“Poranga Marandúa”: boas notícias para o jornalismo indígena

“Poranga Marandúa”: boas notícias para o jornalismo indígena

O primeiro manual de redação do jornalismo indígena no Brasil mostra como fazer coberturas sobre os povos originários de forma ética e sem reforçar estereótipos

 

Por: Júlia Martins| Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia

                          Juliana Lourenço, co – autora do manual e conselheira da Abrinjor / Foto: Júlia Martins

 

O primeiro manual brasileiro de redação do jornalismo indígena, “Poranga Marandúa” (na língua Nhe’engatu, significa “boas notícias”), ensina como os jornalistas devem cobrir histórias sobre os povos originários de forma ética, responsável e sem preconceitos. O manual foi produzido pela Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor), com linguagem acessível para que todo tipo de público possa ter acesso. A publicação valoriza os indígenas jornalistas e tenta mudar a forma pela qual os povos originários são vistos pela mídia e  pela sociedade. O lançamento foi anunciado no FEstival 3i, realizado em maio no Rio, e está previsto para o meio deste ano. O manual terá as versões digital e física.

 

Mesmo com mais de 300 povos indígenas vivendo em território brasileiro, esse é o primeiro guia de redação feito no Brasil com foco na pauta indígena. Segundo Juliana Lourenço, indígena jornalista das etnias Kariri e Otxukayana, conselheira da Abrinjor e co-autora do guia, o manual vai além de uma simples correção de termos. A proposta é mostrar que o jornalismo indígena existe e resiste. Para ela, o jornalismo funciona como um mediador social e a partir do momento em que ele se corrige, a sociedade também aprende junto. 

 

Juliana afirma que a ignorância sobre a pauta indígena é causada pela desinformação sobre esse tópico, que vem desde o ensino básico.  E destaca a necessidade de  mudança. “A mídia contribui muito para essa visão errada da pauta indígena, a gente (jornalista) está alí como um termômetro social. Quando a gente passa a quebrar esses estigmas, a sociedade passa a enxergar essas pessoas como pessoas.”

 

O manual está em processo de lançamento e tem parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) para divulgação. Contém um glossário com diversos termos usados no dia a dia, uma explicação sobre por que não usá-los e como substituir um termo que não seja racista. Além disso, o manual também conta a história da Abrinjor, para que mais pessoas conheçam a articulação, surgida da necessidade de ter uma organização para unir os indígenas jornalistas. 

 

Atualmente, a Abrinjor tem mais de 70 membros, com a maior parte deles de povos da Amazônia. Juliana também explicou o porquê do nome Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas – eles escolhem ser chamados como indígenas jornalistas, pois sua ancestralidade e cultura vem antes de sua escolha profissional. Para eles, trata-se de um posicionamento político e uma forma de valorizar sua cultura e saberes. 

 

A jornalista também reforça como a falta de indígenas trabalhando nos veículos tradicionais ou falando sobre suas vivências na mídia contribuem para a permanência de preconceitos. E disse que, quando as fontes ouvidas para falar sobre povos originários são sempre antropólogos e estudiosos de fora do território indígena, é como se o indígena não soubesse falar por si e seus saberes fossem inferiores. 

 

“Muitas das nossas lideranças comunitárias e espirituais não têm diploma acadêmico, mas têm o saber. Aí entra o especialista não indígena falando pelo indígena só porque tem um diploma? Acaba que o indígena fica invisibilizado, sempre precisando ser tutelado por alguém”, destaca.

 

A Abrinjor também é organização de luta pelo espaço dos indígenas jornalistas. Juliana destacou a ausência de cotas indígenas em processos seletivos dos veículos jornalísticos e como isso faz diferença na forma em que a matéria é conduzida. “Muita gente acha que o indígena não é capaz de falar por si, e isso é racismo, não tem outro nome […] Na minha primeira pauta externa, assim que terminei de fazer a passagem, desligaram a câmera e um colega falou: ‘Nossa, até que você fala bem’, mas por quê eu não falaria bem? Como se o indígena não fosse capaz de falar e pensar”.

 

Poranga Marandúa não significa apenas boas notícias – no caso do manual, também significa resistência dos povos originários e esperança que eles finalmente tenham suas histórias ouvidas e contadas de forma responsável. Mostra esperança de uma sociedade que respeite a pauta indígena e de um jornalismo que se comprometa a aprender junto com os povos originários.

Festival 3i 2026: como jornalistas podem identificar o greenwashing

Festival 3i 2026: como jornalistas podem identificar o greenwashing

Oficina debateu os desafios e as possibilidades do no jornalismo de soluções para a temática socioambiental

Por: Maria Eduarda Galdino, da Uerj | Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia

  Apresentação da oficina soluções climáticas: identificando pautas, promovendo engajamento e os riscos de         greenwashing. Foto: Maria Eduarda Galdino

 

A pauta ambiental e os seus desafios foram destaque na oficina sobre jornalismo de soluções no Festival 3i 2026. Maristela  Crispim, editora chefe da Eco Nordeste, explicou a importância de cultivar fontes sólidas e especializadas para que o jornalista não caia no greenwashing, a chamada “lavagem verde”, termo usado para definir práticas de marketing empresarial e governamental que promovem uma imagem irreal de sustentabilidade, sem aplicações evidentes.  

 

Além disso, a jornalista revelou seu incômodo ao receber diversas propostas para fazer matérias sobre empresas com baixo desempenho socioambiental durante a COP 30, realizada no Brasil ano passado. “Não dava para acreditar que uma mineradora que está destruindo o estado do Pará está beneficiando mulheres indígenas”, disse Maristela. 

