Mitigação e adaptação climática: entenda dois dos principais conceitos da COP30

Mitigação e adaptação climática: entenda dois dos principais conceitos da COP30

Conceitos têm sentidos diferentes e expressam necessidades distintas diante da crise climática

Por: Sofia Inerelli e Maria Luísa Fontes

 
                                Fonte: Ralf Vetterle/Pixabay – reprodução Agência Brasil
 

 

“Mudo uma planta de lugar.” O gesto eternizado na voz de Cássia Eller nos anos 90 como símbolo de mudança e ajustes ganha um sentido atual no contexto da crise climática. Já não se trata apenas de mudar a planta de lugar – é preciso reconfigurar todo o sistema em que ela cresce. Adaptação climática é um dos conceitos centrais da 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, a COP 30, que acontece em novembro em Belém do Pará. 

A Meta Global de Adaptação às Mudanças Climáticas foi um dos tópicos do Acordo de Paris criado em 2015 na COP 21. A proposta é fortalecer a adaptação para diminuir a vulnerabilidade dos seres vivos diante das mudanças no clima que já estão em andamento. É uma forma de buscar soluções diante de um mundo cada vez mais quente. Significa ajustar a vida humana, animal e vegetal de acordo com as mudanças climáticas atuais ou que ainda irão acontecer. Ela tem a finalidade de reduzir a exposição e a vulnerabilidade dos seres vivos frente aos efeitos do clima intensificados pelos próprios humanos. 

 

Já a mitigação é uma estratégia cujo foco é limitar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) para reduzir o aquecimento global. Ou seja, é o trabalho para reduzir problemas já em andamento. 

Para o professor de Ecologia da UFRJ Rodrigo Tardin, nesse momento a mitigação é mais urgente. “Mas, ao mesmo tempo que a gente está fazendo estratégias, unindo esforços para mitigar, a gente também pode ir adaptando”. O pesquisador considera que uma das melhores maneiras de mitigar é através dos manguezais, vegetação comum no Hemisfério Sul, nos quais captam cinco a seis vezes mais carbono que florestas tropicais. Ele ainda aponta que há muito preconceito por parte da sociedade, que enxerga o organismo como poluído – devido ao seu cheiro forte -, o que dificulta a mobilização para proteger esse ecossistema.

 

Tardin destaca três cenários possíveis para os resultados das estratégias de mitigação climática. O primeiro cenário é descrito como otimista, pois conseguiria de fato reduzir o aumento da temperatura média global a 1,5°C. O cenário intermediário é uma previsão de que, até 2050, a produção dos gases GEE irá crescer mas, a partir desse momento, a sociedade vai mudar seu rumo e começar a reduzir as emissões. E o terceiro cenário apresentado pelo professor é pessimista: “Apesar de todos os esforços que existem, ninguém se mudou, ninguém se tocou para mitigar”. É o mundo em que a sociedade permaneceria em total dependência dos combustíveis fósseis.

 

Nesse cenário, criar um plano de adaptação climática torna-se extremamente essencial. Segundo o relatório de 2025 da Transparência Internacional-Brasil, apenas um em cada oito municípios brasileiros conta com um plano de adaptação climática. Tardim destaca que na última década, o país enfrentou diversos desequilíbrios ambientais como a invasão do mar na orla da Zona Sul carioca e as enchentes que deixaram dezenas de mortos no Rio Grande do Sul.

As estratégias de adaptação climática devem ocorrer tanto na esfera federal, quanto na estadual e municipal. O programa do governo federal Novo Brasil, que é um Plano de Transformação Ecológicas, divulgou 150 resultados dos 250 propostos desde sua criação em 2023. Dentre eles, destaca-se a construção de usinas eólicas; o Programa Cidades Verdes e Resilientes, que procura aumentar a resiliência e a qualidade ambiental das cidades no combate às mudanças climáticas; o Plano Nacional da Defesa Civil, que apresenta diretrizes para redução de riscos na gestão de desastres naturais; e o Plano Clima, que envolve a redução das emissões de GEE e a adaptação aos impactos das mudanças climáticas.  

Entretanto, não cabe somente ao governo pensar nas estratégias de mitigação e adaptação climática. A sociedade também precisa se mobilizar no combate às mudanças no clima. O site do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima criou uma consulta participativa sobre o tema. “O governo tem que estabelecer as diretrizes, ao mesmo tempo que as pessoas têm que dar as opiniões e fazer as ações também”, afirma Tardin. 

Adaptação e mitigação são estratégias cruciais rumo a uma mudança sistêmica. Isso vale para tudo: infraestrutura pública, decisões econômicas, políticas sociais. Só assim será possível enfrentar de fato os desafios da emergência climática: transformando o próprio sistema em que ela está inserida. 

Nos dez anos do Acordo de Paris, Brasil estabelece novas metas, e Estados Unidos preparam retirada

Nos dez anos do Acordo de Paris, Brasil estabelece novas metas, e Estados Unidos preparam retirada

Assunto será tema de discussão na Cop 30 em Belém do Pará em novembro

Por: Maria Eduarda Galdino

                  Presidente Lula e António Guterres na reunião do G20 Brasil. Foto: Ricardo Stuckert/ Agência Brasil.
 

 

O Acordo de Paris, tratado internacional feito para combater as mudanças climáticas e o aquecimento global, completará dez anos de existência em dezembro deste ano. O acordo foi firmado na 21ª Conferência das Partes, a Cop 21, em Paris, França, em 2015, e foi assinado por 194 países. Um dos principais objetivos do acordo é manter o aquecimento global abaixo de 2ºC e limitar o crescimento em até 1,5ºC. 

Para combater o aquecimento global, os países signatários do acordo devem prestar contas das ações/metas para diminuir as emissões dos gases de efeito estufa. Essas ações são estabelecidas pela Contribuição Nacionalmente Determinada, também conhecida como NDC. Essas metas são apresentadas a cada cinco anos e devem progredir de forma mais ambiciosa acerca do relatório anterior.

