Literatura indígena na Universidade ressignifica visão sobre povos originários 

Literatura indígena na Universidade ressignifica visão sobre povos originários

Literatura indígena na Universidade ressignifica visão sobre povos originários

Por: Hyndra Lopes

                                                             Livros empilhados na biblioteca. Foto: Freepik

A literatura indígena contemporânea encontra desafios para se estabelecer no meio acadêmico, refletindo os estereótipos e preconceitos acerca destes povos e da sua cultura. Em entrevista com a professora Lívia Jacob, é discutida a importância de se estudar textos produzidos por autores indígenas e saberes tradicionais, além dos desdobramentos e lacunas da Lei n°11.645/2008 na promoção de uma educação pluralista.

 

A literatura indígena refere-se às obras escritas por autores indígenas. Apesar das histórias desses povos serem milenares, transmitidas tradicionalmente por meio da oralidade, a sua literatura na forma escrita, publicada por editoras, se popularizou oficialmente no Brasil a partir dos anos 1980, como resultado da luta dos indígenas pelos seus direitos e reconhecimento da sua identidade. Durante as décadas de 1980 e 1990, surgiram obras como Antes o Mundo Não Existia, de Umusi Pãrõkumu e Tõrãmu Kehíri, Oré awé roiru’a ma: Todas as vezes que dissemos adeus, de Kaká Werá Jecupé, e Histórias de índio, de Daniel Munduruku, que buscavam quebrar o estereótipo colonizador acerca dos indígenas por meio de uma narrativa feita por eles. A literatura, então, passa a ser um instrumento de resistência para defender as suas terras, a sua cultura e os seus povos.

Nesse contexto de conquista dos direitos indígenas, foi implementada a Lei n°11.645/2008, que tornou obrigatório o estudo da história e da cultura afro-brasileira e indígena no ensino básico do país. A legislação, apesar de tardia, tentou pluralizar a educação e apresentar a literatura indígena nas escolas, porém a limitação aos ensinos fundamental e médio representam um atraso na desconstrução do imaginário estereotipado acerca destes povos.

Lívia Penedo Jacob, professora e doutora em Estudos Literários pela Uerj, diz que a lei é uma tentativa de humanizar os povos originários, considerando que, anteriormente, estas cosmovisões eram apresentadas como “folclore” e culturas ultrapassadas. Contudo, ela defende que, para combater os estereótipos e preconceitos, é necessário que a temática indígena se torne obrigatória também no ensino superior: “(…) Se a temática indígena não se tornar obrigatória nas licenciaturas, se os futuros educadores não receberem uma formação adequada nesse sentido, a lei se tornará uma aporia difícil de contornar”.

Além da carência desses estudos na universidade, Lívia aponta outra questão que contribui para a visão distorcida acerca dos povos originários: a desvalorização da literatura indígena contemporânea no meio acadêmico. Observa-se uma preferência por textos clássicos de autores consagrados perante os não canônicos, configurando o que seria verdadeiramente literatura para os moldes acadêmicos. Isso exclui as obras indígenas deste patamar, visto que a entrada de seus autores no mercado editorial é, de certa forma, recente e a tradição oral acaba sendo desconsiderada. “Se hoje os graduandos em Letras ignoram os nossos autores

indígenas, podemos concluir que estão se formando sem conhecer a própria cultura do país”, afirma Lívia.

A professora nota também um certo receio, por parte dos estudiosos de Letras, de que o estímulo da leitura de produções contemporâneas de base oral possa causar desinteresse nos alunos acerca dos clássicos. “ (…) Se esquecem que entre escolher Machado de Assis ou Daniel Munduruku, há uma outra via possível: ensinar os jovens a ler e a interpretar ambos. Esse tipo de preconceito nos mostra a permanência de uma fantasia antiga, segundo a qual a nossa literatura se fundaria nas “belas-letras” legadas por autores canônicos, consagrados”.

 

  Lívia Jacob no lançamento do seu livro “As duras penas: o índio na literatura e a literatura indígena” na UFAM, ao lado                     de Carlysson Senna, Duhigó Tukano e Danielle Munduruku. Foto disponibilizada por Lívia Jacob.

 

A literatura indígena também tem o papel de preservação de mitos e lendas originárias, que correm o risco de desaparecerem com as constantes ameaças à existência desses povos. A importância disto se evidencia ainda mais atualmente, considerando que os indígenas representam menos de 1% da população brasileira, de acordo com o último Censo Indígena do IBGE (2022). Lívia defende que as tradições orais fazem parte do patrimônio cultural brasileiro e o seu registro por meio dos livros é a forma mais acessível de se arquivar esses saberes.

A Uerj possui projetos que promovem essa preservação, como o Opierj –  Observatório da Presença Indígena no Estado do Rio de Janeiro, desenvolvido pelo Proíndio – Programa de Estudos dos Povos Indígenas, da Faculdade de Educação (EDU), e o Nepiie – Núcleo de Estudos sobre Povos Indígenas, Interculturalidade e Educação, da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (Febef). As iniciativas visam registrar os aspectos socioculturais da população indígena presente no Rio de Janeiro, construindo bancos de dados com os saberes originários e produzindo materiais de auxílio para os educadores.