 

A jornalista afirmou que, apesar das demandas imediatistas do jornalismo, é necessário investigar detalhadamente especialistas e empresas que propõem a pauta ambiental para os veículos. Também reforçou a importância do estudo dos fenômenos naturais e demais nomenclaturas que envolvem o jornalismo ambiental. “Quando chega perto de junho (quando se celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente), todo mundo é ecológico, todo mundo faz coisas maravilhosas. E aí eu comecei a criar critérios para selecionar. Você já tem resultados? Quando você tiver, volta e a gente conversa”, relatou a jornalista. 

 

Segundo uma pesquisa conjunta do Instituto Akatu e da Market Analysis sobre greenwashing no Brasil em 2025,  73% dos brasileiros acreditam que as empresas que exageram ou enganam sobre suas iniciativas sustentáveis e os impactos ambientais de seus produtos deveriam ser penalizadas. O setor de cosméticos e higiene ficou em primeiro lugar na percepção do público sobre produtos enganosos, enquanto os eletrônicos e materiais de limpeza estão em segundo e terceiro, respectivamente. 

 

Outra pesquisa do mesmo instituto, intitulada “Greenwashing no Brasil: Um estudo sobre as alegações ambientais nos produtos Edição 2024”, mostrou que 85% das alegações ambientais em produtos vendidos no país são falsas ou enganosas. Com destaque para produtos de limpeza, construção civil e eletrônicos.

 

Durante a oficina, Daniel Nardin, diretor executivo e editor chefe da Amazônia Vox, citou o jornalismo de soluções como ferramenta complementar no combate aos desafios das pautas climáticas. Jornalismo de soluções é um campo que abrange reportagens prioritariamente voltadas para contar, além dos problemas, caminhos possíveis para resolvê-los. O jornalista afirmou que, ao abordar os problemas sociais com contextualização e solução baseada em evidências, é possível educar o leitor e fugir de uma matéria que se renda ao greenwashing das empresas ou institucional.

 

Nardin usou como exemplo do jornalismo de soluções uma reportagem da Amazônia Vox sobre a baixa assistência de pré-natal em comunidades ribeirinhas da Amazônia. Além de relatar os problemas de baixa cobertura, o jornalista mostrou o desvio positivo, ou seja, os municípios que estão melhorando em relação aos índices de realização de pré-natal e como outras regiões ribeirinhas podem melhorar suas condições. Dessa forma, a matéria não somente expõe o problema, mas também uma forma de buscar uma solução.

Alvo de críticas dos Estados Unidos, Pix é elogiado como ferramenta inovadora no Web Summit Rio

Alvo de críticas dos Estados Unidos, o Pix é elogiado como ferramenta inovadora no Web Summit Rio

Especialistas apontam qualidades do sistema de pagamento direto e sem presença de intermediários

Por Everton Victor e Murilo Santos

 
Web Summit Rio 2026. Paul Devlin/Web Summit

Alvo de ataques do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o  PIX foi celebrado durante o Web Summit, evento de inovação e tecnologia que acontece no Rio. Nesta semana o governo brasileiro registrou a marca PIX no Instituto Nacional de Propriedade Indústrial (INPI). A ação ocorre após críticas do governo estadunidense sobre um possível favorecimento do Banco Central do Brasil ao mecanismo, em detrimento de empresas norte-americanas que atuam no setor.

A praticidade da  transferência imediata de dinheiro sem um longo tempo de espera e sem um intermediador são fatores que constituem o PIX. Junto a isso, sua aceitabilidade varia desde o comércio local até grandes marketplaces que chegam a oferecer descontos em compras em PIX. 

Uma das razões é que esse modelo de transação não conta com uma empresa intermediadora dessa transação financeira, o que barateia os custos. Desde o lançamento do PIX, em 2020, até o primeiro semestre de 2025,  o sistema brasileiro PIX representou uma economia de 106,8 bilhões de reais para os usuários da ferramenta,  segundo pesquisa da PUC-MG.

Paddy Cosgrave, CEO do Web Summit. Divulgação: Web Summit Rio 2026

Paddy Cosgrave, CEO e fundador do Web Summit, classificou o PIX como uma das maiores inovações financeiras dos últimos tempos. De acordo com ele, o mercado brasileiro é historicamente dominado por duas empresas de transações financeiras, a Visa e a Mastercard, oriundas dos Estados Unidos. O CEO do Web Summit definiu o PIX como “assassino de monopólios”. As duas empresas estadunidenses têm atuação em mais de 200 países.

Utilizado por 170 milhões de usuários, o PIX está no cotidiano de diferentes brasileiros. Só em janeiro de 2026, essa ferramenta foi responsável por 7 bilhões das transações financeiras, de acordo com o Banco Central do Brasil. Através de um cadastro rápido, é possível com o CPF realizar um PIX por aproximação, agendar uma transferência sem a necessidade de ter uma empresa mediadora, por exemplo.

A crítica do governo Trump é que a iniciativa brasileira está prejudicando as finanças de grandes empresas financeiras com sede nos Estados Unidos. Recentemente, o governo norte-americano anunciou uma taxação de 25% sobre as mercadorias brasileiras após investigações do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) acusarem o Brasil de práticas comerciais “irrazoáveis”. 

O relatório afirma que o Pix cria uma competição desleal entre os provedores de pagamento eletrônico estrangeiros que atuam no Brasil. No documento de 107 páginas, os Estados Unidos citam a palavra PIX 20 vezes. 

O CEO e fundador da stratup Jeeves, Dileep Thazhmon, comentou o papel de novas iniciativas financeiras para facilitar a vida dos usuários. Sua empresa, através de cripto moedas lastreadas a moedas reais, se tornou uma intermediária de transações que ao invés de durar dias são concluídas em minutos. De acordo com o CEO, a iniciativa se inspira no PIX e a atuação da startup representa uma redução de 80% dos custos envolvidos em transferências internacionais.

