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Os microempreendedores da Uerj
Conheça a história de três alunos que veem a Universidade, para além do ensino, também como um polo econômico
Por: Luana Maciel
Ao caminhar pelos corredores da Uerj, qualquer pessoa poderá encontrar alunos da própria instituição vendendo diferentes produtos a quem estiver interessado. Desde docinhos a acessórios, esses produtos demandam preparação, planejamento e estratégias de inovação desses estudantes. A rotina universitária passa por uma reformulação, de modo que, além dos estudos, eles têm um novo compromisso: as vendas.
Alice Moraes, Douglas Xavier e Leonardo Vieira são três desses microempreendedores que construíram pequenos negócios entre as rampas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Alice Moraes
Alice Moraes, aos 20 anos, cursa jornalismo e vende brigadeiros, casadinhos e outros doces na Universidade. Os docinhos são produzidos pela própria Alice. A iniciativa partiu dela e do namorado, com um objetivo claro em mente: juntar dinheiro para planejar seu casamento.

Ela conta que seu namorado, Israel, estudante de letras, fazia algumas vendas, mas por uma questão de timidez e logística, hoje ajuda mais com a parte técnica, anotando os números de venda de cada dia e administrando as redes sociais. Já a parte de vender ao público mesmo, ficou por responsabilidade de Alice. Ela vende do nono ao décimo segundo andar e na fila do bandejinho.
Na verdade, a jovem revela que inicialmente não queria fazer parte diretamente do processo de venda. “No início eu tinha vergonha. Não queria vender não, no começo, só fazia”, relata Alice. Mas quando ela começou a vender junto do namorado e percebeu que obtinha melhores resultados, ela descobriu que era boa neste processo de interação com possíveis compradores. E, o que antes era evitado por medo de vergonha, agora faz parte do dia a dia da estudante, que afirma gostar do que faz, superada a timidez inicial.
Alice explica que escolheu vender seus produtos especificamente na Uerj por ser não só um local que ela frequenta, mas também que muitas pessoas habitam, demonstrando uma grande oportunidade comercial. “É um dos lugares que eu mais convivo. Tem uma grande quantidade de pessoas, de alunos, de gente. Aí eu vi que seria bom vender aqui”, conclui a jovem.
E por ser tão imensa e englobar tantos indivíduos, o local é, para a aluna, também uma oportunidade de conhecer novas pessoas e criar laços: “Os docinhos me proporcionaram esse contato maior com os estudantes, com as pessoas, com os servidores da Uerj. Até fazer amizades também”. Alice acredita que cada empreendedorismo pode ajudar, de alguma forma, as pessoas que frequentam a Uerj. “Às vezes a pessoa tá com vontade de comer um docinho, mesmo que pareça uma coisa pequena, você acaba alegrando o dia dela”, afirma a aluna.
Instagram: doces_a.i
Douglas Xavier
Douglas, de 26 anos, está no quinto período de direito. Mas, pela Uerj, ele é muito mais conhecido pelo apelido de “DG do brownie”. Douglas aponta que, na verdade, quem começou a produzir brownies para comercialização foi uma amiga. DG era apenas seu cliente fixo e um grande fã dos doces. Tudo mudou quando, no final do terceiro período, a colega, que iria começar a estagiar e estava se sentindo sobrecarregada, percebeu o potencial de Douglas e o chamou para realizar as vendas e dividir o lucro.

