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A romantização de transtornos psicológicos
Especialista da Uerj alerta sobre os riscos da romantização de transtornos de saúde mental
Por: Fernanda Rodrigues

A OMS revelou, este ano, que mais de 1 bilhão de pessoas convivem com transtornos
de ordem psicológica em todo o planeta, o que aumenta ainda mais a importância do debate
sobre a saúde mental na atualidade.Nas redes sociais como TikTok, Instagram e X (antiga
rede social Twitter) é possível notar, principalmente entre os jovens, tendências que focam na
glamourização de transtornos como ansiedade e depressão. A estética “sad girl”, por
exemplo, tem como base o sofrimento e a autodestruição feminina.
Apesar de parecer que a ascensão desse tipo de estética amplifica o debate sobre
saúde mental, Renata Alves Paes, coordenadora do Laboratório Interface Neurociências e
Cognitivo Comportamental (LABINCC), afirma que essa romantização “afeta a sociedade de
maneiras significativas no que diz respeito à saúde pública, percepção social com uma
sociedade menos informada, menos empática e menos preparada para lidar com cuidados em
saúde mental”. Esse comportamento acaba tendo como consequência a banalização de
transtornos mentais, que passam a ser cada vez mais vistos como exagero ou frescura.
Isso porque a apropriação de uma condição psicológica sem a devida orientação
especializada é formada por estereótipos que contribuem ainda mais para a desinformação,
segundo a especialista. O reflexo que fica na sociedade é uma imagem equivocada de pessoas
que possuem tais transtornos, aumentando assim o preconceito que cerca a questão
psiquiátrica no Brasil.
A professora explicou que a origem desse tipo de comportamento romantizador está
ligado à busca por aprovação, validação e visibilidade, principalmente entre os jovens. Eles
entendem que, se tivessem um transtorno, receberiam mais atenção e seriam mais descolados.
De acordo com Renata, isso impacta a trajetória de vida de um jovem, à medida que
afeta a saúde mental, o desenvolvimento e a capacidade de receber ajuda adequada. As
principais consequências apontadas pela professora são: atraso ou evitação da busca
profissional, invalidação do sofrimento real, problemas de autoestima e, ainda, a
normalização de comportamentos de risco como a automutilação. Um estudo da Fundação
Oswaldo Cruz (Fiocruz) indica que, entre os anos de 2011 e 2022, as notificações de
autolesões na faixa etária de 10 a 24 anos aumentaram 29% a cada ano.
Na Uerj, atividades que enfocam saúde mental como a Conferência de Saúde Mental
numa Sociedade em Transição com Flavio Kapczinski – pesquisador brasileiro na área da
saúde, membro titular da Academia Brasileira de Ciências – e um censo sobre a saúde mental
dos estudantes vêm sendo realizadas. O censo pode ser respondido no link:
https://redcap.lampada.uerj.br/surveys/?s=9TLATERRD3LH87EH
“Somente através da educação digital crítica, da promoção de conteúdo responsável e
do fortalecimento dos serviços de saúde mental será possível transformar o ambiente virtual
em um espaço de verdadeiro acolhimento e informação qualificada, onde o sofrimento seja
compreendido em sua complexidade real, sem glamour, mas também sem vergonha”, conclui
Renata.



