Fpp #36 – Moisés Vieira e Daniel Costa

Pais relatam demandas dos filhos para dar seguimento aos estudos durante a pandemia.

Por Fernanda Vitória e Sarah Barros

Quem nunca desejou, ao menos uma vez, ser criança para não ter que lidar com as asperezas da vida adulta, não é mesmo? Esse mundo livre de problemas, no entanto, pode ser apenas mais uma das ilusões que nós, adultos, alimentamos para não termos que ver nossos filhos e netos crescerem. E, talvez, a pandemia tenha escancarado isso. Conforme ressalta a entrevistada principal desta edição do FCS pensa a pandemia e mestra em Educação Débora de Lima do Carmo, desde que o coronavírus se tornou um problema global, os pequenos têm que lidar com inúmeras inseguranças por causa das transformações do ensino remoto e das restrições variadas na vida cotidiana.

Por isso, queremos saber dos pais como as crianças se adaptaram e lidaram com a pressão para continuar os estudos neste momento atípico. Moisés Vieira (à esquerda), de 43 anos, é empregado público e tem uma filha de 10 anos, a Maytê cuja escola rapidamente se deslocou para o modelo online. Já Daniel Costa, de 23 anos, é supervisor de pós vendas e pai do pequeno Antônio, de três, que apresentou dificuldades no período longe da escola.

FCS pensa a pandemia – Como foi a reação do(a) seu(a) filho(a) ao saber que não poderia mais ir para a escola presencialmente?

Moisés Vieira – No início, a pior possível, porque é um giro de 180 º graus na cabeça da criança. Com apenas 9 anos de idade na época, minha filha, como outras crianças, teve que encarar essa mudança radical. Já havia toda uma rotina, a criança já sabia o que fazer, que horas acordar e tinha o convívio com os amigos. Então, mudou todo o ambiente escolar. Ela passou 2020 inteiro sem poder estar com os colegas, com a professora e sem acessar as instalações da escola.

Daniel Costa – Meu filho ficou bem triste, ele gosta bastante de ir pra escola, ver os amiguinhos e de toda a interação. Então, ele ficou bem triste.

Fpp – E a escola forneceu aulas online? A criança conseguiu/consegue acompanhar as aulas? Você notou alguma mudança no comportamento ou na capacidade cognitiva?

MV – Sim, desde o início da pandemia. O desempenho da minha filha, mesmo no ensino remoto, não nos decepcionou, as notas continuaram boas. Ela se esforçou ao máximo, mesmo nem sempre querendo assistir às aulas – porque ter que ficar sentado na frente de um computador não é a mesma coisa que estar numa sala de aula. Como eu disse, inicialmente, ela não havia se adaptado a essa nova modalidade, então houve, sim, algumas alterações no comportamento. Tal qual um adulto, tinha dias em que ela ficava irritada. Ficar duas horas e mais sem parar, sentada em frente ao computador, com câmera e microfones controlados pelos professores… às vezes, você vai fiscalizar, e a criança está deitada ou brincando. Uma série de coisas foi modificada, inclusive, a questão da saúde – porque, na escola, tinha um tempo dedicado às atividades físicas e podia correr, brincar. Em casa, isso mudou. Então, ela teve algumas alterações nas taxas, ficou um pouco acima do peso, mas, felizmente, conseguimos controlar. Tentamos orientar da melhor maneira possível e, apesar das mudanças comportamentais, a capacidade dela de absorver o conhecimento não mudou.

DC – Bem, a professora mandava trabalhos pelo e mail, mas era pouca coisa. Não chegou a ter aulas online. Eu, particularmente, percebi que ele diminuiu o progresso que estava tendo em relação à fala.

Fpp – Você e/ou outros responsáveis precisaram/precisam fornecer algum apoio, seja financeiro, educativo ou emocional? Isso gerou/gera alguma sobrecarga? Como sua vida e seu cotidiano foram afetados pela transformação da casa em ambiente escolar?

