Liga de micologia da Uerj aproxima população do universo dos fungos

Liga de micologia da Uerj aproxima população do universo dos fungos

Grupo de estudantes desenvolve pesquisas e ações educativas sobre organismos fundamentais na natureza

Por: Maria Eduarda Galdino

Liga Estudantil de Micologia presente no evento sobre coleções micológicas. Foto: acervo pessoal Lemics

 

A Liga Estudantil de Micologia da Uerj (Lemics) é uma entidade criada a por estudantes de biologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro para pesquisar sobre seres fundamentais na natureza: os fungos. Pois é, micologia é o estudo dos fungos, organismos que desempenham a função de produtores de alimentos e decompositores de outros seres. O trabalho dos estudantes da Liga consiste em transformar esse conhecimento sobre os fungos em algo mais acessível para a população.

A iniciativa surgiu durante o X Congresso Brasileiro de Micologia, em 2024, e desde então reúne alunos interessados no estudo dos fungos. Segundo a professora e supervisora da liga, Paula Helena Kubitschek Barreira, a percepção negativa sobre os fungos ainda é comum. “A principal proposta da liga é desmistificar essa visão e mostrar como esses organismos estão presentes e são úteis no nosso dia a dia”, afirma.

 

Os fungos estão presentes em áreas que estão diretamente ligadas aos seres humanos, como por exemplo na indústria de cosméticos. Recentemente o cogumelo Boletus Edulis foi usado em uma nova fragrância, que concilia notas de cogumelo com elementos doces e frutados.

 

A indústria farmacêutica também conta com a participação dos fungos. Eles são usados para a produção de antibióticos e outros remédios como a lovastatina, usada para tratar hipercolesterolemia, condição ocasionada pelo aumento do nível de colesterol. A professora Paula Barreira cita outros usos dos fungos no dia a dia: “Tem o suco de de uva que você bebe,  é clarinho e transparente por causa de enzimas de fungo. O shoyu que você usa na sua comida, ele é fermentado por fungo”.

 

Existem diversos tipos de fungos, e três deles são mais conhecidos: leveduras, que são organismos utilizados na fermentação de alimentos e bebidas. Os bolores, que crescem superfícies úmidas e decompõem matéria orgânica e os cogumelos e orelhas-de-pau, que possuem estruturas mais visíveis aos olhos humanos, alguns são comestíveis, outros patológicos, mortais e medicinais também. 

 

Além da pesquisa, o Lemics investe em ações de extensão para aproximar o tema da população. Entre elas está a participação em colônias de férias realizadas em parques municipais e estaduais do Rio de Janeiro, em parceria com iniciativas da prefeitura. Nessas atividades, os estudantes de biologia apresentam exemplares de fungos e utilizam microscópios para demonstrar estruturas invisíveis a olho nu. A estudante Bárbara Correia participa ativamente da colônia de férias e relata que o conhecimento é transmitido através do diálogo com as pessoas.  “A gente vai aos poucos conversando, quebrando isso que eles eles imaginam dos fungos, eles também são antibióticos, eles também são nossa alimentação, o pãozinho você come todo dia, leva o fungo”, disse. 

 

O Lemics também produz um trabalho de conexão com o público através das redes sociais digitais, como o Instagram (@lemics.uerj). A estratégia dos posts consiste em utilizar uma discussão em alta nas redes e encaixar a narrativa dos fungos. Por exemplo, um post explicativo sobre os chamados “fungos zumbis” presentes na trama de The Last of Us, jogo conhecido internacionalmente pela história do desenvolvimento de um fungo que transforma os humanos em zumbis, causando uma pandemia fúngica. O fungo citado no jogo é real, pertence ao gênero Cordyceps, mas afeta somente insetos e controla os corpos. 






Pesquisas em andamento

A Liga trabalha com projetos de cultivo de cogumelos através de substratos sustentáveis. O substrato representa o material sobre o qual o organismo cresce ou se fixa, e é fundamental no processo de manutenção da vida dos cogumelos. Com isso, alguns alunos trabalharam em conjunto com a Amoqui, uma empresa de cultivo de cogumelos, visando uma pesquisa cooperativa sob demanda  mais sustentável com material abundante. A professora Paula Barreira pensou nas folhas de morango, um elemento rico em fibras que é ideal para o cultivo de cogumelos. “Aquilo que iria para o lixo, você usa para ajudar os próprios produtores também a melhorarem a produção”, explicou.

 

Além disso, o grupo opera com identificação de fungos da Mata Atlântica. A professora Paula Barreira afirmou que até os dias de hoje não existe uma identificação dos fungos presentes nas regiões de Mata Atlântica no Rio de Janeiro. O projeto atualmente está em andamento e conta com a colaboração do professor de fotografia ambiental da Uerj Antônio Carlos de Freitas. O Lemics colabora com a explicação da morfologia dos fungos, a orientação na captura de detalhes específicos dos cogumelos e também os alunos vão a campo para aprenderem a fazer a fotografia e coletar algumas amostras. 

 

O objetivo final é produzir um guia de identificação com fotografias e textos sobre os fungos coletados na Mata Atlântica, com o reconhecimento molecular para a diferenciação de cada organismo e suas particularidades. O trabalho contribui diretamente para uma conexão mais profunda com o público geral, o resultado do projeto pode ajudar no percurso de micro trilhas, também realizadas pelo Lemics

 

         Alunos da Liga Estudantil de Micologia atrás de uma mesa de exposição fúngica. Foto: acervo pessoal Lemics

Pele de tilápia acelera reabilitação de animais silvestres

Pele de tilápia acelera reabilitação de animais silvestres

Sustentabilidade e potencial científico caminham juntos no tratamento de pessoas e animais com o uso dos biocurativos

Por: Sofia Lang

                                     Tilápia sendo segurada por pescador. Foto: Mahmudul Hasan/ Pexels

 

O aumento na frequência de desastres naturais causados pela mudança climática, somado ao crescimento urbano acelerado, elevou o número de resgates de animais silvestres no Brasil. E a pele de tilápia tem se mostrado um curativo biológico eficaz para queimaduras e lacerações. Por ser uma solução barata, simples e rápida, o método oferece maior conforto aos animais vítimas dessas tragédias.                                                           

O estudo que propôs a pele de tilápia como biocurativo teve origem em Pernambuco, em 2011, e foi idealizado pelo cirurgião plástico Marcelo Borges. Devido à escassez de investimentos e infraestrutura, a pesquisa avançou apenas em 2014, sob o auxílio do médico Edmar Maciel, do Instituto Dr. José Frota (IJF), no Ceará. Com o aporte financeiro da empresa Enel, Maciel integrou ao projeto o professor Odorico de Moraes, da Universidade Federal do Ceará, para a realização de estudos pré-clínicos no Núcleo de Pesquisas e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM). A pele de tilápia foi o primeiro curativo biológico de origem animal a receber aprovação da ANVISA no Brasil, em 2025.