Além das NDCs, existem as estratégias de desenvolvimento de longo prazo com baixas emissões de gases do efeito estufa (LT-LEDS). Segundo a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre o Clima (UNFCCC), as LT-LEDS estabelecem metas de longo alcance para as NDCs, a fim de que os países possam estipular metas de desenvolvimentos duradouras.  

O governo brasileiro apresentou sua nova NDC em novembro de 2024 chamada de Plano Clima. Entre os objetivos estão as ações para reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 53% até 2030 e zerar as emissões líquidas até 2050. Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, essas ações significam um equilíbrio entre as emissões e as remoções de gases da atmosfera por parte do Brasil.

O governo brasileiro pretende apresentar uma meta ainda mais ambiciosa antes da 30ª Conferência do Clima da ONU, a Cop30, que será em Belém do Pará em novembro.  As outras partes signatárias do acordo ainda precisam apresentar suas NDCs, mas até agora, apenas 54 países estão de acordo com o prazo combinado para a entrega das metas à ONU. Isso representa um atraso, já que 195 partes assinaram o Acordo de Paris.  

Em entrevista à Agenc,  Janaína Pinto, doutoranda em Ciência Política e integrante do Observatório interdisciplinar de mudanças climáticas, centro de pesquisas sobre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável, Janaína Pinto, afirmou que atualmente o maior problema ambiental que o Brasil enfrenta é o desmatamento. É o que a comunidade científica climática internacional chama de mudança no uso da terra, uma categoria que engloba. Além do desmatamento, existem outros fatores problemáticos como a devastação florestal. “Juntando o desmatamento com as emissões por agricultura e por agropecuária, nós temos mais de 2/3 das emissões brasileiras devidas a esse tipo de processo econômico”, disse. 

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento na Amazônia cresceu 8,4% entre agosto de 2024 e junho de 2025. A causa do aumento está nos episódios atípicos de incêndio florestal registrados pelo satélite no início do período seco. O estudo também registra uma queda de 22,51% de desmatamento no Cerrado em relação à pesquisa do ano anterior. Enquanto isso, o governo federal aprova  R$ 850 milhões de reais do Fundo Amazônia, para fortalecer as ações de fiscalização ambiental para o controle de desmatamento na Amazônia. 




Acordo de Paris sem os EUA 

Os Estados Unidos, um dos países com maior influência e financiamento climático do mundo, já saíram do Acordo de Paris pela segunda vez. Essa foi uma das primeiras medidas do atual presidente Donald Trump, anunciada no dia da sua posse, em janeiro de 2025. A saída deve se concretizar no ano que vem.  Essa não é a primeira vez que Trump afirma sua posição contra os pactos globais a favor do clima. No seu primeiro mandato em 2017, Trump também havia anunciado a saída dos EUA do Acordo de Paris, meses depois de assumir a presidência. Para Janaína Pinto, Trump utiliza o discurso de negacionismo para sustentar suas ações contra os pactos globais. “Ele afirma que, para que ele possa cuidar da economia nacional, ele precisa ser climaticamente irresponsável. Isso não é verdade. Ele precisa modificar a economia dos Estados Unidos”, disse.

Segundo a especialista, essas ações contra as políticas de combate às mudanças climáticas fazem parte da agenda de uma extrema direita que pretende acabar com o multilateralismo. Em sua avaliação, a instabilidade nos Estados Unidos ganha uma projeção internacional por conta da grande influência e financiamento que o país mantém sobre outros países. “Não apenas ele (Trump) se retira da mesa de negociação e coloca em risco os acordos financeiros necessários, ele tira a carteira dos Estados Unidos da mesa de negociação e compromete a carteira das outras partes”. 

 Segundo Janaína, os Estados Unidos têm criado instabilidades nos acordos internacionais desde 2024, na 29ª Conferência das partes no Azerbaijão. Trump já tinha vencido as eleições de 2024 antes da reunião do Acordo de Paris, o que causou incerteza sobre as promessas feitas pelos negociadores do governo Biden. “Não ficou estabelecido de onde sairia esse dinheiro, quem administraria o dinheiro. Justamente porque faltavam peças naquela mesa de negociação, porque o futuro estava incerto devido a essa oscilação de um ator tão importante como os Estados Unidos”.

Projeto da Uerj oferece acompanhamento em casos de transição de gênero

Projeto da Uerj oferece acompanhamento em casos de transição de gênero

Serviço de Identidade fornece atendimento gratuito multiprofissional, clínico e cirúrgico, para pessoas trans

Por: Maria Luísa

 

 

O Serviço de Identidade – Transdiversidade é um projeto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) voltado para pessoas que buscam realizar a transição de gênero. O serviço foi o primeiro do estado a atender apenas pessoas transgênero. Ele fornece atendimento interdisciplinar e multidisciplinar, contando com 13 especialidades de atuação. Dentre essas, enfermeiros, psicólogos, psiquiatras, nutricionistas, clínicos gerais e ginecologistas, entre outros profissionais.  Os atendimentos, todos gratuitos,  acontecem na Policlínica Piquet Carneiro, que oferece auxílio ambulatorial, e no Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), que acompanha os casos cirúrgicos.

 

O projeto tem seis vagas de atendimento por semana e em torno de mil pessoas na fila virtual em busca de assistência para o processo de transição. Para a primeira consulta, a espera é estimada em um ano. A coordenadora do ambulatório, Márcia Brasil, orienta que a pessoa interessada em entrar no programa procure inicialmente a Clínica da Família ou a Secretaria de Saúde do município onde mora para ser inserida no sistema de regulação ambulatorial do estado. 

A escolha de fazer tratamento hormonal, fonoaudiologia ou cirurgia é do paciente e não afeta a assistência oferecida pelos profissionais. Caso a pessoa queira realizar a cirurgia, permitida no mínimo dois anos após o início do processo, o profissional de saúde precisa solicitar sua inclusão no Sistema Estadual de Regulação. No pós-cirúrgico imediato, o paciente volta à policlínica para receber o cuidado da equipe do Serviço de Transdiversidade.

