Falta de treinos de futsal preocupa atletas universitários e expõe desafios internos da Atlética de Comunicação Social e Artes

Falta de treinos de futsal preocupa atletas universitários e expõe desafios internos da Atlética de Comunicação Social e Artes

A irregularidade das atividades preocupa os atletas e pode afetar diretamente o desempenho da Atlética nas competições universitárias

Por: Henrique Pereira

 

Quadra interna da Uerj. Foto: Manuela Weissman

A rotina de treinamentos da Atlética da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) segue comprometida em 2025. A equipe de futsal masculino, por exemplo, conseguiu realizar apenas uma atividade no segundo semestre, situação que repete os transtornos do ano anterior. Segundo o treinador da modalidade, Gustavo Franco, os problemas já são antigos. “Ano passado foi igual”, afirmou.

Ao ser perguntado sobre os fatores que impossibilitam a prática frequente de treinos, ele apontou a disponibilidade de espaço e dos horários dos estudantes. Além desses, destacou a ausência de comprometimento dos próprios jogadores como o principal obstáculo enfrentado. “A tentativa de organizar os encontros semanais esbarra justamente na adesão dos atletas. Agora é aguardar o compromisso deles”, comentou.
A Uerj possui dois locais para treinos do futsal, a quadra externa e a do ginásio. Sobre a participação da Universidade em uma possível solução, Gustavo, formado em Educação Física pela própria UERJ, não demonstrou otimismo: “A construção de mais quadras seria uma medida, mas a faculdade não vai ajudar. A demanda é muito grande e o processo é muito burocrático”, disse. 

Para os jogadores, a falta de treinos pesa tanto no rendimento quanto na vida acadêmica. Pedro Athayde, estudante de jornalismo do 5º período e atleta da equipe, disse que a escassez de atividades semanais o tem incomodado bastante: “Tenho sentido bastante, por mais que meu horário de aula esteja mais apertado, era sempre bom desestressar um pouco nos treinos. Sem contar que eu amo competir e sinto muita falta disso no meu dia a dia”, relatou.

Ainda de acordo com ele, tal problemática afeta o grupo inteiro: “Acho que todo mundo lida mais ou menos da mesma forma, como uma válvula de escape do estresse da semana de trabalho e estudo. Então acredito que eles tenham muita pena de como as coisas estão, da nossa preparação para os campeonatos estar parada e todo mundo ficar sem ter o que fazer, já que não depende só da gente”, ressaltou.

Ao ser questionado sobre a ausência de comprometimento do time, o referido atleta reconheceu tal questão, porém alertou: “Acho que rola sim uma falta de comprometimento, mas por agora vai além disso. As quadras não estão sendo liberadas, os horários estão mais apertados e, querendo ou não, ainda não rolou uma renovação 100% do time. Até o ano passado, a maior parte do time era formada ou estava para se formar, então não aconteceu um ciclo natural dos mais novos assumirem o papel dos mais velhos”.

Entre as possíveis soluções, Athayde propõe mais flexibilidade e suporte da Universidade: “Acho que poderia rolar uma flexibilização melhor na questão das quadras, com um número maior de horários disponíveis para as atléticas. Com certeza a Uerj deveria oferecer mais apoio. As atléticas, além do esporte, servem como integração entre os estudantes, e isso fortalece o pertencimento dos alunos”, destacou.

Por fim, ele explicou a importância e o valor da Atlética em sua vida pessoal: “Pra mim, participar da Atlética é uma questão de pertencimento, chegar mais perto do que um dia foi meu sonho de virar jogador e defender algo que faço parte. A mensagem que eu deixo aos novos calouros é para que sigam nesse processo, porque as amizades são boas, o dia a dia é maravilhoso, a competição nos treinos e nos campeonatos é algo incrível. Então, não deixem de ir e curtam bastante o que a atlética tem pra oferecer”, concluiu.

Com treinos escassos e o futuro incerto, a Atlética de Comunicação Social da Uerj vive um momento de indefinição. As falas do treinador e do atleta evidenciam que os problemas vão além da quadra: passam pela necessidade de adesão estudantil, apoio institucional e um esforço coletivo para manter viva a tradição do esporte universitário.

Os microempreendedores da Uerj

Os microempreendedores da Uerj

Conheça a história de três alunos que veem a Universidade, para além do ensino, também como um polo econômico

Por: Luana Maciel

 

Ao caminhar pelos corredores da Uerj, qualquer pessoa poderá encontrar alunos da própria instituição vendendo diferentes produtos a quem estiver interessado. Desde docinhos a acessórios, esses produtos demandam preparação, planejamento e estratégias de inovação desses estudantes. A rotina universitária passa por uma reformulação, de modo que, além dos estudos, eles têm um novo compromisso: as vendas.

 Alice Moraes, Douglas Xavier e Leonardo Vieira são três desses microempreendedores que construíram pequenos negócios entre as rampas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

  • Alice Moraes

Alice Moraes, aos 20 anos, cursa jornalismo e vende brigadeiros, casadinhos e outros doces na Universidade. Os docinhos são produzidos pela própria Alice. A iniciativa partiu dela e do namorado, com um objetivo claro em mente: juntar dinheiro para planejar seu casamento.

                             Alice Moraes posando com seus doces no corredor da Uerj. Foto: Luana Maciel

 

Ela conta que seu namorado, Israel, estudante de letras, fazia algumas vendas, mas por uma questão de timidez e logística, hoje ajuda mais com a parte técnica, anotando os números de venda de cada dia e administrando as redes sociais. Já a parte de vender ao público mesmo, ficou por responsabilidade de Alice. Ela vende do nono ao décimo segundo andar e na fila do bandejinho.

Na verdade, a jovem revela que inicialmente não queria fazer parte diretamente do processo de venda. “No início eu tinha vergonha. Não queria vender não, no começo, só fazia”, relata Alice. Mas quando ela começou a vender junto do namorado e percebeu que obtinha melhores resultados, ela descobriu que era boa neste processo de interação com possíveis compradores. E, o que antes era evitado por medo de vergonha, agora faz parte do dia a dia da estudante, que afirma gostar do que faz, superada a timidez inicial. 

Alice explica que escolheu vender seus produtos especificamente na Uerj por ser não só um local que ela frequenta, mas também que muitas pessoas habitam, demonstrando uma grande oportunidade comercial. “É um dos lugares que eu mais convivo. Tem uma grande quantidade de pessoas, de alunos, de gente. Aí eu vi que seria bom vender aqui”, conclui a jovem.