Lívia finaliza defendendo a importância do estudo dos saberes indígenas na atualidade. “Vivemos tempos bárbaros. O outro não existe. (…) O pensamento indígena defende uma ideia oposta, calcada na valorização da coletividade: o eu sem o outro é nada”, afirma a professora. A filosofia indígena inspira a humanização das práticas sociais e da relação do homem com os outros seres que habitam o planeta. A partir da leitura de obras de autores indígenas que tratem dos saberes tradicionais, aprende-se os valores destes povos e constrói-se uma nova visão de mundo, que condena os atos de genocídio e violência em curso e valoriza a diversidade e a preservação da fauna e da flora.

Os desafios enfrentados pelos alunos da Uerj em dia de jogo no Maracanã

Os desafios enfrentados pelos alunos da Uerj em dia de jogo no Maracanã

Por: Laura de Sousa e Silva dos Santos

Estádio de futebol Maracanã. Foto: Laura de Sousa e Silva dos Santos

 

No último dia 4 de setembro,  ocorreu o jogo das eliminatórias da Copa do Mundo entre Brasil e Chile, no Maracanã. Com mais de 50 mil ingressos vendidos, a partida movimentou o estádio e o seu entorno, com medidas de segurança no local e um esquema especial no Metrô para os torcedores. O jogo também fez com que a Universidade  do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) cancelasse as aulas. A suspensão foi adotada pela Faculdade de Comunicação Social (FCS),  por meio de um comunicado que dizia que as aulas a partir das 17h  estavam canceladas. Com o jogo marcado para às 21h30, professores de outros cursos também optaram pela suspensão das atividades.

Lorrayne Barbosa, estudante de História do 7º período, relatou que chegou a ir para a Universidade no dia, porém dois dos seus professores decidiram abonar falta: “ Quem estava aqui teve aula, mas quem não foi, não contou como falta.”. Já Marcela Evaristo, aluna de Letras-Alemão que está no 6º período, teve sua aula cancelada e seus professores preferiram passar um trabalho para fazer em casa. “Todos entraram num consenso que ia ficar muito lotado”, relatou.

Esse tipo de situação não foi exclusiva desse dia, isso ocorre com  frequência na região. Caso as aulas não sejam canceladas, os alunos do período noturno precisam enfrentar torcedores se movimentando pela região, transporte público lotado e desorganizado, trânsito e outros desafios que fogem de sua rotina. “É sempre tumultuado. Normalmente, se eu não cheguei na Uerj ainda, eu já perguntei ao grupo da turma se vai ter aula ou não, porque dependendo do professor, às vezes, ou abona falta, ou cancela a aula”, relatou Lorrayne, que sai do Catete de metrô.

Mariana, que mora em Santa Cruz, tem duas opções diariamente: ou ela pega o ônibus 383, ou ela pega o trem. Porém, muitas vezes, seu ônibus para de passar em certos horários devido à falta de constância, restando-lhe pegar o trem em condições não muito favoráveis. “Era inviável para a gente conseguir chegar às vezes”, comentou a estudante de Letras.

 

Quando os professores não cancelam as aulas, os próprios estudantes decidem não ir para a instituição, pois preferem não  enfrentar os transtornos do dia de jogo. A estudante de história contou que alguns professores cancelavam a aula somente depois de muita insistência dos alunos, e, muitas vezes, mesmo com outros docentes cancelando, alguns ainda mantinham: “Me deixava muito insegura, pois era uma aula importante, eu queria ir, mas ao mesmo tempo eu sabia o caos que seria.”. Para Mariana, o maior desafio é o trânsito e a distância que precisa percorrer nos dias de jogo.



Atraso no cronograma de aula

Um dos maiores impactos negativos que os jogos no Maracanã trazem é a desorganização no calendário acadêmico causado pelos constantes cancelamentos de aulas. Lorrayne comentou que os dias que mais foram afetados foram  quartas e sextas: “Toda hora o professor tinha que tentar reajustar o que dava de aula. Mas era complicado, a gente perdeu muita matéria por causa disso, e teve que readaptar o cronograma, pois a Uerj ia entrar de férias, e foi feito o que deu”. Os dias de jogos do Flamengo, nas quartas, relembrou Mariana, eram os dias mais afetados.



Vantagem em dia de jogo

Uma ocorrência em dia de jogo que não é comum no cotidiano é a presença de viatura policial na estação de metrô e trem, o que é algo que conforta os estudantes, como relatado pela Lorrayne:

“Eu saio com mais segurança, é mais seguro de sair pois está tumultuado. Como eu saio muito tarde, na maioria dos dias, entre 21h e 22h, então é bem deserto e escuro. Mas em dia de jogo esse é um ponto positivo.”. Mariana relatou o mesmo, se sentindo segura em ir para a estação de trem à noite, o que geralmente não sente nos dias comuns: “Fica muito escuro, às vezes dá para ir com um amigo, mas sozinha fica muito tarde, fica muito deserto”.



A Uerj pode fazer alguma coisa para melhorar essa situação? 

