Corrida pelo ESG estimula fraude entre as empresas

Corrida pelo ESG estimula fraude entre as empresas

Discursos de sustentabilidade socioambiental convive com denúncias da prática de greenwashing (lavagem verde) 

Por: Beatriz Araujo

A urgência do debate sobre mudanças climáticas e crises ambientais levou muitas empresas nos últimos anos a adotarem uma estratégia conhecida mundialmente pela sigla em inglês ESG (Meio Ambiente, Social e Governança). A ESG reúne um conjunto de princípios e ações focadas em promover boas práticas. Esforço para se apresentarem como instituições preocupadas com o desenvolvimento responsável, contudo, tem sido acompanhado de denúncias sobre discursos sustentáveis que não correspondem a ações efetivas de mudanças no modo de produção e circulação das empresas. Conhecido como greenwashing, ou seja, a ação de enganar investidores e consumidores, a prática pode ser considerada crime ambiental e ter consequências legais contra empresas, segundo especialistas.

O ESG surgiu em 2004, no relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) intitulado “Who Cares Wins” (“Ganha quem se importa”, em português). O documento foi criado para estabelecer diretrizes que buscam determinar se uma empresa é socialmente consciente, sustentável e possui uma gestão adequada. O professor Carlos Milani do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), explica que o ESG é uma maneira de avaliar o desempenho de sustentabilidade de um negócio, baseando-se em três pilares: Ambiental, Social e Governança. “Essa sigla é uma nova etiqueta para algo anterior, que é essa dinâmica das empresas voluntariamente afirmarem que respeitam os direitos climáticos, ambientais, sociais, e a transparência em suas práticas, gestão de fornecedores e modo de produção de seus produtos e serviços.”

ESG está relacionado às práticas ambientais, sociais e de governança / Foto: Freepik

O pilar Ambiental avalia quais impactos ambientais as organizações promovem, tanto positivamente quanto negativamente. O pilar compreende as ações da empresa voltadas para o meio ambiente, abrangendo comportamentos relacionados ao consumo de recursos naturais em sua cadeia de produção, emissões de gases poluentes e do efeito estufa, eficiência energética, gestão de resíduos, poluição da água, entre outros. O Ambiental considera também ações, projetos e políticas de promoção a preservação e melhoramento ambiental. 

No pilar Social, é avaliado o relacionamento de uma empresa com fatores sociais como a inclusão, a diversidade, relações de trabalho com seus fornecedores e clientes, respeito aos direitos humanos e às leis trabalhistas. Um exemplo são as  condições do local de trabalho que fornecem respeito pela saúde e segurança dos funcionários. O último pilar, de Governança, refere-se às esferas administrativas e de gestão da empresa como a política de remuneração dos cargos, transparência e ética da instituição.

O peso do ESG repercute nos negócios e na imagem das instituições. Os indicadores Ambiental, Social e Governança já são utilizados por empresas de investimento para ajudar a identificar corporações posicionadas para um forte desempenho a longo prazo. De acordo com a pesquisa “ESG Market Navigator”, conduzida pela Bloomberg Intelligence, 84% dos executivos entrevistados acreditam que os fatores ESG contribuem para uma estratégia corporativa mais sólida, melhoram a reputação da empresa e facilitam o acesso a capital e expressam interesse em investimentos sustentáveis. Além disso, à medida que a consciência ambiental e social cresce, os consumidores estão cada vez mais atentos às escolhas das marcas que irão consumir, preferindo produtos mais sustentáveis.

A certificação de ESG em empresas é realizada por certificadoras especializadas do próprio setor de mercado, baseando-se no princípio de que a maioria das práticas e soluções são adotadas voluntariamente, mas, para o professor Carlos Milani, é preciso atenção ao grau de autonomia e independência dos certificadores. “Existem inúmeras denúncias dentro do setor corporativo, sobretudo transnacional, de empresas e corporações que se dizem agentes de acordo com os critérios de ESG ou de responsabilidade socioambiental, mas é um agente que pratica violações de direitos humanos e uma série de práticas que são muito degradantes do ponto de vista socioambiental”, observa.