 E por ser tão imensa e englobar tantos indivíduos, o local é, para a aluna, também uma oportunidade de conhecer novas pessoas e criar laços: “Os docinhos me proporcionaram esse contato maior com os estudantes, com as pessoas, com os servidores da Uerj. Até fazer amizades também”. Alice acredita que cada empreendedorismo pode ajudar, de alguma forma, as pessoas que frequentam a Uerj. “Às vezes a pessoa tá com vontade de comer um docinho, mesmo que pareça uma coisa pequena, você acaba alegrando o dia dela”, afirma a aluna. 

Instagram: doces_a.i

  • Douglas Xavier

Douglas, de 26 anos, está no quinto período de direito. Mas, pela Uerj, ele é muito mais conhecido pelo apelido de “DG do brownie”. Douglas aponta que, na verdade, quem começou a produzir brownies para comercialização foi uma amiga. DG era apenas seu cliente fixo e um grande fã dos doces. Tudo mudou quando, no final do terceiro período, a colega, que iria começar a estagiar e estava se sentindo sobrecarregada, percebeu o potencial de Douglas e o chamou para realizar as vendas e dividir o lucro.

             Douglas Xavier posando com seus brownies na saída do restaurante universitário. Foto: Luana Maciel

DG conta que no seu primeiro dia de vendas, apesar do nervosismo, o saldo de brownies vendidos foi um total de cento e um. A amiga ficou completamente surpresa, uma vez que o número médio de brownies por dia até então variava de trinta a quarenta.

Ele relata que nos seus primeiros dias de venda, ficava perto da fila do bandejão, tentando se aproximar de possíveis clientes. “Eu abordava o pessoal, brincava. Às vezes a pessoa não sabia nem que queria doce, no final ela saía com três, com quatro”. Daí pra frente DG se tornou um verdadeiro sucesso na Universidade. 

Douglas conta que já havia tido contato com o atendimento ao público antes. Sua mãe vende cosméticos e roupas e seu pai tem um estacionamento. Ele destaca como essas experiências o ajudaram a desenvolver uma “lábia”, que hoje é fundamental no exercício das vendas, já que ele sente menos vergonha ao interagir com as pessoas. “O não eu já tenho, então eu vou atrás do sim (…), respiro fundo, vamos à luta”, diz ele.

A principal motivação do estudante é a busca por maior estabilidade e liberdade financeira. A venda dos doces o ajudou a ficar mais tranquilo quanto a essa questão, conta o estudante. Apesar disso, o negócio também envolve muitas dificuldades. Com um estágio pela manhã e o curso de Direito à noite, DG fala que equilibrar a rotina é uma tarefa muito complicada. Por isso, ele se organiza de forma que as vendas ocorram nas segundas, quartas e sextas, e o resto da semana útil é voltado para os estudos do curso. Atualmente, a produção é própria do estudante, com ajuda da namorada                                                                                                                                                              

A comercialização de Douglas não se restringe à Uerj. Ele vende nos seus treinos de futebol americano, no ônibus vindo e voltando da Universidade, a caminho do estágio e onde mais houver procura por seus doces. Em todo lugar, o apelido o acompanha- DG do brownie já se tornou sua marca registrada. 

Instagram: dgxavieer

  • Leonardo Vieira

Leonardo Vieira dos Santos cursa Ciências Sociais na Uerj desde 2017. Aos 29 anos, comercializa brincos, anéis, colares e outros acessórios no espaço da Universidade. Popularmente conhecido pelos alunos da Uerj como “Léo do Brinco”, Leonardo conta que tem experiência com vendas desde os treze anos, trabalhando em feiras. O momento em que passou a tratar especificamente dos acessórios, porém, foi no Ensino Médio. 

A escolha, segundo ele, foi movida pelo que ele acreditava que acarretaria lucro, considerando que precisava do dinheiro para ajudar a sustentar a família na época. Léo explica que a Uerj se tornou palco das suas vendas pois faz parte do seu dia a dia. “Eu tento vincular minha rotina de vendedor, Léo do brinco, com a vida do estudante, Leonardo”, conclui ele. Hoje, o estudante vende em todos os andares, principalmente no 10 e no 12.

Leonardo Vieira posando com seus acessórios na Uerj. Foto: Luana Maciel

Quando começou, ele conta que não tinha nenhuma preparação ou instrução. Mas, com o tempo, foi aprendendo estratégias para chamar mais atenção da clientela. A imagem do produto e a boa propaganda são essenciais para movimentar as vendas. “Os produtos precisam estar bonitos, precisam estar apresentáveis”, afirma Léo. 

Tudo isso demanda que o empreendedor esteja atento ao que está na moda e ao que interessa seu público. É importante, para ele, no caso dos acessórios, notar as cores do momento, acompanhar os comerciais de lojas e procurar saber o que está em pauta naquela estação. Mas todas essas estratégias, para o estudante, são um acúmulo de coisas que ele aprendeu com o tempo e que não se descobre de um dia pro outro.

Os acessórios são uma mistura de revendas e produções autorais. O objetivo, aponta Léo, é chegar em um ponto em que todas as vendas sejam de produtos próprios. A produção parte principalmente da namorada do estudante. Embora os dois produzam, ele aponta, ela acaba tendo mais aptidão para a produção e Léo, para as vendas. 

Uma dificuldade que Leonardo enfrenta é estar presente na internet. Agora que está prestes a se formar, ele explica que quer saber como alcançar seu público no mundo virtual da mesma forma que faz nos corredores do campus universitário. O plano é manter a loja de forma online após a conclusão de sua graduação. O futuro é incerto, alega Léo, mas enquanto busca finalizar os estudos e ir em busca de especializações, o seu negócio se mantém firme.

Instagram: leodobrinco.uerj

Assim, a Uerj revela uma nova faceta. Mais do que um grande centro de estudos, a Universidade é também um polo econômico, onde alunos que precisam vender seus produtos, seja qual for sua razão pessoal, encontram um público interessado e a oportunidade de começar a empreender.

Entre desafios, dificuldades e superações, os microempreendedores da Uerj reinventam seu local de estudos e encontram mais uma forma de ocupar e vivenciar a Universidade.