Rio terá polo de data centers de IA

Rio terá polo de data centers de IA

Prefeito Eduardo Cavaliere anunciou investimentos privados na primeira fase do projeto Rio IA City 

Por Everton Victor e Murilo Santos

Eduardo Cavaliere, Mayor, prefeito do Rio, ado lado de Alessandro Lombardi, presidente da Elea Data Centres,  Divulgação/Web Summit Rio 2026

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Cavalieri, anunciou no Web Summit Rio 2026 um investimento de US$ 550 milhões a ser feito na cidade pela plataforma Elea Data Centers. Os recursos fazem parte da primeira fase do projeto Rio IA City, que prevê um polo de data centers no Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste da cidade. Cavalieri afirmou que a cada 100 megabytes serão gerados milhares de empregos em especial para os jovens universitários da cidade. A capital fluminense recebe entre os dias 8 e 11 de junho, pelo quarto ano consecutivo, o Web Summit Rio, um dos principais festivais de tecnologia do mundo.

Cavaliere fez o anúncio numa entrevista coletiva concedida em conjunto com Paddy Cosgrave, CEO e cofundador do Web Summit. A Agenc perguntou ao prefeito sobre os ganhos para os cariocas resultantes de eventos sobre tecnologia.  De acordo com o prefeito da cidade, os jovens do Rio, em especial, os universitários, serão os principais beneficiados de uma economia diversificada e baseada em IA. “Se a nossa cidade continuar se preparando para ser a capital da inovação e se a gente investir em datacenters, nós vamos atingir mais empregos, mais investidores e mais oportunidades para os jovens”, afirma.

Cavalieri também comentou  a iniciativa Rio IA City, um hub de inovação e tecnologia de data centers no Parque Olímpico, na Barra. O plano estratégico do município visa transformar o Rio em um dos 10 maiores polos globais de inovação e tecnologia até 2032. Ao todo, está previsto um investimento final de 65 bilhões de dólares ao longo da próxima década. 

O anúncio do avanço do Rio IA City vem no cenário de crescimento dos debates sobre os efeitos de grandes Data Centers para os territórios em que eles estão instaurados e o debate sobre o impacto ambiental dessas estruturas. Data Centers reúnem conjuntos de computadores de grande porte que processam um descomunal número de dados e informações, como ferramentas de IA de chatbots, como o CHAT GPT. 

Apesar de otimizar tarefas do cotidiano, os data centers consomem uma grande quantidade de água. De acordo  com as Nações Unidas, o consumo anual de água necessário para manter Data Centers seria de 9,3 trilhões de litros, uma quantidade que supriria as necessidades domésticas básicas de água de 1,3 bilhão de habitantes da África Subsaariana durante um ano. Estima-se que apenas o treinamento do ChatGPT-5 consumiu cerca de 1 bilhão de litros de água.

A expansão tecnológica desses centros de dados demanda estrutura física, de terras para ser instalado, mas também  fatores como geração de eletricidade, sistemas de refrigeração e captação de água voltados para essas máquinas. Defensores da criação de mais Data Centers reforçam benefícios de um grande processamento de dados e ferramentas para países desenvolverem seus sistemas digitais interno.

No Brasil, tramita no Senado Federal o Projeto de Lei 3018/24, de autoria do senador Styvenson Valentim (PODEMOS/RN), que estabelece regras para locais de armazenamento e processamento de dados em território nacional. Durante audiência pública da Comissão de Ciência e Tecnologia sobre o PL realizada na última terça (9), o representante do Ministério Ciência, Tecnologia e Inovação, Hamilton José Mendes da Silva, sugeriu no debate que a regulamentação incluísse a transparência sobre consumo de água e energia em data centers. 

O complexo na Barra da Tijuca terá capacidade energética inicial de 1,5 GW, com expansão prevista para até 3 GW em 2032. A expectativa é que o Rio IA City gere mais de 10 mil empregos qualificados para os cariocas e torne a cidade um atrativo para startups, centros de pesquisas e empresas de tecnologia de diferentes países. No anúncio desta primeira fase, não houve detalhamento sobre iniciativas de sustentabilidade no polo de data centers a ser instalado no Rio.

Aos cariocas, o prefeito ressaltou que a criação de ginásios tecnológicos, incentivos a iniciativas como Porto Maravalley, um hub para abrigar start-ups, e o novo prédio do Instituto de Matemática Pura e Aplicada no centro da cidade são algumas iniciativas da cidade direcionadas a posicionar o Rio como um polo de inovação. O Web Summit é um dos principais festivais de tecnologia do mundo. Nesta edição, a estimativa é reunir mais de 40 mil pessoas, além de ter o recorde de participação de 1.572 startups de diferentes países.

Festival 3i 2026: entre riscos e desafios, mesa discute até que ponto a IA pode ser aliada do jornalista

Festival 3i 2026: entre riscos e desafios, mesa discute até que ponto a IA pode ser aliada do jornalista

Mesa de abertura apontou aplicações práticas para as ferramentas automatizadas e destacou necessidade de letramento urgente das redações em tecnologia

Samira Santos, da Agenc/Uerj | Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia

      Mesa de abertura do Festival 3i, com Ana Paula Valaco, Ludovic Blecher, Sabrina Passos e Vitor Martin (Foto: Divulgação/Festival 3i)

 

A mesa de abertura do Festival 3i 2026 deu o tom de um dos debates centrais do encontro, cuja edição deste ano aconteceu no Porto Maravalley, no centro do Rio. Com o tema “IA e pensamento estratégico em redações jornalísticas”, a conversa reuniu especialistas para discutir como a inteligência artificial está redefinindo a rotina das organizações de notícias, com mudanças que vão além das ferramentas técnicas para focar na sobrevivência do modelo de negócio e na própria qualidade da informação.