Algumas práticas não são tão sustentáveis quanto parecem

Além do problema da independência dos certificadores, muitas empresas passaram a praticar uma espécie de “lavagem verde” ou “maquiagem verde”, o greenwashing. Esse tipo de fraude corresponde em adotar uma série de estratégias para tentar construir uma imagem favorável de produtos e serviços que são vendidos como sustentáveis e socialmente responsáveis quando, na verdade, são fruto de um processo de práticas que não atende critérios de mitigação de impactos socioambientais.

“Lave o seu crime climático” / Foto: Istock

A lista dos “Sete Pecados do Greenwashing”, elaborada pela consultoria canadense TerraChoice em 2007, criou uma tipologia das principais práticas de greenwashing que ajuda a identificar melhor práticas problemáticas. Entre elas está a irrelevância. “Por exemplo, você fez um projeto socioambiental com uma comunidade no interior ou na costa do Rio de Janeiro para proteger uma comunidade de marisqueiras, que vivem de manguezal. Mas suas emissões de poluentes estão em uma escala estratosférica, então o que você faz em termos de prática de ESG torna-se irrelevante”, explica Milani. 

A imprecisão e o custo camuflado, como o caso da multinacional Walmart em 2015 onde toalhas e lençóis fabricados com rayon, material sintético foram comercializados como sendo feitos de bambu ecológico, são alguns dos outros fatores presentes na lista. “Existem práticas que correspondem a uma narrativa, a um discurso de ESG. Mas existem também muitas práticas que, infelizmente, dentro do sistema econômico que a gente está inserido não correspondem a esse discurso”, observa o professor.

Em alguns casos, o greenwashing pode ser considerado uma prática ilegal. De acordo com o Código de Defesa do Consumidor (CDC), publicidades enganosas que omitem ou passam informações falsas sobre um produto configuram uma infração. Quando as alegações afetam o meio ambiente, a empresa pode estar sujeita a sanções e multas caso configure descumprimento de leis previstas na legislação brasileira, como a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que estabelece diretrizes para a redução, reutilização, reciclagem e tratamento correto desses resíduos no país.

A pesquisa “Mentira Verde” realizada pelo Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), além de fornecer dados sobre práticas de greenwashing no mercado brasileiro, apresenta informações úteis para os consumidores que desejam entender e identificar essas práticas no seu consumo pessoal. O guia alerta para o uso de termos como “ecológico”, “sustentável” ou “amigo do meio ambiente”. Termos amplos e vagos como esses não podem ser usados nas embalagens dos produtos de acordo com a Norma ABNT ISO 14021. Outro fator destacado são os selos presentes em embalagens que, muitas vezes, são criados pela própria empresa para passar uma imagem equivocada de certificação. O ideal é que o  consumidor pesquise sobre o símbolo para confirmar sua autenticidade. Dicas como essas mostram a necessidade da cautela diante dos produtos que se encontram no mercado.

Fonte: Ideal Verde

Moradores das favelas são mais vulneráveis a altas temperaturas

Moradores das favelas são mais vulneráveis a altas temperaturas

Formação de ilhas de calor nas comunidades é uma das causas apontadas por especialista

Por: Manoela Oliveira

Aglomerado de casas das favelas do Complexo do Alemão / Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
 
 
 

As favelas estão mais expostas a ondas de calor do que lugares considerados nobres, de acordo com um estudo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pesquisa mostrou que os complexos da Maré, do Alemão e da Penha são as regiões mais quentes do Rio de Janeiro, sendo todas áreas localizadas na Zona Norte da cidade. No Rio, a menor temperatura em 2024 foi registrada no Alto da Boa Vista, com 15,5%, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). As diferenças no tipo de ocupação das regiões da cidade podem explicar as diferenças de temperatura, segundo pesquisadores.