MV – Já se foi um ano e alguns meses de pandemia e, até o dia de hoje, precisamos fornecer algum apoio emocional. Na escola da minha filha, o ensino está híbrido e, quando ela fica em casa, é uma dificuldade muito grande para acordar. No presencial, ela arruma o material no dia anterior, levanta no horário certo e quer sair de casa o quanto antes. Já em casa, costuma acordar entre cinco e dez minutos antes da aula, costuma entrar um pouco atrasada e tem a questão do café. Quase todo dia, ela toma café no horário da aula. Então, a gente precisa dar um apoio nesse sentido, além de um auxílio nas atividades. Quando se está com a professora, é uma coisa. Quando se está com os pais, que não são da área da educação, dificulta, porque a gente precisa ensinar de uma forma que não entrará em conflito com o método da professora. Sobre a questão financeira, tivemos uns computadores que não funcionavam bem no início, ela teve que aprender a utilizar, mas conseguimos nos adaptar. E, por fim, o cotidiano da família toda muda, porque o trabalho dos pais também é remoto, tem que haver um revezamento de computadores. Mas a gente vai vencendo uma batalha por dia, esperando que as coisas se normalizem para que ela possa estar na escola durante todos os dias letivos.

DC – Com certeza! Com ele em casa o tempo todo, tivemos que suprir a atenção que a escola fornece, e ele, bem ou mal, sentiu falta disso.

Fpp – Agora, muitas escolas estão retomando as atividades presenciais. A escola do(a) seu(a) filho(a) também retornou? Qual foi a reação dele(a) ao saber que poderia ver pessoalmente os amigos e professores?

MV – Sim, como eu disse, está em ensino híbrido, ela vai uma semana e fica em casa na outra. A reação dela foi ótima quando soube que estaria na escola e veria os amigos. Mas, quando soube que seria híbrido… na sexta feira de aula presencial, ela já retorna para casa irritada. Aí, entra novamente o trabalho emocional. Temos que preparar a mente e o coração dela para a semana seguinte.

DC – Sim, ele retornou sim! Ficou muito feliz! Ele já está melhorando a questão da dicção!

Fpp – Ainda sobre a pergunta acima, você considera que a escola esteja seguindo devidamente os protocolos sanitários? Como eles estão sendo transmitidos à criança? Ela comenta algo sobre?

MV – Sim, a escola é bem adaptada, tem os acessos, o distanciamento, a higiene – quando as crianças chegam, tem aquele tapete higienizador, as mochilas são higienizadas também – e as crianças não podem nem se tocar, tem que manter uma distância adequada e sempre há pessoas para fiscalizar. A própria divisão entre semanas impede a aglomeração, porque duas turmas do mesmo ano vão em semanas alternadas, e os horários de entrada, saída e recreio também foram adaptados para cada turma. Antes do retorno, a escola fez uma reunião online para que os pais pudessem expor o porquê de seus filhos retornarem ou não à escola. Nós ficamos com a missão de transmitir as informações às crianças, além de terem sido reforçadas em sala. Inclusive, minha filha sempre comenta que o distanciamento faz com que ela tenha que falar mais alto, e a professora sempre reclama [risos]. Na hora do recreio, ela diz que também não pode dividir a merenda com o amigo quando pensa em dividir, já aparece alguém dizendo “olha não podem dividir o lanche. Não podem se tocar. Não podem se abraçar.” De tudo isso ela reclama, mas foi bem mais tranquilo para superar do que o fato de não poder estar na escola. A preocupação com a parte sanitária é tanta que a escola deixa de se atentar a outras questões, como o excesso de tarefas de casa. A criança também não tem tanta oportunidade de falar, principalmente, no online. Mas nós seguimos para vencer mais este ano de 2021 aguardando que, no segundo semestre, as aulas voltem 100 presencial.

DC – Sim, eu visitei o colégio e notei que está tudo certinho na questão da limpeza da sala, no uso do álcool em gel, no incentivo a lavar as mãos e na obrigatoriedade de máscara infantil. Então, acredito que eles estejam bem preparados.