Rica em ômega-3, a pele de tilápia contém substâncias que auxiliam no combate a bactérias e na redução de inflamações, favorecendo a recuperação dos tecidos.Também é rica em colágeno dos tipos I e III, o que lhe confere alta resistência, flexibilidade e maior capacidade de aderência à lesão. Tais fatores estimulam o crescimento celular, acelerando a regeneração da pele machucada. Assim, o tratamento com a pele de tilápia é capaz de prevenir infecções e diminuir o risco de complicações graves.  

A presença de feridas na pele torna o indivíduo mais vulnerável ao ambiente externo, já que ela é o maior órgão do corpo humano e desempenha funções essenciais como a proteção contra agentes externos e microrganismos. A pele de tilápia atua na termorregulação, na percepção sensorial e na síntese de vitamina D. Por essa razão, o investimento em tecnologias  eficazes que protegem a ferida é extremamente importante na recuperação de animais para voltarem a seus habitats naturais sem muitas sequelas. 

Outro ponto que destaca a pele de tilápia como um biocurativo ideal é sua sustentabilidade. No Brasil, a tilápia — presente em todo território nacional — é um peixe exótico e foi declarada em novembro de 2025 como uma espécie invasora. Não é  nativa do país e prolifera sem controle, pois não há predadores naturais para a espécie. Ainda assim, é cultivado de forma ampla no Brasil, que se transformou num dos maiores produtores mundiais de tilápia. Apesar disso, a pele do animal ainda é pouco aproveitada. Vista apenas como um subproduto, essa parte do peixe é frequentemente descartada, sendo que apenas 1% é destinada ao artesanato.

A tilápia é o peixe mais produzido no Brasil, correspondendo a mais de 67% da produção de pescados, segundo pesquisa divulgada pelo Ministério da Pesca e Agricultura no portal gov.br. Porém, segundo Edmar Maciel, a quantidade de peles doadas para a fabricação do biocurativo ainda é insuficiente, visto que não há o costume de doar esse tecido.

A utilização da pele desse peixe para fabricação de biocurativos já apresenta resultados positivos em humanos. Em países como Estados Unidos e China, a técnica tem demonstrado cicatrização completa de feridas crônicas em poucos meses — inclusive em casos que, anteriormente, demoravam anos para serem resolvidos. A tecnologia também tem sido aplicada em contextos militares e hospitalares, com a expectativa de acelerar significativamente a recuperação de pacientes. No Brasil, com a recente aprovação da Anvisa sobre a utilização do biocurativo, a pele de  tilápia poderá ser incluída em kits de emergência   destinados a curar queimaduras.  Em acréscimo, a Universidade Federal do Ceará abriu licitação para  empresas comercializarem o produto já utilizado em nove estados brasileiros.                                                                                                                                                     Entretanto, a utilização desse biocurativo ainda é recente na medicina veterinária. A técnica ganhou visibilidade internacional após ser utilizada em situações de emergência, como incêndios florestais na Califórnia e no Pantanal, auxiliando na recuperação de animais silvestres. Em alguns casos, como o de ursos tratados com o material, a recuperação foi tão eficaz que os animais puderam retornar à natureza em poucas semanas. 

Recentemente, em 2026, veterinários da Região Metropolitana de Porto Alegre utilizaram a pele de tilápia para ajudar na recuperação de bugios, uma espécie de macaco. Esses animais sofreram queimaduras por choque elétrico e graças à iniciativa da veterinária Thaise de Lima Almeida; estão tendo uma recuperação mais rápida e indolor. Cavalos feridos pelas enchentes no Rio Grande do Sul, ocorridas entre o final de  abril e maio de 2024, tratados por esse biocurativo também obtiveram melhora  de maneira acelerada, com diminuição da dor.                                                                   Em cães e gatos, o tratamento também é eficaz em lesões complexas como queimaduras, necroses e úlceras, embora seja aplicado como alternativa quando métodos convencionais não obtêm sucesso.                                                                   

Apesar dos avanços dessa tecnologia, ainda há desafios e a necessidade de pesquisas aprofundadas sobre sua aplicação em diferentes grupos. De acordo com artigo publicado pela Puc Minas, escrito pela veterinária Ana Maria de Oliveira Paschoal, no caso de répteis, a pele de tilápia não se mostra tão eficaz, pois os processos de cicatrização desses animais diferem dos de mamíferos e dependem diretamente da temperatura ambiente. Além disso, é fundamental controlar a umidade da ferida para evitar o ressecamento ou o excesso de hidratação, o que torna o manejo mais complexo. Já as aves possuem a pele mais fina que a dos mamíferos, o que facilita a absorção de substâncias e pode gerar efeitos indesejados no organismo.              



                                                                                                                                                           

 

Rio de Janeiro sedia seu primeiro festival de cinema indígena

Rio de Janeiro sedia seu primeiro festival de cinema indígena

Evento abordou as principais lutas indígenas, como a demarcação das terras

Por: Sofia Inerelli

Cerimônia de abertura do primeiro Festival Tendy Koatiara de Cinema Indígena – Foto: Sofia Inerelli

 

O Rio de Janeiro sediou entre os dias 22 e 26 de abril o Festival Tendy Koatiara, o primeiro festival de cinema indígena do estado. O evento contou com exibições de longas e curtas-metragens, oficinas e debates sobre as principais lutas indígenas. A realização foi da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, com a produção da Verama Produções e da Escola de Cinema Tendy Koatiara Nhembo’esaba. 

