Quando o cinema vira ponte para acolhimento e resistência LGBT+ na Universidade
Feixes da História mostra que o orgulho também se constrói nos detalhes do cotidiano acadêmico
Por Samira Santos
Na tarde de uma segunda-feira fria de junho, o auditório 9028 da Uerj viu suas cadeiras se esgotarem. Estudantes de História, mas também de Engenharia, Jornalismo, Psicologia, Serviço Social, Ciências da Computação, entre outros, ocuparam o espaço para assistir a um filme de 1975: The Rocky Horror Picture Show. O que parecia um evento pontual transformou-se rapidamente em um espaço de acolhimento, pertencimento e afirmação da diversidade. Era o início de mais uma edição do “Feixes da História”, projeto que integra as ações do LPPE (Laboratório de Pesquisa e Práticas de Ensino, do curso de Licenciatura em História) e que, neste mês de junho, assumiu protagonismo dentro das celebrações do Orgulho LGBTQIAPN+.

A proposta era simples, mas forte: exibir filmes com temática LGBTQIAPN+ e promover debates após as sessões. Mas o que se revelou foi algo maior. A sala, pensada para poucas pessoas, ficou pequena diante do desejo coletivo de compartilhar, ouvir e visibilizar vivências historicamente silenciadas.
A força da escuta
O projeto, coordenado pelo professor Flaviano Isolani e com apoio do professor Eduardo Ferraz, nasceu da inquietação: como ensinar História de forma crítica e acessível? A resposta veio por meio da linguagem audiovisual, aproximando cinema e ensino, especialmente voltado para o vestibular da Uerj.
As bolsistas Mariana Lemos e Victória de Freitas, duas das responsáveis pela idealização do ciclo de filmes do mês do Orgulho, contam que o projeto já existia com atividades voltadas para o Spotify e podcasts, mas ainda carecia de maior visibilidade no ambiente universitário.

“Somos duas mulheres LGBTs dentro de um espaço onde os debates sobre vivências LGBT ainda são muito restritos. A gente percebeu que ninguém estava fazendo nada para o mês do Orgulho, nem o coletivo LGBT, então pensamos: por que não fazer a gente?”, conta Victória.
Em menos de uma semana, elas haviam escolhido os filmes, produzido as artes gráficas, definido os horários e organizado os debates. “Foi uma correria absurda, mas valeu cada segundo”, diz Mariana, com um sorriso que carrega alívio e orgulho.
A potência de se ver representado
A seleção de filmes foi estratégica. Começou com The Rocky Horror Picture Show (1975), passou por Nunca Fui Santa (1999), segue com Crush: Amor Colorido (2022), e se encerra com Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016). Cada obra traz em si uma camada da experiência LGBT em diferentes contextos históricos, culturais e geográficos.
“O cinema é uma forma de ensinar história pelas margens”, explica Mariana. “Com Rocky Horror, por exemplo, falamos sobre identidade de gênero nos anos 70; com Moonlight, discutimos raça, masculinidade e sexualidade na infância e juventude negra nos EUA”.
Além do conteúdo, o ambiente foi pensado para o acolhimento. Após cada exibição, o cine-debate é aberto. Alguns apenas assistem, outros desabafam, compartilham suas histórias e aprendizados. “É olhar para o outro e dizer: eu te vejo, e você não está sozinho”, afirma Victória.
A recepção foi surpreendente. Mais de 40 pessoas na primeira sessão. Pessoas no chão, em pé, estudantes de diferentes cursos e idades. “A gente achou que só ia ter a gente e nossos amigos”, brinca Mariana. “Ver a sala cheia foi emocionante. Mostrou a carência que existe desses espaços dentro da Universidade”.
Representatividade como ferramenta de resistência
Apesar da crescente presença de discursos de ódio na sociedade e do avanço de pautas conservadoras, projetos como o “Feixes da História” reafirmam a universidade como um lugar de resistência. “Quando a gente lota uma sala com 40 pessoas para falar sobre orgulho, sexualidade e identidade, estamos também dizendo: a gente está aqui. E vamos continuar aqui”, afirma Victória.
Mais do que eventos pontuais, o projeto pretende se consolidar. Já há planos para futuros ciclos de filmes, podcasts e novas temáticas, como musicais e filmes de terror, sempre com uma lente crítica sobre gênero, raça, política e afeto.

Porta do auditório 9028 com a divulgação dos filmes (Foto: Samira Santos)
O LPPE, que completa 20 anos, reafirma sua importância nesse processo. Criado em 2002 para ampliar as práticas de ensino em História, o laboratório já produziu CDs, podcasts, entrevistas e eventos com especialistas. Hoje, torna-se palco também para vozes LGBT dentro da universidade, unindo academia e subjetividade, teoria e vivência.
“Falar sobre cinema é falar sobre o mundo. Falar sobre diversidade no cinema é mostrar que a história não é feita só pelos vencedores, mas também por quem resistiu e resiste às margens”, resume Mariana.
A julgar pela repercussão dessa primeira edição, a sala cheia, os olhos marejados e os abraços trocados após os debates, fica claro que o “Feixes da História” já marcou seu lugar na trajetória de muitos estudantes.
E como toda boa história, essa também merece continuar sendo contada.