 

Ana Paula Valacco, mediadora da mesa e líder de engajamento na JournalismAI, destacou os desafios enfrentados pelas organizações. Das grandes redações aos veículos locais, a busca por se reinventar e angariar investimentos são questões que se renovam diariamente no cotidiano de quem produz informação. A disputa dessas redações pela audiência – leitor, ouvinte ou telespectador – não fica restrita ao veículo jornalístico concorrente, mas também passa pelos mecanismos de  tecnologia.

 

É nesse contexto de saturação de informação e fadiga da audiência que, na avaliação de Ana Paula,  a Inteligência Artificial surge não apenas como um desafio, mas como uma peça estratégica. A especialista lembrou que a IA já é faz parte do cotidiano desses leitores e telespectadores:  de acordo com a organização internacional EY, 63% da Geração Z considera que a IA traz impacto positivo para a vida. Ana reforçou que não dá para tratar essas tecnologias como inimigas das redações e disse que a IA pode ser uma boa aliada no trabalho. 

 

 

                          Auditório Arena ficou lotado durante a palestra (Foto: Divulgação/ Festival 3i)

 

Um dos pontos centrais da discussão foi a desmistificação da tecnologia. Victor Martin, gerente de Programas no Google DeepMind, afirmou que a IA deve ser encarada como um “estagiário superinteligente”. Para Martin, a grande vantagem da tecnologia é “devolver tempo ao jornalista”, automatizando tarefas mecânicas e repetitivas para que os profissionais possam focar no desenvolvimento de pautas e no jornalismo investigativo.

 

Entre as aplicações práticas citadas pelo especialista estão a transcrição de entrevistas, tradução de documentos, análise de grandes volumes de dados, como arquivos do FMI ou Banco Mundial e até o brainstorming para novas abordagens de temas antigos. Martin enfatizou que ferramentas gratuitas como o Gemini, ChatGPT e NotebookLM já permitem que redações de qualquer tamanho comecem a experimentar sem custos grandes. No entanto, deixou um alerta: a tecnologia ainda alucina, ou seja, gera informações completamente erradas, e exige verificação constante. “Não confie cegamente na IA”, pontuou.

 

Estratégia e negócios

 

Sabrina Passos, diretora sênior da Blue Engine Collaborative, trouxe uma perspectiva focada na sustentabilidade financeira. Ela observou que, muitas vezes, as redações se perdem no hype ou no pânico da criação de conteúdo, ignorando como a IA pode resolver problemas operacionais de negócio. “A IA pode ajudar muito na estratégia do negócio, e muitos líderes ainda não estão pensando nisso”, afirmou. De acordo com ela, organizações independentes podem ganhar escala em operações complexas em menos de 90 dias com ferramentas de baixo custo.

 

Passos citou casos reais de sucesso desenvolvidos nos laboratórios da Blue Engine, como o “Caçador de Jabuti” da Revista Fórum. A ferramenta utiliza IA para analisar projetos de lei e identificar emendas, os jabutis, que tentam passar despercebidas. O que antes levava horas de análise humana agora é feito em minutos com alta precisão, permitindo que o repórter foque na denúncia e no impacto social da matéria. 

 

O medo da IA

 

A discussão também mergulhou na dimensão humana e ética. Ludovic Blecher, ex-Google e atual CEO da IDation, não fugiu das questões espinhosas. “A gente nunca vai se livrar do medo da IA, pois ela é assustadora. Ela pode destruir nossos empregos”, admitiu. Apesar do alerta, ele defendeu que o medo não deve levar a uma atitude passiva. Para Blecher, a resistência radical é um erro, pois a IA já está integrada ao cotidiano da sociedade e das plataformas. “Se você não produzir jornalismo de qualidade, você não vai sobreviver à revolução das IAs”.

 

Um consenso entre os palestrantes foi a necessidade urgente de letramento em tecnologia dentro das redações. Sabrina Passos defendeu que as conversas sobre IA precisam “sair das redações e ir para os outros andares”, envolvendo lideranças e setores administrativos para criar uma visão dentro da organização. Questões como transparência sobre quando e como declarar o uso de IA, segurança de dados e políticas internas de uso foram apontadas como essenciais para evitar erros que possam comprometer a credibilidade do veículo. 



Reportagem produzida por estudantes de jornalismo para o Foca no 3i, parceria de cobertura do Festival 3i 2026 com ESPM-Rio, PUC-Rio, UERJ e UFRJ.

Festival 3i 2026: como novos formatos aproximam o jornalismo das pessoas

Festival 3i 2026: como novos formatos aproximam o jornalismo das pessoas

Mesa da sétima edição nacional do evento levanta questões sobre estratégias para conseguir o engajamento da audiência

Por Richard Gabriel, da Uerj | Edição e supervisão: Prof. Fernanda da Escóssia

 

O segundo dia do Festival 3i 2026 começou com a mesa “Criação, Emoção e Arte no engajamento da audiência”, logo na manhã do sábado. Com mediação de Marília Moreira (Instituto AzMina), a mesa recebeu Jakub Górnicki (Outriders), Pablito Aguiar (Sumaúma) e Sanara Santos (Énois), que contaram suas experiências lidando com diferentes formatos para engajar audiências. Os convidados apresentaram seus trabalhos e contaram como lidam com as diferenças nos processos de criação para formatos distintos.

