Liga de micologia da Uerj aproxima população do universo dos fungos
Grupo de estudantes desenvolve pesquisas e ações educativas sobre organismos fundamentais na natureza
Por: Maria Eduarda Galdino

A Liga Estudantil de Micologia da Uerj (Lemics) é uma entidade criada a por estudantes de biologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro para pesquisar sobre seres fundamentais na natureza: os fungos. Pois é, micologia é o estudo dos fungos, organismos que desempenham a função de produtores de alimentos e decompositores de outros seres. O trabalho dos estudantes da Liga consiste em transformar esse conhecimento sobre os fungos em algo mais acessível para a população.
A iniciativa surgiu durante o X Congresso Brasileiro de Micologia, em 2024, e desde então reúne alunos interessados no estudo dos fungos. Segundo a professora e supervisora da liga, Paula Helena Kubitschek Barreira, a percepção negativa sobre os fungos ainda é comum. “A principal proposta da liga é desmistificar essa visão e mostrar como esses organismos estão presentes e são úteis no nosso dia a dia”, afirma.
Os fungos estão presentes em áreas que estão diretamente ligadas aos seres humanos, como por exemplo na indústria de cosméticos. Recentemente o cogumelo Boletus Edulis foi usado em uma nova fragrância, que concilia notas de cogumelo com elementos doces e frutados.
A indústria farmacêutica também conta com a participação dos fungos. Eles são usados para a produção de antibióticos e outros remédios como a lovastatina, usada para tratar hipercolesterolemia, condição ocasionada pelo aumento do nível de colesterol. A professora Paula Barreira cita outros usos dos fungos no dia a dia: “Tem o suco de de uva que você bebe, é clarinho e transparente por causa de enzimas de fungo. O shoyu que você usa na sua comida, ele é fermentado por fungo”.
Existem diversos tipos de fungos, e três deles são mais conhecidos: leveduras, que são organismos utilizados na fermentação de alimentos e bebidas. Os bolores, que crescem superfícies úmidas e decompõem matéria orgânica e os cogumelos e orelhas-de-pau, que possuem estruturas mais visíveis aos olhos humanos, alguns são comestíveis, outros patológicos, mortais e medicinais também.
Além da pesquisa, o Lemics investe em ações de extensão para aproximar o tema da população. Entre elas está a participação em colônias de férias realizadas em parques municipais e estaduais do Rio de Janeiro, em parceria com iniciativas da prefeitura. Nessas atividades, os estudantes de biologia apresentam exemplares de fungos e utilizam microscópios para demonstrar estruturas invisíveis a olho nu. A estudante Bárbara Correia participa ativamente da colônia de férias e relata que o conhecimento é transmitido através do diálogo com as pessoas. “A gente vai aos poucos conversando, quebrando isso que eles eles imaginam dos fungos, eles também são antibióticos, eles também são nossa alimentação, o pãozinho você come todo dia, leva o fungo”, disse.
O Lemics também produz um trabalho de conexão com o público através das redes sociais digitais, como o Instagram (@lemics.uerj). A estratégia dos posts consiste em utilizar uma discussão em alta nas redes e encaixar a narrativa dos fungos. Por exemplo, um post explicativo sobre os chamados “fungos zumbis” presentes na trama de The Last of Us, jogo conhecido internacionalmente pela história do desenvolvimento de um fungo que transforma os humanos em zumbis, causando uma pandemia fúngica. O fungo citado no jogo é real, pertence ao gênero Cordyceps, mas afeta somente insetos e controla os corpos.
Pesquisas em andamento
A Liga trabalha com projetos de cultivo de cogumelos através de substratos sustentáveis. O substrato representa o material sobre o qual o organismo cresce ou se fixa, e é fundamental no processo de manutenção da vida dos cogumelos. Com isso, alguns alunos trabalharam em conjunto com a Amoqui, uma empresa de cultivo de cogumelos, visando uma pesquisa cooperativa sob demanda mais sustentável com material abundante. A professora Paula Barreira pensou nas folhas de morango, um elemento rico em fibras que é ideal para o cultivo de cogumelos. “Aquilo que iria para o lixo, você usa para ajudar os próprios produtores também a melhorarem a produção”, explicou.
Além disso, o grupo opera com identificação de fungos da Mata Atlântica. A professora Paula Barreira afirmou que até os dias de hoje não existe uma identificação dos fungos presentes nas regiões de Mata Atlântica no Rio de Janeiro. O projeto atualmente está em andamento e conta com a colaboração do professor de fotografia ambiental da Uerj Antônio Carlos de Freitas. O Lemics colabora com a explicação da morfologia dos fungos, a orientação na captura de detalhes específicos dos cogumelos e também os alunos vão a campo para aprenderem a fazer a fotografia e coletar algumas amostras.
O objetivo final é produzir um guia de identificação com fotografias e textos sobre os fungos coletados na Mata Atlântica, com o reconhecimento molecular para a diferenciação de cada organismo e suas particularidades. O trabalho contribui diretamente para uma conexão mais profunda com o público geral, o resultado do projeto pode ajudar no percurso de micro trilhas, também realizadas pelo Lemics