Literatura indígena na Universidade ressignifica visão sobre povos originários 

Literatura indígena na Universidade ressignifica visão sobre povos originários

Literatura indígena na Universidade ressignifica visão sobre povos originários

Por: Hyndra Lopes

                                                             Livros empilhados na biblioteca. Foto: Freepik

A literatura indígena contemporânea encontra desafios para se estabelecer no meio acadêmico, refletindo os estereótipos e preconceitos acerca destes povos e da sua cultura. Em entrevista com a professora Lívia Jacob, é discutida a importância de se estudar textos produzidos por autores indígenas e saberes tradicionais, além dos desdobramentos e lacunas da Lei n°11.645/2008 na promoção de uma educação pluralista.

 

A literatura indígena refere-se às obras escritas por autores indígenas. Apesar das histórias desses povos serem milenares, transmitidas tradicionalmente por meio da oralidade, a sua literatura na forma escrita, publicada por editoras, se popularizou oficialmente no Brasil a partir dos anos 1980, como resultado da luta dos indígenas pelos seus direitos e reconhecimento da sua identidade. Durante as décadas de 1980 e 1990, surgiram obras como Antes o Mundo Não Existia, de Umusi Pãrõkumu e Tõrãmu Kehíri, Oré awé roiru’a ma: Todas as vezes que dissemos adeus, de Kaká Werá Jecupé, e Histórias de índio, de Daniel Munduruku, que buscavam quebrar o estereótipo colonizador acerca dos indígenas por meio de uma narrativa feita por eles. A literatura, então, passa a ser um instrumento de resistência para defender as suas terras, a sua cultura e os seus povos.

Nesse contexto de conquista dos direitos indígenas, foi implementada a Lei n°11.645/2008, que tornou obrigatório o estudo da história e da cultura afro-brasileira e indígena no ensino básico do país. A legislação, apesar de tardia, tentou pluralizar a educação e apresentar a literatura indígena nas escolas, porém a limitação aos ensinos fundamental e médio representam um atraso na desconstrução do imaginário estereotipado acerca destes povos.

Lívia Penedo Jacob, professora e doutora em Estudos Literários pela Uerj, diz que a lei é uma tentativa de humanizar os povos originários, considerando que, anteriormente, estas cosmovisões eram apresentadas como “folclore” e culturas ultrapassadas. Contudo, ela defende que, para combater os estereótipos e preconceitos, é necessário que a temática indígena se torne obrigatória também no ensino superior: “(…) Se a temática indígena não se tornar obrigatória nas licenciaturas, se os futuros educadores não receberem uma formação adequada nesse sentido, a lei se tornará uma aporia difícil de contornar”.

Além da carência desses estudos na universidade, Lívia aponta outra questão que contribui para a visão distorcida acerca dos povos originários: a desvalorização da literatura indígena contemporânea no meio acadêmico. Observa-se uma preferência por textos clássicos de autores consagrados perante os não canônicos, configurando o que seria verdadeiramente literatura para os moldes acadêmicos. Isso exclui as obras indígenas deste patamar, visto que a entrada de seus autores no mercado editorial é, de certa forma, recente e a tradição oral acaba sendo desconsiderada. “Se hoje os graduandos em Letras ignoram os nossos autores

indígenas, podemos concluir que estão se formando sem conhecer a própria cultura do país”, afirma Lívia.

A professora nota também um certo receio, por parte dos estudiosos de Letras, de que o estímulo da leitura de produções contemporâneas de base oral possa causar desinteresse nos alunos acerca dos clássicos. “ (…) Se esquecem que entre escolher Machado de Assis ou Daniel Munduruku, há uma outra via possível: ensinar os jovens a ler e a interpretar ambos. Esse tipo de preconceito nos mostra a permanência de uma fantasia antiga, segundo a qual a nossa literatura se fundaria nas “belas-letras” legadas por autores canônicos, consagrados”.

 

  Lívia Jacob no lançamento do seu livro “As duras penas: o índio na literatura e a literatura indígena” na UFAM, ao lado                     de Carlysson Senna, Duhigó Tukano e Danielle Munduruku. Foto disponibilizada por Lívia Jacob.

 

A literatura indígena também tem o papel de preservação de mitos e lendas originárias, que correm o risco de desaparecerem com as constantes ameaças à existência desses povos. A importância disto se evidencia ainda mais atualmente, considerando que os indígenas representam menos de 1% da população brasileira, de acordo com o último Censo Indígena do IBGE (2022). Lívia defende que as tradições orais fazem parte do patrimônio cultural brasileiro e o seu registro por meio dos livros é a forma mais acessível de se arquivar esses saberes.

A Uerj possui projetos que promovem essa preservação, como o Opierj –  Observatório da Presença Indígena no Estado do Rio de Janeiro, desenvolvido pelo Proíndio – Programa de Estudos dos Povos Indígenas, da Faculdade de Educação (EDU), e o Nepiie – Núcleo de Estudos sobre Povos Indígenas, Interculturalidade e Educação, da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (Febef). As iniciativas visam registrar os aspectos socioculturais da população indígena presente no Rio de Janeiro, construindo bancos de dados com os saberes originários e produzindo materiais de auxílio para os educadores.

Lívia finaliza defendendo a importância do estudo dos saberes indígenas na atualidade. “Vivemos tempos bárbaros. O outro não existe. (…) O pensamento indígena defende uma ideia oposta, calcada na valorização da coletividade: o eu sem o outro é nada”, afirma a professora. A filosofia indígena inspira a humanização das práticas sociais e da relação do homem com os outros seres que habitam o planeta. A partir da leitura de obras de autores indígenas que tratem dos saberes tradicionais, aprende-se os valores destes povos e constrói-se uma nova visão de mundo, que condena os atos de genocídio e violência em curso e valoriza a diversidade e a preservação da fauna e da flora.

Berro! – Chamada de trabalhos para a II Jornada Identidades

Berro! - Chamada de trabalhos para a II Jornada Identidades

Evento organizado pelo Lacon Uerj propõe o debate de pesquisas que abordam diferentes aspectos da
cultura LGBTQIAPN+

Por: Fernanda Rodrigues 

Arte de divulgação do evento Berro ! . Divulgação: instagram

 

 

A chamada de resumos estendidos para a II Jornada Identidades, Gêneros, Corpos e Sexualidade, seminário integrante do evento BERRO!, está aberta até dia 30 de setembro no site do Lacon (Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo). A submissão está aberta a graduandos, graduados, pós-graduandos e pesquisadores e os envios devem ser feitos via berrouerj@gmail.com, utilizando o template do evento e com limite de 4 mil caracteres.