A conversa com Débora de Lima do Carmo, mestra em educação e professora do Centro de Referência em Educação Infantil Realengo do Colégio Pedro II, aborda os múltiplos aspectos e desafios apresentados pela pandemia. Ela comenta as alternativas que a escola desenvolveu para continuar atendendo as crianças em contexto virtual, a relação com os pais e responsáveis e a rotina de trabalho dos docentes. E, claro, dedica atenção especial às crianças, refletindo sobre o papel da educação infantil em tempos únicos e difíceis e destacando a confiança que tem nos pequenos e a importância de escutá-los. Os temas da desigualdade social e das condições políticas e de financiamento da educação são também discutidos. Leia mais.

Da Educação Infantil para o ciclo Fundamental. A pedagoga Karine Hugen diretora de um curso preparatório para concursos de escolas técnicas e militares, descreve as transformações feitas para o ensino remoto, analisa as repercussões da falta de convivência presencial e comenta a respeito dos estudantes que conseguiram aprovação nos certames mesmo em conjuntura tão adversa. Leia mais.

Fpp #36 – Karine Hugen

Educação Infantil na pandemia: trabalho diferenciado, individualizado e com o apoio dos pais.

Por Henrique Biscardi

Nesta 36 ª edição do FCS pensa a pandemia trouxemos o tema da Educação Infantil. Na entrevista de capa, Fábio Grotz conversou com a mestra em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro Débora de Lima do Carmo, que relatou com precisão o impacto da pandemia sobre a primeira etapa de escolarização. Segundo a professora, “as relações entre discentes e docentes adentram as dimensões do cuidar e educar, indissociáveis, segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais para
Educação Infantil (DCNEI 2009)”.

Neste espaço, fomos a outro estágio do universo da educação, o último ano do ensino fundamental. Uma fase de transformações, em que crianças estão prestes a entrar na adolescência e começam a definir seus caminhos. Para entendermos melhor esse processo onde, afora o isolamento social provocado pela pandemia, já se apresenta como um período doloroso, repleto de dúvidas, medos, anseios e transformações, de ordem física e emocional, conversamos com a pedagoga Karine Hugen professora e diretora de um curso preparatório para concursos de colégios militares, escolas técnicas e para o colégio Pedro II.

FCS pensa a pandemia – Você é pedagoga por formação, professora e dona de um curso preparatório. Qual o impacto da pandemia na preparação desses alunos?

Karine Hugen – O que pude perceber é que houve pouca interferência. Quem já se dedicava, era empenhado nos estudos, apesar da pandemia trazer algumas dificuldades, continuou se dedicando e se esforçando para alcançar seus objetivos. Mas, com aqueles alunos que sempre precisam de um “ ficou mais difícil. Para quem teve interesse, na verdade, as videoaulas gravadas, que fizemos por conta da pandemia, tornaram se um forte aliado na preparação desses alunos. Destaco que outro ponto forte para quem se dedicou ao concurso foi o fato de que, com o ensino curricular mais fraco (não que fosse muito melhor antes), sobrou mais tempo para se investir na preparação individual.

Fpp – O pedagogo é o profissional especialista em educação que associa o aprendizado às questões sociais e à realidade em que o estudante se encontra. Como você e seus alunos têm se adaptado às condições do ensino remoto?

KH – Buscamos investir no que podemos para entregar a melhor aula possível para nossos alunos. Investimos em computador, câmera, microfone, mesa de digitalização e na adaptação do conteúdo, na forma de repassá-lo aos nossos alunos. Em nossas videoaulas, literalmente, desenhamos as questões de Matemática e detalhamos as questões de Língua Portuguesa. Para alguns, está muito melhor. Outros, tiveram alguma dificuldade.

Fpp – Em entrevista à esta edição do FCS pensa a pandemia, Débora de Lima do Carmo, mestra em educação, falou sobre o blog do Colégio Pedro II de Realengo usado durante a pandemia para oferecer às crianças “memórias escolares” com fotos e vídeos, entre outros materiais, que ilustravam o cotidiano vivido nos anos anteriores. Sua escola tem como foco crianças com um pouco mais de idade. Quais ferramentas você criou para evitar um distanciamento de seus alunos com uma memória afetiva que eles possam ter construído com o espaço físico da escola?