O festival trouxe para as telonas o que por anos foi invisibilizado, como a luta pelo direito à terra aos indígenas, exposta no documentário “Levante pela Terra”. O filme aborda a luta pela demarcação a partir do protesto, ocorrido em julho de 2021, contra o Projeto de Lei 490/2007 que previa mudanças no reconhecimento da demarcação das terras e no acesso a povos isolados e propunha o chamado Marco Temporal – uma regra pela qual povos indígenas só teriam direito às terras que já ocupavam ou já disputavam em 5 de outubro de 1988. Após longa mobilização dos povos indígenas, projeto e o marco temporal foi considerado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF). 

            Protesto Levante pela Terra ocorrido em Brasília no ano de 2021 – Foto: Joédson Alves (Agência Brasil) 

O embate pela terra persiste até hoje. Existem no Brasil pelo menos 160 terras indígenas cujas demarcações permanecem estagnadas na fase de estudo, algumas aguardando a aprovação há mais de 30 anos, segundo relatórios da Funai. De um lado há o interesse econômico, que busca petróleo e minerais, enquanto o outro se preocupa com os direitos dos povos indígenas, com o combate ao desmatamento e com a mitigação da crise climática. De acordo com dados do Mapbiomas, terras indígenas conservam 99% da vegetação nativa desde 1985. 

No Festival Tendy Koatiara a perspectiva indígena foi exaltada. Todas as produções precisavam ter ao menos um diretor, um roteirista ou um ator indígena. Ao final, todos tiveram pelo menos dois desses três critérios atendidos. O intuito, como apresentou Silvio de Andrade, um dos organizadores do evento, era dar visibilidade e voz aos povos originários, não apenas através de filmes etnográficos feitos por pessoas brancas.

Luisa Mamede, atriz e estudante do quinto período de história da arte na Uerj no Primeiro Festival de Cinema Indígena Tendy Koatiara – Foto: Sofia Inerelli

A busca pela representatividade no festival rompe com um apagamento de séculos do ser indígena, que como relata Luisa Mamede, estudante do quinto período de história da arte na Uerj e atriz no curta “Cócoras”, apresentado no festival, traz sofrimento, quando não se sabe sobre sua identidade. “Desde muito cedo, eu ficava me perguntando a que lugar eu  pertencia, pois a história foi apagada. A minha família foi embranquecida muitas vezes. Só mais velha eu soube que meu avó paterna era uma pessoa indígena e que minha bisavó materna, e toda a sua família, também eram indígenas. Mas isso foi se perdendo, a história foi se apagando. Então, eu não tive esse contato desde muito cedo com essa ancestralidade.”

Pesquisadores das principais universidades do Rio se unem para disputar o debate sobre segurança pública

Pesquisadores das principais universidades do Rio se unem para disputar o debate sobre segurança pública

Rede lançada em março reúne UFRJ, UFF, PUC-Rio, Fiocruz e UERJ e nasce em resposta à chacina da Operação Contenção, no Complexo do Alemão

Por: Murilo Santos

Corpos sendo levados ao IML após chacina do Complexo do Alemão, em outubro de 2025: matança originou o Fórum Segurança para Todos Foto:Tomaz Silva/Agência Brasil

 

Homicídios em alta e uma polícia que mata muito. Essas são apenas duas das características do quadro atual da segurança pública no Rio de Janeiro – e motivaram a criação de uma rede de pesquisa voltada para estudar o assunto no Rio. Criada em março deste ano, a Rede Universitária Segurança para Todos – Art. 5° reúne pesquisadores da UFRJ, UFF, PUC-Rio, Fiocruz e UERJ, esta última representada pelo Laboratório de Análise da Violência, o LAV-UERJ. Artigo 5º é uma referência ao artigo de mesmo número da Constituição brasileira referente aos direitos fundamentais, como a vida, a liberdade, a segurança e a propriedade. 

A rede pretende coletar e divulgar informações sobre as dinâmicas da violência no Rio, produzir análises críticas com base científica e fornecer insumos para a formulação de políticas de segurança compatíveis com a Constituição. O grupo aposta na transparência e no acesso à informação, comprometendo-se a produzir materiais acessíveis à população fluminense e a promover fóruns de debate com movimentos sociais e demais atores comprometidos com uma segurança pública democrática.

A iniciativa surgiu após a megaoperação ocorrida no Complexo do Alemão em outubro de 2025. O professor Ignacio Cano, pesquisador e coordenador do LAV-UERJ, conta que a rede tem como objetivo recuperar o espaço dos pesquisadores no debate sobre segurança pública para que se tenha, de fato, a ciência — e não o achismo que, na visão do professor, tomou conta do debate. “A ideia é que pesquisadores e cientistas estão se juntando para pensar como incidir na política pública e no debate sobre segurança no Rio, a partir da constatação de que a gente vem matando pessoas a rodo há décadas e nunca resolveu o problema. É preciso um enfoque diferente.”

Não por acaso, a violência policial é um dos principais eixos de estudo da rede, que nasceu justamente após a chacina no Complexo do Alemão, cometida por agentes do Estado em outubro de 2025. Dados do Ministério da Justiça publicados este ano apontam que o Rio de Janeiro é o terceiro estado com mais mortes causadas por policiais no país, atrás apenas da Bahia e de São Paulo. Para Cano, especialista no tema, o alto número resulta da disputa armada por território entre o aparato legal e as forças criminosas, fruto de como a política fluminense adotou o lema “bandido bom é bandido morto” como solução para combater o crime. Há razões históricas para isso, como a “premiação faroeste”, que recompensava policiais que matassem suspeitos, nos anos 1990. “A política do ‘bandido bom é bandido morto’ se tornou uma referência histórica no Rio. A polícia acha que segurança pública é troca de tiro; os políticos acham que mostrar a morte de pessoas é um capital político.”

O contexto fluminense é tão complexo que uma das polícias que mais mata no país é também a que mais perde agentes. Para Cano, a relação é clara, mas exige uma ressalva importante: os policiais são mortos nas folgas, não em serviço. “Há uma relação entre letalidade policial e vitimização policial, e os estados onde há maior letalidade costumam ser também aqueles onde os policiais morrem muito, como é o caso do Rio. Só que os policiais matam durante o serviço e morrem durante a folga, quando são reconhecidos como policiais e executados.”