 

A taxa de inscrição deve ser paga até dia 17 de outubro, R$20,00 para graduados, pós-graduandos e pesquisadores e de R$10,00 para estudantes de graduação. O valor deve ser depositado pelo PIX do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBTQIAPN+: 97.468.433/0001-08 ou pelo PIX da Casa Nem: casanem2016@gmail.com. O comprovante da transação deve ser enviado para o email do evento berrouerj@gmail.com.

 

O encontro vai acontecer entre os dias 4 e 6 de novembro e tem como foco a reflexão sobre gênero, corpo e sexualidade, debatendo a representatividade e a luta da população LGBTQIAPN+ na academia, no mercado de trabalho, na saúde mental e em outras áreas.

 

Calendário do BERRO!

30/09/2025 – Prazo para submissão de artigos

10/10/2025 – Aceite dos trabalhos

17/10/2025 – Prazo de pagamento da taxa de inscrição (autores e coautores).

A romantização de transtornos psicológicos

A romantização de transtornos psicológicos

Especialista da Uerj alerta sobre os riscos da romantização de transtornos de saúde mental

Por: Fernanda Rodrigues 

Cartaz promocional do filme “Garota Interrompida”, ícone da estética sad girl.

 

A OMS revelou, este ano, que mais de 1 bilhão de pessoas convivem com transtornos
de ordem psicológica em todo o planeta, o que aumenta ainda mais a importância do debate
sobre a saúde mental na atualidade.Nas redes sociais como TikTok, Instagram e X (antiga
rede social Twitter) é possível notar, principalmente entre os jovens, tendências que focam na
glamourização de transtornos como ansiedade e depressão. A estética “sad girl”, por
exemplo, tem como base o sofrimento e a autodestruição feminina. 

Apesar de parecer que a ascensão desse tipo de estética amplifica o debate sobre
saúde mental, Renata Alves Paes, coordenadora do Laboratório Interface Neurociências e
Cognitivo Comportamental (LABINCC), afirma que essa romantização “afeta a sociedade de
maneiras significativas no que diz respeito à saúde pública, percepção social com uma
sociedade menos informada, menos empática e menos preparada para lidar com cuidados em
saúde mental”. Esse comportamento acaba tendo como consequência a banalização de
transtornos mentais, que passam a ser cada vez mais vistos como exagero ou frescura.
Isso porque a apropriação de uma condição psicológica sem a devida orientação
especializada é formada por estereótipos que contribuem ainda mais para a desinformação,
segundo a especialista. O reflexo que fica na sociedade é uma imagem equivocada de pessoas
que possuem tais transtornos, aumentando assim o preconceito que cerca a questão
psiquiátrica no Brasil.
A professora explicou que a origem desse tipo de comportamento romantizador está
ligado à busca por aprovação, validação e visibilidade, principalmente entre os jovens. Eles
entendem que, se tivessem um transtorno, receberiam mais atenção e seriam mais descolados.
De acordo com Renata, isso impacta a trajetória de vida de um jovem, à medida que
afeta a saúde mental, o desenvolvimento e a capacidade de receber ajuda adequada. As
principais consequências apontadas pela professora são: atraso ou evitação da busca
profissional, invalidação do sofrimento real, problemas de autoestima e, ainda, a
normalização de comportamentos de risco como a automutilação. Um estudo da Fundação
Oswaldo Cruz (Fiocruz) indica que, entre os anos de 2011 e 2022, as notificações de
autolesões na faixa etária de 10 a 24 anos aumentaram 29% a cada ano.
Na Uerj, atividades que enfocam saúde mental como a Conferência de Saúde Mental
numa Sociedade em Transição com Flavio Kapczinski – pesquisador brasileiro na área da

saúde, membro titular da Academia Brasileira de Ciências – e um censo sobre a saúde mental
dos estudantes vêm sendo realizadas. O censo pode ser respondido no link:
https://redcap.lampada.uerj.br/surveys/?s=9TLATERRD3LH87EH
“Somente através da educação digital crítica, da promoção de conteúdo responsável e
do fortalecimento dos serviços de saúde mental será possível transformar o ambiente virtual
em um espaço de verdadeiro acolhimento e informação qualificada, onde o sofrimento seja
compreendido em sua complexidade real, sem glamour, mas também sem vergonha”, conclui
Renata.

 

Os desafios da nova adolescência sob a perspectiva dos educadores

Os desafios da nova adolescência sob a perspectiva dos educadores

Com a exposição dos jovens alunos a uma rede de conexões, o processo educacional enfrenta algumas adversidades 

Por: Luana Maciel

Criança interagindo com o celular. Foto: Freepik

A série “Adolescência”, que conta a história de Jamie Miller, um menino de treze anos acusado de assassinar uma colega de classe, estreou na Netflix em março deste ano e atraiu a atenção -e a preocupação- de muitos pais, responsáveis e educadores. Essa preocupação se manifestou porque a série aborda os perigos aos quais os adolescentes estão expostos na internet e nas redes sociais, muitas vezes sem que os adultos nem ao menos estejam cientes desses perigos. 

Um detalhe que se destacou na produção foi um episódio que se passa na escola do suspeito do crime, e que mostra uma falta de conhecimento e um despreparo por parte dos professores para lidar com essa nova geração de jovens que são expostos constantemente a esse mundo digital. Eles têm acesso a celulares, tablets e computadores, que oferecem a eles um mundo inteiro de possibilidades. O problema é que esse mundo também apresenta uma série de prejuízos para as crianças e os adolescentes, afetando seus níveis de irritabilidade e concentração, por exemplo, e podendo prejudicar, no ambiente escolar, o aprendizado desses indivíduos. Assim, com a veloz ascensão tecnológica, surgem também muitos desafios a serem encarados na prática educacional.

Pessoas interagindo com computadores. Foto: Freepik

Segundo Carlos Henrique Fonseca, coordenador do Núcleo de extensão, pesquisa e editoração e professor de língua portuguesa do CAp-UERJ (Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira), um dos principais dilemas que surgem nesse contexto é o de adaptar a didática escolar ao tempo cada vez mais imediatista das crianças e dos adolescentes. Ele destaca que “a escola tem um tempo, que não é o tempo do imediatismo da rede social e por isso esses tempos se confrontam”. Existe uma pressa constante que atrapalha a habilidade de concentração dos jovens, e muitas vezes eles não conseguem dedicar tempo para leituras, raciocínios ou exercícios mais demorados. 

