Vôlei feminino brasileiro: Elisângela fala sobre reformulação da seleção, Bernardinho, Zé Roberto e futuro da seleção.

Vôlei feminino brasileiro: Elisângela fala sobre reformulação da seleção, Bernardinho, Zé Roberto e futuro da seleção.

Seleção vive fase de mudança, mesclando jovens promessas e jogadoras experientes para manter o Brasil no topo.

Por: João Pedro Marins

O vôlei feminino brasileiro atravessa mais uma fase de renovação. Após quase duas décadas de conquistas históricas, a seleção busca se reconstruir, apostando em jovens talentos sem abrir mão da experiência de nomes consagrados. Essa transição foi visível na convocação para a Copa do Mundo de vôlei feminino que ocorre na Tailândia. 

Uma reformulação semelhante ocorreu no final dos anos 90 e início dos anos 2000, com a chegada do Bernardinho e a troca por Zé Roberto Guimarães.

Crédito: Fotos/ Pedro Ugarte

Elisângela comemorando vitória

Elisângela Oliveira, ex-oposta da seleção brasileira, viveu de perto o período de transição entre Bernardinho e Zé Roberto Guimarães. Medalhista olímpica em Sydney 2000, ela relembra como cada treinador marcou sua carreira, analisa o atual momento da equipe e relembra a reformulação dos anos 90 e 2000

“Eu acho que a mudança no voleibol começou na Olimpíada de Atlanta, em 96, com a chegada do Bernardinho. A seleção começou a subir no pódio, revelou grandes jogadoras e o feminino passou a ficar mais em evidência, até maior do que o masculino, que tinha sido campeão em 92. Além disso, naquela época havia uma rivalidade enorme com Cuba, algo que até hoje não se repetiu”, recorda à AJ.

A ex-jogadora também lembra á AJ da emoção de conquistar uma medalha olímpica. “Assistir a Barcelona 92 me motivou a querer jogar uma Olimpíada. Eu queria ganhar. Não consegui o ouro, mas conquistei uma medalha. Quando você volta ao Brasil e vê as pessoas vibrando com você, entende a dimensão do que conquistou. Até hoje, quando me apresento em projetos, digo: eu sou medalhista olímpica. Estar numa Olimpíada é o ápice, o momento mágico de qualquer atleta.”

Sobre as diferenças entre Bernardinho e Zé Roberto, ela resume á AJ: “São pessoas muito diferentes, mas dois vitoriosos, dois dos maiores treinadores do mundo. Trabalhar com eles foi prazeroso, cada um acrescentou algo na minha vida. Tenho lembranças muito boas e sou grata a Deus por ter jogado duas Olimpíadas com esses dois feras.”

Atenta ao momento atual da seleção, Elisângela avalia que o ciclo olímpico é um dos mais desafiadores. “Hoje a equipe está mais enxuta, sentimos a falta de jogadoras de referência como a Ana Cristina. Antigamente a gente tinha três, quatro ponteiras no nível. Então hoje a Ana Cristina saindo, não que não tenha outras jogadoras, há mas do nível dela eu acho que ainda não temos. Tem as outras jogadoras que são mais de composição, mais de passe, mais atacar, bloquear, a altura dela, a experiência, né? Que apesar de nova, já estava jogando há bastante tempo fora. Hoje nossa seleção está muito mais enxuta. A maior liderança é a Gabi, mas precisamos de mais nomes de peso, especialmente na posição de oposta”. 

A ex-jogadora também alertou á AJ sobre a necessidade urgente de o Brasil rever o processo formador das jogadoras. “O Brasil deixou de investir na base, e isso reflete nos resultados. É urgente olhar para projetos sociais e formação.”

Créditos: Fotos/ Vôlei BC

Elisangela Oliveira nos dias atuais.

Fora das quadras, ela segue envolvida com o vôlei. “Me dediquei mais de 20 anos ao esporte e hoje trabalho em projetos sociais. Atendo a 300 crianças em Itajaí e estou montando outro em Londrina, minha terra natal. A mensagem que deixo para as jovens é treinar, se dedicar, cuidar da alimentação e do sono. O tempo passa rápido, então aproveitem cada minuto, cada campeonato, porque passa voando”, disse a ex-jogadora à AJ.

A seleção está em busca do ouro inédito da copa do mundo e está no rumo das olimpíadas de Los Angeles 2028. 

