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O que é transição energética e o que você tem a ver com isso
Entre a urgência climática e as barreiras econômicas, mudar a forma de produzir energia é algo que desafia países ricos e pobres
Por: Murilo Santos

A transição energética deixou de ser apenas um conceito técnico para se tornar um eixo da economia e da política global. A necessidade de trocar de combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia mobiliza governos e movimentos sociais, redefine mercados e começa a impactar o cotidiano da população. O que está por trás dessa mudança e por que ela também passa por você?
O que é transição energética?
A transição energética é trocar uma forma de produzir energia por outra. Hoje as principais fontes de energia são combustíveis fósseis, gás natural, petróleo e carvão mineral, ou seja, fontes não renováveis de energia e que liberam muito carbono na atmosfera. Cerca de 80,9% da energia produzida no mundo tem origem poluidora, segundo dados da Agência Internacional de Energia, organização ligada à OCDE que orienta as políticas energéticas dos países associados. O objetivo da transição energética é substituir essas fontes que contribuem para o aquecimento global por fontes renováveis de energia, como a hidrelétrica, a solar e a biomassa. O Brasil já tem em sua matriz energética o predomínio do uso de fontes renováveis, que respondem por metade da produção nacional, segundo dados do Balanço Energético Nacional referente ao ano de 2024.
Por que é preciso fazer essa mudança?
Com a emergência climática, fica cada vez mais urgente a necessidade de o mundo se tornar menos dependente das energias fósseis, que usam fontes como o petróleo e o carvão mineral. Essas formas de energia são extremamente danosas ao meio ambiente, emitem carbono na atmosfera e aumentam o aquecimento do planeta. No entanto, há inúmeras dificuldades políticas e econômicas para alcançarmos isso. O professor Ronaldo Serôa da Motta, do curso de Economia da UERJ, ressalta que, diferentemente do que aconteceu em outras eras, a transição energética vem da necessidade de combater o aquecimento global, não da busca por uma energia mais barata: “Quando a gente fala hoje em dia em transição energética, a gente está muito relacionado com a questão climática. Que a principal fonte de emissão é a queima de petróleo e derivados de petróleo. É uma questão de energia fóssil, como também pode incluir o carvão, o gás, etc.”, explica Motta, que é doutor pela University College London, ex-dirigente do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) e ex-diretor do Ministério do Meio Ambiente.
A transição energética é economicamente viável?
Outra questão muito debatida é a viabilidade econômica para que os países aos poucos saiam do petróleo e de outras fontes poluidoras para as renováveis Apenas a energia eólica e a solar não são suficientes para abastecer em larga escala os países ricos, que consomem muita energia, nem os países pobres, pela sua baixa capacidade de renda para bancar o custo de instalação dessas matrizes. “Essa transição tem um custo muito alto, seja para os países ricos pela escala que eles consomem, seja para os países pobres pela sua capacidade de renda. E havia dentro das expectativas do Acordo de Paris que houvesse um financiamento internacional e uma disposição de gastos dos países que levaria a essa transição energética que colocaria de novo a trajetória de temperatura do planeta em níveis mais estáveis e mais seguros. Mas isso não acontece justamente porque não é economicamente viável na dimensão que você está no ar”, afirma o economista.
A transição energética, porém, não é isenta de dilemas. Como aponta Ronaldo Serôa da Motta: “Nesse contexto de mudança do clima, a motivação principal da transição energética é reduzir a queima de combustível fóssil para reduzir as emissões de CO2 e, com isso, combater o aquecimento global para evitar mudanças climáticas drásticas. É tudo muito calcado em se mover para distante da energia fóssil. Há uma grande discussão se esse movimento poderia ser primeiro pelo gás, por transição sim, mas a transição já deveria ter sido feita, né? Outra questão muito discutida atualmente, se a energia nuclear deveria participar porque ela é limpa do ponto de vista de CO2, mas tem riscos muito grandes”.
Como a transição energética pode ser sentida na vida do cidadão comum?
A transição energética não afeta apenas países e governos, a geopolítica e o comércio global, mas também os cidadãos comuns. Quando se diminuem as emissões de gás carbono, a qualidade do ar e dos recursos hídricos melhora na mesma medida. Um exemplo da mudança na vida do cidadão seria a maior utilização de carros elétricos, que não poluem e dispensam gastos com idas ao posto de gasolina. A transição energética não é apenas uma questão de política internacional ou de metas climáticas assinadas em acordos distantes: é uma transformação que começa na rua, no transporte, na conta de luz e no ar que se respira. O desafio é garantir que essa mudança chegue a todos, e não apenas a quem pode pagar por ela.