Outra problemática que o uso exacerbado dessas tecnologias pode provocar é o afastamento entre os indivíduos, prejudicando as relações sociais. Carlos Henrique afirma que esse uso sem equilíbrio deixa as pessoas muito individualistas. “A gente não consegue falar com o outro, a gente não consegue olhar o outro”, ressalta o coordenador. Esses cenários acabam promovendo um afastamento dos jovens em relação aos educadores e à própria instituição escolar em si. 

Jean Felipe de Assis, coordenador da secretaria de estágio e graduação do Cap-UERJ, explica que esse distanciamento entre adultos e jovens ocorre porque as gerações estão se sucedendo de maneira muito rápida, o que faz com que contatos e referenciais sejam perdidos e a falta de uma convivência mais profunda leva a um descompasso geracional.

Ele acrescenta ainda que esse distanciamento pode levar ao aumento da precarização da profissão docente, uma vez que alguns adolescentes alegam que tudo que se aprende na escola estaria disponível na internet e que ferramentas como o Google e a inteligência artificial fornecem resoluções de forma mais rápida. “Mas a educação não se reduz a algo preparatório, não se reduz ao resultado obtido num teste”, ele aponta, e acrescenta que ao se tratar de um cálculo matemático, por exemplo, a máquina vai fornecer um resultado mais rapidamente do que a mente humana, mas isso excluiria o processo educativo de realizar o cálculo em si. 

Para Jean, o principal propósito dos educadores brasileiros deve ser estabelecer uma rede de diálogo segura entre os professores e alunos. Ele salienta a importância desse convívio no âmbito escolar como meio de tentar amenizar e eventualmente resolver esse afastamento entre educadores e estudantes. “Estar presente é muito importante (…), o que nós temos é uma ausência de convívio”. Carlos Henrique concorda com a relevância da comunicação enquanto ponte, mas complementa dizendo que alguns limites também devem ser impostos: “certos pactos não são quebrados, certos combinados não são quebrados”. E, para o coordenador, esses pactos também se instituem por meio do diálogo. 

Foi pensando nesses desafios educacionais em relação à interação com os novos aparelhos tecnológicos, que em janeiro de 2025 foi sancionada a Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celulares nas escolas. De acordo com a lei, é vedado o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais durante aulas, recreios e intervalos, em todas as etapas da educação básica.

No entanto, também não se trata de isolar por completo o âmbito escolar. Carlos Henrique explica que a conexão com conteúdos que fazem parte da vivência dos alunos nas redes pode aproximá-los do material a ser ensinado. Além disso, salas equipadas com tecnologias que visem ampliar o acesso a instrumentos didáticos podem ser muito úteis. “A presença da tecnologia em sala de aula tem que ser ligada primeiro a uma certeza metodológica, como que você vai aproveitá-la”, ressalta o coordenador.

O que precisa acontecer, portanto, é o uso consciente e equilibrado das ferramentas tecnológicas no ambiente escolar. As crianças e os adolescentes, assim como toda a sociedade, estão imersos nesse mundo digital e inevitavelmente vão ter que lidar com as novas tecnologias. O papel do educador aqui é então mediar esse uso e instruir os alunos sobre a maneira correta de fazer uso desses instrumentos. “É tarefa do educador, é tarefa da escola, é tarefa da sociedade, corretamente nos ensinar e nos proporcionar ambientes que nos ajudem e nos auxiliem a pensar a tecnologia”, enfatiza Jean de Assis.

Não adianta lutar contra o avanço da tecnologia e do meio virtual, é um processo inevitável, conclui Jean. “A tecnologia tem que ser um instrumento, ela não pode ser um fim”, defende Carlos Henrique. O que pode ser feito, considerando a perspectiva dos dois membros do CAp-UERJ, é estimular o convívio e o diálogo entre os educadores

modernos e as crianças e adolescentes. Trata-se de construir uma educação mais aberta e comunicativa que privilegia o aspecto humano mesmo em meio a um mundo tão mecanizado.

Drag queens na Uerj: Coart promove evento exaltando a arte drag na universidade

Drag queens na Uerj: Coart promove evento exaltando a arte drag na universidade

Por: Hyndra Lopes

Iniciativa do projeto “Esquenta na Coart”, o “Drag Friday” contou com apresentações de cinco drag queens cariocas, carregadas de bom humor e lip syncs que animaram o público no pré-fim de semana da Uerj. Além dos fins diversionais, o evento, realizado no mês do orgulho LGBTQIAPN+, também contribuiu para dar visibilidade à arte drag e afirmar a existência dessa forma de expressão e das suas artistas no ambiente universitário.

Drag queens convidadas do “Drag Friday” no salão 2 da Coart. Da esquerda para a direita: Carla Freitas, Zaya, Tamara Taylor, Shanna Adoo e Akyza Queen. Foto: Hyndra Lopes
 
 

O “Drag Friday”, promovido pela Coordenadoria de Artes e Oficinas de Criação (Coart) e organizado pelo produtor de eventos Marcelo Carpenttiere, objetivou promover uma mostra artística descontraída e de curta duração para animar o pré-fim de semana da comunidade universitária e das pessoas da região. Pioneiro na Universidade em focar exclusivamente em performances de drag queens, o evento uniu os anseios das comunidades artística e LGBTQIAPN+ da Uerj e o destaque que a performance drag ganhou na mídia com o mês do orgulho.


A dinâmica do evento consistiu em apresentações de “lip sync” (dublagem sincronizada) de cinco drag queens locais, mediadas por Marcelo Carpenttiere, que exerceu a função de host da noite, introduzindo as artistas para a plateia. 

A primeira a performar foi Akyza Queen, com as músicas “The Best” e “Proud Mary”, de Tina Turner. Carla Freitas deu continuidade ao show com repertório musical exclusivamente de MPB, com “Preconceito” (Maria Bethânia), “Para uso exclusivo da casa” (Dhi Ribeiro), “Como nossos pais” (Elis Regina) e “Resposta ao tempo” (Nana Caymmi). Zaya, a terceira queen a subir ao palco, performou “No Pain, (No Gain)”, de Betty Wright, e surpreendeu ao voltar para uma segunda apresentação homenageando Ney Matogrosso, com “Sangue Latino” e “O Vira”. Tamara Taylor veio em seguida com “I Will Survive” (Gloria Gaynor) – grande hino da comunidade LGBTQIAPN+ – e “And I Am Telling You I’m Not Going” (Jennifer Hudson). Ao final da sua performance, ela ainda fez uma dinâmica convidando algumas pessoas para dançarem ao seu lado. Fechando a noite, Shanna Adoo se apresentou como Alcione, animando a plateia com as músicas da cantora “O que eu faço amanhã”, “Pior é que eu gosto” e “A Loba”, além do seu cover de  “Evidências” (Chitãozinho e Xororó).