KH – Em 2020 fazíamos lives uma vez por semana e trazíamos o conteúdo em forma de competição, estimulando a interação. A resposta foi muito positiva. Eles adoravam. Para este ano, já tivemos a possibilidade de algumas aulas presenciais, utilizando 30% da capacidade de uma sala de aula em receber alunos. Por ser aula de curso preparatório, trouxemos uma “pegada” mais descontraída, mais leve, para as aulas presenciais. Deixamos também os conteúdos online mais interativos, com uma plataforma que possibilita a conversa entre os participantes.

Fpp – As aulas presenciais são também espaços de convivência, onde relações afetivas são construídas, algumas chegando a se perpetuar por toda a vida. São também espaços onde as crianças aprendem a “negociar” espaços, estabelecer limites, a conviver e como se posicionar em relação ao outro. O que pode ser feito para amenizar esse processo durante um longo período de isolamento da convivência escolar?

KH – Boa pergunta! Sinceramente, ainda não consegui pensar uma forma de amenizar essas perdas. Acredito que nem exista. Penso que talvez tenhamos que, pelo menos por enquanto, substituir essas relações que tínhamos em ambientes como a escola e o trabalho por novas relações, como essas que tivemos que adaptar no ambiente de casa. Pois também tivemos que aprender, “na marra”, a trazer o trabalho para dentro de casa e administrar essa relação com a vida doméstica. Em casa, estamos todos juntos, agora, 24 horas por dia, dividindo o mesmo espaço. São novas formas de relação que se constroem também.

Fpp – No seu caso particular, em sua maioria, seus alunos são crianças que estão fazendo a transição para a adolescência. Existe uma transformação natural desses alunos que causa alguma tensão. Somada à pressão de estar num curso preparatório para concursos, acrescidos os medos e as incertezas provocados pela pandemia. Como você enxerga o trabalho do pedagogo nesse cenário?

KH – Pressão em concurso sempre vai existir. É um novo cenário, tudo é ainda muito novo. Em 2020 trabalhamos de uma forma. Já em 2021, de outra. Em relação ao ano passado, apesar de todas as dificuldades, muitos alunos atingiram seus objetivos. O que posso dizer é que os alunos que alcançaram suas vitórias foram aqueles que não apenas mais se dedicaram aos estudos, mas também aqueles que mais buscaram por uma orientação minha (da professora), e contaram com o apoio dos pais. Isso faz toda a diferença, seja qual for o cenário. Sempre fez e sempre fará muita diferença!

Fpp – Mesmo antes da pandemia, quando se falava em ensino à distância (EAD) havia uma preocupação com as formas e a qualidade da mediação pedagógica que se estabelece entre os estudantes e o tutor ou mediador. Que tipo de adaptação foi possível realizar para não desamparar essas crianças e seus familiares num momento tão complicado?

KH – Não posso dizer que houve muita mudança em relação ao meu trabalho. Sempre acompanhei meus alunos de forma muito próxima, de forma diferenciada e individualizada, entendendo que cada aluno é uma criança com suas dificuldades próprias. Então, já trabalho de forma muito próxima aos pais e alunos. Desde o ano passado
me coloquei à disposição 24 horas por dia, 7 dias da semana. Passei meu número de celular, fui professora, pedagoga, psicóloga… enfim. Nessa condição de pandemia, sempre estive à disposição. Este ano, com a volta das aulas presenciais, mesmo que de forma reduzida, está mais tranquilo para esse apoio tão essencial.


A conversa com Débora de Lima do Carmo, mestra em educação e professora do Centro de Referência em Educação Infantil Realengo do Colégio Pedro II, aborda os múltiplos aspectos e desafios apresentados pela pandemia. Ela comenta as alternativas que a escola desenvolveu para continuar atendendo as crianças em contexto virtual, a relação com os pais e responsáveis e a rotina de trabalho dos docentes. E, claro, dedica atenção especial às crianças, refletindo sobre o papel da educação infantil em tempos únicos e difíceis e destacando a confiança que tem nos pequenos e a importância de escutá-los. Os temas da desigualdade social e das condições políticas e de financiamento da educação são também discutidos. Leia mais.

