclusão. As empresas e os empregadores devem garantir à comunidade dignidade no ambiente de trabalho, possibilidade de descanso e outros direitos trabalhistas fundamentais. Não basta trazer essas pessoas para a universidade ou para o mercado de trabalho, é preciso pensar como elas vão permanecer nessas posições. Afinal, como o professor Renan pontua em seu discurso, representatividade não é sobre figuração, é sobre transformar estruturas de poder.
Mesa “LGBTQIAPN+ na academia e no mercado de trabalho”, no auditório 93 da UERJ. Foto: Luana Maciel
Em seguida, foi a vez de Alê Primo falar. Mulher trans que transicionou aos 51 anos, professora e Miss Universo trans Brasil, Alê começa contando que sua transição ocorreu durante a pandemia, e comenta os desafios enfrentados nesse processo, principalmente por ter ocorrido em uma fase mais avançada de sua vida. Mas apesar dos desafios, ela vê a transição aos 51 anos de forma positiva e afirma que pensa que não transicionou para uma menina, mas sim para uma mulher madura.
A professora relata que, antes de transicionar, tinha uma ideia de travestis como pessoas sujas e vulgares, pensamento perpetuado pelos preconceitos da sociedade. Por isso mesmo, agora que se assumiu como uma mulher trans, Alê quer ser vista e falar sobre sua experiência, pois entende que é fundamental que as pessoas trans sejam representadas e visualizadas para além desse estereótipo de indivíduos que ocupam a posição à margem da sociedade.
Nesse sentido, a professora não deixa de ressaltar o papel crucial da educação em romper com esses preconceitos e dar voz às pessoas trans. Segundo ela, a educação é transformadora para as minorias. “Todos nós somos diferentes. Não existe ninguém igual ao outro”, afirma Alê Primo. E, segundo Alê, tanto a universidade, quanto o local de trabalho devem abraçar e celebrar essas diferenças. “A vida é a diferença. A homogeneidade é pobre. O não movimento é a morte. Tudo que está estático está morto. A vida é movimento”, complementa ela.
Alê Primo defende a adoção da medida de cotas trans. Imagem: Luana Maciel
Por fim, Alê Primo não deixa de fazer uma reivindicação, também colocada em destaque por Renan anteriormente: a necessidade de adesão da Uerj às cotas trans. Ambos enfatizam o papel da universidade como lugar de inclusão, como espaço que precisa ser ocupado por pessoas LGBTQIAPN+ . E, ainda, como o local onde devem ser produzidas pesquisas e realizados estudos sobre o tema de identidade e gênero. E, para ambos, a adoção da medida de cotas trans é mais um passo, pendente e fundamental, para que se caminhe nessa direção.
O Primeiro dia do Berro! veio para mostrar a essência do evento: a reunião de pessoas renomadas, pessoas curiosas e pessoas determinadas para debater temas relevantes para a comunidade uerjiana e para a sociedade como um todo. Viajando pelas mais diferentes áreas e por variados assuntos, no final do dia o propósito do Berro! é um só: mostrar que a universidade pode e deve ser lugar de discutir identidade e gênero. É onde esse tema pode ganhar voz e levar à produção de conhecimento, para que o conhecimento leve à inclusão e ao respeito. Como bem colocado por Alê Primo em uma de suas falas finais: “Se eu puder resumir o que estamos Berrando é: respeite!”.



