Como os museus do Rio de Janeiro estão mudando a forma de falar de ciência

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Como os museus do Rio de Janeiro estão mudando a forma de falar de ciência

Exposições variadas e democratização do acesso atraem público a instituições como o Museu do Amanhã, Museu Nacional e Museu do Jardim Botânico

Por: Sofia Lang

                                  Exposição ‘Oceano’ do Museu do Amanhã . Foto: Mixel Selva/ Museu do Amanhã

 

Num país onde o acesso ao conhecimento científico é desigual, três museus do Rio de Janeiro fazem da ciência seu principal atrativo. O Museu do Amanhã, no Centro da cidade, o Museu do Jardim Botânico, na zona sul, e o Museu Nacional, na zona norte, são espaços vivos de aprendizado e conexão com o mundo natural e as culturas humanas. Ao abordar temas como ecologia, preservação ambiental e antropologia por meio de uma linguagem acessível, atividades interativas e visitas guiadas, esses museus democratizam o contato de diversos grupos sociais com o universo científico.

Tanto o Museu do Amanhã quanto o Museu do Jardim Botânico e o Museu Nacional adotam a proposta de ‘conversação científica’: tentam ir além da divulgação tradicional para demonstrar que a ciência não é um saber isolado ou superior; ao contrário, ela caminha lado a lado com a cultura, a história, a arte e as crenças. Para o cientista ambiental Fábio Scarano, curador do Museu do Amanhã, o termo ‘divulgação científica’ é equivocado, pois sugere uma via de mão única. Segundo ele: ‘Não há conhecimento de que se possa abrir mão, e esses saberes devem ser democráticos e amorosos para que um museu seja um espaço de comunicação informal rico’.

No Museu do Jardim Botânico, o diálogo busca atrair o olhar para o reino vegetal, um tema frequentemente negligenciado. A instituição tem como propósito aproximar o público das plantas, despertando um interesse genuíno por elas. ‘Nossa intenção é que as pessoas saiam daqui com mais perguntas do que respostas’, afirma Grazielle Giacomo, bióloga e coordenadora de gestão e educação do museu. Ao estimular essas dúvidas, o museu combate a ‘impercepção botânica’ — fenômeno que se refere à incapacidade humana de notar as plantas no ambiente, o que as reduz a um mero plano de fundo da paisagem.

                        Parte da exposição principal do Museu do Jardim Botânico. Foto: Sofia Lang/ Agenc

O Museu do Amanhã investe na abordagem de questões urgentes, como as mudanças climáticas, a tecnologia e o impacto humano na Terra, enfatizando que o amanhã depende integralmente das escolhas feitas no presente. Ao evidenciar a fragilidade dos ecossistemas com exposições como ‘Água, Pantanal, Fogo’ — que em 2025 contrastou a beleza do Pantanal com a devastação das queimadas —, a instituição convida o público a refletir sobre sustentabilidade, responsabilidade coletiva e o futuro do planeta.

O Museu Nacional da UFRJ, que voltou a abrir suas portas em 2025 depois do incêndio de 2018, alia pesquisa arqueológica a uma linguagem acessível para despertar no público interesse científico e reflexão sobre identidade e diversidade cultural. A exposição “Os Primeiros Brasileiros” destaca os povos originários e os vestígios mais antigos da presença humana no país. As mostras refletem a trajetória da instituição,que antes do incêndio de 2018 abrigava mais de 20 milhões de itens, entre fósseis e artefatos. Após o desastre, cerca de 5 mil lotes foram recuperados. Esses materiais pertenciam a 14 das 25 coleções do palácio e, mesmo danificados, muitos poderão ser restaurados. Assim, o acervo segue como símbolo de resistência e preservação da memória coletiva.

A imersão é um dos principais recursos nas instituições da zona sul e do Centro do Rio de Janeiro. No Museu do Amanhã, a tecnologia compõe cenários interativos que envolvem o visitante em temas complexos, como a conexão entre o ser humano e o universo — ilustrando que somos feitos da mesma matéria das estrelas e provocando reflexões sobre nossa origem e destino. No Museu do Jardim Botânico, a imersão é empregada na experiência ‘Sumaúma: Copa, Casa, Cosmos, que mostra o processo da água dentro de uma árvore. Portanto, enquanto um utiliza a imersão para ampliar o olhar sobre o futuro do planeta, o outro a utiliza para aprofundar a relação com a flora e a biodiversidade.