Por fim, mas não menos importante, damos voz aos pais de crianças que passaram pela experiência do ensino remoto junto com seus filhos pequenos Moisés Vieira, pai de uma menina de 10 anos, e Daniel Costa, pai de um menino de três, contam detalhes da rotina, das reações e do comportamento quando a pandemia começou e agora que o ensino presencial voltou parcialmente. Leia mais.

Fpp #36 – Débora de Lima do Carmo

Educação Infantil na pandemia: rotina de afetos, desafios e obstáculos.

Por Fábio Grotz

“Eu confio nas crianças”, enfatiza a mestra em Educação pela UFRJ Débora de Lima do Carmo em entrevista à 36 ª edição do FCS pensa a pandemia. Motivos não faltam para confiar, embora ela exponha na conversa os imensos desafios que a pandemia tem gerado no universo da Educação Infantil. Professora do Centro de Referência em Educação Infantil Realengo do Colégio Pedro II, ela aborda as mudanças feitas na unidade para continuar atendendo a demanda em meio à pandemia: no início da crise sanitária, o esforço foi para a “manutenção de vínculos entre escola e crianças”, com o mapeamento da situação das famílias, muitas delas moradoras da periferia da cidade do Rio. Arrecadação de cestas básicas, sala virtual de música e blog com conteúdo audiovisual foram iniciativas desenvolvidas. Com a pandemia se estendendo em 2021 uma rotina mais estruturada para encontros online das turmas foi organizada, o que não encerrou os problemas diante da falta de recursos para auxiliar as famílias e das condições de vida e trabalho do próprio corpo docente, formado em sua maioria por mulheres e, portanto, envolvidas nas tramas diárias de cuidado e organização doméstica. “Se nossa categoria já estava precarizada, isso piorou no contexto pandêmico”, desabafa Débora de Lima.

Na conversa com o Fpp Débora de Lima reflete a respeito da importância dos vínculos afetivos feitos na escola, que continuaram por meio de outros caminhos, e exemplifica como a pandemia tem prejudicado esses laços. Reiterando que a escola é um importante espaço, mas não o único, de socialização das crianças, ela destaca que os encontros virtuais não são aulas e que o foco, independente do contexto, deve ser a criança e suas narrativas. “A vida para a criança acontece no aqui e no agora. Eu quero saber o que ela está pensando agora, o que ela está sonhando, como ela está elaborando tudo que estamos vivendo. […] o olhar da criança está no miúdo dos acontecimentos, pode ser uma fresta na parede ou uma aranha desavisada”, observa na conversa, abordando ainda a relação com os responsáveis, que aprendem e exigem, o cenário de desigualdades exacerbado pela pandemia, a singularidade da escola nesse contexto e o projeto educacional em curso da atual gestão federal. Apesar de tudo, ela diz, o otimismo é mais do que necessário, assim com a “esperança com criticidade”. Confira.

FCS pensa a pandemia – A crise da covid-19 afetou diretamente o universo da educação. Como tem sido a rotina de professora do ensino infantil nesses tempos?

Débora de Lima do Carmo – Eu sou professora do Centro de Referência em Educação Infantil Realengo do Colégio Pedro II CREIR, na zona oeste do Rio de Janeiro. A escola é pública e gratuita. E já gostaria de pontuar que não nos referimos à primeira etapa da Educação Básica enquanto ensino infantil e, sim, Educação Infantil. Essa diferenciação se faz necessária, pois no campo de atendimento às crianças nessa primeira etapa de escolarização as relações entre discentes e docentes adentram as dimensões do cuidar e educar, dimensões indissociáveis segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil (DCNEI 2009).

Nesse sentido, dizer “ensino infantil” traria um caráter de instrumentalização dessa relação que é tão complexa, principalmente quando temos em vista crianças de zero a três anos. Bom, na Educação Infantil do Colégio Pedro II adotamos no primeiro ano de pandemia um trabalho que se definia como manutenção de vínculos entre escola e
crianças. Reafirmamos desde o início dessa situação pandêmica a incompatibilidade de trabalho a distância com crianças pequenas. Portanto, não estruturamos nenhuma dinâmica de “ensino”, mas mapeamento para compreendermos as situações das famílias, visto que a escola atende um quantitativo significativo de famílias moradoras da periferia carioca. A partir desse mapeamento houve uma organização entre os servidores para a arrecadação de cestas básicas para as famílias e entrega de uma “caixa inventiva” – caixa contendo papel, material gráfico e plástico, entre outros, somente para as crianças que foram contempladas com a cesta básica. Também havia encontros em sala virtual com os professores de música para as crianças das turmas da escola.

