A decadência dos técnicos brasileiros?

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A decadência dos técnicos brasileiros?

Treinadores locais perdem espaço para estrangeiros, que ganham cada vez mais relevância no futebol nacional

Por: Eduardo Campos

Recentemente, após a contratação do italiano Carlo Ancelotti para ser técnico da seleção brasileira, um debate importante foi retomado: o desaparecimento de técnicos brasileiros do cenário nacional e internacional do futebol para o aparecimento cada vez maior de treinadores estrangeiros. Do início do século XXI até quase o final da década de 2010, havia um cenário de hegemonia dos comandantes nascidos no país, que dominavam os títulos em território local e até conseguiam conquistas internacionais.

Contudo, a tranquilidade para os técnicos brasileiros acabou com a chegada de Jorge Jesus ao Flamengo em 2019. Campeão da Libertadores e do Campeonato Brasileiro com atuações magistrais, o técnico português encantou a todos e serviu como modelo para outros clubes buscarem a contratação de treinadores estrangeiros. Dessa forma, mais comandantes de fora do país se tornaram vitoriosos aqui, como seus compatriotas Abel Ferreira, no Palmeiras, e Arthur Jorge, no Botafogo, além de boas passagens dos argentinos Jorge Sampaoli pelo Santos e Juan Pablo Vojvoda pelo Fortaleza.

Reprodução: Instagram (@jorgejesus)

Jorge Jesus, ex-técnico do Flamengo, com o título da Recopa Sul-Americana

Para se ter noção da diminuição da relevância de técnicos brasileiros nos tempos atuais, alguns dados foram levantados através do site Transfermarkt, especializado em estatísticas do mundo futebolístico. Todas as informações possuem validade até o momento da postagem desta notícia. No Brasileirão Série A, são nove treinadores estrangeiros, quase metade da liga. No futebol de seleções, há apenas um técnico brasileiro treinando uma nação: Sylvinho, comandante da fraca e sem tradição Albânia. Nos principais campeonatos europeus (alemão, espanhol, francês, inglês e italiano), nenhum.

Reprodução: Afrim Peposhi/FSHF

Sylvinho, treinador da Albânia, em entrevista coletiva

Porém, não basta ser estrangeiro para ter sucesso treinando uma equipe no Brasil. Existem diversos casos de fracassos retumbantes, como Renato Paiva, português que fracassou em Bahia, Botafogo e Fortaleza, e Álvaro Pacheco, mais um lusitano que conseguiu a proeza de ser demitido do Vasco após trinta dias e quatro jogos, um empate e três derrotas, com direito a uma goleada de 6 a 1 sofrida para o maior rival, Flamengo.

Reprodução: Thiago Ribeiro/AGIF

Álvaro Pacheco, ex-técnico do Vasco, com sua clássica boina

Além disso, alguns técnicos brasileiros, principalmente ex-jogadores, também tiveram ou estão tendo destaque por clubes do país. Fernando Diniz, meio-campista de certa relevância no Fluminense, conquistou uma Libertadores inédita pelo próprio Tricolor das Laranjeiras. Rogério Ceni, um dos maiores goleiros da história do Brasil, ganhou um Brasileirão com o Flamengo e faz boa passagem pelo Bahia. Filipe Luís, lateral-esquerdo histórico em solo europeu e nacional, é uma das grandes promessas da nova geração de treinadores brasileiros com seu trabalho no Flamengo, que resultou, por enquanto, em uma Copa do Brasil.

Entrevistado pela AJ, Ronaldo Helal, professor da graduação de jornalismo na Uerj e coordenador geral do Leme (Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte), opina que havia uma certa soberba dos comandantes brasileiros com os estrangeiros, já que o Brasil é o maior campeão mundial e eles se consideravam melhores por isso. Porém, os técnicos de fora começaram a evoluir taticamente e, citando Jorge Jesus, fizeram com que os treinadores locais começassem a se preparar melhor para não serem apenas gestores de grupo. Helal também elogiou os técnicos brasileiros citados no parágrafo anterior, além de criticar a escolha da CBF por Carlo Ancelotti devido a sua falta de experiência no cenário de seleções.

Ao analisar as posições sobre esse tema, nota-se que a questão da nacionalidade dos treinadores não é algo simples de ser compreendido. Existem mudanças que devem ser feitas no preparo dos técnicos brasileiros, mas falar outro idioma não é garantia que um comandante fará sucesso. Um debate raso sobre um assunto tão importante é perigoso para o futuro do futebol nacional, que pode se ver refém das escolas internacionais de treinadores sem olhar para o próprio território, resultando em um número cada vez maior de estrangeiros no Brasil e menor número de brasileiros comandando equipes relevantes.

A decadência dos técnicos brasileiros?

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