Outro ponto de convergência entre essas instituições é o incentivo à participação ativa do visitante. O Museu do Amanhã busca constantemente gerar reflexões sobre o papel humano na construção do futuro. No Museu do Jardim Botânico, esse engajamento torna-se concreto: o público é convidado a plantar sementes durante a exposição, contribuindo diretamente para a restauração da Mata Atlântica. Em ambos os casos, o aprendizado ultrapassa as paredes do museu e ganha continuidade na vida prática.

Iniciativas de acessibilidade e programas educativos permitem que o Museu do Amanhã inclua grupos historicamente afastados desses espaços. A instituição conta, por exemplo, com uma sala de acomodação sensorial para pessoas neurodivergentes — recurso ainda raro em centros culturais. Somam-se a isso projetos educativos com ferramentas adaptadas para pessoas com deficiência e ações voltadas a comunidades externas, incluindo pessoas em situação de rua, o que amplia significativamente seu alcance e impacto social.

O Museu do Jardim Botânico também investe na inclusão de diversos públicos. Por meio de parcerias com escolas públicas do Rio de Janeiro, a instituição fortalece a educação não formal como complemento ao ensino tradicional. Além disso, promove atividades para todas as idades, incluindo projetos sensoriais para bebês e eventos como o ´Domingo Acessível`, que oferece visitas mediadas por intérpretes de Libras, materiais táteis e sensoriais. 

Como forma de inclusão, o Museu Nacional aposta em ações educativas, editais e projetos acadêmicos que incentivam a participação de diferentes grupos, incluindo estudantes de escolas públicas e jovens pesquisadores. Ao ampliar o acesso a oportunidades acadêmicas e culturais, a instituição contribui para reduzir desigualdades e formar novos profissionais nas áreas científicas. Tais iniciativas reforçam a premissa de que o conhecimento deve ser democrático e, acima de tudo, acessível a todos.

Quanto ao acesso, o Museu Nacional investe em uma abordagem diferente: ele amplia  sua presença digital de modo a  fortalecer iniciativas que buscam democratizar o acesso ao conhecimento, promover inclusão social e difundir temas científicos de forma acessível à população. A criação de uma central digital — reunida no Linktree oficial do museu — é um dos principais exemplos desse movimento. Por meio dela, qualquer um pode acessar exposições virtuais, publicações científicas, vídeos educativos e informações institucionais. Essa estratégia amplia o alcance do museu, permitindo que estudantes, pesquisadores e o público em geral tenham contato com conteúdos antes restritos ao espaço físico.

Enquanto o Museu do Jardim Botânico adota uma política de gratuidade total e o Museu do Amanhã mantém ingressos pagos em dias regulares, com gratuidade restrita a datas comemorativas e grupos específicos — como acompanhantes de pessoas com deficiência, idosos a partir de 60 anos, crianças de até 5 anos e pessoas em situação de vulnerabilidade social. Além disso, a instituição oferece meia-entrada para estudantes da rede privada, profissionais da rede pública de ensino e moradores ou naturais da cidade do Rio de Janeiro, por exemplo.

Questionado sobre o motivo de o Museu do Amanhã não oferecer entrada gratuita em ao menos um dia da semana — política adotada até 2024 —, Scarano afirmou que há interesse em retornar com a gratuidade total, mas isso exigiria mais patrocínio e maior  investimento da prefeitura. Segundo o cientista, a retomada dessa política no momento atual exigiria uma redução no tamanho das exposições; por isso, a instituição prioriza manter uma política inclusiva para grupos específicos e em dias determinados igualmente, evitando o sacrifício da qualidade e da extensão de seu acervo.

Ao transformar temas complexos de ciência em vivências práticas e inclusivas, o Museu do Amanhã, Museu do Jardim Botânico e o Museu Nacional se fortalecem como instituições que, mais que locais de visitação, são agentes de transformação social. Mais do que informar sobre ciência, esses espaços buscam o engajamento do público, priorizando o estímulo à dúvida e à curiosidade em vez de apenas entregar respostas prontas.

Como os museus do Rio de Janeiro estão mudando a forma de falar de ciência

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