 

Segundo Márcia Brasil, o tamanho da fila mostra a relevância do serviço, bem como a necessidade de uma equipe adequada e uma rede qualificada de apoio fora da capital, para que não seja necessário o deslocamento intermunicipal dos usuários. A ideia é que os pacientes passem por diversos especialistas toda vez que retornam ao atendimento, reduzindo, assim, a quantidade de viagens.

 

O programa Transdiversidade surgiu em 2003 no HUPE, mas somente em 2008 a transição de gênero virou uma política pública do SUS. Antes disso, o paciente que desejasse realizar a “cirurgia de mudança de sexo”, como era chamada, não tinha acompanhamento médico e psicológico adequado, sendo diagnosticado com transtorno de transexualismo.

 

Pela nova Classificação Internacional de Doenças (CID), a transgeneridade deixou de ser considerada patologia e passou a ser tratada como “condições relacionadas à saúde” por “incongruência de gênero”, mas esse código ainda não entrou em vigor. Márcia Brasil afirma que, por mais que a pessoa entre no programa por meio do diagnóstico de uma patologia, ela não é tratada como doente na clínica.

 

Apesar do  Programa de Atenção à Saúde da População Trans (Paes Pop Trans), apresentado em 2024, propor o acompanhamento da comunidade trans, o projeto está paralisado, e a legislação brasileira não tem previsão de ser alterada. O novo programa prevê a ampliação dos centros especializados para que todos os estados do Brasil tenham espaços de referência ambulatorial e cirúrgica. A última atualização legislativa no assunto ocorreu em 2013, através da Portaria nº 2.803 do Ministério da Saúde que reformulou e expandiu o Processo Transexualizador no SUS.

 

A pesquisadora Márcia Brasil afirma que a Uerj, por meio do HUPE e da policlínica, é uma prestadora, mas deve haver “uma linha de cuidados desenhada pelo estado para que os prestadores possam fazer assistência dentro dessa linha de cuidados”. Na ausência da atuação do estado, como no Rio de Janeiro, a organização acaba sendo feita pelos próprios profissionais de assistência, numa sobreposição de responsabilidades que sobrecarrega o programa. Para Márcia, cabe à universidade  “fazer o papel de universidade, que é o ensino, a pesquisa e a extensão”. O desenho da assistência é, portanto, papel do gestor.

 

Márcia destaca outra razão que impede o avanço de programas de diversidade: o preconceito. “Eu acredito que ele está atravessado por perspectivas conservadoras que minam decisões que seriam importantes para que as pessoas tivessem mais acesso”, afirma. E diz que o estado não promove uma política pública de cuidado.

 

Em novembro do ano passado, o programa de Transdiversidade foi oficializado como serviço pela Uerj. Com isso, ganhou, dentro da estrutura da universidade, um lugar institucional. O Serviço de Identidade é um projeto submetido à direção médica da Policlínica. Márcia afirma que o serviço desempenha um papel fundamental de luta contra o conservadorismo, promovendo a esperança para pacientes e desconstruindo pensamentos discriminatórios. A médica Carolina Cunha, do Identidade, alerta sobre a importância de furar a bolha, trazendo a discussão da diversidade para outras esferas sociais. Ela defende o debate aberto sobre orientação sexual e identidade de gênero com a população: “Quando a gente fala, a gente tá prevenindo o suicídio, a gente tá dizendo: ‘a sua existência é possível’”.

 

Cartilhas para o público LGBTQIAP+ 

(saúde, denúncias de violência, políticas públicas outros temas)

Os impactos do Parque Estadual do Grajaú na região da Grande Tijuca

Os impactos do Parque Estadual do Grajaú na região da Grande Tijuca

Completando 47 anos em 2025, o bosque serve para a realização de eventos e para a preservação ambiental

Por Laura de Sousa e Silva dos Santos

                                      Parque Estadual do Grajaú. Foto: Laura de Sousa e Silva dos Santos

 

Foi realizado no último dia 20 de setembro, no Parque Estadual do Grajaú, uma atividade de educação ambiental com o PREVFOGO, do Ibama, na qual  foram oferecidas orientações sobre preservação ambiental e combate a incêndios florestais. Na palestra, os técnicos explicaram sobre os impactos causados pelo fogo na sociedade, no solo, na fauna, na flora e na atmosfera. O evento foi organizado pela gestora do Parque, Carina Beltrão: “Eu tenho o contato dos meninos e uma vez por ano eu procuro trazê-los aqui”, disse. 

Esse não é o primeiro evento organizado pelo bosque, o lugar recebe com frequência ONGs, escolas e grupos de escalada para a prática de atividades. No início de setembro, o Instituto Floriano Peçanha dos Santos decidiu levar crianças para uma palestra sobre educação ambiental, na qual, por meio de uma visita guiada ao Parque, foi explicado sobre as abelhas nativas sem ferrão e sobre a importância da Mata Atlântica. A gestora do bosque comentou que a ONG entrou em contato com ela pelo Instagram do Parque e agendou a visita.

Em julho, ocorreu uma colônia de férias organizada pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente, que trouxe monitores para fazerem atividades com crianças no local. A maioria dos eventos, comentou Carina, é agendada pelo Instagram do Parque ou pelo WhatsApp dela. Além dessas reuniões, o bosque também serve aos moradores da vizinhança, que realizam atividades físicas e piqueniques. “A gente precisa dessa área verde. Aqui se tornou uma unidade de conservação”, comentou a gestora.

 

Preservação ambiental

Criado em 1978, o contexto de sua origem foi a solicitação da comunidade do bairro do Grajaú para a criação da área verde para proteção ambiental, como explicou Carina: “A ideia foi para não haver construções irregulares”. O Parque, que  é administrado pela prefeitura e está sob concessão do Município até 2027, tem um grande impacto na fauna e na flora da região, através da preservação de espécies de plantas e animais. 

