Como a ciência ajudou a recuperar o acervo do Museu Nacional
Das paredes do palácio às obras de arte, técnicas como uso de solventes e adesivos foram usadas para restaurar obras e recuperar ambientes atingidos pelo fogo em 2018
Por: Júlia Martins

A ciência e a tecnologia foram as principais aliadas para a recuperação da memória do Museu Nacional da UFRJ, depois de quemais de 85% do acervo original da instituição se perdeu no incêndio de 2018. Conhecido por sua importância para a ciência brasileira, o museu resiste e passa por um longo processo de restauração desde o incêndio em 2 de setembro de 2018. O edifício ainda está em reconstrução e tenta voltar à normalidade com exposições temporárias.
No trabalho de restauração, produtos químicos e técnicas como a fotogrametria 3D fazem parte do dia a dia de quem participa dessa evolução. O processo de restauração é longo e ainda está em andamento. Ronaldo Fernandes, diretor do Museu Nacional/ UFRJ, empossado em abril deste ano, contou um pouco sobre como foi localizar as peças depois do incêndio: “Logo após o incêndio, a professora Cláudia Carvalho, atual coordenadora do Programa de Pós-graduação em Arqueologia, montou uma equipe para coordenar os esforços de localizar as peças. Foi criado o Núcleo de Resgate de Acervos. Além dos arqueólogos, cada sala foi examinada pelas pessoas que ali trabalhavam e, portanto, com familiaridade para encontrar os objetos. Assim como qualquer sítio arqueológico, os artefatos foram fotografados e registrados.”
Além disso, todas as salas de exposição do museu foram examinadas por quem já trabalhava nelas, o que facilitou o reconhecimento das peças, com todas sendo fotografadas e registradas. O diretor também explica que o museu não tem o número exato de peças recuperadas, mas que algumas estão presentes na mostra “Bastidores da Ciência”, especialmente na galeria que apresenta o trabalho do Laboratório Central de Conservação e Restauração. A mostra foi aberta em 21 de junho e fica em cartaz até 30 de agosto.
No Laboratório Central de Conservação e Restauração do Museu Nacional (LCCR/MN), a rotina é intensa. Com um fluxograma de atividades detalhado, as tarefas estão divididas em registro fotográfico de entrada da peça, diagnóstico e mapeamento dos danos, análises físico-químicas e imagéticas, definição e aplicação da metodologia de tratamento. Tudo isso faz parte do trabalho da equipe para restaurar as peças. Atualmente, o laboratório está trabalhando com o setor de arqueologia do museu nas peças resgatadas da Coleção Teresa Cristina, que possui peças greco-romanas de outras coleções, como a Coleção de Arqueologia Brasileira. Nesse mês de julho, o laboratório deve começar a trabalhar com peças do setor de etnologia e etnografia, com o foco em peças que estão previstas para compôr exposições futuras.
A rotina de trabalho envolve diversos processos científicos, como explicou a chefe do LCCR, Ana Luiza do Amaral. Cada peça é um caso diferente, e o uso de técnicas e ferramentas varia de acordo com o estado de conservação e composição do material: “Utilizamos uma gama de ferramentas e produtos químicos, principalmente adesivos e solventes, considerando critérios definidos pelo próprio campo da restauração como compatibilidade e reversibilidade dos materiais utilizados.[…] Sempre buscamos adotar práticas sustentáveis e baixa toxicidade para o uso e descarte dos materiais e químicos.” Os solventes atuam na retirada cuidadosa de sujeira e verniz antigo, enquanto os adesivos são usados para colar camadas de tinta que estão saindo ou reconstruir uma estrutura de cerâmica ou madeira. Os profissionais precisam buscar a estabilização do material da peça, sempre pensando e tomando cuidado com o grau de fragilidade e mudanças no artefato após o incêndio.
A tecnologia também está presente neste trabalho. O Laboratório de Processamento de Imagem Digital do Museu Nacional (LAPID) é pioneiro no Brasil na aplicação de tecnologias e imagens 3D. Pela fotogrametria 3D, o laboratório tem trabalhado na reconstituição do museu pela digitalização de artefatos e áreas do palácio. Basicamente, essa técnica é usada para transformar imagens bidimensionais em informações tridimensionais, produzindo imagens 3D de cada local. Sérgio Alex Kugland, coordenador do LAPID, explica como essa técnica é utilizada: “Os arquivos digitais tridimensionais produzidos a partir de exemplares do acervo do Museu Nacional são obtidos através de diferentes técnicas, entre elas a tomografia, o scanner de superfície e a fotogrametria (técnicas de aquisição). Posteriormente esses arquivos são editados através de modelagem 3D, utilizando diversos programas de modelagem tridimensional e, de acordo com a finalidade, prototipados, impressos a partir de impressoras 3D, em filamento ou resina.”
O acervo original do museu continha mais de 20 milhões de peças, divididas em áreas do conhecimento como antropologia, arqueologia, etnologia, geologia, paleontologia e zoologia. Organizadas em mais de 8 seções diferentes, as coleções continham desde artefatos greco-romanos até Luzia, o esqueleto mais antigo da América Latina. Com as chamas, itens icônicos como fósseis do dinossauro Maxakalisaurus topai e o trono do rei africano Adandozan foram perdidos. Ronaldo destaca a importância da resiliência das equipes do museu nesse momento e a necessidade de fortalecer instituições como essa: “Com o incêndio e, consequentemente, a perda do Palácio de São Cristóvão, cerca de 85% do acervo, todas as exposições, inúmeros gabinetes e laboratórios foram destruídos. Nesse ponto, o Museu estava fragilizado, e algumas pessoas ventilavam a possibilidade de ele ser fechado. Mostramos a capacidade de trabalhar na maior das adversidades. Em um país em que ciência, educação e cultura sistematicamente recebem recursos limitados, essa resistência é um símbolo da capacidade não só do Museu Nacional, mas de toda a comunidade científica brasileira.”