Para Luciana Figueiredo, professora do Departamento de Oceanografia Física e Meteorologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a ocorrência de temperaturas mais elevadas em bairros periféricos ocorre, muitas vezes, pela formação de ilhas de calor nessas regiões. Esse fenômeno acontece quando lugares muito urbanizados registram temperaturas mais altas que as áreas ao redor. Isso acontece devido à retirada de cobertura vegetal para construir asfaltos, material com grande absorção de calor. Um estudo global publicado na revista científica Nature Communications revelou que espaços arborizados são até 12 °C mais frios que localidades urbanas sem árvores.

James Miyamoto, professor de arquitetura e urbanismo da UFRJ, explica que existe uma grande aridez nas áreas onde estão localizadas as favelas, intensificando as ilhas de calor. “Quando chove, por exemplo, você tem problemas de alagamento, porque o solo é completamente impermeabilizado”. No Rio de Janeiro, uma em cada cinco casas está em áreas de alto risco de inundação, defende a Associação da Casa Fluminense. 

Distribuição dos cariocas afetados por riscos climáticos / Gráfico: Reprodução própria, com dados da Associação da Casa Fluminense




De acordo com Luciana, “quanto mais carentes são as regiões, menos vegetação a gente vai encontrar”. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana apontou que os bairros da Zona Norte e Oeste do Rio de Janeiro apresentam as menores coberturas vegetais. Cordovil, Santa Cruz e Bangu foram as áreas menos arborizadas da cidade, segundo o estudo.

Luciana ressalta que a precariedade das construções das favelas afeta a sensação climática dos moradores. “Às vezes a casa não tem janela nem portas, então acaba criando um desconforto térmico muito grande nessas pessoas”. A professora concorda com o conceito de “injustiça climática”, argumentando que, apesar de as crises ambientais serem uma realidade global, as pessoas de classes mais altas são menos afetadas pelas mudanças climáticas.

Segundo James, a maioria das moradias nas favelas não possuem telhas, material que reflete os raios solares. No lugar, são usadas lajes em ambientes de grande concentração populacional, contribuindo para o aumento das temperaturas. De acordo com o professor, a melhor forma de diminuir as ondas de calor é com a implementação de cobertura vegetal em pontos estratégicos da cidade. 

Ações da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e do Clima

No Rio, a Prefeitura tem projeto para minimizar o impacto das altas temperaturas nas comunidades. O “Cada Favela, uma Floresta”, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima (SMAC), tem o objetivo de promover o desenvolvimento sustentável no Rio, diminuindo as vulnerabilidades climáticas existentes nas áreas mais pobres nessas regiões. Segundo Alberto Santos, arquiteto e urbanista na Gerência de Projetos Especiais da SMAC, o programa visa ampliar as áreas drenantes, reduzir as ilhas de calor e aumentar o acesso às áreas verdes. No Parque Ecológico da Maré, o “Cada Favela, uma Floresta” trabalha no plantio de mudas e construção de hortas comunitárias. O projeto está em fase de licitação no Complexo do Alemão e no Morro do Juramento.

“Cada Favela, uma Floresta” tem parceria com outros três programas da Secretaria, o primeiro é o “Hortas Cariocas”. Ele é responsável por gerar alimentos de qualidade dentro das comunidades e incentivar os moradores da favela a entrarem em contato com os plantios, de acordo com Alberto. O segundo projeto é o “Cozinha Sustentável”, que ensina a população a preparar esses alimentos, além de oferecer comida à comunidade. O terceiro é o “Guardiões dos Rios”, que difunde nas favelas a conscientização ambiental por meio de eventos sobre sustentabilidade.

“Gastronomia sustentável” é a alternativa ao desperdício de alimentos

“Gastronomia sustentável” é a alternativa ao desperdício de alimentos

Mais de um bilhão de comida vai para o lixo em todo o mundo, segundo dados recentes da ONU. Chefs e nutricionistas pensam em soluções

Por: Vitória Thomaz

Maristella Sodre Chef de Cozinha sustentável dando aula em um evento. Foto: Acervo pessoal

O Relatório do Índice de Desperdício de Alimentos 2024 do PNUMA (Food Waste Index Report) indica que domicílios de todo o mundo desperdiçaram mais de 1 bilhão de refeições por dia em 2022, enquanto 783 milhões de pessoas foram afetadas pela fome e parte da humanidade enfrentou insegurança alimentar. O problema do descarte indevido de alimentos é persistente e causa diversos danos. É nesse contexto que chefs e nutricionistas têm pensado na sustentabilidade no dia-a-dia para minimizar os desperdícios.