O significado por trás de um evento como o “Drag Friday” na Universidade, para pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ e para estas artistas que performam como drag, é de reconhecimento. Essa arte, apesar de ser considerada por historiadores como uma prática existente desde a Grécia Antiga, posteriormente aperfeiçoada aos moldes atuais no século XX com os “drag balls” em Nova York, ainda é marginalizada e pouco estudada no meio acadêmico. Marcelo Carpenttiere denuncia a desvalorização da arte drag, sobretudo das artistas menores do Rio de Janeiro, e aponta a importância de apresentá-la na universidade, para construir um ambiente mais diverso e inclusivo, tanto nas suas representações artísticas quanto para os membros da comunidade.


Carpenttiere diz que, pela grande mídia e pelos estudiosos que a conhecem superficialmente, a cultura drag é tratada muitas vezes apenas como performance, devido aos preconceitos em relação à sua prática, invisibilizando a história de resistência atrelada a ela e as suas referências nos campos da moda, da cultura pop, do humor e da dublagem, por exemplo, que vão além do academicismo. 


Nesse sentido, a arte drag se torna algo nichado, de certa forma, dentro da comunidade LGBTQIAPN+, não recebendo a devida atenção pelo meio acadêmico e sendo pouco explorada pelo mercado, que não oferece grandes oportunidades para as artistas. Estas dificuldades de visibilidade se intensificam para as drag queens locais, já que os conteúdos midiáticos voltados para essa cultura são majoritariamente estrangeiros e o receio de apresentar uma arte, socialmente vista como marginal, em grandes teatros e espaços culturais tradicionais limita as suas oportunidades. Por isso é tão significativa a promoção de eventos como o “Drag Friday” na Uerj, como diz Carpenttiere: “São artistas muito subvalorizadas e que mereciam muito mais palco, e muitas vezes não tem pela falta de um espaço. Aí que a universidade entra como uma facilitadora desses espaços, como um lugar onde se tem a oportunidade de vivenciar o que no meio comercial é um pouco mais difícil. (…) A universidade é um lugar de pensar a cultura de um jeito diferente, de um jeito de pesquisa, fruição, institucionalização e fortalecimento”.


O evento também trouxe a reflexão sobre artistas marginalizadas e que representam minorias sociais se apresentarem, com a sua arte, em uma universidade de tamanha relevância no Rio de Janeiro. Historicamente, pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ enfrentam maiores dificuldades para adentrar espaços acadêmicos e, principalmente, para apresentarem neles a sua cultura e as suas formas de expressão. Fazer-se presente na universidade e mostrar a sua arte para um público universitário tem, para elas, um caráter simbólico especial, valorizando não só o seu trabalho artístico, mas também a si mesmas como artistas. ”Nós conseguimos sair do gueto e hoje entramos na faculdade para mostrar o nosso trabalho”, frisa Shanna Adoo, uma das queens convidadas do “Drag Friday”, ao final de sua apresentação.

Shanna Adoo durante apresentação no “Drag Friday”. Foto: Hyndra Lopes
Além de possibilitar mais visibilidade para as drag queens da região e um local no subúrbio da cidade para apreciação dessa arte, de acordo com Carpenttiere, a vinda dessas artistas de fora da Universidade para o espaço da Coart, trazendo uma proposta que foge dos padrões artísticos tradicionais academicistas, promove um intercâmbio cultural entre elas e os membros da comunidade da Uerj. A partir dessa troca de saberes, alunos, docentes e técnicos entram em contato com a arte drag e se sentem estimulados a praticarem ou pesquisarem mais a fundo sobre ela, o que contribui para atenuar os preconceitos e estereótipos. Por esses benefícios que eventos como o “Drag Friday” reforçam a importância da Coart para a Uerj e para a Zona Norte, pois ela promove um ambiente que preza pela diversidade e pela renovação do ambiente cultural, e mostram a relevância de se organizar mostras artísticas não convencionais com mais frequência.
 
 
 

 

 

 

 

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Quando o transporte vira barreira: a mobilidade urbana e o cotidiano dos  alunos da Uerj

Quando o transporte vira barreira: a mobilidade urbana e o cotidiano dos alunos da Uerj

Segundo especialista, os problemas recorrentes no transporte público afetam diferentes aspectos da vida acadêmica e pessoal dos estudantes

Por: Maria Clara Jardim

Vagão de trem lotado (Foto: Oleg Sergeichik / Unsplash)

Apesar do constante aumento das tarifas dos meios de transporte,  a elevação do preço das passagens não causa alteração na qualidade do serviço prestado ao cidadão do estado do Rio de Janeiro. O cenário se mantém o mesmo: a baixa circulação de linhas de trens e ônibus que são frequentemente utilizadas gera superlotação e demonstra o quanto o transporte instável necessita de melhorias em sua gestão. Para parte dos estudantes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a dificuldade para chegar ao campus é evidente e afeta diretamente o desempenho acadêmico, a saúde mental e até a permanência no ambiente universitário.

De acordo com especialistas, os desafios vividos pelos jovens estudantes dentro dos transportes públicos podem ocasionar diversas consequências negativas no ambiente acadêmico, como faltas por atrasos, dificuldade de concentração, acúmulo de trabalhos, excesso de sono e, por vezes, até a desistência de disciplinas. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) do IBGE, realizada em 2019, moradores do Rio de Janeiro gastam, em média, 7,4 horas por semana em deslocamentos entre casa e trabalho — dado que, embora não trate exclusivamente do acesso ao ensino superior, evidencia a precariedade da mobilidade urbana na região. Essa realidade impacta também os estudantes, que enfrentam longas jornadas até o campus e têm sua rotina acadêmica diretamente afetada.

 

Além de comprometer a performance acadêmica, a rotina de deslocamentos longos e instáveis também pode afetar a saúde de quem frequenta a universidade. A vice diretora do Instituto de Psicologia da Uerj, Laura Quadros, afirma: “Os impactos são relevantes e configuram uma situação de estresse prolongado com danos à saúde como um todo, visto que tais impactos atuam no organismo desdobrando-se em cansaço, dores musculares, irritação e insegurança”. Ela destaca também que os reflexos do desgaste provocado pelo transporte público são imediatos e afetam a concentração, agilidade cognitiva e emoções.