Jakub Górnicki falou de seu trabalho na Outriders, fundada em 2017 pelo próprio e por Anna Górnicka; a organização busca explicar o impacto dos acontecimentos globais usando tecnologia e narrativa digital para se aproximar do público. Ele ressaltou que, nos últimos quase 10 anos, tenta fazer projetos que juntam arte e jornalismo para criar histórias que não sejam facilmente esquecidas, que atinjam e provoquem as pessoas.

Pablito mostrou seu olhar como repórter-quadrinista no site Sumaúma e pontuou que, apesar de produzir reportagens em quadrinhos, as histórias seguem o mesmo fluxo de produção jornalística de uma matéria escrita. O site Sumaúma – Jornalismo do Centro do Mundo foi lançado em 2022 e busca inverter a lógica geográfica tradicional do jornalismo, cujo olhar dominante é o do Sul-Sudeste. Sumaúma foca na Amazônia e está sediada em Altamira, no Pará, de onde atualmente trabalha Pablito.

A partir de suas experiências, Pablito enumerou os pontos positivos de se contar uma história no formato de quadrinhos:

  • O didatismo e o apelo visual do quadrinho, o que facilita a absorção de dados complexos, burocráticos e técnicos, tornando-os mais acessíveis;
  • A imersão narrativa, já que através do desenho é possível detalhar o ambiente e o contexto de forma subjetiva, mergulhando o leitor na realidade dos fatos;
  • A proteção de fontes, pois as próprias pessoas podem decidir como querem ser desenhadas de maneira a proteger sua identidade;
  • A capacidade de reconstrução de memórias, ao poder desenhar imagens que não foram registradas em vídeo ou fotos.

Sanara Santos, diretora de operações da Énois —  organização sem fins lucrativos que acelera redações locais e capacita jovens periféricos — destacou a importância de o jornalismo local trabalhar com articulação nas comunidades, e acrescentou que a arte é um elemento de informação. “Ela faz aflorar a sensibilidade de uma maneira que o jornalismo muitas vezes não consegue”.

Sobre o uso de diferentes formatos para a divulgação de informação, Sanara destacou a necessidade de variar os conteúdos: “A informação circula dentro de território em diferentes formatos, e o principal deles é a arte, em slams, saraus e poesias que refletem a realidade desses territórios. Então por que não usar essas ferramentas, essas manifestações que mobilizam as pessoas?”

 

A mesa trouxe temas como o distanciamento do jornalismo com seu público e o uso de novos formatos para conseguir alcançar a audiência, criando nela confiança e segurança. “Em muitos casos o jornalismo leva facilmente a conclusões, quando na verdade é sobre levar as pessoas a fazer perguntas. A arte chega justamente nesse lugar de fazer o público se questionar”, afirmou Jakub. Sanara explicou que na Énois resolveram retirar a palavra jornalismo e trocá-la por comunicação. “As pessoas entendem muito mais o que é comunicação do que o que é jornalismo. Essas palavras são importantes para o meio jornalístico e da comunicação, mas na real não tem relevância nenhuma dentro dos territórios. O importante é que as informações cheguem e que as pessoas consumam, não importa o nome que ganhe”, destacou.

Durante a rodada de perguntas, foram abordados temas como o uso da Inteligência Artificial na criação de conteúdos de jornalismo imersivo e o retorno das mídias físicas. Jakub pontuou que seu foco tem sido combinar experiências virtuais com as físicas e citou o ótimo retorno dessa fusão, especialmente em revistas, vinis e CDs. Segundo ele, essa tendência se dá devido à alta quantidade de tempo de tela nas sociedades contemporâneas, gerando uma necessidade pelo contato físico com produtos e pessoas. 

Sobre o uso de IA no processo criativo, Jakub explicou que, no seu caso, ela acaba facilitando muitos processos e a execução do seu trabalho, gerando mais tempo para outras tarefas. Pablito, por outro lado, contou sobre o tempo que leva para a criação das tirinhas e como, na criação desse tipo de arte, não vê a IA como uma aliada. Em sua avaliação, nesse modelo que valoriza o trabalho humano, o tempo é algo que deve ser respeitado. “Eu acredito que o tempo é um ingrediente do nosso trabalho, então se fazendo um quadrinho eu estou inibindo o fator tempo e quero fazê-lo muito rápido, de certa forma eu acabo prejudicando o trabalho”, afirmou.

Sanara destacou como foi lidar com a mudança de criar arte e concordou sobre a diferença entre o tempo de produção artística e o de pautas jornalísticas. “Entender essa diferença é um grande desafio das organizações, por isso na Énois contratamos um curador para dar o ritmo de produção de arte para os projetos e diferenciar da metodologia de produção de pautas”. A mesa se encerrou deixando com o público o desafio de apostar em novos formatos e maneiras de engajar a audiência.

Pensar o presente e o futuro do jornalismo por quem faz e consome notícia

Pensar o presente e o futuro do jornalismo por quem faz e consome notícia

Cidade do Rio recebe sétima edição do Festival 3i, um dos principais eventos de jornalismo inovador e independente da América Latina

Por Everton Victor

Evento do Festival 3i. Foto: Everton Victor

Palco de trocas e reflexões sobre formas de consumir e produzir notícias, o Festival 3i, iniciativa voltada ao jornalismo independente, iniciou na última sexta (29) sua sétima edição no Rio de Janeiro. Com diferentes formatos de interação com o público, veículos jornalísticos de diferentes territórios do país se reúnem até este domingo no Porto Maravalley, na região Central da cidade. O uso de IA, o que estará em pauta nas próximas eleições no Brasil e no mundo, desafios dos canais de comunicação que cobrem a Amazônia são alguns dos temas  em discussão. Esta edição também marca os 5 anos da criação da Associação de Jornalismo Digital, a Ajor, realizadora do festival.