O termo “sustentabilidade” é o ato de usar conscientemente os recursos naturais sem comprometer o bem-estar das gerações futuras, e ela pode ser aplicada também na culinária. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o desperdício de alimentos causa entre 8% e 10% dos gases de efeito estufa, contribuindo para o aquecimento global. Esse desperdício começa desde a produção agrícola inicial até o consumo das famílias.

A chef de cozinha Maristella Sodre explica que a Gastronomia sustentável, da qual possui especialização, é voltada para um olhar sustentável para a alimentação. “É uma gastronomia que utiliza técnicas de aproveitamento integral dos alimentos, evitando o desperdício e promovendo a importância de todos os nutrientes dos alimentos”. Para ela, o desperdício é um tópico de preocupação, e por meio da culinária a chef aplica técnicas que visam reduzir a perda de alimentos.

Sodre destaca que o descarte indevido de alimentos é um problema social e também para o planeta. “São toneladas e toneladas de alimentos descartados de maneira imprópria liberando gases tóxicos prejudicando o meio ambiente. Ainda se tem o agravante de milhões de pessoas estarem passando fome. A quantidade desse desperdício, daria para alimentar toda essa população faminta e ainda sobraria”.

Maristella Sodre ressalta que a população pode ter atitudes no seu dia a dia que ajuda a reduzir o desperdício, e uma delas seria a do aproveitamento integral dos alimentos. Isso inclui a utilização de um alimento por completo, como as partes não convencionais como: as cascas, talos e sementes. “Planejando suas compras semanais e utilizando técnicas de aproveitamento integral dos alimentos”, diz Sodre.

Projeto social de culinária sustentável

Há muitos exemplos de culinária sustentável no Rio. “Angu das Artes” é o nome do projeto social liderado por Angélica Nobre, de 51 anos. A gestora ambiental e chef de gastronomia sustentável, natural de Recife, comanda o projeto itinerante que através de cursos, palestras e oficinas ensina e capacita a prática do aproveitamento total do alimento.

O foco do projeto Angu das Artes é utilizar a gastronomia sustentável como forma de transformação na vida das pessoas. A chef aprendeu receitas que utilizam o alimento integralmente se inspirando em sua mãe, pois em sua infância passaram fome. Para Angélica Nobre, falta conhecimento na população sobre aproveitar integralmente, além de um olhar atento aos alimentos para valorizar o valor nutricional de um produto e não apenas sua estética. “Ficar de olho na validade dos produtos. Fazer a quantidade de alimento que vai consumir, comprar os produtos priorizando o valor nutricional e não apenas a estética”.

Angélica nobre, chef sustentável. Foto: Instagram

Uma fruta, por exemplo, que tenha danos em sua aparência, pode acabar não sendo escolhida pelo consumidor, mesmo estando boas para consumo. A nutricionista Mariana Gomes orienta que a escolha de frutas deve ser feita visando a nutrição que o alimento possui e não apenas a sua aparência externa. “Vale lembrar que, nem sempre os alimentos que apresentam danos externos estão estragados. Quando uma fruta considerada “feia” é jogada fora, se transforma em um desperdício”.

Reutilização de partes dos alimentos como estratégia

Em seu instagram, com 31 mil seguidores, a nutricionista Amanda Ornelas usa o seu alcance para promover conscientização a respeito de uma nutrição sustentável. “Uma nutrição sustentável vai além da simples escolha de alimentos saudáveis. Envolve considerar o impacto ambiental de cada escolha alimentar, desde a produção até o descarte de resíduos. Isso inclui evitar o desperdício, optar por alimentos orgânicos quando possível, apoiar agricultores locais, utilizar ingredientes de forma integral e etc”.

