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Pele de tilápia acelera reabilitação de animais silvestres
Sustentabilidade e potencial científico caminham juntos no tratamento de pessoas e animais com o uso dos biocurativos
Por: Sofia Lang

O aumento na frequência de desastres naturais causados pela mudança climática, somado ao crescimento urbano acelerado, elevou o número de resgates de animais silvestres no Brasil. E a pele de tilápia tem se mostrado um curativo biológico eficaz para queimaduras e lacerações. Por ser uma solução barata, simples e rápida, o método oferece maior conforto aos animais vítimas dessas tragédias.
O estudo que propôs a pele de tilápia como biocurativo teve origem em Pernambuco, em 2011, e foi idealizado pelo cirurgião plástico Marcelo Borges. Devido à escassez de investimentos e infraestrutura, a pesquisa avançou apenas em 2014, sob o auxílio do médico Edmar Maciel, do Instituto Dr. José Frota (IJF), no Ceará. Com o aporte financeiro da empresa Enel, Maciel integrou ao projeto o professor Odorico de Moraes, da Universidade Federal do Ceará, para a realização de estudos pré-clínicos no Núcleo de Pesquisas e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM). A pele de tilápia foi o primeiro curativo biológico de origem animal a receber aprovação da ANVISA no Brasil, em 2025.
Rica em ômega-3, a pele de tilápia contém substâncias que auxiliam no combate a bactérias e na redução de inflamações, favorecendo a recuperação dos tecidos.Também é rica em colágeno dos tipos I e III, o que lhe confere alta resistência, flexibilidade e maior capacidade de aderência à lesão. Tais fatores estimulam o crescimento celular, acelerando a regeneração da pele machucada. Assim, o tratamento com a pele de tilápia é capaz de prevenir infecções e diminuir o risco de complicações graves.
A presença de feridas na pele torna o indivíduo mais vulnerável ao ambiente externo, já que ela é o maior órgão do corpo humano e desempenha funções essenciais como a proteção contra agentes externos e microrganismos. A pele de tilápia atua na termorregulação, na percepção sensorial e na síntese de vitamina D. Por essa razão, o investimento em tecnologias eficazes que protegem a ferida é extremamente importante na recuperação de animais para voltarem a seus habitats naturais sem muitas sequelas.
Outro ponto que destaca a pele de tilápia como um biocurativo ideal é sua sustentabilidade. No Brasil, a tilápia — presente em todo território nacional — é um peixe exótico e foi declarada em novembro de 2025 como uma espécie invasora. Não é nativa do país e prolifera sem controle, pois não há predadores naturais para a espécie. Ainda assim, é cultivado de forma ampla no Brasil, que se transformou num dos maiores produtores mundiais de tilápia. Apesar disso, a pele do animal ainda é pouco aproveitada. Vista apenas como um subproduto, essa parte do peixe é frequentemente descartada, sendo que apenas 1% é destinada ao artesanato.
A tilápia é o peixe mais produzido no Brasil, correspondendo a mais de 67% da produção de pescados, segundo pesquisa divulgada pelo Ministério da Pesca e Agricultura no portal gov.br. Porém, segundo Edmar Maciel, a quantidade de peles doadas para a fabricação do biocurativo ainda é insuficiente, visto que não há o costume de doar esse tecido.
A utilização da pele desse peixe para fabricação de biocurativos já apresenta resultados positivos em humanos. Em países como Estados Unidos e China, a técnica tem demonstrado cicatrização completa de feridas crônicas em poucos meses — inclusive em casos que, anteriormente, demoravam anos para serem resolvidos. A tecnologia também tem sido aplicada em contextos militares e hospitalares, com a expectativa de acelerar significativamente a recuperação de pacientes. No Brasil, com a recente aprovação da Anvisa sobre a utilização do biocurativo, a pele de tilápia poderá ser incluída em kits de emergência destinados a curar queimaduras. Em acréscimo, a Universidade Federal do Ceará abriu licitação para empresas comercializarem o produto já utilizado em nove estados brasileiros. Entretanto, a utilização desse biocurativo ainda é recente na medicina veterinária. A técnica ganhou visibilidade internacional após ser utilizada em situações de emergência, como incêndios florestais na Califórnia e no Pantanal, auxiliando na recuperação de animais silvestres. Em alguns casos, como o de ursos tratados com o material, a recuperação foi tão eficaz que os animais puderam retornar à natureza em poucas semanas.
Recentemente, em 2026, veterinários da Região Metropolitana de Porto Alegre utilizaram a pele de tilápia para ajudar na recuperação de bugios, uma espécie de macaco. Esses animais sofreram queimaduras por choque elétrico e graças à iniciativa da veterinária Thaise de Lima Almeida; estão tendo uma recuperação mais rápida e indolor. Cavalos feridos pelas enchentes no Rio Grande do Sul, ocorridas entre o final de abril e maio de 2024, tratados por esse biocurativo também obtiveram melhora de maneira acelerada, com diminuição da dor. Em cães e gatos, o tratamento também é eficaz em lesões complexas como queimaduras, necroses e úlceras, embora seja aplicado como alternativa quando métodos convencionais não obtêm sucesso.
Apesar dos avanços dessa tecnologia, ainda há desafios e a necessidade de pesquisas aprofundadas sobre sua aplicação em diferentes grupos. De acordo com artigo publicado pela Puc Minas, escrito pela veterinária Ana Maria de Oliveira Paschoal, no caso de répteis, a pele de tilápia não se mostra tão eficaz, pois os processos de cicatrização desses animais diferem dos de mamíferos e dependem diretamente da temperatura ambiente. Além disso, é fundamental controlar a umidade da ferida para evitar o ressecamento ou o excesso de hidratação, o que torna o manejo mais complexo. Já as aves possuem a pele mais fina que a dos mamíferos, o que facilita a absorção de substâncias e pode gerar efeitos indesejados no organismo.
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