Na visão de Lorrayne, o cancelamento de aulas deveria partir da própria Universidade, e não dos professores, já que muitos docentes só tomam uma medida após um posicionamento da instituição: “Obviamente os jogos são marcados com antecedência, a faculdade tem como ter acesso a esse tipo de coisa e eu acho que teria como rolar algum tipo de conversa pra gente não ficar com dúvida se vai ter ou não aula”. Mariana, por outro lado, acha que disponibilizar o conteúdo no Acesso aos Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA), plataforma digital utilizada pela UERJ, já é uma solução simples a ser tomada. “Eu acho que o professor que cancela a aula é bom, pois não exige aquela cobrança de presença de estar ali nessas condições claramente desfavoráveis, pois é muita confusão que acontece nesses jogos”, relatou a estudante de Letras “Poderia talvez passar o conteúdo por fora para não ficar tão atrás com a matéria.




Skate: liberdade e expressão sobre rodas

Skate: liberdade e expressão sobre rodas

Com manobras e estilo próprio, skate domina cidades e transforma ruas em palcos

Por: Lívia Martinho

Enquanto muitos veem apenas uma prancha de madeira com rodas, milhões enxergam liberdade, resistência e cultura. No Brasil, cerca de 9 milhões de pessoas praticam skate, segundo a Confederação Brasileira de Skateboarding (CBSk). O esporte chegou ao país nos anos 1960 e 1970, no Rio de Janeiro, e rapidamente se espalhou por calçadas, ruas e praças das cidades.

 

Antes da estreia olímpica o país já revelava grandes nomes no skate, como Sérgio Negão, Bob Burnquist, Sandro Dias (o Mineirinho) e Letícia Bufoni, entre outros. Hoje, o país soma cinco medalhas olímpicas no esporte. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, Rayssa Leal e Kelvin Hoefler conquistaram a prata na categoria street, enquanto Pedro Barros ficou com a prata na categoria park. Já nos Jogos Paris 2024, Rayssa Leal garantiu o bronze no street e Augusto Akio conquistou o bronze no park.

 

O que começa como lazer transforma-se em muito mais: o skate é arte, estilo e expressão. Durante muito tempo, os skatistas foram vistos como desarrumados e  desleixados. Mas, ao usar corrimãos, rampas e pistas improvisadas, eles conquistaram um estilo próprio e transformaram a cidade em palco.

 

Em entrevista para AJ, Duda Ribeiro, promessa brasileira da categoria street, contou um pouco sobre como o skate influencia no seu estilo e na sua forma de se expressar: “O skate influencia muito o meu estilo e como me expresso, ele me ensinou a ser mais autêntica. No skate, não há regras rígidas sobre como se vestir ou como se comportar. A gente usa o que é confortável e o que nos faz sentir bem.”

 

(Imagem via @dudaribeirosk8)

 

Marcas como Vans, Converse e Drop Dead se consolidaram como símbolos do skate e seus praticantes, enquanto estilos musicais como hip hop e rap ajudaram a formar sua identidade. E na moda, peças como calças largas, tênis irados, estampas xadrez, moletons com capuz e bonés marcaram o visual que atravessou gerações e segue influente até hoje.

 

“O skate é a minha respiração. É nele que eu brinco, crio, me sinto feliz, inteira, me sinto eu.” — Rayssa Leal, medalhista olímpica.

 

(Imagem via @rayssalealsk8)

 

Com manobras e estilo único, o skate consolidou-se como expressão cultural e social. Influenciando moda, música, arte e transformando vidas, o esporte inspira novas gerações a ocupar e transformar as ruas.

Alerta na Batcaverna: morcegos estão em risco, e não é só o Batman que tem que se preocupar com isso

Alerta na Batcaverna: morcegos estão em risco, e não é só o Batman que tem que se preocupar com isso

Falta de educação ambiental e precariedade das Unidades de Conservação ameaçam a vida desses mamíferos essenciais para a manutenção da biodiversidade

Por Maria Luísa Fontes

 
Fonte: Priscila Monteiro. Espécie Desmodus rotundus – hematófago.
 
 
 

Talvez você não saiba, mas morcegos não servem só para proteger o Batman: esses mamíferos voadores são essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas. No Brasil, os morcegos estão protegidos pela Lei Federal 9.605/98 (lei do Meio Ambiente). A caça, a perseguição e a destruição desses animais são consideradas crimes.

Por mais que os morcegos sejam constantemente envolvidos na cultura pop – desde romances adolescentes até filmes de horror – esses mamíferos não são somente fontes de histórias para Hollywood. Os morcegos frugívoros (que se alimentam de frutas) são responsáveis por dispersar as sementes e os nectarívoros polinizam as flores, ou seja, são fundamentais na regeneração de áreas devastadas. Além desses, espécies insetívoras se alimentam de milhares de insetos por hora, sendo grandes aliados no controle de pragas e vetores de doenças. Sem morcegos, a agricultura seria alvo de muito mais tipos de pragas.

 

A falta de manutenção das Unidades de Conservação (UCs) e a ausência de uma educação ambiental efetiva são os principais fatores que causam a morte de morcegos. Além disso, a poluição do solo, da água e do ar também compromete a proteção desses seres vivos. 