E como promover mudança no desperdício de alimentos?

A nutricionista Amanda Ornelas indica que as pessoas organizem suas refeições e tenham um consumo consciente, evitando desperdícios. “Planejar as refeições com antecedência, comprar apenas o necessário, armazenar corretamente os alimentos na geladeira e reutilizar sobras em novas preparações”.

 
Postagem feita pela nutricionista Ornelas conscientizando sobre desperdícios. Foto: instagram

Muitos alimentos são desperdiçados rotineiramente pela população por falta de orientação sobre reaproveitamento e como usar certas partes dos alimentos em receitas. A população não costuma saber o que fazer com as cascas dos alimentos em casa, por exemplo, que acabam indo para o lixo. “Existem inúmeras receitas criativas que fazem uso integral dos alimentos como sopas, farofas, sucos e até mesmo chips de casca de batata por exemplo”, Pontua Ornelas.

Assim como Amanda Ornelas, a nutricionista Mariana Gomes, reitera a ideia de reaproveitar ao máximo o alimento em sua completude, para assim evitar o desperdício. “Hortaliças murchas podem complementar molhos e omeletes, uma banana passada estará no ponto ideal de um bolo de banana ou um delicioso sorvete, pães “dormidos” de um dia para o outro, podem virar torradas ou rabanadas”, diz Gomes.

Poluição luminosa traz riscos ao meio ambiente e à saúde

Poluição luminosa traz riscos ao meio ambiente e à saúde

A iluminação excessiva pode atrapalhar migração, alimentação e reprodução de animais, além de prejudicar ciclo do sono humano

Por: Beatriz Araujo

 

O céu menos estrelado nas noites das grandes metrópoles tem relação direta com a disseminação da luminosidade intensa que se espalha pela cidade, em forma de iluminação pública e de edifícios, outdoors digitais, avenidas e até monumentos. Apesar de permitir uma visibilidade maior para as pessoas, a emissão excessiva dessas luzes artificiais provoca poluição luminosa, cujos impactos ultrapassam o âmbito da astronomia. A saúde humana e os ecossistemas, segundo especialistas, também sofrem com esse impacto.

Uma pesquisa publicada na revista Science em janeiro de 2023 analisou, com a ajuda de cientistas cidadãos, dados de 2011 a 2022, e descobriu que o brilho do céu aumentou cerca de 9,6% ao ano durante esse período. Esse rápido aumento da iluminação artificial pelo mundo dificulta a visibilidade do céu noturno e interfere na observação do cosmos, ferramenta importante para o desenvolvimento de conhecimentos como a climatologia e a oceanografia.

                                                                    Foto: (Reprodução/Freepik)

Já nos ecossistemas, o professor Jorge Antônio Lourenço Pontes, do Departamento de Ciências da Faculdade de Formação de Professores (FFP) da UERJj, explica que a grande maioria dos danos da poluição luminosa está relacionado à flora e à fauna. “Quando se ilumina muito uma área você pode alterar ciclos biológicos de uma série de animais que são regulados pela luminosidade”, diz.

A iluminação excessiva pode atrapalhar hábitos como a migração, alimentação e reprodução, principalmente de animais noturnos. Ao atravessar regiões muito iluminadas,  aves podem se desorientar e colidir com obstáculos como prédios e montanhas. Além disso, a presença de luz intensa pode confundir filhotes de tartarugas marinhas, levando-as a desovar em áreas inadequadas. 

O professor também ressalta que na flora, a presença de luz artificial afasta polinizadores noturnos, e perturba os ciclos fisiológicos das plantas. Muitas espécies de plantas dependem da luminosidade para regular seus ciclos de floração e para atrair polinizadores, incluindo abelhas durante o dia e mariposas e morcegos durante a noite. Essa poluição luminosa pode afastar esses polinizadores essenciais, reduzindo a qualidade do habitat, desequilibrando os ecossistemas e impactando negativamente a biodiversidade local. 