No blog da escola alimentávamos memórias escolares através do que chamamos de “gotículas de afeto”, trazendo fotos e vídeos, entre outros materiais que ilustravam o cotidiano vivido nos anos anteriores com as crianças para que pudéssemos manter viva a escola na qual acreditamos. Já iniciando 2021 e ainda vivendo a pandemia, chegamos a uma rotina mais sistematizada para encontros virtuais com cada turma da escola. Infinitas reuniões para mensurar o tempo e a frequência de encontros virtuais para as crianças tendo como referência o que a Sociedade Brasileira de Pediatria dizia sobre o tempo limite de exposição às telas. Um quebra cabeça! A escola oferece o Auxílio Digital aos estudantes que se inscrevem para edital e atendem aos critérios estabelecidos pelo setor. No entanto, não há verba que alcance tamanha demanda atual de famílias que necessitam deste auxílio. Muitas das crianças não tiveram acesso aos encontros virtuais até o momento. E, nesse cenário todo, estão as professoras e professores de Educação Infantil. Nessa etapa de escolarização, a sua grande maioria é composta de mulheres, já sobrecarregadas com as demandas domésticas. Administrar casa, família dos estudantes, sua própria família, exigências burocráticas da escola, construir planejamentos pedagógicos, criar propostas para lançar na plataforma da escola direcionada às crianças de forma precisa para que os responsáveis – que são seus mediadores nesse momento – compreendam, gerenciar a ansiedade com ameaça de abertura da escola a todo momento, mais a pressão da mídia que reforça o discurso “as crianças estão perdendo o ano” enquanto ela mesma não pressiona para que possamos ser logo vacinados… tudo isso tem nos exaurido. Se nossa categoria já estava precarizada, isso piorou no contexto pandêmico.

Fpp – A escola é espaço de aprendizado, alfabetização, socialização e troca de afetos para as crianças. De que forma a interrupção dos vínculos com os colegas e os docentes afeta essa relação?

DLC – A escola é mais um espaço de socialização das crianças, mas não é o único. Ela é um espaço público institucional onde todas as crianças a partir de quatro anos são obrigadas a frequentar. Foi preocupada com a interrupção dos vínculos que o CREIR construiu desde o início da pandemia as propostas que mencionei anteriormente. A gente só se constitui humano com outro humano. É na interação que a gente constrói nossa humanidade, como afirma [o psicólogo Lev] Vygostky. O isolamento social foi e continua sendo uma medida necessária, mas quando ela não tem previsão de término, como é o nosso caso com o descaso do governo federal, isso nos adoece. Tivemos relatos de famílias sobre crianças com medo de outras crianças ao se encontrarem em ambientes externos, tais como praça. É óbvio que pensar em processos de aprendizagem e
socialização para algumas crianças que têm essas marcas envolve uma abordagem multisetorial: é a escola, mas também a família, a assistência social, o atendimento médico, projetos para se pensar a cidade, etc. A interrupção desses vínculos é a interrupção de um processo Interrupção do processo para a criança descobrir a si mesma
como mais uma pessoa no mundo e não a única e aprender nas situações de conflito ao lidar com um ambiente pluriversal como é a escola pública, por exemplo, de construção de autonomia, de ser provocada a pensar, de ser desafiada e conhecer suas habilidades num contexto fomentador. Temos crianças que, na escola, se serviam e
comiam sozinhas no refeitório, mas que no ambiente doméstico só comem se derem na boca. E isso fala mais sobre os adultos do que sobre as crianças, porque elas demonstraram ser capazes. Eu confio nas crianças. Elas já me mostraram de diversas maneiras sua capacidade de se reinventarem.