Os homicídios no Rio de Janeiro foram na contramão da tendência nacional: em 2023, enquanto a média brasileira recuou 2,3%, o estado registrou alta de 13,6%, segundo o Atlas da Violência de 2025. Os especialistas, no entanto, atribuem parte desse aumento à redução da subnotificação, ou seja, casos que em 2022 não foram contabilizados passaram a ser registrados. Outro dado preocupante coloca o estado entre os que apresentam os maiores índices de mortes violentas por causa indeterminada, estatística que levanta dúvidas sobre a capacidade, ou a disposição, das forças de segurança de investigar e esclarecer esses óbitos.

Nesse sentido, reconstruir a confiança nas forças de segurança é um tema que a rede se propõe a debater e que é, na análise de Cano, o principal desafio do governo estadual. Segundo ele, a política de segurança não é concebida para resolver o problema, mas apenas para contê-lo nas áreas periféricas: “A reconstrução da confiança entre a polícia e a população das áreas periféricas é o maior desafio da segurança pública fluminense, e eu diria que brasileira. Uma coisa que a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) se propôs a fazer, mas não conseguiu, e que a gente não consegue até hoje, porque a política de segurança é pensada não para diminuir a violência nas áreas periféricas, mas para contê-la lá e não deixar que ela se espalhe para o resto da cidade.”

Diante desse cenário, a Rede Universitária Segurança para Todos se coloca como uma tentativa de romper com décadas de política que, nas palavras do próprio Cano, nunca resolveu o problema. O desafio é transformar pesquisa em incidência real e fazer com que o debate acadêmico alcance quem formula e quem sofre as consequências da política de segurança no Rio.

 

Nise da Silveira, pioneira da psiquiatria, ganha exposição na Biblioteca Nacional

Nise da Silveira, pioneira da psiquiatria, ganha exposição na Biblioteca Nacional

A sambista dona Ivone Lara e Alice Marques dos Santos são outras mulheres que contribuíram para humanização das práticas de saúde mental homenageadas na mostra

Por: Sofia Inerelli

          Alice Marques dos Santos (a esquerda) e Nise da Silveira (a direita) durante uma festa na Casa das Palmeiras                                                                             Foto: Fundação Biblioteca Nacional

 

A psiquiatra Nise da Silveira, pioneira na luta antimanicomial, ganha mostra na Biblioteca Nacional, no centro do Rio de Janeiro. Aberta ao público até junho, a exposição destaca a presença feminina na ciência a partir da história de uma das cientistas brasileiras mais importantes do século XX. Instalada na Seção de Manuscritos, no segundo andar da biblioteca, a exposição reúne sete itens, como fotos, documentos e cartas integrantes de acervos da própria Nise e de pessoas ligadas a ela, mas doadas à Biblioteca Nacional. Juntos, eles contam momentos da vida da médica alagoana. 

 

Nise era contra a forma agressiva do tratamento psiquiátrico comuns na década de 1940, como a internação compulsória, os eletrochoques, a insulinoterapia, intervenção psiquiátrica na qual os pacientes recebiam doses cada vez mais altas de insulina para induzir hipoglicemia (baixo nível de glicose no sangue) e coma, e a lobotomia, procedimento cirúrgico que consistia em inserir um instrumento afiado no tecido cerebral para então cortar as conexões entre os lobos frontais e o resto do cérebro. Ana Lúcia Merege, uma das curadoras da mostra, explicou como era a vida nos manicômios: “As pessoas eram basicamente torturadas, largadas para morrer, sofrendo violência de todos os tipos”. Indignada com tudo aquilo, a doutora Nise decidiu usar a arte e o afeto nas terapias psiquiátricas, e começou a tratar os pacientes com o respeito a que tinham direito.


Merege explica o impacto do trabalho de Nise na vida dos pacientes. “Ela conseguiu recuperar a humanidade dessas pessoas e depois recuperar a centelha criativa delas”. Na mostra é possível ver uma pintura feita por Fernando Diniz, um dos pacientes da doutora Nise. Sua produção está no Museu de Imagens do Inconsciente, centro de estudo criado por Nise da Silveira dedicado a preservar obras artísticas produzidas por pacientes com transtornos mentais. O acervo do museu conta com mais de 400 mil obras, entre telas, desenhos, tapetes e modelagens.

 

     

               Convite artesanal para a exposição comemorativa dos 71 anos do artista baiano Fernando Diniz Fernando Diniz.                                                                   Foto: Fundação Biblioteca Nacional                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    Mesmo com uma carreira de sucesso, a trajetória de Nise da Silveira nem sempre foi fácil. Renata Linhares, uma das desenvolvedoras da exposição, conta que, quando a jovem Nise chegou à Faculdade de Medicina da Bahia, não havia banheiro feminino no prédio, e que seu professor chegou a colocar uma cobra em suas mãos para intimidá-la. Ela era a única mulher em uma turma de 158 alunos. Nise tentou desistir três vezes, chegou até a mandar cartas aos pais, mas eles nunca responderam, o que ela entendeu como um sinal para continuar na faculdade, como apontou Linhares.                                                                                                                                                                                                                        
                      Nise da Silveira em uma foto de turma da Faculdade de Medicina da Bahia. À esquerda de Nise está o futuro psiquiatra e etnólogo Arthur Ramos, e a sétima pessoa da foto, a contar da esquerda, é o futuro médico sanitarista e marido de Nise, Mário Magalhães da Silveira. Foto: Fundação Biblioteca Nacional                                                                                                                                                                                                                                                                     A mostra também revela conexões de Nise com outras mulheres influentes na história da psiquiatria. Uma delas é a sambista Dona Ivone Lara, que atuou como enfermeira e assistente pessoal da psiquiatra e trabalhava com musicoterapia. Há também uma fotografia com Alice Marques dos Santos, a primeira mulher a dirigir um hospital psiquiátrico na América Latina.                                          
                                                                                                                                                                                                            Serviço:
Nise da Silveira: uma história de pioneirismo femininoLocal: Fundação Biblioteca Nacional – Seção de Manuscritos (2º andar)                                                                                                                                                                                                   Endereço: Avenida Rio Branco, 219 – Centro, em frente à estação MetrôRio (estação Cinelândia)                                  Período: até junho                                                                                                                                                                      Horário: segunda a sexta-feira, das 10h às 16h30                                                                                                                      Entrada: gratuita

O verão acabou, mas o risco de dengue não

O verão acabou, mas o risco de dengue não

Relatório da ONU mostra que mudança climática, com temperaturas mais altas e alterações no regime de chuvas, aumenta os casos da doenças climáticas

Por: Júlia Martins

                     Mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

O Relatório do Clima de 2025 publicado pelas Nações Unidas mostra que o aumento da temperatura global eleva o risco de dengue, o que contribui para ampliar a ocorrência de casos ao longo de todo o ano – e não só nos meses de verão. Mesmo com medidas para conter o mosquito Aedes aegypti,  transmissor da dengue, o estudo destaca que o número de casos em todo o mundo é o maior já registrado na história, com o vírus se expandindo para novos territórios. 