 

Aprender é um processo que integra mente, corpo, emoções, nutrição, ou seja, não depende exclusivamente da disponibilidade subjetiva, mas também de um corpo que experimente boas condições de deslocamento e organização social”, explica Quadros. A percepção da professora se confirma nos relatos de estudantes da Uerj, que enfrentam diariamente os efeitos da mobilidade urbana.

A estudante de jornalismo e moradora de Realengo, Lívia Martinho, utiliza o trem diariamente para se locomover até a Uerj e descreve sua rotina: “A experiência com o trem é extremamente negativa, o serviço é péssimo e marcado por inúmeros problemas. A superlotação é uma constante, os atrasos são frequentes e os veículos geralmente estão em más condições […] No trajeto até a universidade, enfrento diversas dificuldades que tornam o deslocamento cansativo e desgastante. O tempo excessivo gasto para chegar ao destino é um dos principais incômodos, agravado pela impossibilidade de sentar devido à lotação dos veículos. É comum fazer todo o percurso em pé, em um ambiente apertado e desconfortável. Os atrasos constantes  comprometem a pontualidade e a qualidade”, relata a estudante.

 

A baixa qualidade do serviço não afeta somente os usuários dos trens. A universitária e moradora de Bonsucesso, Vitória Perez, que utiliza diariamente a linha de ônibus para chegar à Uerj, relata uma experiência desgastante. “Terrível”, resume, ao avaliar o serviço. Entre as principais dificuldades, ela destaca a demora no trajeto, agravada pela irregularidade da frequência da linha. “Às vezes demora mais de 40 minutos para passar, principalmente para ir à Uerj, por isso está sempre lotado”, afirma. A superlotação e a imprevisibilidade no tempo de espera tornam a rotina ainda mais exaustiva.

 

Os dois relatos comprovam o quanto a rotina de deslocamento afeta o cotidiano acadêmico dos estudantes. Tanto Vitória Perez quanto Lívia Martinho relatam a necessidade de acordar mais cedo e chegar em casa muito tarde, o que reduz o tempo de descanso, lazer e realização de atividades da faculdade.

 

A realidade enfrentada pelos alunos revela um problema estrutural, que atravessa dimensões políticas, sociais e institucionais. Para a professora Laura Quadros, pensar alternativas como residências universitárias e formas de hospedagem estudantil é um passo possível dentro de políticas de permanência. Apesar dos limites orçamentários, ela defende que o engajamento coletivo é um caminho essencial para transformar o cotidiano de quem luta, todos os dias, apenas para chegar.

 

 

 

Quando o cinema vira ponte para acolhimento e resistência LGBT+ na Universidade

Quando o cinema vira ponte para acolhimento e resistência LGBT+ na Universidade

Feixes da História mostra que o orgulho também se constrói nos detalhes do cotidiano acadêmico

 

Por Samira Santos

 

Na tarde de uma segunda-feira fria de junho, o auditório 9028 da Uerj viu suas cadeiras se esgotarem. Estudantes de História, mas também de Engenharia, Jornalismo, Psicologia, Serviço Social, Ciências da Computação, entre outros, ocuparam o espaço para assistir a um filme de 1975: The Rocky Horror Picture Show. O que parecia um evento pontual transformou-se rapidamente em um espaço de acolhimento, pertencimento e afirmação da diversidade. Era o início de mais uma edição do “Feixes da História”, projeto que integra as ações do LPPE (Laboratório de Pesquisa e Práticas de Ensino, do curso de Licenciatura em História) e que, neste mês de junho, assumiu protagonismo dentro das celebrações do Orgulho LGBTQIAPN+.

 
Alunos de variados cursos assistindo Nunca fui Santa (Foto: Victoria de Freitas)

A proposta era simples, mas forte: exibir filmes com temática LGBTQIAPN+ e promover debates após as sessões. Mas o que se revelou foi algo maior. A sala, pensada para poucas pessoas, ficou pequena diante do desejo coletivo de compartilhar, ouvir e visibilizar vivências historicamente silenciadas.

 

A força da escuta

O projeto, coordenado pelo professor Flaviano Isolani e com apoio do professor Eduardo Ferraz, nasceu da inquietação: como ensinar História de forma crítica e acessível? A resposta veio por meio da linguagem audiovisual, aproximando cinema e ensino, especialmente voltado para o vestibular da Uerj.

As bolsistas Mariana Lemos e Victória de Freitas, duas das responsáveis pela idealização do ciclo de filmes do mês do Orgulho, contam que o projeto já existia com atividades voltadas para o Spotify e podcasts, mas ainda carecia de maior visibilidade no ambiente universitário.

Durante a sessão do filme Nunca fui santa (Foto: Samira Santos)

“Somos duas mulheres LGBTs dentro de um espaço onde os debates sobre vivências LGBT ainda são muito restritos. A gente percebeu que ninguém estava fazendo nada para o mês do Orgulho, nem o coletivo LGBT, então pensamos: por que não fazer a gente?”, conta Victória.

Em menos de uma semana, elas haviam escolhido os filmes, produzido as artes gráficas, definido os horários e organizado os debates. “Foi uma correria absurda, mas valeu cada segundo”, diz Mariana, com um sorriso que carrega alívio e orgulho.

 

A potência de se ver representado

A seleção de filmes foi estratégica. Começou com The Rocky Horror Picture Show (1975), passou por Nunca Fui Santa (1999), segue com Crush: Amor Colorido (2022), e se encerra com Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016). Cada obra traz em si uma camada da experiência LGBT em diferentes contextos históricos, culturais e geográficos.

“O cinema é uma forma de ensinar história pelas margens”, explica Mariana. “Com Rocky Horror, por exemplo, falamos sobre identidade de gênero nos anos 70; com Moonlight, discutimos raça, masculinidade e sexualidade na infância e juventude negra nos EUA”.

Além do conteúdo, o ambiente foi pensado para o acolhimento. Após cada exibição, o cine-debate é aberto. Alguns apenas assistem, outros desabafam, compartilham suas histórias e aprendizados. “É olhar para o outro e dizer: eu te vejo, e você não está sozinho”, afirma Victória.

A recepção foi surpreendente. Mais de 40 pessoas na primeira sessão. Pessoas no chão, em pé, estudantes de diferentes cursos e idades. “A gente achou que só ia ter a gente e nossos amigos”, brinca Mariana. “Ver a sala cheia foi emocionante. Mostrou a carência que existe desses espaços dentro da Universidade”.