 

O município de Ilha Grande, no Rio de Janeiro, é um dos lugares do estado em que os morcegos ainda encontram algum tipo de proteção. O Laboratório de Ecologia de Mamíferos, ligado à Uerj, atua na região monitorando as espécies de morcegos. Os pesquisadores gravam os sons produzidos por esses mamíferos e monitoram as redes de neblina, usadas para capturar e identificar os animais. Esse projeto rendeu para o distrito o prêmio de Área de Importância para a Conservação dos Morcegos (AICOM), concedido pela Rede Latino-americana e do Caribe para Conservação dos Morcegos (Relcom) em 2025. 

O reconhecimento foi resultado da rica biodiversidade e do sucesso com a proteção destes animais. A Ilha abriga cerca de 37 espécies identificadas – 19,9% das espécies conhecidas no Brasil. Entretanto, é possível que esse cenário positivo mude nos próximos anos, caso não haja novas iniciativas para a preservação desses animais e a destruição do meio ambiente continue em avanço. 

Segundo a professora Elizabete Lourenço, do Laboratório de Ecologia de Mamíferos, existem quatro espécies de morcego ameaçadas de extinção no Brasil: Furipterus horrens, Natalus macrourus, Lonchophylla bokermanni e Lonchophylla dekeyserié. Para proteger esses animais, a pesquisadora afirma que é preciso melhorar a gestão das áreas de conservação, visto que a invasão de animais domésticos, a crescente especulação imobiliária e o turismo desordenado resultam não somente na morte de morcegos, mas também de outros seres e vegetações nativas. A professora destaca que, por mais que os morcegos se adaptem bem a áreas urbanas, a poluição, especialmente no solo e no ar, prejudica o modo de vida desses mamíferos.

 

Além disso, a perda de habitat natural dos morcegos para novas construções vem tornando mais frequente o encontro entre eles e os seres humanos. Por isso, Lourenço destaca a importância de investir na educação ambiental da população junto ao manejo eficiente da UCs. De acordo com ela, a falta de informação sobre como agir ao entrar em contato com esses animais ou como fazer a retirada deles de forma correta faz com que muitos desses seres sejam mortos precipitadamente por moradores assustados. 

 

A INVISA-RIO (Instituto Municipal de Vigilância Sanitária, Vigilância de Zoonoses e Inspeção Agropecuária), órgão da prefeitura do Rio responsável pela prevenção de problemas higiênico-sanitários, recomenda algumas precauções para quem se deparar com morcegos:

 

1) Nunca tentar tocar em morcegos que entrem em casa ou apareçam caídos no chão. Neste caso, imobilize o animal numa caixa virada para baixo e o mantenha preso. Em seguida, entre em contato com o Centro de Controle de Zoonoses Paulo Dacorso Filho – CCZ;

2) Em caso de ataque de morcegos que resultem em mordeduras ou arranhaduras, a pessoa deve procurar orientação médica imediata nas Unidades de Saúde que fazem tratamento antirrábico humano. No caso de agressão a animais domésticos ou mesmo contato do animal doméstico com morcegos, entrar em contato com a central 1746;

3) Usar sempre luvas e máscara se precisar umedecer, remover ou tocar as fezes desses animais;

4) Vedar juntas de dilatação dos prédios e fechar forros de sótãos e residências, ou qualquer abertura por onde os animais possam entrar e se abrigar.

5) Solicitar a poda de árvores em ruas muito arborizadas onde existam colônias de morcegos causando incômodos.

 

Se, apesar desses cuidados, você entrar em contato com algum morcego, é necessário avisar o Centro de Controle de Zoonoses Paulo Dacorso Filho (CCZ), por meio do telefone 1746.

 

Vôlei feminino brasileiro: Elisângela fala sobre reformulação da seleção, Bernardinho, Zé Roberto e futuro da seleção.

Vôlei feminino brasileiro: Elisângela fala sobre reformulação da seleção, Bernardinho, Zé Roberto e futuro da seleção.

Seleção vive fase de mudança, mesclando jovens promessas e jogadoras experientes para manter o Brasil no topo.

Por: João Pedro Marins

O vôlei feminino brasileiro atravessa mais uma fase de renovação. Após quase duas décadas de conquistas históricas, a seleção busca se reconstruir, apostando em jovens talentos sem abrir mão da experiência de nomes consagrados. Essa transição foi visível na convocação para a Copa do Mundo de vôlei feminino que ocorre na Tailândia. 

Uma reformulação semelhante ocorreu no final dos anos 90 e início dos anos 2000, com a chegada do Bernardinho e a troca por Zé Roberto Guimarães.

Crédito: Fotos/ Pedro Ugarte

Elisângela comemorando vitória

Elisângela Oliveira, ex-oposta da seleção brasileira, viveu de perto o período de transição entre Bernardinho e Zé Roberto Guimarães. Medalhista olímpica em Sydney 2000, ela relembra como cada treinador marcou sua carreira, analisa o atual momento da equipe e relembra a reformulação dos anos 90 e 2000

“Eu acho que a mudança no voleibol começou na Olimpíada de Atlanta, em 96, com a chegada do Bernardinho. A seleção começou a subir no pódio, revelou grandes jogadoras e o feminino passou a ficar mais em evidência, até maior do que o masculino, que tinha sido campeão em 92. Além disso, naquela época havia uma rivalidade enorme com Cuba, algo que até hoje não se repetiu”, recorda à AJ.

