Florestas marinhas correm risco de desaparecer com aumento das mudanças climáticas

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Florestas marinhas correm risco de desaparecer com aumento das mudanças climáticas

Aquecimento das águas pode levar à destruição de mais de 80% das regiões onde são encontradas espécies de sargaço

Por: Maria Luísa Fontes

                          Algas de sargaço em uma costa rochosa na Ilha Grande. Foto: Ivan Carneiro

 

Nas florestas marinhas de sargaço, a espécie que predomina é a Sargassum, alga parda comum em regiões tropicais e subtropicais. A maioria delas cresce sobre rochas na região litorânea, formando extensas florestas com alto grau de diversidade, que funcionam como berçário para peixes e invertebrados nas regiões costeiras.

O sargaço também é essencial para o processo do ciclo do carbono, pois acumula grande quantidade de biomassa, o que aumenta o estoque do carbono azul – dióxido de carbono capturado e armazenado nos ecossistemas costeiros e marinhos. Essas algas, quando depositadas nas profundezas do oceano, auxiliam no sequestro de carbono a longo prazo. As espécies de sargaço são, com isso, fundamentais na luta contra o excesso de CO2 no ambiente, um dos responsáveis pelo agravamento da crise climática.

O estudo sobre as ameaças a esses ecossistemas era somente destinado às florestas marinhas de águas frias, como as formadas por kelps, enquanto as florestas tropicais ainda eram pouco pesquisadas e praticamente ausentes das discussões globais sobre o clima. De acordo com O Relatório sobre as Ciências Oceânicas Globais, publicado pela UNESCO, em 2020, cerca de apenas 1,7% dos orçamentos nacionais de pesquisa são destinados às ciências do oceano. No Brasil, essa fração é inferior a 0,5%, expondo a falta de prioridade que as pesquisas marinhas recebem. 

Um estudo inédito de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a Universidade de Pisa, publicado na revista científica internacional Limnology and Oceanography, apresenta os efeitos do aquecimento dos oceanos sobre as espécies de sargaço. A pesquisa combinou experimentos em laboratório, observações externas e projeções sobre o futuro desses seres. Ivan Carneiro, pesquisador do programa de pós-graduação em Ecologia da UFRJ, afirma: “Embora estudos locais já indicassem sinais de declínio, faltava uma síntese global que evidenciasse a dimensão e a urgência desse problema.”

A extinção das florestas formadas por espécies de sargaço pode acarretar na perda das interações entre os elementos de um ecossistema, como a transferência de energia e a regulação de gases. Caso não sejam feitas ações mais drásticas para frear o aquecimento global, esse biossistema corre sério risco de desaparecer, o que impacta diretamente a pesca, a biodiversidade e a regulação do clima. 

Carneiro ainda destaca que enquanto as florestas marinhas de regiões frias já contam com programas de monitoramento e medidas de conservação, as tropicais continuam praticamente negligenciadas. A previsão a longo prazo é que as florestas de sargaço vivenciem quedas expressivas da sua cobertura nas costas tropicais.

A professora Maria Teresa M. de Széchy, do Departamento de Botânica da UFRJ e coautora do estudo, ressalta que o desaparecimento das florestas de sargaço pode intensificar os desafios ambientais e sociais trazidos pelas mudanças climáticas. Esse cenário piora quando somado aos impactos causados pela ação humana sobre as zonas costeiras, o que dificulta ainda mais a conservação e o uso sustentável dos recursos naturais marinhos.

Desde 2011, as espécies flutuantes Sargassum natans e Sargassum fluitans têm proliferado de forma expressiva, sendo encontradas em novas regiões, como a costa norte do Brasil. O “Grande Cinturão de Sargaço do Atlântico”, refere-se à maior quantidade já encontrada dessas algas, com volume recorde de 37,5 milhões de toneladas e mais de 8.850 km de extensão. Tendo em vista que esse evento é resultado dos impactos das mudanças climáticas, ele é prejudicial ao ambiente e gera consequências negativas para a humanidade.

Quando alcançam o litoral, as algas flutuantes morrem e, ao apodrecerem, liberam elementos sulfurados e carbônicos. Esses compostos estimulam a proliferação de bactérias,  que diminuem o oxigênio da água e causam a morte de animais marinhos, prejudicando a pesca e até mesmo a indústria do turismo. A liberação desses gases também pode gerar irritação nos olhos, no nariz e na garganta. 

A esperança dos pesquisadores era que na COP 30 fosse expandida a discussão acerca das florestas marinhas tropicais, a fim de atrair recursos e políticas voltadas à conservação desses ambientes. Esse tema foi discutido na Green Zone, levantando a questão do sargaço flutuante: “Das Marés Marrons a um Futuro Azul: Um Esforço Multilateral para Mitigar os Impactos do Grande Cinturão de Sargaço do Atlântico”.

No Pacote Azul, iniciativa que lançou propostas para a proteção e restauração dos oceanos em meio à crise climática, foram incluídas as proteções de recifes de corais, manguezais e florestas de kelps, por exemplo. No entanto, o debate acerca da proteção das florestas marinhas de sargaço não foi contemplado no documento.  A cúpula representou um avanço inegável na luta pela conservação marinha, mas que ainda não soluciona a crescente problemática do desaparecimento das regiões de sargaço.
                                      

 
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