 

Representatividade como ferramenta de resistência

Apesar da crescente presença de discursos de ódio na sociedade e do avanço de pautas conservadoras, projetos como o “Feixes da História” reafirmam a universidade como um lugar de resistência. “Quando a gente lota uma sala com 40 pessoas para falar sobre orgulho, sexualidade e identidade, estamos também dizendo: a gente está aqui. E vamos continuar aqui”, afirma Victória.

Mais do que eventos pontuais, o projeto pretende se consolidar. Já há planos para futuros ciclos de filmes, podcasts e novas temáticas, como musicais e filmes de terror, sempre com uma lente crítica sobre gênero, raça, política e afeto.

Porta do auditório 9028 com a divulgação dos filmes (Foto: Samira Santos)

O LPPE, que completa 20 anos, reafirma sua importância nesse processo. Criado em 2002 para ampliar as práticas de ensino em História, o laboratório já produziu CDs, podcasts, entrevistas e eventos com especialistas. Hoje, torna-se palco também para vozes LGBT dentro da universidade, unindo academia e subjetividade, teoria e vivência.

“Falar sobre cinema é falar sobre o mundo. Falar sobre diversidade no cinema é mostrar que a história não é feita só pelos vencedores, mas também por quem resistiu e resiste às margens”, resume Mariana.

A julgar pela repercussão dessa primeira edição, a sala cheia, os olhos marejados e os abraços trocados após os debates, fica claro que o “Feixes da História” já marcou seu lugar na trajetória de muitos estudantes.

E como toda boa história, essa também merece continuar sendo contada.

Primeira Mostra Uerj de Bandas (MUBA) tem estreia marcada para o mês de junho

Primeira Mostra Uerj de Bandas (MUBA) tem estreia marcada para o mês de junho

O evento é aberto ao público e acontecerá entre os dias 9 e 13 de junho no Teatro Odylo Costa, filho, contando com apresentações diárias de bandas formadas por alunos, servidores e funcionários terceirizados da Uerj. 

Por: Hyndra Lopes 

 

[caption id=”attachment_3252″ align=”alignnone Banda tocando (reprodução: internet)
 
 
A Mostra Uerj de Bandas terá a sua primeira edição em 2025 e irá contemplar 10 grupos de gêneros musicais variados, formados por membros da comunidade universitária. Ela acontecerá durante a segunda semana do mês de junho das 18h30 às 20h30, com apresentações diárias de duas bandas. A retirada de ingressos será por meio da plataforma Sympla, mas haverá possibilidade de entrada sem o QR code. 

O evento foi proposto pela Coordenadoria de Artes e Oficinas de Criação (Coart), em parceria com a Divisão de Teatro da Uerj, e organizado por Ilana Linhales – professora de música do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp-Uerj) e coordenadora da Coart – e Marcelo Carpenttiere – produtor cultural da Coart. O intuito dos idealizadores com o projeto é dar visibilidade para todos os talentos e práticas artísticas da comunidade, criando um espaço aberto para produção cultural e consumo desta no ambiente universitário. 

Em entrevista para o Aconteceh, Ilana Linhales e Marcelo Carpenttiere explicam como a ideia da Mostra surgiu e quais os seus objetivos com ela, além de ressaltar a inclusão dos

servidores e funcionários terceirizados e a importância da promoção de eventos como a MUBA e do incentivo cultural na Universidade. 

A MUBA, de acordo com Linhales, foi pensada desde 2024, mas a sua concretização se deu apenas este ano, quando o orientador de música da Coart, Rafael Camacho, fez o regulamento e a proposição do projeto. A ideia de fazer uma mostra surgiu como uma alternativa mais viável à do festival, já que não precisaria de premiação e jurados, e alinhava-se mais ao foco dos idealizadores, de promover a apreciação e a visibilidade dos grupos musicais com apresentações mais longas, que permitissem ao público curtir o ambiente do teatro. A professora diz que os Festivais da Canção – eventos musicais de MPB transmitidos pela TV no final dos anos 1960 – e os 60 anos de golpe militar, completados no ano passado, inspiraram a criação da Mostra. 

Carpenttiere aponta que o objetivo principal com a criação da MUBA é democratizar os equipamentos culturais da Uerj, ao fazer com que a sua comunidade saiba que eles existem e se aproprie deles, além de proporcionar a abertura para essas pessoas exporem os seus talentos. Em complemento, Linhales salienta para a troca de saberes entre as bandas, a partir do compartilhamento de instrumentos e do espaço físico, pois “tudo o que se propõe dentro de uma universidade é uma ação educativa”, diz a professora. Dessa forma, a Mostra contribui para a valorização da Universidade, já que o desenvolvimento do âmbito cultural é essencial para uma instituição educativa. 

Músicos tocando em conjunto (Reprodução:  internet)

 

A expansão da participação para além dos estudantes, com a inclusão de servidores e funcionários terceirizados, é algo que chama a atenção no projeto e Linhales justifica a decisão ao indicar que a comunidade universitária não é composta apenas de um grupo: “Somos um organismo vivo e, enquanto organismo vivo, estamos em uma troca de ações em que um depende do outro, por mais que em alguns momentos, um atue mais que os outros (…) A existência da Universidade, do campo de conhecimento, de ensino e de pesquisa e extensão depende de todos os sujeitos, que são os estudantes, os servidores (tanto docentes, quanto técnicos administrativos) e os terceirizados”. 

Os organizadores também ressaltam a importância da promoção de eventos como a MUBA na Uerj, pois eles proporcionam o encontro e a difusão de saberes a partir de manifestações artísticas e culturais, além de motivarem outras instituições de ensino a organizarem seus próprios festivais, valorizando a cultura no país. “Cultura é tudo, então falar de cultura é falar da nossa própria existência”, diz Linhales. A professora finaliza declarando que o incentivo cultural é essencial para se promover iniciativas como esta, mas que a busca por ele se torna uma luta mundial devido à falta de interesse na cultura e na arte, elementos que, justamente, fazem de um povo seres sensíveis e pensantes. 

Nesse sentido, a Coart, com os eventos e atividades semanais culturais que promove, teria capacidade de se expandir para além do Centro Cultural da Uerj, tornando-se o Centro Cultural da Zona Norte. Mas, para isso, exige um grande trabalho de divulgação dentro e fora da Universidade e a MUBA é uma oportunidade de pessoas desses dois meios conhecerem essas iniciativas e darem maior visibilidade para o âmbito cultural da Uerj.