Apesar das censuras, Haiti e Congo levam à Copa símbolos de resistência que ultrapassam o futebol

Apesar das censuras, Haiti e Congo levam à Copa símbolos de resistência que ultrapassam o futebol

Mesmo com as eliminações, símbolos e gestos presentes nas partidas mostram como os países manifestam suas lutas através do futebol

Por: Maria Eduarda Galdino

Montagem: Maria Eduarda Galdino Reprodução: Blackstyle Matters (via Instagram), Soybustero (via Instagram) e André Rizek (via X).

 

A diversidade das seleções marca mais um momento histórico para a maior edição da Copa do Mundo. Após 50 anos, o Haiti fez um retorno emblemático ao torneio participando do grupo C. Ao mesmo tempo, a seleção da República Democrática do Congo participou pela primeira vez com o novo nome após a ditadura de Mobutu Sese Seko. Anteriormente o país se chamava Zaire na última participação do time em 1974.

Essas seleções não trazem apenas as táticas para o campo, mas também suas histórias. A Federação Haitiana de futebol e o fabricante de camisas Saeta, elaboraram em conjunto o uniforme da seleção do Haiti, os elementos da camisa replicam a Batalha de Vertière, em 1803, o conflito que garantiu a independência do Haiti, que foi colônia da França por 122 anos.  

 

O canto inferior direito da camisa mostra os cidadãos haitianos no topo de uma montanha segurando uma bandeira do Haiti como um sinal de vitória após a guerra. As figuras representam a liberdade do povo haitiano e a conquista histórica da primeira república liderada por negros e o primeiro país das Américas a abolir a escravidão. O acontecimento está diretamente ligado a formação do Haiti como país. 

 

Depois de confeccionada, a FIFA exigiu mudanças no uniforme, alegando que a figura na camisa poderia passar uma mensagem política, e que “os elementos visuais poderiam ser interpretados de maneira diferente”. Segundo o pronunciamento da Saeta à imprensa, o uniforme simboliza o “orgulho e a resiliência do povo haitiano, não uma declaração política”. 

 

A AJ Esportes verificou a repercussão nas redes sociais, especificamente o Instagram, e a hashtag #Haitishirt (em português #camisadoHaiti) já tem mais de 100 publicações. Entre as postagens, a mudança no uniforme tem gerado uma discussão nos comentários, na qual os usuários do Instagram comentam que a FIFA só permite a política que quer, e que proibir a figura na camisa também representa um ato político. 

 

Foto: Maria Eduarda Galdino
Seção de comentários da publicação sobre o uniforme da seleção do Haiti perfil O_barista.

 

Mesmo com a repercussão negativa, a empresa Saeta acatou as exigências da FIFA e precisou refazer o uniforme da seleção do Haiti antes das próximas partidas. “Embora essa interpretação tenha sido diferente da nossa intenção, a Saeta respeitou o processo e implementou os requisitos finais comunicados pela FIFA”, afirmou a empresa nas redes.

 

Além da seleção do Haiti, a República Democrática do Congo também fez história na Copa do Mundo de 2026. Após as frustradas tentativas de classificação para as  Copas na Rússia em 2018 e o Catar 2022, a seleção congolesa se classificou para os 16 avos de final da Copa, mas perdeu para a Inglaterra.

 

Apesar da eliminação, a seleção congolesa trouxe símbolos que refletem o atual contexto social da República Democrática do Congo. Tanto os jogadores quanto os torcedores estão reproduzindo um gesto com as mãos, no qual uma simboliza uma arma na cabeça, e a outra, uma mão na boca. O gesto significa a violência armada e as mortes devido aos conflitos políticos no Leste do Congo. A mãos na boca também reflete o silêncio das lideranças mundiais em relação aos conflitos armados.

 

Entre a torcida está o congolês Michel Kuka Mbolandinga, torcedor que ficou conhecido nas redes sociais como o “torcedor estátua” após replicar o gesto de arma com as mãos e imitar a estátua de Patrice Lumumba, ex primeiro-ministro, líder da independência do país e representante da luta anticolonial. Vestindo um terno com as cores da bandeira nacional do Congo, Michel fica em pé na mesma posição durante os 90 minutos de jogo.

 

Esses gestos não são feitos sem propósito, a Copa é o evento mais assistido do mundo e que pode gerar atenção a causas urgentes. Segundo a FIFA, 3,6 milhões de torcedores foram alcançados somente no evento de abertura. Além disso, a FIFA afirma que aproximadamente 6 bilhões de pessoas devem estar envolvidas no torneio considerando transmissões em plataformas digitais. 

 

Essa visibilidade atrai o reconhecimento de novas seleções e a cultura que o mundo ainda não conhece. O Haiti e o Congo trouxeram novos símbolos e gestos intrínsecos a sua história e liberdade. Essas ações refletem a conexão entre o esporte e a política, na qual o campo também se torna palco daquilo que acontece com as nações fora de campo.

Apesar das censuras, Haiti e Congo levam à Copa símbolos de resistência que ultrapassam o futebol

You May Also Like