Entre algumas espécies de plantas nativas na região, estão figueira, embaúba, carrapateira, ipê-amarelo, cedro-branco e pau-d’alho. O Parque possui diversos projetos de plantação, incluindo o Viveiro Vertical de Plantas Medicinais, que tem como objetivo o cultivo sustentável de plantas medicinais, promovendo o uso responsável dos recursos naturais e incentivando a biodiversidade. Carina comentou que é comum pessoas entrarem em contato com ela para poderem levar diferentes mudas para plantar. 

As espécies de animais são diversas: jiboia, gambá, esquilo, mico-estrela, beija-flor, dentre outros. Alguns desses animais, como a jiboia, já entraram em casas da vizinhança e precisaram do bombeiro para ir buscar, comentou a gestora. As abelhas são um dos destaques do Parque por conta do Projeto Ala do Mel, que foi delineado com o objetivo de atender as propostas da ONU relativas à sustentabilidade e à Agenda 2030. A ideia é trabalhar com as abelhas nativas indígenas sem ferrão para preservar as espécies ao lado de alunos da Educação Infantil ao Ensino Médio. O mel que as abelhas fabricam é em pouca quantidade, porém às vezes é oferecido para consumo.

 

 Desconhecimentodo público

Por mais que o evento do Ibama tenha tido um bom público graças a uma festa de aniversário infantil que estava ocorrendo no bosque, Carina comentou que muitas dessas reuniões não tiveram grande repercussão: “O público é um pouco baixo. A galera costuma ficar muito ali embaixo na pracinha”. O entendimento dela é de que muitas pessoas realmente não fazem ideia da existência do local. “Tem morador que chega aqui e fala que não conhecia o parque, e mora aqui há anos”, lamenta Carina.

 

                        Evento do Ibama no Parque Estadual do Grajaú. Foto: Laura de Sousa e Silva dos Santos

 

Para saber mais sobre os projetos de preservação ambiental e dos eventos oferecidos pelo Parque, acesse o Instagram do lugar: @parquedograjau_oficial





Desigualdade social e extremos climáticos são gatilhos para sofrimento mental, alerta especialista

Desigualdade social e extremos climáticos são gatilhos para sofrimento mental, alerta especialista

Em palestra na UERJ, psiquiatra Flávio Kapczinski explicou que pessoas em estado de maior vulnerabilidade social estão mais propensas a traumas psicológicos

Por: Sofia Inerelli

                            Flávio Kapczinski em palestra sobre saúde mental na UERJ – Foto: Letícia Santana

 

A inteligência artificial no jornalismo foi tema da plenária do Rio Innovation Week, a maior conferência global de tecnologia, inovação e empreendedorismo da América Latina. As jornalistas da Rede Globo Renata Lo Prete e Andréia Sadi analisaram os impactos da IA no jornalismo e questões éticas envolvendo a tecnologia.

Renata Lo Prete afirmou que é necessário abraçar as mudanças tecnológicas e praticar um letramento para melhor uso da inteligência artificial, que segundo ela, não é uma ferramenta, mas sim, um agente. Além disso, a jornalista acrescentou que é preciso reinventar a forma de lidar com a informação e sua confiabilidade. “Eu acredito que o jornalismo pode ter um papel essencial, a questão da confiança sempre foi essencial para o jornalismo”, disse. 

Segundo a International Business Machines Corporation (IBM), empresa estadunidense do setor de informação, a inteligência artificial é uma tecnologia que permite que máquinas simulem o aprendizado, a compreensão, a resolução de problemas, a tomada de decisões, a criatividade e a autonomia dos seres humanos. 

A IA chegou ao Brasil por volta de 1970 com pesquisadores do Laboratório Nacional de Informação Aplicada (LNIA), mas se popularizou no mundo corporativo e na internet em 2020. Com isso, o Brasil se tornou o terceiro maior usuário do ChatGPT no mundo, segundo a OpenAI. 

Apesar do grande número de usuários de IA no Brasil, apenas 54% dos brasileiros compreendem realmente o que é uma inteligência artificial. Esse dado faz parte da pesquisa “Consumo e uso da Inteligência Artificial no Brasil”, realizada pelo  Observatório Fundação Itaú em parceria com o Datafolha. Além disso, 76% dos entrevistados acreditam que IA pode facilitar a disseminação da desinformação, as fake news, ainda mais quando usada sem regulamentação. 

Um estudo da Columbia Journalism Review analisou oito chatbots, que são programas de computador que funcionam como assistente virtuais, projetados para simular conversas humanas. Ao final da pesquisa, concluiu-se que mais de 60% das respostas estavam incorretas quando os bots foram testados com consultas baseadas em notícias. Além disso, a pesquisa mostra que às vezes o chat respondia com links errados ou quebrados, que não tinham conexão com o comando feito. 

Renata Lo Prete apresentou um estudo da Harvard Business School sobre os pilares da confiabilidade. Entre os tópicos fundamentais estavam a capacidade de desenvolver apuração, checar, apresentar e transmitir de forma clara. “A confiança é construída com as pequenas decisões do dia dia, da forma como você procura suas fontes. A confiança é um ativo simbólico, que você pode ganhar e perder”, disse.

Na plenária, Andréia Sadi falou sobre a suposta ameaça da inteligência artificial ao jornalismo, mas afirmou que a tecnologia não pode substituir o jornalista por completo. Andréia explica que os jornalistas são necessários para manusear a inteligência artificial, pois a tecnologia funciona a partir de comandos, perguntas e instruções. “No jogo da inteligência artificial, ganha quem faz as perguntas certas, e isso, para os jornalistas, é gol”, disse

A pesquisa “Confiança, atitudes e Uso de Inteligência Artificial: um estudo global 2025“, feita pela Universidade de Melbourne, afirma que no Brasil, 71% dos entrevistados reconheceram um aumento na agilidade no trabalho e potencial da IA, mas que a confiança na ferramenta ainda se apresenta como um desafio. Metade dos entrevistados ainda tem preocupações com a segurança das informações e impacto social.

