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Livro “A hora da estrela” de Clarice Lispector (foto: Maria Eduarda Galdino)
O novo Superman, de James Gunn, já chegou aos cinemas brasileiros e vem agradando tanto o público quanto a crítica, com aprovação expressiva no Rotten Tomatoes. Nesta nova versão, o Azulão — interpretado por David Corenswet — enfrenta seu clássico inimigo Lex Luthor (Nicholas Hoult) e seu plano de dominação global. No entanto, mais do que grandes lutas, o foco da narrativa está na missão de Superman em salvar toda forma de vida. A proposta de humanizar o herói ganha força sob a direção de Gunn, que aposta em um visual fiel às HQs, com figurinos vibrantes e estética colorida. O uso marcante de cores — característica da filmografia do diretor — reforça o tom épico da produção, tornando esta uma das adaptações cinematográficas mais próximas da essência original do personagem.
O longa já se inicia como uma imersão direta no universo dos quadrinhos da DC Comics, dispensando a tradicional narrativa de origem do Superman — sua vida na fazenda ou o processo de se tornar o herói. O espectador é inserido em um mundo já estabelecido, no qual criaturas alienígenas e monstros são parte da rotina. A história começa com intensidade, colocando o herói em confronto direto com as vilanias de Lex Luthor. Para os fãs ou para quem já está familiarizado com o personagem, essa abordagem dinâmica não compromete o entendimento. No entanto, espectadores menos habituados ao universo do Superman podem sentir a ausência de algumas contextualizações, mesmo que o roteiro consiga equilibrar essas lacunas sem prejudicar a compreensão geral da narrativa.
As atuações são outro ponto alto da produção. A química entre Clark Kent e Lois Lane (Rachel Brosnahan), é convincente e bem construída, fazendo com que o público se envolva emocionalmente com o casal. Já Nicholas Hoult, no papel de Lex Luthor, entrega uma performance intensa e eletrizante. Diferente de versões anteriores mais caricatas ou cômicas, este Luthor é genuinamente perverso, carregado de preconceito, frieza e agressividade, ao mesmo tempo em que exibe uma inteligência perigosa e sagaz.
James Gunn demonstra domínio das características individuais de cada personagem, garantindo cenas marcantes em que todos têm papel relevante na trama. Nesse contexto, é impossível não destacar a importância de Lois Lane. A jornalista não aparece mais sendo uma figura vulnerável ou mero apoio emocional do herói. A nova abordagem a coloca no centro da ação, como essencial para a derrota de Luthor, atuando de forma autônoma e estratégica, sem depender do Superman para cumprir sua missão. Sua personalidade forte, aliada à perspicácia, reforça uma figura feminina ativa e empoderada — uma representação que finalmente faz jus à força da personagem dos quadrinhos e atualiza sua presença nos cinemas.
Outro destaque impossível de ignorar é Krypto, o cão do Superman, que rouba a cena em cada aparição. Criado por inteligência artificial e inspirado no cachorro do próprio James Gunn, o personagem conquista o público com seu comportamento irreverente, brincalhão e muito desobediente. Longe de ser apenas um alívio cômico, Krypto tem papel ativo na narrativa e contribui de forma significativa para o desfecho da trama. Sua presença adiciona leveza sem comprometer a tensão, além de reforçar o tom afetivo e familiar que permeia o universo do herói. O cãozinho alienígena consolida-se como um dos elementos mais carismáticos do filme.
Um dos pontos centrais da trama é a discussão em torno da xenofobia. O ódio de Lex Luthor por Superman nasce, sobretudo, da origem extraterrestre do herói, a partir de um sentimento alimentado pelo preconceito e pela inveja. Em contraste, Clark Kent mostra, ao longo do filme, uma humanidade muito mais evidente do que a de seu antagonista, revelando-se ético e empático, mesmo diante da hostilidade. Além disso, o longa se arrisca ao inserir críticas sociopolíticas claras — marca do próprio James Gunn, conhecido por posicionar-se politicamente em suas produções. A narrativa apresenta paralelos com a atual guerra na Palestina, expondo o envolvimento americano em conflitos armados e questionando a legitimidade de certas intervenções militares.
A representação de Superman como um imigrante que defende um povo oprimido do Oriente Médio, em meio a uma guerra financiada por interesses governamentais, gerou reações diversas, com alguns rotulando o filme como “superwoke”. Ainda assim, a abordagem confere camadas relevantes à história e atualiza o papel do herói diante dos dilemas contemporâneos.
É importante destacar que este não é um filme para quem espera ver um Superman invencível, que resolve tudo com força bruta. Ainda que o personagem demonstre poder em abundância, o foco aqui está em suas vulnerabilidades emocionais e humanas – sentir medo, dúvida e compaixão -, elementos que James Gunn equilibra com precisão. A proposta afasta-se da versão sombria e quase divina apresentada por Zack Snyder, em que o herói era tratado como uma figura distante e intocável. Ao contrário, Gunn recupera a essência dos quadrinhos clássicos, retratando o Superman como um símbolo de esperança, empatia e conexão com as pessoas. Essa mudança de tom torna o personagem mais acessível e resgata o ideal do herói que se importa genuinamente com a humanidade.
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