Fpp – O ensino remoto foi a alternativa encontrada para suprir a ausência do espaço escolar. Em que medida o espaço doméstico e a mediação virtual conseguem repor os benefícios e vantagens do convívio presencial no contexto da Educação Infantil?

DLC – O espaço escolar é só mais um espaço. Avalio que, mesmo antes da pandemia, muitas outras ausências já habitavam o cenário das crianças, tais como o direito ao espaço da rua e da praça, por exemplo. O espaço das crianças tem sido o espaço privatizado, comercializado muitas vezes, como o dos shoppings centers. Parece que
o espaço público não gosta muito de crianças, principalmente crianças das classes populares. E temo por alguns espaços domésticos onde essas crianças estão. No contexto da Educação Infantil, os encontros remotos afirmaram a dimensão do cuidado com o outro, com o discente e sua família. São nesses encontros (e não aulas) que temos notícias através das narrativas das próprias crianças do dente que caiu, do irmão que vai nascer, de seus aborrecimentos, do cabelo que cortou, de suas “invencionices”. Eu não entendo essa relação como “reposição”. É do senso comum olhar para a criança como “ falta”, “menor”, “não entende porque é pequeno”, “o que ela não sabe”, “eu sei o que é melhor para ela”. Essa relação verticalizada escancara a arrogância do adulto. A vida para a criança acontece no aqui e no agora. Eu quero saber o que ela está pensando agora, no que ela está sonhando, como ela está elaborando tudo que estamos vivendo. Nas DCNEI está escrito que a centralidade do planejamento do trabalho pedagógico nesta etapa é a criança, então eu não tenho que suprir nada, eu tenho é que manter meu interesse pela criança no horizonte do meu trabalho. E o olhar da criança está no miúdo dos acontecimentos, pode ser uma fresta na parede ou uma aranha desavisada. As crianças se relacionam com o mundo de uma forma que nós, adultos, esquecemos, endurecemos. É uma outra lógica. Mas, de forma objetiva, a mediação virtual consegue manter o que no presencial é fundamental, ouvir o que as crianças têm a dizer. Elas têm muito a nos ensinar.

Fpp – A escola também está envolvida nas relações de cuidado, posto que é o espaço onde os pais/responsáveis podem confiar os filhos enquanto trabalham. Como tem sido o diálogo com pais/responsáveis e que avaliação é possível fazer sobre os efeitos desse cenário?

DLC – Os responsáveis têm sido nossos principais parceiros para que os encontros virtuais aconteçam. É preciso ter um adulto próximo à criança quando estamos nas salas virtuais e eles estão nos ouvindo, ouvindo seus filhos, ouvindo as demais crianças. Nunca estivemos tão próximo das famílias. Estamos dentro da casa deles, assim
como eles estão nas nossas. É uma oportunidade única que nós, da Educação Infantil, temos de demarcar a intencionalidade pedagógica do nosso trabalho ainda com uma visão tão assistencialista por parte das famílias. Lá na escola, por exemplo, lançamos propostas na plataforma do Colégio para que os responsáveis acessem
dando orientações de como abordar determinados temas com as crianças. Sugerimos leituras, compartilhamos link de vídeos, enfim, materiais que possam ampliar o repertório literário das crianças e oportunizar acesso ao patrimônio histórico cultural da humanidade. Mas, para as famílias, tudo é novidade. Muitas das vezes eles ficam
atrapalhados com a ativação do microfone e da câmera, em como sair da chamada, enfim, lidar com o funcionamento tecnológico. Então, eles também estão em processo de aprendizagem. E ainda tem o agravante, nessa alteração de rotina das famílias, que é lidar com o trabalho remoto dos responsáveis, aula remota dos irmãos mais velhos ou até mesmo a incompatibilidade de horários, visto que muitos responsáveis precisam trabalhar presencialmente. Por isso, é comum vermos avós, avôs, tias e tios acompanhando os encontros virtuais das crianças. E, nesses encontros geracionais, todos estão aprendendo frente à tela. No entanto, para as turmas com crianças de cinco e seis anos, os desafios são bem diferentes, pois há uma pressão das famílias a respeito da alfabetização, medo do estudante “não dar conta” do próximo ano, exigência de “deveres de casa”. Os medos e ansiedades das famílias são compreensíveis, mas precisamos repetir diversas vezes que a alfabetização sistematizada é conteúdo do ensino fundamental e que antecipar conteúdos de outras etapas fere o artigo 11 da DCENI que versa sobre esse tema.