 

O relatório deste ano incluiu um estudo de caso sobre o impacto das mudanças climáticas na saúde humana. Um dos destaques foi a preocupação com o aumento das arboviroses, doenças virais transmitidas por mosquitos, como a dengue. Embora a doença também seja influenciada por fatores sociais, ela é sensível à temperatura e ao regime de chuvas. Por isso há mais casos durante as épocas mais quentes do ano, caracterizando a dengue como uma doença sazonal. Entretanto, o aumento das temperaturas e alterações nos padrões de chuvas favorecem um desenvolvimento mais acelerado do mosquito Aedes aegypti. Na prática, o número de picadas aumenta, e o tempo de incubação do vírus – período entre a contaminação e o surgimento dos sintomas – diminui. Com o aumento das temperaturas, as épocas mais frias do ano também se tornam favoráveis para a proliferação da doença.

 

No Rio de Janeiro, onde a dengue é endêmica, não é diferente: segundo o EpiRio, observatório epidemiológico do estado, mais de 1.400 casos da doença foram registrados em 2026 apenas na capital. A cidade do Rio de Janeiro registrou mais de 9 mil casos de dengue apenas em 2025, e o ápice foi nos primeiros três meses do ano. Em 2024, o Brasil enfrentou a maior epidemia de dengue já registrada, com mais de 6 milhões de casos prováveis.

 

De acordo com o Alerta Rio, sistema de alerta da prefeitura, o outono está sendo mais quente do que o esperado, com temperaturas acima da média e chuvas irregulares. Isso cria um cenário benéfico para o crescimento dos casos de dengue em épocas além do verão, e mostra como a doença tende a se tornar cada vez mais presente no cotidiano. 

 

Para Cleonice Santos, agente de saúde comunitária no Catiri, zona oeste do Rio, essas alterações de temperatura têm impactado o número de casos. “A gente percebe que a mistura dos fatores calor e chuva é um grande baque para os casos, e o mosquito está ficando ainda mais resistente. Quando estamos no pós calor é quando precisamos ter maior cuidado na observação e na orientação para as famílias”, afirmou. Ela também destaca o papel do saneamento básico no combate à doença: “A falta de saneamento, a vulnerabilidade social e falta de orientação torna uma pessoa mais suscetível”.

 

A crise climática atinge o mundo inteiro, o que reforça ainda mais esse perigo. O mosquito se expande para territórios em que antes não havia casos de dengue. A Organização Mundial da Saúde estima que metade da população global esteja sob o risco de contaminação, com aproximadamente 100 até 400 milhões de casos registrados por ano. Segundo o Relatório da ONU, no Brasil, o R0 – número que indica quantas pessoas podem ser infectadas em média – passou de 1,4 para 2,9 no ano passado.

 

Em 2021,  um artigo publicado pelos professores Antonio Carlos Oscar Junior, do Instituto de Geografia da UERJ (Igeog), e Francisco de Assis Mendonça, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), já investigava o desenvolvimento da doença com base nas mudanças climáticas. O estudo aponta a intensificação da dengue em épocas de tempo mais ameno, como o inverno, devido ao aumento da temperatura mínima ao longo dos anos. Além disso, eles buscam entender como a doença vai se comportar no futuro, com modelos de estudo para os períodos entre 2011 – 2040 e 2040 – 2070.

 

O artigo também destaca como a dengue está deixando de ser algo sazonal e como isso afeta estratégias de saúde pública. Visto que essas são feitas, em maioria, para o verão e o outono, é necessário elaborar medidas também para o inverno e a primavera. Além disso, as diferenças no espaço urbano, como a falta de saneamento e estrutura urbana chamam a atenção e intensificam esse cenário. Com isso, a população mais carente se torna a mais atingida. 

 

A vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan é um exemplo de medida para combater a doença. É o primeiro imunizante em dose única para a doença no mundo e será distribuído pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Por enquanto, no Rio de Janeiro, a vacina está sendo aplicada apenas em profissionais da saúde das unidades de Atenção Primária. No entanto, o Relatório da ONU e a Pesquisa de Oscar e Mendonça alertam a necessidade de discutir sobre mudanças climáticas e seus impactos na sociedade para além do óbvio, como na saúde pública, buscando amenizar as consequências como um todo. 

 

Como os museus do Rio de Janeiro estão mudando a forma de falar de ciência

Como os museus do Rio de Janeiro estão mudando a forma de falar de ciência

Exposições variadas e democratização do acesso atraem público a instituições como o Museu do Amanhã, Museu Nacional e Museu do Jardim Botânico

Por: Sofia Lang

                                  Exposição ‘Oceano’ do Museu do Amanhã . Foto: Mixel Selva/ Museu do Amanhã

 

Num país onde o acesso ao conhecimento científico é desigual, três museus do Rio de Janeiro fazem da ciência seu principal atrativo. O Museu do Amanhã, no Centro da cidade, o Museu do Jardim Botânico, na zona sul, e o Museu Nacional, na zona norte, são espaços vivos de aprendizado e conexão com o mundo natural e as culturas humanas. Ao abordar temas como ecologia, preservação ambiental e antropologia por meio de uma linguagem acessível, atividades interativas e visitas guiadas, esses museus democratizam o contato de diversos grupos sociais com o universo científico.

Tanto o Museu do Amanhã quanto o Museu do Jardim Botânico e o Museu Nacional adotam a proposta de ‘conversação científica’: tentam ir além da divulgação tradicional para demonstrar que a ciência não é um saber isolado ou superior; ao contrário, ela caminha lado a lado com a cultura, a história, a arte e as crenças. Para o cientista ambiental Fábio Scarano, curador do Museu do Amanhã, o termo ‘divulgação científica’ é equivocado, pois sugere uma via de mão única. Segundo ele: ‘Não há conhecimento de que se possa abrir mão, e esses saberes devem ser democráticos e amorosos para que um museu seja um espaço de comunicação informal rico’.