Os microempreendedores da Uerj

Os microempreendedores da Uerj

Conheça a história de três alunos que veem a Universidade, para além do ensino, também como um polo econômico

Por: Luana Maciel

 

Ao caminhar pelos corredores da Uerj, qualquer pessoa poderá encontrar alunos da própria instituição vendendo diferentes produtos a quem estiver interessado. Desde docinhos a acessórios, esses produtos demandam preparação, planejamento e estratégias de inovação desses estudantes. A rotina universitária passa por uma reformulação, de modo que, além dos estudos, eles têm um novo compromisso: as vendas.

 Alice Moraes, Douglas Xavier e Leonardo Vieira são três desses microempreendedores que construíram pequenos negócios entre as rampas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

  • Alice Moraes

Alice Moraes, aos 20 anos, cursa jornalismo e vende brigadeiros, casadinhos e outros doces na Universidade. Os docinhos são produzidos pela própria Alice. A iniciativa partiu dela e do namorado, com um objetivo claro em mente: juntar dinheiro para planejar seu casamento.

                             Alice Moraes posando com seus doces no corredor da Uerj. Foto: Luana Maciel

 

Ela conta que seu namorado, Israel, estudante de letras, fazia algumas vendas, mas por uma questão de timidez e logística, hoje ajuda mais com a parte técnica, anotando os números de venda de cada dia e administrando as redes sociais. Já a parte de vender ao público mesmo, ficou por responsabilidade de Alice. Ela vende do nono ao décimo segundo andar e na fila do bandejinho.

Na verdade, a jovem revela que inicialmente não queria fazer parte diretamente do processo de venda. “No início eu tinha vergonha. Não queria vender não, no começo, só fazia”, relata Alice. Mas quando ela começou a vender junto do namorado e percebeu que obtinha melhores resultados, ela descobriu que era boa neste processo de interação com possíveis compradores. E, o que antes era evitado por medo de vergonha, agora faz parte do dia a dia da estudante, que afirma gostar do que faz, superada a timidez inicial. 

Alice explica que escolheu vender seus produtos especificamente na Uerj por ser não só um local que ela frequenta, mas também que muitas pessoas habitam, demonstrando uma grande oportunidade comercial. “É um dos lugares que eu mais convivo. Tem uma grande quantidade de pessoas, de alunos, de gente. Aí eu vi que seria bom vender aqui”, conclui a jovem.

 E por ser tão imensa e englobar tantos indivíduos, o local é, para a aluna, também uma oportunidade de conhecer novas pessoas e criar laços: “Os docinhos me proporcionaram esse contato maior com os estudantes, com as pessoas, com os servidores da Uerj. Até fazer amizades também”. Alice acredita que cada empreendedorismo pode ajudar, de alguma forma, as pessoas que frequentam a Uerj. “Às vezes a pessoa tá com vontade de comer um docinho, mesmo que pareça uma coisa pequena, você acaba alegrando o dia dela”, afirma a aluna. 

Instagram: doces_a.i

  • Douglas Xavier

Douglas, de 26 anos, está no quinto período de direito. Mas, pela Uerj, ele é muito mais conhecido pelo apelido de “DG do brownie”. Douglas aponta que, na verdade, quem começou a produzir brownies para comercialização foi uma amiga. DG era apenas seu cliente fixo e um grande fã dos doces. Tudo mudou quando, no final do terceiro período, a colega, que iria começar a estagiar e estava se sentindo sobrecarregada, percebeu o potencial de Douglas e o chamou para realizar as vendas e dividir o lucro.

             Douglas Xavier posando com seus brownies na saída do restaurante universitário. Foto: Luana Maciel

DG conta que no seu primeiro dia de vendas, apesar do nervosismo, o saldo de brownies vendidos foi um total de cento e um. A amiga ficou completamente surpresa, uma vez que o número médio de brownies por dia até então variava de trinta a quarenta.

Ele relata que nos seus primeiros dias de venda, ficava perto da fila do bandejão, tentando se aproximar de possíveis clientes. “Eu abordava o pessoal, brincava. Às vezes a pessoa não sabia nem que queria doce, no final ela saía com três, com quatro”. Daí pra frente DG se tornou um verdadeiro sucesso na Universidade. 

Douglas conta que já havia tido contato com o atendimento ao público antes. Sua mãe vende cosméticos e roupas e seu pai tem um estacionamento. Ele destaca como essas experiências o ajudaram a desenvolver uma “lábia”, que hoje é fundamental no exercício das vendas, já que ele sente menos vergonha ao interagir com as pessoas. “O não eu já tenho, então eu vou atrás do sim (…), respiro fundo, vamos à luta”, diz ele.

A principal motivação do estudante é a busca por maior estabilidade e liberdade financeira. A venda dos doces o ajudou a ficar mais tranquilo quanto a essa questão, conta o estudante. Apesar disso, o negócio também envolve muitas dificuldades. Com um estágio pela manhã e o curso de Direito à noite, DG fala que equilibrar a rotina é uma tarefa muito complicada. Por isso, ele se organiza de forma que as vendas ocorram nas segundas, quartas e sextas, e o resto da semana útil é voltado para os estudos do curso. Atualmente, a produção é própria do estudante, com ajuda da namorada                                                                                                                                                              

A comercialização de Douglas não se restringe à Uerj. Ele vende nos seus treinos de futebol americano, no ônibus vindo e voltando da Universidade, a caminho do estágio e onde mais houver procura por seus doces. Em todo lugar, o apelido o acompanha- DG do brownie já se tornou sua marca registrada. 