Fpp – Olhando a partir das práticas no campo da educação, um evento como a pandemia era algo tematizado e debatido? Como a covid 19 tem transformado as discussões sobre o papel da escola e da Educação Infantil?

DLC – Posso dizer que o tema das desigualdades sociais era e continua sendo algo para ser debatido dentro do campo da educação na relação universidade escola. A pandemia só agravou duramente as desigualdades sociais. A vulnerabilidade social das crianças, as condições materiais de suas famílias, o sucateamento das escolas
públicas, a precarização do trabalho docente, temas que a covid 19 não transformou em discussão, mas escancarou como um problema de décadas do ensino público do país. Realengo é um bairro muito quente, quando falta água, o que acontece? E, quando chove, alaga tudo ao redor. A gente até pedia no presencial que as famílias
enviassem galochas para as crianças. Com a pandemia, o campo da saúde retorna a compor o grupo de discussões sobre o trabalho da escola. Um protocolo rigoroso diante de uma escola que, às vezes, não tem água. Como fazer? Um protocolo que desnuda as escolas porque muitas delas nunca tiveram sistemas de ventilação
adequados, material de higiene sempre reposto, enfim. Ao mesmo tempo essa aproximação nos fez convocar os diferentes setores para pensar a escola juntos. Pensar junto e não transformar a escola em outra coisa. Ela não é posto médico, nem hospital nem espaço para a prática dos serviços prestados pela assistência social e muito
menos lugar para os “amigos” dela que devagar vão fazendo dessa relação um projeto privado. A escola é uma instituição própria e com legislação própria.

Fpp – Por fim, que tipo de cenário é possível prever no pós pandemia em termos de formação social, intelectual e psicológica das crianças, levando em conta que o acesso à educação no país é marcado por desigualdades? Dá para ser otimista?

DCL – Eu preciso ser otimista. E me ancoro nas palavras de Paulo Freire, que em setembro faria cem anos. Ele dizia que a desesperança é um projeto de desmobilização da sociedade e que a gente precisa insistir na esperança com criticidade. Se a gente tem compromisso com a emancipação social, olha, temos muito trabalho aí nesse pós pandemia porque o projeto em curso está passando como um trator destruindo todos os direitos conquistados. A proposta de emenda constitucional que congela os gastos por vinte anos com a educação, por exemplo, foi um trator. Taxação de livro, programa de livro didático que diz que ditadura foi revolução, alfabetização que remete à velha cartilha já superada no campo teórico, etc. Eu não quero compactuar com uma educação bancária e tecnicista.

Débora de Lima do Carmo é mestra em Educação pela UFRJ Graduada em Pedagogia pela UFF, tem especialização em Arte e Cultura pela UCAM e em Educação Infantil pela PUC RJ É professora do Colégio Pedro II, unidade Realengo.

Fábio Grotz Majerowicz é jornalista e bolsista Qualitec do Laboratório de Comunicação Integrada (LCI/FCS/UERJ). Doutor em Comunicação pela UERJ, tem experiência de trabalho e pesquisa nos campos dos Direitos Humanos e Saúde.


Também no Fpp #36:

Da Educação Infantil para o ciclo Fundamental. A pedagoga Karine Hugen diretora de um curso preparatório para concursos de escolas técnicas e militares, descreve as transformações feitas para o ensino remoto, analisa as repercussões da falta de convivência presencial e comenta a respeito dos estudantes que conseguiram aprovação nos certames mesmo em conjuntura tão adversa. Leia mais.

Por fim, mas não menos importante, damos voz aos pais de crianças que passaram pela experiência do ensino remoto junto com seus filhos pequenos Moisés Vieira, pai de uma menina de 10 anos, e Daniel Costa, pai de um menino de três, contam detalhes da rotina, das reações e do comportamento quando a pandemia começou e agora que o ensino presencial voltou parcialmente. Leia mais.