No Museu do Jardim Botânico, o diálogo busca atrair o olhar para o reino vegetal, um tema frequentemente negligenciado. A instituição tem como propósito aproximar o público das plantas, despertando um interesse genuíno por elas. ‘Nossa intenção é que as pessoas saiam daqui com mais perguntas do que respostas’, afirma Grazielle Giacomo, bióloga e coordenadora de gestão e educação do museu. Ao estimular essas dúvidas, o museu combate a ‘impercepção botânica’ — fenômeno que se refere à incapacidade humana de notar as plantas no ambiente, o que as reduz a um mero plano de fundo da paisagem.

                        Parte da exposição principal do Museu do Jardim Botânico. Foto: Sofia Lang/ Agenc

O Museu do Amanhã investe na abordagem de questões urgentes, como as mudanças climáticas, a tecnologia e o impacto humano na Terra, enfatizando que o amanhã depende integralmente das escolhas feitas no presente. Ao evidenciar a fragilidade dos ecossistemas com exposições como ‘Água, Pantanal, Fogo’ — que em 2025 contrastou a beleza do Pantanal com a devastação das queimadas —, a instituição convida o público a refletir sobre sustentabilidade, responsabilidade coletiva e o futuro do planeta.

O Museu Nacional da UFRJ, que voltou a abrir suas portas em 2025 depois do incêndio de 2018, alia pesquisa arqueológica a uma linguagem acessível para despertar no público interesse científico e reflexão sobre identidade e diversidade cultural. A exposição “Os Primeiros Brasileiros” destaca os povos originários e os vestígios mais antigos da presença humana no país. As mostras refletem a trajetória da instituição,que antes do incêndio de 2018 abrigava mais de 20 milhões de itens, entre fósseis e artefatos. Após o desastre, cerca de 5 mil lotes foram recuperados. Esses materiais pertenciam a 14 das 25 coleções do palácio e, mesmo danificados, muitos poderão ser restaurados. Assim, o acervo segue como símbolo de resistência e preservação da memória coletiva.

A imersão é um dos principais recursos nas instituições da zona sul e do Centro do Rio de Janeiro. No Museu do Amanhã, a tecnologia compõe cenários interativos que envolvem o visitante em temas complexos, como a conexão entre o ser humano e o universo — ilustrando que somos feitos da mesma matéria das estrelas e provocando reflexões sobre nossa origem e destino. No Museu do Jardim Botânico, a imersão é empregada na experiência ‘Sumaúma: Copa, Casa, Cosmos, que mostra o processo da água dentro de uma árvore. Portanto, enquanto um utiliza a imersão para ampliar o olhar sobre o futuro do planeta, o outro a utiliza para aprofundar a relação com a flora e a biodiversidade.

Outro ponto de convergência entre essas instituições é o incentivo à participação ativa do visitante. O Museu do Amanhã busca constantemente gerar reflexões sobre o papel humano na construção do futuro. No Museu do Jardim Botânico, esse engajamento torna-se concreto: o público é convidado a plantar sementes durante a exposição, contribuindo diretamente para a restauração da Mata Atlântica. Em ambos os casos, o aprendizado ultrapassa as paredes do museu e ganha continuidade na vida prática.

Iniciativas de acessibilidade e programas educativos permitem que o Museu do Amanhã inclua grupos historicamente afastados desses espaços. A instituição conta, por exemplo, com uma sala de acomodação sensorial para pessoas neurodivergentes — recurso ainda raro em centros culturais. Somam-se a isso projetos educativos com ferramentas adaptadas para pessoas com deficiência e ações voltadas a comunidades externas, incluindo pessoas em situação de rua, o que amplia significativamente seu alcance e impacto social.

O Museu do Jardim Botânico também investe na inclusão de diversos públicos. Por meio de parcerias com escolas públicas do Rio de Janeiro, a instituição fortalece a educação não formal como complemento ao ensino tradicional. Além disso, promove atividades para todas as idades, incluindo projetos sensoriais para bebês e eventos como o ´Domingo Acessível`, que oferece visitas mediadas por intérpretes de Libras, materiais táteis e sensoriais. 

Como forma de inclusão, o Museu Nacional aposta em ações educativas, editais e projetos acadêmicos que incentivam a participação de diferentes grupos, incluindo estudantes de escolas públicas e jovens pesquisadores. Ao ampliar o acesso a oportunidades acadêmicas e culturais, a instituição contribui para reduzir desigualdades e formar novos profissionais nas áreas científicas. Tais iniciativas reforçam a premissa de que o conhecimento deve ser democrático e, acima de tudo, acessível a todos.

Quanto ao acesso, o Museu Nacional investe em uma abordagem diferente: ele amplia  sua presença digital de modo a  fortalecer iniciativas que buscam democratizar o acesso ao conhecimento, promover inclusão social e difundir temas científicos de forma acessível à população. A criação de uma central digital — reunida no Linktree oficial do museu — é um dos principais exemplos desse movimento. Por meio dela, qualquer um pode acessar exposições virtuais, publicações científicas, vídeos educativos e informações institucionais. Essa estratégia amplia o alcance do museu, permitindo que estudantes, pesquisadores e o público em geral tenham contato com conteúdos antes restritos ao espaço físico.

Enquanto o Museu do Jardim Botânico adota uma política de gratuidade total e o Museu do Amanhã mantém ingressos pagos em dias regulares, com gratuidade restrita a datas comemorativas e grupos específicos — como acompanhantes de pessoas com deficiência, idosos a partir de 60 anos, crianças de até 5 anos e pessoas em situação de vulnerabilidade social. Além disso, a instituição oferece meia-entrada para estudantes da rede privada, profissionais da rede pública de ensino e moradores ou naturais da cidade do Rio de Janeiro, por exemplo.

Questionado sobre o motivo de o Museu do Amanhã não oferecer entrada gratuita em ao menos um dia da semana — política adotada até 2024 —, Scarano afirmou que há interesse em retornar com a gratuidade total, mas isso exigiria mais patrocínio e maior  investimento da prefeitura. Segundo o cientista, a retomada dessa política no momento atual exigiria uma redução no tamanho das exposições; por isso, a instituição prioriza manter uma política inclusiva para grupos específicos e em dias determinados igualmente, evitando o sacrifício da qualidade e da extensão de seu acervo.