Olimpíada de Paris 2024 quebra recorde de participação feminina

Olimpíada de Paris 2024 quebra recorde de participação feminina

Pela primeira vez na história, as mulheres representam 50% do total de atletas nos Jogos Olímpicos  

Por: Everton Victor e Manoela Oliveira

Getty Images / (Foto: Sandro Di Carlo)
 
 
 

Após 128 anos da realização dos Jogos Olímpicos, as atletas do gênero feminino representam pela primeira vez 50% dos participantes nas Olimpíadas. Ao todo são 10.500 atletas – sendo metade homens, metade mulheres –  presentes nas competições durante 26 de julho a 11 de agosto de 2024 na capital francesa. A paridade de gênero alcançada é um marco no evento, que na sua primeira edição, em 1896, proibiu a participação de atletas mulheres.

Até o momento, o Brasil tem 216 vagas garantidas para as Olimpíadas de Paris. Desse número, cerca de 100 atletas para os jogos serão mulheres, de acordo com a lista de vagas e modalidades que o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) detém. A quantidade ainda pode mudar por conta de disputas em algumas modalidades que valem vagas para as Olimpíadas.

O pioneirismo na paridade de gênero é um dos marcos desta edição que contará com a estreia de duas modalidades. A novidade é o Breakdance, a mistura da dança e da música; nessa disputa, dois atletas se enfrentam, enquanto o DJ toca uma música aleatória, e quem performar melhor em 60 segundos ganha. Outro esporte adicionado é o Caiaque Extremo, uma competição entre quatro barcos que percorrem um trajeto e quem chegar primeiro vence. Ao todo serão 48 modalidades presentes nesta edição.

Se por um lado a paridade está no âmbito dos atletas, essa realidade ainda não chegou para os cargos de liderança nos Comitês Olímpicos. No Brasil, segundo o COB, nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2021, o quantitativo de mulheres na comissão técnica era de apenas 10% do total de membros, já entre as chefes de equipes na comitiva brasileira é de 20%.

Para Silvio Telles, professor do Instituto de Educação Física da Uerj e da Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ, o desafio de inclusão das mulheres no esporte deve ser enfrentado por todos, inclusive pela mídia. Taciana Pinto, gerente de Desenvolvimento e Mulher no Esporte do COB explica que “diversos levantamentos mostram que o tempo de mídia para o esporte feminino é muito menor que o masculino, e que muitas vezes as atletas são retratadas pelos seus atributos físicos ou familiares e não pelo seu desempenho esportivo”. De acordo com ela, com a inclusão das atletas na mídia, jovens meninas são encorajadas a perseguirem seus sonhos no campo esportivo. 

Paris. Reprodução: Agência Brasil

Desigualdade de gênero no cenário esportivo

O início da era moderna das Olimpíadas foi em 1896, porém as mulheres começaram a participar dos jogos em 1900, representando apenas 2,2% do número de atletas. A expansão das modalidades foi lenta, mas, ao longo dos anos, as mulheres conquistaram o direito de competirem em esportes como o atletismo e o vôlei, que eram proibidos pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).

Depois de 124 anos desde a primeira participação feminina nas Olimpíadas, ainda existem barreiras para a igualdade de gênero nos esportes. Silvio discutiu as dificuldades das mulheres no cenário esportivo, destacando o preconceito como um dos motivos agravantes. “Se constrói, dentro do campo esportivo, uma representação social de que a mulher não é adequada para aquele tipo de prática”, afirma o professor. O levantamento global realizado pela Nike e pela Dove revela que, só no Brasil, cerca de 89% das meninas acreditam que deveria haver mais inclusão feminina nos esportes. 

Fernanda Barbosa, formada em Educação Física pela Uerj, afirma que muitas mulheres desistem de suas carreiras no esporte devido à falta de incentivo financeiro. Ela reforça que: “Eu tenho que escolher entre estudar e trabalhar ou jogar bola, tive que escolher estudar e trabalhar”. De acordo com Fernanda, as atletas possuem dificuldade em conciliar as práticas esportivas com o trabalho ou o estudo. “O que falta no Brasil é o investimento”, conclui. 

Investimentos na inclusão das mulheres no esporte

O COB vem trabalhando para fornecer maior qualidade no desenvolvimento das jovens atletas, segundo Tatiana. “O mapeamento da estrutura oferecida para as seleções femininas, seja na quantidade de competições nacionais e internacionais, seja na composição da comissão técnica, e também pelo investimento direcionado às mulheres no esporte”, ressalta.

O COI, em parceria com a ONU Mulheres, desenvolveu o programa “Uma Vitória Leva à Outra” (UVLO). O projeto visa garantir espaços seguros para as meninas na área esportiva, proporcionando oficinas temáticas sobre autoestima, liderança, saúde e direitos sexuais e reprodutivos. De acordo com a ONU Mulheres, o programa é um legado da Olimpíada do Rio 2016 e alcançou 217.000 mulheres em 25 países.