Instagram: dgxavieer

  • Leonardo Vieira

Leonardo Vieira dos Santos cursa Ciências Sociais na Uerj desde 2017. Aos 29 anos, comercializa brincos, anéis, colares e outros acessórios no espaço da Universidade. Popularmente conhecido pelos alunos da Uerj como “Léo do Brinco”, Leonardo conta que tem experiência com vendas desde os treze anos, trabalhando em feiras. O momento em que passou a tratar especificamente dos acessórios, porém, foi no Ensino Médio. 

A escolha, segundo ele, foi movida pelo que ele acreditava que acarretaria lucro, considerando que precisava do dinheiro para ajudar a sustentar a família na época. Léo explica que a Uerj se tornou palco das suas vendas pois faz parte do seu dia a dia. “Eu tento vincular minha rotina de vendedor, Léo do brinco, com a vida do estudante, Leonardo”, conclui ele. Hoje, o estudante vende em todos os andares, principalmente no 10 e no 12.

Leonardo Vieira posando com seus acessórios na Uerj. Foto: Luana Maciel

Quando começou, ele conta que não tinha nenhuma preparação ou instrução. Mas, com o tempo, foi aprendendo estratégias para chamar mais atenção da clientela. A imagem do produto e a boa propaganda são essenciais para movimentar as vendas. “Os produtos precisam estar bonitos, precisam estar apresentáveis”, afirma Léo. 

Tudo isso demanda que o empreendedor esteja atento ao que está na moda e ao que interessa seu público. É importante, para ele, no caso dos acessórios, notar as cores do momento, acompanhar os comerciais de lojas e procurar saber o que está em pauta naquela estação. Mas todas essas estratégias, para o estudante, são um acúmulo de coisas que ele aprendeu com o tempo e que não se descobre de um dia pro outro.

Os acessórios são uma mistura de revendas e produções autorais. O objetivo, aponta Léo, é chegar em um ponto em que todas as vendas sejam de produtos próprios. A produção parte principalmente da namorada do estudante. Embora os dois produzam, ele aponta, ela acaba tendo mais aptidão para a produção e Léo, para as vendas. 

Uma dificuldade que Leonardo enfrenta é estar presente na internet. Agora que está prestes a se formar, ele explica que quer saber como alcançar seu público no mundo virtual da mesma forma que faz nos corredores do campus universitário. O plano é manter a loja de forma online após a conclusão de sua graduação. O futuro é incerto, alega Léo, mas enquanto busca finalizar os estudos e ir em busca de especializações, o seu negócio se mantém firme.

Instagram: leodobrinco.uerj

Assim, a Uerj revela uma nova faceta. Mais do que um grande centro de estudos, a Universidade é também um polo econômico, onde alunos que precisam vender seus produtos, seja qual for sua razão pessoal, encontram um público interessado e a oportunidade de começar a empreender.

Entre desafios, dificuldades e superações, os microempreendedores da Uerj reinventam seu local de estudos e encontram mais uma forma de ocupar e vivenciar a Universidade.

Berro! – Chamada de trabalhos para a II Jornada Identidades

Berro! - Chamada de trabalhos para a II Jornada Identidades

Evento organizado pelo Lacon Uerj propõe o debate de pesquisas que abordam diferentes aspectos da
cultura LGBTQIAPN+

Por: Fernanda Rodrigues 

Arte de divulgação do evento Berro ! . Divulgação: instagram

 

 

A chamada de resumos estendidos para a II Jornada Identidades, Gêneros, Corpos e Sexualidade, seminário integrante do evento BERRO!, está aberta até dia 30 de setembro no site do Lacon (Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo). A submissão está aberta a graduandos, graduados, pós-graduandos e pesquisadores e os envios devem ser feitos via berrouerj@gmail.com, utilizando o template do evento e com limite de 4 mil caracteres.

 

A taxa de inscrição deve ser paga até dia 17 de outubro, R$20,00 para graduados, pós-graduandos e pesquisadores e de R$10,00 para estudantes de graduação. O valor deve ser depositado pelo PIX do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBTQIAPN+: 97.468.433/0001-08 ou pelo PIX da Casa Nem: casanem2016@gmail.com. O comprovante da transação deve ser enviado para o email do evento berrouerj@gmail.com.

 

O encontro vai acontecer entre os dias 4 e 6 de novembro e tem como foco a reflexão sobre gênero, corpo e sexualidade, debatendo a representatividade e a luta da população LGBTQIAPN+ na academia, no mercado de trabalho, na saúde mental e em outras áreas.

 

Calendário do BERRO!

30/09/2025 – Prazo para submissão de artigos

10/10/2025 – Aceite dos trabalhos

17/10/2025 – Prazo de pagamento da taxa de inscrição (autores e coautores).

A romantização de transtornos psicológicos

A romantização de transtornos psicológicos

Especialista da Uerj alerta sobre os riscos da romantização de transtornos de saúde mental

Por: Fernanda Rodrigues 

Cartaz promocional do filme “Garota Interrompida”, ícone da estética sad girl.

 

A OMS revelou, este ano, que mais de 1 bilhão de pessoas convivem com transtornos
de ordem psicológica em todo o planeta, o que aumenta ainda mais a importância do debate
sobre a saúde mental na atualidade.Nas redes sociais como TikTok, Instagram e X (antiga
rede social Twitter) é possível notar, principalmente entre os jovens, tendências que focam na
glamourização de transtornos como ansiedade e depressão. A estética “sad girl”, por
exemplo, tem como base o sofrimento e a autodestruição feminina. 