A ex-jogadora também lembra á AJ da emoção de conquistar uma medalha olímpica. “Assistir a Barcelona 92 me motivou a querer jogar uma Olimpíada. Eu queria ganhar. Não consegui o ouro, mas conquistei uma medalha. Quando você volta ao Brasil e vê as pessoas vibrando com você, entende a dimensão do que conquistou. Até hoje, quando me apresento em projetos, digo: eu sou medalhista olímpica. Estar numa Olimpíada é o ápice, o momento mágico de qualquer atleta.”

Sobre as diferenças entre Bernardinho e Zé Roberto, ela resume á AJ: “São pessoas muito diferentes, mas dois vitoriosos, dois dos maiores treinadores do mundo. Trabalhar com eles foi prazeroso, cada um acrescentou algo na minha vida. Tenho lembranças muito boas e sou grata a Deus por ter jogado duas Olimpíadas com esses dois feras.”

Atenta ao momento atual da seleção, Elisângela avalia que o ciclo olímpico é um dos mais desafiadores. “Hoje a equipe está mais enxuta, sentimos a falta de jogadoras de referência como a Ana Cristina. Antigamente a gente tinha três, quatro ponteiras no nível. Então hoje a Ana Cristina saindo, não que não tenha outras jogadoras, há mas do nível dela eu acho que ainda não temos. Tem as outras jogadoras que são mais de composição, mais de passe, mais atacar, bloquear, a altura dela, a experiência, né? Que apesar de nova, já estava jogando há bastante tempo fora. Hoje nossa seleção está muito mais enxuta. A maior liderança é a Gabi, mas precisamos de mais nomes de peso, especialmente na posição de oposta”. 

A ex-jogadora também alertou á AJ sobre a necessidade urgente de o Brasil rever o processo formador das jogadoras. “O Brasil deixou de investir na base, e isso reflete nos resultados. É urgente olhar para projetos sociais e formação.”

Créditos: Fotos/ Vôlei BC

Elisangela Oliveira nos dias atuais.

Fora das quadras, ela segue envolvida com o vôlei. “Me dediquei mais de 20 anos ao esporte e hoje trabalho em projetos sociais. Atendo a 300 crianças em Itajaí e estou montando outro em Londrina, minha terra natal. A mensagem que deixo para as jovens é treinar, se dedicar, cuidar da alimentação e do sono. O tempo passa rápido, então aproveitem cada minuto, cada campeonato, porque passa voando”, disse a ex-jogadora à AJ.

A seleção está em busca do ouro inédito da copa do mundo e está no rumo das olimpíadas de Los Angeles 2028. 

Rayssa Leal: inspiração nas pistas e no mundo fashion

Rayssa Leal: inspiração nas pistas e no mundo fashion

Por Livia Bronzato

Além de se arriscar nas rampas de campeonatos mundiais, a skatista Rayssa Leal se aventura em roupas que demonstram muito de sua personalidade. Com certeza, por causa das Olimpíadas, você sabe qual é o estilo desses looks – um street style, mas já imaginou a Fadinha vestindo grifes e saias plissadas em desfiles internacionais?

 

Rayssa se tornou, em 2024, a primeira brasileira embaixadora global da Louis Vuitton, marca renomada francesa. A atleta declara que gosta de estar próxima ao mundo da moda, mas que se sente desafiada porque não está acostumada com o “glamour”. Em evento de desfile da marca, a brasileira apostou em um xadrez de tons terrosos, conjunto que une blazer e saia de tweed, um tipo de tecido feito de lã.

 

Foto: Instagram

Rayssa no desfile Louis Vuitton Spring-Summer 2025.

 

Além das cores sóbrias, a embaixadora da marca já ousou em propostas mais coloridas e divertidas, mas o ponto em comum entre seus conjuntos são as saias e partes de cima com mangas compridas, e, claro, uma bolsa de mão.

 

Foto: Instagram

Em 2023, Rayssa assiste a desfile Louis Vuitton Fall-Winter.

 

A Nike também patrocina a adolescente e, em conjunto, lançaram o tênis Nike SB Dunk Low Pro Rayssa, que possui detalhes com a letra R formando asas – remetendo ao apelido “Fadinha” – nas cores branco, roxo e azul. O produto, que custava R$ 899,99, esgotou em menos de vinte minutos, durante seu lançamento em março de 2024.

 

Foto: Instagram

Modelo “dunk” da colaboração entre Rayssa e Nike.

 

Já para os eventos e competições esportivas, realmente Rayssa costuma escolher o estilo streetwear, investindo em tops, calças mais largas, alguns moletons e blusões e, para complementar dando um charme, um boné. A maneira que a skatista se veste é um espelho de sua carreira já que esse estilo é compartilhado entre a comunidade que pratica o esporte o que ressalta que, além de apenas roupas, a moda é sobre pertencimento e identificação. “A moda é uma das partes mais importantes do skate como cultura”, diz Rayssa.