Ao transformar temas complexos de ciência em vivências práticas e inclusivas, o Museu do Amanhã, Museu do Jardim Botânico e o Museu Nacional se fortalecem como instituições que, mais que locais de visitação, são agentes de transformação social. Mais do que informar sobre ciência, esses espaços buscam o engajamento do público, priorizando o estímulo à dúvida e à curiosidade em vez de apenas entregar respostas prontas.

Plano Clima busca preparar cidades e populações para eventos extremos

Plano Clima busca preparar cidades e populações para eventos extremos

Obras de infraestrutura 100% adaptadas a mudanças climáticas estão entre as metas do documento lançado pelo governo federal

Por: Maria Eduarda Galdino

                                   Lançamento do Plano Clima em Brasília (DF). Foto: Fernando Donasci/MMA

 

O governo brasileiro lançou no mês passado o Plano Nacional sobre Mudança no Clima (Plano Clima), com metas para combater a crise climática. A ideia é organizar ações que promovam equidade, proteção dos direitos humanos e inclusão social de grupos afetados pelas mudanças climáticas. O plano foi aprovado pelo Comitê Interministerial sobre Mudança no Clima (CIM), com a colaboração de 25 ministérios e consultas públicas a mais de 25 mil participantes. Deverá estar totalmente implementado até 2035. 

 

Entre as metas de adaptação climática, o Plano prevê que obras de infraestrutura financiadas pelo governo federal sejam projetadas para resistir a eventos extremos. Na prática, isso significa que construções como moradias, rodovias e sistemas de drenagem deverão considerar riscos como enchentes e deslizamentos, problemas recorrentes em cidades como Rio de Janeiro. 

 

Nesse contexto, um estudo do Ambiental Media e do Instituto de Computação da UFF, com base em dados disponibilizados pelo IBGE, confirmou que cerca de 142 mil domicílios correm alto risco de inundação ou deslizamento no Rio de Janeiro. O estudo apontou a Zona Norte como território com mais bairros com alta vulnerabilidade a eventos climáticos extremos. 

 

Além do Rio de Janeiro, o estado de Minas Gerais também sofreu com o impacto das fortes chuvas. As cidades de Juiz de Fora e Ubá registraram no total 29 mortos e 3 mil pessoas desabrigadas no mês de fevereiro por conta dos deslizamentos, enchentes e soterramentos. Diante do estado de calamidade decretado pelas autoridades, escolas e universidades também interromperam suas atividades.  Diante desses acontecimentos, a proposta é que o plano de adaptação seja aplicado em todos os estados e ao menos 35% dos municípios, e até 2035, atender com obras de prevenção pelo menos 4 milhões de pessoas expostas ao risco de desastre geohidrológico. 



Além das estratégias de adaptação, o Plano Clima também inclui medidas de mitigação, ou seja, ações voltadas à redução de gases de efeito estufa (GEE) com mudanças no uso de energia e combate ao desmatamento. Para isso há uma Estratégia Nacional de Mitigação com base em projetos científicos que trabalham com energias renováveis, sociobiodiversidade e outros métodos para estabilizar uma economia de baixo carbono. 

 

O Plano Clima também inclui estratégias transversais para ação climática, que são o conjunto de ferramentas e políticas utilizadas para a execução de todos os objetivos. Isto é, como os setores de educação, pesquisa, políticas públicas e outros irão colaborar para soluções climáticas. Os investimentos e metas na primeira parte de elaboração do Plano Clima serão distribuídos ao longo dos anos,  em torno de R$25 a 30 bilhões por ano. 



As políticas de ação do Plano Clima também reforçam a importância da participação ativa dos povos no combate às crises climáticas. Segundo o documento, a colaboração da sociedade civil garante que haja equilíbrio de interesses e efetividade no planejamento de políticas públicas a favor da justiça climática. Para isso, as Câmaras de Participação Social e de Assessoramento Científico irão mediar a comunicação entre entidades governamentais, comunidades e o setor empresarial.



Plano Clima está alinhado ao Acordo de Paris 

 

A construção do Plano Clima também representa o compromisso do Brasil com o multilateralismo, que é a cooperação entre vários países para tomar decisões, resolver problemas e firmar acordos em conjunto. As estratégias de ações climáticas do Plano estão de acordo com a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês) em relação à meta de redução de 59% e 67% de suas emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035. O objetivo final seria a neutralidade climática até 2050, estado em que as emissões líquidas chegam a zero. 


Além do mais, o Plano Clima de Adaptação elaborou suas estratégias pautadas no ciclo interativo de adaptação feito pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC). Os projetos de adequação climática foram divididos em quatro etapas: avaliação, planejamento, implementação das ações e monitoramento de longo prazo com revisões periódicas e aprimoramentos contínuos. 



 

Representação do ciclo interativo de adaptação citado no Plano Clima. Fonte: Ministério do Meio ambiente/ UNFCCC

 

 

No documento, o governo brasileiro afirmou que pretende estabelecer um sistema robusto de monitoramento, avaliação e aprendizado, que alimente relatórios nacionais, fortaleça a transparência para que os compromissos estabelecidos com a UNFCCC (a Conferência do Clima da ONU) e com o Acordo de Paris possam ser cumpridos.

O que é transição energética e o que você tem a ver com isso

O que é transição energética e o que você tem a ver com isso

Entre a urgência climática e as barreiras econômicas, mudar a forma de produzir energia é algo que desafia países ricos e pobres

Por: Murilo Santos

                          Engarrafamento com carros movidos a combustíveis fósseis. Foto: aled7/Pixabay

 

A transição energética deixou de ser apenas um conceito técnico para se tornar um eixo da economia e da política global. A necessidade de trocar de combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia mobiliza governos e movimentos sociais, redefine mercados e começa a impactar o cotidiano da população. O que está por trás dessa mudança e por que ela também passa por você?

 

O  que é transição  energética?

 

A transição energética é trocar uma forma de produzir energia por outra. Hoje as principais fontes de energia são combustíveis fósseis, gás natural, petróleo e carvão mineral, ou seja, fontes não renováveis de energia e que liberam muito carbono na atmosfera. Cerca de 80,9% da energia produzida no mundo tem origem poluidora, segundo dados da Agência Internacional de Energia, organização ligada à OCDE que orienta as políticas energéticas dos países associados. O objetivo da transição energética é substituir essas fontes que contribuem para o aquecimento global por fontes renováveis de energia, como a hidrelétrica, a solar e a biomassa. O Brasil já tem em sua matriz energética o predomínio do uso de fontes renováveis, que respondem por metade da produção nacional, segundo dados do Balanço Energético Nacional referente ao ano de 2024.