Apesar de parecer que a ascensão desse tipo de estética amplifica o debate sobre
saúde mental, Renata Alves Paes, coordenadora do Laboratório Interface Neurociências e
Cognitivo Comportamental (LABINCC), afirma que essa romantização “afeta a sociedade de
maneiras significativas no que diz respeito à saúde pública, percepção social com uma
sociedade menos informada, menos empática e menos preparada para lidar com cuidados em
saúde mental”. Esse comportamento acaba tendo como consequência a banalização de
transtornos mentais, que passam a ser cada vez mais vistos como exagero ou frescura.
Isso porque a apropriação de uma condição psicológica sem a devida orientação
especializada é formada por estereótipos que contribuem ainda mais para a desinformação,
segundo a especialista. O reflexo que fica na sociedade é uma imagem equivocada de pessoas
que possuem tais transtornos, aumentando assim o preconceito que cerca a questão
psiquiátrica no Brasil.
A professora explicou que a origem desse tipo de comportamento romantizador está
ligado à busca por aprovação, validação e visibilidade, principalmente entre os jovens. Eles
entendem que, se tivessem um transtorno, receberiam mais atenção e seriam mais descolados.
De acordo com Renata, isso impacta a trajetória de vida de um jovem, à medida que
afeta a saúde mental, o desenvolvimento e a capacidade de receber ajuda adequada. As
principais consequências apontadas pela professora são: atraso ou evitação da busca
profissional, invalidação do sofrimento real, problemas de autoestima e, ainda, a
normalização de comportamentos de risco como a automutilação. Um estudo da Fundação
Oswaldo Cruz (Fiocruz) indica que, entre os anos de 2011 e 2022, as notificações de
autolesões na faixa etária de 10 a 24 anos aumentaram 29% a cada ano.
Na Uerj, atividades que enfocam saúde mental como a Conferência de Saúde Mental
numa Sociedade em Transição com Flavio Kapczinski – pesquisador brasileiro na área da

saúde, membro titular da Academia Brasileira de Ciências – e um censo sobre a saúde mental
dos estudantes vêm sendo realizadas. O censo pode ser respondido no link:
https://redcap.lampada.uerj.br/surveys/?s=9TLATERRD3LH87EH
“Somente através da educação digital crítica, da promoção de conteúdo responsável e
do fortalecimento dos serviços de saúde mental será possível transformar o ambiente virtual
em um espaço de verdadeiro acolhimento e informação qualificada, onde o sofrimento seja
compreendido em sua complexidade real, sem glamour, mas também sem vergonha”, conclui
Renata.

 

Entre o protagonismo global e o complexo de vira-lata

Entre o protagonismo global e o complexo de vira-lata

Pesquisa  mostra opinião de brasileiros sobre o Brasil e aponta desafios para não reforçar estereótipos

Por: Sofia Inerelli

Manaus (AM), 29/11/2024 – Reserva florestal Adolpho Ducke, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA), onde se localiza o Museu da Amazônia (MUSA). Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

 

De um lado, um Brasil em que se destacam a hospitalidade, o turismo e a natureza; de outro, um país onde há racismo, desigualdade, violência e exploração ilegal de sua biodiversidade. É essa a imagem do Brasil que aparece numa pesquisa realizada pela Comissão Temática de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, órgão integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS) da Presidência da República do Brasil. Os resultados foram apresentados no Rio Innovation Week (RIW), em agosto de 2025, no Rio de Janeiro.

A pesquisa foi encomendada em 2023, como parte do investimento em imagem e reputação do Brasil no ano em que vai sediar a COP30, a Conferência do Clima das Nações Unidas. Foram ouvidas 3.357 pessoas em todo o país. Entre os entrevistados estavam os integrantes do CDESS, especialistas em Brasil, lideranças de vários setores e cidadãos comuns. Algumas figuras de destaque presentes na pesquisa foram o cantor e compositor Gilberto Gil, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o escritor Ailton Krenak, primeiro indígena a integrar a Academia Brasileira de Letras.

Os autores do trabalho são Jeanine Pires, Lourenço Bustani, Marcel Fukayama, Victor Cremasco, Fabio Issao, Debora Emm e Túlio Custódio. O grupo apresentou os resultados e destacou que buscou escutar diferentes públicos estratégicos para garantir uma abordagem ampla e representativa do Brasil. Segundo os autores do trabalho, a ideia da pesquisa era “levantar um espelho” com o intuito de provocar reflexões nas lideranças e na população brasileira, em relação a como se enxergam e aos caminhos possíveis e promissores para recompor sua identidade.

 

Ao ser questionado sobre a possibilidade de o estudo se tornar uma propaganda do Brasil, Túlio Custódio, colaborador da pesquisa, afirmou que essa era uma preocupação real de seus idealizadores. Mas diz que o trabalho não é um marketing para higienizar a imagem do Brasil e sim propor caminhos para que o país construa uma imagem alinhada aos desafios internos e também globais. E para que a sociedade brasileira e entidades internacionais possam compreender melhor a identidade da nação e o que pode vir a se tornar. 

O trabalho chama atenção para percepções muitas vezes limitadas sobre o Brasil. Destaca, por exemplo, que enxergar o país como um lugar voltado à diversão acaba fazendo com que seja associado à falta de seriedade — e, consequentemente, à incapacidade de discutir e resolver questões mais complexas. A pesquisa também mostra que, embora seja legítima a necessidade de mudanças em diversos aspectos estruturais, parte da população brasileira tende a não valorizar as conquistas já alcançadas no país, passando a enaltecer tudo o que é considerado superior em outras nações. Essa postura acaba por reforçar o chamado “complexo de vira-lata”, alerta estudo.

 

A esperança do brasileiro foi outro ponto destacado pelo projeto. Apesar dos persistentes desafios históricos, os brasileiros ainda têm expectativa de que um dia, o Brasil será melhor. A pesquisa revelou também uma tendência de mudança no significado dessa esperança, saindo da ideia de promessa de transformação para a de um país protagonista no cenário mundial.

Entre os atributos positivos do país, os entrevistados apontaram a potência socioambiental; a  simbiose entre o território, as pessoas e as culturas; a habilidade na diplomacia, a capacidade de diálogo e força da ação coletiva, demonstrada em momentos de tragédia ou na organização de trabalho cooperativo.