 

Foto: Instagram

Rayssa durante as Olimpíadas 2024

 

O streetwear nasce a partir dos anos 90, com berço na cultura urbana do hiphop, skate e surf nos Estados Unidos e, aos poucos, foi se tornando cada vez mais popular no Brasil depois dos anos 2000. 

Pesquisadores da Uerj apresentam projetos de transição energética no Rio Innovation Week 2025

Pesquisadores da Uerj apresentam projetos de transição energética e energias renováveis no Rio Innovation Week 2025

Temas como indústria química ecológica e economia circular também foram discutidos

Por: Maria Eduarda de Souza Galdino

 

 
Equipe multidisciplinar de pesquisadores da Uerj no painel Kobra. Foto: Maria Eduarda Galdino
 
 
 

Soluções para um mundo mais sustentável se transformaram em um dos temas da quinta edição do Rio Innovation Week. Pesquisadores da Uerj discutiram transição energética, economia circular e indústria química ecológica no painel Kobra, na última quarta-feira (13). 

O professor de química André Luiz Helermy Costa, pesquisador de processos químicos na Uerj, lembrou que a maioria dos processos envolve o uso de combustíveis fósseis e um alto gasto de energia não renovável. Helermy ressaltou que esse modelo de produção precisa ser reformado.  Segundo o IEMA (Instituto de Energia e Meio Ambiente), organização sem fins lucrativos que pesquisa ottema, o setor de processos industriais e uso de produtos, do qual a indústria química faz parte, é responsável por 110 milhões de toneladas de C0² equivalente no Brasil.

Como solução possível, o professor Helermy apresentou ecoparques industriais, que são empresas/ fábricas que operam de forma sustentável. O objetivo é transformar resíduos de uma instalação química em insumos para outras empresas. A transição energética também foi citada pelo professor como  alternativa sustentável para  instalações industriais onde a energia renovável se transforme em principal fonte energética. Como exemplos, ele citou o biodiesel, o biogás e o hidrogênio verde. O professor usou como exemplo funcional as pesquisas feitas no Centro Green Fusion, laboratório que investiga modelos de produção química alternativos e ecológica.

A bioeconomia também foi debatida no painel. A professora da Uerj Mariana Erthal Rocha, pesquisadora líder do laboratório biotech da UTD  de Estudos ambientais e Reservatórios Gesar, apresentou o projeto que transforma estações de tratamento de esgoto, também conhecidas como ETEs, em biofábricas.  Isso significa que os resíduos resultados do tratamento de esgoto podem ser transformados em insumos úteis, como plásticos biodegradáveis e  produção de biogás para geração de energia.

Professora Maria Erthal Rocha apresentando o projeto de pesquisa da Gesar. Fofo: Maria Eduarda Galdino

Segundo a professora, o Brasil é um dos maiores produtores de resíduos orgânicos do mundo, produzindo cerca de 800 milhões de toneladas anualmente. E pouco desses resíduos são descartados ou reaproveitados de forma correta. Apesar disso, a professora reconhece que o Brasil vem progredindo no planejamento para tratar desses resíduos. 

Como solução, apresentou as arqueias metanogênicas, microrganismos que têm como uma das características é a capacidade de auxiliar na decomposição de matéria orgânica, ou seja, podem ser utilizados no tratamento de resíduos orgânicos em ETEs. Além disso, a arqueia tem um potencial uso em bioenergia como fonte renovável. Segundo a professora, esse processo está ligado ao conceito de economia circular, com o reaproveitamento ecológico dos resíduos.

Véspera, de Carla Madeira, expõe a dor de viver o irreparável

Véspera, de Carla Madeira, expõe a dor de viver o irreparável

Carla Madeira não teve medo de demonstrar o lado sombrio da vida em Véspera

Por: Maria Eduarda Galdino

Capa do livro Vespera de Carla Madeira. Foto: Record/ Eduarda Galdino

O que fazer quando tudo o que resta é o arrependimento ? como é se contentar com a tristeza que se alastra sem previsão de ir embora ? Véspera, obra de Carla Madeira, envolve o leitor com essas reflexões. Sentimentos complexos, como o desespero, a incerteza e o incômodo na alma são latentes na escrita da autora. As palavras usadas por Carla para desenvolver cada capítulo, fazem com que a leitura seja demorada e intensa, mas também causa a ânsia de chegar ao próximo capítulo o mais rápido possível.

A autora conta uma história com duas linhas do tempo: presente e passado. No primeiro capítulo, Carla começa com Vedina, e conta como ela abandonou seu filho, Augusto, de 5 anos, na calçada de uma rua, em um momento de desespero e esgotamento. Em seguida, Carla conta a história dos gêmeos Caim e Abel, dois irmãos cuja vida se conecta com a trágica e real história bíblica: uma alma condenada ao fracasso e a morte , enquanto a outra, é condenada a continuar a vida remoendo a perda de um irmão.