DG conta que no seu primeiro dia de vendas, apesar do nervosismo, o saldo de brownies vendidos foi um total de cento e um. A amiga ficou completamente surpresa, uma vez que o número médio de brownies por dia até então variava de trinta a quarenta.
Ele relata que nos seus primeiros dias de venda, ficava perto da fila do bandejão, tentando se aproximar de possíveis clientes. “Eu abordava o pessoal, brincava. Às vezes a pessoa não sabia nem que queria doce, no final ela saía com três, com quatro”. Daí pra frente DG se tornou um verdadeiro sucesso na Universidade.
Douglas conta que já havia tido contato com o atendimento ao público antes. Sua mãe vende cosméticos e roupas e seu pai tem um estacionamento. Ele destaca como essas experiências o ajudaram a desenvolver uma “lábia”, que hoje é fundamental no exercício das vendas, já que ele sente menos vergonha ao interagir com as pessoas. “O não eu já tenho, então eu vou atrás do sim (…), respiro fundo, vamos à luta”, diz ele.
A principal motivação do estudante é a busca por maior estabilidade e liberdade financeira. A venda dos doces o ajudou a ficar mais tranquilo quanto a essa questão, conta o estudante. Apesar disso, o negócio também envolve muitas dificuldades. Com um estágio pela manhã e o curso de Direito à noite, DG fala que equilibrar a rotina é uma tarefa muito complicada. Por isso, ele se organiza de forma que as vendas ocorram nas segundas, quartas e sextas, e o resto da semana útil é voltado para os estudos do curso. Atualmente, a produção é própria do estudante, com ajuda da namorada
A comercialização de Douglas não se restringe à Uerj. Ele vende nos seus treinos de futebol americano, no ônibus vindo e voltando da Universidade, a caminho do estágio e onde mais houver procura por seus doces. Em todo lugar, o apelido o acompanha- DG do brownie já se tornou sua marca registrada.
Instagram: dgxavieer
Leonardo Vieira
Leonardo Vieira dos Santos cursa Ciências Sociais na Uerj desde 2017. Aos 29 anos, comercializa brincos, anéis, colares e outros acessórios no espaço da Universidade. Popularmente conhecido pelos alunos da Uerj como “Léo do Brinco”, Leonardo conta que tem experiência com vendas desde os treze anos, trabalhando em feiras. O momento em que passou a tratar especificamente dos acessórios, porém, foi no Ensino Médio.
A escolha, segundo ele, foi movida pelo que ele acreditava que acarretaria lucro, considerando que precisava do dinheiro para ajudar a sustentar a família na época. Léo explica que a Uerj se tornou palco das suas vendas pois faz parte do seu dia a dia. “Eu tento vincular minha rotina de vendedor, Léo do brinco, com a vida do estudante, Leonardo”, conclui ele. Hoje, o estudante vende em todos os andares, principalmente no 10 e no 12.

Quando começou, ele conta que não tinha nenhuma preparação ou instrução. Mas, com o tempo, foi aprendendo estratégias para chamar mais atenção da clientela. A imagem do produto e a boa propaganda são essenciais para movimentar as vendas. “Os produtos precisam estar bonitos, precisam estar apresentáveis”, afirma Léo.
Tudo isso demanda que o empreendedor esteja atento ao que está na moda e ao que interessa seu público. É importante, para ele, no caso dos acessórios, notar as cores do momento, acompanhar os comerciais de lojas e procurar saber o que está em pauta naquela estação. Mas todas essas estratégias, para o estudante, são um acúmulo de coisas que ele aprendeu com o tempo e que não se descobre de um dia pro outro.
Os acessórios são uma mistura de revendas e produções autorais. O objetivo, aponta Léo, é chegar em um ponto em que todas as vendas sejam de produtos próprios. A produção parte principalmente da namorada do estudante. Embora os dois produzam, ele aponta, ela acaba tendo mais aptidão para a produção e Léo, para as vendas.
Uma dificuldade que Leonardo enfrenta é estar presente na internet. Agora que está prestes a se formar, ele explica que quer saber como alcançar seu público no mundo virtual da mesma forma que faz nos corredores do campus universitário. O plano é manter a loja de forma online após a conclusão de sua graduação. O futuro é incerto, alega Léo, mas enquanto busca finalizar os estudos e ir em busca de especializações, o seu negócio se mantém firme.
Instagram: leodobrinco.uerj
Assim, a Uerj revela uma nova faceta. Mais do que um grande centro de estudos, a Universidade é também um polo econômico, onde alunos que precisam vender seus produtos, seja qual for sua razão pessoal, encontram um público interessado e a oportunidade de começar a empreender.
Entre desafios, dificuldades e superações, os microempreendedores da Uerj reinventam seu local de estudos e encontram mais uma forma de ocupar e vivenciar a Universidade.



