“Poranga Marandúa”: boas notícias para o jornalismo indígena
O primeiro manual de redação do jornalismo indígena no Brasil mostra como fazer coberturas sobre os povos originários de forma ética e sem reforçar estereótipos
Por: Júlia Martins| Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia

O primeiro manual brasileiro de redação do jornalismo indígena, “Poranga Marandúa” (na língua Nhe’engatu, significa “boas notícias”), ensina como os jornalistas devem cobrir histórias sobre os povos originários de forma ética, responsável e sem preconceitos. O manual foi produzido pela Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor), com linguagem acessível para que todo tipo de público possa ter acesso. A publicação valoriza os indígenas jornalistas e tenta mudar a forma pela qual os povos originários são vistos pela mídia e pela sociedade. O lançamento foi anunciado no FEstival 3i, realizado em maio no Rio, e está previsto para o meio deste ano. O manual terá as versões digital e física.
Mesmo com mais de 300 povos indígenas vivendo em território brasileiro, esse é o primeiro guia de redação feito no Brasil com foco na pauta indígena. Segundo Juliana Lourenço, indígena jornalista das etnias Kariri e Otxukayana, conselheira da Abrinjor e co-autora do guia, o manual vai além de uma simples correção de termos. A proposta é mostrar que o jornalismo indígena existe e resiste. Para ela, o jornalismo funciona como um mediador social e a partir do momento em que ele se corrige, a sociedade também aprende junto.
Juliana afirma que a ignorância sobre a pauta indígena é causada pela desinformação sobre esse tópico, que vem desde o ensino básico. E destaca a necessidade de mudança. “A mídia contribui muito para essa visão errada da pauta indígena, a gente (jornalista) está alí como um termômetro social. Quando a gente passa a quebrar esses estigmas, a sociedade passa a enxergar essas pessoas como pessoas.”
O manual está em processo de lançamento e tem parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) para divulgação. Contém um glossário com diversos termos usados no dia a dia, uma explicação sobre por que não usá-los e como substituir um termo que não seja racista. Além disso, o manual também conta a história da Abrinjor, para que mais pessoas conheçam a articulação, surgida da necessidade de ter uma organização para unir os indígenas jornalistas.
Atualmente, a Abrinjor tem mais de 70 membros, com a maior parte deles de povos da Amazônia. Juliana também explicou o porquê do nome Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas – eles escolhem ser chamados como indígenas jornalistas, pois sua ancestralidade e cultura vem antes de sua escolha profissional. Para eles, trata-se de um posicionamento político e uma forma de valorizar sua cultura e saberes.
A jornalista também reforça como a falta de indígenas trabalhando nos veículos tradicionais ou falando sobre suas vivências na mídia contribuem para a permanência de preconceitos. E disse que, quando as fontes ouvidas para falar sobre povos originários são sempre antropólogos e estudiosos de fora do território indígena, é como se o indígena não soubesse falar por si e seus saberes fossem inferiores.
“Muitas das nossas lideranças comunitárias e espirituais não têm diploma acadêmico, mas têm o saber. Aí entra o especialista não indígena falando pelo indígena só porque tem um diploma? Acaba que o indígena fica invisibilizado, sempre precisando ser tutelado por alguém”, destaca.
A Abrinjor também é organização de luta pelo espaço dos indígenas jornalistas. Juliana destacou a ausência de cotas indígenas em processos seletivos dos veículos jornalísticos e como isso faz diferença na forma em que a matéria é conduzida. “Muita gente acha que o indígena não é capaz de falar por si, e isso é racismo, não tem outro nome […] Na minha primeira pauta externa, assim que terminei de fazer a passagem, desligaram a câmera e um colega falou: ‘Nossa, até que você fala bem’, mas por quê eu não falaria bem? Como se o indígena não fosse capaz de falar e pensar”.
Poranga Marandúa não significa apenas boas notícias – no caso do manual, também significa resistência dos povos originários e esperança que eles finalmente tenham suas histórias ouvidas e contadas de forma responsável. Mostra esperança de uma sociedade que respeite a pauta indígena e de um jornalismo que se comprometa a aprender junto com os povos originários.