Para Sabrina Passos, diretora da Blue Engine Collaborative, a Inteligência Artificial pode ser um aliada cotidiana, mas exige  um olhar crítico.  “O que justifica o medo das pessoas com a Inteligência Artificial é ver tantos conteúdos equivocados, na pandemia, por exemplo. Se fosse hoje, a disseminação seria ainda maior“, afirma.

A utilização ou não da IA não está apenas em discussão nas redações jornalísticas nem é restrita  ao público do Festival. De acordo com pesquisa da Fundação Itaú em parceria com o DataFolha, 93% dos brasileiros utilizam ferramentas de IA no seu cotidiano, seja por meio de  perguntas  básicas em sites com respostas quase imediatas até chatbots que conseguem analisar inúmeros dados e informações em minutos.

Os debates do festival trouxeram exemplos sobre o uso jornalístico da IA. Um deles foi a “QuitérIA”, uma IA feminista lançada pelo Instituto AzMIna. A ferramenta monitora Projetos de Leis (PLs) do Congresso Nacional direcionados a questões de gênero e sexualidade. Ela coleta, analisa e traz contexto de como eventuais leis afetam essa população. O projeto foi tema de um dos Cases do 3i no primeiro dia de evento.

Outros exemplos em discussão no festival incluem o Lições da Amazônia, voltado ao jornalismo de iniciativas sustentáveis em territórios amazônicos, do veículo Amazônia VOX; e a Dandara Copilot, IA do Alma Preta.

A quatro meses das eleições gerais no Brasil, o  Festival 3i também é  um bom espaço para se manter atualizado sobre o que vai estar no centro da disputa eleitoral. A jornalista Cecília Oliveira, uma das fundadoras do Intercept Brasil, contará no próximo domingo os bastidores da reportagem investigativa que revelou uma ligação entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Outras mesas também abordaram e darão dicas de como cobrir e apurar as informações durante a corrida eleitoral. O espaço “Troca de Ideias” do Festival terá um dos debates sobre Estratégias de Jornalismo Territorial para as Eleições 2026 hoje às 15h.

A Agenc (Agência de Notícias Científicas da Uerj), por meio do programa Foca no 3i, estará acompanhando os três dias de evento. Acompanhe no nosso site,  nas redes do LED e do próprio Festival.

Fazenda de camarão, colheita de peixes: conheça a aquicultura

Fazenda de camarão, colheita de peixes: conheça a aquicultura

Cultivo de organismos marinhos cresce no Brasil e é alternativa frente às mudanças climáticas, mas enfrenta desafios estruturais e sanitários

Por: Maria Luísa Fontes

Estufa para produção de camarão nos estados do Rio Grande do Norte e Ceará. Imagens mostram detalhes dos      viveiros escavados, a paisagem da região e as estruturas de produção. Por: Yara Cristina de Cavalho Novo e Telma Maria do Vale/Embrapa

 

Aquicultura (ou aquacultura) é uma atividade humana milenar que consiste no cultivo controlado de organismos marinhos. Voltada para a alimentação, a técnica envolve, por exemplo, a criação de peixes, crustáceos, moluscos, rãs, tartarugas e algas. Ela pode ser realizada no mar, em açudes, em lagos e até em tanques construídos pelo ser humano. Essa prática é a alternativa ideal para a pesca predatória, pois procura ocorrer de forma sustentável, sem que a criação desses organismos afete negativamente os ecossistemas marinhos. O cultivo, por ser realizado em ambientes controlados, geralmente possui  melhor planejamento produtivo e regularidade, o que permite produtos mais homogêneos, diferentemente da pesca extrativista que, devido à imprevisibilidade da atividade, não consegue garantir a mesma segurança alimentar.

 

A aquicultura também demonstrou ser eficiente no combate às mudanças  climáticas, visto que sua produção envolve baixa emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE). Algumas espécies marinhas, como a tilápia e o camarão, conseguem transformar ração em biomassa sem produzir metano. Em relação às algas marinhas, esses organismos podem ser uma solução natural para o sequestro de carbono (CO2), o que ajuda a diminuir o aquecimento global. Elas absorvem CO2 durante seu crescimento, não necessitam de fertilizantes e ainda podem auxiliar na redução da acidez dos oceanos, causada pelo excesso de dióxido de carbono nos mares. Já os moluscos bivalves (ostras e mexilhões) cultivados em áreas costeiras, melhoram a qualidade da água e incentivam a biodiversidade, operando como filtros naturais. 

 

Para realizar esse tipo de cultivo em larga escala, é preciso usar técnicas para aumentar a eficiência de um sistema produtivo, garantindo melhor qualidade de vida para o animal que vive em cativeiro. Isso precisa ser feito de forma sustentável para não causar impactos ao meio ambiente, respeitando os limites e sem ameaçar o ecossistema. 

 

De acordo com Vanessa de Magalhães, professora de Oceanografia da Uerj, a melhor forma de  cultivar esses organismos é estabelecer o que os especialistas chamam de “aquicultura multitrófica integrada”, ou seja, reunir no espaço de produção espécies que ocupam funções diferentes dentro de uma mesma cadeia alimentar. Ela cita como exemplo os peixes alimentados com ração que geram resíduos futuramente decompostos por bactérias. Em seguida, esses resíduos são filtrados por moluscos, o que evita o acúmulo de matéria orgânica. As partículas resultantes desse processo são digeridas por bactérias que transformam a matéria orgânica em nutrientes para as algas fotossintetizantes. Assim, o cultivo torna-se mais efetivo pois, ao final do ciclo, será possível colher peixes, moluscos e algas.  

