A decadência da pentacampeã do mundo?
Seleção brasileira decepciona em amistosos, mas frustração já é rotina faz tempo
Por: Eduardo Campos
Após os amistosos realizados na última data Fifa, a seleção brasileira decepcionou mais uma vez. Embora a goleada aplicada contra a Coreia do Sul tenha animado os torcedores, a derrota inédita para o Japão acabou com o clima de otimismo. A situação do Brasil é preocupante: somado aos fracos desempenhos apresentados, a equipe caiu para a sétima posição no ranking de seleções da Fifa após as duas partidas. Faltando cerca de oito meses para a Copa do Mundo de 2026, é possível dizer que a seleção está em uma grave crise.
Esse cenário não era tão recorrente antes do início das últimas Copas. Sempre cercado de expectativa, o Brasil chegou para as Copas de 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022 como um dos favoritos ao título. Mesmo assim, acabou decepcionando em todas as edições, sendo eliminado nas quartas de final em quatro oportunidades. A única vez em que passou para as semifinais foi na Copa de 2014, resultando em um dos maiores vexames da história do futebol, o 7 a 1 contra a Alemanha.
Reprodução: Site da FIFA
David Luiz, capitão do Brasil na semifinal contra a Alemanha, incrédulo com o resultado
Uma das edições em que o Brasil chegou mais desacreditado para o maior torneio de seleções foi em 2002, ano em que a seleção brasileira foi campeã. Inclusive, a vitória na final contra a Alemanha foi a última vez em que a seleção canarinho ganhou de europeus em mata-mata. De lá para cá, foram seis jogos contra as equipes do Velho Continente, com cinco derrotas (França 1 x 0 Brasil em 2006, Holanda 2 x 1 Brasil em 2010, Alemanha 7 x 1 Brasil e Holanda 3 x 0 Brasil em 2014, e Bélgica 2 x 1 Brasil em 2018) e um empate (Croácia 1 x 1 Brasil em 2022, vitória croata nos pênaltis).
Contudo, a realidade atual e a de 23 anos atrás são muito diferentes. Com jogadores estrelados e vindo de um vice-campeonato mundial, o time de 2002 tinha experiência para lidar com situações de pressão. Já a equipe que disputará a Copa de 2026 possui um nível técnico bastante inferior em comparação com suas antecessoras, além de vir pressionada por igualar o maior período de jejum sem Copas do Mundo para o Brasil: 24 anos, assim como entre 1970 e 1994.
O ciclo para a próxima Copa ficou marcado pelos inúmeros recordes negativos atingidos, sendo o principal deles a maior quantidade de técnicos no período de preparação (quatro: Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti). Outros recordes são: as derrotas inéditas para Marrocos, Senegal e Japão (adversários sem tradição no cenário de seleções), a pior campanha brasileira nas eliminatórias (5° lugar, com 28 pontos, “superando” o 3° lugar e os 30 pontos de 2002) e as derrotas para a Argentina na classificatória para a Copa, resultando na primeira derrota em casa da história das eliminatórias e na pior derrota do Brasil nas eliminatórias (0 x 1 e 4 x 1, respectivamente). Além das eliminatórias e dos amistosos, a campanha na Copa América de 2024 também foi desastrosa. Com um futebol pobre e sem inspiração, a seleção foi eliminada nas quartas de final para o Uruguai nos pênaltis.
Reprodução: X/Conmebol
Argentina 4 x 1 Brasil: a maior derrota sofrida pelo Brasil na história das eliminatórias
Para além dos problemas futebolísticos, muitas questões extracampo estão atrapalhando o ambiente da seleção. As trocas de comando na presidência da CBF, órgão máximo de poder responsável pelo futebol brasileiro, também impactaram o trabalho. Após o afastamento do então presidente, Rodrigo Caboclo, por denúncias de assédio sexual em 2022, seu vice Ednaldo Rodrigues assumiu. Extremamente criticado pela falta de mudanças estruturais no futebol do país, também acabou sendo afastado em maio deste ano por suspeita de falsificação de uma assinatura em um documento para se manter no poder. Em seu lugar, entrou Samir Xaud, presidente da Federação Roraimense de Futebol, um estado sem influência no cenário do futebol nacional. Até agora, ele trouxe inovações, como um novo calendário para o futebol brasileiro no ano que vem.
Reprodução: Federação Roraimense de Futebol/FRF
Ednaldo Rodrigues, ex-presidente da CBF, à esquerda, e Samir Xaud, atual presidente da entidade, à direita
Outro fator fundamental para as polêmicas envolvendo a seleção brasileira é a imprensa e sua maneira de cobrir o tema. Para os jornalistas, a necessidade de alcançar a modernidade europeia deveria ser o grande objetivo do futebol nacional, ignorando o passado vencedor que o Brasil havia construído. O sensacionalismo e o desdém com que a mídia tratava e ainda trata a Seleção fez com que os torcedores se afastassem e perdessem a identificação de torcer por nossos compatriotas, transformando a dor da derrota em chacota.
Com todos esses problemas, percebe-se que a busca pelo hexacampeonato será uma missão muito difícil. Sem perspectiva de melhora, a seleção brasileira tende a passar mais uma Copa em branco e chegar a vinte e oito anos sem ganhar o torneio. Esse seria um recorde para o Brasil, que nunca ficou tanto tempo sem levantar o troféu após a primeira conquista. Porém, mesmo com as dificuldades apresentadas, ainda é possível conquistar a sexta estrela. A camisa verde e amarela da Seleção impõe respeito em qualquer outro país, pois sua história e tradição nunca serão apagadas. Para ser campeão do mundo, basta acreditar.
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