Outros exemplos que reforçam a compreensão de que o país “já é”, em vez de “um dia será”, são os alguns projetos e espaços de excelência, como o SUS, tecnologias financeiras como o PIX, os biocombustíveis e o uso de matrizes energéticas sustentáveis. 

A pesquisa também apresentou recomendações estratégicas para a COP 30. Os especialistas destacaram que a COP 29 gerou um sentimento generalizado de decepção e falta de compromisso por parte da comunidade internacional. Nesse contexto, o Brasil terá em 2025 uma oportunidade decisiva de liderar uma “COP da virada”, capaz de responder de forma concreta e urgente à crise climática. 

Alerta na Batcaverna: morcegos estão em risco, e não é só o Batman que tem que se preocupar com isso

Alerta na Batcaverna: morcegos estão em risco, e não é só o Batman que tem que se preocupar com isso

Falta de educação ambiental e precariedade das Unidades de Conservação ameaçam a vida desses mamíferos essenciais para a manutenção da biodiversidade

Por Maria Luísa Fontes

 
Fonte: Priscila Monteiro. Espécie Desmodus rotundus – hematófago.
 
 
 

Talvez você não saiba, mas morcegos não servem só para proteger o Batman: esses mamíferos voadores são essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas. No Brasil, os morcegos estão protegidos pela Lei Federal 9.605/98 (lei do Meio Ambiente). A caça, a perseguição e a destruição desses animais são consideradas crimes.

Por mais que os morcegos sejam constantemente envolvidos na cultura pop – desde romances adolescentes até filmes de horror – esses mamíferos não são somente fontes de histórias para Hollywood. Os morcegos frugívoros (que se alimentam de frutas) são responsáveis por dispersar as sementes e os nectarívoros polinizam as flores, ou seja, são fundamentais na regeneração de áreas devastadas. Além desses, espécies insetívoras se alimentam de milhares de insetos por hora, sendo grandes aliados no controle de pragas e vetores de doenças. Sem morcegos, a agricultura seria alvo de muito mais tipos de pragas.

 

A falta de manutenção das Unidades de Conservação (UCs) e a ausência de uma educação ambiental efetiva são os principais fatores que causam a morte de morcegos. Além disso, a poluição do solo, da água e do ar também compromete a proteção desses seres vivos. 

 

O município de Ilha Grande, no Rio de Janeiro, é um dos lugares do estado em que os morcegos ainda encontram algum tipo de proteção. O Laboratório de Ecologia de Mamíferos, ligado à Uerj, atua na região monitorando as espécies de morcegos. Os pesquisadores gravam os sons produzidos por esses mamíferos e monitoram as redes de neblina, usadas para capturar e identificar os animais. Esse projeto rendeu para o distrito o prêmio de Área de Importância para a Conservação dos Morcegos (AICOM), concedido pela Rede Latino-americana e do Caribe para Conservação dos Morcegos (Relcom) em 2025. 

O reconhecimento foi resultado da rica biodiversidade e do sucesso com a proteção destes animais. A Ilha abriga cerca de 37 espécies identificadas – 19,9% das espécies conhecidas no Brasil. Entretanto, é possível que esse cenário positivo mude nos próximos anos, caso não haja novas iniciativas para a preservação desses animais e a destruição do meio ambiente continue em avanço. 

Segundo a professora Elizabete Lourenço, do Laboratório de Ecologia de Mamíferos, existem quatro espécies de morcego ameaçadas de extinção no Brasil: Furipterus horrens, Natalus macrourus, Lonchophylla bokermanni e Lonchophylla dekeyserié. Para proteger esses animais, a pesquisadora afirma que é preciso melhorar a gestão das áreas de conservação, visto que a invasão de animais domésticos, a crescente especulação imobiliária e o turismo desordenado resultam não somente na morte de morcegos, mas também de outros seres e vegetações nativas. A professora destaca que, por mais que os morcegos se adaptem bem a áreas urbanas, a poluição, especialmente no solo e no ar, prejudica o modo de vida desses mamíferos.

 

Além disso, a perda de habitat natural dos morcegos para novas construções vem tornando mais frequente o encontro entre eles e os seres humanos. Por isso, Lourenço destaca a importância de investir na educação ambiental da população junto ao manejo eficiente da UCs. De acordo com ela, a falta de informação sobre como agir ao entrar em contato com esses animais ou como fazer a retirada deles de forma correta faz com que muitos desses seres sejam mortos precipitadamente por moradores assustados. 

 

A INVISA-RIO (Instituto Municipal de Vigilância Sanitária, Vigilância de Zoonoses e Inspeção Agropecuária), órgão da prefeitura do Rio responsável pela prevenção de problemas higiênico-sanitários, recomenda algumas precauções para quem se deparar com morcegos:

 

1) Nunca tentar tocar em morcegos que entrem em casa ou apareçam caídos no chão. Neste caso, imobilize o animal numa caixa virada para baixo e o mantenha preso. Em seguida, entre em contato com o Centro de Controle de Zoonoses Paulo Dacorso Filho – CCZ;

2) Em caso de ataque de morcegos que resultem em mordeduras ou arranhaduras, a pessoa deve procurar orientação médica imediata nas Unidades de Saúde que fazem tratamento antirrábico humano. No caso de agressão a animais domésticos ou mesmo contato do animal doméstico com morcegos, entrar em contato com a central 1746;

3) Usar sempre luvas e máscara se precisar umedecer, remover ou tocar as fezes desses animais;

4) Vedar juntas de dilatação dos prédios e fechar forros de sótãos e residências, ou qualquer abertura por onde os animais possam entrar e se abrigar.

5) Solicitar a poda de árvores em ruas muito arborizadas onde existam colônias de morcegos causando incômodos.

 

Se, apesar desses cuidados, você entrar em contato com algum morcego, é necessário avisar o Centro de Controle de Zoonoses Paulo Dacorso Filho (CCZ), por meio do telefone 1746.