Carla também detalha a vida dos pais de Caim e Abel, dona Custódia e Antunes Filho, duas pessoas machucadas pela vida, que transportaram seu caos interior aos seus filhos, ao começar pelo episódio onde Antunes, bêbado, decide nomear seus filhos com nomes considerados amaldiçoados. Esses dois personagens são fundamentais para entender o drama envolvendo os irmãos, pois os pais foram responsáveis pela crise de identidade, a competitividade e o desafeto que surgiu entre Caim e Abel.

No meio da trama, o caminho dos dois irmãos se cruza com a vida de Vedina, até chegada da véspera de um momento irreparável e trágico, resultado de muitas decisões erradas, sentimentos reprimidos e afetos esquecidos. Carla Madeira não teve medo de demonstrar o lado sombrio da vida em Véspera, a autenticidade da autora é explícita ao detalhar a subjetividade, os pensamentos mais sombrios de cada personagem. Até mesmo aqueles que tiveram pouca participação na história, são inesquecíveis e únicos, como Parede. Nome curioso, certo ? só lendo pra entender. 

“O tempo flutua invisível e em espesso presente. Nada apodrece sem ele. Nada floresce. Nada se torna amável. Nenhum ódio viceja Nenhuma umidade seca.Nenhuma sede cede. As tempestades não inquietam nele ventos, as avalanches não podem soterrá-lo, a perplexidade não o paralisa, o mal não o ameaça e o bem não faz com que se demore. Mas eis que um acontecimento, um único acontecimento, captura o tempo e o aprisiona.” MADEIRA, Carla. Véspera. 1. ed. São Paulo: Record, 2023.

Elas voltaram! Lindsay Lohan e Jamie Lee Curtis estrelam sequência aguardada pelos fãs da Disney

Elas voltaram! Lindsay Lohan e Jamie Lee Curtis estrelam sequência aguardada pelos fãs da Disney

A continuação do filme “Uma sexta feira muito louca” estreia dia 07 no Brasil com novas aventuras na família Coleman 

Por: Maria Eduarda Galdino

Poster de divulgação do filme Uma sexta-feira mais louca ainda. Foto: Disney

O novo filme da Disney “Uma sexta-feira mais louca ainda” (2025), continua a história de Anna e Tess Coleman (Lindsay Lohan e Jamie Lee Curtis), que vivem mais um episódio misterioso de troca de corpos 22 anos depois. Só que agora, com mais uma pitada de aventura: Anna, agora vive no corpo de Harper, sua filha e Tess troca de corpo com a mais nova enteada de Anna, Lily Rayner. Enquanto a família não descobre o jeito de reverter a magia, o jeito é viver a vida do outro, como a normalidade.

 Além da nova troca de corpos, outras tramas estão presentes na sequência, como a questão da maturidade de Anna, que agora é mãe de uma adolecsente, diferente da versão anterior, onde Anna era a filha que lidava com problemas emocionais na família. No novo longa, Lindsay Lohan teve que desenvolver um lado mais maduro de sua personagem, de se colocar no lugar de mãe. Curiosamente, a atriz se tornou mãe na vida real um ano antes das gravações começarem, o que influenciou uma ótima imersão no sentimento de ser mãe.

 Jamie Lee Curtis aborda um lado mais afetuoso de Tess, mãe de Anna, e que agora é a  avó de Harper. Tess também vive o sucesso de seus livros como psicóloga, e auxilia Anna na vida de mãe solo, oferecendo seus conselhos da época em que também foi mãe de uma adolescente. Lindsey Lohan e Jamie Lee estão cada vez mais brilhantes em cena, com uma química implacável, e cada vez mais engraçadas, bem melhor que no primeiro filme.

 O filme foi dirigido por Nisha Ganatra, conhecida por adaptar clássicos aos dias atuais. A diretora, abordou diversas questões familiares, como a perda de um parente, adaptação a entrada de novos membros na casa e conflitos na adolescência. Apesar do enredo ser repetitivo na questão da troca de corpos, a história ainda desperta a curiosidade por conta dos novos personagens que surgiram, como o novo par romântico de Anna, o chef de cozinha britânico Eric Reyes, que por ironia do destino, é pai da maior rival de Harper na escola, Lily Reyes. 

 O relacionamento de Anna e Eric fica mais sério com direito a um pedido de casamento, mas as filhas Harper e Lily não se conformam com o casal, pois além da grande rivalidade entre as duas, Lily não tinha superado a perda da mãe e Harper, a do pai. Por conta disso, a relação de Anna e Harper fica fragilizada, onde uma não entende o lado da outra. Isso te lembra algo ?

No final, a lição moral do longa segue a tradicional lição dos filmes da Disney nos anos 2000: a família é sempre o mais importante, trazendo uma familiaridade com nostalgia aos fãs de “Uma sexta-feira muito louca” (2003). A equipe UerjViu recomenda o novo filme da Disney, que é ótimo para assistir com a família e relembrar bons clássicos dos anos 2000.

Superman (2025): O que esperar do novo filme do herói mais icônico da DC.

Superman (2025): O que esperar do novo filme do herói mais icônico da DC.

O novo filme do Superman, dirigido por James Gunn, traz uma abordagem mais colorida e humanizada do herói.

