Quando o transporte vira barreira: a mobilidade urbana e o cotidiano dos  alunos da Uerj

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Quando o transporte vira barreira: a mobilidade urbana e o cotidiano dos alunos da Uerj

Segundo especialista, os problemas recorrentes no transporte público afetam diferentes aspectos da vida acadêmica e pessoal dos estudantes

Por: Maria Clara Jardim

Vagão de trem lotado (Foto: Oleg Sergeichik / Unsplash)

Apesar do constante aumento das tarifas dos meios de transporte,  a elevação do preço das passagens não causa alteração na qualidade do serviço prestado ao cidadão do estado do Rio de Janeiro. O cenário se mantém o mesmo: a baixa circulação de linhas de trens e ônibus que são frequentemente utilizadas gera superlotação e demonstra o quanto o transporte instável necessita de melhorias em sua gestão. Para parte dos estudantes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a dificuldade para chegar ao campus é evidente e afeta diretamente o desempenho acadêmico, a saúde mental e até a permanência no ambiente universitário.

De acordo com especialistas, os desafios vividos pelos jovens estudantes dentro dos transportes públicos podem ocasionar diversas consequências negativas no ambiente acadêmico, como faltas por atrasos, dificuldade de concentração, acúmulo de trabalhos, excesso de sono e, por vezes, até a desistência de disciplinas. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) do IBGE, realizada em 2019, moradores do Rio de Janeiro gastam, em média, 7,4 horas por semana em deslocamentos entre casa e trabalho — dado que, embora não trate exclusivamente do acesso ao ensino superior, evidencia a precariedade da mobilidade urbana na região. Essa realidade impacta também os estudantes, que enfrentam longas jornadas até o campus e têm sua rotina acadêmica diretamente afetada.

 

Além de comprometer a performance acadêmica, a rotina de deslocamentos longos e instáveis também pode afetar a saúde de quem frequenta a universidade. A vice diretora do Instituto de Psicologia da Uerj, Laura Quadros, afirma: “Os impactos são relevantes e configuram uma situação de estresse prolongado com danos à saúde como um todo, visto que tais impactos atuam no organismo desdobrando-se em cansaço, dores musculares, irritação e insegurança”. Ela destaca também que os reflexos do desgaste provocado pelo transporte público são imediatos e afetam a concentração, agilidade cognitiva e emoções.

 

Aprender é um processo que integra mente, corpo, emoções, nutrição, ou seja, não depende exclusivamente da disponibilidade subjetiva, mas também de um corpo que experimente boas condições de deslocamento e organização social”, explica Quadros. A percepção da professora se confirma nos relatos de estudantes da Uerj, que enfrentam diariamente os efeitos da mobilidade urbana.

A estudante de jornalismo e moradora de Realengo, Lívia Martinho, utiliza o trem diariamente para se locomover até a Uerj e descreve sua rotina: “A experiência com o trem é extremamente negativa, o serviço é péssimo e marcado por inúmeros problemas. A superlotação é uma constante, os atrasos são frequentes e os veículos geralmente estão em más condições […] No trajeto até a universidade, enfrento diversas dificuldades que tornam o deslocamento cansativo e desgastante. O tempo excessivo gasto para chegar ao destino é um dos principais incômodos, agravado pela impossibilidade de sentar devido à lotação dos veículos. É comum fazer todo o percurso em pé, em um ambiente apertado e desconfortável. Os atrasos constantes  comprometem a pontualidade e a qualidade”, relata a estudante.

 

A baixa qualidade do serviço não afeta somente os usuários dos trens. A universitária e moradora de Bonsucesso, Vitória Perez, que utiliza diariamente a linha de ônibus para chegar à Uerj, relata uma experiência desgastante. “Terrível”, resume, ao avaliar o serviço. Entre as principais dificuldades, ela destaca a demora no trajeto, agravada pela irregularidade da frequência da linha. “Às vezes demora mais de 40 minutos para passar, principalmente para ir à Uerj, por isso está sempre lotado”, afirma. A superlotação e a imprevisibilidade no tempo de espera tornam a rotina ainda mais exaustiva.

 

Os dois relatos comprovam o quanto a rotina de deslocamento afeta o cotidiano acadêmico dos estudantes. Tanto Vitória Perez quanto Lívia Martinho relatam a necessidade de acordar mais cedo e chegar em casa muito tarde, o que reduz o tempo de descanso, lazer e realização de atividades da faculdade.

 

A realidade enfrentada pelos alunos revela um problema estrutural, que atravessa dimensões políticas, sociais e institucionais. Para a professora Laura Quadros, pensar alternativas como residências universitárias e formas de hospedagem estudantil é um passo possível dentro de políticas de permanência. Apesar dos limites orçamentários, ela defende que o engajamento coletivo é um caminho essencial para transformar o cotidiano de quem luta, todos os dias, apenas para chegar.

 

 

 

Quando o transporte vira barreira: a mobilidade urbana e o cotidiano dos  alunos da Uerj

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