Jorge Antônio destaca que mesmo áreas de reserva ambiental não estão fora de risco. “No Rio de Janeiro, temos muitos casos de iluminações de costões de morros como Urca e Pão de Açúcar sem autorização. As equipes chegam no local, fazem as projeções e até a fiscalização ambiental ser acionada os danos ao ecossistema da área já foram feitos”, explica o professor.

Em 2020, a empresa de streaming Disney+ utilizou dezenas de refletores para projetar imagens na encosta do Pão de Açúcar no Rio de Janeiro como forma de propaganda. Esse tipo de ação pode ser responsável por danos irreversíveis à fauna e flora da região. Por conta disso, já há iniciativas de regular essas ações de forma a mitigar os efeitos sobre a natureza.

O projeto de Lei 1400/21, apresentado pelo deputado federal Carlos Henrique Gaguim na Câmara dos Deputados em abril de 2021, busca tornar a poluição luminosa crime ambiental tendo como base os impactos do uso da iluminação artificial em desacordo com os padrões estabelecidos. A proposta sugere estabelecer uma definição clara e precisa do que constitui a poluição luminosa, além de ampliar a definição de poluição passível de sanção penal. Também propõe classificar a poluição luminosa em níveis que possam afetar diretamente a saúde e a segurança da população como delito.

A poluição luminosa também é um problema de saúde pública

A sobrecarga visual a que são expostos provoca principalmente alterações no sono das pessoas. De acordo com o professor Lucas Neves da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ, a má qualidade do sono pode causar diversos impactos neurocognitivos como o cansaço, a sonolência, falta de concentração, dificuldades na memória, irritabilidade e até quadros mais sérios como a ansiedade e a depressão. 

O professor destaca que o ciclo circadiano – período de 24 horas sobre o qual se baseia o ciclo biológico dos seres vivos, regulando o organismo entre o dia e a noite – também é afetado, o que pode resultar em diversas doenças, incluindo ganho de peso, diabetes e outras condições clínicas. “A falta da qualidade do sono, traz alterações hormonais. Há evidências de que o impacto no ciclo circadiano e a dificuldade de dormir em horários certos provoca ganho de peso, favorece a diabetes e doenças clínicas.”

              Ilustração do funcionamento do ciclo circadiano Foto: (Reprodução / Pet Química UFC)

Neves também explica que, mesmo pessoas cegas, podem sofrer os efeitos da exposição excessiva à luz artificial. Isso acontece devido ao fotorreceptor na retina que detecta luminosidade, a célula ganglionar retiniana fotossensível. Essa célula não está envolvida diretamente na formação de imagens visuais, como os bastonetes e cones, mas desempenha papel fundamental na regulação do ritmo circadiano e na resposta pupilar à luz. 

Entre possíveis medidas para reduzir o impacto da poluição luminosa na saúde está a troca da iluminação interna. A substituição de lâmpadas de luz fria para as de luz quente nos quartos é uma das recomendações feitas por Lucas Neves. “Quando a luminosidade bate na retina, ela tem a função de diminuir a melatonina, que é um hormônio natural que produzimos para o sono. Então se você colocar uma luz mais amarelada, que não seja tão clara, ela não vai inibir tanto a melatonina.”

Alguns telefones celulares e outros dispositivos eletrônicos apresentam a configuração “Night Shift”, uma alteração no brilho de tela no período noturno para um tom amarelado que reduz a emissão de luz azul pelo aparelho, que pode suprimir a produção de melatonina.

A Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC, na sigla em inglês) já considerou o trabalho noturno como um “provável cancerígeno humano” e em 2016, um estudo feito pela Faculdade de Medicina da Universiti Teknologi MARA (UiTM) na Malásia, associou a exposição à luz artificial ao aumento do risco de câncer em áreas do corpo como a mama. 

A solução está em uma iluminação inteligente

Quando utilizada de maneira correta, a iluminação pública não é um problema de poluição luminosa. O uso de uma iluminação direcionada, orientando a luz para baixo ao invés de dispersá-la para cima, pode promover uma redução significativa do brilho excessivo no céu noturno. Além disso, o uso de tecnologias modernas, como LEDs e sistemas de controle de iluminação, permite ajustar a luminosidade de acordo com as necessidades específicas de cada área e horário, reduzindo também o desperdício de energia.