Por: Maria Luísa Fontes 

Capa de divulgação do novo filme do Superman

Livro “A hora da estrela” de Clarice Lispector (foto: Maria Eduarda Galdino)

O novo Superman, de James Gunn, já chegou aos cinemas brasileiros e vem agradando tanto o público quanto a crítica, com aprovação expressiva no Rotten Tomatoes. Nesta nova versão, o Azulão — interpretado por David Corenswet — enfrenta seu clássico inimigo Lex Luthor (Nicholas Hoult) e seu plano de dominação global. No entanto, mais do que grandes lutas, o foco da narrativa está na missão de Superman em salvar toda forma de vida. A proposta de humanizar o herói ganha força sob a direção de Gunn, que aposta em um visual fiel às HQs, com figurinos vibrantes e estética colorida. O uso marcante de cores — característica da filmografia do diretor — reforça o tom épico da produção, tornando esta uma das adaptações cinematográficas mais próximas da essência original do personagem.

O longa já se inicia como uma imersão direta no universo dos quadrinhos da DC Comics, dispensando a tradicional narrativa de origem do Superman — sua vida na fazenda ou o processo de se tornar o herói. O espectador é inserido em um mundo já estabelecido, no qual criaturas alienígenas e monstros são parte da rotina. A história começa com intensidade, colocando o herói em confronto direto com as vilanias de Lex Luthor. Para os fãs ou para quem já está familiarizado com o personagem, essa abordagem dinâmica não compromete o entendimento. No entanto, espectadores menos habituados ao universo do Superman podem sentir a ausência de algumas contextualizações, mesmo que o roteiro consiga equilibrar essas lacunas sem prejudicar a compreensão geral da narrativa.

As atuações são outro ponto alto da produção. A química entre Clark Kent e Lois Lane (Rachel Brosnahan), é convincente e bem construída, fazendo com que o público se envolva emocionalmente com o casal. Já Nicholas Hoult, no papel de Lex Luthor, entrega uma performance intensa e eletrizante. Diferente de versões anteriores mais caricatas ou cômicas, este Luthor é genuinamente perverso, carregado de preconceito, frieza e agressividade, ao mesmo tempo em que exibe uma inteligência perigosa e sagaz.

James Gunn demonstra domínio das características individuais de cada personagem, garantindo cenas marcantes em que todos têm papel relevante na trama. Nesse contexto, é impossível não destacar a importância de Lois Lane. A jornalista não aparece mais sendo uma figura vulnerável ou mero apoio emocional do herói. A nova abordagem a coloca no centro da ação, como essencial para a derrota de Luthor, atuando de forma autônoma e estratégica, sem depender do Superman para cumprir sua missão. Sua personalidade forte, aliada à perspicácia, reforça uma figura feminina ativa e empoderada — uma representação que finalmente faz jus à força da personagem dos quadrinhos e atualiza sua presença nos cinemas.

Outro destaque impossível de ignorar é Krypto, o cão do Superman, que rouba a cena em cada aparição. Criado por inteligência artificial e inspirado no cachorro do próprio James Gunn, o personagem conquista o público com seu comportamento irreverente, brincalhão e muito desobediente. Longe de ser apenas um alívio cômico, Krypto tem papel ativo na narrativa e contribui de forma significativa para o desfecho da trama. Sua presença adiciona leveza sem comprometer a tensão, além de reforçar o tom afetivo e familiar que permeia o universo do herói. O cãozinho alienígena consolida-se como um dos elementos mais carismáticos do filme.

Um dos pontos centrais da trama é a discussão em torno da xenofobia. O ódio de Lex Luthor por Superman nasce, sobretudo, da origem extraterrestre do herói, a partir de um sentimento alimentado pelo preconceito e pela inveja. Em contraste, Clark Kent mostra, ao longo do filme, uma humanidade muito mais evidente do que a de seu antagonista, revelando-se ético e empático, mesmo diante da hostilidade. Além disso, o longa se arrisca ao inserir críticas sociopolíticas claras — marca do próprio James Gunn, conhecido por posicionar-se politicamente em suas produções. A narrativa apresenta paralelos com a atual guerra na Palestina, expondo o envolvimento americano em conflitos armados e questionando a legitimidade de certas intervenções militares.

A representação de Superman como um imigrante que defende um povo oprimido do Oriente Médio, em meio a uma guerra financiada por interesses governamentais, gerou reações diversas, com alguns rotulando o filme como “superwoke”. Ainda assim, a abordagem confere camadas relevantes à história e atualiza o papel do herói diante dos dilemas contemporâneos.

É importante destacar que este não é um filme para quem espera ver um Superman invencível, que resolve tudo com força bruta. Ainda que o personagem demonstre poder em abundância, o foco aqui está em suas vulnerabilidades emocionais e humanas – sentir medo, dúvida e compaixão -, elementos que James Gunn equilibra com precisão. A proposta afasta-se da versão sombria e quase divina apresentada por Zack Snyder, em que o herói era tratado como uma figura distante e intocável. Ao contrário, Gunn recupera a essência dos quadrinhos clássicos, retratando o Superman como um símbolo de esperança, empatia e conexão com as pessoas. Essa mudança de tom torna o personagem mais acessível e resgata o ideal do herói que se importa genuinamente com a humanidade.