 

Vanessa contou que a pesca extrativista global se encontra estagnada desde meados da década de oitenta em cerca de 90 milhões de toneladas por ano, e que, por isso, tornou-se necessário cultivar esses animais em cativeiro para evitar que esse alimento falte para as pessoas. Fatores como a degradação de ecossistemas costeiros, o desmatamento de manguezais, a poluição, as mudanças climáticas e a pesca excessiva contribuíram para esse cenário, no qual a pesca tradicional dos animais já não é mais suficiente para sustentar a demanda alimentar da população. 

 

De acordo com relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em 2022,  a aquicultura superou pela primeira vez  a pesca extrativista, atingindo uma produção global de 130,9 milhões de toneladas e se tornando a principal produtora de animais aquáticos no mundo. No Brasil, a Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) identificou que a aquicultura movimentou aproximadamente 11,67 bilhões de reais em 2024, um aumento de mais de 15% em relação a 2023, que registrou cerca de 10,12 bilhões de reais. Esses dados indicam que a prática da aquicultura está crescendo no país, consolidando-se como uma alternativa sustentável à pesca extrativista.

 

Entretanto, a professora destacou que a segurança sanitária é o principal desafio que dificulta a expansão aquícola no país. O alimento produzido não pode oferecer nenhum tipo de perigo ao consumidor, como contaminações por microrganismos ou por substâncias químicas, ainda que naturais. Ela conta que, embora o país tenha uma boa legislação para as medidas médico-sanitárias, a análise dos produtos demanda laboratórios com infraestrutura tecnológica e profissionais capacitados. No Brasil, esses espaços ainda estão concentrados em Santa Catarina, o que impede o controle higiênico-sanitário em larga escala de alcançar outras regiões para fazer a devida inspeção. 

 

Dessa forma, mesmo que o pequeno produtor aumente sua produção, a comercialização não será permitida, pois o pescado não terá o selo de verificação necessário. Vanessa conta que existe a certificação sanitária federal, estadual e municipal, mas muitos aquicultores não conseguem obter esses documentos devido à falta de estrutura para realizar as análises que comprovam a qualidade do alimento. Peixes e frutos do mar são ótimas fontes de proteína animal e gorduras boas, além de sua carne carregar inúmeros nutrientes, como zinco, ômega 3 e vitamina B12. Por isso, é importante investir mais na aquicultura sustentável para que o pescado esteja mais presente como opção de compra do brasileiro.

Cármen Lúcia diz que Judiciário tem de atuar contra feminicídios: “As mulheres estão morrendo”

Cármen Lúcia diz que Judiciário tem de atuar contra feminicídios: “As mulheres estão morrendo”

Em palestra no Festival LED, realizado semana passada no Rio de Janeiro, ministra do STF
afirma que escola é caminho para enfrentar misoginia e fortalecer democracia

Por: Murilo Santos e Júlia Martins

                              Cármen Lúcia na mesa “O Brasil que se constrói pela educação” no Festival LED

 

“As mulheres estão morrendo e nós, do Judiciário, temos que atuar sobre isso”. Num país com 1.500 casos de feminicídios apenas no ano passado, essa foi uma das cobranças da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), no primeiro dia do Festival Led. A ministra participou da mesa “O Brasil que se constrói pela educação” e acabou falando de temas variados.

Ao discutir a educação dos meninos, por exemplo, a ministra lembrou que sua geração foi criada sob uma cultura da “gata borralheira” e do “homem provedor”. Ela afirmou que os rapazes cresciam sabendo que teriam espaço garantido nos centros de decisão, enquanto suas esposas ficavam à mercê de suas decisões. Segundo a ministra, com a conquista feminina desses espaços, porém, instaurou-se uma insegurança nos homens que leva à misoginia.

 

A saída apontada por ela é a educação, por ser o lugar onde se constroem alternativas. “Não queremos conflitos entre mulheres e homens, nos completamos na nossa humanidade”, afirmou. Cármen Lúcia também discutiu sobre a criação de meninos, e como muitos não foram ensinados a reconhecer esse papel do cuidado como algo tão necessário para a sociedade.

A mesa “O Brasil que se constrói pela educação”, realizada no dia 15 de maio, foi mediada pela jornalista Julia Duailibi. O evento, organizado pela Rede Globo, aconteceu no Píer Mauá e tinha entrada franca.

A ministra também refletiu sobre a sua trajetória pessoal, contando sobre desde o jardim de infância até os tempos de professora de direito. Ela reforçou como os alunos a fazem estar sob constante questionamento e como a educação informal é tão importante quanto a formal, já que a mesma nos humaniza. A ministra também destaca a relação entre tecnologia e educação, pauta muito discutida ao longo do evento. Ela reforçou a necessidade do contato humano com professores no processo educacional: “Não há tela que substitui o olhar humano, o pátio da escola… essas trocas humanas”.

 

Carmen Lúcia também integra o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), órgão que já foi presidido por ela. Em ano de eleições gerais, condenou os ataques à democracia.  Sem citar nomes, ela comparou os ataques à Constituição com a roseira que sua mãe cultivava: caso ela deixasse de cuidar, as ervas daninhas tomariam conta, e o mesmo acontece com as instituições democráticas. Ela também falou sobre a esperança de um mundo melhor e como, mesmo morando em uma região muito quente, sua mãe continuava cuidando e plantando rosas. “Eu tenho a convicção plena de que lutar pela democracia permanentemente é necessário porque sempre haverá candidatos antidemocratas, totalitários, tiranos, estão aí as guerras para demonstrar. Mas, isso não significa que eles vão vencer. A minha mãe, as ervas daninhas não venceram”.