                                         Exemplo de iluminação direcionada Foto: (Reprodução/Dark Sky)

A consciência pública sobre o impacto da poluição luminosa também é fundamental na busca por amenizar seus impactos. O projeto Globe at Night desenvolvido pelo Laboratório Nacional de Pesquisa em Astronomia Óptica-Infravermelha (NOIRLab) da NSF (Fundação Nacional da Ciência, em português), nos Estados Unidos, permite que cidadãos-cientistas do mundo todo submetam suas observações do céu noturno através de um computador ou smartphone. No site do projeto, são disponibilizadas informações sobre diversas constelações e a opção de reportar, preenchendo um formulário, caso ela esteja visível no céu da região em que o voluntário se encontra.

Os dados coletados pelos são compilados e analisados por pesquisadores para avaliar a extensão da poluição luminosa em diferentes áreas do globo e como ela está mudando ao longo do tempo. Além de promover o engajamento das pessoas com o tema, a plataforma do projeto também fornece recursos educacionais e materiais de instrução para escolas, grupos comunitários e organizações interessadas em aprender mais sobre poluição luminosa e como combatê-la.

 

Os prejuízos da inteligência artificial no meio ambiente

Os prejuízos da inteligência artificial no meio ambiente

 Pegada de carbono associada aos sistemas de inteligência artificial têm o potencial de intensificar a crise climática.

Por: Beatriz Araujo

A inteligência artificial (IA) tem se destacado nos últimos anos como setor em pleno desenvolvimento, sendo utilizada em áreas como saúde, educação e até mesmo em tarefas do cotidiano. No entanto, o uso intensivo dessa tecnologia tem gerado preocupações. Um artigo publicado pela revista Nature Climate Change, em junho de 2022, revelou que a quantidade de energia elétrica necessária para o desenvolvimento de modelos IA é responsável por um aumento nas emissões de carbono do setor tecnológico, o que contribui para o aquecimento global. 

Foto: (Reprodução/Freepik)

Para que aprendam a realizar suas tarefas, os modelos IA precisam passar por um treinamento, que consiste no processamento de grandes quantidades de dados. Algoritmos como o do ChatGPT, desenvolvido pela OpenAI, são abastecidos com bancos de dados de textos da internet, para que analisem e saibam identificar e compreender a linguagem utilizada pelas pessoas. 

Data centers das big techs são responsáveis por até 4% das emissões de CO2

Nas big techs, como a Microsoft e a Alphabet (Google), o processamento de dados acontece em data centers, instalações físicas responsáveis por hospedar servidores, dados e os equipamentos necessários para o funcionamento de serviços da área de TI. Dados da Agência Internacional de Energia (AIE) indicam que os data centers consomem cerca de 200 terawatts-hora (TWh) de eletricidade. Isso equivale a aproximadamente 1% da demanda global de eletricidade. Com todo esse consumo energético, algumas estimativas indicam que a infraestrutura conjunta dessas centrais de computadores e das redes de transferência de dados é responsável por 2% a 4% das emissões globais de CO2 em todo o mundo, número próximo ao setor de aviação comercial. 

De acordo com o Conselho Mundial de Eletrônica, 45% das emissões de gases de efeito estufa da indústria de tecnologia provêm do gasto intensivo de energia dos data centers.

Distribuições das emissões de gases do efeito estufa no setor de tecnologia.
Fonte: Global Electronics Council, 2021

A expectativa é de que essas emissões aumentem nos próximos anos. Isso porque a demanda por IA e pelo treinamento de algoritmos tem crescido exponencialmente, principalmente com o sucesso e popularização de ferramentas como o ChatGPT e Dall-E.