 

Por que é preciso fazer essa mudança?

Com a emergência climática, fica cada vez mais urgente a necessidade de o mundo se tornar menos dependente das energias fósseis, que usam fontes como o petróleo e o carvão mineral. Essas formas de energia são extremamente danosas ao meio ambiente, emitem carbono na atmosfera e aumentam o aquecimento do planeta. No entanto, há inúmeras dificuldades políticas e econômicas para alcançarmos isso. O professor Ronaldo Serôa da Motta, do curso de Economia da UERJ, ressalta que, diferentemente do que aconteceu em outras eras, a transição energética vem da necessidade de combater o aquecimento global, não da busca por uma energia mais barata: “Quando a gente fala hoje em dia em transição energética, a gente está muito relacionado com a questão climática. Que a principal fonte de emissão é a queima de petróleo e derivados de petróleo. É uma questão de energia fóssil, como também pode incluir o carvão, o gás, etc.”, explica Motta, que é doutor pela University College London, ex-dirigente do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) e ex-diretor do Ministério do Meio Ambiente. 



A transição energética é economicamente viável?

Outra questão muito debatida é a viabilidade econômica para que os países aos poucos saiam do petróleo e de outras fontes poluidoras para as renováveis Apenas a energia eólica e a solar não são suficientes para abastecer em larga escala os países ricos, que consomem muita energia, nem os países pobres, pela sua baixa capacidade de renda para bancar o custo de instalação dessas matrizes. “Essa transição tem um custo muito alto, seja para os países ricos pela escala que eles consomem, seja para os países pobres pela sua capacidade de renda. E havia dentro das expectativas do Acordo de Paris que houvesse um financiamento internacional e uma disposição de gastos dos países que levaria a essa transição energética que colocaria de novo a trajetória de temperatura do planeta em níveis mais estáveis e mais seguros. Mas isso não acontece justamente porque não é economicamente viável na dimensão que você está no ar”, afirma o economista.

 

A transição energética, porém, não é isenta de dilemas. Como aponta Ronaldo Serôa da Motta: “Nesse contexto de mudança do clima, a motivação principal da transição energética é reduzir a queima de combustível fóssil para reduzir as emissões de CO2 e, com isso, combater o aquecimento global para evitar mudanças climáticas drásticas. É tudo muito calcado em se mover para distante da energia fóssil. Há uma grande discussão se esse movimento poderia ser primeiro pelo gás, por transição sim, mas a transição já deveria ter sido feita, né? Outra questão muito discutida atualmente, se a energia nuclear deveria participar porque ela é limpa do ponto de vista de CO2, mas tem riscos muito grandes”.

 

Como a transição energética pode ser sentida na vida do cidadão comum? 

A transição energética não afeta apenas países e governos, a geopolítica e o comércio global, mas também os cidadãos comuns. Quando se diminuem as emissões de gás carbono, a qualidade do ar e dos recursos hídricos melhora na mesma medida. Um exemplo da mudança na vida do cidadão seria a maior utilização de carros elétricos, que não poluem e dispensam gastos com idas ao posto de gasolina. A transição energética não é apenas uma questão de política internacional ou de metas climáticas assinadas em acordos distantes: é uma transformação que começa na rua, no transporte, na conta de luz e no ar que se respira. O desafio é garantir que essa mudança chegue a todos, e não apenas a quem pode pagar por ela.

UERJ apresenta projetos que buscam atrair mais meninas e mulheres para a ciência

UERJ apresenta projetos que buscam atrair mais meninas e mulheres para a ciência

Cerca de 460 alunas da rede pública do estado do Rio de Janeiro compareceram ao evento 

Por: Sofia Inerelli

                     Apresentação do Projeto de inclusão de Mulheres e Meninas nas Ciências Exatas – Sofia Inerelli

 

Cerca de 460 alunas da rede pública do estado do Rio de Janeiro acompanharam na quarta-feira, dia 18, o Primeiro Simpósio de Meninas e Mulheres nas Ciências da UERJ. O evento coordenado por Luana Pinho, professora de oceanografia da universidade, contou com apresentações de nove projetos, todos com o intuito de estimular a presença de meninas nas áreas de ciência exatas e da terra, engenharia e computação.  

 

A importância da perspectiva feminina na ciência foi exaltada por Renata Maciel, enfermeira de pediatria e de neonatologia. “Ampliar a presença de mulheres na ciência não é apenas uma questão de equidade, é também uma forma de fortalecer a própria ciência; quanto mais diversos forem os olhares que produzem conhecimento mais completas serão as respostas que a ciência pode oferecer à comunidade”, afirmou. 

 

No entanto, essa diversidade nas ciências está longe de ser atingida. Segundo a Unesco, apenas 30% dos cientistas são mulheres, sendo o número ainda menor em cargos de liderança. Mesmo que a mulher conquiste uma posição de destaque há uma desigualdade salarial entre os homens e mulheres de 21%, segundo pesquisa da FGV. 

 

Com dificuldades de conseguir empregos, recebendo salários menores, mulheres ainda são alvos de ódio simplesmente por serem mulheres. Na última terça-feira (24/03), o Senado aprovou um projeto de lei que criminaliza a prática da misoginia e a torna crime equivalente ao de racismo, um marco na luta contra a violência sofrida pelas mulheres. Mesmo com avanços na lei, no dia a dia meninas e mulheres ainda não estão seguras: só no ano de 2025, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil. Este é o quarto ano seguido de crescimento de casos, segundo o Relatório dos Feminicídios no Brasil

 

Eventos como esse se tornam ainda mais necessários para que meninas saibam que a ciência também está ao seu alcance. Nicolle Beatriz Albornoz (17) uma das alunas presentes na palestra, disse que o simpósio a incentivou a buscar e a participar de mais projetos, acrescentado que caso não haja algum dentro da sua área ela seria uma das primeiras a criar ou a ajudar no seu desenvolvimento. A estudante sonha em fazer letras ou ciências sociais e tem como inspiração Clarice Lispector.