Questionada sobre violência nas salas de aula e censura — respondendo a cada tema separadamente —, a ministra afirmou que as agressões contra professores e entre colegas são fruto de uma sociedade cada vez mais violenta. Para reforçar o argumento, a magistrada lembrou que casos de avós sendo agredidos, raros no passado, tornaram-se mais comuns hoje. Já sobre a imprensa, ela defendeu o trabalho dos veículos de comunicação como essencial para a democracia, ao mostrar à sociedade o que ela precisa saber e ao funcionar como um filtro de informações.

A ministra destacou como o Brasil possui leis e uma Constituição que deveriam assegurar dignidade para todos, mas que isso não tem ocorrido na prática. E encerrou revelando seu maior desejo: além de afirmar categoricamente que vale a pena lutar pela democracia, declarou que vale lutar pelo futuro. “Meu sonho é que cada homem e mulher sejam o que quiserem” — e que esse seja o desejo de todos os brasileiros.

Evasão escolar de  jovens quilombolas é desafio para políticas de educação

Evasão escolar de jovens quilombolas é desafio para políticas de educação

Especialistas discutiram engajamento e a permanência  dos jovens brasileiros em mesa redonda no festival LED


Por: Maria Eduarda Galdino

  Dominga Natália, Zara Figueiredo e Rosalina Soares na mesa de debate do Festival LED. Foto: Maria Eduarda Galdino

 

Isolamento geográfico, falta de professores e infraestrutura são obstáculos citados na trajetória de educação básica de Dominga Natália Rosa, de 34 anos, moradora da  comunidade quilombola Kalunga. Ela participou da mesa “juventude em movimento: engajamento, permanência e sentido da escola para os projetos de vida”, no Festival LED, na última sexta-feira (15/5).

 A jovem relatou que para conseguir frequentar a escola, que só iria até a quarta série, foi preciso viver longe de seus pais e sua casa. A comunidade Kalunga está localizada na Chapada dos Veadeiros em Goiás. Dominga mudou-se para Cidade dos Arraiais e estudou regularmente até a sétima série.  Anos depois concluiu os estudos no supletivo. Além do acesso escasso à educação, a jovem também se sentiu incompreendida pelos professores que vinham da cidade até as comunidades quilombolas. “Tinha falta de paciência com os questionamentos. Então se a gente perguntava alguma coisa, era confronto”, disse ela durante o debate. 

A experiência relatada por Dominga reflete um problema estrutural observado em pesquisas nacionais. Segundo uma pesquisa  do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), os maiores índices de evasão escolar de crianças quilombolas acontecem no ensino fundamental II, isto é, do 6º ao 9º ano.

Além disso, o Censo Escolar de 2024 mostra a persistência da desigualdade escolar entre as regiões brasileiras, especificamente no Norte, onde existem escolas de localização diferenciadas como aldeias e quilombos, que não possuem o mesmo acesso a materiais escolares atualizados e tecnologia. 

Dominga se tornou professora para mudar a realidade da sua comunidade. Logo depois da formação no supletivo começou a lecionar na escola onde se formou e também enfrentou os desafios como professora quilombola: a falta de materiais e tecnologias que auxiliam no aprendizado não eram acessíveis no território Kalunga. “Também tinha a dificuldade da falta de material escolar, os materiais usados  das escolas da cidade que iam à comunidade”

A professora Dominga ainda conta a dificuldade de seus alunos adultos no ambiente rural, onde a rotina da agricultura familiar e a escola entram em conflito. “A pessoa anda 6 km para ir para a roça, trabalha o dia todo para voltar e vem passar o dia na aula, tem que ter muita vontade”, disse. Dominga expressa a necessidade de um apoio e incentivo do Estado para a permanência dos adultos na escola. 

Também esteve presente à mesa de discussão Zara Figueiredo, secretária de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão, do Ministério da Educação. A secretária falou sobre como a educação popular faz parte do processo de engajamento, permanência e projeto de vida dos jovens que sofrem com a desigualdade escolar. Um dos projetos citados pela secretária que ajudam no engajamento estudantil nas periferias foi a Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP). O projeto oferece suporte técnico e financeiro para a preparação de estudantes socialmente desfavorecidos que almejam entrar para a educação superior. 

Para auxiliar o funcionamento dos cursos populares no Brasil, o CPOP se compromete a elaborar orientações focadas no Enem para a estruturação e implementação de ações de formação nos cursinhos apoiados pelo CPOP. Além disso, o projeto oferece uma bolsa permanência de R$200 durante oito meses para que o estudante possa manter algumas despesas durante o período de estudos. 

“Os alunos do CPOP têm um nível de inscrição no Enem maior do que a média nacional, de comparecimento maior do que a média nacional e a nota média dos estudantes do CPOP é maior do que a média nacional. É uma coisa impressionante”, disse Zara Figueiredo. 

Rosalina Soares, superintendente de Conhecimento da Fundação Roberto Marinho, afirmou que os jovens negros, indígenas e quilombolas são maioria entre os 8 milhões de adolescentes que deixam a escola. Ela ainda acrescenta que a falta de políticas públicas setoriais contribui para a desigualdade dentro das escolas e deixa um vazio nas estratégias de engajamento e permanência. 

“É responsabilizar demais a escola por um problema que é social, a questão da desigualdade não nasce na escola,a gente precisa de políticas públicas intersetoriais, ou seja, aumentar a proteção social dessa população mais pobre, porque se a gente não tiver políticas mais fortalecidas, a escola não é responsável e não tem condições de resolver essas questões”, disse.