Rizzieri Pedruzzi, professor adjunto do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental (DESMA) da UERJ, explica que o uso de GPUs, placas gráficas com poder de processamento maior, apesar de promover mais rapidez e eficiência na fase de treinamento dos sistemas IA, demandam um consumo de energia muito maior do que outros processadores. O professor destaca também o custo energético relacionado à operação contínua de supercomputadores em grandes corporações. “Geralmente, esses computadores, uma vez ligados, não desligam, e quando começam a fazer o treinamento de redes de inteligência artificial, o consumo de energia aumenta ainda mais”.

Um estudo feito pela Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, revelou que o treinamento de um modelo IA comum de grande porte pode emitir até 284 toneladas de CO2, o equivalente ao dobro de emissões de um carro durante toda sua vida útil, incluindo o processo de fabricação. Em modelos mais complexos, que trabalham com a aprendizagem profunda (deep learning), como algoritmos que fazem a curadoria de conteúdo em redes sociais, o poder de processamento necessário é maior e o consumo de energia também. Ou seja, conforme os modelos evoluem e são aperfeiçoados para atingirem maior precisão, a pegada de carbono tende a crescer. 

A fase de treinamento, porém, é só o começo. De acordo com Anne Mollen, pesquisadora da ONG alemã AlgorithmWatch, 90% das despesas com a execução de inteligência artificial ocorrem na fase seguinte, quando os usuários consultam o sistema, o que pode acontecer milhões de vezes por dia. Uma simples pergunta ao ChatGPT, pode gerar um gasto energético 10 vezes maior do que o necessário na fase de treino, o que significa 500 toneladas de CO2, uma emissão comparável a dirigir um carro a gasolina por 1 milhão de quilômetros de distância.

Como reduzir as emissões de carbono?

Uma das principais preocupações sobre o assunto é que a maior parte da energia consumida pela IA é proveniente de fontes não renováveis. “A mudança da matriz energética é essencial para diminuir as emissões de carbono”, enfatiza o professor Rizzieri Pedruzzi. “Se a matriz energética for mais limpa, de energia renovável, temos uma pegada de carbono menor. Em uma região que queima combustível fóssil para gerar energia teremos uma pegada de carbono maior, emitindo mais gás carbônico na atmosfera”.

Ainda que as empresas mudem a matriz energética e utilizem fontes renováveis, Pedruzzi ressalta que, em algumas atividades, a emissão de carbono é inevitável. Como na cadeia de suprimentos, associadas à extração, produção e transporte de matérias-primas que compõem equipamentos presentes nos centros de desenvolvimento de redes de inteligência artificial. Ele explica que, as emissões de gases poluentes relacionados à exploração de recursos, e a cadeia de produção de uma placa gráfica, como as GPUs utilizadas no treinamento de inteligência artificial, é consideravelmente maior do que as oriundas do consumo de energia. 

A partir disso, a alternativa seria a compensação. Muitas empresas e gestões governamentais vêm adotando a política net zero. De forma geral, significa que todo lançamento de gases poluentes na atmosfera deve ser compensado pela redução de uma quantidade equivalente de CO2. Entre algumas estratégias adotadas estão a captura de dióxido de carbono emitido por instalações industriais e sua posterior armazenagem em locais específicos para evitar a liberação na atmosfera, o  reflorestamento e a regulamentação e políticas públicas que incentivam práticas sustentáveis e penalizam emissões excessivas.  Grandes empresas de tecnologia, como a Apple, Amazon, Google e Meta já anunciaram planos para se tornarem neutras em carbono em suas operações até 2030. 

Para tornar a IA mais ecológica, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Stanford, Facebook AI Research e MCGill University desenvolveu um rastreador, que mede quanta eletricidade um projeto de aprendizado de máquina usará e quanto isso significa em emissões de carbono. Os pesquisadores implementaram no rastreador uma ferramenta que gera um site para comparar a eficiência energética de diferentes modelos. Assim, os desenvolvedores de IA podem medir o consumo e emissão de seus experimentos e escolher a opção mais eficiente e de menor impacto ambiental. O rastreador foi usado em 2020 no workshop SustaiNLP na conferência sobre Métodos Empíricos em Processamento de Linguagem Natural e está disponível online para pesquisadores.